17 de abril de 2016

Capítulo XXII: Da destruição de Doriath

Assim terminou a história de Túrin Turambar; mas Morgoth não dormiu nem descansou da perversidade; e sua perseguição à Casa de Hador ainda não estava encerrada. Contra eles, sua maldade não se saciava, embora Húrin estivesse sob seu controle e Morwen perambulasse transtornada pelas matas.
Infeliz foi o destino de Húrin; pois tudo o que Morgoth conhecia do funcionamento do mal, Húrin também conhecia, mas havia mentiras misturadas com a verdade, e o pouco que havia de bom estava oculto ou deturpado. De todo jeito, Morgoth procurava principalmente lançar uma sombra maligna sobre o que Thingol e Melian haviam feito, por odiá-los e temê-los. Quando julgou, portanto, chegada a hora, libertou Húrin do cativeiro, dizendo-lhe que fosse para onde quisesse. E fingiu ter sido essa decisão motivada pela compaixão por um inimigo totalmente derrotado. Mentia, porém, pois seu objetivo era que Húrin, antes de morrer, odiasse ainda mais elfos e homens.
Então, por pouco que confiasse nas palavras de Morgoth, sabendo com efeito que ele era desprovido de compaixão, Húrin aceitou a liberdade e partiu pesaroso, amargurado pelas palavras do Senhor do Escuro. E já se passava um ano da morte de Túrin, seu filho. Por vinte e oito anos, estivera preso em Angband, tendo adquirido aparência sinistra. O cabelo e a barba estavam brancos e compridos, mas ele caminhava ereto, com um grande cajado negro, e portava uma espada. Assim, entrou em Hithlum, e notícias chegaram aos lideres dos orientais dando conta de que uma grande cavalgada de capitães e soldados negros de Angband atravessava as areias de Anfauglith, vindo com eles um velho, como alguém merecedor de grandes honrarias. Por isso, não puseram as mãos em Húrin mas o deixaram andar à vontade naquelas terras. E nisso foram, sábios, pois os que restavam de seu próprio povo o evitavam em virtude de ter vindo de Angband como alguém em aliança com Morgoth e digno de seu respeito.
Assim, sua liberdade apenas agravou a amargura no coração de Húrin e ele partiu da terra de Hithlum, embrenhando-se montanhas acima. Do alto, descortinou ao longe, em meio às nuvens, os picos de Crissaegrim e se lembrou de Turgon. Desejou então voltar ao reino oculto de Gondolin. Desceu, portanto, das Ered Wethrin, sem saber que as criaturas ele Morgoth lhe vigiavam os passos e, atravessando o Brithiach, entrou em Dimbar e chegou aos sopés sombrios das Echoriath. Toda a região estava fria e desolada; e ele olhou ao redor com poucas esperanças, parado aos pés de uma grande avalanche de pedras, abaixo de um penhasco íngreme. E não sabia que aquilo era tudo o que restava agora para ver da antiga Rota de Fuga: o Rio Seco estava bloqueado, e o portão em arco, soterrado. Húrin ergueu então os olhos para o céu cinzento, pensando que poderia mais uma vez vislumbrar as águias, como havia feito tantos anos antes, na juventude. Mas viu apenas as sombras sopradas do leste, nuvens girando em tomo dos picos inacessíveis, e ouviu somente o vento assobiando nas pedras.
Já a vigilância das águias enormes estava agora redobrada; e elas bem perceberam Húrin, lá embaixo, desamparado, na luz que se apagava. E imediatamente o próprio Thorondor, como as novidades parecessem importantes, foi avisar Turgon.
— Dorme então Morgoth? — perguntou Turgon. — Você se enganou.
— Não mesmo — disse Thorondor — Se as Águias de Manwë costumassem errar assim, já há muito, senhor, seu esconderijo teria sido inútil.
— Suas palavras são então um mau presságio — disse Turgon — pois elas só podem ter um significado. Até mesmo Húrin Thalion cedeu a vontade de Morgoth. Meu coração está fechado. Quando Thorondor se foi, porém, Turgon refletiu por muito tempo, lembrando-se dos feitos de Húrin de Dor-lómin, e abriu seu coração. Mandou então as águias procurarem Húrin para trazê-lo se possível a Gondolin. Contudo, já era tarde, e elas nunca mais o viram, fosse na escuridão, fosse à luz do Sol. Pois Húrin ficara parado em desespero diante dos penhascos mudos das Echoriath; e o Sol poente, trespassando as nuvens, tingira de vermelho seus cabelos brancos.
Então, naquele deserto, ele gritou alto, sem se preocupar com quem o ouvisse, e amaldiçoou a terra implacável. E afinal, em pé sobre um rochedo alto, olhou na direção de Gondolin e gritou com voz retumbante.
— Turgon, Turgon, lembre-se do Pântano de Serech! Ó Turgon, você não quer ouvir em seus palácios ocultos? — Não veio, porém, nenhum som a não ser o do vento no capim seco. — Era assim mesmo que o capim assobiava no Serech no pôr-do-sol — disse ele e, enquanto ia falando, o Sol se escondeu atrás das Montanhas Sombrias, uma escuridão caiu ao seu redor, o vento cessou, e o silêncio dominou aquele ermo.
Havia, entretanto, ouvidos escutando as palavras que Húrin pronunciava; e o relato de tudo logo chegou ao Trono das Trevas, no norte. E Morgoth sorriu, pois agora sabia com clareza em que região Turgon morava, embora, graças às águias, nenhum espião seu conseguisse ainda avistar a terra por trás das Montanhas Circundantes. Esse foi o primeiro malefício resultante da libertação de Húrin.
Quando caiu a escuridão, Húrin desceu cambaleante do rochedo e mergulhou num sono profundo e amargurado. Em seu sono, porém, ouviu a voz de Morwen em lamento e muitas vezes ela pronunciou seu nome. Pareceu-lhe também que sua voz vinha de Brethil. Por conseguinte, quando acordou, com a chegada do dia, ele se levantou e voltou ao Brithiach. E, passando pelos limites de Brethil, chegou em hora noturna às Travessias do Teiglin. As sentinelas da noite o viram, mas se apavoraram, acreditando estar vendo um fantasma de algum túmulo de antigas batalhas que caminhava com as trevas a cercá-lo. E por isso Húrin não foi impedido de prosseguir. Afinal, chegou ao local em que Glaurung fora incinerado e viu a lápide alta fincada junto ao precipício de Cabed Naeramarth Húrin, entretanto não olhou para a pedra, pois sabia o que nela estava escrito, e seus olhos haviam percebido que não estava só. Sentada à sombra da pedra estava uma mulher, com a cabeça pousada nos joelhos. E, quando Húrin parou ali em silêncio. Ela afastou o capuz puído e levantou o rosto. Estava grisalha e velha, mas de repente seus olhos encararam os dele, e Húrin a reconheceu. Pois, embora estivessem desvairados e cheios de medo ainda brilhava neles aquela luz que outrora lhe conquistara o nome de Eledhwen, a mais altiva e bela das mulheres mortais de outrora.
— Você chegou finalmente. Esperei demais.
— Foi um caminho sinistro. Cheguei como pude — respondeu ele.
— Mas já é tarde — disse Morwen. — Eles se foram.
— Eu sei. Mas você, não.
— Por pouco — respondeu então Morwen. — Estou exausta. Vou embora com o Sol. Agora resta pouco tempo. Se você sabe, me diga! Como foi que ela o encontrou? Húrin, entretanto, não respondeu: e os dois ficaram sentados junto à pedra, sem falar mais. E, quando o Sol se pôs, Morwen deu um suspiro, apertou-lhe a mão e ficou imóvel. E Húrin soube que ela havia morrido. Olhou para ela à luz do crepúsculo, e lhe pareceu que as rugas da dor e dos tormentos cruéis se apagavam.
— Ela não se entregou — disse ele. Fechou-lhe os olhos e ficou sentado, quieto, ao seu lado, enquanto a noite caía. As águas ele Cabed Naeramarth se precipitavam com estrondo, mas ele nenhum som ouvia, nada via e nada sentia, pois o coração era de pedra em seu peito. Veio, porém, um vento gelado a lhe jogar uma chuva fustigante no rosto. Ele despertou, e a raiva cresceu em seu íntimo como fumaça, dominando a razão, de tal modo que seu desejo era procurar vingar seus males e os sofrimentos de sua família, acusando em sua aflição todos os que tivessem lidado com eles. Ergueu-se então e construiu um túmulo para Morwen acima de Cabed Naeramarth, no lado oeste da pedra. E nele gravou as palavras: Aqui também jaz Morwen Eledhwen.
Conta-se que um vidente e tocador de harpa de Brethil chamado Glirhuin compôs uma canção, dizendo que a Pedra dos Infelizes não deveria ser profanada por Morgoth, nem jamais ser derrubada. Nem mesmo que o mar inundasse toda a Terra, como mais tarde com efeito ocorreu.
E Tol Morwen permanece só acima das águas, ao largo do novo litoral criado nos dias da fúria dos Valar. Húrin, no entanto, não jaz ali, pois sua sina o impelia a seguir em frente, e a Sombra ainda o acompanhava.
Ora, Húrin atravessou o Teiglin e passou para o sul, descendo pela antiga estrada que levava a Nargothrond. Viu ao longe, a leste, a solitária elevação do Amon Rûdh; e soube o que acontecera ali. Afinal, chegou às margens do Narog e se arriscou a fazer a travessia do no turbulento sobre as pedras da ponte derrubada, como Mablung de Doriath havia tentado, antes dele. Postou-se então diante das Portas de Felagund, agora demolidas, apoiado em seu cajado.
Aqui é preciso que se diga que, depois da partida de Glaurung, Mîm, o anão-pequeno, encontrara o caminho até Nargothrond e se esgueirara pelos salões arruinados adentro. Deles ele se apossara e ficara ali tocando no ouro e nas pedras preciosas, deixando que lhe escorressem pelos dedos, pois ninguém se aproximava para espoliá-la, por pavor do espírito de Glaurung e de sua própria lembrança. Agora, porém, vinha alguém que estava parado à soleira.
E Mîm se apresentou, exigindo saber seu objetivo ali.
— Quem é você — disse, porém, Húrin —, que pretende me impedir de entrar na casa de Finrod Felagund?
— Sou Mîm — respondeu então o anão —, e antes que os altivos chegassem do outro lado do Mar, os anões já haviam escavado os salões de Nulukkizdîn. Só voltei para tomar o que é meu, pois sou o último de meu povo.
— Então não gozará mais de sua herança, pois sou Húrin, filho de Galdor, de retorno de Angband; e meu filho era Túrin Turambar, de quem você não se esquece. E foi ele quem matou Glaurung, o Dragão, que devastou estes salões onde você agora está sentado. E não ignoro por quem o elmo-de-dragão de Dor-lórnin foi traído Então Mîm, dominação por um medo terrível, implorou a Húrin que levasse o que quisesse, mas lhe poupasse a vida. Húrin, no entanto, não deu atenção a suas súplicas e o matou diante das portas de Nargothrond. Entrou, então, e ficou um pouco naquele lugar horrendo, onde os tesouros de Valinor jaziam espalhados pelo chão em trevas e abandono. Conta-se, porém, que, quando Húrin saiu das ruínas de Nargothrond e parou novamente sob o céu, de todo aquele tesouro imenso trazia consigo apenas um objeto.
Seguiu Húrin agora para o leste e chegou aos Alagados do Crepúsculo, a montante das Quedas do Sirion. Ali foi capturado pelos elfos que vigiavam os marcos ocidentais de Doriath e levado ao Rei Thingol, nas Mil Cavernas. E Thingol foi dominado pelo espanto e pela dor ao contemplá-lo e saber que aquele homem idoso e soturno era Húrin Thalion, o cativo de Morgoth. Mesmo assim, saudou-o condignamente e demonstrou honrá-lo. Húrin não deu resposta ao Rei, mas tirou de sob o manto aquele único objeto que tirara de Nargothrond. E esse era nada menos do que o Nauglamír, o Colar dos Anões, que fora feito para Finrod Felagund muitos anos antes pelos artífices de Nogrod e Belegost, renomadíssimos por suas obras nos Tempos Antigos, e estimado por Finrod, em vida, mais do que todos os tesouros de Nargothrond. E Húrin o lançou aos pés de Thingol, com palavras amargas e desvairadas.
— Recebe tua paga — gritou — pela bela guarda de meus filhos e de minha mulher! Pois este é o Nauglamír. Cujo nome é conhecido de muitos entre elfos e homens. E eu o trago a ti das trevas de Nargothrond, onde Finrod o deixou para trás quando partiu com Beren, filho de Barahir, para cumprir a missão imposta por Thingol de Doriath.
Olhou então Thingol para a magnífica joia, soube que era o Nauglamír e bem compreendeu a intenção de Húrin. Entretanto, cheio de compaixão, reprimiu sua cólera e suportou o escárnio de Húrin. E, afinal, Melian falou.
— Húrin Thalion — disse ela —, Morgoth te enfeitiçou. Pois aquele que vê com os olhos de Morgoth, com boa disposição ou a contragosto, tudo vê deturpado. Por muito tempo, Túrin, teu filho, foi protegido nos salões de Menegroth, e recebeu amor e respeito como filho do Rei. E não foi pela vontade do Rei nem pela minha que ele jamais voltou a Doriath. E mais tarde, tua mulher e tua filha foram aqui abrigadas com honras e boa vontade. E nós procuramos por todos os meios dissuadir Morwen de se dirigir a Nargothrond. É com a voz de Morgoth que agora censuras teus amigos.
E, ao ouvir as palavras de Melian, Húrin ficou paralisado; e por muito tempo fitou os olhos da Rainha. E, ali em Menegroth, ainda protegida pelo Cinturão de Melian das trevas do Inimigo, ele leu a verdade de tudo o que havia ocorrido e provou afinal a plenitude da agonia que lhe fora reservada por Morgoth Bauglir. E não mais falou do que era passado; mas, abaixando-se, apanhou o Nauglamír de onde estava no chão diante do trono de Thingol e o entregou ao Rei.
— Recebe agora, senhor, o Colar dos Anões, como um presente de quem nada tem e como lembrança de Húrin de Dor-lómin. Pois agora cumpri minha sina, e o objetivo de Morgoth foi atingido. Mas não sou mais escravo dele.
Deu então meia-volta e saiu de Mil Cavernas. E todos os que o viam recuavam diante de sua expressão. E ninguém procurou impedir sua partida. Nem ninguém soube dizer para onde fora.
Conta-se, porém, que Húrin não quis mais viver dali em diante, por não lhe restar nenhum objetivo ou desejo, e se lançou no mar ocidental. Assim terminou o maior de todos os guerreiros dos homens mortais.
Mas quando Húrin se foi de Menegroth, Thingol ficou muito tempo em silêncio, contemplando a joia esplêndida que estava em seu colo. Ocorreu-lhe então que o colar deveria ser refeito e que nele deveria ser engastada a Silmaril. Pois, com o passar dos anos, o pensamento de Thingol se voltava incessantemente para a pedra preciosa de Fëanor e a ela se apegava. Não lhe agradava deixá-la sequer protegida pelas portas trancadas de seu tesouro mais recôndito. E ele agora pretendia trazê-la sempre consigo, adormecido ou desperto.
Naquele tempo, os anões ainda entravam em Beleriand em viagem a partir de suas mansões, nas Ered Lindon e, cruzando o Gelion em Sarn Athrad, o Vau das Pedras seguiam pela estrada antiga até Doriath. Pois era enorme seu talento para trabalhar metais e pedras, e havia muita necessidade de sua arte nos salões de Menegroth. No entanto, eles não vinham mais em pequenos grupos como antes, mas em grandes batalhões bem armados para sua proteção no território perigoso entre o Aros e o Gelion, e nessas ocasiões moravam em Menegroth em aposentos e oficinas exclusivamente destinadas a eles. Bem naquela época, grandes artífices de Nogrod haviam chegado recentemente a Doriath. E o Rei, portanto, os convocou e lhes declarou seu desejo de que, se tivessem capacidade para tal, refizessem o Nauglamír e nele engastassem a Silmaril. Então, os anões contemplaram a obra de seus antepassados e fitaram com admiração a reluzente pedra preciosa de Fëanor. E foram dominados por um imenso desejo de possuir e carregar aquelas pedras para seus lares distantes, nas montanhas.
Disfarçaram, porém, sua intenção e concordaram em realizar a tarefa.
Longo foi seu trabalho, e Thingol descia sozinho até suas forjas profundas, sempre ficando entre eles enquanto trabalhavam. Com o tempo, seu desejo foi realizado; e as maiores obras de elfos e anões foram reunidas numa única joia; e sua beleza era extraordinária, pois as inúmeras pedras preciosas do Nauglamir refletiam e espelhavam em matizes maravilhosos a luz da Silmaril em seu centro. Então, Thingol, estando só com eles, fez menção de apanhar o colar e prendê-lo ao pescoço. Nesse momento, porém, os anões lhe negaram o colar e exigiram que Thingol o entregasse a eles.
— Com que direito o Rei élfico reivindica o Nauglamír, feito por nossos antepassados para Finrod Felagund, que agora está morto? O colar só chegou a ele pelas mãos de Húrin, o homem de Dorlómin, que como um ladrão o retirou das trevas de Nargothrond Thingol, porém, percebeu seus corações e viu com nitidez que, por desejarem a Silmaril, eles apenas procuravam um pretexto e belo disfarce para seu verdadeiro intento. E, em sua cólera e arrogância, ele não deu atenção ao perigo que corria, mas falou em tom de menosprezo.
— Como ousam vocês, de raça selvagem, exigir alguma coisa de mim, Elu Thingol, Senhor de Beleriand, cuja vida começou junto às águas de Cuiviénen inúmeros anos antes que os patriarcas do povo nanico despertassem? — E, parado, alto e orgulhoso entre eles, Thingol ordenou-lhes com palavras humilhantes que se fossem de Doriath sem pagamento.
Então, a cobiça dos anões se inflamou com as palavras do Rei, transformando-se em ira; e eles se levantaram contra ele, o dominaram e o mataram ali onde estava. Assim, nas profundezas de Menegroth, morreu Elwë Singollo, Rei de Doriath, único de todos os Filhos de Ilúvatar a se unir a uma das Ainur; e que, único dos elfos Abandonados a ter visto a luz das Árvores de Valinor, com seu último olhar fitou a Silmaril.
Os anões então apanharam o Nauglamír e saíram de Menegroth, fugindo para o leste através de Region. As notícias, entretanto, espalharam-se velozes pela floresta, e poucos daquele grupo atravessaram o Aros, pois sofreram uma perseguição mortal enquanto procuravam a estrada para o leste. E o Nauglamír foi recuperado e trazido de volta, em meio a uma tristeza imensa, a Melian, a Rainha. Contudo, dois dos assassinos de Thingol escaparam da perseguição nas fronteiras orientais e voltaram afinal à sua cidade distante, nas Montanhas Azuis. E lá em Nogrod relataram parte do que havia acontecido, dizendo que os anões haviam sido mortos em Doriath por ordem do Rei élfico, que assim pretendia lhes negar pagamento por seus serviços.
Tremendos foram então a revolta e os lamentos dos anões de Nogrod pela morte de seus parentes e de seus famosos artífices. Eles arrancavam as barbas e choravam alto. E muito tempo dedicaram a planejar uma vingança. Diz-se que pediram a ajuda de Belegost, mas que ela lhes foi negada e que os anões de Belegost procuraram dissuadi-los desse intento. Mas o conselho foi vão; e, dentro de não muito tempo, um enorme exército partia de Nogrod, cruzava o Gelion e atravessava Beleriand, vindo para o oeste.
Em Doriath, uma grave transformação ocorrera. Melian ficara muito tempo sentada ao lado do Rei Thingol, e seu pensamento voltara até os anos estrelados e a seu primeiro encontro entre os rouxinóis de Nan Elmoth, em eras passadas E Melian soube que sua separação de Thingol era precursora de uma separação maior, e que a sina de Doriath se aproximava. Pois Melian era da raça divina dos Valar; e era uma Maia de grande poder e sabedoria. Porém, por amor a Elwë Singollo, ela assumira a forma dos Filhos Mais Velhos de Ilúvatar; e por essa união se submetera às correntes e limitações da carne de Arda. Com essa forma, ela lhe dera Lúthien Tinúviel: e com essa forma adquirira poder sobre a substância de Arda. E, com o Cinturão de Melian, Doriath ficara protegida por longas eras dos males de fora. Agora, porém, Thingol estava morto, e seu espírito havia passado para os palácios de Mandos. E, com sua morte, uma mudança se abateu sobre Melian também. Ocorreu, assim, de seu poder ser retirado nessa época das florestas de Neldoreth e Region; e o Esgalduin, o rio encantado, passou a falar com uma voz diferente, e Doriath ficou aberta a seus inimigos.
Daí em diante, Melian não falou com mais ninguém a não ser com Mablung, ordenando-lhe que cuidasse da Silmaril e que mandasse notícias com a máxima rapidez a Beren e Lúthien, em Ossiriand. Desapareceu então da Terra Média e passou para a terra dos Valar, do outro lado do Mar ocidental, para refletir sobre suas tristezas nos jardins de Lórien, de onde viera, e esta história não mais a menciona.
Foi assim que o exército dos naugrim atravessou o Aros e entrou sem dificuldade nos bosques de Doriath. E ninguém lhes ofereceu resistência, pois eram numerosos e ferozes; e os comandantes dos elfos-cinzentos, acometidas de dúvida e desespero, iam de um lado para o outro, a esmo. Já os anões se mantiveram firmes no caminho, passaram pela grande ponte e entraram em Menegroth. E ali ocorreu um dos mais lamentáveis dos fatos dolorosos dos Dias Antigos. Pois houve combate nas Mil Cavernas, e muitos elfos e anões foram mortos. E isso não foi esquecido. No entanto, os anões saíram vitoriosos; e os palácios de Thingol foram vasculhados e saqueados. Ali caiu Mablung, da Mão-pesada, diante das portas do tesouro em que estava guardado o Nauglamír; e a Silmaril foi levada.
Naquela época, Beren e Lúthien ainda moravam em Tol Galen, a Ilha Verde, no Rio Adurant, o mais meridional dos córregos, que, caindo das Ered Lindon, desciam até se unir ao Gelion. E seu filho Dior Eluchíl tinha como esposa Nimloth, parente de Celeborn, príncipe de Doriath, que era casado com a Senhora Galadriel. Os filhos de Dior e Nimloth eram Eluréd e Elurín; e também lhes nasceu uma filha, que foi chamada de Elwing, que significa Respingo de Estrelas, pois viera ao mundo numa noite de estrelas, cuja luz cintilava na espuma da cascata de Lanthir Lamath, ao lado da casa de seu pai.
Ora, rapidamente chegaram rumores entre os elfos de Ossiriand de que um enorme exército de anões armados para combate havia descido das montanhas e atravessado o Gelion, no Vau de Pedras. Essas notícias chegaram logo a Beren e Lúthien; e nessa mesma hora veio também a eles um mensageiro de Doriath com relatos do que lá acontecera. Então, Beren se levantou e deixou Tol Galen; e, convocando Dior, seu filho, dirigiu-se para o norte, para o Rio Ascar. E com eles, seguiram muitos dos elfos-verdes de Ossiriand.
Foi assim que, quando os anões de Nogrod, de volta de Menegroth com o exército reduzido, chegaram novamente a Sam Athrad, foram atacados por inimigos invisíveis. Pois, quando iam subindo as margens do Gelion, sobrecarregados com a pilhagem de Doriath, de repente todos os bosques se encheram do som de trompas élficas, e flechas caíram velozes sobre eles, de  todos os lados. Ali, muitos dos anões foram mortos na primeira investida. Mas alguns que escaparam da emboscada se mantiveram juntos e fugiram para o leste, na direção das montanhas. E, quando iam subindo pelas longas encostas iniciais do Monte Dolmed, surgiram os Pastores das Árvores, que empurraram os anões para os bosques sombrios das Ered Lindon; de onde, ao que se diz, nunca mais saiu nenhum para transpor os altos passos que conduziam a suas casas.
Naquela batalha junto ao Sarn Athrad, lutou Beren pela última vez. E ele próprio matou o Senhor de Nogrod e de suas mãos arrancou o Colar dos Anões. Mas o moribundo lançou sua maldição sobre todo o tesouro. Beren fitou, então, maravilhado aquela mesma joia de Fëanor que ele desengastara da coroa de ferro de Morgoth. Agora cintilando em meio a ouro e pedras preciosas, graças à perícia dos anões. E dela ele limpou o sangue nas águas do rio. E, quando tudo estava terminado, o tesouro de Doriath afundou no Rio Ascar, que a partir de então recebeu o nome de Rathlóriel, Leito de Ouro. No entanto, Beren levou o Nauglamir e retornou a Tol Galen. A dor de Lúthien não se abrandou quando ela soube da morte do Senhor de Nogrod e de muitos outros além dele. Diz-se, porém, em prosa e verso, que Lúthien, usando aquele colar com aquela pedra imortal, era a imagem de maior beleza e glória que já houve fora do reino de Valinor. E, por algum tempo, a Terra dos Mortos que Vivem se tornou semelhante a uma imagem da terra dos Valar. E nenhum lugar desde então foi tão belo, tão próspero ou tão cheio de luz.
Ora, Dior, o herdeiro de Thingol, despediu-se de Beren e Lúthien e, partindo de Lanthir Lamath com Nimloth, sua mulher, veio a Menegroth, para ali morar. E com eles vieram seus dois filhos, Eluréd e Elurín, e Elwing, sua filha. Nessa ocasião, os sindar os receberam com alegria e se ergueram das trevas de seu luto pelo parente e Rei morto e pela partida de Melian, e Dior Eluchíl se dedicou a reerguer a glória do reino de Doriath.
Numa noite de outono, quando já era tarde, alguém veio bater com violência às portas de Menegroth exigindo ser recebido pelo Rei. Era um senhor dos elfos-verdes, vindo às pressas de Ossiriand, e os guardas dos portões o levaram ao lugar em que Dior se encontrava, sozinho, em seus aposentos. E ali, em silêncio. Ele entregou ao Rei um cofre e se despediu. Mas naquele cofre estava o Colar dos Anões, no qual estava engastada a Silmaril. E Dior, ao contemplá-la, soube ser esse um sinal de que Beren Erchamion e Lúthien Tinúviel haviam de fato morrido e partido para onde vai a raça dos homens, para um destino além do mundo.
Dior fitou por muito tempo a Silmaril, que seu pai e sua mãe haviam conseguido retirar do mundo de terror de Morgoth, superando todas as expectativas. E sua dor foi enorme porque a morte se abatera sobre eles tão cedo. Dizem, porém, os sábios que a Silmaril apressou seu fim, pois o brilho da beleza de Lúthien quando a usava era forte demais para terras mortais.
Levantou-se então Dior e prendeu ao pescoço o Nauglamír. E ele agora surgia como o mais belo de todos os filhos do mundo, de três raças: dos edain, dos eldar e dos Maiar do Reino Abençoado.
Difundiu-se então entre os elfos espalhados de Beleriand o rumor de que Dior, herdeiro de Thingol, usava o Nauglamír. E se dizia que uma Silmaril de Fëanor chamejava novamente nos bosques de Doriath. E o Juramento dos filhos de Fëanor foi novamente instigado a despertar.
Pois, enquanto Lúthien usara o Colar dos Anões, nenhum elfo jamais ousara atacá-la; mas, agora, ao ouvir notícias do reflorescimento de Doriath e do orgulho de Dior, os sete voltaram a se reunir, deixando de vaguear, e mandaram mensagem a Dior para reivindicar o que lhes pertencia.
Dior, porém, não deu resposta aos filhos de Fëanor. E Celegorm incitou seus irmãos a preparar uma investida contra Doriath. Chegaram despercebidos no meio do inverno e lutaram com Dior nas Mil Cavernas. Assim sucedeu a segunda chacina de elfos por elfos. Nela caiu Celegorm, pela mão de Dior, bem como Curufin e Caranthir, o Moreno. Mas Dior também foi morto, com Nimloth, sua mulher; e os cruéis servos de Celegorm levaram os dois filhos pequenos e os deixaram na floresta para morrer à míngua. Disso, Maedhros com efeito se arrependeu e procurou muito por eles nos bosques de Doriath. Mas sua busca foi em vão; e do destino de Eluréd e Elurín não há relato algum.
Assim, Doriath foi destruída e nunca mais se reergueu. Contudo os filhos de Fëanor não obtiveram o que procuravam. Pois um grupo de sobreviventes do povo de Doriath fugiu à sua frente; e com eles seguia Elwing, a filha de Dior. Conseguiram escapar e levando consigo a Silmaril, com o tempo chegaram às Fozes do Rio Sirion, junto ao Mar.

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