14 de maio de 2016

Capítulo 11

Veja seu spam
Talvez haja profecias
Não? Então tchau, tchau

MEG FICOU BOQUIABERTA.
— Ele... Ele é mesmo um centauro.
— Que percepção! — falei. — Será que foi a parte inferior do corpo de cavalo que o entregou?
Ela me deu um soco no braço.
— Quíron, esta é Meg McCaffrey, minha nova senhora e atual fonte de irritação — apresentei os dois. — Você estava falando alguma coisa a respeito de desaparecimentos?
O rabo de Quíron tremeu. Os cascos bateram nas tábuas da varanda.
Ele era imortal, mas a idade visível parecia variar de século para século. Eu não me lembrava do bigode dele ser tão grisalho, nem das linhas ao redor dos olhos serem tão pronunciadas. O que quer que estivesse acontecendo no acampamento também não devia estar ajudando muito em sua vitalidade.
— Bem-vinda, Meg. — Quíron tentou usar um tom simpático, o que achei bem heroico, considerando que... bem, Meg. — Soube que você demonstrou muita coragem na floresta. Trouxe Apolo até aqui apesar dos muitos perigos. Fico feliz de ter você no Acampamento Meio-Sangue.
— Obrigada — disse Meg. — Você é muito alto. Não bate com a cabeça nos lustres?
Quíron riu.
— Às vezes. Quando quero ficar mais próximo do tamanho humano, uso uma cadeira de rodas mágica que me permite compactar minha parte inferior em... Na verdade, isso não é importante agora.
— Desaparecimentos — falei. — O que desapareceu?
— Não o que, mas quem — disse Quíron. — Vamos conversar lá dentro. Will, Nico, vocês podem dizer para os outros que vamos nos reunir para o jantar em uma hora? Vou atualizar todo mundo dos últimos acontecimentos. Enquanto isso, não quero ninguém andando pelo acampamento sozinho. Estejam sempre acompanhados.
— Entendido. — Will olhou para Nico. — Quer ser meu acompanhante?
— Você é tão bobo — retrucou Nico.
Os dois saíram andando e implicando um com o outro.
A essa altura, você pode estar se perguntando como me senti ao ver meu filho com Nico di Angelo. Admito que não compreendi a atração de Will por um filho de Hades, mas se o tipo sombrio e agourento era o que fazia Will feliz...
Ah. Talvez alguns de vocês estejam se perguntando como me senti ao vê-lo com um namorado e não com uma namorada. Se for isso, façam-me o favor. Nós deuses não nos prendemos a essas coisas. Eu mesmo tive... vamos ver, trinta e três namoradas e onze namorados mortais? Já perdi a conta.
Meus dois maiores amores foram, claro, Dafne e Jacinto, mas quando se é um deus tão popular quanto eu...
Espere. Eu contei de quem gostava? Contei, né? Deuses do Olimpo, esqueçam que mencionei o nome deles! Estou tão constrangido. Por favor, não digam nada. Nessa forma mortal, eu nunca me apaixonei por ninguém!
Estou tão confuso.
Quíron nos levou até a sala, onde sofás confortáveis de couro formavam um V virado para a lareira de pedra. Acima, uma cabeça empalhada de leopardo roncava com satisfação.
— Está vivo? — perguntou Meg.
— Bastante. — Quíron trotou até a cadeira de rodas. — Este é Seymour. Se falarmos baixo, talvez ele não acorde.
Na mesma hora Meg começou a explorar a sala, obviamente procurando pequenos objetos para jogar no leopardo e acordá-lo.
Quíron se sentou na cadeira de rodas. Colocou as pernas traseiras no compartimento falso do assento e depois recuou, compactando magicamente a traseira equina até parecer um homem sentado. Para completar a ilusão, painéis móveis na frente se fecharam, dando a ele pernas humanas falsas. Normalmente, essas pernas usavam calça de brim e mocassins para incrementar o disfarce de professor, mas hoje parecia que Quíron estava testando um visual diferente.
— Essa é nova — falei.
Quíron olhou para as pernas femininas bem torneadas usando meia-arrastão e sapatos de salto com lantejoulas. Ele soltou um suspiro.
— Estou vendo que o chalé de Hermes andou assistindo Rocky Horror Picture Show de novo. Vou precisar ter uma conversinha com eles.
Rocky Horror Picture Show me trouxe lembranças felizes. Eu fazia cosplay de Rocky nas apresentações da meia-noite, porque, naturalmente, o físico perfeito do personagem era baseado no meu.
— Me deixe adivinhar — pedi. — Obra de Connor e Travis Stoll?
De uma cesta próxima, Quíron pegou um cobertor de flanela e cobriu as pernas falsas, embora os sapatos vermelhos continuassem aparecendo.
— Na verdade, Travis foi para a faculdade, o que deixou Connor bem mais sossegado.
Meg olhou para nós do velho fliperama de Pac-Man.
— Eu enfiei os dedos nos olhos desse tal de Connor.
Quíron fez uma careta.
— Que legal, querida... De qualquer modo, temos Julia Feingold e Alice Miyazawa agora. Elas vêm fazendo pegadinhas ultimamente. Você vai conhecer as duas logo, logo.
Eu me lembrei das garotas que estavam rindo para mim em frente à entrada do chalé de Hermes. Senti meu rosto corando de novo.
Quíron indicou o sofá.
— Por favor, sente-se.
Meg largou o Pac-Man (depois de dedicar vinte segundos ao jogo) e começou a escalar a parede. Parreiras adormecidas enfeitavam a área de jantar, sem dúvida trabalho do meu velho amigo Dioniso. Meg subiu em um dos troncos mais grossos para tentar alcançar o lustre de cabelo de górgona.
— Hã, Meg — falei —, que tal você assistir ao filme de orientação enquanto Quíron e eu conversamos?
— Já sei tudo — respondeu ela. — Conversei com o pessoal enquanto você estava desmaiado. “Lugar seguro para semideuses modernos.” Blá-blá-blá.
— Ah, mas o filme é muito bom — insisti. — O orçamento foi bem apertado, lá em 1950, mas alguns planos de câmera são revolucionários. Você devia mesmo...
A parreira se soltou da parede e Meg caiu. Levantou-se totalmente ilesa e logo avistou um prato de biscoitos na bancada.
— São de graça?
— São, criança — respondeu Quíron. — Traga o chá também, por favor.
Então era isso. Estávamos presos com Meg, que passou as pernas por cima do braço do sofá, atacou os biscoitos e jogou farelos na cabeça roncante de Seymour quando Quíron não estava olhando.
O centauro me serviu uma xícara de Darjeeling.
— Peço desculpas pelo sr. D não estar aqui para receber vocês.
— Sr. D? — perguntou Meg.
— Dioniso — expliquei. — O deus do vinho. E diretor do acampamento.
Quíron me passou a xícara de chá.
— Depois da batalha com Gaia, achei que o sr. D fosse voltar para o acampamento, mas ele não voltou. Espero que esteja bem.
O velho centauro olhou para mim com expectativa, mas eu não tinha nada para contar. Os últimos seis meses eram um vazio completo; eu não fazia ideia do que os outros olimpianos estavam fazendo.
— Não sei de nada — admiti. Foram poucas as vezes em que pronunciei essas palavras nos últimos quatro milênios. O gosto delas era ruim. Eu tomei um gole de chá, mas também estava amargo. — Estou meio por fora das notícias. Esperava que você pudesse me atualizar dos últimos acontecimentos.
Quíron não conseguiu disfarçar a decepção.
— Entendo...
Percebi que ele estava atrás de ajuda e orientação, o mesmo que eu buscava nele. Como deus, eu estava acostumado a seres inferiores contando comigo, rezando para isso ou pedindo aquilo. Mas, agora que eu era mortal, essa expectativa toda em cima de mim era meio apavorante.
— Me diga: qual é sua crise? — perguntei. — Você está com a mesma cara que Cassandra fez em Troia e Jim Bowie no Álamo, como se estivesse cercado ou algo assim.
Quíron não reclamou da comparação. Ele fechou as mãos ao redor da xícara de chá.
— Você sabe que, durante a guerra com Gaia, o Oráculo de Delfos parou de receber profecias. Na verdade, todos os métodos conhecidos de adivinhação do futuro subitamente falharam.
— Porque a caverna original de Delfos foi sitiada — falei, com um suspiro, tentando não me sentir injustiçado.
Meg jogou uma gota de chocolate no nariz do leopardo Seymour.
— O Oráculo de Delfos. Percy mencionou isso.
— Percy Jackson? — Quíron se empertigou. — Percy estava com você?
— Por um tempo. — Contei a ele sobre a batalha no pomar de pêssegos e que Percy voltou para Nova York. — Ele disse que apareceria por aqui neste fim de semana, se pudesse.
Quíron pareceu frustrado, como se minha companhia por si só não bastasse. Dá para acreditar numa coisa dessas?
— De qualquer modo — prosseguiu — nós esperávamos que, quando a guerra acabasse, o oráculo voltasse a funcionar. Como nada aconteceu... Rachel ficou preocupada.
— Quem é Rachel? — perguntou Meg.
— Rachel Dare — respondi. — O oráculo.
— Eu achava que o oráculo era um lugar.
— E é.
— Então Rachel é um lugar e ele parou de funcionar?
Se eu ainda fosse um deus, transformaria Meg em um lagarto de barriga azul e a soltaria na natureza, e ela nunca mais seria vista. Esse pensamento me acalmou.
— Delfos era um lugar na Grécia — expliquei. — Uma caverna cheia de vapores vulcânicos, aonde as pessoas iam para receber orientação da minha sacerdotisa, Pítia.
— Pítia. — Meg riu. — Que palavra engraçada.
— É. Ha-ha. Então o Oráculo é ao mesmo tempo um lugar e uma pessoa. Quando os deuses gregos se mudaram para os Estados Unidos em... quando foi, Quíron? 1860?
Quíron balançou a mão.
— Mais ou menos.
— Eu trouxe o oráculo comigo para que ele continuasse proferindo profecias em meu nome. O poder foi passado de sacerdotisa a sacerdotisa ao longo dos anos. Rachel Dare é o oráculo atual.
Meg então foi até o prato com biscoitos e pegou o único Oreo, que eu estava louco para comer.
— Hã, entendi — disse ela. — Posso ver aquele filme agora?
— Não — falei, rispidamente. — Continuando. Eu tomei posse do Oráculo de Delfos depois de matar um monstro chamado Píton, que morava nas profundezas da caverna.
— Píton, como a cobra — disse Meg.
— Sim e não. A cobra ganhou esse nome depois do monstro Píton, que também é meio sorrateiro, mas também bem maior e mais assustador, além de adorar devorar garotinhas tagarelas. De qualquer modo, em agosto, enquanto eu estava... indisposto, minha antiga inimiga Píton foi libertada do Tártaro. Ela voltou a controlar a caverna de Delfos. Foi por isso que o oráculo parou de funcionar.
— Mas, se o oráculo fica nos Estados Unidos agora, que importância tem uma cobra monstruosa tomar de volta a antiga caverna?
Essa foi a frase mais longa que já saiu da boca de Meg. Ela deve ter falado só para me irritar, aposto.
— É muita coisa para explicar — falei. — Você vai ter que...
— Meg. — Quíron lançou para ela um dos seus sorrisos tolerantes e heroicos. — O local original do oráculo é como a raiz mais profunda de uma árvore. Os galhos e as folhas das profecias podem se esticar pelo mundo, e Rachel Dare pode ser nosso galho mais alto, mas, se a raiz mais profunda for estrangulada, a árvore toda é afetada. Com Píton de volta à antiga toca, o espírito do oráculo foi completamente bloqueado.
— Ah. — Meg fez uma careta para mim. — Por que você não falou logo?
Antes que eu pudesse estrangulá-la como a raiz irritante que ela era, Quíron encheu minha xícara de chá.
— O maior problema — disse ele — é que não temos outra fonte de profecias.
— E daí? — perguntou Meg. — Agora vocês não sabem o futuro. Ninguém sabe o futuro.
— E daí? E daí? — gritei. — Meg McCaffrey, as profecias são os catalisadores de todos os eventos importantes, toda missão ou batalha, desastre ou milagre, nascimento ou morte. As profecias não apenas dizem o futuro. Elas o modelam! Elas permitem que o futuro aconteça.
— Não entendi.
Quíron limpou a garganta.
— Imagine que profecias são sementes de flores. Com as sementes certas, você pode criar o jardim que desejar. Sem sementes, nenhum crescimento é possível.
— Ah. — Meg assentiu. — Isso seria horrível.
Achei estranho que Meg, uma menina de rua e guerreira do lixo, entendesse tão bem metáforas de jardinagem, mas Quíron era um excelente professor. Ele captou alguma coisa na garota... uma impressão que lá no fundo eu também tive. Eu torcia para estar errado, mas, com a minha sorte, eu devia estar certo. Normalmente, estava.
— E onde está Rachel Dare? — perguntei. — Talvez, se eu falasse com ela...?
Quíron colocou sua xícara na mesa.
— Rachel disse que nos visitaria nas férias de inverno, mas não apareceu até agora. Pode não significar nada, mas...
Eu me inclinei para a frente. Não seria a primeira vez que Rachel Dare se atrasava. Ela era artística, imprevisível, impulsiva e tinha aversão a regras, qualidades que eu admirava muito. Mas não era do seu feitio simplesmente não dar as caras.
— Ou...? — perguntei.
— Ou pode ser parte do problema maior — disse Quíron. — As profecias não são as únicas coisas que pararam de funcionar. As viagens e a comunicação ficaram difíceis nos últimos meses. Não temos notícias de nossos amigos no Acampamento Júpiter há semanas. Nenhum semideus novo chegou. Também não recebemos nenhuma informação dos sátiros. As mensagens de Íris não funcionam mais.
— As o quê de Íris? — perguntou Meg.
— Uma forma de comunicação controlada pela deusa do arco-íris — expliquei. — Íris sempre foi volúvel...
— Só que as comunicações humanas normais também estão com defeito — disse Quíron. — Claro, os telefones sempre foram perigosos para semideuses...
— É, atraem monstros — concordou Meg. — Não uso um telefone há uma eternidade.
— Muito sábio da sua parte — disse Quíron. — Recentemente nossos telefones pararam de funcionar. Celulares, fixos, internet... tudo. Até a forma arcaica de comunicação conhecida como e-mail está estranhamente ineficaz. As mensagens simplesmente não chegam.
— Você olhou na pasta de spam? — perguntei.
— Acho que é mais complicado do que isso — disse Quíron. — Estamos sem comunicação com o mundo externo. O acampamento está vazio e isolado. Vocês são os primeiros a chegar em quase dois meses.
Eu franzi a testa.
— Percy Jackson não mencionou nada disso.
— Duvido que Percy saiba — disse Quíron. — Ele anda ocupado com a escola. O inverno costuma ser nossa época mais tranquila. No começo, pensei que as falhas de comunicação não passassem de um acaso inconveniente. Mas, então, os desaparecimentos começaram...
Na lareira, um pedaço de madeira estalou. Eu posso ou não ter dado um pulo.
— Os desaparecimentos, sim. — Sequei gotas de chá da calça e tentei ignorar as risadinhas de Meg. — Fale mais sobre isso.
— Foram três no último mês — disse Quíron. — Primeiro foi Cecil Markowitz, do chalé de Hermes. A cama dele amanheceu vazia, simples assim. Ele não disse nada sobre querer ir embora. Ninguém o viu sair. E, nas últimas semanas, ninguém o viu nem teve notícias dele.
— Os filhos de Hermes têm fama de serem sorrateiros — falei.
— Foi o que pensamos a princípio — disse Quíron. — Mas, uma semana depois, Ellis Wakefield desapareceu do chalé de Ares. Mesma história: cama vazia, nenhum sinal de que ele tinha ido embora por vontade própria nem que foi... hã, levado. Ellis era um jovem impetuoso. Não estranharia se ele tivesse saído do acampamento atrás de alguma aventura inconsequente, mas aquilo me deixou aflito. E então, hoje de manhã, percebemos que uma terceira campista havia sumido: Miranda Gardiner, chefe do chalé de Deméter. Foi a pior notícia de todas.
Meg tirou as pernas de cima do braço do sofá.
— Por que a pior?
— Miranda é uma das nossas conselheiras-chefes — explicou Quíron. — Ela jamais partiria sem avisar. É inteligente demais para ser enganada e poderosa demais para ser obrigada a fazer qualquer coisa. Mas algo aconteceu com ela... algo que não sei explicar.
O velho centauro me encarou.
— Tem alguma coisa muito errada, Apolo. Esses problemas podem não ser tão alarmantes quanto a ascensão de Cronos ou o despertar de Gaia, mas, por um lado, eu os acho bem mais inquietantes, porque nunca vi nada assim antes.
Relembrei meu sonho do ônibus do Sol em chamas. Pensei nas vozes que ouvi na floresta, pedindo para que eu as encontrasse.
— Esses semideuses... — falei. — Antes de desaparecerem, eles apresentaram algum comportamento estranho? Relataram... terem ouvido vozes?
Quíron arqueou uma sobrancelha.
— Não que eu saiba. Por quê?
Achei melhor parar por aí. Eu não queria fazer um alvoroço antes de saber o que estávamos enfrentando. Quando mortais entram em pânico, as coisas podem ficar bem feias, principalmente se esperam que eu resolva o problema.
Além do mais, admito que estava um pouco impaciente, porque nem sequer havíamos tratado dos verdadeiros problemas: os meus.
— Creio que nossa prioridade agora é dirigir todos os recursos do acampamento para me ajudar a recuperar meu estado divino. Depois, eu posso ajudar vocês com essas outras questões.
Quíron coçou a barba.
— Mas e se os problemas estiverem interligados, meu amigo? E se o único jeito de você voltar ao Olimpo for recuperar o Oráculo de Delfos, libertando assim o poder da profecia? E se Delfos for a chave de tudo?
Eu havia esquecido a tendência de Quíron de chegar a conclusões óbvias e lógicas nas quais eu evitava pensar. Era um hábito irritante.
— No meu estado atual, isso é impossível. — Apontei para Meg. — No momento, meu trabalho é servir a essa semideusa, provavelmente por um ano. Depois que eu tiver realizado as tarefas que ela determinar para mim, Zeus vai julgar se minha sentença foi cumprida, e vou poder voltar a ser um deus.
Meg pegou mais um biscoito.
— Eu poderia ordenar que você fosse para esse tal de Delfos.
— Não! — Minha voz falhou no meio do grito. — Você tem que me designar tarefas fáceis, como criar uma banda de rock ou ficar à toa, curtir um ócio. É, ficar à toa é uma boa pedida.
Meg não pareceu convencida.
— Ficar à toa não é uma tarefa.
— É, se você fizer direito. O Acampamento Meio-Sangue pode me proteger enquanto fico à toa. Depois que meu ano de servidão acabar, vou me tornar deus. Então podemos falar sobre como recuperar Delfos.
De preferência, pensei, fazendo com que alguns semideuses realizem a tarefa por mim.
— Apolo — disse Quíron —, se os semideuses continuarem desaparecendo, a gente talvez não tenha nem um ano. Talvez não tenhamos força para proteger você. E, me perdoe a sinceridade, mas Delfos é sua responsabilidade.
Levantei as mãos, indignado.
— Não fui eu que abri as Portas da Morte e deixei Píton sair! Culpe Gaia! Culpe Zeus pela negligência! Quando os gigantes começaram a despertar, eu tracei um Plano de Ação de Vinte Passos para Proteger Apolo e Também Vocês, Outros Deuses, mas ele nem leu!
Meg jogou metade do biscoito na cabeça de Seymour.
— Eu ainda acho que é tudo culpa sua — disse ela. — Ei, olhe! Ele acordou!
Claro, como se o leopardo tivesse decidido acordar sozinho, e não levado uma biscoitada no olho.
— RARR! — reclamou Seymour.
Quíron empurrou a cadeira de rodas para longe da mesa.
— Minha querida, naquele pote acima da lareira você vai encontrar salsichas. Por que você não dá o jantar dele? Apolo e eu vamos esperar na varanda.
Saímos da sala e deixamos Meg lá, feliz, jogando petiscos na boca de Seymour.
Quando Quíron e eu chegamos à varanda, ele se virou para mim.
— Ela é uma semideusa interessante.
— Interessante é um termo tão isento.
— Ela convocou mesmo um karpos?
— Bem... o espírito apareceu quando ela estava com problemas. Se ela o chamou conscientemente, não sei. Ela o batizou de Pêssego.
Quíron coçou a barba.
— Não vejo um semideus com poder para convocar espíritos dos grãos há muito tempo. Sabe o que isso significa?
Meus pés começaram a tremer.
— Tenho minhas desconfianças. Estou tentando ser otimista.
— Ela guiou você para fora da floresta — observou Quíron. — Sem ela...
— Sim — falei. — Nem me lembre.
Eu já vira aquele olhar perspicaz nos olhos de Quíron antes, quando ele avaliara a técnica de Aquiles com a espada e a de Ajax com a lança. Era a expressão de um treinador experiente recrutando novos talentos. Eu nunca imaginei que o centauro fosse olhar para mim dessa forma, como se eu tivesse que provar alguma coisa para ele, como se minhas capacidades estivessem sendo testadas. Eu me senti tão... tão objetificado.
— Me conte — disse Quíron —, o que você ouviu na floresta?
Xinguei silenciosamente minha boca enorme. Eu não devia ter perguntado se os semideuses desaparecidos tinham ouvido alguma coisa estranha.
Decidi que não adiantava mais fazer segredo. Quíron era mais sagaz do que qualquer centauro comum. Contei para ele o que vivi na floresta e, depois, em meu sonho.
Ele se empertigou todo, e suas mãos se fecharam sobre o cobertor, fazendo com que o tecido subisse e deixando ainda mais à mostra os sapatos de salto com lantejoulas vermelhas. Quíron parecia tão preocupado quanto um homem usando meia-arrastão pode parecer.
— Vamos ter que pedir aos campistas para ficarem longe da floresta — decidiu ele. — Não sei o que está acontecendo, mas estou convencido de que deve ter algo a ver com Delfos e sua atual... hã, situação. O oráculo precisa ser libertado do monstro Píton. Temos que encontrar um jeito.
E com “temos que encontrar um jeito” ele quis dizer: eu tinha que encontrar um jeito.
Quíron deve ter percebido a expressão desolada em meu rosto.
— Vamos lá, velho amigo — disse ele. — Você já fez isso antes. Talvez não seja mais um deus, mas matou Píton da primeira vez com os pés nas costas! Centenas de livros de história veneram a facilidade com que você derrotou o inimigo.
— É... — murmurei. — Centenas de livros de história.
Relembrei algumas dessas histórias: eu matei Píton sem nem suar. Eu voei até a boca da caverna, chamei o monstro, soltei uma flecha e BUM!, a cobra gigante estava morta. Tornei-me senhor de Delfos e todos viveram felizes para sempre.
Como chegaram à conclusão de que destruí Píton tão rapidamente?
Tá, admito... eu mesmo espalhei essa história. Mas a verdade era um pouco diferente. Séculos se passaram depois dessa batalha, e eu ainda tinha pesadelos com meu antigo inimigo.
Finalmente minha memória imperfeita serviu para alguma coisa. Eu não lembrava todos os detalhes horripilantes de minha luta contra Píton, mas sabia que não tinha sido moleza. Eu precisei de toda a minha força divina e do arco mais mortal do mundo.
Quais seriam minhas chances como um mortal de dezesseis anos com acne, roupas usadas e um nome como Lester Papadopoulos? Eu não ia até a Grécia para morrer, não mesmo, principalmente não sem minha carruagem do Sol e sem minha capacidade de teletransporte. Lamento, mas deuses não voam em aviões comerciais.
Tentei pensar em como explicar isso para Quíron de uma forma calma e diplomática que não envolvesse bater os pés e gritar. Fui salvo desse esforço pelo som de uma trombeta de concha ao longe.
— O jantar está servido. — O centauro forçou um sorriso. — Vamos conversar mais depois, certo? Agora, é hora de comemorar sua chegada.

34 comentários:

  1. Uma das lições que o apolo vai aprender eh a pensar nos outros em primeiro lugar. Ele eh tao egocentrico.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Isso é o que faz eu não gostar muito dele

      Excluir
    2. O "Sol" brilha mais do que todos.

      Excluir
    3. Assim espero né. Que por mais que Apolo seja divertido ele é bem bobinho... Mas enfim, já sabíamos disso né

      Excluir
    4. Acho que Apolo precisa aprender mais com Will...

      Excluir
    5. isso é o que eu gosto nele tem piada

      Excluir
  2. "nem sequer havíamos tratado dos verdadeiros problemas: os meus." Rsrsrsr.

    ResponderExcluir
  3. Cara to com uma suspeita de quem a Meg é filha....

    ResponderExcluir
  4. florzinha do deserto17 de maio de 2016 19:43

    pra apolo tudo se refere a eu , espero que ele se apaixone ai ele vai ver onde é que fica o eu

    ResponderExcluir
  5. O chale de Hermes nao tem limites jajajajaja

    ResponderExcluir
  6. Acho q a Mag tem ligação com Gaia, essa série tá mt boa, vlw karina

    ResponderExcluir
  7. URRULL!!Invem missão pro tio Apolo...

    ResponderExcluir
  8. Hora de uma missão! Cara, como as coisas evoluíram, parece que foi ontem que li pela primeira vez o capítulo "Sem querer transformo em pó minha professora de álgebra" (ou coisa parecida).

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Cara,que nostalgia me deu agora kkkkk

      Excluir
  9. Marina Atlântida.28 de maio de 2016 22:52

    Mano, estou com raiva do Apolo, tudo é ele, sempre ele... Isso irrita muito! Eu quero ver ele passar muitas dificuldades até ficar muito bondoso e colocar os outros em primeiro lugar!
    ~Caçadora de Ártemis/Filha de Poseidon.

    ResponderExcluir
  10. Eu podia estar preocupada com várias coisas, mas só penso em como Nico e Will são fofos XD

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. KKKKKK, EU TAMBÉM! ●w●
      Antes de ler essa série já conspirava pra solangelo ser real! E parece que minhas preces foram ouvidas! #Solangelo

      Excluir
    2. tá faltando um pouco de Solangelo nesse cap.

      Excluir
  11. criança de Zeus9 de junho de 2016 09:05

    Entendido. — Will olhou para Nico. — Quer ser meu acompanhante?



    Apolo não se importa com os namorados homens dos filhos
    Q fofo Apolo ainda sofre por Dafne e Jacinto

    ResponderExcluir
  12. Todo mundo reclamando do egocentrismo do papis... eu acho que é a melhor característica dele kkkkk e o livro é dele né gente, não esperem que ele se concentre no problema dos outros

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ainda bem q n sou a única que pensa assim kkkkkkkkkk

      Excluir
    2. Ainda bem q n sou só eu que penso assim kkkkkkk

      Excluir
    3. Filho de Tânatos21 de junho de 2016 13:15

      Sem falar no fato dele ser um deus neh...acham msm q se fosse Zeus, Hades ou Poseidon seria humilde??? :|

      Excluir
    4. Humildes não mais um pouco menos egocêntrico!!!

      Excluir
  13. Eu verdadeiramente estou adorando o Apolo. A história, de certa forma, parece aquelas continuações de fanfiction (e olha q eu ja li várias), então, todo esse egoncentrismo dele só me diverte. hueheuhuheheuhueeuhhuehuehue

    ResponderExcluir
  14. Nico e Will 😍😍

    ResponderExcluir
  15. Filha de Poseidon31 de julho de 2016 11:09

    To amaaaandoooo

    ResponderExcluir
  16. "Você não vai encontrar amor onde deseja ou espera. Nenhum semideus vai curar seu coração."
    Pra quem não lembra foi isso que Afrodite disse para Reyna, estou tirando conclusão precipitadas eu sei, mas é se quem curasse o coração da Reyna fosse um ex-Deus?! No caso Apolo, tá agora parei. kkk

    Karina estou amando o livro, obrigada sz

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Caçadora de sombras13 de setembro de 2016 15:22

      Ingrid, eu tbm pensei nisso! Achei que era única pensando em baboseira kkkk

      Excluir
    2. Caçadora de sombras, você não é a unica \o/ desde desse capitulo eu tô pensando nisso, é acho que talvez no próximo livro Apolo se encontre com o Acampamento Júpiter é quem e de lá?? (ISSO MESMO A REYNA, é outra acho que Apolo não ficaria com a Meg pela diferença da idade, convenhamos ela é uma criança kkjk) mas mudando de assunto se você vê esse comentário poderia me passar seu wpp, ou seu insta? slá. quero trocar ideia doidas kkkj

      Excluir
  17. Caçadora de sombras13 de setembro de 2016 15:23

    Tenho minhas desconfianças do parentesco divino da Meg : Gaia, Dionísio ou Deméter....

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!