22 de maio de 2016

A Perseguição do Casaca Vermelha



Maryland, 1814
Frederick Warren sabia que não deveria fazer aquilo.
Ele sabia que seus pais ficariam bravos, e que seria punido e avisado de que era velho demais para brincadeiras infantis. Mas ele podia se preocupar com a punição depois. Naquele momento, num amanhecer escuro de agosto, Frederick precisava de uma boa e forte gargalhada para clarear seu humor. E o que seus pais não soubessem não iria feri-los.
Era 1814, e a América esteve em guerra por dois anos sem nenhum sinal de um cessar-fogo. Todos estavam sentindo os efeitos – o preço crescente da comida, a escassez constante do dinheiro e a ameaça constante de que, a qualquer momento, os britânicos poderiam atacar.
Os pais de Frederick aparentavam estar particularmente assustados ultimamente; sua mãe tomando conta dos hóspedes no Hotel Maryland com resignação, suspirando enquanto cozinhava ensopados à noite ou misturava o mingau de aveia pela manhã. Tudo sobre o que o pai de Frederick conseguia falar era sobre o andamento da guerra, a qual estava chegando mais e mais perto de sua porta, com o exército britânico avançando mais a cada dia. Parecia a Frederick que ninguém sorria há anos, muito menos ria.
Mais cedo naquele dia, antes de sua mãe aprontar o café da manhã, Frederick cuidadosamente substituiu o açúcar das chiques tigelas de porcelana de sua mãe por sal. Agora, enquanto ele preparava um bule de chá e empilhava uma torre de torradas douradas em uma bandeja para sua hóspede mais ranzinza, Frederick riu consigo mesmo. Seus pais estavam preocupados aquela manhã e não perceberam sua pequena travessura. Suas reuniões na prefeitura estavam começando cada vez mais cedo, antes de o sol nascer, e prosseguindo cada vez mais tarde noite adentro, também. As responsabilidades do Hotel estavam recaindo cada vez mais sobre Frederick.
Mesmo nesta semana, seus pais estavam trabalhando em esboços de mapas para evacuação e servindo em comitês de planejamento sobre o que fazer caso os britânicos chegassem à cidade – onde procurar abrigo, onde encontrar comida armazenada, as estradas vicinais mais discretas fora da cidade. Frederick não tinha certeza de onde seus pais recebiam informações, ou por que eles sempre eram os primeiros a saber de tudo. Parecia a Frederick que seus pais eram sempre aqueles a quem as outras pessoas procuravam quando precisavam ser confortadas, quando precisavam de planos em tempos de crises, e, acima de tudo, quando precisavam de informações que ninguém mais parecia conseguir.
Na sala do café da manhã, Frederick pôs a bandeja em frente a uma senhora carrancuda e seu marido, que estavam viajando pela cidade para chegar a Washington. Após Frederick servir a mulher na noite anterior, ele a ouviu resmungar ao marido:
— Se nosso exército for tão desleixado quanto o pessoal deste hotel, estaremos todos cantando “Deus salve a Rainha” antes do ano acabar.
Agora Frederick curvou-se extravagantemente e foi para a cozinha, onde espiou por detrás da porta para assistir. A senhora mordiscou uma torrada e declarou alto que estava queimada ao seu marido, que deu de ombros e comeu mesmo assim. A mulher então colocou três colheradas do que ela achava ser açúcar em sua xícara de chá. Ela soprou o vapor que subiu da xícara e inalou o aroma antes de levar o chá a boca e tomar um gole longo e quente. Nem uma fração de segundo depois, o chá da mulher foi voando em direção ao rosto de seu marido como um projétil liquido.
Ele deu um salto e enxugou seu rosto com um lenço de bolso.
— Constance, você se negligencia! — ele bufou para a esposa, com o rosto franzido e furioso.
Os outros hóspedes, sentados em mesas próximas, tentavam visivelmente não rir. Frederick, que tinha visto a coisa toda de seu ponto de observação atrás da porta da cozinha, dobrou-se segurando a barriga, com lágrimas escorrendo dos olhos.
A mulher gesticulou bruscamente, jogando a tigela de açúcar ao chão.
— É sal! SAL! — ela guinchou, apesar de estar claro que seu marido não tinha ideia do que ela estava falando. — QUEM FEZ ISTO?
Frederick deu um passo cauteloso em direção à cozinha justamente quando sua mãe entrou, desatando seu chapéu e baixando um balde de creme de leite fresco. Seus olhos estavam comprimidos e exaustos, como se dissesse Não tenho energia para isso agora. Frederick se atreveu a dar uma última espiada na sala de jantar e flagrou a expressão no rosto do marido da mulher, que estava tentando muito reprimir um sorriso.

* * *

O celeiro fedia a esterco. Frederick tinha de raspar e varrer o chão do celeiro, então dar leite, alimentar e limpar a vaca até que ela se aliviasse e fosse hora de retirar o esterco novamente. De quem foi a brilhante ideia, mais uma vez, Frederick censurou-se, de trocar o sal e o açúcar? Seus pais o haviam repreendido, mas o que o fez sentir-se pior foi que eles foram forçados a devolver o dinheiro da senhora, o que Frederick não havia considerado até que fosse tarde demais. Sua brincadeira havia sido de pouco discernimento, Frederick concordou, e nenhuma quantidade de limpeza poderia repor o dinheiro que seus pais perderam.
Já estava claro e quente, apesar de nem ser meio-dia ainda. Frederick enxugou a testa com seu lenço. Enquanto trabalhava, seus pensamentos voltaram novamente à guerra. Mesmo décadas após a Guerra da Independência, a Inglaterra ainda estava tentando transformar a América em uma colônia britânica. Eles haviam bloqueado portos americanos para seus próprios ganhos egoístas na guerra contra Napoleão. E então impressionaram os marinheiros americanos, sequestrando-os no mar e alistando-os para lutar em navios britânicos! Frederick ainda não havia nascido durante a Guerra da Independência, mas quando ele era mais novo, pressionava sua orelha contra o chão para tentar ouvir as histórias da guerra que seu pai contava sobre os campos de batalha – homens explodindo, derrubados por tiros, divididos em dois por baionetas, como ensinaram aos casacas vermelhas uma lição e conquistaram a liberdade para todo o país. Tanto quanto Frederick sabia, os britânicos eram as pessoas mais vis que existiam.
O celeiro compartilhava uma parede com o pequeno estábulo, e Frederick conseguia ouvir o ruído surdo dos cavalos coiceando em suas baias. Ele precisaria alimentá-los e dar-lhes água mais tarde.
Frederick dedicou-se ao seu trabalho, levantando uma pesada forquilha com feno para o carrinho de mão. Ainda havia muitos fardos de feno, e havia muitos cavalos para alimentar.
A luz do sol escorria porta adentro; já estava no meio da manhã. E se ele não acabasse antes do jantar? Ele decidiu que talvez devesse deitar-se nos palheiros, apenas para descansar suas costas por um momento.
Ele podia jurar que seus olhos não fecharam por mais que um segundo quando...
— Frederick! Acorde, filho!
Frederick balançou sua cabeça turva para acordar, confuso pela visão de seu pai que aparecia acima dele. Ele corou de vergonha. Em seu castigo no celeiro, Frederick esperava ganhar de volta a confiança de seus pais, não desgastá-la ainda mais.
— P-pai — Frederick gaguejou — eu não pretendia dormir. Terminarei as tarefas...
Mas seu pai não estava prestando atenção ao celeiro. Ele tinha um olhar em seu rosto que Frederick nunca havia visto antes, e passava uma mão em seu cabelo para frente e para trás enquanto segurava seu chapéu com a outra.
— Peço desculpas, mais uma vez, por esta manhã — Frederick começou, mas seu pai o interrompeu, o que era também a primeira vez. O pai de Frederick acreditava no senso de dignidade de um homem. Ele considerava falta de boas maneiras interromper alguém.
— Não há tempo, filho — disse seu pai, sua voz quase inaudível, soando mais aguda e menos firme do que Frederick já havia ouvido, como uma criança com medo do escuro.
Seu pai estava vestindo colete e jaqueta negros com calças pretas – a roupa que ele normalmente reservava para funerais. Um calafrio percorreu Frederick. O rifle de seu pai, que normalmente ficava guardado, estava escorado na porta do celeiro.
— O que há, pai? — Frederick perguntou.
Ele limpou suas calças e se endireitou, levantando do palheiro para encontrar os olhos de seu pai.
— Filho, o que vou dizer agora talvez não faça sentido no momento, mas você precisa ouvir. Sério, por uma vez.
Frederick abraçou-se; tudo que estava firme esta manhã agora parecia incerto, duvidoso. Sério, por uma vez: As palavras ecoavam em sua cabeça. Seu pai realmente o achava tão frívolo?
— Sua mãe e eu... nós não somos estalajadeiros — ele fez uma pausa, e encontrou os olhos de Frederick.  — Bem, nós somos, é claro, mas este não é nosso trabalho principal. Temos uma herança especial – você tem uma herança especial. Você é membro dos Cahill, uma família que remonta há centenas de anos. Somos Madrigal, membros de uma elite Cahill.
— Mas eu sou um Warren! — Frederick protestou.
Seu pai batia no chão com a bota, e o tique nervoso de uma pessoa geralmente tão serena deixou Frederick receoso.
— Sim, mas você também faz parte de uma poderosa organização secreta. Nós não mantemos nosso hotel apenas para viajantes. É também um lugar seguro para outros Cahill, um lugar para onde possam fugir de seus inimigos.
— Inimigos? — Frederick perguntou.
Um calafrio subiu por sua espinha.
Seu pai assentiu.
— Os Vesper. Aqueles que procuram nos extinguir, para sempre.
Frederick arquejou – nos extinguir?
Seu pai pôs uma mão hesitante em seu ombro, e sua testa enrugou ao se forçar a continuar. Ele engoliu em seco.
— Neste preciso momento, filho, há um homem extremamente perigoso nos arredores. Um Vesper viajando com a armada britânica aqui em Maryland. Sua mãe e eu precisamos encontrá-lo e pará-lo, ou...
O pai de Frederick se interrompeu e olhou com angústia para o filho. A cabeça de Frederick girava. Tudo estava se inclinando – do mesmo jeito que ele ficava tonto ao rodar no mastro de 1º de maio muitas vezes na primavera anterior, quando o chão apareceu e tirou-lhe o ar.
— Onde você está indo? — Frederick conseguiu perguntar.
— Isso não importa. O que importa é manter você fora do perigo.
Frederick tomou nota do rosto de seu pai – o cabelo grisalho, olhos azuis como água, as finas linhas ao redor dos olhos e do sorriso; o rosto de um cavalheiro, um distinto soldado aposentado, com certeza, mas este homem, este homem, também era.... um espião? Isso era inconcebível. Ele tentou memorizar todos os detalhes do rosto de seu pai, procurando algo, como se fosse a primeira vez em que realmente o via. Por favor, por favor, que esta não seja a última vez.
Passos suaves na palha quebraram seu devaneio. A mãe de Frederick correu pelo celeiro para juntar-se a eles, as galinhas grasnando conforme ela passava – um chiado áspero. Ela usava seu vestido de passeio e luvas, o chapéu de palha amarrado abaixo de seu queixo. Apertara bem seu xale ao redor de si, como se para proteger-se de uma nevasca, apesar de estarem no auge do verão.
A mãe de Frederick tomou seu braço no dela e perguntou-lhe se ele entendia o grande perigo em que todos se encontravam.
— Não — Frederick respondeu impotente. — E vocês podem me dizer o que está acontecendo?
Os lábios de sua mãe tremeram enquanto ela balançava a cabeça e virava-se para olhar para seu pai.
— Não há nada que eu possa fazer? — Frederick perguntou desesperadamente. — Eu os desapontei de alguma forma, esta manhã?
— Filho — ela sussurrou, virando-se para encará-lo — se sentíssemos que seria mais seguro para você vir conosco, nós o levaríamos. Sua segurança é nossa maior prioridade. Estamos fazendo isso para protegê-lo, e não apenas a você, mas para defender nossos vizinhos inocentes contra essas pessoas terríveis. Você entende isso?
Frederick deu de ombros.
— Ouça-me — ela disse, sua voz atingindo um tom de urgência, seus braços nos ombros dele, as mãos apertando-o para enfatizar. — Se você ouvir qualquer coisa sobre os britânicos se aproximando, vá para a igreja imediatamente, e se esconda, você me ouviu? Siga as orientações para encontrar abrigo até que vocês possam evacuar de forma segura. Eu preciso que você me prometa isso, filho. Não posso ir sem saber se você está seguro.
— Mas os britânicos não vão, eles não irão...
Então sua mãe começou a chorar, lágrimas rápidas e quentes que fizeram o peito de Frederick doer.
— Você precisa me prometer. Promete?
— Sim — ele disse enquanto ela o abraçava, um aperto de despedida. — Eu prometo que vou fugir ao primeiro sinal dos britânicos se aproximando.
Ele não tinha certeza quando ficara mais alto que ela, mas sua mãe parecia frágil em seus braços, e ele mal conseguia se segurar para não esmagá-la com a força de seu adeus. Seu pai nunca conseguia suportar cenas emocionais; elas o entristeciam demais desde que seu irmão morrera por causa de uma bala britânica. Com um aperto de mão demasiado forte, seu pai ordenou que Frederick se mantivesse a salvo antes de sair do celeiro pelos estábulos, onde ele abriu a porta de uma baia. Eles puderam ouvi-lo montar Buster em um rápido movimento das botas nos estribos, então o som das ferraduras no chão enquanto ele cavalgava para a beirada do estábulo. Buster marcava o chão impaciente enquanto esperavam pela mãe de Frederick. Ela deu um último olhar a Frederick antes de montar atrás de seu pai. Frederick assistiu enquanto eles galopavam para longe juntos, para fora de vista.
Completamente sozinho, o rosto de Frederick esquentou e seu coração começou a bater forte, o celeiro parecia flutuar à sua frente. Do que seu pai havia os chamado – Cahill? E os inimigos – Vesper? A guerra queimava bem próxima, tão perto que no dia anterior ele viu um amputado sendo carregado para fora da casa da cidade do médico. Tão perto que ele ouviu sobre uma cidade em Chesapeake sendo invadida e saqueada pelos britânicos. E se os Vesper viessem atrás dele agora, que estava completamente só e sem tempo para escapar? E ainda por cima, aquela brincadeira idiota – e se ela fosse a última memória que seus pais tivessem dele? Sério, por uma vez.
Frederick atirou a forquilha para o outro lado do celeiro, assistindo-a navegar pelo ar antes de finalmente cair no chão.

* * *

Os britânicos estão vindo!
— E, para concluir, senhora — falou um dos dois mensageiros, ambos cobertos de poeira, tendo chegado há pouco diretamente da batalha próximo a Bladensburg. — Viemos implorar que fuja, por solicitação de seu marido. Não está segura aqui, enquanto os britânicos estão ansiosos para nos humilhar e a Casa do Presidente é seu alvo principal. Eles estarão aqui em poucas horas! Eles querem queimar o Capitólio, também, e só Deus sabe o que mais. Estamos aqui para escoltá-la em segurança.
Dolley Madison, a primeira dama dos Estados Unidos, olhou por cima dos papéis do Gabinete que segurava apenas para afastar uma mecha de cabelo que tinha se soltado de seu outrora imaculado coque. Então ela se voltou para as caixas espalhadas no chão ao seu redor.
— Senhores — ela disse, deslizando sobre os documentos à sua frente — isso não será necessário.
Ela olhou para cima apenas o suficiente para ver os dois mensageiros boquiabertos ao mesmo tempo, como se fossem marionetes controlados por uma mão gigante.
O ar na biblioteca estava quente. O quarto, que também era o escritório de seu marido, era forrado em mogno. Grandes estantes de livros iam do piso ao teto e ao redor do quarto, com escadas de rodinhas acopladas a elas para facilitar a ida de um livro a outro. Os livros ocupavam todas as estantes, alguns empilhados lateralmente, mas, longe de parecer fora de ordem ou desorganizado, a desordem dava a impressão de estar em uma cheia e feliz celebração.
Havia divãs de veludo verde com filigranas de ouro nas janelas com vista para o gramado da Casa do Presidente. No meio do quarto, em cima de um tapete persa, estava a mesa de James, ladeada por uma aconchegante lareira. Mas tudo que Dolley via eram as caixas e mais caixas de papéis espalhadas em sua frente, nenhuma delas contendo aquilo que ela tão desesperadamente precisava encontrar.
Esta guerra horrível, Dolley pensou pela milésima vez. Enquanto esposa do presidente, ela sabia da devastação que a guerra desencadeava sobre o país, as muitas vidas jovens que havia roubado. E como uma Madrigal, membro de uma divisão de elite da família Cahill, ela sabia que as repercussões de perder a guerra seriam muito piores do que qualquer um imaginava. Um Vesper introduzira-se entre os mais altos postos do exército britânico, e se ele tivesse sucesso... Dolley afastou tal pensamento terrível de sua mente.
Ela estava perdendo tempo com cada segundo que os mensageiros continuavam a incomodá-la, e ela precisava concentrar-se na tarefa em questão. Um contato Madrigal dissera-lhe que havia um mapa em algum lugar da Casa do Presidente, um mapa que levava a um pequeno anel de ouro que os Vesper cobiçavam acima de tudo. Os Madrigal nunca souberam exatamente qual a importância de tal anel, mas eles juraram mantê-lo longe das mãos dos Vesper. Logo que Dolley soube que os britânicos estavam na área, ela enviou uma mensagem urgente ao seu contato, alertando-o de que o mapa estava em perigo. Mas a ajuda dos Madrigal nunca chegara, e Dolley teve de enfrentar o fato de que não conseguiram entregar sua mensagem. Estava em suas mãos manter os mapas fora do alcance dos Vespers – se ela apenas pudesse descobrir onde estavam. Seus dedos folhearam rapidamente através dos papéis em sua frente enquanto o suor corria em sua testa e revestia sua garganta.
— Senhora — chamou o mensageiro mais velho — deixe esses papeis aí. A senhora precisa juntar seus próprios pertences para que possamos escoltá-la até seu marido. Não temos muito tempo! Não está com medo?
O mais jovem dos dois mensageiros arrastou os pés. Dolley não tirou os olhos de sua tarefa.
— Sim, muito. Eu tenho medo pelo bem do país. Minha segurança pessoal é bem menos importante quando nossa nação está em crise.
Havia um baú próximo à mesa, no qual Dolley colocara documentos amarrados com um cordão – panfletos de antes da revolução, as correspondências dos presidentes anteriores. Ela os empacotou para maximizar o espaço no pesado e fundo baú, o oitavo que ela preenchera naquele dia. Dolley já havia procurado em duas salas metodicamente, empacotando tesouros nacionais para transportá-los com segurança enquanto procurava o mapa para poder fugir. Ela já estava ficando sem baús. E sem carroções para despachá-los à segurança. E sem as pessoas para dirigir as carroções e proteger a Casa do Presidente.
— Madame! — o mensageiro mais velho choramingou novamente, assistindo-a andar com pressa de um lado para o outro, a saia arrastando no chão e coletando a poeira dos livros e papéis velhos. Ela enrolou um documento entre dois pergaminhos e o colocou no baú.
— Madame! — repetiu ele. — A senhora recebeu uma ordem direta do comandante. Foi ele que disse que deveria evacuar. Os papéis do Gabinete não são tão valiosos quanto sua vida!
Ele bateu com a palma da mão na grande mesa de mogno. Dolley parou aonde estava. Sua vida? Seus pensamentos dispararam para sua querida irmã, a quem ela tinha escrito mais cedo naquela manhã. A imagem do rosto de seu filho John apareceu diante dela agora, tudo bonito e crescido.
Ela queria vê-lo começar uma família um dia. Uma onda de desespero tomou conta dela, e por um momento ela estava disposta a largar tudo e fugir com estes homens, deixar tudo para trás. Então seus olhos percorreram o quarto deslumbrante e se estabeleceram na bandeira americana no canto, suas estrelas e listras brilhantes e corajosas. Mesmo na profundidade dessa onda de calor úmido, elas enviaram arrepios por sua pele. O destino da nação estava em jogo, tudo o que haviam construído com tanto cuidado. Os britânicos eram ruins o suficiente, mas os Vesper eram o inimigo de todos os homens livres. Dolley procurou dentro de si mesma por sua coragem. Se ela fosse embora, estaria permitindo que algo indescritível vencesse. E por toda sua vida ela veria, sabendo que havia fugido quando era mais necessária.
— Senhores — ela continuou, sua voz mais suave, um pouco mais frágil — aprecio sua viagem para me buscar, e sinto muito por ter sido uma jornada infrutífera. Receio que as ordens de meu marido estejam em conflito com minhas ações, mas não estou pronta para deixar a casa. Isto não diz respeito à minha vida — ela continuou, pausando e piscando as lágrimas de seus olhos, percebendo a verdade de sua declaração apenas quando as verbalizou. — Diz respeito a algo muito maior que eu.
— Sra. Madison, leve em conta sua família! Leve em conta a ameaça à segurança nacional se eles a levarem como refém. Temos ordens, e a senhora está agindo com infantilidade, se me permite dizer.
— Muito pelo contrário, senhores — ela respondeu, dando passos largos e ficando na frente deles, para que pudesse olhar firme em seus olhos. Eles jamais saberiam as medidas que ela já tinha tomado para a segurança nacional. — Esta é uma decisão que pesei com o máximo de deliberação. Eu me ressinto da implicação de que um dia eu faria qualquer coisa para pôr o país em risco. E se vocês quiserem me levar agora, terão que me levar acorrentada.
Os mensageiros lentamente se afastaram em direção à porta, balançando a cabeça e resmungando sob a respiração. Ela ouviu a batida da porta quando saíram, e a finalidade de sua ausência tornou o quarto, de repente fantasmagórico. Se apenas eles compreendessem que não era simplesmente sua teimosia: ela precisava encontrar o mapa!
Dolley voltou-se para a busca, carregando uma nova caixa de papéis debaixo da mesa. Seu marido cavalgou para as tropas no dia anterior depois de receber uma expedição desanimadora do Secretário de Estado Monroe: O inimigo está em plena marcha para Washington. Tenha tudo preparado para destruir as pontes. Agora, mesmo o coronel com seus cem homens deixados para ficar de guarda em Washington tinham evacuado, deixando apenas ela, seu jardineiro, seu fiel mordomo francês John e um punhado de escravos.
Nunca Dolley sentira tão só. Os britânicos estavam chegando, um Vesper com eles. Vindo para destruir não só a sua casa, mas o marco americano mais importante da curta história do país, a Casa do Presidente, e tudo o que ela continha. Toda posse que ela já adquirira e todos os tesouros americanos que esse país novo tinha trabalhado tão duramente para acumular. A casa histórica de uma nova nação estava prestes a queimar até o chão como uma pilha de lenha.
Através das cortinas vermelhas de seda que ela tinha escolhido quando se mudaram, ela podia ver o trabalho nervoso de pessoas na rua enquanto começavam a arrumar as malas e partir. Janelas quebradas. Plantas esmagadas. Rodas de carruagem atravessando a rua e cavalos relinchando, entradas de lojas fechadas, apitos soando o alarme, vendedores tentando fechar negociações de última hora antes de suas empresas serem destruídas. Todo o distrito estava abalado.
Memórias da casa passaram diante dela – o quão animado ela tinha estado quando eles se mudaram, jantares de Estado com o marido,  festas na sala de estar às quartas, piqueniques nos jardins com a família, reuniões oficiais importantes, e por baixo de tudo, um refúgio para sua secreta família Madrigal.
Um canhão soou a distância – Dolley congelou. A batalha estava praticamente encerrada e ainda havia alas inteiras para procurar, câmaras e antecâmaras dentro das alas, e ninguém em quem pudesse confiar para ajudá-la a encontrar o mapa. Ela mergulhou de volta aos papéis resistindo à vontade de correr os dedos ao longo de belos móveis dourados da mansão e tapeçarias tecidas de luxo. Ela tinha certeza de que esta seria a última vez que estaria naquele magnífico espaço.

* * *

Fumaça subia pelo ar de Bladensburg, e o apito dos disparos de mísseis agrediu os ouvidos do capitão Cyrus Ramsay. Esta nova arma britânica, o míssil, era uma força imprevisível. Fumaça vermelha ondulava no céu acima do campo de batalha, como se as nuvens estivessem se enchendo com o sangue de ferimentos à bala. As tropas britânicas estavam avançando até o morro, e Ramsay mergulhou atrás do parapeito contra o qual ele e suas tropas tinham cavado uma vala.
A batalha estava se desgastando – acabaria em breve, Ramsay sabia, um constrangimento completo para ele e os outros soldados americanos derrotados. Hoje, o presidente e o secretário de Estado estiveram presentes para testemunhar a sua humilhação, o que fez doer ainda mais. Com esta perda, ele agora tinha certeza de que os britânicos tomariam a capital. Como se para colocar um ponto de exclamação em seu raciocínio, outro míssil arqueou sobre a cabeça de Ramsay e explodiu cerca de trinta metros à frente dele.
Ramsay girou sobre a parte superior da parede e mirou os casacas vermelhas a cavalo em seu caminho. Através da mira de seu rifle, Ramsay fixou a mira no general britânico que tinha sido particularmente mortífero no início da tarde –  Ramsay o reconheceu porque este homem usava o chapéu vermelho e dourado com a aba puxada em toda a sua extensão, quase sobre os olhos, de modo que a pluma se inclinasse para frente, os acabamentos metálicos ridículos captando os reflexos do sol. O rifle do general não errava, como os soldados americanos espalhados pelo campo claramente evidenciavam. Ele recarregava mais rápido do que qualquer pessoa que Ramsay já vira, e com cada tiro bem sucedido, um sorriso doentio torcia o rosto do general. Ramsay mirou e disparou contra o chapéu inclinado, mas o general tinha os reflexos de um gato e esquivou-se. A bala por pouco não arranhou sua orelha, em vez disso atravessou o chapéu do general, empurrando-o para fora de sua testa para revelar uma desfiguração hedionda. As mãos de Ramsay tremiam enquanto baixava a arma. Ele não conseguia tirar os olhos da testa do general. ali, claro como o dia, havia um profundo talho cortado em sua testa. O homem tinha sido cortado, marcado com uma letra bem acima de seus olhos, uma letra que indicaria imediatamente a sua verdadeira identidade a qualquer Madrigal. A cicatriz, como uma testa franzida acima de sua testa franzida, formava a letra V. Este homem não era um general britânico comum. Ele era um Vesper, e talvez o mais mortífero de todos.
Madrigais na Europa alertaram sobre um homem com um bigode notoriamente torto e testa marcada, que servia como general no exército britânico. Entre outras boas almas que tinham morrido por suas mãos, um agente Madrigal altamente talentoso fora superado pelo general em um sangrento combate de espada há vários meses. O general dera ao agente Madrigal um golpe mortal direto em seu estômago. Mas antes que o Madrigal estivesse caído, ele cortou seu oponente, marcando a testa do general com um V para que outros Cahill pudessem reconhecê-lo imediatamente pelo o que ele era.
Naquele momento, o general virou a cabeça e capturou o olhar horrorizado de Ramsay. As sobrancelhas do general se uniram de modo que o V esculpido em sua testa cresceu mais nítido e profundo. Aquilo se parece com os chifres do diabo, Ramsay pensou enquanto o general olhava friamente para ele. Ele sabe! Ele sabe que eu o reconheci!
O general lentamente levantou a espingarda. Ramsay começou a correr. A primeira linha de soldados norte-americanos já havia caído em derrota, por isso ele não chamaria atenção enquanto fugia pelo campo. Mas por dentro, Ramsay sentia-se como um alvo em movimento em um jogo de dardos. Ele tinha que se afastar das linhas de frente e ir à Casa do Presidente; tinha que manter o mapa seguro. Se o general pusesse as mãos no anel... Ramsay mal conseguia lidar com o pensamento. O horror de chegar  tarde demais fez Ramsay correr ainda mais rápido, os pés mal tocando o chão enquanto corria para o acampamento.
Ramsay virou na curva, cada passo trazendo-o para mais perto do acampamento e mais perto de um cavalo, o cavalo mais rápido que pudesse encontrar. Mas, enquanto corria os últimos dez metros e seus olhos varriam o acampamento, Ramsay percebeu que algo estava errado. As tendas de dormir e comer estavam montadas, o estoque de alimentos e os suprimentos médicos estavam de prontidão. Mas estava silencioso, tão tranquilo que ele podia ouvir os galhos rachando sob seus pés. Só havia uma pessoa no acampamento, um menino jovem demais para lutar.
— Onde estão os outros? — Ramsay gritou. — O que aconteceu com as reservas?
— Foram chamados para o flanco — o garoto respondeu. — Não restou ninguém além de mim!
Ramsay amaldiçoou. Todos os cavalos adequados estavam no campo de batalha atrás dele, ou tinha ido embora com as reservas. Os únicos animais deixados no acampamento eram os cavalos de carga, uma coleção magricela de animais mal treinados. Ramsay escolheu o melhor deles, uma égua magra que tentou mordê-lo enquanto ele lançava uma sela sobre ela e se preparava para atravessar as estradas atrás, que eram cobertas de arbustos e folhagem.
O calor de início da tarde havia se estabelecido e Ramsay podia sentir o ruído distante de tempestades se formando atrás dele. Os casacas vermelhas não estavam acostumados ao sol e à umidade castigadores –  ele tinha visto alguns no campo de batalha caírem ao chão por insolação, a única diversão dos americanos em um dia que tinha empolado seu orgulho. O uniforme de Ramsay estava rasgado, sua pele arranhada, machucada e imunda da batalha, mas estes eram o menor de seus males. Ramsay sabia que o general estaria vindo por ele, que seria uma corrida até o rio com a morte respirando em seu pescoço. Em sua mente passavam os rostos dos membros do pelotão, aqueles que ele tinha visto morrer de ferimentos à bala no gramado, e os seus ouvidos cheios com o guincho inconfundível dos mísseis e o rastro de destruição que entalhara. Sim, um retorno ao domínio britânico arruinaria o país pelo resto de sua vida, mas se os Vesper tomassem o controle, o mundo nunca se recuperaria.
Ramsay colocara um pé no estribo quando um tiro de rifle passou chiando por sua orelha. O cavalo tentou fugir e Ramsay teve a sorte de se segurar, a sela deslizando perigosamente pela lateral da égua. Ramsay conseguiu içar-se, com apenas um pé firmemente no estribo, e tentou desesperadamente deslizar o outro no lugar enquanto a égua galopava. Ele ainda estava sem fôlego de sua corrida ao acampamento, e tudo nele gritava por um pequeno gole de água. A marcha do cavalo estava desequilibrada em consequência da sela, e também porque ela provavelmente nunca foi mais rápido do que um trote em sua breve vida animal. Seu galope balançava a sela instável a cada passo. Ramsay virou a cabeça e vislumbrou o general atrás dele, recarregando seu rifle.
Ramsay voltou a visão para frente novamente. As estradas secundárias estavam cheias de raízes de árvores e mudas caídas. O cavalo ultrapassava os obstáculos com uma velocidade vertiginosa, cada tronco que bloqueava seu caminho quase derrubando Ramsay das costas da égua.
O trovejar dos cascos soou atrás dele, se aproximando. Ramsay se inclinou para frente, agarrando os tufos da crina da égua, agarrando-se a ela, enquanto pedia em suas orelhas:
— Vai, menina, vai! Mais rápido, mais rápido!
Seus calcanhares apertaram as costelas do animal. E, como se suas palavras tivessem sido um encantamento mágico, a pequena égua ganhou velocidade. Mas a estrada foi dando lugar a trilhas menores – as árvores obscurecendo em uma faixa de céu e florestas. A vegetação crescia densa e emaranhada; o caminho a seguir era cada vez menos claro. Espessos e espinhosos arbustos fechavam a trilha, árvores interrompiam o percurso, forçando Ramsay dar a volta.
A égua não era rápida o suficiente para ficar à frente do cavalo do general por muito tempo. Justamente quando Ramsay esperava que houvesse alguma distância entre eles, a montaria do Vesper surgiu novamente. O cavalo do general estava tão perto que Ramsay podia praticamente sentir o seu bafo. Ele teria que tirar o general da trilha – mesmo que apenas por alguns segundos, tempo suficiente para despistá-lo.
Os galhos que pendiam sobre o caminho eram traiçoeiros e largos, forçando Ramsay a abaixar-se em seu cavalo de modo a não bater a cabeça. Com uma mão ainda agarrando a crina, Ramsay alcançou a espada em seu cinto. A sela deslizou sobre as costas da égua quando Ramsay deslocou seu peso, quase arremessando-o no chão irregular. Ramsay apertou seus joelhos em torno da égua, empurrando os pés mais firmemente nos estribos. Então ele se levantou, golpeando solidamente um galho grosso acima dele. O galho caiu rápido e com força, desencadeando uma enxurrada de galhos menores, e Ramsay mergulhou para fora do caminho. Olhou por cima do ombro e viu o general ser atingido por um galho, os braços cobrindo a cabeça enquanto pedaços de árvore choviam sobre ele.
Desbastando todos os galhos que podia alcançar, Ramsay deixou uma furiosa tempestade de ramos e folhas atrás de si enquanto cavalgava. Ele cortava os galhos e qualquer outra coisa que pudesse alcançar ou decepar, a fim de bloquear o caminho. Queria acertar a testa do general com um galho grosso, ou ao menos atrasá-lo. Por cima do ombro, Ramsay viu a espada do General V agora balançando a frente dele também, agitando os braços freneticamente enquanto tentava cortar os destroços que caíam sobre ele.
Qualquer coisa para manter o rifle longe das mãos, Ramsay pensava.
O som de água jorrando sobre rochas o alcançou, lentamente no início e depois com mais força. Ele tinha chegado ao rio.
O Potomac era grande, e a água corria rapidamente, levando pequenos pedaços de mudas em sua corrente. A égua de Ramsay vibrou de inquietação até parar, incerta sobre sua vontade de atravessar sem uma ponte. Ramsay fincou os calcanhares em sua barriga para ela continuar e atravessar, mas a égua não se movia. Cutucou-a mais uma vez, porém ela ergueu-se em protesto. O General V estava se aproximando, os cascos de seu cavalo tamborilando atrás deles, e outro tiro explodiu atrás das árvores. O barulho deu à égua de Ramsay a motivação que precisava. Ela fugiu para dentro do rio, a água girando dentro das botas de Ramsay. Nós vamos conseguir!, pensou Ramsay. Eu posso despistá-lo do outro lado.
Eles estavam na metade do rio quando uma bala o atingiu em cheio nas costas. A égua, frenética pelo som do tiro, quase deu um salto para fora da água, e arrastou-se para atravessar o restante. Quando chegaram ao outro lado, Ramsay girou, as costas gritando em protesto, e disparou uma bala na direção do general. Mas sua visão estava desfocada pela dor nas costas, e a bala atingiu a coxa do geral, derrubando-o do cavalo.
O General V caiu produzindo um som abafado, inconsciente, e seu cavalo se assustou no rio. O puro-sangue se debatia ao atravessar, os olhos selvagens acima da água rapidamente surgindo. Ramsay conseguiu deslizar para fora do lombo da égua e pegar as rédeas do garanhão. Com um tapinha grato à égua, montou o novo cavalo e galopou para dentro da floresta.
Ramsay lutava agora, incitando o cavalo do general ao seu galope mais rápido. Ele sabia que era a última viagem de sua vida. Ele não conseguiria chegar à Casa do Presidente, mas ainda poderia entregar sua mensagem. Havia uma casa Madrigal nas proximidades, se ele apenas pudesse aguentar por tempo suficiente. Ele estava voando agora, embora quisesse tirar sua camisa encharcada de sangue e lavá-la no rio, e limpar sua pele do sangue que podia sentir aderindo a seu uniforme e correndo pelas suas costas. Teria apreciado deitar-se na água e deixar as correntes deslizarem sobre ele, beber tudo o que a sua sede ansiava, deixando o rio lavar seu corpo e levá-lo para longe.
Mas Ramsay tinha uma missão, mesmo que cada passo o fizesse ranger os dentes de dor. Ele cortou pela floresta como uma faca, as árvores rodando a sua frente. Aguente-se, disse a si mesmo enquanto lutava contra a inconsciência. Pelo amor de todas as coisas, aguente.

* * *

A batida era insistente. Ele bateu e bateu e não iria parar, sacudindo as paredes ao redor da porta.
— Tem alguém aí!? — veio uma voz tensa do exterior.
Frederick só tinha ido à pousada por um momento para pegar um pouco de pão e  queijo para comer antes de retornar às suas tarefas no celeiro. Ele descobriu que o trabalho era a única maneira de erradicar os pensamentos que rastejavam acerca de seus pais – eles ainda estavam vivos? Será que fariam isso em casa à noite?
Agora, a batida na porta trouxe Frederick de volta por um breve momento. Esta era a entrada para a moradia pessoal dos Warren, uma porta usada apenas por Frederick e seus pais. Os visitantes iam para o bar na pousada principal, e só os mais próximos dos amigos eram convidados para as salas privadas dos Warren. E se, apesar das melhores garantias de seus pais, os britânicos tinham chegado para capturá-lo depois de tudo? Ou os Vesper, e as pessoas do lado de fora quisessem acabar com ele?
Frederick procurou freneticamente pela casa algo com que pudesse se defender, mas não havia muito, já que seu pai levara o rifle esta manhã. Como uma última tentativa desesperada, Frederick pegou uma faca de cozinha, suas mãos tremendo, enquanto tentava segurá-la com firmeza.
— Por favor — a voz ofegante dizia enquanto continuava batendo. — Você deve me deixar entrar. É uma questão de vida ou morte.
A voz era elevada, porém rouca, como se o orador estivesse encontrando dificuldades para formar cada palavra.
Frederick congelou segurando a faca fracamente ao seu lado. Ele sabia que deveria abrir a porta Seus pais tinham saído. Ele era o homem da casa agora.
Lentamente, forçou seus pés a atravessar a sala e colocou uma mão na maçaneta da porta. A outra manteve a faca ao seu lado. O calor da tarde tinha tornado o ar estagnado insuportável, e ele já podia sentir sua cabeça começar a doer e o suor se formando nas têmporas.
— Tem alguém aí? Por favor, responda! — a voz gritou. — Eu acabei de vir de Bladensburg.
Frederick girou a maçaneta, mas não estava preparado para o que viu. Ele saltou para trás e soltou um grito antes que pudesse se conter. Um soldado americano se apoiava na moldura, as mãos e estômago cobertos de sangue, a respiração ofegante.
— Água — o soldado pediu.
Frederick estava atordoado demais para se mover.
Por favor — o soldado insistiu.
Frederick deixou cair a faca e correu para o jarro sobre a mesa para derramar água fresca em uma caneca de estanho. Ele levou o soldado até uma cadeira na mesa, a mesmo onde sua família fazia as refeições, e perguntou se o soldado queria um pouco de pão e queijo. Isso, Frederick decidiu, era o que seus pais teriam oferecido.
— Não, obrigado — respondeu o soldado, como se pensar em comida e não na ferida que sangrava lhe trouxesse muita dor.
A água parecia descer com dificuldade, cada gole fazendo o soldado estremecer, mas o homem continuou a beber.
— Filho — o soldado falou, ofegante — obrigado... pela bondade que mostrou, mas devo falar em particular com os proprietários da pousada. Onde posso encontrá-los?
O soldado descansava um braço em cima da mesa, apoiando-se fortemente sobre ele para manter a sua postura ereta, e com o outro segurava a ferida para tentar estancar o sangue.
Frederick se perguntou sobre todo o sangue; ele nunca tinha visto tanto antes. Engoliu em seco para impedir uma onda de náusea. Mas seus pais sempre foram generosos com as pessoas que precisavam de ajuda – retardatários que vagavam pela estrada ou as pessoas pobres sem casas.
— Senhor, sinto muito, eles estão em uma viagem de negócios. Eu poderia encaminhá-lo para um médico? O senhor não parece bem, soldado.
O soldado gemeu dolorosamente, o rosto pálido. Ele levou uma mão sangrenta à testa, traçando a sujeira em seu rosto com o sangue. Suas palavras foram obscurecidas por suas respirações roucas.
— Tarde demais para um médico... Eu preciso de alguém... que saiba de minhas or-ordens, para transmitir uma mensagem urgente.
O rosto do soldado ficou desesperado. Ele parecia prestes a chorar, um homem aparentemente orgulhoso como este.
— Senhor — disse Frederick, querendo soar bravo, embora sua voz guinchasse um pouco — talvez eu pudesse ajudar?
O soldado o avaliou entre as respirações rasas, as sobrancelhas franzidas.
— Você é... apenas... um menino. Eu preciso de um agente. Eu preciso de... — o soldado não pôde continuar.
— Você precisa de um Cahill — Frederick terminou sentença do homem, sentando-se à mesa na cadeira ao lado dele. Sério, por uma vez. As palavras de seus pais ecoaram em sua cabeça. — Eu sou um Cahill. O que você precisa?
O soldado apenas olhava para ele, respirando pesadamente.
— Meus p-pais — Frederick gaguejou, a necessidade de preencher o silêncio enquanto o homem segurava seu peito. — Meus pais são os agentes que você procura. Já sabia disso, não é? É por isso que está aqui.
— Você. Filho — o soldado falou, levantando a mão escorregadia de sangue para apontar para ele. — Você deve... levar uma mensagem à Casa do Presidente...
— Senhor?
— Pegue o cavalo que me trouxe. Parta imediatamente. E diga ao mestre a mensagem que lhe dou. Se você falhar, os Vesper ganharão...
Vesper. Frederick deixou a palavra se propagar – soou como cobras e sussurros, o silvo de um mensageiro do mal.
Os Vesper poderiam acabar com eles. Se os Vesper ganhassem, seus pais estariam vulneráveis ​​– e se eles nunca voltassem para casa? E se seus pais fossem os próximos na sua lista?
Frederick forçou-se a acenar com a cabeça e tentou parecer calmo.
— Sim, senhor.
O soldado tomou mais ar. Toda a conversa o tinha esgotado, e sua respiração chiava novamente. Ele trouxe a água para os lábios mais uma vez, deixando a mão cair de sua lateral depois que tomou outro gole, o sangue jorrando livremente.
Frederick não sabia como na terra que ele cumpriria essa promessa, mas encontrou-se dizendo:
— Levarei sua mensagem, soldado.
O soldado assentiu, incapaz de manter a cabeça erguida por mais tempo. Ele cruzou os braços sobre a mesa e descansou a testa sobre eles. Com suas últimas palavras claras, o soldado alertou que o General V, o homem que havia atirado nele, estava lá fora para destruir a Casa do Presidente. Em seguida, sussurrou a tarefa que Frederick precisava completar:
— O mapa... o mapa, o anel de Gideon — mas seu discurso já estava se tornando ininteligível e sem sentido. — Encontre-o. A cor da velhice. As raízes de nosso pai.
Frederick perguntou ao homem o que ele queria dizer, e quando ele não respondeu, Frederick repetiu as palavras sem sentido, uma e outra para tentar entender o que foi dito. A cor da velhice. Raízes de nosso pai. A cada vez as palavras pareciam mais estranhas e desconhecidas. O que ele quis dizer?
O soldado deu uma última olhada para ele, acenou com e sussurrou um quase inaudível:
— Deus o abençoe, jovem Madrigal.
E baixou a cabeça sobre a mesa. Ele não a levantou novamente.
Frederick esperou um momento antes de chamar o homem, sacudindo-o desesperadamente.
— Senhor — chamou Frederick, mas o homem não se mexeu.
Era o ser humano mais sem movimento que Frederick já vira. Ele se lembrou de quando Bessie, sua vaca, tinha parido um bezerro que nasceu morto. O silêncio era o que havia assustado como um menino, embora, é claro, ele fingisse que estava bem, e mais tarde até tentou se gabar para seus amigos, dizendo que ele tinha visto um bezerro morto e eles não.
— Senhor! — Frederick repetiu, mais alto agora.
Ele colocou a cabeça no peito do homem, e quando não ouviu nada, gritou de horror com o que tinha acabado de acontecer diante dele. O homem tinha morrido em sua mesa da cozinha. O bravo soldado tinha ido embora. Certamente seus pais saberiam o que fazer, mas eles não estavam lá. E se ele corresse pela estrada e chamasse alguém para ajudá-lo? Será que o soldado precisa ser levado ao médico, ou para o cemitério da igreja? Onde estava a família deste soldado? Onde estava a sua própria?
Frederick olhou para o soldado, Ramsay, sua camisa em farrapos. Uma ferida de bala!
General V, o assassino de Ramsay, o havia perseguido. Se os Vesper encontrassem o corpo, saberiam por que ele estava na pousada e para onde estava indo.
Frederick teria que se mover o corpo de Ramsay.
A mente de Frederick cambaleou. Não havia tempo para pensar sobre o que estava fazendo ou ter medo. Ele desligou sua mente e forçou seu corpo a agir. Tropeçando para os fundos de sua casa, Frederick puxou o lençol de sua cama. Deslizou o homem da cadeira e deitou-o suavemente no chão. Em seguida, colocou o lençol sobre o corpo do homem e rolou Ramsay, de modo que ele estava totalmente envolto. Inclinando-se, içou Ramsay. O soldado pesava mais que os sacos de ração que chegavam de carro e geralmente eram necessários dois homens para transportar para o celeiro. Frederick arrastou o soldado pelo chão em direção à porta, as pernas do homem aparecendo sob o lençol.
Por favor, por favor, não deixe ninguém ver, Frederick rezou. Ele mal terminou a oração quando ouviu a porta sendo destrancada. Amos, o servente deles, estava de pé no beiral, pronto para arrumar as camas, como fazia todas as tardes.
Amos teve um sobressalto de choque e ficou boquiaberta com Frederick.
— Amos! — Frederick exclamou. — Este homem estava na batalha de Bladensburg, ele caiu fora da estrada. Temos que movê-lo.
— Eu vou chamar o prefeito — disse Amos, seu rosto urgente. — Deixe-o lá até que a ajuda chegue.
— Amos — Frederick implorou — este homem estava sendo perseguido por um general britânico. Não podemos deixá-los saber que ele estava aqui. Pode me ajudar a levá-lo para o celeiro? Só até meus pais voltarem?
Amos parecia muito alarmado a falar.
— Não podemos colocar em risco a pousada, não com os ingleses tão perto! — Um soldado morto em seus braços colocaria sua casa em risco – como isso tinha acontecido no decorrer de uma pausa da tarde para um lanche de queijo?! Frederick estava tendo problemas para conectar seus pensamentos.
Amos concordou em silêncio, ainda atordoado. Em seguida, ele começou a se mover. Amos levantou as pernas do morto enquanto Frederick agarrou os braços, que ficavam mais pesados a cada segundo. Lentamente ele deu as costas à porta e desceu os degraus, um por um. Eles não podiam arriscar chamar a atenção dos outros trabalhadores na pousada e, especialmente, não deviam perturbar os clientes. E se os Vesper estivessem observando-os?
Frederick e Amos estavam à vista agora, precisando atravessar o gramado para o celeiro o mais rápido possível, sem que ninguém vê-los.
No celeiro, Frederick colocou Ramsay em uma cama de feno. Sangue se infiltrou através da palha, então eles colocaram uma lona sobre o corpo. Amos encheu um balde de água e sabão para lavar os rastros do sangue. Ele prometeu que encontraria o prefeito depois que tivesse terminado. O servente se benzeu quando passou pelo corpo estendido no feno.
Frederick estava apavorado. Este agente Madrigal morreu bem na frente dele, e sua família estava no mesmo perigo mortal. Se ele não conseguisse entregar a mensagem de Ramsay, seu destino poderia ser o mesmo que o do soldado.
Frederick ajoelhou-se diante do soldado morto e orou seriamente pela primeira vez em sua vida. Ele tinha ido à igreja antes. Todos os domingos, de fato, mas geralmente pedia que seus amigos se impressionassem com um de seus truques ou que as meninas bonitas na praça dançassem com ele durante as festas do Dia do Trabalho. Mas hoje, Frederick rezou com todas as forças que tinha para vencer os Vesper e manter a sua família segura. Ele orou pelo futuro de sua nação conturbada. Finalmente, Frederick desejou que este soldado, Ramsay, repousasse em paz no céu.
Deus, cuide de mim agora, enquanto eu continuo a jornada deste homem morto.

* * *

O cavalo do soldado seguiu seu caminho a leste em direção à capital, com Frederick montando inquieto.
Ele teve que ajustar os estribos, uma vez que Ramsay era muito mais alto, mas ainda se sentia incapaz de montar um animal tão gigantesco, e seu coração batia alto em sua caixa torácica.
Como um menino de doze anos neste enorme cavalo negro, Frederick atraiu olhares dos moradores locais, alguns dos quais o conhecia. Alguns vaiaram ou gritaram, avisando que ele não deveria brincar com o cavalo de outra pessoa.
Frederick fingiu não ouvi-los e manteve o grande cavalo andando. Pela primeira vez, isso não era uma brincadeira, e ele não estava sendo irresponsável. Sério, por uma vez.
Ventava muito e os céus foram escurecendo, uma tempestade sopraria em breve.
O ar tinha o cheiro de fumo molhado do início do outono.
Mais a frente, Frederick viu um grupo de soldados americanos na praça da aldeia, dando de beber a seus cavalos com uma bomba na fonte.
Suados e barbudos, alguns dos homens ainda estavam vestindo suas capas, enquanto outros baixaram a cabeça. A praça em torno deles estava mais tranquila do que deveria estar, da forma como fica antes de um motim, ou do discurso de um político reverenciado. Mesmo a taberna local estava silenciosa. Algumas das famílias da cidade se aproximaram dos soldados para oferecer os seus agradecimentos e apreciação em voz baixa. Serviram-se pratos de comida, e gentilmente tentaram descobrir o que tinha acontecido em Bladensburg.
Frederick podia dizer que tinha sido uma luta difícil. Pólvora revestia as sobrancelhas dos soldados, os uniformes estavam rasgados, a pele arranhada. O suor embebido através do tecido pesado e os seus rostos estavam borrados com a fadiga do calor. Os homens, muito simplesmente, pareciam abatidos.
Suas expressões escureceram à visão de Frederick, e eles começaram a gritar e apontar para ele. O cavalo relinchou e gemeu, os soldados correram na direção dele com a morte em seus olhos.
Enquanto Frederick se aproximava, os soldados começaram a atirar coisas nele, pedras e galhos pesados.
— Casaca vermelha! — um dos homens gritou para Frederick, vindo em sua direção rápido e ríspido.
Do que ele está falando?!
— Traidor sangrento! — gritou outro.
Frederick tentou ir mais rápido, já que este cavalo era um dos mais velozes que ele já tinha montado. Mas por que eles estavam gritando com ele? Assim que pensou que estava em segurança fora da aldeia, Frederick viu dois homens a cavalo atrás dele pelo caminho.
Frederick esporeou seu cavalo, impulsionando-lhe para frente, apertando as rédeas e segurando tão firmemente quanto pôde.
Apenas me leve para Washington. Para Washington! Frederick repetiu para si mesmo. Os homens atrás dele vaiavam. Eles estavam gritando coisas para ele:
— Corra, covarde!
— Se você alguma vez mostrar seu rosto novamente...
Frederick acreditava que estava em segurança fora de vista e que os homens iriam deixá-lo sozinho agora. Mas, enquanto relaxava em sua sela, o cavalo tropeçou e Frederick caiu no chão.
Suas costas levaram a maior parte do choque em sua queda. Frederick ficou imóvel, esperando sentir suas pernas novamente.
De cima de sua cabeça, Frederick ouviu uma voz dizer:
— Você é algum tipo de garoto de recados, traidor?
Frederick gemeu enquanto a sensibilidade começava a voltar em sua lateral – a velocidade com que seu corpo havia sido jogado fez o chão parecer mais duro do que era quando caiu, como se tivesse sido chutado no rim.
— Senhor, por que continua me chamando assim? Eu sou tão americano quanto você — Frederick gemeu.
— Se você não é um garoto de recados britânico, então o que está fazendo em um cavalo britânico?
De sua posição imóvel no chão, o rosto de Frederick ruborizou. Claro! Ramsay deve tê-lo roubado. Como ele podia não ter percebido e removido a sela real que o cavalo estava usando? Eram das cores vermelho, dourado e preto. Ele poderia muito bem ter estado agitando uma bandeira britânica e cantando “Governo Britânico!”
Do chão, Frederick conseguiu sorrir antes de se levantar e se afastar.
— Por que eu o roubei, é claro.

* * *

Com o cavalo despojado do uniforme inimigo, a viagem foi muito mais suave. Igrejas, escolas e lojas pontilhavam o verde. As árvores ficaram menos densas enquanto a maior parte da terra foi limpa e dividida em lotes para a agricultura e para as estradas como a que Frederick usava para chegar.
Cabanas de madeira ladeavam as estradas, assentadas atrás de quintais vazios que eram, geralmente, reservados para animais. Entretanto, agora a maioria dos animais fora afastada desta área. Os campos de trigo e tabaco espalhavam-se ao seu redor, o milho estava mais alto do que Frederick, antecipando a colheita.
Frederick podia ver a cidade se aproximando. À distância ficavam todos os escritórios do governo. A grande faixa verde, o Mercado, estava chegando à vista. No início, tudo parecia tranquilo. Mas quanto mais perto ele chegava da Casa do Presidente, mais claro ficava que a cidade estava prestes a ser atacada. Todo mundo estava fazendo as malas e evacuando o mais rápido possível, indo na direção oposta de Frederick.
Mais adiante, as estradas estavam obstruídas por carruagens familiares, mães segurando bebês, carroças carregadas até o último centímetro com troncos e ferramentas, animais e alimentos, uma cadeira ou mesa, se pudesse ser carregado. Em toda parte, os sons de pandemônio ressoavam.
Homens berravam, mulheres gritavam, bebês choravam, crianças brigavam, cães latiam, galinhas cacarejavam e cavalos relinchavam, como se até mesmo os animais pudessem dizer que poderia não haver um amanhã. O vento pré-tempestade levava o lixo espalhado e peças despachadas ao redor, como um carrossel selvagem.
Cabras abandonadas se espalhavam na estrada.
Enquanto Frederick entrava mais profundamente na cidade, as estradas esvaziavam, e uma calma estranha preencheu o ar. As pessoas tinham abandonado tudo.
Janelas e portas foram deixadas abertas ao acaso, cercas foram destravadas, e Frederick viu vacas descansando de um lado da rua.
Frederick podia ouvir janelas quebrando – ele suspeitava que as pessoas estavam aproveitando a oportunidade para vandalizar o máximo da propriedade que podiam antes de fugir da cidade.
O cavalo trotou pela cidade, ajudando Frederick a orientar-se enquanto ia na direção de uma Avenida Pennsylvania vazia. O rio estava marrom com lodo e lama, e o céu estava completamente cinza. A espessa umidade perdurava no ar. Os mosquitos estavam por toda parte, e Frederick teve de sacudir a mão na frente do rosto para mantê-los longe. Washington havia sido construída sobre um pântano, e Frederick nunca tinha sentido isso tão fortemente quanto sentiu agora.
Ele enxugou a testa com um lenço velho.
No número 1600 da Avenida Pennsylvania, Frederick parou por um momento para apreciar a Casa do Presidente. Era uma visão de tirar o fôlego. Mesmo em suas horas finais, com os ingleses em seu caminho para se saqueá-la, a casa erguia-se orgulhosa. Os três andares e onze baias brilhavam à luz do dia, junto com as colunas e as árvores que ficavam em torno deles. As janelas eram altas e aparentemente intermináveis, e um parapeito beirava o telhado como se um confeiteiro tivesse enfeitado as bordas de um solitário bolo branco e gelado.
Mais uma vez, as palavras de Ramsay passaram pelo cérebro de Frederick. Se você falhar, os Vesper ganharão. O céu ficou nublado, perdendo luz, e o vento farfalhava nas árvores como um ladrão pisando suavemente. Ele tinha que dizer ao presidente que o General V estava a caminho, e tinha que encontrar aquele mapa. Se não o fizesse, sua família poderia compartilhar o mesmo destino que aquela bela casa.

* * *

Os jardins da Casa do Presidente pareciam desertos. Rotatórias levavam a pomares, canteiros de flores e ladeava os caminhos dos pedestres, levando a bosques de árvores frutíferas e hortas.
As roseiras liberavam suas últimas fragrâncias perfumadas de flores que morrem no final do verão. Fontes, estátuas e gaiolas quebradas pontilhavam o gramado verde. Bosques de árvores eram divididos em blocos, e pavilhões escuros ofereciam descanso do sol. Hera crescia nas treliças do pórtico que davam forma à famosa mansão.
Frederick temiam que fosse difícil de entrar na casa, mas a entrada agora parecia ser quase fácil demais. Ele esperava ter que driblar filas e filas de guardas uniformizados ostentando rifles, em seguida, ter que lutar contra agentes e funcionários do Estado, mas não havia quase ninguém ao redor. As únicas pessoas que ele vira foram dois escravos, examinando a cidade vazia em alarme.
O portão de ferro forjado estava trancado – nenhuma surpresa, mas Frederick era um bom escalador nos verões preguiçosos, gastos nas árvores ao redor da pousada. Ele escalou em pouco tempo e do topo da cerca pulou com um baque para o gramado. Ele observou os dois caminhos – ambos claramente livres.
Um guarda solitário – ou era um servo? – saiu para o pórtico. Frederick deu uma guinada para se esconder atrás das sebes, mas ele tinha sido visto.
— Você aí! — gritou o homem. — Fora!
Frederick correu pelo gramado verde esmeralda, os pés quase deslizando debaixo dele na grama recém-cortada. O homem corria atrás dele, acenando com uma pá. Ele vestia macacão e botas grossas. Frederick estava fugindo do jardineiro do presidente.
Frederick corria em direção ao canto da casa, mas o jardineiro quase em cima dele. Ele lançou a pá em Frederick, mas Frederick esquivou-se por um milímetro.
Frederick correu em linha reta e no último segundo dobrou a esquina. Ele examinou os caminhos para qualquer lugar onde poderia se esconder do jardineiro, mas tudo era visível. Ele estava prestes a fazer uma pausa nos pomares, um lugar onde poderia se esconder, quando... poderia ser?
Uma janela aberta do outro lado da casa.
Frederick desviou das tábuas e atirou-se através da abertura da janela. Ele caiu no chão e congelou por um momento antes de endireitar-se. Fechou o vidro, travando o topo. Frederick viu-se de repente no frio hall de entrada da Casa do Presidente – sem ter a menor ideia de como encontraria o presidente.

* * *

O hall de entrada sozinho já era maior que toda a casa da família de Frederick. Era tudo muito espetacular, uma atração em um dia tão terrível – até mesmo o ar parecia mais majestoso abaixo do teto de mármore. Frederick teria gostado de parar e admirar cada canto e recanto individualmente. Mas nada disso sobreviveria ao anoitecer. E se ele não tivesse cuidado, nem ele iria.
Frederick correu de sala em sala, olhando por cima do ombro, caso o jardineiro retornasse. Ele se escondeu atrás de colunas e mergulhou atrás de móveis, mas não havia ninguém lá. O espaço estava deserto, e o presidente não estava ali. O hall de entrada levou a um salão transversal, com o que parecia ser uma sala de jantar de Estado de um lado, e uma menor, privada, do outro. Objetos e artefatos históricos estavam exibidos artisticamente nas prateleiras do chão ao teto, e lambril branco corria ao longo dos andares.
Parecia que uma tempestade havia passado pela biblioteca do presidente. Documentos estavam espalhados por toda parte. Havia alguém na casa?
Frederick ouviu passos e escorregou para debaixo de uma mesa. A biblioteca estava coberta de tapetes orientais macios e cheirava a cedros e tabaco. Após alguns segundos se passarem, ele saiu na ponta dos pés. Era o jardineiro de novo, com pressa. Frederick o seguiu até a escadaria de mármore. Ele tinha de dar dois passos de cada vez para acompanhá-lo, então retroceder o suficiente para que o homem não pudesse vê-lo.
A escada desdobrou-se em mais salas enormes. Frederick seguiu o jardineiro através de outro salão central, então por um cômodo luxuosíssimo e uma belíssima antecâmara que desfraldava em uma sala de estar. Lâmpadas iluminavam suavemente jogos completos de cristal cintilante e tapetes intrincados sob seus pés – o Exército Britânico faria picadinho de tudo isso em pouco tempo. Onde estava o presidente?
Frederick notou que o papel de parede mudou de verde menta para azul claro, depois para um rosa pálido, e agora as paredes brilhavam coral e ouro. Eles chegaram à ala da primeira-dama. Através de uma entrada em arco, viu um salão que ostentava uma vista para a rua. No final do corredor, Frederick podia ouvir o tilintar de metal no chão.
A voz do jardineiro chegou a ele bruscamente. Frederick pressionou o ouvido na porta. Ele podia ouvir a voz do presidente lá dentro, também? A porta se abriu rispidamente, e Frederick tropeçou no chão do que parecia ser uma sala de prata. Encaixado em vidro, a célebre prataria fazia até mesmo as sombras cintilarem. Frederick se encolheu no chão, os armários de cristal derramando prismas de luz sobre o jardineiro e a mulher que estava ao lado dele, a primeira-dama.
Frederick reconheceu Dolley Madison das litografias nos jornais. Ela usava uma túnica de renda rosa e seu rosto era decidido. Frederick ficou subitamente consciente de seus joelhos enlameados. Com seus grandes anéis e boina com pregas brancas, nem mesmo uma invasão britânica poderia prejudicar o estilo desta dama. Mesmo com sua vida em jogo, Dolley Madison estava vestida para a festa da vitória. Mas ela não pararia para ser admirada.
— Bem — Dolley exclamou — então este é o vadio do jardim. — Virando-se para o jardineiro, ela disse: — Eu cuido disso. Preciso que retorne à vigia, e obrigada pelas atualizações.
— E-e-entenda... — Frederick gaguejou.
Ele estava esperando o presidente, e se viu com a língua ligeiramente presa, na presença de tamanha beleza. Alguns dos vasos de cristal estavam abertos onde o seu conteúdo havia sido removido, como se a Casa do Presidente já houvesse sido assaltada. No centro da sala de prata, um grande baú de couro estava aberto sobre a mesa. Pratos, taças e travessas ausentes dos vasos da sala estavam cuidadosamente dispostos em seu interior.
— Você vai apenas continuar aí de pé? — Dolley perguntou-lhe. — Fale! Declare o seu propósito
— Minha senhora, eu preciso falar com seu marido imediatamente — Frederick falou, recuperando sua voz. — Eu venho com notícias urgentes.
— Meu marido já foi embora, bem como todos aqueles que servem ao Presidente. Quaisquer notícias que você tenha serão direcionadas a mim. Você está aqui com uma estimativa da chegada do Exército Britânico? Meu jardineiro esteve há pouco no telhado e os viu à distância – temos apenas uma hora.
Frederick sentiu seu rosto e ombros caírem – todo o trabalho que teve foi por nada. Aqui estava, realmente dentro da Casa do Presidente, mas o presidente nem ao menos estava lá para receber as notícias que ele viajou tanto para entregar. Mas se ele falhasse...
Dolley recomeçou a empacotar sua prataria. Havia apenas um último armário de cristal para ser descarregado, suas portas de vidro com bordas de ouro. Com a velocidade de cinco pessoas, ela inspecionou as peças da prataria, as envolveu em tecido e as depositou no baú de couro.
— Senhora Primeira Dama — Frederick começou.
— Dolley — Dolley falou. — E se for ficar, pode muito bem ser de alguma serventia. Preciso que me ajude a embalar o conteúdo deste console. Prefiro morrer a deixar esses casacas vermelhas ver um grama desta prataria.
Frederick começou a mover as peças, mas ele era mais lento do que ela. Suas mãos nunca tinham segurado tanta riqueza, e ele temia quebrar alguma coisa. A prataria era fria ao toque, e Frederick pensou que seria assim se os lagos pudessem ser magicamente solidificados.
— Se você encontrar qualquer marca estranha neles, por favor, mostre-me — disse Dolley. Frederick limpou a garganta e abriu a boca para falar. — Sim, sim, ande logo com isto — ela exclamou. — Há uma guerra se aproximando, ou você ainda não soube?
— Sou de um vilarejo de fora do distrito, próximo a... próximo a Bladensburg — Frederick balbuciou. — Um s-soldado veio à nossa porta hoje enquanto meus pais estavam fora. Ele morreu sobre a mesa da nossa cozinha, mas tinha uma mensagem para o presidente, sobre, hum, negócios secretos.
— Que tipo de negócios secretos? — Dolley perguntou sem tirar os olhos da prataria, atravessando a sala no que parecia ser três passos de volta para o baú.
Frederick respirou antes de dar o grande salto.
— Ele falou-me sobre o que seu marido vai entender como uma questão Cahill confidencial. Dolley engasgou. Ela finalmente parou de se mover. — Você está ciente destes assuntos? — perguntou Frederick, que não tinha certeza se estava autorizado a falar com alguém sobre assuntos Madrigal. — Eu realmente preciso falar com seu marido.
Eu sou Cahill — Dolley sussurrou, apesar de não haver ninguém por perto para ouvir. — E é a mim que sua mensagem deve ser entregue. James não faz ideia, e se isso chegar a ele...
— A senhora? — Frederick exclamou.
— Como vou saber se você não é um espião? — Dolley clamou. — Você nem ao menos se apresentou apropriadamente.
— Meu nome é Frederick Warren, senhora, é uma honra conhecê-la — Frederick declarou. Não havia como voltar atrás agora – a mensagem de Ramsay! — Há um homem perigoso disfarçado como um agente britânico vindo para cá. General W.
Dolley olhou para ele como se ele fosse louco, antes de seu rosto ficar tão branco quanto a casa em que estavam.
— General V, você quis dizer — Dolley engasgou, uma mão subiu à garganta. —Preciso encontrar o mapa!
— O mensageiro não estava fazendo sentido quando morreu — Frederick explicou, contando as palavras que Ramsay tinha sussurrado em seu leito de morte sobre o mapa e o anel de Gideon.
— A cor da velhice. As raízes de nosso pai — Dolley afundou em uma cadeira sem se dar conta de que estava de pé. — O mapa para o anel de Gideon. O mapa está escondido nesta casa, em algum lugar. Nem mesmo eu sei onde ele está. General V não pode encontrá-lo – se o fizer, os Vesper subirão ao poder, e nós nunca conheceremos a liberdade novamente.
Depois de tanta comoção, sua imobilidade sinalizou desespero como nunca Frederick tinha visto. Pensou em sua mãe naquela manhã, abraçando-o. Ele não deveria parar e ir para casa o mais rápido que pudesse, para manter-se seguro? Ele se lembrou da promessa que havia feito à sua mãe – que correria ao primeiro sinal dos britânicos. Tecnicamente, o trabalho dele aqui estava concluído. Frederick poderia ir, sabendo que entregara a mensagem de Ramsay, e a missão estava completa. Mas se os Vesper ganhassem, eles iriam derrubar os agentes Madrigal, e sua família nunca mais estaria segura. Eles sempre seriam caçados, e todos podiam acabar como Ramsay. Seus pais estavam vulneráveis agora. Eles o deixaram devido a negócios Madrigal. E se eles caíram na armadilha de um assassino? A missão de Frederick estava apenas começando.
— Os britânicos estão a 45 minutos de distância, minha senhora — o jardineiro chamou.
Se ficassem aqui, isso poderia significar suas vidas. Se fossem embora, os Vesper poderiam encontrar o mapa escondido e descobrir o anel de Gideon. Era tão horrível que Frederick quase riu. Da maneira que o horror, quando chega muito perto, pode parecer engraçado.
— Bem... — Frederick disse, saindo de seu pesadelo. Exceto que o pesadelo estava ainda a decorrer, e ele estava bem acordado. — Devemos procurar em outro cômodo, já que este está quase terminado. Qual é a coisa mais valiosa que lhe resta? — perguntou Frederick.
Ele olhou para a primeira-dama diretamente, pela primeira vez, do outro lado da mesa. Eles estavam no mesmo barco agora. Dolley não tinha falado por um tempo, mas ela respondeu sem sequer pensar desta vez.
— O retrato do General Washington na sala de jantar. Eu não poderia sair até que esteja seguro — disse Dolley.
— Quarenta e quatro minutos — o jardineiro chamou nervoso, atravessando o corredor.
Eles arrastaram o baú lotado com a maioria do conteúdo do quarto para baixo com o jardineiro, para ser mandado embora para a guarda com os outros. Eles tentariam voltar para buscar o restante da prataria no pouco tempo que lhes restava.
No andar de baixo, o retrato brilhava como um farol na sala de jantar. A longa mesa brilhava pelo polimento, e as cadeiras descansavam orgulhosas ao lado dela, como uma fileira de soldados esperando atenciosamente. O óleo sobre tela representava um Washington régio segurando uma espada numa das mãos e esticando o outro braço magnanimamente para fora, a palma da mão virada para cima. O presidente vestia um rico casaco preto e calças, uma cadeira de veludo vermelho atrás dele e um tinteiro e pena ao seu lado. As cores eram vivas e majestosas, os vermelhos luxuosos e com suavidade, a semelhança com um rosto tão real que parecia que o homem poderia sair andando da pintura a qualquer momento. Seu rosto, de fato, possuía um brilho, seus olhos reluziam com vida.
Antes que Frederick pudesse falar, os olhos da primeira-dama se encheram de lágrimas. Com todas as ameaças Vesper, Frederick tinha esquecido tudo o que Dolley estava perdendo pelas mãos dos britânicos, também. Este país que havia lutado com orgulho, esta casa que permaneceu como uma prova de independência, agora estava para ser desmoronada pelos britânicos que eles haviam derrotado outrora. Frederick preocupou-se com ela – uma rachadura foi surgindo em seu verniz polido.
— A senhora acha que é possível... — Frederick arriscou.
— Prata é a cor da velhice — Dolley começou, permitindo que um pouco de seu otimismo retornasse à voz, e eles olharam para o primeiro presidente dos Estados Unidos, com sua notável peruca grisalha.
Raízes de nosso pai — Frederick continuou. — Pai, como no pai da pátria!
— Mas não há nenhum mapa nele! — exclamou Dolley.
— Nenhum mapa que possamos ver — Frederick corrigiu. — Vamos remover o retrato, e então poderemos realmente inspecioná-lo. Acho tem de ser isso, certo?! — Frederick podia sentir a esperança crescendo nele, como se a esperança sozinha pudesse fazer algo de verdade. — A moldura parece pesada.
— A moldura não é importante — Dolley disse, suas bochechas corando com uma nova e apressada excitação. — Apenas a pintura importa. Precisamos nos apressar se quisermos sair do edifício.
Frederick examinou a sala, procurando algo que pudesse partir a madeira. Tão rápido quanto pôde, correu de volta pelo caminho que fez pelo jardim, através de quartos e mais quartos condenados. No jardim, Frederick encontrou um machado com cabo de madeira próximo ao galpão do jardineiro. A cabeça do machado brilhava intensamente ao sol. A superfície do metal estava arranhada, e marcações atravessavam sua superfície. Os britânicos já estariam nos arredores da cidade agora.
Já era quase noite, e a temperatura ainda estava brutal, mas Frederick mal ficara fora o suficiente para suar antes de sair correndo de volta através das amplas salas da Casa do Presidente. Frederick tentou refazer seus passos para não se perder no grande labirinto. De volta à sala de jantar, deixou seu impulso levá-lo até a pintura, e quando Dolley assentiu, ele atacou a moldura de madeira, tendo cuidado para não errar e acertar a pintura ao invés. A moldura era coberta com flocos de ouro, a madeira intrinsecamente esculpida. Parecia pesada e resistente na parede. Ele errou a madeira por completo, oscilando em um círculo. Vergonhosamente, a única coisa que o machado atingiu foi o ar. Dolley cobriu a boca para abafar uma risada, e, em seguida, acenou para ele com urgência para tentar novamente. Frederick alinhou-se em frente à pintura, puxou os braços para trás, e deu um longo e forte golpe, sem tirar os olhos do quadro enquanto girava o braço.
CRAC.
Um som satisfatório, ele havia acertado o ponto ideal da madeira. Afastando-se para olhar seu trabalho, Frederick viu que o quadro rachou em um canto, partido em dois. A primeira-dama aplaudiu.
— Não se preocupe, Frederick, eu não vou contar aos guardas. Vamos dizer a todos que John Francês fez isto — disse ela, e começou a retirar cuidadosamente a pintura ainda maravilhosamente intacta da moldura quebrada. Este símbolo da república, o primeiro presidente – salvo apenas minutos antes de ser desfigurado pelos britânicos.
Enquanto ela tirava o resto da tela de seu apoio, a moldura de madeira caiu de seu suporte sobre a parede. Ela sustentava a pintura pelas extremidades, como se fosse um pergaminho sagrado. George Washington olhou para eles, sua peruca escovada e empoada. Seu rosto pintado deu um meio sorriso de aprovação. Pai da nação, é claro!
Cor da velhice, as raízes de nosso pai — Frederick sussurrou, como as palavras para um feitiço encantado. — É isso!
Frederick e Dolley tinham demorado apenas um momento para retirar a pintura, de costas para a porta, quando ouviram alguém atrás deles.
— Nós levaremos isso para vocês — disse uma voz grosseira com um sotaque britânico entrecortado.
Dolley e Frederick viraram-se. Era o General V, olhando furiosamente da entrada para a sala de jantar. Sua cicatriz fez uma carranca para eles em sua testa.
Oh, não, é realmente ele! Frederick só conseguia pensar em uma coisa: fugir. O General V ainda vestia o uniforme britânico, e tudo nele era longo e magro, afiado como um punhal. Seu corpo parecia dolorosamente esticado, e ele usava um fino bigode torto. Ele tinha uma arma apontada diretamente para o coração de Dolley.
— Sra. Madison — ele ronronou, avançando em direção a ela — acredito que nós já nos conhecemos.
Seu sorriso ficava mais torto a cada passo. Dolley tremia enquanto ele se aproximava, o quarto diminuindo em torno dela.
— O Exército Britânico? Já está aqui?
— Apenas nossos cavaleiros Vesper, minha querida. O resto do exército é esperado — e aqui ele se inclinou para perto do rosto de Dolley, fazendo uma pausa para enfatizar — em breve.
Dolley voltou-se e deu um tapa em seu rosto, com força, o desafio franzindo sua testa. Frederick deu um passo para trás, o seu coração correndo descontroladamente. Arma na mão, o general levantou o braço para golpeá-la de volta. Sem pensar, Frederick inseriu-se entre eles. O general avaliou Frederick, o braço ainda levantado.
— E quem seria você, garoto? — ele perguntou, circulando ao redor de ambos, como se fossem leões no circo e ele fosse o mestre de cerimônias.
— Frederick Warren — Frederick estremeceu, incapaz de inventar um nome falso naquele momento.
— Como Henry e Wilhelmina Warren? — perguntou o General V.
Frederick sentiu como se o ar tivesse sido arrancado dele. Uma onda de náusea quase o levou ao chão. Este homem horrível conhecia seus pais pelo nome!
— Eu não sei a quem está se referindo, General — respondeu Frederick, embora General V o tivesse visto recuar.
O que ele faria com os pais de Frederick agora? Era tudo culpa de Frederick!
O General V não seria contrariado. Ele se virou para Dolley e repetiu:
— “A cor da velhice”, foi o que vocês disseram? “Raízes de nosso pai”? Ótimo, a liderança Vesper aprecia as dores que passaram para entregar o mapa — rindo levemente, General V disse: — Eu vou pegar isso de você.
Com seus longos dedos de aranha, ele estendeu a mão para a tela que Dolley agarrava perto de seu coração.
— E você vai aprender que nenhuma boa ação — disse ele, tomando a pintura — fica impune.

* * *

O porão da Casa do Presidente era um labirinto escuro como breu. Não havia janelas, e Dolley e Frederick não conseguiam ver nada. O General V os forçou a descer as escadas e os amarrou a uma viga na adega. A corda enterrava-se nos pulsos e dedos de Frederick. Preciosos segundos se passavam e o menino supunha que o Exército Britânico acabara de atravessar a alameda.
Frederick podia sentir o sangue escorrendo de seus joelhos e cotovelos na escuridão. Ele sofrera uma grande queda ao descer as escadas. Poderia ser pior, Frederick lembrou a si mesmo, pensando nas costas de Ramsay. Apenas joelhos esfolados.
— A pintura... o mapa deve estar escondido em algum lugar nela, e agora se foi! O General V descobrirá onde o anel está! — Frederick sussurrou.
— Eu não quero morrer aqui, Frederick — Dolley falou. Sua voz estava rouca e baixa.
— Nós não vamos — respondeu Frederick, embora estivesse tremendo, tentando convencer a si próprio. — Nós não morreremos aqui — repetiu ele. Será que o General V os torturaria agora? Será que ele e Dolley estariam entre as chamas quando os britânicos incendiassem a casa? A mente de Frederick vacilou. — Como podemos sair daqui? — Frederick arriscou, mais pensando em voz alta do que realmente esperando uma resposta.
Algo caiu no chão acima e soou como vidro quebrado. Passos pesados martelavam escadas abaixo. A porta se abriu e, na escuridão, Dolley e Frederick só conseguiam ver uma luz branca flutuando na direção deles, e o som de respirações agitadas, o ruído áspero indo na direção de onde eles estavam amarrados. Uma lamparina – a chama se elevava, e a forma das maçãs do rosto proeminentes do General emergiu da escuridão.
— Vocês dois! — ele gritou. A luz destacou as sombras sob seus olhos e sua boca cruel e retorcida. — Vocês mentiram para mim! E agora vão pagar!
— Do que você está falando? — Dolley choramingou. — Você tem o mapa!
— Oh, você fala daquela pintura horrenda — disse ele, saliva voando de sua boca. Frederick podia senti-la encolhendo-se atrás dele na escuridão. — Não havia mapa algum naquele pedaço sentimental de arte infantil!
— Mas... — Dolley murmurou — a cor da...
Frederick a cutucou para que ela parasse de falar.
— Sim? — O General V indagou. — O que tem isso?! Deve haver alguma outra coisa que responde aos mesmos enigmas. E vocês dois irão resolvê-lo. Se não fizerem isso, eu os deixarei queimando aqui. Minha única tristeza é que eu mesmo não estarei aqui para ver! Talvez eu garanta um bom lugar bem ali fora dos jardins — disse enquanto sua voz aumentava um tom, encantado consigo mesmo. — Agora, digam-me onde o mapa está, ou a diversão realmente vai esquentar.
A alegria do General V alimentou o medo de Dolley como fumaça em brasas. Dolley começou a chorar baixinho, e pareceu a Frederick que ela estava desistindo. Eles deveriam ter fugido da Casa do Presidente quando todos advertiram que os britânicos estavam por perto. Frederick não conseguia pensar direito. Como eles poderiam dizer ao General V onde o mapa estava escondido, se eles mesmos não sabiam? Os olhos de Frederick procuravam por pistas, mas tudo o que ele viu foi escuridão. Eles tinham que sair daquele porão. Essa era a primeira coisa.
— Eu lhe direi onde o mapa está com uma condição. Se você nos deixar ir — a voz de Frederick era clara, perfurando a escuridão.
O riso perverso parou.
— Frederick — Dolley começou, mas ele gentilmente apertou o braço dela.
Vou nos tirar daqui.
— A Sra. Madison não sabe onde o mapa está — Frederick continuou. — Eu sabia o tempo todo. A primeira-dama é demasiado vulnerável para este tipo de informação privilegiada. Eu só estava esperando que ela saísse para poder pegá-lo – até você aparecer.
— E um menino de doze anos de idade não seria muito vulnerável à inteligência deste tipo? Como você poderia conhecer tais segredos?
Frederick hesitou.
— Tenho minhas fontes. — Apressando-se, ele continuou, — vi o suficiente de você para ter certeza de que não deveria enganá-lo agora — Frederick imaginou que bajulação poderia funcionar, pelo menos por agora. — Deixe-nos ficar com a pintura — Frederick acrescentou — e eu lhe entregarei seu mapa.
— Frederick! — exclamou Dolley.
Frederick sabia que ela deveria estar se perguntando se ele esteve mentindo para ela o tempo todo. Ou se ele estava agora salvando suas vidas. Ou ambos.
— É claro — disse o general, acariciando seu bigode — mostre-me o mapa, e eu vou, com certeza... libertá-los.
Frederick não acreditou nele nem por um minuto. O General V provavelmente preferiria morrer a deixar dois Cahill saírem livres. Mas se eles pelo menos conseguissem chegar ao andar de cima, poderiam ver. E isso os deixaria um passo mais perto de escapar.

* * *

O General V arrastou Dolley e Frederick escada acima em direção ao hall de entrada.
Seus pulsos doíam com as cordas fortemente apertadas, e estava tão escuro que o garoto mal podia ver os braços puxando-os para subir as escadas. Os degraus rangiam enquanto subiam, e a cada passo Frederick estava mais determinado – como escapar?
No topo das escadas, General V empurrou seus cativos no chão. Os lustres brilhavam – alguém deve ter acendido o óleo – e o clarão cegou Dolley e Frederick, que protegeram os olhos com o braço.
— Agora, onde está o mapa? — General V rugiu, puxando Frederick pelo braço e balançando-o em torno de modo que o rosto feio do general estava muito perto de Frederick.
Os corajosos escravos que tinham ficado olhavam com horror a partir das bordas do hall de entrada.
O servo francês tinha ido, e o jardineiro montava guarda ao ar livre, pronto para fugir no último segundo. Os escravos eram os únicos.
— B-bem — Frederick gaguejou — veja, eu tenho que mostrá-lo para você. Não posso dizer aqui, com tantas pessoas ao redor.
Como comprar mais tempo?
— E eu, hã, preciso ver a pintura como prova de que você manterá sua palavra.
General V tirou um punhal do cinto e empurrou-a contra as costas de Frederick. Ele não furou sua pele, mas a lâmina rasgou a camisa de Frederick, de modo que o metal apertou bruscamente contra a sua pele.
— Não se mova, entendeu?
Frederick assentiu.
General V chamou por seus assistentes, mas evidentemente eles já estavam vasculhando a casa para procurar o mapa.
— Espere aqui — disse General V, estufando com impaciência.
Quando ele deixou o hall de entrada, Frederick virou-se para Dolley.
— Nós temos que correr, agora, vamos!
— E o mapa? — perguntou Dolley.
Eles já tinham começado a correr. Seus pulsos e dedos ainda estavam amarrados, deixando-o mais lento.
— Ele não sabe onde está – e nem nós. O mapa vai queimar com o resto da casa, logo que os britânicos cheguem, e dessa forma ninguém o terá — Frederick sussurrou.
— Nós não podemos sair pela porta, há Vespers vigiando.
— Talvez uma janela dos fundos! — Frederick gritou enquanto corriam para o lado da sala onde Frederick entrou.
Frederick tinha trancado a janela depois que entrou, e não havia nada por perto para quebrar o vidro. Ele não conseguia erguer o trinco com os dedos e pulsos amarrados.
— Rápido — Dolley exclamou — antes que o General V volte!
Frederick ergueu o cotovelo e fechou os olhos. Um, dois, três!
CREEC.
Frederick atingiu a janela tão forte quanto podia. O som do vidro quebrando foi a melhor coisa que tinha ouvido durante todo o dia, e ele podia ver o buraco onde o cotovelo tinha perfurado. Ele nem sequer pensou no sangue. Seu cotovelo estava ferido, mas isso não era nada comparado com o que General V faria. Ele esperava que o General V não tivesse ouvido o acidente.
— Dolley, você primeiro — disse Frederick, ajudando-a a sair da janela da melhor maneira possível.
Dolley passou uma perna e depois a outra, cuidando para não se cortar no vidro no processo. Lentamente, ela abaixou-se para fora da janela e pousou na grama do lado de fora.
Frederick teve uma ideia. Esfregou a corda que prendia seus pulsos contra o vidro afiado ainda preso na janela. A primeira vez não fez nada com a corda, e na segunda passagem, ela mal desgastou.
— Frederick! — Dolley gritou do lado de fora. — Depressa! Nós temos que sair daqui!
Frederick podia sentir a corda começar a ceder e os fios individuais começando a romper. Ele estava quase lá, só tinha que ter certeza de não se cortar.
— Isso! — Frederick anunciou, balançando os dedos livres. — Eu consegui!
— Bravo — veio a voz do general, respirando em seu ouvido. Duas palmas fingidas se seguiram.
Frederick mergulhou para a janela, mas já era tarde demais.
General V deixou cair a pintura e pegou Frederick pela cintura, apertando os braços de Frederick atrás das costas.
— Corra, Dolley! — Frederick gritou, e por uma fração de segundo, o General V afrouxou o aperto nos braços de Frederick para ter um vislumbre de Dolley no gramado lá fora.
— Frederick! — berrou Dolley.
Nesse segundo, Frederick conseguiu agarrar a pintura histórica de onde General V tinha deixado cair no chão e a jogou pela janela.
— A pintura, Dolley! — Frederick gritou. — Corra por sua vida!
— Frederick! — ela disse de volta. — Vou procurar ajuda!
— Detenham essa mulher! — General V berrou pela janela. — E agarrarem essa pintura!
Frederick podia ouvir uma louca corrida de passos perseguindo Dolley.
— Leve-me para o mapa! Eu tive o bastante de você! — o General V gritou no ouvido de Frederick, sacudindo-o.
Frederick revirou sua mente em busca de qualquer coisa que pudesse salvá-lo. Ele prendeu-se à esperança de que ainda poderia resolver o enigma do mapa antes de o Exército Britânico pôr fogo na casa. Ele só tinha que pensar em algo para desviar a atenção do general.
— Bem, rapaz? — o General V gritou por sobre o caos lá fora, as veias de seu pescoço pulsando quando pressionou o punhal contra a jugular de Frederick, apenas a milímetros de romper a pele. — Você decide – o mapa ou a sua vida.
— E-está na sala de jantar, onde você nos encontrou — Frederick gaguejou. — Eu tenho que mostrar onde.
— Bem, vá então, antes que seja destruída! — General V devolveu, sua voz quase inaudível única sobre o barulho que vinha de fora.
Com a lâmina em seu pescoço, Frederick conduziu o General V de volta para a galeria, o último lugar que ele tinha visto antes de ser jogado no porão. Talvez o último lugar que veria com vida. Estaria marchando para a sua morte? Ele deu passos lentos, deixando sua mente trabalhar em um frenesi, o general empurrando-o para frente para tentar apressá-lo. Mas Frederick necessitava de cada segundo.
Naquele momento, um som inundou o hall de entrada, ecoando no teto alto e através dos grandes salões. Era a marcha do Exército Britânico, em fileiras de dois e três, carregando tochas, rifles e sacos para saques.
Eles estavam lá para retaliar a América queimando a capital canadense, no início da guerra, e Frederick ouviu a alegria nas vozes dos soldados inimigos prontos para desferir um golpe fatal na Casa do Presidente. Eles estavam lá para causar destruição real e simbólica para o que ainda pensavam ser sua colônia americana.
— Viva o rei! Inglaterra sempre! — gritavam.
Em seus uniformes vermelho-sangue, inundaram os cômodos organizados da Casa do Presidente como formigas de fogo, chutando os móveis, quebrando cristais e janelas com os canos de seus rifles. Em pouco tempo, eles arrancaram as cortinas de seda e o veludo vermelho e varreram os objetos cuidadosamente arranjados das prateleiras. A partir dos quartos acima, Frederick podia ouvir baús sendo arrombados, colchões cortados. Podia imaginar as penas flutuando em nuvens. Os casacas vermelhas riscaram os rostos dos retratos nas paredes – os rasgos cortando como bisturis através carne.
Tropas apressadas passavam para a cozinha e sala de jantar, abrindo os armários. Eles se fartaram com o que teria sido o jantar da primeira-dama, rindo o tempo todo. Em seguida, quebraram as louças e derrubaram tudo de cima da mesa.
Claramente encantado com o caos, o General V empurrou Frederick para a frente com o punhal.
Eles estavam de volta na sala de jantar, e o momento de Frederick passou.
— Agora! — o General V ordenou.
Frederick vasculhou a sala freneticamente. As outras pinturas tinham sido todas tiradas das paredes de arenito, suas formas como sombras fantasmagóricas onde estiveram penduradas antes.
Telas em farrapos empilhavam-se no chão. A mesa de jantar tinha sido quebrada no que podia muito bem ser uma pilha de lenha, com o machado do jardineiro descansando em cima.
— Ali! — Frederick apontou, correndo em direção ao machado. Este era o último arquejo de uma ideia ainda não completamente formada, mas Frederick tinha que seguir com ela.
Ele se abaixou para erguer o machado pelo cabo. As marcas feitas na cabeça de metal, por algum golpe de sorte, pareciam quase alinhadas, como se tivessem sido inscritas lá de propósito.
— Este machado. Aqui está o mapa — Frederick falou, entregando-o nos dedos esguios do general. — Veja como as linhas estão se cruzando, há um dente no canto – lá você vai encontrar o anel de Gideon.
Frederick fechou os olhos com a loucura girando em torno deles. As tropas estavam em seu auge agora, prontos para colocar o lugar abaixo. Ele aguardava o golpe final do General V, o ataque rápido e certeiro quando sua mentira fosse descoberta. Por que exatamente Frederick oferecera uma arma para aquele assassino maníaco?
Rodeado por todo o exército britânico, o mundo parou, e tudo ficou em silêncio.
Era como se ele e o General V estivessem sozinhos na sala. Finalmente, Frederick abriu um olho.
— Cor da velhice... — o General V repetiu para si mesmo, girando o machado em seus braços — raízes de nosso pai – as cerejeiras no jardim, é claro, seus americanos estúpidos com sua herança ridícula.
Por favor, por favor, Frederick orou, que ele acredite que este é o mapa. Então, pelo menos, se não pudemos encontrá-lo, os Vesper não encontrarão, também, e ele vai queimar esta noite junto com o resto da casa.
— É um mapa de um cemitério em Baltimore — Frederick mentiu. — Parece que em breve haverá uma batalha lá. Talvez se você chegar antes deles, o anel seja seu.
Frederick esperava que ele soasse crível. Tentou fazer sua voz soar o mais derrotada possível.
— O soldado estava a caminho de Baltimore antes de você atirar nele na batalha esta manhã.
— Sua fonte, é claro — o General V concluiu.
Ele manteve o machado erguido, um sorriso rastejando em seu rosto.
— Bem, bom trabalho, meu rapaz. Devo dar-lhe licença agora. Infelizmente, você terá que queimar com a casa. Não seria bom tê-lo por aí afora, no mundo. Você já viu muito de mim.
Frederick correu para a porta, mas o General V jogou-o contra a estante quebrada.
— Pena que não se juntou à Sra. Madison.
Com um floreio de dourado, preto e vermelho, o General V fechou a porta, um clique sinistro soando dela.
Frederick girou a maçaneta e se jogou contra a porta, mas a tranca era pesada. Ele correu para a janela, mas estava no segundo andar agora, e os britânicos estavam guardando a propriedade.
Ele gritou em vão. O barulho dos ingleses abafou tudo, e não havia ninguém para ajudá-lo de qualquer maneira.
Frederick encontrou um prego ainda preso na parede, onde a pintura tinha estado. Talvez ele pudesse deslizar a trava!
Enfiou o prego pelo buraco da fechadura e cutucou, mas foi inútil. Então correu de volta para dentro, procurou um pedaço de madeira, e bateu o prego com ele, para tentar tirar o bloqueio de seu soquete. A colisão soltou alguma coisa. Frederick sacudiu o prego mais algumas vezes onde a chave deveria ter ido. Milagrosamente, o prego se virou, e o bloqueio caiu para trás. Frederick voou para o final do corredor tão rápido quanto podia em direção à escada.
Ele mal teve tempo para processar que ainda estava vivo antes de ver o beijo de chamas nas paredes abaixo. Em cada sala, os soldados tinham jogado tochas em qualquer coisa que pudessem encontrar, e o calor que se erguia já estava escaldante. Fumaça encheu o ar em nuvens cinzentas; o cheiro de madeira queimando estava em toda parte. Frederick podia ouvir o último dos escravos gritando do lado de fora.
Ele fez seu trajeto para a porta principal – talvez pudesse escapar sem chamar atenção para si mesmo. Mas em seu caminho, Frederick pensou em algo.
Cor da velhice, as raízes de nosso pai. As peças foram se encaixando. Cor da velhice – “prata é a cor da velhice”, Dolley tinha dito. Prata – ele tinha encontrado Dolley na sala de prataria – talvez ainda houvesse tempo para encontrar o mapa!
Frederick voou até as escadas de mármore, sua mente correndo à frente. Os pisos estavam quentes debaixo dele, mas ele queria permanecer alguns momentos mais, apenas até encontrar o mapa. Por favor, que haja tempo.
De volta à sala de prataria, Frederick procurou furiosamente. A última estante que Dolley tinha guardado fora revistada, e não havia mais nada dentro.
Por favor, por favor. O calor estava pressionando perto e o ar era como um forno, mas Frederick sabia que estava no caminho certo. O suor corria por seu corpo. Fumaça infiltrou-se através do quarto e queimou seus olhos.
Só uma última peça de prata.
Frederick correu ao longo das bordas da sala, levantando pedaços de tapeçarias, chutando através de escombros e cadeiras. Finalmente ele estava de volta ao console, onde tinha encontrado nervosamente Dolley pela primeira vez.
Ele levantou as pernas do móvel – havia um alçapão secreto no chão! Frederick estava imaginando isso? E se ele tivesse perdido a cabeça?
Ele levantou a portinhola e encontrou um compartimento de madeira. E ali, em uma pequena caixa de chapéus, estava uma urna de prata reluzente embrulhada em papel. Frederick caiu de joelhos para examiná-la.
Gravada em sua base estavam as palavras Raízes de nosso pai.
No topo arredondado de prata polida estava uma letra: M.
E dentro dele Frederick encontrou, finalmente, o verdadeiro mapa para o anel de Gideon.

* * *

Agarrando a urna contra o seu peito, Frederick correu em direção à porta. Ele teve que lutar contra a fumaça. A porta estava enquadrada no fogo onde as vigas de madeira tinham estado uma vez. A fumaça era cegante, e as lágrimas escorriam pelo seu rosto, mas ele empurrou através da névoa negra que queimava seus olhos e nariz. Todo o seu rosto parecia estar derretendo.
Com os olhos fechados, ele agarrou o corrimão da escada de mármore, descendo cada degrau o mais rápido que pôde, tropeçando no corrimão como seu único guia.
Quando ouviu um estrondo atrás dele, Frederick virou-se e viu que o teto acima dele desmoronou até o chão, enviando faíscas e vigas flamejantes. Frederick sentiu o choque de sua realização: Se eu tivesse esperado mais um segundo no andar de cima, estaria morto agora.
Um pedaço de teto em chamas caiu através do ar, perigosamente perto do rosto de Frederick. Caiu na frente dele – o fogo lambia em torno dos pisos, as paredes. Como ele chegaria ao cômodo ao lado com uma pilha flamejante bloqueando seu caminho?
Frederick tentou se esquivar por baixo da viga, mas as chamas estavam muito quentes. As janelas queimavam, também, não havia como saltar por ela agora. Ele foi o último a ficar na Casa do Presidente. Mas será que também seria o último a sair?
Sabendo que esta era sua última chance, Frederick correu em direção à viga. Ele chutou tão forte quanto podia, assistindo a sola de seu sapato acertar o fogo quando atingiu a madeira na frente dele.
A viga caiu no chão, espalhando fogo nos tapetes, e Frederick saltou sobre a madeira como se fosse uma poça. A bota estava em chamas agora, seu pé queimando. Ainda segurando a urna com uma mão, Frederick se inclinou e desamarrou o sapato de fogo, jogando-o mais longe possível.
Ele correu para a saída.
A porta para o exterior estava muito quente ao toque. Frederick olhou em volta em busca de algo para usar para abri-la, mas a casa inteira estava iluminada em chamas. Em torno dele, a madeira estalava, o teto se dividia e vigas rachavam com um som de ossos quebrando.
Uma tapeçaria solitária ainda se agarrava às paredes.
Frederick puxou-a da parede antes que pegasse fogo e apagou as chamas do chão ao lado da porta. Usando a tapeçaria para proteger a mão, a urna sob a camisa, Frederick colocou a tapeçaria sobre a maçaneta da porta e virou. A porta se abriu – ele estava fora.
O garoto mergulhou para fora da porta e para o pórtico, apagando as pequenas faíscas de fogo de seu corpo ao rolar na grama. Ele saltou de pé – correndo, tossindo e suando. Seus pulmões e nariz queimavam, ainda cheios da fumaça venenosa escaldante. Um sapato tinha ido embora e o outro estava um pouco chamuscado. Estava com um cheiro horrível, como de cabelo chamuscado.
Mas Frederick não se importava. Ele respirou o glorioso ar fresco do jardim à noite, sem parar para tomar fôlego até chegar ao pomar, onde sabia que estaria seguro.
Dobrando-se por causa da corrida, Frederick parou e recuperou o fôlego. Ele estava tremendo agora, e seus dentes batiam ruidosamente em sua boca. Seus ossos pareciam ocos em seu corpo, como galhos virando cinzas. O sangue corria por ele como um rio de fogo. Seus pés estavam feridos e a pele estava queimada, em alguns lugares muito sensíveis ao toque.
Mas ele tinha feito isso, e conseguira o mapa!
A urna ainda estava segura debaixo de sua camisa.
Frederick desabou no chão, deixando a grama fria roçar seu rosto, tossindo e engasgando. Cheirar outra coisa que não era fumaça foi um alívio. Frederick inalou o chão, o cheiro de gramado úmido.
Quando se sentou, observou através das árvores com horror que o que restava da Casa do Presidente queimava. Ela passou de uma gigantesca nuvem laranja, tingida de azul na parte inferior, para um cinza esfumaçado que explodiu tudo ao redor, um pouco da fumaça alcançando Frederick. Ele ficou onde estava, hipnotizado pela visão. Sabia que ainda não estava seguro, mas estava exausto demais para se mover. Tudo o que podia fazer era rastejar para dentro dos arbustos, onde o sono o reivindicou.

* * *

Frederick acordou antes do amanhecer ao som do farfalhar de arbustos. Ele se ergueu sobre seus pés queimados. Um trovão ressoou acima, e o ar estava abafado e úmido. O vento sacudiu as árvores no pomar, assobiando através das folhas. Havia outra pessoa no jardim?
Frederick escondeu-se atrás de uma árvore enquanto seus pensamentos corriam à frente. Ele estava agora na Washington ocupada. Os britânicos haviam tomado a cidade, e Frederick teria de sair sem ser visto. Ele pegou a urna com o mapa, segura abaixo de algumas folhas.
O general estaria em Baltimore por agora, Frederick esperava, desejando ter dito que o anel estava no Canadá. Teria colocado mais espaço entre eles.
Frederick espiou. Jardins, árvores, arbustos, estátuas.
E então – um lampejo de vermelho. A cicatriz em forma de V.
A bala atingiu o arbusto ao lado dele, mas Frederick já estava em movimento.
Ele decolou com o mapa através dos pomares tão rápido quanto pôde, os pés descalços levando uma surra com cada passo.
— Você! — gritou General V, aproximando-se atrás de Frederick enquanto corriam através das terras. — O mapa foi uma farsa!
Oh, não! Frederick não sabia como ele iria correr mais que o general. Seus pulmões ainda estavam fracos do dia anterior.
Trovões explodiram, enviando um estrondo através da terra. Relâmpagos riscaram o céu como garfos brancos e quentes. Chuva começou a cair, e o balançar das árvores e o vento tornou difícil ouvir quão perto o General V estava atrás dele.
Frederick correu o mais rápido que podia fazendo curvas nos pomares, a chuva encharcando suas roupas. Ele passou correndo pelo portão e desceu as ruas desertas de Washington, a cidade em escombros e cinzas, seus pés batendo com força contra o chão molhado, a urna pressionada contra sua barriga.
Ele se virou para ver o General V escorregar em uma pilha de folhas lisas. Despiste-o! Agora!
Passando impetuosamente pelas fazendas e hectares no dia anterior, Frederick lutou para fazer seu caminho de volta para o Potomac. Ele viu as tropas britânicas pelo canto de seu olho e virou na diagonal, ainda correndo em direção ao Mercado.
O Mercado estava aberto, uma aposta certeira, mas havia mais tropas britânicas alinhadas ao longo das bordas. Frederick não tinha uma arma; ele não tinha nada exceto a urna.
Ele deu tudo em uma explosão de velocidade, mais rápido do que já tinha ido.
— Ei! Pare! Você! Você não é permitido aqui! — um oficial gritou de um cavalo, correndo atrás dele. Mais três cavalos o seguiram.
O soldado assobiou, e mais soldados a cavalo se reuniram para perseguir Frederick.
Os casacas vermelhas inundaram o Mercado – ele estava cercado!
Frederick virou. Era tarde demais para voltar atrás? Ele lançou um olhar frenético por sobre o ombro e viu, para seu horror, o general a apenas vinte passos de distância. Não havia escolha. Frederick mergulhou no labirinto de soldados e cavalos. Um braço de mangas vermelhas serpenteou em seu caminho pegá-lo, mas ele se abaixou e girou, colidindo com o flanco de um garanhão árabe. O animal empinou, atirando o oficial de suas costas, e Frederick usaria a distração para contornar o bando de homens a cavalo .
Ele tinha uma chance de fugir do Mercado – uma chance que terminaria em um belo sucesso ou levaria a sua morte.
Correndo a toda velocidade, Frederick segurou a urna com uma mão e saltou de cabeça para o campo molhado. Seus braços deslizaram ao longo do verde, levando seu corpo para a frente tão rápido que ele passou sob as pernas dos cavalos na frente dele. Lama respingou em seu rosto e pescoço. Seu queixo bateu no chão, mas a grama estava escorregadia o suficiente para empurrar Frederick por baixo da última fileira de cavalos e atravessar para o outro lado.
Eu consegui!, pensou Frederick.
Através das folhas de chuva caindo, Frederick avistou uma ponte e fez seu caminho até ela.
A chuva deixava tudo cinza, incluindo a ponte e correnteza logo abaixo. Tudo misturava-se em um. Assim Frederick não percebeu até estar na metade da ponte, sobre a água, que o outro lado dela desabara.
Ele estava logo na beirada e teve que se puxar para trás, agitando os braços para evitar cair na água.
Frederick não queria olhar para baixo – a ponte era muito mais alta do que ele se lembrava.
Chutou uma pedra por sobre a borda e viu como ela despencou pelo o que pareceram horas antes que a água a agarrasse.
A correnteza era forte e rápida, arremessando ramos e árvores em remoinhos. Nuvens se reuniram e corriam através do céu, escurecendo o dia. Frederick mal sabia nadar.
Um tiro explodiu atrás dele. Frederick girou ao redor para encontrar o general a cavalo atrás dele na ponte, se aproximando rapidamente. Frederick tinha apenas um momento antes de ele alcançá-lo.
Segurando a urna com ambos os braços, Frederick respirou fundo e saltou.
A água correu sobre seu rosto, atirando-o para cima de pedras, batendo-o contra o leito do rio e, em seguida, tão logo a cabeça de Frederick elevou-se acima do rio e para a chuva, tentou nadar com uma mão, ele estava submerso novamente debaixo d’água, ofegando por ar e tentando inutilmente lutar contra a corrente, sair dos redemoinhos que ameaçavam mantê-lo preso sob a água.
Os braços de Frederick eram como chumbo, e ele mal conseguia mover as pernas o suficiente para sair do lugar. Mas ele estava vivo. A tempestade golpeava o rio e tudo o mais. Todos os ossos do corpo de Frederick pareciam lhe dizer para desistir, que ele não conseguiria. Estava tão cansado que mal conseguia tossir e respirar enquanto se debatia contra o rio. Água beliscou seus pulmões, mas sua mão ainda segurava a urna. Devo ficar com o mapa dos Cahill, mapa dos Cahill, ele repetiu para si mesmo entre as respirações.
Frederick balançou a cabeça, os braços se debatendo na água e um vislumbre do General V ainda em cima da ponte. Em seguida, um raio desceu novamente, assustando o cavalo do general. Ele relinchou e recuou, balançando a cabeça, e quando o trovão ressoou, o general foi lançado para fora da sela. Ele voou pelo ar, um amplo arco vermelho contra o céu escuro.
— Nãaaaaaoo — o general exclamou, com a voz uivando acima do vento quando ele foi arremessado em direção ao rio.
Sua cabeça atingiu uma rocha que se projetava do rio e seu corpo ficou mole, parando de se mexer como uma bala de canhão atirada na água. A água respingou na ponte.
Ele estava morto.
Mas o próprio Frederick mal conseguia se manter à tona. Ele tomou um último grande fôlego e chutou a água, impulsionando-se mais ou menos na direção do banco. Frederick nadou até o rio ficar mais raso, mais manso. Ele chegou a um banco de areia inclinado e prendeu-se contra uma arvorezinha, seu coração batendo rapidamente, suas roupas pesadas em seu corpo submerso.
Frederick ficou lá, abrigado sob a pequena árvore, enquanto a tempestade se desenrolava ao redor dele. Raios e trovões aumentavam e desenrolavam-se, até que finalmente os estrondos ficaram menos frequentes e acalmaram a tempestade. A chuva continuava a cair, mas o céu estava mais leve agora, as nuvens soprando para longe.
Agora só há todo o exército britânico para evitar.
Frederick içou-se para fora da água e marchou em direção à segurança. Dolley lhe contara sobre um acampamento onde se juntaria a seu marido quando fosse seguro.
Seria um longo caminho.
Suas roupas estavam geladas, e a pele de seus pés estava sensível sem os sapatos. O cotovelo ainda doía por quebrar a janela, e até mesmo em terra firme Frederick ainda sentia como se o rio estivesse correndo abaixo dele.
Sempre que ouvia vozes, Frederick saltava para trás de uma árvore. Ele não queria correr o risco de cruzar com um oficial britânico novamente. E estava certo de que assustaria os cidadãos normais com a maneira como se parecia – ele rivalizava com os soldados voltando da guerra em sua condição atual.
Ele perdeu seus pais. Teria dado qualquer coisa para dizer-lhes o que tinha acontecido nas últimas 24 horas.
Era como se estivesse lutando através de um sonho frio e chuvoso.

* * *

Frederick atravessou aldeia após aldeia fazendo seu caminho para o acampamento. Ele passou por lojas e igrejas, bares e edifícios escolares, antes do cheiro de fumaça e fogueira se estender até ele.
Algo delicioso estava assando na brasa – peixe, Frederick adivinhou, com o rio aqui. Ele seguiu seu nariz abaixo da estrada.
Poderia ser isso?
Um mar de tendas havia sido erguido, e depois a lona foi esticada entre árvores. Frederick abriu caminho através do acampamento em direção à maior fogueira, que era circundada por um grupo de militares. Ali, no meio do riso, ele avistou Dolley.
Frederick correu ao vê-la.
— Oh, Frederick! — Dolley exclamou, correndo para cumprimentá-lo. —Senhores, este é o jovem que salvou a minha vida!
Ela o envolveu em um abraço de urso e Frederick não se lembrava da última vez que tinha ficado tão feliz em ver alguém. Ela de alguma forma conseguiu ainda parecer fresca e limpa, mesmo depois de passar uma noite naquele acampamento turvo.
Quando Frederick baixou os braços, Dolley tocou a urna. Frederick não tinha percebido que ainda estava agarrando firmemente em suas mãos.
Ela procurou seu rosto com curiosidade, mas antes que ele pudesse responder, ela colocou o dedo nos lábios. Shhh. Seu rosto se abriu em um sorriso quando eles se moveram para fora do alcance da voz.
Os homens não podem saber, pensou.
— Sra. Madison — disse ele — consegui trazer um presente da Casa do Presidente pouco antes de eu escapar.
— Obrigada, Frederick Warren — Dolley respondeu, jogando junto. — Onde você o encontrou?
— Não importa — ele respondeu levemente. — Abra-o.
Frederick viu os olhos de Dolley se arregalarem, ficando tão grandes quanto pires quando viu o mapa. Ela olhou para ele, espantada.
— Mas você... como você... e o general?!
— Ele não vai mais nos incomodar agora.
Dolley balançou a cabeça e pegou o braço dele.
— Venha comigo, Frederick. Há algumas pessoas que quero que veja.
Ela o levou mais fundo no acampamento para um abrigo simples na floresta, e acenou para um soldado americano posicionado sob uma árvore. Dentro da tenda, havia bancos e caixas viradas para servir de assentos, bem como algumas camas macias que chamavam por Frederick.
Será que vou conhecer o presidente?
Mas eram os pais de Frederick que esperavam por ele em vez disso, aconchegados um no outro perto de uma mesa de madeira esculpida, seus rostos marcados com tristeza.
Quando ergueram os olhos e o viram parado na entrada da barraca, suas expressões deram lugar a um alívio milagroso, e eles correram para abraçá-lo, apertando-o com força. Suas queimaduras arderam com o contato, mas, em seguida, ele se inclinou para abraçá-los com mais força.
— Oh, Frederick, estávamos tão preocupados! — exclamou sua mãe, segurando-o perto. — Você está bem?
Seu pai bateu em suas costas, outro ponto sensível, e abraçou-o fortemente, exclamando:
— Filho, filho, a Sra. Madison não tinha certeza se você tinha escapado! Temíamos... — ele não se deixou terminar a frase. — O que aconteceu com você?
— Frederick, seus sapatos! Seu rosto, o que aconteceu com este cotovelo? Você vai precisar de pontos... — Wilhelmina Warren segurou seu queixo enlameado em sua mão e encontrou seus olhos.
Lentamente, Frederick soltou seu peso em uma cadeira bamba, um dos pais de cada lado.
— Eu estava com medo de nunca ver você novamente.
Frederick estava tremendo, então Dolley trouxe um pouco de chá enquanto o menino descrevia a chegada de Ramsay. O líquido descendo em sua garganta tinha uma doçura melosa.
— Oh, Frederick, que horror —,sua mãe murmurou, esfregando uma lágrima em seu ombro. — Você deve ter ficado tão assustado.
— Eu estava apavorado — concordou Frederick. — Quando cheguei à Casa do Presidente, o presidente tinha ido embora, mas a primeira-dama e eu procuramos e procuramos, e ela foi capaz de sair antes do incêndio.
— Você foi muito corajoso — disse o pai.
Frederick não tinha se sentido corajoso quando esteve no porão, ou durante o incêndio, ou nadando através do rio, mas tudo passou por ele agora. Frederick inchou seu peito com orgulho.
Sim. Frederick assentiu. Eu fui sério, por uma vez.
— Ninguém poderia esperar que você passasse com o mapa de debaixo do nariz dos Vesper enquanto os britânicos estavam atacando — seu pai continuou. — Nem mesmo os agentes mais experientes teriam esperado realizar um feito como esse. Eu não posso te dizer quão orgulhosos eu e sua mãe estamos.
Os pais de Frederick olharam para ele com admiração e depois para a urna que Dolley trouxe para mostrar-lhes. Dolley colocou comida na frente de Frederick enquanto seus pais corriam os dedos com reverência sobre o mapa Madrigal.
Dolley sorriu para Frederick e disse:
— Quando será a nossa próxima missão, parceiro?
Frederick sorriu de volta para ela. Ele sabia que sua família nunca mais seria a mesma. Em vez de dois agentes secretos que tocariam a pousada, haveriam três.
Semanas mais tarde, quando eles partiram para recuperar o anel de Gideon, foi Frederick que liderou o caminho.

4 comentários:

  1. Me impressiono como as aventuras dos Cahill se desenrolaram no decorrer do tempo.
    O modo como os autores relacionam os fatos históricos com os membros da família é lindo!

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    1. Pois é! Por isso T39C é tão bom, ensina história! Ótimo paradidático, eu teria adorado se tivessem mandado ler na escola

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  2. Oi Karina,
    Eu encontrei uns errinhos no livro você poderia arrumar por favor/
    "jaquetanegra" faltou um espaço aqui;
    "Se o general pusesse as mãos no o anel..." aqui tem um erro de digitação;
    "reivindicoub" e tem outro nessa frase.
    Muito Obrigado Karina!!

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