22 de maio de 2016

A Fuga de Houdini




New York City, 1891
Foi o último show da noite, e os olhos de cada pessoa apertada dentro da tenda foram treinados por ele. Harry “Rei do Baralho” Weiss avançou pelo corredor, com a voz preenchendo o espaço apertado enquanto contava a história dos quatro reis. Eles eram irmãos cuja mãe tinha sido obrigada a mandá-los para longe no momento do nascimento, história que ele ilustrou ao embaralhar as quatro cartas de rei.
Como o público comprou a história, a voz de Harry cresceu mais constante. Ele podia ser apenas um adolescente, mas sabia que precisava falar com a confiança e equilíbrio de um mágico veterano. Harry podia sentir a emoção se construindo enquanto tecia um conto, cada irmão seguindo seu próprio caminho e tornando-se rei de uma terra distante.
Ao se aproximar do palco, ele roçou em um menino por perto, e com um movimento indetectável, Harry colocou a dama de copas no bolso do rapaz. Havia uma razão para que a luz na tenda fosse mantida daquele modo.
Harry alcançou o palco, virou-se e estendeu o baralho na mão esquerda.
— Agora, estes quatro reis foram separados no nascimento. Mas, um dia, todos eles viajarão de volta para sua casa para um reencontro — ele olhou para o convés e sua testa enrugada.
O público podia esperar que ele puxasse as quatro cartas do baralho, mas em vez disso, Harry espalmou as cartas de um bolso escondido.
— O rei do ouro, o grande comerciante, veio do oeste — disse ele, quando a carta apareceu em sua mão direita. Ele sabia que, para o público, pareceria que ela havia se materializado a partir do ar. — O rei de copas, o grande poeta, veio do leste. O rei de espadas, o grande arquiteto, veio do norte. E o rei de paus, o grande guerreiro, veio do sul.
O público aplaudiu, e Harry sorriu. Dando um suspiro de alívio, ele se sentia como um rei em seu próprio trono. Todo mágico usava truque de mãos como esconder uma carta na palma, mas Harry sempre se preocupava que alguém iria pegá-lo, ou revelá-lo. Agora, a parte mais difícil estava acabada. Tudo o que restava era revelar o triunfante final, o momento que fazia tudo valer a pena: as incontáveis ​​horas praticando, o cheiro de suor e fumaça que enchia a tenda, a expressão preocupada no rosto de seus pais sempre que ele falava sobre mágica.
— Mas e a pobre mãe, que foi forçada a enviar seus filhos para os quatro cantos da terra?
Harry podia sentir a antecipação crescendo. Surpreender um público era uma coisa. Fazê-los vir junto com a história era o que lhe dava um pico.
— Sim, a mãe deles, a rainha de copas – ela deveria estar lá, também. Mas onde ela está?
Harry olhou em volta, fingindo procurar. Finalmente, olhou para a plateia.
— Eu não consigo encontrá-la. Você, garoto — disse ele, apontando para a criança que tinha identificado anteriormente. — Você sabe onde está a rainha?
O garoto balançou a cabeça em silêncio.
— Hum. Talvez você devesse verificar o seu bolso. Nunca se sabe o que pode estar lá.
O menino parecia confuso, mas verificou seu bolso. Harry sorriu. Em um momento, a rainha de copas se reuniria com seus filhos, a reunião estaria completa, e Harry se curvaria para uma ovação de pé.
O menino mostrou o bolso vazio, e Harry riu.
— Talvez o seu outro bolso — respondeu ele com facilidade.
O menino enfiou a mão no outro bolso da jaqueta. Os membros da plateia verificavam perplexos suas calças, e o estômago de Harry deu nós. O que estava errado? Ele sabia que tinha deixado cair a carta no bolso do rapaz.
— Ela está aí em algum lugar, não é? — Harry perguntou, sua voz de performance praticamente caindo como um pedaço de cenário barato.
O menino começou a dar tapinhas em sua jaqueta ansiosamente, e até mesmo procurou o chão ao redor de seus pés.
— Eu sinto muito — disse o garoto, olhando para ele com os olhos arregalados. — Eu não a tenho.
O público começou a se incomodar, e a tenda encheu-se com o som de sussurros e alguns palavrões. A mente de Harry correu, mas quando ele abriu a boca para improvisar uma desculpa, nada saiu. Em um instante, o apresentador confiante tinha ido embora. De repente, o Rei do Baralho era apenas Harry, o imigrante com sotaque engraçado que trabalhava em uma fábrica de gravatas.  Assim que alguns adolescentes que xingavam se levantaram para ir, tudo estava acabado. Dentro de momentos, o público foi para fora da tenda, resmungando sobre o dinheiro que haviam desperdiçado.

* * *

Mesmo antes do último membro da plateia deixar a tenda, algo o fez refletir. E se ele tivesse chamado o menino errado? Harry fez uma careta. Ele tinha se enganado de alguma forma. Na penumbra, todos pareciam iguais. Era o menino do outro lado do corredor.
Ele queria correr para fora e gritar, chamá-los de volta e exigir que vissem que o truque realmente funcionara. Mas já era tarde demais.
Harry suspirou e começou a se mover em volta do palco para fazer as malas. Outros mágicos usavam chapéus, baús, alçapões e jogos de espelhos, mas ele tinha que se contentar com ferramentas mais simples: lenços de seda que ele podia forçar a mudar de cor, anéis que ele separava e conectava e vários baralhos de cartas.
Harry congelou quando o distinto cheiro de fumaça de charuto e uísque barato encheu seu nariz. Com o canto do olho, viu a aba da tenda se abrir e o corpulento mestre de cerimônias entrou. Harry encarou a parede de lona dos fundos e se concentrou em redobrar os seus lenços de seda, sem vontade de enfrentar o apresentador Thaddeus.
O cheiro ficou mais forte e o degrau de baixo rangeu quando o homem pesado se aproximou.
— É melhor você ter uma boa explicação para o que aconteceu lá fora — disse ele, agarrando Harry pelo colarinho.
Harry reprimiu um gemido. Os outros sete shows que ele realizara naquele dia seguiram perfeitamente. Mas é claro que Thaddeus só tinha visto o que ele estragou.
Harry virou-se para encará-lo. O homem estava de pé bem perto, sua barriga praticamente estourando os botões de sua jaqueta vermelha brilhante.
— Eu sinto muito, mas...
— Quieto — o mestre de cerimônias retrucou antes de soltar outra baforada do charuto. — Eu faturo com você como o Rei do Baralho. Meu show é sobre faíscas, toques especiais... você sabe, magia. O rei de algo não perder o controle de seu baralho! Três deles tiveram a coragem de pedir reembolso! Eu não lhes devolvi o dinheiro, mas tive que lhes dar salsichas quentes gratuitas. Tudo porque você não conseguiu encontrar a dama!
Harry sentiu seu coração acelerar.
— Isso não vai acontecer novamente. Eu prometo.
Se ele perdesse aquele trabalho, poderia levar meses para encontrar outro show de mágico. Ele provavelmente teria que pegar turnos extras na fábrica. Sua família contava com a renda de seu trabalho de fim de semana – ele não poderia voltar para casa de mãos vazias.
Thaddeus olhou para ele.
— Você fez o show ficar ruim, garoto. As pessoas vão falar. Eu vou perder as vendas de ingressos a partir de agora, não há dúvidas disso.
Os ombros de Harry ficaram tensos quando ele imaginou o olhar que teria que enfrentar de seu pai quando revelasse que perdeu o emprego. Sua mãe fora infinitamente paciente quando ele começara a praticar, ajudando-o no treinamento para descobrir sua carta uma e outra vez, nunca tentando adivinhar que seu método. Seu pai, por outro lado, sempre tentara descobrir o segredo, e Harry ensinou uma das regras mais importantes da magia: nunca realizar o mesmo truque duas vezes seguidas. Mas agora parecia que todo seu trabalho duro iria para o lixo.
O mestre de cerimônias suspirou.
— Eu não posso pagar um mágico que não faz magia. Mais um erro e você está fora. E eu vou espalhar isso para o resto da cidade — ele começou a se arrastar em direção à entrada da tenda, mas, em seguida, virou-se para olhar por cima do ombro. — A menos que você dobre sua venda de ingressos no próximo fim de semana, nunca mais trabalhará novamente em Coney Island.
Fechando a aba, deixou Harry sozinho com nada além de seus frágeis adereços e bolsos vazios. Ele tinha apenas o suficiente para a carona na carroça, mas nada para dar à sua mãe ou ao dono da mercearia. Sob a carga que começava a pesar em seu estômago e se estendia até seus pés, Harry apagou as luzes na tenda e se dirigiu para a noite em Coney Island.

* * *

Harry se arrastou ao longo do calçadão deserto, de Coney Island de volta à Manhattan.
As famílias tinham ido todas embora e as luzes estavam apagadas, levando com elas todo o sentido de festa. Agora só havia alguns artistas desmontando suas tendas ou adolescentes ociosos tentando convencer os amigos a darem um último passeio na montanha russa Switchback Railway.
Ele viu um homem mais velho jogando Bottle Up, tentando usar um anel preso a uma corda para colocar uma garrafa em pé. Harry balançou a cabeça quando notou a mancha de giz na parte de trás do casaco roto do homem. Isso significava que ele era “marcado”, um idiota que perdeu um monte de dinheiro no jogo – e poderia provavelmente ser instigado a perder mais em outro estande.
As luzes brilhantes de Coney Island eram a primeira coisa que muitos imigrantes viram em Nova York – os barcos passaram pelo calçadão, mesmo antes da Estátua da Liberdade – e os recém-chegados, muitas vezes iam para lá logo depois de sair de Ellis Island, para deleite dos homens que sabiam tirar proveito deles.
Harry acelerou para passar por vários homens sombrios amontoados em um beco, em busca de dinheiro. Ele olhou na direção oposta, fingindo estar interessado nos cachorros latindo do lado de fora da pista. Os homens provavelmente estavam vendendo mercadorias roubadas, mas não era problema para ele. E todos sabiam que o chefe de polícia McKane olhava para o outro lado quanto a isso. Ou seja, se ele e seus capitães não estavam, na verdade, no negócio.
Harry trabalhava para Thaddeus, o que significava que ninguém o incomodava. Mas nem sempre foi assim. Na primeira vez que ele tentou fazer mágica na rua, três homens corpulentos tentaram “ensinar-lhe uma lição” a respeito do “território” dos outros. Felizmente, Harry era um campeão Pastime Athletic Club, e se afastou deles facilmente, mas se deparou com problemas semelhantes até Thaddeus o ver fazendo seu número perto de um museu no Queens em troca de moedas e contratou-o para se apresentar nos fins de semana.
Mesmo após a decepção dessa noite, Harry ainda estava orgulhoso de se apresentar em Coney Island. Ele podia estar entre as senhoras barbadas (mulheres com barba e bigode) e o unicórnio (um infeliz cavalo, cola e um infeliz chifre), mas ele era um artista, com um verdadeiro show.
Seu pai por vezes falava dos grandes artistas que eram membros da família Cahill. Ele chegou a afirmar que gênios criativos como Mozart e Lord Byron eram primos distantes deles, embora fosse difícil imaginar que seu circunspecto pai, anteriormente um rabino, tivesse alguma coisa a ver com tais figuras coloridas. Harry desejava ocupar o palco como seus ancestrais tinham feito – mas seus pais deixaram claro que ele tinha como sua principal obrigação ajudar a sustentar a família.
Harry queria ser útil. sabia o quanto seus pais se preocupavam com o dinheiro, especialmente agora que o pai estava muito doente para trabalhar. Mas desejava que eles acreditassem que ele poderia fazer melhor como um artista do que cortando os laços com os shows. Harry conhecia gente que vivia desde sempre da fábrica, homens e mulheres grisalhos que vinham fazendo o mesmo trabalho pelo mesmo salário por décadas. Eles não morriam de fome, mas nunca evoluíam, também. Simplesmente sentavam-se à mesa de trabalho, dia após dia, lentamente definhando.
A espera pelo transporte, uma carroça puxada por um cavalo que levava cerca de quinze pessoas, foi breve. Normalmente ele ficaria feliz por estar em casa mais cedo, mas mesmo com o trabalho na parte da manhã, Harry não estava ansioso para enfrentar sua família.
Ele ficou para trás no final da fila antes de relutantemente dar ao motorista seus últimos tostões e aglomerando-se na carroça com os turistas de carnaval e os trabalhadores retornando para Manhattan.
O transporte balançava em seu caminho através do Brooklyn. Já estava começando a ficar tarde, mas as ruas ainda estavam lotadas. Diligências cheias de homens enchapelados ziguezagueavam entre intermináveis ​​fileiras de barracas de madeira onde vendedores arrematavam suas últimas mercadorias, na esperança de vender os seus produtos restantes a preços menores antes de ir para casa. Crianças imundas estavam na rua, correndo entre os cavalos e barris de cinza que transbordavam em cada esquina.
Ele trocou de transporte, e caiu para trás enquanto a carroça chacoalhava sobre a Ponte do Brooklyn. Embora o céu estivesse escuro, as luzes elétricas nos novos edifícios permitiam que Harry distinguisse a silhueta da linha de edifícios – os contornos do esqueleto dos novos arranha-céus que se elevavam sobre as estruturas menores.
Próximo a ele, um grupo de trabalhadores chineses jogava um jogo de apostas que envolvia adivinhar o número de contas em uma tigela. Cada vez que alguém ganhava, todo o grupo irrompia em aplausos. Harry observou com o canto do olho. Com seu truque de mão, ele sabia que poderia ganhar dinheiro em um jogo como esse, mas ele tinha visto o que acontecia com charlatões que eram pegos em Coney Island. Fazer truques de mágica seria muito mais difícil se faltassem dedos em sua mão.
Enquanto viajavam pela parte alta da cidade, as luzes da rua foram se afastando cada vez mais e a cidade se acomodava para dormir. Depois de mais uma mudança de carroça e uma caminhada de vários quarteirões, Harry chegou à Rua 113th Oeste, onde morava com seus pais e cinco irmãos. Seu estômago roncou enquanto ele subia as escadas para a casa de sua família. Ele esperava que houvesse sobras do jantar para ele. Sem o dinheiro do seu show, não havia como saber o que o amanhã traria.

* * *

A casa estava escura, e Harry entrou tão silenciosamente quanto pôde. Ele tinha esquecido a chave de novo, o que não foi problema – alguns segundos com a seleção de ferramentas mágicas de sua mochila e a fechadura estava aberta. Desde seu breve aprendizado para um chaveiro em Appleton, Wisconsin, Harry tentava pensar em maneiras de incorporar suas habilidades em seu show, mas continuava sem conseguir algo bom. Ele não podia imaginar qualquer coisa menos excitante do que escolher alguém para prender no palco.
Ele caminhou através do corredor, ansioso para se certificar de que não acordou ninguém de sua família. Mas enquanto cruzava a sala escura, pisou em algo que fez som de trituração, como vidro quebrado. Harry balançou a cabeça. Um de seus irmãos devia ter quebrado alguma coisa de novo. Ele estendeu a mão para o aparador e se atrapalhou um pouco antes de seus dedos encontrarem o lampião a gás.
Quando a luz encheu a sala com longas sombras e um brilho laranja escuro, a respiração de Harry pesou no peito. Pequenos objetos de sua família, que normalmente se erguiam com orgulho sobre a lareira, estavam todos quebrados. Fotografias, prêmios de seu pai, medalhas de corrida em trilhas de Harry, e até mesmo as taças de cristal do casamento de seus pais tinham sido reduzidos a uma pilha de fragmentos e estilhaços. Isso não aconteceria por um descuido – a única maneira de fazer com que esta bagunça acontecesse era esmagar cada peça individualmente.
Um pensamento aterrorizante se instalou em sua mente, e bobinas de medo apertam em torno de seu estômago. E se alguém tivesse machucado sua família? Ele levantou o lampião, revelando arranhões profundos na parede acima da lareira, barras que se pareciam com a letra V. Harry recuou e escorregou em um pedaço dos destroços, chocado demais para sequer tentar encontrar o equilíbrio. Ele sentou em uma cadeira quando cambaleou, e caiu sentado com um baque, ainda segurando o lampião a gás.
Quando Harry se levantou, pôde ouvir seus pais se mexendo em seu quarto.
A porta se abriu e sua mãe apareceu.
Harry correu para frente para impedi-la de entrar, mas era tarde demais. Ela engasgou enquanto via a cena, virando-se para agarrar o pai de Harry enquanto ele saía do quarto com cautela.
— Pensei que você tivesse dito que não nos incomodariam aqui — ela sussurrou. — Eles vieram à nossa casa — ela levou a mão ao peito. — Enquanto estávamos dormindo.
O rosto de seu pai estava ilegível enquanto observava a cena.
— Harry, vá para a cama.
Desde que adoecera, a voz de Mayer Samuel tinha esmaecido, um golpe esmagador para o ex-rabino que uma vez silenciara sinagogas lotadas com seu barítono autoritário.
— Sua mãe e eu cuidaremos disso.
— I-i-nvadiram? Quem...? — Harry gaguejou.
Quando sua mãe viu a preocupação no rosto de Harry, forçou a boca em uma impressão fraca de um sorriso.
— Não se preocupe. Parece que alguém deve ter invadido. Mas eles se foram agora. Vamos denunciá-los à polícia pela manhã.
Harry sabia que ela estava mentindo ou, pelo menos, escondendo a verdade. Ele levantou uma sobrancelha para seu pai, esperando uma explicação melhor.
— Mãe? — a voz de uma menina guinchou da porta.
A irmã de Harry, Carrie, e seu irmão Leopold estavam ali em seus camisolões.
— Não é nada, querida — disse sua mãe, conduzindo-os até a porta de volta para seus quartos.
— O que está realmente acontecendo? — Harry perguntou a seu pai uma vez que eles tinham ido embora.
Seu pai não disse nada e balançou a cabeça, abaixando-se cansado em sua cadeira favorita.
Recusando-se a sair, Harry se abaixou e começou a limpar. Ele recuperou as poucas peças que ainda tinham algum valor, e varreu o resto dos destroços em uma pilha.
— Obrigado, Harry — disse o pai, e depois ficou em silêncio novamente enquanto Harry puxava a sujeira para uma pá de lixo e a esvaziava em um saco velho. — Como foram os seus shows? — Mayer Samuel finalmente perguntou, como se a mudança de assunto pudesse esconder o terrível acontecido.
Harry sentiu uma pontada de irritação. Se ele era velho o suficiente para sustentar a família, então era velho o suficiente para saber a verdade sobre o arrombamento. Mas antes que ele tivesse a chance de libertar as palavras cortantes se formando em sua garganta, Harry viu o olhar cansado no rosto de seu pai e sua voz se suavizou.
— Não foi excelente — admitiu. — Eu estraguei o último truque, e Thaddeus se recusou a me pagar. — Quando seu pai não respondeu, Harry continuou: — Se eu cometer outro erro, estou fora para sempre — disse ele sem rodeios, sentindo seu último fio de esperança sumir quando falou em voz alta.
Seu pai apenas encarou o chão. Harry sabia que ele estava desapontado, mas era gentil demais para dizer qualquer coisa enquanto a ferida ainda estava fresca.
— Harry, por que você continua fazendo isso para si mesmo? — Sua mãe perguntou da porta. — Vai acabar louco tentando fazer uma vida à partir da mágica. Você não quer uma renda fixa? Ou a capacidade de sustentar uma família?
Harry fechou e abriu os punhos.
— Alguém invade nossa casa, quebra nossas coisas, escava nossa parede... e você quer falar sobre as minhas perspectivas de trabalho? — ele devolveu.
— Sua mãe e eu vamos lidar com isso — disse o pai em voz baixa. — Um velho conhecido apenas queria me mandar... uma mensagem. Vou fazê-lo ver a razão e nós daremos um jeito.
— Nós queremos o que é melhor para você e para a família — acrescentou a mãe. — Eu sei que é o seu sonho, mas é hora de você começar a pensar sobre o seu futuro.
Agradecido por seus pais não poderem ver seu rosto ruborizar à meia-luz, Harry murmurou um “boa noite” apressado e foi para o quarto que dividia com seu irmão Theo.
Sua mãe estava certa. Por mais que ele odiasse isso, ele precisava assumir a responsabilidade. Ele não voltaria a Coney Island no próximo fim de semana. Ao contrário, pediria ao supervisor para pegar turnos extras na fábrica de gravata.
Quando ele se jogou na cama, pôde ouvir seus pais sussurrando na sala, suas vozes oscilando entre a raiva e medo. Harry se esforçou para ouvir, mas não conseguiu. As palavras permaneceram murmuradas lá fora até quase uma hora mais tarde, quando seu pai falou no corredor para o quarto:
— É a minha dívida, Cecilia. Eu tenho que pagá-la de uma forma ou de outra.

* * *

Harry cortou com a tesoura, e a forma da gravata surgiu do pano listrado. Colocou-a cuidadosamente sobre o carrinho e pegou outra folha de tecido, habilmente manobrando a lâmina até que outra gravata apareceu. Harry a pôs no carrinho, e acenou para um dos rapazes mais jovens responsável pela entrega das células até a mesa de costura.
O ar na fábrica de gravatas de R.H Richter era uma sinfonia de linha de produção. Tesouras estalavam, carrinhos guinchavam, e do outro cômodo vinha a cadência das fofocas das costureiras. Ele gostava mais de quando era mais novo, empurrando carrinhos de sala em sala para manter a produção fluindo. Ele até carregava um baralho de cartas qualquer com ele para entreter os mais jovens cortadores quando tinha um momento livre e o chefe não estava por perto para gritar com ele. Mas a ideia de passar o resto de sua vida aqui fez o estômago de Harry se encher de terror. Dia sim, dia não, ele cortava a mesma forma de tecido. Todas as semanas, a cor ou padrão do material iria mudar. Hoje, foram listras pretas e douradas. Mas não houve novos desafios, não havia oportunidades de usar sua imaginação, ou até mesmo seu cérebro. O sol brilhando através das janelas sujas parecia rastejar através do céu mais lentamente a cada hora. E sempre que ele olhava para os homens e mulheres mais velhos que estavam passando suas vidas na fábrica, quase podia se ver em suas peles resistentes e expressões resignadas.
Era uma pequena misericórdia, mas pelo menos tinha seu amigo Jacob ao lado dele, uma tesoura cortando um contraponto monótono do próprio Harry.
— Estou com o seu livro — Jacob sussurrou uma quando o supervisor virou as costas para eles.
Depois de economizar por semanas, Harry finalmente tinha sido capaz de comprar uma cópia de segunda mão de um livro escrito pelo maior mágico do mundo moderno, Jean-Eugène Robert-Houdin. Harry ficara acordado a noite toda lendo sobre as realizações de Robert-Houdin: ele lia mentes, e até mesmo deixava seu filho suspenso no ar. Antes de Robert-Houdin, mágicos haviam sido limitados a realizar seus shows em feiras e nas esquinas das ruas, mas não tinham magia elevada a uma arte. Ele tinha sua própria rede de teatros, construídos para reis e rainhas, e fora enviado para a Argélia por Napoleão III para usar sua magia para desacreditar um bando de homens e ganhar influência com habilidades mágicas.
Harry viu o livro como um mundo de possibilidades, possibilidade de que a mágica pudesse ser sua passagem de saída do tédio da vida fabril que esmagava a alma.
Mas esse tinha sido nada mais que o sonho tolo de uma criança.
— Você pode ficar com ele.
— Do que você está falando? É o seu bem mais valioso.
— Eu não estou mais fazendo mágicas — Harry respondeu sem rodeios. — Preciso me concentrar em ajudar a minha família.
— Você não pode! — Jacob exclamou, em seguida, olhou em volta, aliviado ao ver que o supervisor não estava por ali. — Não depois de todo o trabalho que nós colocamos nisso. E, além disso, já vi o que acontece quando você faz seus shows. Você se torna uma pessoa completamente diferente, Harry. É o que você está destinado a fazer!
Os dois estavam praticando truques em seu tempo livre fazia um ano agora, e já se apresentaram juntos em diversos espetáculos. Quando o pai de Harry ficou doente demais para trabalhar, e abriram vagas na fábrica, Harry convencera o chefe a contratar Jacob como um cortador.
Harry se virou.
— Eu apenas não sou bom em magia o suficiente para sustentar a minha família.
Ele terminou a gravata e cuidadosamente a colocou no carrinho.
— Quantas vezes você já me disse que quer ser como Robert-Houdin?
— Nós nunca vamos conseguir o dinheiro para construir ilusões como ele conseguiu — disse Harry, lutando para manter a voz baixa. — Ele usou ímãs e um relógio e tinha uma equipe de assistentes, um carpinteiro e um mecânico. Ele podia fazer uma flor de uma laranjeira...
— Mas o que falamos sobre o truque de metamorfose? — perguntou Jacob. — É preciso um suporte especial, mas poderíamos pagar se economizarmos.
— Você não entende — Harry retrucou. — Acabou. Eu tenho que ajudar meus pais e sustentar a família. Não posso gastar dinheiro em caixas mágicas.
Os calcanhares do supervisor fizeram barulho no final do corredor e os meninos voltaram ao seu trabalho. As mãos de Harry aprenderam os movimentos tempos atrás e podiam cortar uma gravata quase que automaticamente.
Talvez um dia, se ele tivesse uma promoção e seu pai melhorasse e voltasse ao trabalho, ele seria capaz de se dar ao luxo de construir um grande truque. A ideia de realizar a metamorfose o enchia de energia renovada quando imaginava o olhar no rosto do público quando eles percebessem que ele e Jacob tinham “magicamente” trocado de lugar enquanto um deles estava trancado em uma caixa.
A mente de Harry correu quando ele pensou sobre como o truque funcionaria. Havia maneiras de fazer o interruptor mais rápido? Havia definitivamente maneiras de melhorar o design da caixa. Se ele pudesse conversar sobre isso com um carpinteiro...
Uma mão segurou o ombro de Harry, e quando ele voltou à realidade, sua tesoura escorregou, cortando o tecido torto.
— O que você está fazendo? — Harry gritou, antes de se virar para ver quem era. — Você arruinou esta gravata!
O enorme supervisor apareceu ameaçadoramente sobre ele. Parecia que ele pertencia a uma equipe de pedreiros, ou um general de uma legião romana, em vez de trabalhar em uma fábrica de gravatas.
Mas Harry sabia que ele havia sido ferido durante a Guerra Civil e não fora capaz de mover-se facilmente em mais de duas décadas.
— Você arruinou tudo antes de eu chegar aqui, Weiss — o supervisor rosnou.
Harry olhou para baixo. Realmente, ele tinha cortado em linha reta através do tecido, em vez de em ângulo, deixando as gravatas com longas listras longitudinais. Ele engoliu em seco. Todo o lote fora perdido.
— Eu sinto muito — disse Harry humildemente. — Minha mente deve ter vagado.
— Weiss — o chefe rosnou. — Olhe para o seu carrinho.
Harry olhou para o carrinho. Seu coração se afundou. Cada uma das gravatas fora cortado no ângulo errado. A sala encheu-se com um silêncio quando os outros trabalhadores olharam fixamente para a própria tarefa, fingindo não ouvir.
— Vocês, imigrantes, são todos iguais — disse ele, os lábios enrolando com nojo. — Sempre querem um emprego, mas nunca querem trabalhar. Você conhece a regra: se não presta atenção, não recebe o pagamento — ele balançou a cabeça e apontou para a porta. — Saia daqui. E não se incomode em voltar.
Jacob o fitou por uma fração de segundo, capturando a atenção de Harry com um olhar de pânico. Em seguida ele se virou e se inclinou de volta para seu corte. Eles sabiam por experiência própria quão rapidamente a ira do chefe poderia mudar o foco.
— Mas a minha família... — Harry protestou.
— Eu mandei você sair — gritou o chefe. — Você tem sorte de que eu não o faça pagar por todo o tecido desperdiçado. É melhor sair antes que eu mude de ideia.
Harry levantou-se em transe e deu um passo para a porta antes de perceber que ainda estava segurando a tesoura. O chefe estendeu a mão e Harry entregou-lhe automaticamente.
Ele saiu para a rua iluminada pelo sol, ainda perplexo com o que tinha acabado de acontecer. Em menos de 24 horas, conseguiu perder dois empregos. Ele não estava talhado para ser um mágico e, aparentemente, não tinha sequer o necessário para trabalhar em uma fábrica.
— Preste atenção.
Harry deu um passo para o lado quando uma mulher segurando uma grande cesta passou por ele, lançando-lhe um olhar desagradável. A rua estava cheia de gente andando apressadamente em todas as direções, mas Harry simplesmente se levantou e encarou a as pessoas. Normalmente, as multidões e o barulho enchiam Harry com um sentimento de emoção, mas hoje, eles só o faziam sentir-se terrivelmente só.

* * *

Lojas e pedestres passavam por Harry enquanto ele corria até a Broadway. Ele não tinha dinheiro para uma carruagem, e correr era a única maneira de afrouxar o nó de culpa e medo que começava a crescer em seu estômago quando ele saiu da fábrica de gravatas.
Ele passou as primeiras horas vagando ao redor da zona de moda. Vendedores de roupas iam às ruas, peças feitas por imigrantes como Harry, e vendiam para as mulheres de classe média que podiam pagar roupas novas para as suas famílias.
Os vendedores do lado de fora, cada um tentando abafar as vozes dos outros com as suas promessas sobre fornecimento das últimas modas pelo menor preço. Havia coletes pretos e cinzentos para os homens e vestidos longos para senhoras com plissados e babados. Para os mais ousados, havia trajes especiais para damas que andavam de bicicleta, completo com calças.
Ele procurou para ver se qualquer alguma das lojas estava contratando, mas cada uma parecia cheia.
Por fim, decidiu que não havia mais nada a fazer além de ir para casa e contar a sua família o que tinha acontecido. Ele caminhou os primeiros quilômetros até as fábricas e lojas derem lugar a prédios de apartamentos e casas lotadas em ruínas, e então começou a correr.
Ele aprendeu da maneira mais difícil o que acontecia com imigrantes garotos que vagavam através das áreas residenciais de luxo – uma vez ele tinha sido parado por um policial que pensava que Harry era um ladrão fugindo da cena de um crime.
Com alguns desvios, foi um percurso perfeito de oito quilômetros da zona de moda até a casa de sua família na 113th Street, no Harlem. Sua dedicação de um corredor campeão no Athletic Club, tivera efeito, e ele até ganhara uma medalha no ano anterior em uma competição que passou por toda a cidade. Quando ele foi convidado para posar para o jornal local depois da sua vitória, ele comprara um punhado de medalhas de uma loja de quinquilharias em Coney Island e colocou-as em seu uniforme. O repórter parecia cético, mas o fotógrafo adorou. Ser um artista de palco tinha ensinado Harry que dar uma boa impressão era importante. E não era como se Harry tivesse dito que ele ganhou as medalhas. As pessoas viram o que queriam ver – não foi culpa dele se fizeram suposições que não eram verdadeiras.
Harry dobrou a esquina em seu quarteirão e viu três homens batendo na porta de seu apartamento. Até o momento que ele subiu correndo os degraus, eles já haviam convidados a entrar e Harry podia ouvi-los falar com seu pai. Ele seguiu em silêncio e parou um momento no vestíbulo, permitindo que seus olhos passassem pela escada de madeira que uma vez tinha sido finamente trabalhada, mas que agora estava quebrada e velha. Quando Harry fez uma pausa, relutante em ir para cima e enfrentar seus pais, a voz filtrada de seu pai desceu pelas escadas.
— Você tem que entender, eu tenho tentado — seu pai estava dizendo. — Caí de cama, doente. Mas estou descansando, e tenho fé de que isso vai passar.
O homem do outro lado da conversa disse algo baixinho. Parecia que ele tinha um sotaque húngaro, mas Harry não conseguia distinguir as palavras. Ele sabia que não deveria escutar, mas não podia forçar-se a subir as escadas ou voltar para fora.
— Eu simplesmente não tenho o dinheiro — seu pai continuou. — Estamos perto de perder a casa e... — a voz de seu pai vacilou.
Harry sentiu como se tivesse levado um soco no estômago pela segunda vez no dia. Seu pai devia dinheiro a estes homens. Harry sabia como essas dívidas eram contabilizadas em Coney Island – ou você paga, ou alguém teria que pescar o seu corpo para fora do porto.
E de todos os dias, estava acontecendo no dia em que ele perdera o emprego.
— Eu pago no prazo faz anos. Basta dar-me algumas semanas extras, e você terá o seu dinheiro.
Harry podia ouvir a súplica na voz de seu pai.
Houve um silêncio vindo lá de cima. Harry esperava que fossem os homens reconsiderando sua posição, mas suas esperanças foram frustradas quando ouviu a voz com sotaque húngaro falar em voz baixa, ameaçando.
— Entendo — Mayer Samuel respondeu, com a voz fina e esganiçada.
Harry ouviu o assoalho ranger quando os homens caminharam em direção à escada. Depois que eles saíram, Harry abriu a porta, saiu e correu em disparada pela rua.
Quando ele estava alguns passos atrás dos homens, desacelerou para uma caminhada, tendo o cuidado de ficar para o lado no caso de algum deles se virar. Todos os três homens usavam ternos caros, mas o que liderava o caminho carregava uma bengala de prata, e seu cabelo preto estava penteado para trás com óleo. Ele tinha a postura ereta que Harry associava aos mestres de cerimônia elegantes que realizavam números nas grandes tendas de circo em Coney Island. Eles faziam o seu próprio patrão, o mestre Thaddeus, parecer com um bandido de meia-tigela. O que não era muito longe da verdade. O homem torceu o nariz e andou mais rapidamente quando passaram por dois meninos sujos que brincavam na sarjeta.
Os homens andavam pela rua sem se preocupar em olhar ao redor, e Harry viu-se a segui-los. Ele só tinha a intenção de dar uma olhada rápida, mas quando as palavras do pai ecoaram em sua cabeça, ficou desesperado para descobrir quem eram essas pessoas. Seu pai era um homem de princípios – como ele se misturara com homens que batiam em sua porta e destruíam objetos de valor de sua família?
O sol estava se pondo, e Harry foi facilmente capaz de segui-los sem levantar suspeitas.
Quando o homem chamou um cabriolé que passava, Harry correu atrás do cavalo forte, mantendo uma distância segura e tentando ficar nas sombras.
A carruagem desfilava através da periferia da cidade, como a lua, passando por fábricas vazias pela noite, e algumas que tinham luz elétrica instalada. Finalmente, eles se voltaram para as docas. Por um momento, ele pensou ter ficado muito atrás e os perdido, mas virou uma esquina e viu os três homens desembarcarem e o transporte voltar para a cidade.
Harry se esgueirou por entre as sombras quando o trio andou para mais perto da água, em direção ao cheiro de peixe, carvão e lixo. Os pilares de madeira que se estendiam para dentro do rio eram tão longos que pareciam desaparecer na noite.
Eles foram abordados por um grupo maior que parecia a Harry como meia dúzia de policiais. Por um esperançoso momento, Harry pensou que os homens estavam prestes a ser presos. Se eles fossem para a cadeia, certamente a dívida de sua família não teria importância.
Mas os dois grupos simplesmente conversaram, e o coração de Harry afundou quando viu o homem distinto de gravata, bigode e barba que parecia estar no comando.
Era o chefe de polícia McKane, o homem corrupto e despótico que estava por trás de cada negócio obscuro em Coney Island. Ele também era o comissário de armas, comissário das escolas, superintendente da Igreja Metodista e o tenor no coro da igreja. Ainda era o Papai Noel no concurso anual de Natal. Nada acontecia em Coney Island sem a aprovação de McKane. Ele fora a julgamento várias vezes, mas as autoridades do estado nunca conseguiam acusações que se mantivessem.
McKane conversava com o homem de cabelo penteado para trás, cujo nome aparentemente era Zoltan. Eles discutiam um negócio que evidentemente dera errado, McKane gritava, e seu rosto tinha ficado vermelho. Ocasionalmente, Zoltan falava algumas poucas palavras em voz baixa, mas principalmente permanecia impassível, assistindo o chefe de polícia com um sorriso divertido. Armada a tensão entre os observadores, McKane finalmente pegou sua arma.
Harry prendeu a respiração quando a cena se transformou em uma onda de atividade. Zoltan se lançou para McKane, enquanto seus companheiros voaram para os outros policiais. Por um momento, o som de passos, gritos, e os ossos se quebrando ecoou pelo ar da noite, mas logo deu lugar a um leve coro de gemidos e respiração difícil.
Zoltan tinha o chefe de polícia preso pelo pescoço e segurava uma lâmina reluzente em sua garganta. Seus companheiros estavam de pé ao lado da pilha de policiais feridos no chão.
Harry prendeu a respiração e deu alguns passos para trás em um beco escuro. Quando olhou para fora novamente, viu McKane envolvido em um tipo muito diferente de negociação – um que o incluía implorando por sua vida.
Harry pressionou suas costas contra a parede e tentou tornar-se tão invisível quanto possível.
Seguir homens como estes era suicídio.
Eles eram obviamente assassinos treinados, e se poderiam dar conta de um bando de policiais, não imaginava o que fariam com um garoto desarmado.
Zoltan sorriu e disse algo que Harry não conseguiu ouvir. O chefe de polícia aterrorizado puxou um item de seu bolso, empurrou-o nas mãos de Zoltan, e saiu correndo pelas ruas escuras.
Alguns momentos depois, Harry ouviu os passos dos três homens vindo na direção do beco. Ele encolheu-se o máximo possível, tentando prender a respiração, apesar do odor rançoso do lixo que usava como cobertura.
O ritmo dos passos diminuiu à medida que passavam por ele, e o coração de Harry parecia desacelerar também. Finalmente o som dos passos sumiu, e Harry esperou um minuto antes de se levantar.
Ele cautelosamente passou por cima do lixo, tentando evitar ficar mais sujo do que já estava, então esticou as pernas, que tinham ficado dormentes. Harry sentiu uma rajada de ar, e antes que pudesse reagir, havia um braço circundando seu peito e uma faca em sua garganta.
Uma voz sussurrou em seu ouvido, grave e ameaçadora.
— Quem é você, rapaz?
Ele não conseguia virar a cabeça para ver o homem atrás dele, mas  podia sentir o cheiro do óleo pungente de seu cabelo. Mais pra frente na rua, ele podia ver os outros dois homens retornando.
— Eu sou Harry — ele deixou escapar, calando-se antes de deixar escapar seu sobrenome.
— Por que você estava nos vigiando?
— Eu não... eu não estava — Harry gaguejou.
A lâmina fria da faca pressionou sua pele, e ele podia sentir uma gota de sangue fazendo uma trilha por seu pescoço.
— Eu estava dormindo ali — ele mentiu. — Fui expulso da minha casa.
— Você escolheu um local ruim para uma soneca — o homem rosnou em seu ouvido. Ele afastou-se e empurrou Harry para os braços dos outros dois homens. — Venha.
Seus dois companheiros agarraram Harry e arrastaram-no para frente. Harry tentou se afastar, mas eles simplesmente agarraram seus braços com força. As pernas de Harry tremiam quando ele olhou para trás e viu um dos policiais ainda no chão, gemendo de dor. Ele nunca deveria ter seguido esses homens. Tinha sido tolice pensar que poderia fazer qualquer coisa para ajudar sua família. Tudo o que conseguiu foi tornar as coisas infinitamente piores. E agora parecia que teria que pagar por seu erro com vida. Eles o levaram para o cais em direção aos barcos, e arrastaram-no até a entrada de um.
— Para onde vamos? — Harry gritou, lutando contra o aperto forte.
Suas pernas derraparam na madeira – incapazes de mantê-lo de pé, os homens o arrastaram para frente. Iam levá-lo com eles? Iam trancá-lo no porão? Torturá-lo?
Eles arrastaram Harry para o convés de um pequeno barco a vapor, e poucos minutos depois estavam se afastando do cais, para o rio Hudson.
Zoltan adiantou-se e se inclinou, tão perto que Harry podia ver seu próprio reflexo nos olhos cinzentos do homem.
— Eu sei quem você é — disse ele friamente. Seu sotaque húngaro era perceptível, mas não soava como os outros imigrantes no bairro de Harry. Sua voz era mais polida, como se estivesse acostumado a falar – ou talvez comandar – grandes grupos de pessoas.
— Você é o filho de Weiss. Será que ele mandou que nos seguisse? — Zoltan balançou a cabeça. — Eu esperava que ele fosse melhor.
— Ele não me mandou — Harry respondeu. — Por favor, não o machuque. Vou ajudar a pagar a dívida dele. Eu trabalho em uma fábrica, e estou pegando turnos extras...
O rosto de Zoltan se contraiu, e Harry ficou em silêncio.
— Agora é tarde demais — respondeu Zoltan. — Você não deveria ver nada disso.
Harry podia sentir o vento soprando através da plataforma enquanto o barco a vapor se distanciava do porto. Quanto tempo levaria para que seus pais começarem a se preocupar? Uma onda de culpa oprimiu brevemente o seu medo. Ele não queria morrer, mas o pensamento de seus pais em luto por ele era quase pior.
Zoltan virou-se para um dos homens.
— Istvan, sei que já estrangulei, sufoquei e enterrei prematuramente, mas já afoguei alguém?
Istvan balançou a cabeça.
— Sério? Não posso acreditar que tenho essa falha em meu repertório — ele atirou um sorriso a Harry que poderia ser considerado amigável se ele não estivesse discutindo os diferentes métodos de cometer um assassinato. — Tenho uma reputação de certo nível de carisma.
Harry sentiu seu coração começar uma corrida louca. Eles não estavam apenas tentando assustá-lo. Iam realmente agir. Ele fez uma careta quando Istvan puxou seus braços para trás das costas, enquanto o terceiro homem foi até a cabine e puxou um rolo de corda.
— Tem certeza de que não quer testar o meu novo rifle Winchester? — perguntou Istvan. — Ou talvez a espada wakizashi comprei do mercador japonês?
Zoltan sorriu.
— Não se preocupe, tenho certeza de que encontraremos uma maneira de empregar os seus novos brinquedinhos em breve.
O estômago de Harry se contorceu, como se alguém já tivesse mergulhado uma espada dentro dele. Imaginou o colapso de sua mãe quando ouvisse a notícia. A resignação silenciosa de seu pai enquanto a verdade se estabelecia e mais um segmento de sua antiga vida era revelado. Seus irmãos seriam esmagados, e pior, haveria até mesmo dinheiro para alimentá-los? E Harry nunca subiria ao palco novamente.
Nunca conheceria a emoção de uma ilusão perfeitamente executada, e os aplausos de uma multidão colhidos com apreciação.
Ele não podia deixar isso acontecer. Tinha que encontrar uma maneira de escapar.
Por um momento, Harry considerou lutar contra eles, mas sabia que era inútil.
Havia três deles e eram todos maiores do que ele. E ali havia, provavelmente, mais outros homens na ponte abaixo.
Harry respirou fundo e levantou-se ereto, quase como se estivesse no palco. A sensação de calma e propósito caiu sobre ele.
Ele não conseguiria dominá-los, então teria que sobreviver de alguma outra forma.
Sentindo-se quase em um sonho, ele deu um passo para frente e deixou que o amarrassem. Quando enrolaram a corda ao redor de seus braços, ele contraiu os bíceps. Harry passou anos atuando como “Príncipe do Ar”, e não havia nada como ficar suspenso pelos braços para aumentar os músculos. Ele flexionou os músculos enquanto as cordas eram apetadas e os esperou passar para seus pés antes de relaxá-los. Uma vez que seus bíceps já não estavam contraídos, podia sentir que as cordas estavam significativamente mais frouxas.
O medo e pânico correndo por seu corpo deram lugar à mesma energia ansiosa que sentia pouco antes de subir ao palco. Mas ele não podia deixar que os homens soubessem que ele tinha um plano, e ele permitiu que seu corpo ficasse mole quando Istvan ergueu-o para o parapeito. O coração de Harry batia forte enquanto ele tentava se contorcer em torno e olhar para a água. Eles estavam longe da costa, mas as luzes de Manhattan ainda eram visíveis.
— Vocês não precisam fazer isso — ele gritou quando se aproximaram da borda. — Meu pai vai pagar. Eu vou pagar também! — Ele precisava soar como pensasse que estava prestes a morrer. Não foi difícil.
Harry sabia que havia uma grande chance de seu plano falhar. Mas ele não podia pensar nisso agora.
Era a hora do show.
Istvan grunhiu ao colocá-lo no deque ao lado da abertura. Harry olhou para baixo e ficou um pouco tonto, enquanto observava a água que agitando-se contra o fundo do barco cerca de quatro andares abaixo.
— Você não tem que fazer isso! — Harry gritou, sentindo-se uma nova onda de terror ameaçando tomar seu corpo. — Por favor!
Zoltan deu a Harry um empurrão. Ele vacilou por um momento, olhando para a água escura abaixo.
Em seguida, o barco balançou, e ele perdeu o equilíbrio e caiu no mar.

* * *

Harry respirou fundo antes de atingir a superfície e a água gelada fechar em torno dele.
Ele se balançou como um golfinho, nadando debaixo d'água. Precisava de tempo para escapar antes subir à tona para respirar.
Ele se contorcia e remexia, usando a frouxidão das cordas em torno de seus braços na sua melhor vantagem. O frio da água apertava-o abaixo e acima e ele não escutava nada, ao não ser um rugido surdo e as batidas do seu coração. As cordas cortavam sua pele, mas ele mal notou quando se esforçou para livrar-se delas.
Por um momento, seu pulso direito parecia preso em um nó bem atado, mas com uma torção dolorosa ele puxou-o para fora. Suas mãos estavam livres.
Com as pernas ainda amarradas, Harry olhou para cima. As luzes do barco eram filtradas através da água escura, e ele podia enxergar apenas o contorno do casco do barco a vapor.
Seus pulmões estavam gritando por ar, mas com um golpe de seus braços, Harry mergulhou mais fundo na água. Ele balançou as pernas atadas como um golfinho.
Quando chegou ao casco do barco, agarrou as cracas e se arrastou para baixo. Se ele surgisse cedo demais, os homens saberiam que ele tinha sobrevivido.
Quando ele passou a quilha, a pá do barco entrou em movimento. Harry sentiu um momento de pânico quando começou a ser puxado para trás.
Com um chute de suas pernas e impulsos de seus braços, ele se afastou. Seus pulmões queimavam e ele sentiu sua cabeça latejar enquanto se esforçava para chegar à superfície.
Finalmente, ele ultrapassou a água e engasgou.
Ar inundava seus pulmões. Em seus ouvidos, sua respiração irregular soou incrivelmente alta, mas felizmente o barulho da máquina a vapor parecia encobri-lo. Ele podia ouvir Zoltan e seus companheiros falando do outro lado do barco, e quando seu fôlego voltou, ele sorriu com satisfação.
Harry agarrou-se ao casco do barco uma vez que este começou a ganhar velocidade e afastar-se do porto.
Segurando-se com uma das mãos, usou a outra para desamarrar os pés. As cordas molhadas pareciam grudar, mas ele finalmente conseguiu soltá-las e desembaraçá-las e deixá-las afundar na água.
— Ele não vai voltar para cima — Harry ouviu a voz de Istvan do outro lado do barco. — Parece que ele é pequeno e magro demais para flutuar. Eu ganhei. Você me deve dez dólares, Bjorn.
— O barco começou a se mover. Nós não estávamos perto o suficiente para ver — Bjorn protestou. — Se eu atirar alguma dinamite e pescá-lo na explosão, contaria?
— Chega — Zoltan cortou-os bruscamente. — Nós não viemos para a América apenas para dispor de crianças intrometidas. É hora de começar a trabalhar. — Ele fez uma pausa. — Terminaremos esta conversa no convés inferior.
Mesmo que estivesse agarrado ao barco, Harry continuou a bater os pés na água. Na água gelada, era importante se manter em movimento para evitar a hipotermia.
Quando o barco a vapor passou pela Ilha do Governador, eles cruzaram com uma barcaça de lixo que voltava na direção da cidade. Harry se soltou e com movimentos vigorosos agarrou-se firmemente à barcaça e subiu a bordo. O capitão do rebocador podia vê-lo, mas Harry pouco ligou. Ele estava fora da água gelada, e estaria de volta à cidade em poucos minutos.
E se ele tinha planejado corretamente, Zoltan e sua tripulação pensariam que ele estava morto – o que significava que ele estava seguro, por enquanto. Ele tirou a roupa encharcada e encolheu-se. Harry observou o barco à vapor deslizar para longe até desaparecer na noite, deixando apenas os rastros de suas chaminés.

* * *

— O que você estava pensando? — O pai de Harry exigiu. — Você quase foi morto! Zoltan é um assassino. Os Vesper o usam para as suas missões mais perigosas – eles só foram mandados para recolher a minha dívida porque ele estava em Nova York, em outro negócio.
Era tarde quando Harry voltou, mas seus pais estavam esperando por ele. Luz da madrugada vinha através das janelas da sala, e Harry podia ouvir a cidade ao redor deles começando a acordar. O rosto de seu pai estava branco pela doença, e ele tinha um cobertor extra estendido sobre suas pernas.
— Quem são os Vesper? — perguntou Harry, cansado demais dos acontecimentos da noite para tentar se defender. — O que eles querem com a nossa família?
O pai de Harry suspirou, e parou por um momento. Finalmente, ele olhou para cima, fixando Harry com um olhar triste.
— Você é muito jovem para se lembrar disso, mas a vida não era fácil na Hungria, especialmente para os judeus. Passei muitos anos tentando providenciar passagem para virmos para a América, mas quando a papelada finalmente veio, nós ainda não tínhamos dinheiro suficiente para a passagem. Tomei um empréstimo dos Vesper, a fim de comprar um bilhete para mim, e deixar para trás dinheiro suficiente para você, sua mãe e seus quatro irmãos virem.
Seu pai se virou para sua mãe, que concordou em silêncio, pedindo a Mayer Samuel para continuar.
— Foi uma tolice — admitiu. — Na época, eu não sabia muito sobre os Vesper. Entendi que eles tinham algum tipo de rixa contra os Cahill, mas eles eram os únicos em Budapeste dispostos a emprestar dinheiro assim, sem qualquer tipo de garantia. — Ele fechou os olhos, como se recordasse as memórias armazenadas no fundo de sua mente. — E agora eu sei o porquê. Os Vesper são uma rede mundial de criminosos, e eu nunca deveria ter me envolvido com eles.
— Por que você não os pagou? — perguntou Harry.
Seu pai balançou a cabeça.
— Eu paguei. Tentei. Mas eles continuaram a aumentar os juros até que o pagamento se tornou impossível. — Ele fez um gesto em direção a sua sala de estar, escassamente mobiliada. — Nós lhes demos tudo o que temos.
— É por isso que temos sido tão exigentes com você e seus irmãos — sua mãe acrescentou tristemente. — Não tivemos escolha, salvo tentar pagá-los. Sabíamos que eles nos encontrariam eventualmente.
Harry não podia acreditar no que estava ouvindo.
— Então foram eles que invadiram nossa casa? — seu pai concordou. — Nós temos que fazer alguma coisa — Harry insistiu. — Eu vou para a polícia.
— Você não vai fazer tal coisa — Mayer Samuel ordenou, sua voz recuperando alguma da sua antiga autoridade. — Os Vesper controlam todas as grandes redes de crime na cidade. Não há como saber que tipo de influência eles têm com a polícia. Você só vai piorar as coisas.
Uma onda de raiva fervente brotou de algum lugar dentro dele.
— Bem, eu tenho que fazer alguma coisa. Não vou ficar aqui enquanto eles ameaçam a nossa família.
— Harry — disse seu pai, fixando um olhar em seu filho que deixou claro que ele tinha ouvido o que aconteceu na fábrica de gravatas. — Tudo em que você precisa se concentrar é em encontrar um emprego. Vá fazer suas apresentações neste fim de semana para trazer um pouco de dinheiro, e, em seguida, arranje um emprego de verdade na próxima semana. Sinto muito. Eu gostaria que as coisas fossem diferentes.
— O que vai acontecer com vocês? — Harry perguntou. — Será que não os Vesper voltarão?
— Eu cuidarei deles — disse Mayer Samuel. — Vamos juntar o máximo de dinheiro que pudermos antes que eles voltem na próxima semana. Mas a coisa mais importante é que você fique fora de vista. Os Vesper não podem saber que você sobreviveu. Não depois do que viu nas docas.
— Pai, e se eu...
— Não. — A voz de seu pai tornou-se mais forte por um momento, quase como se fosse seu antigo eu. — Posso não ter muito mais tempo. Este foi o meu erro, e você tem que me deixar lidar com isso.
Harry podia ver a magreza no rosto pálido de seu pai em uma nova luz. Mayer Samuel estava perdendo, e o homem que costumava pegar Harry e girá-lo, deixando-o fingir ser um acrobata, nunca voltaria.
— Harry. — Sua mãe não conseguia olhá-lo nos olhos. — Por favor, faça como ele diz. Você não pode voltar para casa até que os Vesper regressem à Europa. Zoltan odeia ser enganado, e odeia cometer um erro. Se eles te verem, vão matá-lo... e depois punir o resto da nossa família também. Você entende?
Harry engoliu em seco.
— Eu não vou deixá-los me encontrar. Ficarei com Jacob até eles irem. E uma vez que eles se forem... farei a minha parte para cuidar da família. Eu juro.

* * *

Harry ofereceu o baralho, a menina puxou a carta de cima conforme as instruções. O público assistiu atentamente.
— É o cinco de copas. Essa era a minha carta — ela anunciou. — Mas o que aconteceu com...
— Acho que estava em cima do baralho o tempo todo — Harry brincou. — Talvez você tenha simplesmente imaginado ter colocado em seu bolso.
Seu encontro com a morte o deixou nervoso, e até o momento em que pisou no palco suas mãos estavam tremendo. Mas enquanto começava seu primeiro truque em cada show, a calma habitual caía sobre ele. Na baixa luz do palco, ele se transformou no Rei do Baralho.
Ela verificou seu bolso.
— Ela sumiu! — a menina exclamou.
O público aplaudiu. Harry curvou-se, fez algumas cartas aparecerem e desaparecerem, e entrou no pequeno camarim depois de uma rodada final de aplausos. Sentou-se pesadamente sobre o banquinho de madeira. O “bastidor” era pouco mais que um pedaço de tecido preto e grosso fechando uma área de poucos metros quadrados. Não havia nada de mais ali, apenas o assento, alguns trapos, uma garrafa de água e um tambor velho. Ele sentou-se e enxugou a testa com um lenço. Era o seu décimo quinto show no sábado, e ainda havia tempo para mais dois. Demorou cerca de dez minutos para a antiga multidão sair e ele começar de novo. Cada público transmitia uma sensação diferente, e Harry muitas vezes mudava a ordem de seus truques para manter a multidão envolvida.
Harry fora para Coney Island cedo naquela manhã, esperando desesperadamente escapar sem aviso prévio. Nova York era uma cidade enorme e as chances de ele encontrar Zoltan ou um dos outros Vesper era minúscula, mas o coração de Harry ainda saltava cada vez que ele via um homem de cabelo preto.
Ele podia ouvir Thaddeus do lado de fora da sua tenda, incitando os passantes a verem o mágico incrível ali dentro. Do jeito que ele falava, soava como se o Rei do Baralho fosse capaz de feitos verdadeiramente incríveis. Harry só esperava que ele fosse capaz da incrível façanha de ser pago por seu dia de trabalho.
Apesar de ser uma vida fatigante, perceber que este era o seu último fim de semana de shows lembrou Harry do quanto Coney Island o fazia sentir-se em casa. Havia os circos com acrobatas que voavam alto e os majestosos leões. Os mestres de cerimônia gritando comandos, atraindo centenas de olhos a cada novo espetáculo. Havia mágicos que tinham dispositivos que permitiam que eles serrassem seus assistentes ao meio e os fizesse desaparecer.
Harry sabia como tudo era feito, é claro, mas ainda se deixava ir pela diversão, batendo palmas e exclamando com o resto da multidão quando a assistente reaparecia na plateia, ilesa. Havia até mesmo um drama pelos comerciantes privilegiados, que anunciavam com suas vozes estrondosas e faziam o algodão doce soar como um pedaço de nuvem roubado do céu. Como ele poderia deixar tudo para trás?
Quando o público estava lá dentro e estabelecido em seu lugar, Harry pegou um bastão e bateu no tambor quatro vezes. Ele não tinha ninguém para puxar uma cortina, abaixar as luzes, ou tocar música para ele, assim esta era a única maneira de tornar a sua entrada apropriadamente dramática – ou, pelo menos, fazer o público diminuir o volume das vozes para a sua entrada. Ele deu a batida final e saltou para o palco enquanto um punhado de aplausos se elevava.
Começou de costas para a plateia. Ele esticou os braços e, em seguida, com um floreio, um baralho apareceu em cada mão. Houve um pouco mais de aplausos, e um menino assobiou. Harry sorriu para si mesmo, reunindo a sua confiança. O público era seu meio para vencer. Com um movimento hábil, fez os baralhos desaparecerem novamente. Girou para enfrentar a multidão, e parecia que seu estômago deu um salto mortal.
Ele estava lá. Na fileira da frente. Zoltan parecia relaxado na cadeira, usando um palito de dentes para remover a sujeira de debaixo de suas unhas. Ele olhou para Harry, lançando-lhe o mesmo olhar de expectativa do resto do público. Estava acompanhado por seus dois companheiros, Istvan e Bjorn.
A visão dos três homens enviou um arrepio na espinha de Harry. O que eles estavam fazendo ali, sentados?
Sem ter para onde correr, Harry não tinha escolha a não ser iniciar o show. Talvez ele pudesse comprar tempo suficiente para si se tivesse um plano. Sua mente correu enquanto moedas apareceram e desapareceram, lenços mudaram de cor e as cartas obedeciam a cada comando seu. Zoltan ria nos momentos apropriados, aplaudia a cada truque bem-sucedido, e foi realmente um membro da plateia perfeito.
Ele não deveria ter ficado na cidade. Não deveria sequer ter voltado para casa. A única maneira de convencer os Vesper de que ele estava morto teria sido desaparecer completamente.
Será que eles o levariam para sua família?
Harry podia imaginar Zoltan e seus companheiros subindo as escadas da casa dos Weiss novamente, desta vez com o assassinato em suas mentes.
Mas agora era tarde demais para recriminações.
Harry deixou os aplausos da plateia construírem sua confiança enquanto surpreendia um homem, entregando-lhe o relógio que tinha estado em seu pulso até poucos minutos antes.
Harry estendeu o show, comprando-se tempo com histórias elaboradas e ilusões extras. Após o quarto truque de cartas em uma fileira de espectadores, ele pôde ver algumas pessoas dos fundos começando a sair. Se ele não agisse logo, todos começariam a ir embora e ele ficaria sozinho com os Vesper.
Assim que tomou a decisão, Harry sentiu os músculos relaxarem. Era hora de pôr em prática, e ele estava pronto. Harry puxou um novo jogo de cartas e desceu do palco.
— Senhor, será que poderia embaralhar estas cartas para mim? — ele perguntou, oferecendo o baralho para Zoltan, aproximando-se à distância de um braço do homem que tentou matá-lo. Parte de Harry gritava para ele correr e se salvar, mas ele a ignorou. Era a hora do show.
— É claro — Zoltan respondeu amigavelmente, misturando o monte com a facilidade ágil de um jogador. Harry poderia ter se preocupado que o Vesper alterasse o baralho, mas neste momento ele não se importava.
— Por favor, puxe a primeira carta — Harry instruiu, usando sua melhor voz de locutor para as palavras percorrerem a tenda enquanto recuava para o palco — e passe o baralho ao redor. Senhoras e senhores, cada um de vocês deve pegar uma única carta do baralho. Agora vou apresentar-lhes uma nova ilusão. Uma que nunca foi vista antes por olhos mortais! — declarou. Não havia mentira nisso – este era um truque em que ele nunca pensara antes desta noite.
Ele caminhou até o centro do espaço e ficou sob a lâmpada de gás. Um mágico de sucesso teria tambores e uma orquestra para aumentar a tensão, mas Harry só tinha as batidas do seu coração contra sua caixa torácica.
— Examinem de perto as suas cartas — anunciou. — Olhem ao redor – cada um de vocês tem uma diferente. Agora, ergam-na no ar, mas segurem firmemente. — O público obedeceu, incluindo um Zoltan divertido. — Vou apagar a luz, e quando eu acendê-la novamente, cada um de vocês terá exatamente a mesma carta — Harry anunciou.
Ele estendeu a mão para a lâmpada e girou a chave, mergulhando a barraca na escuridão. Algumas das senhoras engasgaram, cobrindo os passos furtivos de Harry.
— Senhoras e senhores! — declarou ele em voz alta. — Preparem-se! — ele chegou à porta, e começou a sacudir a armação de aço que sustentava a tenta. —Atenção! — ele aumentou a intensidade do balanço. — Sinto muito! — ele gritou quando desencaixou com sucesso parte da armação e correu porta afora, deixando que parte da tenda atrás dele entrasse em colapso enquanto o público gritava em choque.
Era um truque simples, realmente. Distrair o público com uma grande promessa, apagar as luzes... e, em seguida, derrubar a tenda sobre eles e correr como o vento.

* * *

Harry desacelerou conforme contornava a esquina. Os espectadores na tenda gritavam, contudo, com um olhar para trás, ele confirmou que apenas uma parte do teto de lona caíra. Ninguém sairia ferido.
Ninguém exceto ele. E, percebeu com desânimo, sua família também. Harry olhou para trás novamente. Zoltan e seu grupo tinham, de alguma forma, conseguido sair debaixo da lona e corriam atrás dele.
Eles eram rápidos, mas Harry sabia que era mais. Ele poderia acelerar em uma explosão de velocidade e fugir. Mas qual era o sentido? Ele poderia correr tão longe ou tão rápido quanto quisesse, mas os Vesper o achariam. Eles tinham muitas conexões. Era muito poderosos. Bastante implacáveis.
Harry conhecia a ameaça implícita que cada chefão do crime fazia às pessoas mais ou menos honestas que ele atacasse. “Me contrarie e eu vou matá-lo. Fuja, e a sua família inteira estará morta”. Olhando para trás, ele podia ver isso escrito no rosto de Zoltan. Harry poderia fugir e se esconder para sempre – mas não poderia esconder seu pai doente. Não poderia esconder seus irmãos mais novos e sua irmã pequena.
Harry parou e se virou, deixando que os três Vesper o alcançassem. Ele podia ver a fúria no rosto de Zoltan, agora misturada a uma leve confusão.
Harry permaneceu parado e encarou de frente os homens, erguendo as mãos em sinal de rendição.
— Levem-me — disse Harry. — Eu sei que acabou.
Istvan e Bjorn desaceleraram, mas Zoltan continuou correndo e abaixou-se um pouco, acertando Harry com o ombro e tirando todo o ar dele. A visão de Harry ficou branca por um momento e ele desabou no chão. Seus pulmões queimavam enquanto ele se esforçava para respirar. Harry arfava, mas o ar apenas parecia não vir.
— Você não pode negociar com a gente — Zoltan disse de cima dele.
O riso dos seus dois companheiros se misturava com o barulho sem sentido nos ouvidos de Harry enquanto ele lutava por ar. Por um momento, Harry teve certeza que morreria, mas muito lentamente sua respiração voltou.
Harry olhou para as três cabeças agrupadas acima dele, emolduradas pelas luzes da feira e pelas estrelas brilhando fracamente acima. Ninguém pararia para questioná-los. Enquanto Coney Island não se preocupasse, grandes criminosos tinham o direito de bater em garotos. Não valia a pena arriscar o pescoço para interferir.
— Me mate — Harry resmungou. — Só por favor, por favor, deixe-os em paz.
Zoltan estava impassível.
— Você morreu na semana passada quando nós te jogamos no rio. Até mandei um telegrama para Vesper Um, dizendo para adicionar o seu afogamento na minha contagem. Eu não passarei por mentiroso.
Por um momento, Harry pensou ter visto um lampejo de preocupação nos olhos de Zoltan. Mas então ele se foi, e o assassino cruel estava de volta.
— Desde que seus pés tocaram a água, você tem vivido um tempo emprestado.
Harry fechou os olhos. Sua fuga tinha sido em vão. Eles ainda iriam matá-lo Ainda destruiriam sua família.
— Mas não é assim que tem que ser — Zoltan adicionou. — Você poderia ressuscitar, se fizer o que precisa ser feito. O quanto gostaria de viver novamente?
Harry olhou para Zoltan, incerto se o outro estava jogando com ele.
— Do que você está falando? — ele ofegou, ainda lutando para recuperar o fôlego depois de sua corrida.
Zoltan inclinou a cabeça, então olhou diretamente nos olhos de Harry.
— Você é um garoto talentoso, mesmo sendo um inútil intrometido. Seus truques de mágica não são um verdadeiro talento artístico, mas eles têm certa utilidade.
Harry se irritou, mas permaneceu em silêncio. Quanto mais tempo esses criminosos distorcidos passassem insultando-o, menos tempo teriam para torturar a família de Harry.
— Preciso que adquira um objeto para mim. Você vai invadir um local específico, usar seus talentos para escapar, e depois me levar o item no dia depois de amanhã. Estarei esperando nas docas com um engradado especial para transportá-lo de volta para a Europa — Zoltan inclinou-se ainda mais perto. — Se tiver sucesso, perdoarei a dívida da sua família e deixarei seu pai em paz. Se falhar, você será detido e mandado para a prisão por um longo tempo. Mas não espere que alguém o visite lá – se falhar, garantirei que cada membro da sua família tenha uma morte única e memorável — o Vesper ficou de pé, com a expansiva postura do executor que Harry tinha trabalhado tão duro para imitar. — Então, temos um trato?
Harry não hesitou. Ele sabia que seus pais ficariam horrorizados se soubessem que ele tinha permitido que os Vesper o arrastassem para a sua teia de criminalidade e mentiras, mas não havia outra escolha.
— Eu farei o serviço.

* * *

Harry e Jacob misturaram-se à multidão, fazendo o seu melhor para parecerem turistas maravilhados. Dada a variedade inacreditável de esculturas, cerâmicas e pinturas ao redor deles, Não era difícil. Havia pinturas mais altas do que Harry, repletas de cavaleiros, anjos e mulheres nobres em cores vibrantes. Havia até uma coleção de adagas, espadas e armaduras com belos ornamentos. Para Harry, o Metropolitan Museum of Art era como uma versão elegante de Coney Island, com todo o drama e espetáculo, mas sem a sujeira, violência e corrupção. Ele e Jacob usavam suas melhores roupas, mas Harry ainda se sentia maltrapilho próximo aos senhores e senhoras finos que tiravam a tarde para passear pelas exposições.
O museu era um enorme edifício de tijolos, coroado por pináculos que o faziam parecer como um castelo para Harry. E tão grande quanto era, Harry via construções em andamento do lado de fora que davam a entender que novas alas seriam adicionadas. Harry desejava poder passar o dia vagando pelo museu. Eles tinham até passado por quadros de seus antepassados famosos, dando a Harry uma emoção que temporariamente o fez esquecer os seus nervos. Mas ele tinha trabalho a fazer – depois de memorizar a planta do edifício, ele tinha uma tarefa ainda mais importante: localizar o objeto que os Vesper queriam que ele roubasse.
No caminho, Jacob comprara um mapa das coleções. Harry fingia estar confuso, frequentemente puxando o mapa aberto e olhando ao redor em todas as direções. Na realidade, ele estava decorando todo o mapa na memória. De acordo com Zoltan, o plano descrito por ele seria posto em prática durante uma falsa entrega, e ele não podia saber ao certo onde acabaria. Ele precisava ser capaz de encontrar seu alvo em qualquer lugar do museu.
— Inacreditável! — Jacob sussurrou enquanto eles entravam na seção greco-romana, passando por um enorme sarcófago de mármore.
O plano era se esgueirar pela exposição greco-romana e substituir o artefato que ele pretendia roubar por uma réplica que os Vesper tinham criado e, em seguida, entregá-lo no barco dos Vesper. Pensar sobre a tarefa deixava Harry nauseado por um número de razões. Se ele falhasse, sua família seria punida de maneiras terríveis. Se conseguisse, um grupo de criminosos maléficos levaria um tesouro inestimável.
Mas Harry sabia o que tinha que fazer. Quando se tratava de escolher entre sua família e uma obra de arte – não importava o quão valiosa – a escolha era clara.
Eles perambularam pela exposição greco-romana casualmente, fingindo parar e examinar cada artefato. Harry mal podia acreditar que estátuas, lâmpadas e até mesmo um incenso tivessem sobrevivido por mais de dois mil anos. Ele tentou imaginar quais relíquias poderiam permanecer de sua vida em Nova York por dois mil anos. Iriam as ferramentas para seus truques de magia acabar em um museu algum dia?
— Por que os gregos precisam de tantas estátuas de homens nus sem cabeça? — Jacob perguntou, olhando para uma fileira de esculturas.
— De acordo com isso — disse Harry, apontando para uma placa — a cabeça provavelmente quebrou. Mas eu não sei por que esses caras não podem usar roupas.
Harry instintivamente baixou a cabeça e tirou o mapa quando um guarda do museu passava. Não havia nada para se preocupar ainda – o guarda não poderia por ventura saber o que eles estavam planejando – mas ele se sentia tenso de qualquer maneira. Ele fechou os olhos, endireitou as costas e se visualizou no palco. Estava prestes a executar uma ação rotineira de desaparecer, nada mais. Ele abriu os olhos e guiou Jacob para o alvo.
O artefato que os Vesper queriam estava aninhado no canto de uma sala na ala greco-romana do museu. A galeria estava cheia de estátuas de mármore e estatuetas exóticas, bustos de grandes líderes e colunas ornamentadas. Mas ele estava atrás de uma simples hídria, ou vaso de água. Ela se parecia com as pequenas jarras de cerâmica que os adivinhos de Coney Island usavam para decorar suas tendas e cultivar um ar de estranheza, embora aqueles fossem menos impressionantes do que esse. Ainda assim, se os Vesper o queriam, o artefato tinha que ser muito mais importante do que aparentava. A ideia de Zoltan segurando essa obra de arte em suas mãos deixava Harry com enjoo. Isso estava trancado em uma caixa de vidro, e de acordo com a placa, era de cerca de 213 a.C., e estava gravado com o nome Theudotos, embora os estudiosos não tivessem certeza do porquê.
Com o canto do olho, Harry examinou a fechadura na caixa e ficou aliviado ao descobrir que parecia bastante antiga. Ela não se provaria ser muito um problema. As fechaduras nas portas do museu eram outra questão inteiramente diferente – Harry duvidava que pudesse arrombá-las rápido o suficiente para evitar ser pego. E pior, parecia que eles precisavam de uma chave para conseguir entrar ou sair.
Jacob cutucou-o. Era hora de ir adiante. Um par de garotos pobres no museu já era uma visão incomum – a maioria dos outros frequentadores eram homens mais velhos e senhoras bem vestidas.
— Por que ele quer aquilo? — Jacob sussurrou enquanto caminhavam para a próxima vitrine. — Nada disso faz sentido.
Harry balançou a cabeça.
— Não tenho ideia. Não é realmente da minha conta, eu acho. Pelo menos não é uma daquelas enormes pinturas – não sei como eu levaria uma delas.
Os meninos vagaram pelo resto das galerias, fingindo dar aos outros artefatos apenas tanta atenção quanto tinham dado ao seu alvo. Poucos minutos depois, eles vaguearam para fora da exposição e saíram do museu. Harry teria preferido ter estudado sua rota de fuga, mas ela estava fora dos limites do público. Ele apenas teria que confiar que o plano dos Vesper funcionaria.
Enquanto caminhavam para fora do museu, Harry olhou para trás, para a parede externa que ele precisaria descer para sair. Isso depois de ter roubado, passado pelos vigias noturnos e chegado ao telhado.
O plano todo parecia ser uma façanha impossível que se empilhava uma sobre a outra, mas ele não tinha escolha. A imagem de Zoltan espreitando o quarto de Carrie era suficiente para fortalecer a resolução de Harry.
Ele se separou de Jacob e se dirigiu para seu encontro com os Vesper. Era hora do show.

* * *

As pernas de Harry estavam começando a dar cãibras. Ele estava comprimido em uma grande urna egípcia, braços apertados firmemente nas laterais e a cabeça encolhida. Uma bolsa contendo a réplica do vaso fora colocada acima de sua cabeça e os seus joelhos batiam em seu queixo todas as vezes em que o carrinho de mão que transportava a urna dava um solavanco. As escadas na frente do Metropolitan Museum tinham sido a pior parte.
— Eu deveria ser um especialista em destruição, não um garoto de entregas — Bjorn reclamara quando Zoltan lhe passou esse trabalho.
Harry tinha certeza de que Bjorn o sacudira pelos degraus do lado de fora por maldade. Eles tinham sorte que o vaso não tivesse quebrado naquelas escadas. Ele era completamente falso – a tinta mal secara quando Harry entrou. Ainda assim, para seu olho destreinado, parecera verdadeiro o suficiente. Ele precisava acreditar que o plano funcionaria. Se falhasse, Harry iria para a cadeia por tentativa de roubo e sua família seria assassinada. Ele não tinha certeza se era o perigo ou o balanço do carrinho de mão que o estava deixando enjoado.
Os solavancos finalmente pararam e Harry pôde ouvir vozes através da urna de cerâmica.
— Entrega para a arte egípcia — disse Bjorn em seu forte sotaque sueco.
Quando discutiam o roubo, Bjorn sugerira adicionar dinamite no caixote de Harry, de modo que ele pudesse armar o detonador e correr para o artefato, criando uma distração. Harry ficara aliviado quando Zoltan vetou a ideia – especialmente uma vez que, a julgar pelo cabelo queimado de Bjorn e a falta de sobrancelhas, seus métodos nem sempre funcionassem perfeitamente.
— Uh-huh — outro homem, provavelmente um guarda do museu, respondeu. — Você tem a nota fiscal?
Houve uma pausa, e a respiração de Harry ficou presa em seu peito. Ele sabia que o plano era louco, mas esperava pelo menos conseguir entrar no museu antes de ser parado.
— Hmmmm. Isso é um pouco incomum — a voz do guarda penetrou no caixote. — Nós não estávamos esperando essa entrega hoje.
Bjorn resmungou alguma coisa, muito baixo para os ouvidos de Harry. Harry podia ouvir alguém abrindo a tampa do caixote da entrega. Um feixe de luz penetrou lentamente através das bordas irregulares da tampa. Harry prendeu a respiração. Tudo que o guarda do museu tinha que fazer era levantar a tampa, e o jogo estaria acabado. Harry duvidava que de modo algum o museu pudesse ser convencido de que um adolescente húngaro escondido era um elemento padrão de urnas egípcias.
Harry esperou vários longos segundos enquanto alguém remexia nos materiais da embalagem.
— Bem, tudo bem, então — disse o guarda por fim. — Você encontrará o depósito no terceiro andar, no canto nordeste. Eu lhe mostrarei o caminho. Estamos fechando, por isso temos que ser rápidos com isso.
Harry deu um suspiro de alívio enquanto o caixote era fechado e o carrinho de mão começava a se mover novamente. Eles foram sacolejando pelo caminho até o tal depósito no terceiro andar. Tentando se distrair das sacudidas dolorosas, Harry contava cada um dos passos de Bjorn e cada curva que eles faziam. Ele visualizou uma imagem da planta baixa do museu, tentando acompanhar aonde iam. Após oito voltas, ele começou a perder a certeza, mas ainda tinha uma ideia boa o suficiente para saber que direção tomar quando saísse. Finalmente, o caixote foi movido para fora do carrinho e colocado no chão.
— Ok, vamos sair daqui — disse o guarda. — Preciso fechar.
Harry ouviu dois pares de pés deixarem o local. Uma porta se fechou e uma chave girou na fechadura. Enquanto os sons desapareciam, ele pôde apenas distinguir o guarda sugerindo quais monumentos Bjorn deveria visitar enquanto estivesse visitando a cidade de Nova York, na sua “entrega da Hungria”.
Harry respirou profundamente, esperando até ter certeza de que eles tinham ido completamente. Ele escutava, esforçando os ouvidos para quaisquer sinais de que alguém estivesse na sala com ele. Por um minuto, ele não ouviu nada, mas então ouviu o riscar de uma caneta penetrando o silêncio. Havia alguém ali. Harry esperou. Poderia ser um diretor ou restaurador lá fora, terminando algum trabalho. O museu podia estar fechando, mas os funcionários poderiam facilmente ficar por horas mais tarde. De tempos em tempos a pessoa se levantava, ou movia um objeto de uma área para outra. Harry tinha certeza de que seus pés estavam dormentes e suas pernas e braços com eles, mas não havia nada a fazer. Ele simplesmente esperou. Depois do que pareceu uma hora, o homem terminou seu trabalho. Harry exalou enquanto a porta se abria e fechava, e a chave girava na fechadura mais uma vez. Ele esperou mais dez minutos por precaução, então flexionou os músculos e se empurrou para fora, utilizando braços e pernas. O gesso barato mantendo a urna unida se abriu dentro do caixote.
Cauteloso para não danificar a réplica na bolsa, Harry se esticou e usou seu canivete para soltar o trinco. Depois de se atrapalhar por um momento, o trinco cedeu, e ele foi capaz de empurrar a tampa para fora e se levantar. Ele oscilou enquanto se levantava, quase caindo. Ficou parado no lugar, equilibrando-se nas beiradas do caixote enquanto batia os pés para restaurar a sensibilidade das pernas. Finalmente, foi capaz de sair cautelosamente da caixa. Ele limpou os resíduos que haviam caído no chão e fechou a tampa de modo que ninguém perceberia que algo estava diferente.
O depósito estava cheio de caixotes e mesas cobertas com pedaços de artefatos em processo de classificação. Havia esculturas, taças e até mesmo uma outra urna. Numa mesa havia uma armadura completamente desmontada, cercada por notas detalhando planos para montar de volta. Luz fraca se filtrava através das janelas altas. Olhando para cima, Harry podia ver as estrelas do início da noite.
Harry andou pé ante pé até a porta para ver o que lhe esperava. Ele havia passado os últimos dez minutos planejando como arrombar a fechadura, tentando adivinhar o tipo de chave os funcionários estavam usando através do som. Mas não havia nenhum obstáculo. Tudo o que ele tinha que fazer era girar uma pequena maçaneta e ele estava livre para ir. Era quase uma pena que ele tivesse que esperar mais uma hora até que os últimos trabalhadores saíssem e para ele colocar o plano em ação.
Harry se retirou para um canto escuro do depósito, escondendo-se atrás de alguns caixotes vazios e aproveitando a oportunidade para massagear seus membros doloridos. Sentado em silêncio, tentou expulsar as preocupações que enchiam sua mente. E se ele não conseguisse chegar à exposição greco-romana para pegar o artefato? Ele agarrou a bolsa com o artefato falso, enquanto imagens de Bjorn equipando sua casa com explosivos pairavam na margem dos seus pensamentos.
Quando ficou confiante de que tempo suficiente se passara, Harry saiu do local e se moveu como um fantasma pelos corredores, passando por outros depósitos e por uma porta que dava para a exposição de arte asiática. Ocasionalmente ouvia ou vislumbrava um guarda, mas ele conseguiu deslizar despercebido para a galeria greco-romana.
Na escuridão, as estátuas pareciam silhuetas que podiam ganhar vida a qualquer momento e expulsar os intrusos perseguindo-os pelo salão inteiro. Harry encontrou o vaso de água em sua caixa de vidro, mas aquilo não era nenhum desafio. Uma gazua escondida no cinto de Harry fez o trabalho rapidamente. Ele tinha acabado de abrir a redoma de vidro quando ouviu passos vindo pelo corredor do lado de fora. Desceu a tampa de volta delicadamente e se escondeu atrás da caixa, agachando-se tanto quanto podia. Havia um guarda. Ele o escutara ou era apenas uma verificação de rotina?
Enquanto o guarda se aproximava, os passos soavam como o tique-taque do relógio contando os minutos até que Harry condenasse sua família para um túmulo prematuro. Harry prendeu a respiração enquanto o guarda parava no centro da sala. A luz de sua lanterna percorria as estátuas, lançando sombras dos antigos heróis nas paredes. Conforme o guarda se virava e saía da sala, Harry soltou o ar. Trabalhando rapidamente, ele abriu a caixa e retirou o vaso. Abriu a bolsa acolchoada e tirou o falso. Harry fez uma pausa, comparando os dois lado a lado. Ambos traziam a inscrição do nome grego, Theudotos.
Era surpreendente para Harry que a dois mil anos atrás, um homem grego tinha manuseado esse mesmo objeto, provavelmente até beberam nele.
Harry não podia imaginar o que Zoltan queria com um simples vaso de terracota. Se fosse dinheiro, havia pinturas famosas e esculturas no museu que poderiam ser vendidas por somas titânicas no mercado negro. Harry examinou os dois objetos mais de perto. Eles tinham alças de cada lado e decorações pretas desbotadas pintadas ao redor da tampa. A única diferença entre os dois jarros era que o verdadeiro tinha arranhões muito ténues na base. Havia uma entalhe de um diagrama de algum tipo? Na pouca luz, ele não podia fazer nada. O falsificador não teria sido capaz de ver a base quando copiou o vaso. Talvez fosse apenas uma falsificação medíocre. Ou era disso que Zoltan estava atrás?
Harry balançou a cabeça. Os arranhões na urna eram um mapa para um tesouro, ou para algum artefato mais valioso? Isso apenas daria aos Vesper mais recursos para abastecer seus negócios criminosos. Fosse o que fosse que eles estivessem planejando, tudo o que Harry sabia com certeza era que seria algo horrível – e agora ele era cúmplice deles.
Cautelosamente colocou o jarro falso na caixa de vidro e gentilmente aninhou o verdadeiro em sua sacola acolchoada. Usou sua gazua para travar a redoma de vidro mais uma vez, e um momento mais tarde, deslizava novamente pelos corredores do museu.
Conforme passava pelo sarcófago romano, luz o atingiu vindo do lado oposto. Harry se abaixou e encostou-se contra a base do mostruário. Ele estivera distraído demais pensando em sua fuga, e não notara o guarda voltando.
As laterais do sarcófago eram cobertas por figuras de romanos antigos, alguns se contorcendo de dor, outros dançando. Ele não tinha tempo para olhar perto o suficiente para ter certeza – tudo o que podia dizer era que seus minúsculos membros espetavam desconfortavelmente suas costas.
Os passos avançavam e luz girou ao redor da sombra do sarcófago. O guarda virou a esquina, e Harry se achatou contra o mármore, prendendo a respiração e assistindo o guarda parar e bocejar. A luz da lanterna brilhou nas estátuas e urnas – e o sangue de Harry congelou à medida que a lanterna se aproximava dele. Antes que ele pudesse se mover, a luz pousou diretamente sobre Harry, e ele ouviu o guarda arfar. Harry saltou, e o guarda investiu contra ele. A mão direita do homem roçou sua camisa, mas Harry dançou para longe e o guarda perdeu o equilíbrio por um momento e caiu no chão. Harry corria para longe quando o homem começou a gritar.
— Intruso! Ajuda! Intruso! — a voz do guarda ecoava pelos corredores vazios.
Harry se esquivou de uma biga romana e se lançou para o corredor. Ele podia ouvir sons de passos e ver luzes vindo da exibição egípcia, então entrou na ala asiática. Xilogravuras, pinturas, cerâmicas e caligrafias se embaçavam enquanto ele corria. Por duas vezes ele viu luzes à frente e mudou de rumo, seguindo por um corredor diferente. Ele poderia fugir de cada guarda separadamente, mas eles continuavam vindo.
Enquanto corria, puxou o mapa do museu em sua mente, tentando traçar um percurso que evitaria os guardas conhecidos e o levaria aonde precisava ir.
Harry conduziu a perseguição por uma longa volta ao redor do prédio, correndo através de pinturas maciças e de uma placa dizia serem antiguidades peruanas. Finalmente, quando estava longe o suficiente à frente, ele se lançou em direção aos escritórios dos diretores. Podia ouvir os guardas gritando atrás dele, mas derrapou até parar na frente do escritório do diretor chefe.
Tentou a maçaneta apenas para tirar a dúvida, mas ele não era tão sortudo. Retirando suas gazuas, ele se ajoelhou e começou a trabalhar na maçaneta. Girou o ferrolho até quase ter destrancado, mas suas mãos tremiam e ele acidentalmente empurrou o mecanismo da fechadura de volta ao lugar.
Os batimentos do seu coração e o som dos passos avançando se misturavam numa batida aterrorizante. Enquanto a fechadura finalmente se abria, ele podia ouvir guardas dobrando a esquina e avançando pelo corredor. Harry correu para dentro e trancou a porta atrás dele, ao mesmo tempo que um deles batia nela com força.
Com a exceção da lareira, todas as paredes do escritório eram forradas com estantes de livros, e a grande mesa no centro estava coberta por papéis e ainda mais livros. Os guardas começaram a socar na entrada, e Harry podia ouvir o tilintar de chaves do lado de fora enquanto ele empurrava a mesa do diretor na frente da porta. Ao mesmo tempo que ela deslizava no lugar, ele viu a maçaneta girar. Os guardas tentaram abrir a porta, mas a mesa pesada a manteve fechada. Harry julgava que ela os deteria apenas por um minuto.
Ele foi até a lareira, assistindo nervosamente enquanto a mesa derrapava para trás e a porta abria lentamente. Harry puxou um laço de corda fina do seu bolso e a amarrou na cintura, depois pelas alças da bolsa, e a colocou do lado de fora da lareira, deixando alguns centímetros frouxos. Respirando fundo, ele se abaixou e olhou para a chaminé. Mal conseguia distinguir um raio de luz da lua e as estrelas lá em cima.
Harry subiu, pressionando as costas contra um lado da chaminé e os pés contra o outro. Com os pés segurando firme, colocou as mãos para trás contra a parede e se ergueu. Assim, fez seu caminho para cima alguns centímetros com os pés. Alternando mãos e pés, lentamente começou a se elevar na chaminé. A corda puxava a sacola para cima, e o artefato pendia alguns metros abaixo dele na chaminé. Ele podia sentir a fuligem e cinzas sujando toda sua roupa e cabelo, com uma porção considerável escorregando para dentro da gola da sua camisa, emporcalhando seu pescoço e costas. Abaixo, ele podia ouvir os guardas finalmente escancarando a porta. Harry apenas continuou subindo, rezando para que se algum deles olhasse para cima, visse apenas escuridão.
Finalmente, ele chegou ao topo e desceu para o telhado do museu. Ele puxou a corda para cima, tomando cuidado para não bater o artefato nas paredes. Uma vez que o recuperado, Harry atirou a bolsa sobre os ombros e se dirigiu para frente do museu.
Harry tossiu, tentando expulsar as cinzas que obstruíam seus pulmões. O ar fresco da noite no telhado do museu era um alívio da chaminé fuliginosa. O telhado era largo e aberto, com pináculos revestidos e as bordas das telhas inclinando-se e encontrando as paredes. Ele olhou para a rua iluminada pelas estrelas, observando uma carruagem puxada por cavalos carregando um casal sorridente. Amarrou sua corda em um dos pináculos e, em seguida, passou por cima da borda.
Harry apoiou os pés contra os tijolos, depois, recuou e soltou a corda enquanto descia o primeiro trecho da parede. Fez uma careta enquanto balançava de volta para a parede e as pernas recebiam o peso do impacto. Teria sido bom descer aos poucos de rapel, mas ele não tinha tempo. Ele se desviou de novo, pulando a parede tão rapidamente quanto conseguia. Uma vez no chão, deixou a corda contra a parede e se abaixou nas sombras do edifício. Ele podia ouvir guardas gritando lá dentro e podia ver as luzes se acendendo nas janelas, mas ninguém parecia ter vindo para fora ainda. Enquanto esperava que uma carroça transportando uma carga de trabalhadores para casa passasse, Harry puxou um lenço do bolso e o usou para limpar a maior parte da fuligem do rosto e cabelo. Uma vez que a rua estava livre de novo, ele partiu, ficando junto das sombras até que estivesse a vários quarteirões de distância do museu. Sob a luz e apressando o passo, ele se dirigiu para as docas.

* * *

A névoa do amanhecer estava no ar quando Harry alcançou o East River. A maioria dos barcos estava amarrada, escuros e silenciosos, mas o barco a vapor dos Vesper era uma enxurrada de atividades com três homens usando um sistema de manivelas e roldanas para içar grandes cargas para o barco.
O coração de Harry tentava encontrar seu caminho para fora de seu peito quando ele se aproximou das três figuras familiares que estavam no cais. O cabelo preto e liso de Zoltan brilhava à luz das lanternas.
— Parece que o moleque pode não ser inteiramente inútil — Zoltan disse com o sorriso de um predador.
Harry sentiu uma vontade súbita de arrancá-lo de seu rosto, mas seus companheiros fizeram Harry pensar melhor.
— Eu o trouxe — disse Harry. — Essa foi a minha parte do negócio. Você vai deixar a minha família em paz?
— Sim, mas, se é verdade, deixe-me vê-lo.
Harry sentia cada músculo de seu corpo retesar. Ele estava a momentos de salvar sua família, mas só se o criminoso fosse confiável. Ele puxou a bolsa e a entregou para Zoltan. O Vesper extraiu suavemente o vaso grego e estendeu-o com admiração.
— Isso ficará perfeito em minha coleção. Talvez para guardar água, ou as cinzas de um inimigo. Você sabe, eu nunca queimei alguém vivo... ainda.
Harry não tinha certeza de quem fora o vaso ou o que fora inscrito nele, mas desejou poder pedir desculpas ao dono por ter deixado um Vesper com seu legado. Ele esperava que o grego entendesse por que ele fez isso e o perdoasse.
Zoltan estava quase sorrindo enquanto caminhava até a última caixa no cais.
— Bjorn, ajude-me a abrir aqui. Istvan, por favor, certifique-se de que o moleque não fuja.
A mão pesada do Istvan caiu sobre o ombro de Harry. Ele queria empurrá-lo para longe e correr, mas simplesmente ficou em silêncio e os observou embalar o artefato à distância. O interior da caixa fora projetado para guardar o objeto e estava cheio de enchimento, mas ainda havia um local especial para o artefato. Harry mal podia imaginar o que tornava aquela inscrição tão valiosa, mas o pensamento de os Vesper controlá-la fez o seu estômago revirar.
Zoltan estalou os dedos para Bjorn.
— Coloque isto no fundo do porão. Quero alguém guardando-o todos os momentos — ordenou — ninguém abre até chegarmos ao Vesper Um. Não podemos nos dar ao luxo de desapontá-lo.
Um lampejo de incerteza rompeu momentaneamente o exterior equilibrado de Zoltan.
Harry olhou a distância, captando um vislumbre de movimento no nevoeiro.
— Não há ninguém vindo para ajudá-lo — Istvan rosnou.
Zoltan virou e berrou para os seus homens embarcarem a carga no barco. Poucos segundos depois, dois homens controlaram cordas e roldanas e o caixote aterrissou habilmente no convés.
Com o barco carregado, Zoltan girou e focou sua atenção em Harry.
— Você deu um bom show. Mas o público exige o gran finale que lhe foi prometido. Você virá conosco.
As entranhas de Harry se retorciam. Istvan tentou puxá-lo para frente, mas ele recuou. Por um momento, o aperto de Istvan afrouxou e Harry conseguiu correr. Mas ele só conseguiu dar dois passos antes de Zoltan atingi-lo, e Harry estava no chão com uma lâmina em sua garganta.
— Você vem ou sua família paga o preço, entendeu?
O desejo de lutar havia evaporado. Harry acenou com a cabeça ligeiramente, o aço em sua garganta deixando-o incapaz de falar. Zoltan ficou de pé, com um sorriso satisfeito em seu rosto. Istvan e Bjorn puxaram Harry de pé.
Apesar dos apertos em seus braços, Harry se elevou até a sua altura máxima – mesmo que fosse meia cabeça mais baixo que os homens ao seu redor.
— Se poupar minha família eu vou com você.
Zoltan sorriu com satisfação e se virou para liderar o caminho. Istvan e Bjorn mantinham os braços de Harry presos enquanto ele andava. Os três homens no convés sorriram para Harry enquanto ele era arrastado a bordo. Zoltan acenou para Istvan segui-lo abaixo no convés, deixando Harry com um Bjorn um pouco menos ameaçador. Suas costas estavam apoiadas contra alguns caixotes. Harry sussurrou uma palavra silenciosa de agradecimento antes de tomar fôlego e gritar:
— Polícia!
Os Vesper correram para o corrimão antes de virar de volta para Harry com fúria fria em seus olhos.
— Não há ninguém aqui — Bjorn rosnou, agarrando o braço de Harry novamente.
E não havia. Os únicos sons eram os grunhidos dos tripulantes do barco e os caixotes sendo movidos além das batidas aceleradas do coração de Harry.

* * *

  Harry estava na popa do barco, observando a cidade recuar. O deque rangeu quando Zoltan se aproximou. Harry virou-se para enfrentar o Vesper, de pé e ereto, olhando-o nos olhos.
— Eu o matei antes — Zoltan começou e recostou-se contra o trilho, completamente à vontade. Harry esperou, tentando se igualar à calma mortal do Vesper. Mas ele podia sentir a vibração no peito a cada respiração — ... mas você não está morto — adicionou.
— Suas habilidades de observação são impressionantes. — Harry disse, agradecido porque sua voz não traiu o medo crescente dentro dele. — Eu te entreguei o artefato — continuou ele — e espero que mantenha a sua parte do negócio.
Zoltan balançou a cabeça.
— Você fez bem, para um mágico de segunda. Mas enviei um telegrama dizendo que você se afogou. Eu não minto para o Vesper Um, então tenho que resolver esta situação... inconveniente — ele suspirou. — E você sabe demais sobre a nossa missão aqui. Realmente acha que eu o deixaria ir, com tudo o que já viu? — Zoltan elevou-se no anteparo. — O público precisa ver o final que lhes foi prometido. O show tem que continuar.
Apesar de todos os músculos do seu corpo se contraírem com a necessidade de correr, Harry ainda permaneceu, e Istvan e Bjorn avançaram sobre ele. Dentro de instantes, suas mãos foram acorrentadas por trás das costas.
— Desta vez ele vai ficar no fundo — Istvan resmungou.
— E se colocarmos um pouco de dinamite nele? Talvez jogar uma granada de mão? — sugeriu Bjorn ansiosamente, mas prendendo algemas nas pernas de Harry ligadas a uma bola de metal pesado.
Zoltan inclinou a cabeça para o lado como se considerasse a proposta.
— Não, isso não é necessário. Devemos guardar os explosivos no caso de a guarda costeira decidir vir atrás de nós. Manteremos o plano original.
Harry olhou para a água. O barco a vapor deslizava ao longo da água, e as docas começavam a desaparecer na distância. As luzes de Manhattan brilhavam na escuridão do início da manhã, com os trabalhadores se despedindo de suas famílias e se dirigindo para os seus empregos.
Bjorn empurrou Harry para o chão e ele gemeu enquanto os grandalhões o prendiam – algemas, cadeados, bolas de metal e completando tudo cobrindo-o com um saco. O frio do metal em seus braços e pernas parecia como o aperto da morte em si, pronta para puxá-lo para baixo de uma sepultura esquecida no fundo da baía.
— Você prometeu que não faria mal a minha família — Harry falou, fitando Zoltan com um olhar irritado.
O Vesper tinha voltado atrás com sua palavra, provando que sua promessa era falsa. Harry tentou banir o pensamento de seu pai fraco sendo jogado ao chão, mas a terrível imagem só voltou mais nítida.
— E cumpri a promessa. Já que você nos trouxe o artefato, eles não valem mais minha preocupação. Poderão viver suas vidinhas insignificantes — disse Zoltan.
O saco que o cobria foi sendo fechado e o pedaço de céu estrelado se estreitou. A respiração de Harry vinha rápida e superficial, e ele cerrou os punhos, cravando as unhas nas palmas das mãos em uma tentativa inútil de manter o pânico afastado.
Os homens começaram a arrastá-lo para a grade. Ele lutou, tentando atrasá-los o melhor que pôde. Ele precisava ganhar tempo enquanto suas mãos se moviam freneticamente pela fechadura da corrente que o prendia. Ele começou a gritar quando o içaram na balaustrada. O peso da bola acorrentada a seu pé quase quebrou seu tornozelo antes que alguém a pegasse e a erguesse para o outro lado.
Seu estômago embrulhou quando ele caiu em queda livre. Harry tomou fôlego, preenchendo seus pulmões com ar precioso. Ele comprara tempo suficiente apenas para abrir a fechadura de suas algemas, mas o peso ainda estava ligado a seus pés, e ele afundava.
  Harry lutou na água, seus movimentos retardado pelas correntes, pelo saco de aniagem e pelo frio envolvendo-o. Com o canivete, tentou cortar a trama do saco, mas, para seu horror, não estava conseguindo. Por fim, perfurou o saco e conseguiu abrir caminho para fora. Ele largou a lâmina e pegou o tecido desfiado. Se o material flutuasse para a superfície, os Vesper saberiam que ele estava tentando escapar.
  Harry olhou para cima através da água escura, tentando manter a calma enquanto o seu suprimento de ar diminuía rapidamente. Ele ainda conseguia ver o casco do barco de Zoltan, e suas pás movidas a vapor impelindo-o para frente com velocidade considerável – já longe demais para Harry alcançar e conseguir encontrar algum esconderijo do outro lado da embarcação. Com muito esforço, ele se livrou do peso da bola que o prendia. Harry se encolheu e rapidamente tateou as correntes que envolviam seus tornozelos. Seu corpo tendia a flutuar para cima, mas segurando o peso pelas correntes, permaneceu submerso.
  Seus pulmões queimavam, mas ele precisava ficar submerso mais um pouco. Ele viu o casco do barco Vesper se movendo para mais longe do porto. Seu irmão Theo uma vez cronometrou o tempo que ele conseguia ficar debaixo d'água – dois minutos e cinquenta segundos, mas a essa profundidade, parecia que ele estava sendo esmagado. Harry observou bolhas escaparem de seu nariz e flutuarem à superfície, a sua visão começando a ficar turva. Ele precisava ir para a superfície, mas também era essencial ficar submerso até que o barco estivesse longe o suficiente. Se vissem que ele estava vivo, o truque iria pelos ares. Este era o show. Ele tinha que enganá-los completamente, ou eles voltariam e se vingariam matando a sua família.
Harry cerrou os punhos em torno das correntes, desejando manter a calma. Ele era o Rei do Baralho, o Príncipe do Ar, um mestre na arte do escapismo, e com certeza poderia prender a respiração por mais alguns segundos preciosos. Por fim, ele começou a ver o vermelho por trás de suas pálpebras. Harry deixou a corrente escorregar para fora de seus dedos e se esforçou para chegar à superfície.
Quando chegou lá em cima, diminuiu a velocidade, deixando apenas a frente de seu rosto irromper.
O barco estava muito longe agora, mas era possível que eles ainda estivessem olhando para trás. Harry respirou, puxando tanto ar quanto podia. Ele ofegou por um momento, deixando sua visão voltar ao normal, e então bateu as pernas e mergulhou novamente.
Com golpes poderosos, nadou na direção contrária ao barco, permanecendo submerso tanto quanto possível. Um possível observador teria que olhar no momento certo para ver uma boca e um nariz emergirem acima da superfície da água para uma respiração rápida, em seguida, desaparecer novamente.
Harry olhou para trás para o barco e o viu contornar a linha costeira antes de finalmente desaparecer.
Ele boiou na água por um momento para recuperar o fôlego, e, em seguida, partiu para a costa em um ritmo mais vagaroso.

* * *

Harry encontrou Jacob no cais, assim como eles tinham planejado. Ele içou-se para fora da água e se levantou, sacudindo a água fora de seu cabelo.
— Como foi? — ele perguntou, lutando para recuperar o fôlego.
Jacob sorria como um maníaco.
— Seu plano funcionou perfeitamente — ele entregou a Harry seu fardo.
Harry pegou o artefato, mal acreditando que o segurava mais uma vez. Após os eventos dos últimos dias, parecia um milagre que tivesse conseguido enganar os Vesper, mas Jacob tinha conseguido percorrer as docas e, como tinham combinado, trocar as caixas enquanto Harry criava uma distração.
Eles sabiam que era um tiro no escuro, mas tinha tudo dado perfeitamente certo.
— Eu estou te devendo uma — disse Harry, sorrindo.
Ele sabia que nenhum grande mágico, nem mesmo o grande Robert-Houdin, trabalhava sozinho. Recompensava muito ter um melhor amigo que fosse hábil à sua própria maneira.
Jacob levantou uma sobrancelha.
— Isso não é tudo. Enquanto estava lá, eu... fiquei um pouco ganancioso — ele passou a Harry um segundo pacote, este uma bolsade couro simples. Harry abriu e engasgou.
— Como você fez...
— Isto estava ao lado do artefato que peguei. Deve ser o rendimento deles pelas agiotagens, ou alguma coisa assim.
Harry riu. Jacob fez muito bem, Zoltan não descobriria que algo estava faltando até que estivesse no meio do Atlântico. Dentro da bolsa havia mais dinheiro do que Harry havia feito em um ano. Ele soube imediatamente com o que iria gastá-lo. Era o suficiente para cuidar de sua família, enquanto ele e Jacob finalmente criariam o truque que tinham sonhado, assim que voltassem com o artefato para o museu – um pacote anônimo misteriosamente aparecendo na sala dos vigias noturnos faria o truque – ele poderia começar a planejar.
Harry estremeceu, desta vez mais pela emoção do que pelo frio. Agora podia começar a planejar.

* * *

O público aplaudiu quando Harry pulou no palco e fez uma reverência. A grande tenda estava erguida para o terceiro show seguido. Seu tour sendo divulgado em todo o estado, de boca em boca, e os cartazes mostrando seu nome artístico, “Os Irmãos Houdini”, trouxeram o público local em peso. Harry e Jacob apresentavam as suas melhores ilusões, de truques simples com cartas e lenços para um elaborado ato de “leitura da mente”. Agora foi a hora do gran finale.
Esta noite não era de um show qualquer. Na fileira da frente, Harry podia ver sua mãe, seus irmãos e sua irmã. Mesmo seu pai, que mal conseguia andar, tinha sido levado para que pudesse assistir. O rosto de Samuel Mayer era magro e tenso, mas Harry podia detectar um leve sorriso nele. Seus pais ainda não aprovavam totalmente o novo empreendimento do filho, mas Harry se pegara buscando a maravilha da multidão mais de uma vez.
Jacob convidara a polícia local para o palco, Harry olhou para a orquestra, um quarteto de instrumentos variados que ele contratara recentemente. Que diferença fazia a música na tensão de um espetáculo! Juntos, Jacob e o policial colocaram em Harry algemas e grilhões, e amarraram uma generosa porção de corda em volta dele. Pouco antes de eles colocarem um saco na sua cabeça, Harry abriu para multidão seu mais sincero sorriso.
Eles levaram Harry para a caixa e ele se agachou, permitindo ser conduzido para dentro.
O público aplaudiu quando a frente se fechou e Jacob trancou um pesado cadeado no lugar.
Harry não conseguia ver nada, mas sabia o que acontecia lá fora. A orquestra começava a tocar, alcançando notas altas e aumentando a excitação – e mascarando os sons que Harry fazia. Jacob brincava com a multidão para que eles tivessem certeza de que o policial não era falso. As algemas e os grilhões eram reais. Logo Jacob subiria em cima da caixa e os cobriria com um tecido para escondê-los da vista do público. A orquestra alcançaria um crescente quando ele abaixasse o tecido apenas o suficiente para mostrar seu rosto uma última vez. Em seguida, em um movimento suave, ele arrancaria o lençol de uma vez.
Só que não era mais Jacob. A metamorfose pareceu instantânea, e Harry estava em seu lugar, sorrindo para audiência mais uma vez.
O dinheiro que eles haviam pegado dos Vesper lhes permitiram projetar o mais impressionante truque que Coney Island já vira.
A multidão explodiu em aplausos, e Harry pulou no palco, fazendo uma reverência.
Com a ajuda do policial destrancou a frente da caixa e ajudou Jacob, que agora usava as algemas, grilhões, corda e um saco sobre a cabeça. A plateia aplaudiu em apreciação e o policial sorriu com espanto e balançou a cabeça enquanto pegava a chave para libertar Jacob.
Harry e Jacob deram as mãos, caminharam até a frente do palco e fizeram uma reverência enquanto a multidão aplaudia. Depois de mais uma reverência, a cortina foi fechada.
Mas a multidão não parou.
— HOU-DI-NI, HOU-DI-NI — gritavam.
Harry espiou pela lateral da cortina – até o seu pai gritava o nome dele.
Piscou o olho para Jacob, que deu de ombros.
Eles podiam fazer mais um truque, não podiam?
Depois de uma rápida discussão, eles se instalaram em uma nova ilusão que Harry tinha inventado algumas semanas atrás, e que eles vinham praticando. Jacob pegou seus adereços de palco à esquerda e Harry sinalizou para o assistente de palco erguer a cortina novamente.

O assistente puxou a corda e a cortina se abriu. Harry Houdini entrou na luz, pronto para surpreender seu público mais uma vez.

2 comentários:

  1. Oi Karina,
    Eu tava lendo aqui e achei uns errinhos, você pode concertar por favor?
    "arrastaram-no até o a entrada de um." aqui tem uma letrinha a mais;
    "odeia a cometer um erro." aqui também;
    "um tambor vwlho." acho que aqui era pra ser velho;
    "à vapor" não tem crase;
    "Que diferença fazia a música na tensão se um espetáculo!" e não seria "de um espetáculo"?
    Obrigado Karina!

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    Respostas
    1. Olá! Demorei, mas consertei tudo heuaheuahe obrigada!

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