17 de abril de 2016

Capítulo XXIV: Da viagem de Eärendil e da guerra da ira

O luminoso Eärendil era então senhor do povo que habitava perto das Fozes do Sirion; e tomou como esposa Elwing, a Bela, que lhe deu dois filhos, Elrond e Elros, chamados de meio-elfos.
Eärendil, entretanto, não conseguia manter-se tranquilo, e suas viagens pelo litoral das Terras de Cá não aplacavam seu desassossego. Cresciam em seu coração dois propósitos, fundidos em um no anseio pelo Mar aberto: queria sair navegando, em busca de Tuor e Idril, que não voltavam; e pretendia encontrar talvez a última praia e levar aos Valar no oeste, antes de morrer, a mensagem de elfos e homens que comovesse seus corações a ter misericórdia pelos sofrimentos da Terra Média.
Ora, Eärendil fizera forte amizade com Círdan, o Armador, que morava na Ilha de Balar com aqueles de seu povo que haviam escapado do saque aos Portos de Brithombar e Eglarest. Com o auxílio de Círdan, Eärendil construiu Vingilot, a Flor-de-espuma, o mais belo de todos os barcos descritos em versos. Dourados eram seus remos e alvas suas madeiras, cortadas nos bosques de bétulas de Nimbrethil, e suas velas eram como a Lua prateada. Na Balada de Eärendil são relatadas muitas de suas aventuras no oceano e em terras desconhecidas, em muitos mares e muitas ilhas; mas Elwing não estava com ele e permanecia, pesarosa, junto às Fozes do Sirion.
Eärendil não encontrou Tuor nem Idril, nem chegou jamais nessa viagem às costas de Valinor, derrotado por sombras e encantamentos. Levado por ventos contrários. Até que, com saudades de Elwing, dirigiu o barco de volta para o litoral de Beleriand. E seu coração lhe pedia que se apressasse, pois um súbito temor se abatera sobre ele, originado em seus sonhos que os ventos com os quais antes lutara agora talvez não o levassem de volta com a rapidez desejada Ora, quando lhe chegou a notícia de que Elwing ainda vivia e morava de posse da Silmaril junto às Fozes do Sirion, Maedhros, arrependido do que acontecera em Doriath, se conteve.
Com o tempo, entretanto, a consciência do Juramento não cumprido voltou a atormentá-lo e a seus irmãos. E, voltando de seus passeios em trilhas de caça, reuniam-se e enviaram aos Portos mensagens de amizade, mas de séria exigência. Então, Elwing e o povo do Sirion não se dispuseram a entregar a pedra preciosa que Beren conquistara e Lúthien usara e pela qual Dior, o Belo, fora morto. Menos ainda enquanto Eärendil, seu senhor, estava em viagem, pois tinham a impressão de que na Silmaril residiam a cura e as bênçãos que cobriam suas  casas e embarcações. E assim veio a ocorrer à última e mais cruel das chacinas de elfos por elfos, e esse foi o terceiro dos grandes males decorrentes do Juramento maldito Pois os filhos de Fëanor que ainda estavam vivos atacaram de repente os exilados de Gondolin e os remanescentes de Doriath e os destruíram. Nessa batalha, alguns de seu próprio povo ficaram de lado; e uns poucos se rebelaram e foram mortos, lutando do lado contrário, ajudando Elwing contra seus próprios senhores (tais eram a dor e a confusão nos corações dos elfos naquele tempo). Porém, Maedhros e Maglor saíram vencedores, embora daí em diante só restassem eles dos filhos de Fëanor, já que Amrod e Amras haviam sido mortos. Com muito atraso chegaram apressados os barcos de Círdan e Gil-galad, o Rei Supremo, em auxílio dos elfos do Sirion, e Elwing se fora, bem como seus filhos. Então, aqueles poucos que não haviam perecido no ataque se juntaram a Gil-galad e foram com ele para Balar. E contaram que Elros e Elrond tinham sido feitos prisioneiros, mas que Elwing, com a Silmaril ao peito, se jogara ao mar.
Portanto, Maedhros e Maglor não conseguiram a pedra preciosa; mas ela não se perdera. Pois Ulmo erguera Elwing das ondas e lhe dera a aparência de uma grande ave branca. E em seu peito brilhava, como uma estrela, a Silmaril, enquanto ela voava sobre as águas em busca de Eärendil, seu amado. A certa hora da noite, Eärendil, no leme de seu barco, percebeu que ela vinha em sua direção, como uma nuvem branca de velocidade extraordinária à luz da Lua, como uma estrela acima do Mar, fazendo uma trajetória estranha, uma chama pálida nas asas de uma tempestade. Contam os versos que ela caiu do ar sobre as madeiras de Vingilot, desmaiada, quase morta, pelo ímpeto de sua velocidade, e Eärendil a abraçou junto ao peito.
Pela manhã, porém, com olhos maravilhados, ele viu a esposa em sua própria forma, a seu lado, com o cabelo jogado sobre o rosto, adormecida.
Imensa foi à tristeza de Eärendil e Elwing com a destruição dos Portos do Sirion e com o cativeiro de seus filhos. E eles temiam que as crianças fossem mortas, mas isso não ocorreu.
Pois Maglor apiedou-se de Elros e Elrond, tratou-os com carinho, e o amor depois surgiu entre eles, como seria difícil imaginar. Mas o coração de Maglor estava abatido e extenuado com o peso do terrível Juramento.
Já Eärendil não via restar mais esperança alguma no território da Terra Média, e mais uma vez se voltou em desespero e não retornou para casa, mas mudou o curso para procurar Valinor novamente, com Elwing a seu lado. Passava a maior parte do tempo na proa de Vingilot, e a Silmaril estava atada à sua testa. E, quanto mais penetravam no oeste, mais sua luz aumentava.
Dizem os sábios que foi graças ao poder dessa pedra sagrada que, com o tempo, eles chegaram às águas que nenhuma embarcação, a não ser as dos teleri, havia conhecido. E chegaram às Ilhas Encantadas, e escaparam de seu encantamento; entraram pelos Mares Sombrios e superaram suas sombras; e avistaram Tol Eressëa, a Ilha Solitária, mas ali não se detiveram. E afinal lançaram âncora na Baía de Eldamar. Os teleri viram a chegada daquela embarcação, vinda do leste, e ficaram pasmos, contemplando de longe a luz da Silmaril, que era fortíssima.
Então Eärendil, como primeiro entre os homens vivos, desembarcou nas praias imortais. E ali falou com Elwing e com aqueles que o acompanhavam, três marinheiros que haviam navegado por todos os mares com ele Falathar, Erellont e Aerandir eram seus nomes.
— Aqui ninguém, a não ser eu vai pôr os pés — disse-lhes, então —, para que não caia sobre vocês a ira dos Valar. Mas esse risco eu vou correr sozinho, pelo bem das Duas Famílias.
— Nesse caso — respondeu, porém, Elwing —, nossos caminhos se separam para sempre, mas todos os teus riscos eu assumo para mim também — E mergulhou na espuma branca, correndo na sua direção. Eärendil, no entanto, ficou pesaroso por temer que a cólera dos Senhores do Oeste recaísse sobre qualquer um da Terra Média que ousasse transpor os limites de Aman.
E ali eles se despediram dos companheiros de viagem e se separaram deles para sempre.
— Espere por mim aqui — disse então Eärendil a Elwing —, pois somente uma pessoa pode levar a mensagem que é meu destino portar — E seguiu sozinho terra adentro, entrou na Calaciry a e tudo lhe pareceu vazio e silencioso. Pois, exatamente como Morgoth e Ungoliant, eras atrás, agora Eärendil chegava numa época de festividades e praticamente todo o povo élfico estava em Valimar ou reunido nos salões de Manwë sobre Taniquetil e poucos montavam guarda nas muralhas de Tirion.
Alguns porém o avistaram de longe, bem como a forte luz que trazia; e esses correram às pressas até Valimar. Mas Eärendil subiu a colina verde de Túna e a encontrou deserta; entrou nas ruas de Tirion. E elas estavam vazias; e sentiu um peso no coração, pois temia que algum mal tivesse atingido até mesmo o Reino Abençoado. Caminhou nas vias desertas de Tirion, e a poeira sobre seus trajes e seus sapatos era uma poeira de diamantes; e ele brilhava e cintilava enquanto subia a longa escadaria branca. E chamou em voz alta em muitos idiomas, tanto de elfos quanto de homens, mas não havia ninguém para lhe dar resposta. Por isso, afinal, voltou-se novamente para o Mar; mas, no exato momento em que tomava a estrada para o litoral, alguém parado no alto do morro o chamou, com voz retumbante.
— Salve, Eärendil, dos marinheiros o mais famoso, o esperado que chega sem ser percebido, o desejado que chega depois da última esperança! Salve, Eärendil, portador da luz anterior ao Sol e à Lua! Esplendor dos Filhos da Terra, estrela nas trevas, joia no pôr-do-sol, radiante na manhã!
Essa era a voz de Eönwë, arauto de Manwë. E ele vinha de Valimar e convocava Eärendil a se apresentar diante dos Poderes de Arda. E Eärendil entrou em Valinor, foi aos palácios de Valimar e nunca mais pôs os pés nas terras dos homens. Então os Valar se reuniram em conselho e convocaram Ulmo, das profundezas do mar. E Eärendil se apresentou diante deles e cumpriu sua missão em nome das Duas Famílias. Perdão pediu ele para os noldor e compaixão por seu enorme sofrimento; pediu também piedade para homens e elfos, e auxílio em sua necessidade. E sua súplica foi concedida.
Diz-se entre os elfos que, depois que Eärendil se fora, em busca de sua mulher, Elwing, Mandos falou a respeito de seu destino.
— Pisará um homem mortal em terras imortais, e continuará vivo? — disse ele.
— Para isso foi ele trazido ao mundo — disse, porém, Ulmo. — Diga-me então se ele é Eärendil, filho de Tuor da linhagem de Hador, ou se é filho de Idril, filha de Turgon, da Casa élfica de Finwë.
— É indiferente — respondeu Mandos. — Os noldor, que se exilaram pela própria vontade, não poderão voltar para cá.
Entretanto, no final do debate, Manwë tomou sua decisão.
— Nessa questão, o poder de decidir pertence a mim. O risco ao qual ele se expôs por amor às Duas Famílias não se abaterá sobre Eärendil, nem sobre Elwing, sua esposa, que correu o risco por amor a ele. Contudo, eles não voltarão a caminhar entre elfos ou homens nas Terras de Fora. E esta é minha sentença sobre eles: Eärendil e Elwing, bem como seus filhos, terão permissão cada um de escolher livremente a que família seus destinos serão vinculados, e de acordo com que família serão julgados.
Ora, quando fazia mulato tempo que Eärendil se fora, Elwing sentiu solidão e medo; e, perambulando pela beira-mar, chegou perto de Alqualondë, onde ficavam as frotas dos teleri.
Ali os teleri foram amáveis com ela e escutaram suas histórias de Doriath, Gondolin e dos tormentos de Beleriand, enchendo-se de compaixão e assombro. E ali Eärendil, ao retornar, a encontrou, no Porto dos Cisnes. Antes, porém que se passasse muito tempo, eles foram convocados a Valimar e lá foram informados da decisão do Rei Mais Velho.
— Escolhe tu — disse então Eärendil a Elwing —, pois agora estou cansado do mundo — E Elwing preteriu ser julgada entre os Primogênitos dos Filhos de Ilúvatar, por causa de Luthien; e por amor a ela Eärendil fez a mesma escolha, embora seu coração preferisse a família dos homens e o povo de seu pai. Então, por ordem dos Valar, Eönwë foi até o litoral de Aman, onde os companheiros de Eärendil ainda permaneciam, à espera de notícias; e levou um barco no qual foram postos os três marinheiros. E os Valar os empurraram para o leste com um vento fortíssimo. Tomaram, porém, Vingilot e a consagraram. E Vingilot atravessou Valinor carregada até o limite extremo do mundo; e ali ela passou pela Porta da Noite e foi alçada aos oceanos do firmamento.
Nesse momento, aquela embarcação foi tornada bela e esplêndida e se encheu com uma chama tremeluzente, pura e brilhante. E Eärendil, o marinheiro. Postou-se ao leme, cintilando com pó de pedras élficas e tendo a Silmaril atada à testa. Muito viajou ele naquela embarcação, penetrando mesmo nos vazios desprovidos de estrelas. Mas com maior frequência era visto pela manhã ou ao entardecer, refulgindo na aurora ou no pôr-do-sol, quando voltava a Valinor de viagens para além dos confins do mundo.
Nessas viagens, Elwing não ia, pois poderia não suportar o frio e os vazios inexplorados, e ela preteria muito mais a terra e os ventos suaves que sopram em mares e colinas. Por isso, para ela foi construída uma torre alva ao norte, junto às margens dos Mares Divisores. E para lá em certas ocasiões todas as aves marinhas afluíam. Diz-se também que Elwing aprendeu as línguas dos pássaros, ela mesma que no passado havia usado sua forma. E eles lhe ensinaram a arte do voo; e suas asas eram brancas e cinza-prateadas. E às vezes, quando, ao retomar,  Eärendil se aproximava novamente de Arda, costumava sair voando ao seu encontro, exatamente como voara no passado longínquo, quando fora salva do mar. Então, os de melhor visão entre os elfos que habitavam a Ilha Solitária a viam como uma ave branca, luminosa, rosada, ao pôr-do-sol, quando levantava voo, feliz, para cumprimentar Vingilot em sua chegada ao porto.
Ora, quando Vingilot foi posta pela primeira vez a navegar pelos mares do firmamento, ela surgiu de modo inesperado, brilhante, a refulgir. E o povo da Terra Média a contemplou de longe, perguntando-se o que seria. E a consideraram um sinal, e a chamaram de Gil-Estel, Estrela da Grande Esperança. E, quando essa nova estrela foi vista ao entardecer, Maedhros falou com Maglor, seu irmão.
— Sem dúvida, deve ser uma Silmaril aquilo que agora brilha lá no oeste.
— Se for de fato a Silmaril — respondeu Maglor — que vimos ser lançada ao mar e que se ergue novamente pelo poder dos Vaiar, então devemos nos alegrar.   Pois sua glória é agora vista por muitos e, mesmo assim, ela está a salvo de todo mal. — Então os elfos olharam para cima e não mais se desesperaram; mas Morgoth estava cheio de dúvidas.
Diz-se, porém, que Morgoth não esperava o ataque que se abateu sobre ele, vindo do oeste; pois tamanho se tornara seu orgulho, que ele achava que ninguém jamais iniciaria uma guerra aberta contra ele. Além disso, acreditava que havia para sempre separado os noldor dos Senhores do Oeste; e que, satisfeitos com seu reino bem-aventurado, os Valar não mais dariam atenção ao domínio de Morgoth sobre o mundo lá fora. Pois, para aquele que é impiedoso, os atos de compaixão são sempre estranhos e estão fora do alcance de sua compreensão. No entanto, as hostes dos Valar se preparavam para o combate; e sob seus estandartes brancos marcharam os vany ar, o povo de Ingwë, e aqueles dos noldor que nunca tinham saído de Valinor, cujo líder era Finarfin, filho de Finwë. Poucos dos teleri estavam dispostos a entrar em guerra, já que se lembravam da chacina do Porto dos Cisnes e do roubo de suas embarcações.
Deram, porém, ouvidos a Elwing, filha de Dior Eluchíl, descendente de seu próprio povo, e mandaram marinheiros em número suficiente para manejar os barcos que levaram pelo mar o exército de Valinor para o leste. Mesmo assim, esses marinheiros ficaram a bordo, e nenhum deles jamais pôs os pés nas Terras de Cá.
Sobre a marcha do exército dos Valar até o norte da Terra Média, pouco foi contado em qualquer relato. Pois, entre eles, não seguia nenhum daqueles elfos que haviam morado e sofrido nas Terras de Cá e que escreveram as histórias daquele tempo ainda hoje conhecidas. E notícias desses fatos eles só tiveram muito tempo depois, por meio de parentes, em Aman.
Afinal, porém, o poderio de Valinor surgiu, vindo do oeste, e o desafio dos clarins de Eönwë encheu os céus. E Beleriand fulgurou com o esplendor de suas armas, pois as hostes dos Valar se apresentavam sob formas jovens, belas e terríveis, e as montanhas ressoavam sob seus pés.
O confronto dos exércitos do oeste e do norte é chamado de Grande Batalha e de Guerra da Ira.
Para ela, reuniu-se todo o poder do Trono de Morgoth, e ele assumiu dimensões tão extraordinárias. Que não houve espaço em Anfauglith para contê-lo; e todo o norte se inflamou com a guerra.
De nada lhe adiantou, porém. Os balrogs foram destruídos, a não ser por uns poucos que fugiram e se esconderam em cavernas inacessíveis, enraizadas na terra; e as inúmeras legiões de orcs pereceram como palha num grande incêndio ou foram varridas como folhas murchas diante de um vento causticante. Poucos sobraram para perturbar o mundo por muitos anos. E aqueles poucos que restavam das três Casas de amigos-dos-elfos, Ancestrais dos homens, lutaram do lado dos Vaiar. E nesses dias vingaram Baragund e Barahir, Galdor e Gundor, Huor e Húrin, e muitos outros de seus senhores. Entretanto, um grande contingente de filhos de homens, fosse do povo de Uldor, fosse de outros povos recém-chegados do leste, marchou com o Inimigo. E disso os elfos não se esquecem.
Vendo, então, que seus exércitos estavam derrotados, e seu poder, disperso, Morgoth se acovardou e não ousou entrar ele mesmo em combate. Soltou, porém, sobre os inimigos o último ataque de desespero que havia preparado; e dos fossos de Angband saíram os dragões alados que nunca haviam sido vistos. E tão súbita e desastrosa foi a investida dessa terrível esquadrilha, que o exército dos Valar foi forçado a recuar, pois a chegada dos dragões veio acompanhada de fortes trovões, relâmpagos e uma tempestade de fogo.
Eärendil apareceu, porém, refulgindo em luz branca, e em torno de Vingilot estavam reunidas todas as grandes aves dos céus, com Thorondor como comandante. E houve batalha no ar o dia inteiro e toda uma noite escura de dúvidas. Antes que nascesse o Sol, Eärendil matou Ancalagon, o Negro, o mais poderoso do exército de dragões, e o lançou das alturas. O dragão caiu sobre as torres das Thangorodrim, que foram destruídas com sua queda. Nasceu então o Sol, e o exército dos Valar saiu vencedor, enquanto quase todos os dragões foram exterminados. E todas as escavações de Morgoth foram destruídas e expostas a céu aberto; e o poder dos Valar penetrou nas profundezas da terra. Ali Morgoth finalmente ficou acuado, e mesmo assim continuou sem coragem. Fugiu para as mais profundas de suas minas e implorou paz e perdão; mas seus pés foram decepados e ele foi jogado de bruços no chão. Foi então amarrado com a corrente Angainor que usara no passado; e sua coroa de ferro foi batida para servir-lhe de coleira; e dobraram sua cabeça sobre os joelhos. E as duas Silmarils que restavam a Morgoth foram retiradas de sua coroa; e brilharam imaculadas a céu aberto. E Eönwë as apanhou e as guardou.
Assim teve fim o poder de Angband no norte, e o reino do mal foi aniquilado. E das prisões profundas uma multidão de escravos, já sem nenhuma esperança, saiu para a luz do dia; e encontrou um mundo que estava mudado. Pois tamanha foi a fúria daqueles adversários, que as regiões setentrionais do mundo ocidental se partiram, e o mar invadiu com estrondo muitos abismos, e houve confusão e enorme barulho. E rios pereceram ou descobriram novos leitos, e os vales foram elevados, e as colinas, arrasadas; e o Sirion deixou de existir.
Então, Eönwë, como arauto do Rei Mais Velho, convocou os elfos de Beleriand para partir da Terra Média. Maedhros e Maglor, porém, não quiseram obedecer; e, apesar de estarem então exaustos e cheios de ódio, prepararam-se para tentar em desespero cumprir seu Juramento.
Pois, se elas lhes fossem recusadas, eles teriam combatido pelas Silmarils até contra o vitorioso exército de Valinor, mesmo que estivessem sozinhos contra o mundo inteiro. E enviaram portanto uma mensagem a Eönwë, exigindo que ele entregasse naquele momento as pedras que outrora Fëanor, seu pai, havia criado e que Morgoth lhes roubara.
Eönwë respondeu. Porém, que o direito à obra de seu pai, que os filhos de Fëanor anteriormente possuíam, estava agora extinto, por causa de seus inúmeros feitos impiedosos, decorrentes da cegueira provocada pelo Juramento; e, acima de tudo, pelo assassinato de Dior e pelo ataque aos Portos. A luz das Silmarils deveria agora ir para o oeste de onde no princípio viera. E a Valinor Maedhros e Maglor deveriam retornar, para lá aguardar o julgamento elos Valar, pois, somente por ordem expressa dos Valar. Eönwë entregaria as pedras que estavam sob sua responsabilidade. Nesse momento, Maglor com efeito desejou ceder, pois seu coração estava pesaroso.
— O Juramento não nos proíbe de dar tempo ao tempo — disse ele, então —, e pode ser que em Valinor tudo seja perdoado e esquecido; e que atinjamos nosso objetivo em paz.
Respondeu, porém, Maedhros que, se retornassem a Aman, e a graça dos Valar não lhes fosse concedida, seu Juramento ainda assim permaneceria, mas seu cumprimento estaria fora do alcance de qualquer esperança.
— Quem pode dizer a terrível sina que se abaterá sobre nós se desobedecermos aos Poderes em sua própria terra — perguntou ele —, ou se nos propusermos um dia voltar a levar a guerra ao seu reino sagrado?
Maglor, entretanto, ainda resistia.
— Se Manwë e Varda em pessoa negarem o cumprimento de um juramento para o qual foram invocados como testemunhas, ele não se torna nulo?
— Mas como nossas vozes chegarão a Ilúvatar para além dos Círculos do Mundo? E por Ilúvatar juramos em nossa loucura, e pedimos que as Trevas Eternas caíssem sobre nós se não cumpríssemos nossa palavra. Quem poderá nos livrar?
— Se ninguém pode nos livrar — disse Maglor —, então de fato as Trevas Eternas serão nosso quinhão, quer cumpramos nosso voto, quer não. Mas causaremos menos mal se quebrarmos o Juramento.
Não obstante, ele acabou cedendo à vontade de Maedhros, e os dois planejaram juntos como poriam as mãos nas Silmarils. E se disfarçaram para entrar à noite no acampamento de Eönwë.
Esgueiraram-se até o lugar onde estavam guardadas as Silmarils, mataram os guardas e se apossaram das pedras. Então, todo o acampamento se revoltou contra eles; e eles se prepararam para morrer, defendendo-se até o último instante. Eönwë, porém, não permitiu que matassem os filhos de Fëanor. E, partindo sem luta, eles fugiram para longe. Cada um levou consigo uma Silmaril, pensando: “Já que uma está fora do nosso alcance, e só restam duas, e de nossos irmãos só restamos nós dois, está claro que o destino quis que repartíssemos a herança de nosso pai.”
Entretanto, a pedra queimava a mão de Maedhros com uma dor insuportável. E ele percebeu que era como Eönwë dissera: que seu direito à pedra se tornara nulo, e que o Juramento não tinha mais significado. E, em angústia e desespero, ele se lançou num abismo aberto no chão, repleto de labaredas, e assim terminou sua vida. E a Silmaril que ele portava foi levada para as profundezas da Terra.
Também se conta de Maglor que ele não pôde suportar a dor com que a Silmaril o atormentava; e que, afinal, a lançou ao Mar. Dali em diante, passou a perambular para sempre pelas praias, cantando em dor e remorso junto às ondas. Pois Maglor era grande entre os cantores de outrora, considerado inferior apenas a Daeron de Doriath; mas nunca mais voltou ao convívio dos elfos.
E assim veio a ocorrer que as Silmarils encontraram seus antigos lares: uma no ar dos céus, outra no fogo do centro da Terra, e a outra nas profundezas das águas.
Naquela época, foram construídos muitos barcos nos litorais do Mar ocidental, e dali muitas frotas de eldar velejaram para o oeste, sem nunca voltar para as terras das lágrimas e da guerra.
E os vany ar retomaram sob seus estandartes brancos e foram levados em triunfo a Valinor; mas sua alegria na vitória foi reduzida, pois retornavam sem as Silmarils da coroa de Morgoth. E sabiam que essas pedras não poderiam ser encontradas ou reunidas novamente, a menos que o mundo fosse destruído e reconstruído.
E, quando entraram no neste, os elfos de Beleriand permaneceram em Tol Eressëa, a Ilha Solitária, que tem vista tanto para o oeste quanto para o leste, de onde poderiam chegar até mesmo a Valinor. Voltaram a ter acesso ao amor de Manwë e ao perdão dos Valar; os teleri lhes perdoaram a antiga mágoa, e a maldição foi deixada de lado.
Contudo, nem todos os eldalië estavam dispostos a abandonar as Terras ele Cá, onde haviam sofrido e vivido muito tempo. E alguns permaneceram muitas eras na Terra Média. Entre eles estavam Círdan, o Armador. E Celeborn de Doriath, com Galadriel, sua esposa, a única remanescente daqueles que conduziram os noldor para o exílio em Belenand. Na Terra Média, permaneceram também Gil-galad, o Rei Supremo, e com ele estava Elrond, o meio-elfo, que escolheu, como lhe foi permitido, ser incluído entre os eldar. Já Elros, seu irmão, preferiu ficar com os homens. E somente por meio desses irmãos passou para os homens o sangue dos Primogênitos e um traço dos espíritos divinos que existam antes de Arda. Pois eles eram os filhos de Elwing, filha de Dior, filho de Luthien, filha de Thingol e Melian; e Eärendil, seu pai.
Era filho de Idril Celebrindal, filha de Turgon de Gondolin.
Os Valar empurraram o próprio Morgoth pela Porta da Noite, para além das Muralhas do Mundo, para o Eterno Vazio. E uma guarda está instalada para sempre nessas muralhas, e Eärendil vigia as defesas dos céus. No entanto, as mentiras plantadas por Melkor, o poderoso e maldito, Morgoth Bauglir, o Poder do Terror e do Ódio, nos corações de elfos e homens. São uma semente que não morre e não pode ser destruída. E de quando em quando ela volta a brotar; e dará frutos sinistros até o último dos dias.
Aqui termina o SILMARILLION. Se ele passou das alturas e da beleza às ruínas e à escuridão, era esse outrora o destino de Arda Desfigurada; e, se alguma transformação houver, e a Desfiguração for corrigida, Manwë e Varda podem saber; mas isso não revelaram, e não está dito nas sentenças de Mandos.

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