2 de abril de 2016

Prefácio

Esta história cresceu conforme foi sendo contada, até se tornar uma história da Grande Guerra do Anel, incluindo muitas passagens da história ainda mais antiga que a precedeu. O conto foi iniciado logo depois que O Hobbit foi escrito e antes de sua publicação, em 1937; mas não continuou nessa sequência, pois eu queria primeiro completar e colocar em ordem a mitologia e as lendas dos Dias Antigos, que já vinham tomando forma havia alguns anos. Quis fazer isso para minha própria satisfação, e tinha alguma esperança de que outras pessoas ficassem interessadas nesse trabalho, especialmente por ser ele fruto de uma inspiração primordialmente linguística, e por ter sido iniciado a fim de fornecer o pano de fundo “histórico” necessário para as línguas élficas.
Quando aqueles a quem pedi opinião e aconselhamento corrigiram alguma esperança por nenhuma esperança, eu voltei à sequência, encorajado pelos leitores que solicitavam mais informações sobre os hobbits e suas aventuras. Mas a história foi levada irresistivelmente em direção ao mundo mais antigo e tornou-se, por assim dizer, um relato de seu fim e extinção, antes que o início e o meio tivessem sido contados.
O processo havia começado enquanto eu estava escrevendo O Hobbit, no qual já havia algumas referências ao material mais antigo: Elrond, Gondolin, os Altos-Elfos e os orcs, além de passagens que surgiram espontaneamente e tratavam de coisas mais elevadas ou profundas ou obscuras do que poderiam parecer à primeira vista: Durin, Moria, Gandalf, o Necromante e o Anel. A descoberta da importância dessas passagens e de sua relação com as histórias antigas revelou a Terceira Era e seu apogeu na Guerra do Anel.
Aqueles que pediram por mais informações sobre os hobbits finalmente as conseguiram, mas tiveram de esperar um longo tempo, pois a composição de O Senhor dos Anéis aconteceu em intervalos entre os anos de 1936 e 1949, um período no qual eu tinha muitos deveres que não negligenciei, e muitos outros interesses como estudante e professor que frequentemente me absorviam. A demora, sem dúvida, aumentou com o estouro da guerra em 1939, e no final desse ano eu ainda não tinha terminado o Livro 1. Apesar da escuridão dos cinco anos seguintes, descobri que a história não podia ser inteiramente abandonada, e continuei de maneira árdua, principalmente à noite, até parar perante o túmulo de Balin em Moria. Ali fiz uma pausa prolongada. Já se passara quase um ano quando comecei de novo, e então cheguei a Lothlórien e ao Grande Rio, no final de 1941. No ano seguinte escrevi os primeiros rascunhos do material que agora representa o Livro III e os inícios dos Capítulos I e III do Livro V, e ali, quando os faróis se iluminaram em Anórien e Théoden chegou ao Vale Harg, eu parei. A previsão falhara e não havia tempo para reconsiderar.
Foi durante 1944 que, deixando as pontas soltas e as perplexidades de uma guerra que eu tinha por tarefa conduzir, ou ao menos reportar, eu me forcei a lidar com a viagem de Frodo a Mordor. Esses capítulos, que finalmente se tornaram o Livro IV, foram escritos e enviados em forma de seriado ao meu filho, Christopher, que naquela época estava na África do Sul com a Royal Air Force. Todavia, passaram-se mais cinco anos até o conto chegar ao seu fim atual; nesse tempo, troquei de casa, de cargo e de universidade, e, embora os dias fossem menos sombrios, não eram menos árduos. Então, quando o “final” fora atingido, a história inteira precisava ser revisada e, na verdade, em grande parte reescrita. E precisava ser datilografada e redatilografada por mim; o custo do trabalho de um profissional que usava os dez dedos estava além das minhas possibilidades.
O Senhor dos Anéis foi lido por muitas pessoas desde que finalmente foi lançado na forma impressa, e eu gostaria de dizer algumas coisas aqui, com referência às muitas suposições ou opiniões, que obtive ou li, a respeito dos motivos e do significado da história.
O motivo principal foi o desejo de um contador de histórias de tentar fazer uma história realmente longa, que prendesse a atenção dos leitores, que os divertisse, que os deliciasse e às vezes, quem sabe, os excitasse ou emocionasse profundamente. Como parâmetro eu tinha apenas meus próprios sentimentos a respeito do que seria atraente ou comovente, e para muitos o parâmetro foi inevitavelmente uma falha constante. Algumas pessoas que leram o livro, ou que de qualquer forma fizeram uma crítica dele, acharam-no enfadonho, absurdo ou desprezível; e eu não tenho razões para reclamar, uma vez que tenho opiniões similares a respeito do trabalho dessas pessoas, ou dos tipos de obras que elas evidentemente preferem. Mas, mesmo do ponto de vista de muitos que gostaram de minha história, há muita coisa que deixa a desejar. Talvez não seja possível numa história longa agradar a todos em todos os pontos, nem desagradar a todos nos mesmos pontos; pois, pelas cartas que recebi, percebo que as passagens ou capítulos que para alguns são uma lástima são especialmente aprovados por outros. O leitor mais crítico de todos, eu mesmo, agora encontra muitos defeitos, menores e maiores, mas, felizmente, não tendo a obrigação de criticar o livro ou escrevê-lo novamente, passará sobre eles em silêncio, com a exceção de um defeito que foi notado por alguns: o livro é curto demais.
Quanto a qualquer significado oculto ou “mensagem”, na intenção do autor estes não existem.
O livro não é nem alegórico e nem se refere a fatos contemporâneos. Conforme a história se desenvolvia, foi criando raízes (no passado) e lançou ramos inesperados: mas seu tema principal foi definido no início pela inevitável escolha do Anel como o elo entre este livro e o Hobbit. O capítulo crucial, “A sombra do passado”, é uma das partes mais antigas do conto. Foi escrito muito antes que o prenúncio de 1939 se tornasse uma ameaça de desastre inevitável, e desse ponto a história teria sido desenvolvida essencialmente na mesma linha, mesmo que o desastre tivesse sido evitado. Suas fontes são coisas que já estavam presentes na mente muito antes, ou em alguns casos já escritas, e pouco ou nada foi modificado pela guerra que começou em 1939 ou suas sequelas.
A verdadeira guerra não se assemelha à guerra lendária em seu processo ou em sua conclusão. Se ela houvesse inspirado ou conduzido o desenvolvimento da lenda, então certamente o Anel teria sido apreendido e usado contra Sauron; este não teria sido aniquilado, mas escravizado, e Barad-dûr não teria sido destruída, mas ocupada.
Saruman, não conseguindo se apoderar do Anel, teria em meio à confusão e às traições da época encontrado em Mordor as conexões perdidas em suas próprias pesquisas sobre a Tradição do Anel, e logo teria feito um Grande Anel para si próprio, com o qual poderia desafiar o pretenso soberano da Terra Média.
Nesse conflito, ambos os lados teriam considerado os hobbits com ódio e desprezo: estes não teriam sobrevivido por muito tempo, nem mesmo como escravos.
Outros arranjos poderiam ser criados de acordo com os gostos ou as visões daqueles que gostam de alegorias ou referências tópicas. Mas eu cordialmente desgosto de alegorias em todas as suas manifestações, e sempre foi assim desde que me tornei adulto e perspicaz o suficiente para detectar sua presença. Gosto muito mais de histórias, verdadeiras ou inventadas, com sua aplicabilidade variada ao pensamento e à experiência dos leitores. Acho que muitos confundem “aplicabilidade” com “alegoria”; mas a primeira reside na liberdade do leitor, e a segunda na dominação proposital do autor.
É claro que um autor não consegue evitar ser afetado por sua própria experiência, mas os modos pelos quais os germes da história usam o solo da experiência são extremamente complexos, e as tentativas de definição do processo são, na melhor das hipóteses, suposições feitas a partir de evidências inadequadas e ambíguas. Também não é verdadeiro, embora seja naturalmente atraente, quando as vidas de um autor e de um crítico se justapõem, supor que os movimentos do pensamento e os eventos das épocas comuns a ambos tenham sido necessariamente as influências mais poderosas. Na verdade, é preciso estar pessoalmente sob a sombra da guerra para sentir totalmente sua opressão; mas, conforme os anos passam, parece que fica cada vez mais esquecido o fato de que ser apanhado na juventude por 1914 não foi uma experiência menos terrível do que ficar envolvido com 1939 e os anos seguintes. Em 1918, todos os meus amigos íntimos, com a exceção de um, estavam mortos. Ou, para falar de um assunto menos triste: algumas pessoas supuseram que “O expurgo do Condado” reflete a situação da Inglaterra na época em que eu terminava minha história. Isso não é verdade. Esse capítulo é uma parte essencial do enredo, previsto desde o início, embora neste episódio tenha sido modificado pelo modo como o caráter de Saruman se configura na história, sem, é preciso que eu diga, qualquer significado alegórico ou referência política de qualquer tipo. Ele tem de fato alguma base na experiência, embora pequena (a situação econômica era totalmente diferente), e muito anterior. O lugar em que vivi na infância estava sendo lamentavelmente destruído antes que eu completasse dez anos, numa época em que automóveis eram objetos raros (eu nunca tinha visto um) e os homens ainda estavam construindo ferrovias suburbanas. Recentemente vi num jornal a fotografia da ruína do outrora próspero moinho de milho ao lado de seu lago que muito tempo atrás me parecia tão importante. Jamais gostei da aparência do Moleiro jovem, mas seu pai, o Moleiro velho, tinha uma barba preta, e seu nome não era Ruivão.

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