17 de abril de 2016

Prefácio

O Silmarillion, publicado agora, quatro anos após o falecimento do seu autor, é um relato dos Dias Antigos, a Primeira Era do Mundo. Em O Senhor dos Anéis, foram narrados os grandes eventos do final da Terceira Era; as histórias de O Silmarillion, no entanto, são lendas derivadas de um passado muito mais remoto, quando Morgoth, o primeiro Senhor do Escuro, habitava a Terra-média, e os altos-elfos guerrearam com ele pela recuperação das Silmarils.
Mas O Silmarillion não relata apenas os eventos de uma época muito anterior àquela de O Senhor dos Anéis; em todos os pontos essenciais de sua concepção, ele também é, de longe, a obra mais antiga. Na realidade, embora na época não se chamasse O Silmarillion, ele já existia meio século atrás. Em cadernos velhíssimos, que remontam a 1917, podem ser lidas as versões iniciais das histórias mais importantes da mitologia, muitas vezes escritas às pressas, a lápis Ele nunca foi publicado (ainda que alguma indicação de seu conteúdo pudesse ser depreendida de O Senhor dos Anéis), mas meu pai, durante sua longa vida, jamais o deixou de lado, nem parou de trabalhar nele, mesmo em seus últimos anos. Durante todo esse tempo, O Silmarillion, se considerado meramente como uma grande estrutura narrativa, sofreu relativamente poucas mudanças radicais: há muito, tornou-se uma tradição estabelecida e uma fonte de referência para textos posteriores. Estava, entretanto, longe de se fixar como um texto pronto, e não permaneceu inalterado nem mesmo em certas ideias fundamentais relativas à natureza do mundo que retrata, quando as mesmas lendas voltaram a ser relatadas em formas mais longas e mais curtas e em estilos diferentes. Com o passar dos anos, as mudanças e as variantes, tanto em detalhes quanto em perspectivas maiores, tornaram-se tão complexas, tão onipresentes e com tantos níveis, que uma versão final e definitiva parecia inatingível. Além disso, as velhas lendas (“velhas” agora não só por derivarem da remota Primeira Era, mas também em termos da vida de meu pai) passaram a ser veículo e repositório de suas reflexões mais profundas. Em seus textos tardios, a mitologia e a poesia cederam espaço a preocupações teológicas e filosóficas, motivo pelo qual surgiram incompatibilidades de tom.
Quando da morte de meu pai, coube-me tentar organizar obra em forma publicável. Tomou-se claro para mim que a tentativa de apresentar, num único volume, a diversidade de materiais — revelar O Silmarillion de fato como uma criação contínua e em evolução, que se estendeu por mais de cinquenta anos — levaria na realidade apenas à confusão e ao obscurecimento daquilo que é essencial. Propus-me, por isso, elaborar um texto único, selecionando e organizando trechos de tal modo que me parecessem produzir a narrativa mais coerente e de maior consistência interna Nesta obra, os capítulos conclusivos (a partir da morte de Túrin Turambar) apresentaram dificuldades especiais, já que permaneceram inalterados ao longo de muitos anos e, sob certos aspectos, conflitavam seriamente com concepções mais elaboradas em outras partes do livro.
Não se pode aspirar a uma harmonia perfeita (quer no âmbito do próprio O Silmarillion, quer entre O Silmarillion e outras obras publicadas de meu pai), e ela somente poderia ser alcançada, se fosse possível, a um custo elevado e desnecessário. De mais a mais, meu pai veio a conceber O Silmarillion como uma compilação, uma narrativa sucinta e abrangente, feita muito tempo depois, a partir de fontes de grande diversidade (poemas, crônicas históricas e narrativas orais), que sobreviveram numa tradição secular. Essa concepção tem de fato paralelo na verdadeira história do livro, pois um enorme volume de prosa e poesia antiga subjaz a ele; ele é, até certo ponto, um compêndio de fato, e não apenas em teoria. A esse fator, pode-se atribuir a variação de ritmo da narrativa e a riqueza de detalhes em diversas partes, o contraste (por exemplo) entre as recordações precisas de lugar e motivo na lenda de Túrin Turambar e o relato remoto e sublime do final da Primeira Era, quando as Thangorodrim foram destruídas e, Morgoth, derrotado, bem como algumas diferenças de tom e de descrição, alguns pontos obscuros e, aqui e ali, alguma falta de coesão.
No caso do Valaquenta, por exemplo, temos de supor que, embora ele contenha muitos fatos que devem remontar aos primeiros dias dos eldar em Valinor, deve ter sido reformulado em tempos mais recentes, o que explica sua contínua mudança de tempo verbal e de ponto de vista, de tal modo que os poderes divinos ora parecem presentes e ativos no mundo, ora remotos, constituindo uma camada desaparecida, conhecida apenas na lembrança.
O livro, embora devidamente intitulado O Silmarillion, contém não somente o Quenta Silmarillion ou O Silmarillion, mas também quatro outras obras curtas O Ainunlidalë e o Valaquenta, que são apresentados no início, estão na realidade intimamente associados a O Silmarillion. Já o Akallabêth e Dos anéis de poder, que aparecem no final, são totalmente separados e independentes (o que se deve salientar). Estão incluídos em obediência à explícita intenção de meu pai; por meio de sua inclusão, toda a história é descrita, desde a Música dos Ainur, com a qual o mundo começou, até a passagem dos Portadores do Anel saindo dos Portos de Mithlond, no final da Terceira Era.
A quantidade de nomes que aparecem no livro é muito grande, motivo pelo qual elaborei um glossário completo; porém, o número de pessoas (elfos e homens) que desempenham papel importante na narrativa da Primeira Era é muito menor, e todos eles constam nas árvores genealógicas. Além disso, preparei também um adendo, que especifica a denominação bastante complexa dos diferentes povos élficos; uma nota a respeito da pronúncia dos nomes dos elfos e uma lista de alguns dos principais elementos encontrados nesses nomes; além de um mapa.
Deve-se ressaltar que a grande cadeia de montanhas a leste, Ered Luin ou Ered Lindon, as Montanhas Azuis, aparece no extremo oeste do mapa de O Senhor dos Anéis. No corpo do livro, há um mapa menor A intenção é deixar clara a um mero golpe de vista onde se localizavam os reinos dos elfos depois da volta dos noldor a Terra-média. Não sobrecarreguei o livro com mais nenhum tipo de comentário ou anotação. Existe de fato uma grande quantidade de textos inéditos de meu pai — narrativos, linguísticos, históricos e filosóficos —, relacionados às Três Eras; espero conseguir publicar parte deles futuramente.
Na tarefa árdua e cheia de dúvidas de finalizar o texto para o livro, recebi a enorme ajuda de Guy Kay , que trabalhou comigo em 1974 e 1975.

Christopher Tolkien

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