17 de abril de 2016

Capítulo XXIII: De Tuor e da queda de Gondolin

Já foi relatado que Huor, o irmão de Húrin, morreu na Batalha das Lágrimas lncontáveis. E que, no inverno daquele ano, Rían, sua mulher, teve um filho nos ermos de Mithrim; esse filho recebeu o nome de Tuor e foi criado por Annael, dos elfos-cinzentos, que ainda morava naquelas colinas. Ora, quando Tuor estava com dezesseis anos, os elfos decidiram abandonar as cavernas de Androth, onde moravam, e se encaminhar em segredo para os Portos do Sirion, no sul distante. Foram, entretanto, atacados por orcs e orientais antes de conseguir fugir; e Tuor foi capturado e escravizado por Lorgan, chefe dos orientais de Hithlum. Durante três anos, suportou a escravidão; mas, ao final desse período, fugiu. E, voltando às cavernas de Androth, morou ali sozinho e causou tantas perdas aos orientais que Lorgan pôs sua cabeça a prêmio.
Depois de Tuor ter morado assim, na solidão, como proscrito, por quatro anos, Ulmo, tendo escolhido Tuor para instrumento de seus desígnios, instilou em seu coração o desejo de deixar a terra de seus pais. E, deixando mais uma vez as grutas de Androth, Tuor cruzou Dor-lómin, na direção ocidental, e descobriu Annon-in-Gely dh, o Portão dos Noldor, que o povo de Turgon construíra quando morara em Nevrast muitos anos antes. Desse local, um túnel escuro seguia por baixo das montanhas e dava em Cirith Ninniach, a Fenda do Arco-íris, através da qual uma água turbulenta corria na direção do Mar ocidental. Foi assim que a fuga de Tuor de Hithlum não foi notada nem por homem nem por orc, e nenhum conhecimento dela chegou aos ouvidos de Morgoth.
E Tuor entrou em Nevrast e, ao avistar Belegaer, o Grande Mar, apaixonou-se por ele, e o som do mar e o anseio por ele ficaram para sempre em seu coração e em seus ouvidos; e o dominou uma inquietação. Que acabaria por levá-lo às profundezas do reino de Ulmo. Permaneceu então em Nevrast, sozinho, e o verão daquele ano passou, e a sina de Nargothrond se avizinhou.
Contudo, quando veio o outono, ele viu sete cisnes enormes voando para o sul e soube que eram um sinal de que se demorara demais ali. Acompanhou então seu voo ao longo do litoral.
Foi assim que chegou aos palácios abandonados de Viny amar, aos pés do Monte Taras. Entrou e lá encontrou o escudo e a longa cota de malha. Bem como a espada e o elmo que Turgon ali deixara por ordem de Ulmo, muito tempo antes. E ele se guarneceu dessas armas e desceu pelo litoral. Caiu então uma forte tempestade, vinda do oeste, e dela ergueu-se em majestade Ulmo, o Senhor das Águas, que falou com Tuor enquanto este estava junto ao Mar. E Ulmo lhe ordenou que partisse daquele local e saísse em busca do reino oculto de Gondolin. E deu a Tuor um grande manto que o envolveria em sombras para protegê-lo dos olhos dos inimigos De manhã, porém, quando a tempestade passara, Tuor deparou com um elfo em pé ao lado das muralhas ele Viny amar. Era Voronwë, filho de Aranwë, de Gondolin, que partira na última embarcação enviada por Turgon para o oeste. No entanto, quando esse barco, retornando afinal dos oceanos profundos, afundou na forte tempestade à vista do litoral da Terra Média, Ulmo o alçou, somente a ele entre todos os marinheiros, e o lançou à terra perto de Viny amar. E, ao saber da ordem dada a Tuor pelo Senhor das Águas, Voronwë encheu-se de admiração e não se recusou a orientá-lo até as portas ocultas de Gondolin. Partiram portanto daquele lugar e, à medida que o Inverno Mortal daquele ano se abatia sobre eles, vindo do norte, seguiam com cautela, para o leste, acompanhando os sopés das Montanhas Sombrias.
Finalmente, chegaram em sua jornada às Lagoas de Ivrin e viram com tristeza a profanação ali provocada pela passagem de Glaurung, o Dragão. Entretanto, no instante em que contemplavam as lagoas, perceberam alguém que passava apressado rumo ao norte; e era um homem alto, trajado de negro, que portava uma espada negra. Não sabiam, porém, quem ele era, nem tinham notícia de nada que houvesse acontecido no sul. E ele passou pelos dois, sem que   dissessem palavra.
E afinal, pelo poder que Ulmo lhes havia conferido, chegaram à porta oculta de Gondolin, desceram pelo túnel, chegaram ao portão interno e foram tomados prisioneiros pela guarda.
Foram então levados a subir pela profunda ravina de Orfalch Echor, bloqueada por sete portões, e apresentados a Ecthelion da Fonte, o guarda do enorme portão ao fim do caminho escarpado. E ali Tuor tirou o manto; e pelas armas que portava de Viny amar ficou evidente que ele era com efeito o enviado de Ulmo. Então Tuor contemplou o belo vale de Tumladen, engastado como uma pedra preciosa verde no meio das colinas circundantes. E viu ao longe, sobre a elevação rochosa do Amon Gwareth, Gondolin, a esplêndida, a cidade dos sete nomes, cuja fama e glória é a maior em verso de todas as moradas dos elfos nas Terras de Cá. Por ordem de Ecthelion, nas torres do grande portão soaram clarins que ecoaram pelas colinas. E muito distante, porém com nitidez, veio o som de clarins que soavam em resposta, oriundo das alvas muralhas da cidade, coloridas pelo rosado alvorecer sobre a planície.
Foi assim que o filho de Huor atravessou Tumladen e chegou ao portão de Gondolin E, tendo subido pela larga escadaria da cidade, foi afinal levado à Torre do Rei e viu as imagens às Árvores de Valinor. Estava Tuor, então, diante de Turgon, filho de Fingolfin, Rei Supremo dos noldor; e à mão direita do Rei estava em pé Maeglin, filho de sua irmã; enquanto à sua mão esquerda estava sentada Idril Celebrindal, sua filha. E todos os que ouviram a voz de Tuor ficaram maravilhados, duvidando ser verdade que esse fosse um homem da raça mortal, pois suas palavras eram as palavras do Senhor das Águas que lhe ocorriam naquele momento. E ele avisou Turgon que a Maldição de Mandos estava prestes a se cumprir, ocasião na qual todas as obras dos noldor deveriam desaparecer; e recomendou que partisse, abandonando a bela e poderosa cidade que construíra, e que descesse o Sirion até o Mar.
Turgon então refletiu por muito tempo sobre o conselho de Ulmo. Vieram-lhe à mente as palavras que lhe haviam sido ditas em Viny amar: “Não tenhas, porém, amor em excesso pela obra de tuas mãos e pelas invenções de teu coração Lembra-te de que a verdadeira esperança dos noldor está no oeste e vem do Mar.” Entretanto, Turgon fora dominado pelo orgulho, e Gondolin se tornara bela como uma lembrança da Tirion élfica. E Turgon ainda confiava no segredo de sua localização, bem como em sua força inexpugnável, muito embora um Vala as negasse. Além disso, depois da Nimaeth Amoediad, o povo daquela cidade desejara nunca mais se intrometer nas desgraças de elfos e homens de fora nem voltar ao oeste passando por perigos e pavores. Cercados atrás de colinas encantadas e sem trilhas, eles não permitiam a entrada a ninguém, mesmo que estivesse fugindo de Morgoth, perseguido pelo ódio. E as notícias das terras lá fora chegavam a eles sem impacto, distantes e eles não lhes davam grande atenção. Os espiões de Angband procuravam por eles em vão; e sua morada era como um rumor e um segredo que ninguém conseguia desvendar. Maeglin sempre se manifestava contra Tuor nos conselhos do Rei, e suas palavras pareciam ter mais peso ainda por acompanhar o desejo de Turgon. E, afinal, Turgon recusou o convite de Ulmo e rejeitou sua opinião. No entanto, na advertência do Vala, ele mais uma vez ouvia as palavras que haviam sido ditas diante dos noldor que tinham partido, no litoral de Araman, muito tempo antes E o medo da traição despertou no coração de Turgon. Portanto, nessa mesma época. A própria entrada da porta secreta nas Montanhas Circundantes foi bloqueada; e dali em diante ninguém jamais saiu de Gondolin em missão alguma, fosse de guerra, fosse de paz, enquanto a cidade resistiu.
Thorondor, Senhor das Águias, trouxe notícias da queda de Nargothrond, mais tarde, do assassinato de Thingol e de Dior, seu herdeiro, e cia destruição de Doriath. Turgon, porém, fechava os ouvidos a relatos das desgraças no mundo lá fora, e jurou jamais marchar ao lado de qualquer filho de Fëanor. E proibiu seu povo de cruzar o círculo de proteção das colinas.
E Tuor permaneceu em Gondolin, pois sua bem-aventurança, sua beleza e a sabedoria de seu povo o fascinavam. E ele se tomou poderoso no físico e na mente, e adquiriu profundos conhecimentos das tradições dos elfos Exilados. Então, o coração de Idril voltou-se para ele; e o dele para ela. E o ódio secreto de Maeglin cresceu cada vez mais, pois acima de tudo ele desejava possuí-la, a única herdeira do Rei de Gondolin. Contudo, em tão alta estima Tuor era tido pelo Rei, que, quando havia completado ali sete anos de moradia, Turgon não lhe recusou a mão de sua filha. Pois, embora não desse ouvidos à recomendação de Ulmo, percebia que o destino dos noldor estava entrelaçado com aquele que fora enviado por Ulmo. E não se esquecia das palavras que Huor lhe dissera antes que o exército de Gondolin abandonasse a Batalha das Lágrimas Incontáveis.
Realizou-se então uma festa esplêndida e muito alegre, pois Tuor conquistara o coração de todos, à exceção de Maeglin e seus seguidores secretos. Assim, veio a ocorrer a segunda união entre elfos e homens.
Na primavera do ano seguinte nasceu em Gondolin Eärendil Meio-elfo, filho de Tuor e Idril Celebrindal; e isso se deu quinhentos e três anos depois da chegada dos noldor a Terra Média.
De extraordinária beleza era Eärendil, pois uma luz refulgia em seu rosto como a luz dos céus; e ele herdara a beleza e a sabedoria dos elfos, bem como a força e a resistência dos homens de outrora; e em seus ouvidos e coração falava sempre o Mar, exatamente como acontecia com Tuor, seu pai.
Naquela época, os dias de Gondolin ainda eram cheios de alegria e paz; e ninguém sabia que a região em que se localizava o Reino Oculto havia sido finalmente revelada a Morgoth pelos gritos de Húrin, quando, parado nos ermos do lado de fora das Montanhas Circundantes e sem descobrir nenhuma estrada, chamara desesperado por Turgon. Dali em diante, o pensamento de Morgoth voltou-se, sem trégua, para a terra montanhosa entre o Anach e o curso superior do Sirion, por onde seus servos nunca passavam. No entanto, nenhum espião ou criatura saída de Angband conseguira ainda chegar até ali em decorrência da vigilância das águias, e Morgoth via frustrar-se a realização de seus desígnios. Idril Celebrindal, porém, era sábia e previdente seu coração a perturbava com suspeitas, e pressentimentos iam encobrindo seu espírito como uma nuvem. Por esse motivo, nessa época, mandou preparar um caminho secreto, que deveria partir da cidade e, passando por baixo da planície, sair bem distante do outro lado das muralhas, ao norte do Amon Gwareth. E conseguiu que a obra fosse do conhecimento de poucos, sem que nenhum rumor dela chegasse aos ouvidos de Maeglin.
Ora, numa época em que Eärendil ainda era pequeno, Maeglin perdeu-se. Pois, como já foi dito, mais do que qualquer outra atividade, ele adorava minerar e escavar em busca de metais.
E era mestre e líder dos elfos que trabalhavam nas montanhas longe da cidadã, à procura de metais para forjar objetos tanto de paz quanto de guerra. Era porém frequente que Maeglin, com poucos de seus seguidores, ultrapassasse o esconderijo das colinas; e o Rei não sabia que sua ordem estava sendo desrespeitada. Quis o destino que ocorresse de Maeglin ser capturado por orcs e levado a Angband. Maeglin não era nenhum fracote, nem era covarde, mas os tormentos com que foi ameaçado intimidaram seu espírito, e ele comprou sua vida e sua liberdade revelando a Morgoth a localização exata de Gondolin e os caminhos pelos quais a cidade poderia ser encontrada e atacada. Com efeito, foi imenso o júbilo de Morgoth, e ele prometeu a Maeglin  domínio sobre Gondolin na qualidade de seu vassalo, e a posse de Idril Celebrindal, quando a cidade fosse tomada. E de fato o desejo por Idril e o ódio a Tuor levaram Maeglin com maior facilidade à traição, a mais infame em todas as histórias dos Dias Antigos, Morgoth, porém, mandou-o de volta a Gondolin, para que ninguém suspeitasse da perfídia e para que Maeglin ajudasse a invasão de dentro, quando chegasse a hora. E Maeglin permaneceu nos salões do Rei com um sorriso nos lábios e a maldade no coração, enquanto as trevas iam ficando cada vez mais densas em torno de Idril Finalmente, no ano em que Eärendil completou sete anos, Morgoth considerou-se pronto e soltou sobre Gondolin seus balrogs, seus orcs e seus lobos. E com eles vieram dragões da linhagem de Glaurung, que agora eram muitos e terríveis. O exército de Morgoth veio pelas colinas do norte, onde a altura era maior e a guarda menos vigilante; e chegou à noite na ocasião de uma  festa, quando todos os habitantes de Gondolin estavam sobre as muralhas para esperar o Sol nascente e entoar suas canções quando ele raiasse. Pois o dia seguinte era o da grande festa que chamavam de Portal do Verão. No entanto, a luz vermelha escalou as colinas no norte, não no leste. E não houve como deter o avanço do inimigo até que eles chegaram às próprias muralhas de Gondolin, e a cidade foi sitiada sem esperanças. Dos atos de bravura desesperada ali realizados pelos comandantes das Casas nobres e seus guerreiros, não sendo os de Tuor os menos importantes, muito está relatado em A Queda de Gondolin: do combate de Ecthelion da Fonte com Gothmog, Senhor dos balrogs, na própria praça do Rei, no qual cada um matou o outro; da defesa da torre de Turgon por integrantes da própria família, até a torre ser derrubada; e tremendas foram sua queda e a queda de Turgon, em suas ruínas.
Tuor procurou salvar Idril do saque da cidade, mas Maeglin se havia apoderado dela e de Eärendil; e Tuor lutou com Maeglin nas muralhas e o lançou a distância. E seu corpo, ao cair, bateu três vezes nas encostas rochosas do Amon Gwareth antes de mergulhar nas chamas lá embaixo. Então Tuor e Idril conduziram os remanescentes do povo de Gondolin que puderam arrebanhar na confusão do incêndio pelo caminho secreto que Idril havia construído. E dessa passagem os capitães de Angband nada sabiam, nem cogitavam que algum fugitivo seguisse por um caminho para o norte, na direção das regiões mais altas das montanhas e mais próximas de Angband. A fumaça do incêndio e o vapor das belas fontes de Gondolin, secando com as labaredas dos dragões do norte, pairavam sobre o vale de Tumladen em nevoeiros tristonhos. E esse foi um auxílio para a fuga de Tuor e seus companheiros, pois ainda havia um percurso longo e descoberto a fazer da boca do túnel ao sopé das montanhas. Mesmo assim, lá chegaram e, embora sem nenhuma esperança, subiram em meio a tormentos e aflição, pois os pontos altos eram gelados e terríveis, e entre eles, havia muitos que estavam feridos, além de mulheres e crianças.
Havia uma passagem medonha, chamada Cirith Thoronath, Fenda das Águias, na qual, à sombra dos picos mais altos, uma trilha estreita seguia sinuosa. À direita, havia uma muralha íngreme, e à esquerda, um precipício apavorante caía no vazio. Ao longo desse caminho estreito. A marcha deles avançava em fila quando foi emboscada por orcs, pois Morgoth havia espalhado vigias em todos os lados nas colinas circundantes. E com eles havia um balrog. Foi então horrendo seu sofrimento, e dificilmente teriam sido salvos pela bravura do louro Glorfindel, líder da Casa da Flor Dourada de Gondolin, se Thorondor não tivesse chegado a tempo em seu auxílio.
Muitos são os versos que cantaram o duelo de Glorfindel com o balrog no cume de um rochedo naquelas alturas. E os dois caíram para a morte no abismo. No entanto, as águias chegaram, arremessando-se sobre os orcs, que fugiram dali, aos berros. E todos foram mortos ou jogados nas profundezas, de modo que só muito tempo depois chegaram aos ouvidos de Morgoth rumores sobre a fuga de Gondolin. Thorondor, então, tirou o corpo de Glorfindel do abismo. E eles o enterraram num túmulo de pedras ao lado da passagem. E ali surgiu uma relva verde, e flores amarelas se abriram em meio à aridez da pedra, até o mundo se transformar Assim, conduzidos por Tuor, filho de Huor, os sobreviventes de Gondolin transpuseram as montanhas e desceram para o Vale do Sirion. E em fuga para o sul, em marcha fatigante e perigosa, chegaram finalmente a Nan-tathren, a Terra dos Salgueiros, pois o poder de Ulmo ainda fluía no grande rio e os envolvia. Ali, descansaram por algum tempo e se curaram dos ferimentos e da exaustão; mas não conseguiam se curar da dor. Fizeram, então, uma festa em memória de Gondolin e dos elfos que lá pereceram, das donzelas, das esposas e dos guerreiros do Rei. E por Glorfindel, o Amado, muitos foram os versos que cantaram à sombra dos salgueiros de Nan-tathren. Ali, Tuor compôs para Eärendil, seu filho, uma canção que falava da vinda de Ulmo, o Senhor das Águas, às praias de Nevrast, num passado remoto. E o anseio pelo Mar despertou em seu coração, e também no de seu filho. Por isso, Idril e Tuor partiram de Nan-tathren e seguiram para o sul, rio abaixo até o Mar. E permaneceram ali junto às Fozes do Sirion; e uniram seu povo àquele que acompanhava Elwing, filha de Dior, que havia fugido para ali pouco tempo antes. E, quando chegaram a Balar notícias da queda de Gondolin e da morte de Turgon, Ereinion Gil-galad, filho de Fingon, foi designado Rei Supremo dos noldor na Terra Média.
Morgoth, porém, acreditou que sua vitória estivesse completa, fazendo pouco caso dos filhos de Fëanor e de seu Juramento, que nunca o haviam atingido e sempre acabavam resultando em maior proveito seu. E, em seu pensamento sinistro, ele riu, sem lamentar a Silmaril que havia perdido, pois com ela, a seu ver, os últimos vestígios do povo dos eldar deveriam desaparecer da Terra Média e não mais perturbá-lo. Se sabia das moradas junto às águas do Sirion, não deu sinal, esperando sua hora e contando com os resultados do Juramento e da mentira. Contudo, às margens do Sirion e do Mar foi crescendo um povo élfico, o que sobrara de Doriath e Gondolin. E, de Balar; os marinheiros de Círdan vieram unir-se a eles, e eles se acostumaram às ondas e à construção de barcos, sempre morando perto das costas de Arvernien, sob a proteção da mão de Ulmo.
Diz-se também que naquela época Ulmo saiu das águas profundas para ir a Valinor; e lá falou aos Valar da necessidade dos elfos. E lhes implorou que perdoassem os elfos e os salvassem do poder avassalador de Morgoth, que recuperassem as Silmarils, somente nas quais refulgia agora a luz dos Dias de Bem-aventurança, quando as Duas Árvores ainda brilhavam em Valinor.
Manwë, porém, não moveu um dedo; e das opiniões de seu coração que história falará? Os sábios disseram que ainda não era chegada a hora e que somente alguém que falasse em pessoa pela causa tanto dos elfos quanto dos homens, implorando perdão por suas maldades e compaixão por suas desgraças, poderia mudar as decisões dos Poderes; e o Juramento de Fëanor talvez nem mesmo Manwë pudesse anular, enquanto não fosse cumprido, e os filhos de Fëanor desistissem das Silmarils sobre as quais haviam reivindicado cruelmente seu direito.
Pois a luz que iluminava as Silmarils os próprios Valar haviam criado.
Naquele tempo, Tuor sentiu a velhice começar a atacá-lo, e um anseio cada vez maior pelas profundezas do Mar se fortalecia em seu coração. Por isso, construiu um grande barco e lhe deu o nome de Eärrámë, que significa Asa-do-mar. E, com Idril Celebrindal, zarpou na direção do pôr-do-sol e do oeste, e nunca mais apareceu em prosa ou em verso. Em dias mais recentes, porém, contou-se que apenas Tuor, de todos os homens mortais, foi incluído entre os da  raça élfica, e se reuniu aos noldor, que amava. E seu destino é separado do destino dos homens.

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