17 de abril de 2016

Capítulo XX: Da quinta batalha: Nirnaeth Arnoediad

Conta-se que Beren e Lúthien retomaram para a região ao norte da Terra Média e ali viveram algum tempo como homem e mulher vivos; e voltaram a assumir sua forma mortal em Doriath.
Os que os viam sentiam ao mesmo tempo alegria e medo E Lúthien foi a Menegroth e curou o inverno de Thingol com um toque de sua mão. Melian, porém, fitou seus olhos, leu a sina que ali estava escrita e virou as costas. Pois sabia que uma separação maior que o fim do mundo existia agora entre elas; e nenhuma dor por perda foi mais pesada que a dor de Melian, a Maia, naquele momento. Beren e Lúthien, então, partiram sozinhos, sem temer sede ou fome; atravessaram o Rio Gelion, entrando em Ossiriand, e lá moraram em Tol Galen, a Ilha Verde, no meio do Adurant, até que cessaram todas as notícias deles. Os eldar mais tarde passaram a chamar aquela região de Dor Fim-i-Guinar, a Terra dos Mortos que Vivem. E ali nasceu Dior Aranel, o Belo, que depois ficou conhecido como Dior Eluchíl, que significa Herdeiro de Thingol. Nenhum mortal nunca mais falou com Beren, filho de Barahir; e ninguém viu Beren ou Lúthien deixar este mundo; ou mesmo assinalou o local onde seus corpos afinal descansaram.
Naquela época, Maedhros, filho de Fëanor, sentiu novo ânimo ao perceber que Morgoth não era invencível. Pois os feitos de Beren e Lúthien eram louvados em muitas canções por toda a Beleriand. Contudo, Morgoth destruiria a todos, um a um, se eles não conseguissem se unir mais uma vez, formar uma nova aliança e um conselho comum. E deu início aos entendimentos para beneficiar a sorte dos eldar, que são chamados de União de Maedhros.
Entretanto, o Juramento de Fëanor e os atos funestos dele decorrentes prejudicaram o intento de Maedhros, e ele recebeu menos auxílio do que deveria.  Orodreth recusou-se a sair guerreando a pedido de qualquer filho de Fëanor, por causa dos atos de Celegorm e Curufin; e os elfos de Nargothrond ainda confiavam na possibilidade de defender sua fortaleza oculta por meio do segredo e dos procedimentos furtivos. Dali partiu apenas uma pequena companhia.
Seguindo Gwindor, filho de Guilin, príncipe muito corajoso. E, contra a vontade de Orodreth, juntou-se ele à guerra no norte, pois pranteava a morte de Gelmir, seu irmão, na Dragor Bragollach. Portavam o emblema da Casa de Fingolfin e marchavam sob o comando de Fingon. E nunca voltaram, à exceção de um.
De Doriath veio pouca ajuda. Pois Maedhros e seus irmãos, obrigados pelo Juramento feito, já haviam mandado mensageiros a Thingol com palavras arrogantes, destinadas a relembrá-la do direito dos filhos de Fëanor, intimando-o a entregar a Silmaril ou a tornar-se seu inimigo.
Melian aconselhou-o a ceder, mas as palavras dos filhos de Fëanor eram cheias de orgulho e ameaças; e Thingol se enfureceu, pensando na angústia de Lúthien e no sangue de Beren com os quais a pedra havia sido conquistada, a despeito da maldade de Celegorm e Curufin. Além do mais, cada dia que contemplava a Silmaril, mais a desejava para sempre; pois era esse o poder da gema. Portanto, mandou de volta os mensageiros com palavras de escárnio. Maedhros não respondeu, pois agora começava a maquinar a aliança e união dos elfos; mas Cel egorm e Curufin juraram abertamente matar Thingol e destruir seu povo, se saíssem vitoriosos da guerra e a pedra não fosse entregue espontaneamente. Thingol, então, fortificou os marcos de seu reino e não entrou em guerra; nem mais ninguém de Doriath, a não ser Mablung e Beleg, que não queriam deixar de participar de feitos tão importantes. Aos dois deu permissão de sair, desde que não servissem aos filhos de Fëanor. Por isso, eles se uniram ao exército de Fingon.
Maedhros teve, entretanto, o auxílio dos naugrim, tanto em forças armadas quanto em seu enorme arsenal. E as forjas de Nogrod e Belegost estiveram ocupadíssimas naquela época.
Maedhros convocou novamente todos os irmãos e todos os que se dispuseram a acompanha-los.
Também os homens de Bór e ele Ulfang foram reunidos e treinados para a guerra, e eles chamaram um número ainda maior de parentes do leste. Além disso, no oeste, Fingon, sempre amigo de Maedhros, trocou opiniões com o comando de Himring; e em Hithlum os noldor e os homens da Casa de Hador se preparavam para a guerra. Na floresta de Brethil, Halmir, senhor do povo de Haleth, reuniu seus homens, e eles afiaram seus machados. Halmir, porém, morreu antes do início da guerra; e Haldir, seu filho, comandou seu povo. Também a Gondolin chegaram as notícias, a Turgon, o rei oculto.
Maedhros, entretanto, experimentou suas forças cedo demais, antes que seus planos estivessem completos. E, embora os orcs tivessem sido expulsos de todas as regiões ao norte de Beleriand, e até mesmo Dorthonion fosse libertada por algum tempo, Morgoth foi avisado do levante dos eldar e dos amigos-dos-elfos, e pôde fazer planos contra eles. Muitos espiões e traidores mandou para o meio dos homens, como agora era mais capaz de fazer, pois os homens desleais de sua aliança secreta ainda estavam muito enfronhados nos segredos dos filhos de Fëanor.
Afinal, Maedhros, tendo reunido todas as forças que pôde de elfos, homens e anões, resolver atacar Angband pelo leste e pelo oeste. Era seu intento atravessar Anfauglith com estandartes expostos e total exibição de forças. Porém, quando houvesse atraído em resposta os exércitos de Morgoth, como esperava, Fingon deveria avançar a partir dos desfiladeiros de Hithlum. E assim pensavam prender o poder de Morgoth como entre o malho e a bigorna, e quebrá-lo em pedaços. E o sinal para isso acontecer seria uma enorme fogueira acesa em Dorthonion.
No dia marcado, na manhã do solstício de verão, os clarins dos eldar saudaram o Sol nascente.
No leste levantou-se o estandarte dos filhos de Fëanor e, no oeste, o de Fingon, Rei Supremo dos noldor. Fingon olhou então das muralhas de Eithel Sirion, e sua hoste estava disposta nos vales e bosques a leste das Ered Wethrin, bem escondida dos olhos do Inimigo; mas ele sabia que ela era imensa. Pois ali  estavam reunidos todos os noldor de Hithlum, junto com os elfosdas— Falas e a companhia de Gwindor, de Nargothrond. Também tinha um enorme contingente de homens: à direita estavam o exército de Dor-lómin e toda a bravura de Húrin e Huor, seu irmão; a eles juntara-se Haldir de Brethil, com muitos homens dos bosques.
Fingon olhou então para as Thangorodrim, e havia uma nuvem escura a seu redor, com fumaça negra subindo. E ele soube que a cólera de Morgoth havia sido despertada e seu desafio fora aceito. Uma sombra de dúvida abateu-se sobre o coração de Fingon. E ele olhou para o leste, procurando se possível avistar com a visào élfica a poeira de Anfauglith levantada à passagem das hostes de Maedhros. Não sabia ele que Maedhros fora impedido na partida pela astúcia de Uldor, o Maldito, que o enganara com advertências falsas de um ataque proveniente de Angband.
Agora, porém, ouviu-se um grito que subia com o vento vindo do sul, de um vale a outro; e elfos e homens ergueram suas vazes em assombro e alegria. Pois, sem ser convocado e de modo inesperado, Turgon irrompeu do reduto de Gondolin e surgiu com um exército de dez mil guerreiros, com malhas brilhantes, longas espadas e lanças como uma floresta. Então, quando Fingon ouviu ao longe a famosa trompa de Turgon, seu irmão, a sombra passou, seu coração animou-se e ele gritou alto:
— Vtúlie’n aurë! Aiy a Eldalië ar Atanatári, utúlie’n aurë! O dia chegou! Vejam, povo dos eldar e pais dos homens, o dia chegou!
E todos os que ouviram aquela voz possante ecoando pelos morros responderam, aos gritos:
— Auta i lómë! A noite está passando!
Ora, Morgoth, que sabia muito do que era feito e projetado pelos inimigos, escolheu sua hora e, confiando em que seus servos traiçoeiros conteriam Maedhros e impediriam a união de seus oponentes, mandou uma força aparentemente grande (e, no entanto, apenas uma parte de tudo o que tinha pronto) na direção de Hithlum. E todos estavam trajados em cor parda e não exibiam nenhum brilho de aço, de modo que já haviam avançado muito nas areias de Anfauglith antes que sua aproximação fosse percebida.
Então, exaltaram-se os corações dos noldor, e seus capitães quiseram atacar seus inimigos na planície. Húrin, porém, foi contrário e recomendou que se acautelassem da astúcia de Morgoth, cuja força era sempre maior do que aparentava e cujo objetivo era diferente do revelado. E, embora o sinal da aproximação de Maedhros não chegasse, e as hostes se impacientassem, Húrin ainda insistia em que esperassem e deixassem os orcs se espalharem em ataques às colinas.
Contudo, o capitão de Morgoth no oeste havia recebido ordens de rapidamente atrair Fingon para fora das colinas, pelos meios que lhe fossem possíveis. Marchou, portanto, em frente até sua vanguarda posicionar-se diante da corrente do Sirion, desde as muralhas da fortaleza de Eithel Sirion até a confluência do Rivil, no Pântano de Serech; e até os destacamentos avançados de Fingon poderem enxergar os olhos dos inimigos. Mesmo assim, não havia resposta ao desafio, e os orcs vacilaram em suas provocações enquanto olhavam para as muralhas silenciosas e a ameaça oculta das colinas. Então, o capitão de Morgoth enviou cavaleiros com ofertas de negociação, e eles chegaram até as fortificações exteriores de Barad Eithel. Traziam com eles Gelmir, filho de Guilin, aquele senhor de Nargothrond que haviam capturado na Bragollach, e eles o haviam cegado. Então, os arautos de Angband gritaram, para apresentá-lo:
— Temos muitos outros iguais em casa; mas vocês devem se apressar se quiserem encontrá-los; pois, quando voltarmos, trataremos todos eles desta forma — E deceparam os pés e as mãos de Gelmir, acabando por decapitá-lo, à vista dos elfos; e o deixaram ali.
Por azar, naquele local, nas fortificações, estava Gwindor de Nargothrond, irmão de Gelmir.
Ora, sua cólera inflamou-se em loucura, e ele investiu a cavalo, acompanhado por muitos cavaleiros. Eles perseguiram os arautos e os mataram, adentrando muito no corpo principal do exército. E, ao perceber isso, exaltou-se toda a hoste dos noldor, e Fingon pôs seu elmo branco e fez soar suas trompas, levando todos os guerreiros de Hithlum a saltar das colinas em súbita investida. O clarão das espadas desembainhadas dos noldor era como um incêndio num caniçal.
E tão rápido e cruel foi seu ataque, que os planos de Morgoth quase falharam. O exército mandado por ele para o oeste foi dizimado antes de receber reforços, e os estandartes de Fingon cobriram toda Anfauglith e foram hasteados diante das muralhas de Angband. Sempre na vanguarda dessa batalha, estavam Gwindor e os elfos de Nargothrond; e mesmo nesse instante não foi possível contê-los. Irromperam pelo Portão e assassinaram os guardas nas próprias escadarias de Angband; e Morgoth tremeu em seu trono nas profundezas, ao ouvir as batidas em suas portas. Os elfos estavam, no entanto, encurralados; e todos foram mortos com a única exceção de Gwindor, que foi capturado vivo, pois Fingon não pôde vir auxiliá-los. Por muitas portas secretas nas Thangorodrim, Morgoth permitira a investida de sua força principal, que mantinha de reserva. E Fingon foi rechaçado das muralhas com perdas enormes.
Então, na planície de Anfauglith, no quarto dia da guerra, teve início Nimaeth Arnoediad, as Lágrimas Incontáveis, pois nenhum poema ou história pode conter toda a sua dor. A hoste de Fingon recuou pelas areias; e Haldir, Senhor dos haladin, foi morto na retaguarda. Com ele, caiu a maioria dos homens de Brethil, que nunca mais voltaram para seus bosques. No quinto dia, porém, ao anoitecer, e quando ainda estavam muito longe das Ered Wethrin, os orcs cercaram o exército de Hithlum, e lutaram até o amanhecer, cada vez mais pressionados. Pela manhã, veio a esperança, quando as trompas de Turgon foram ouvidas enquanto ele se aproximava com a hoste principal de Gondolin; pois estava posicionada mais ao sul, protegendo o Passo do Sirion, e Turgon impediu que a maioria dos seus se lançasse num ataque precipitado. Agora, ele corria para ajudar o irmão; e os gondolindrim eram fortes e estavam protegidos por malhas. Suas fileiras refulgiam como um rio de aço ao Sol.
Ora, a falange da guarda do Rei abriu caminho entre as fileiras dos orcs, e Turgon, a machadadas, conseguiu aproximar-se de seu irmão. Diz-se que o encontro de Turgon com Húrin, que estava junto a Fingon, foi alegre, mesmo no meio da batalha. Renovaram-se então as esperanças nos corações dos elfos, e, naquele instante, na terceira hora da manhã, ouviram-se finalmente os clarins de Maedhros, vindo do leste; e os estandartes dos filhos de Fëanor atacaram o inimigo pela retaguarda. Disseram alguns que, mesmo assim, os elfos poderiam ter saído vitoriosos, se toda a sua tropa tivesse sido fiel. Pois os orcs hesitaram, suas investidas foram contidas, e alguns já estavam dando meia-volta para fugir. Entretanto, quando a vanguarda de Maedhros se abateu sobre os orcs, Morgoth soltou sua última força, e Angband ficou vazia. Vieram lobos com cavaleiros que os montavam, vieram balrogs, dragões e Glaurung, pai dos dragões. A força e o terror do Grande Lagarto eram agora enormes; e elfos e homens se intimidaram diante dele. E Glaurung avançou entre as hostes de Maedhros e Fingon, separando-as.
Contudo, nem com lobo, nem com balrog, nem com dragão, teria Morgoth atingido seu objetivo, se não fosse pela traição dos homens. Nessa hora, revelaram-se as tramoias de Ulfang.
Muitos dos orientais se voltaram e fugiram, com o coração cheio de mentiras e pavor. Os filhos de Ulfang, porém, de repente passaram para o lado de Morgoth e investiram contra a retaguarda dos filhos de Fëanor. E, na confusão que provocaram, chegaram perto do estandarte de Maedhros. Entretanto, não colheram a recompensa que Morgoth lhes prometera, pois Maglor matou Uldor, o Maldito, líder da traição; e os filhos de Bór, antes de serem mortos, mataram Ulfast e Ulwarth. Surgiu, porém, um novo contingente de homens que Uldor convocara e mantivera escondidos nas colinas orientais. Com isso, a hoste de Maedhros agora era atacada de três lados. Ela se dividiu, foi dispersada e fugiu de um lado para o outro. Mesmo assim, o destino salvou os filhos de Fëanor. E, embora todos estivessem feridos, nenhum fora morto, pois se reuniram e, trazendo para junto de si um remanescente do exército dos noldor e dos naugrim, eles abriram à força um caminho para sair da batalha e fugiram para longe, na direção do Monte Dolmed, no leste.
Últimos de todas as forças orientais a se manterem firmes foram os anões de Belegost, e assim conquistaram renome. Pois os naugrim suportavam o fogo com maior resistência do que elfos ou homens. Além disso, era seu costume usar em combate máscaras enormes, horríveis de contemplar. E essas lhes foram de grande valia contra os dragões. E, se não fossem eles, Glaurung e sua prole teriam queimado tudo o que restava dos noldor. Os naugrim, porém, fizeram uma roda em torno de Glaurung quando ele os atacou. E mesmo sua poderosa armadura não era totalmente invulnerável diante dos golpes dos terríveis machados dos anões.
E quando, em sua ira, Glaurung se voltou e derrubou Azaghâl, Senhor de Belegost, e se arrastou sobre ele, num último golpe Azaghâl enfiou-lhe no ventre uma faca, ferindo-o de tal modo que ele fugiu do campo de batalha; e as feras de Angband, amedrontadas, fugiram atrás dele. Os anões então levantaram o corpo de Azaghâl e o levaram embora. A passos lentos, foram andando atrás, a entoar um canto fúnebre com suas vozes graves, como se fosse uma procissão solene em sua própria terra. E não davam mais nenhuma atenção aos inimigos. E ninguém ousou detê-los.
Nesse momento, porém, no lado ocidental da batalha, Fingon e Turgon estavam sendo atacados por uma avalanche de inimigos três vezes maior do que todas as tropas que lhes restavam.
Viera Gothmog, Senhor dos balrogs, comandante supremo de Angband. E ele forçou uma cunha negra entre os exércitos élficos, cercando o Rei Fingon e empurrando Turgon e Húrin para o lado, na direção do Pântano de Serech. Voltou-se então para Fingon. Foi um encontro sinistro. No final, Fingon estava só, com sua guarda toda morta ao redor. E lutava com Gothmog até que outro balrog veio por trás e lançou um círculo de fogo à sua volta. Gothmog então o atingiu com o machado negro, e uma chama branca saltou do elmo de Fingon quando se partiu. Assim caiu o Rei Supremo dos noldor. Esmagaram-no na terra com suas clavas; e seu estandarte, azul e prateado, pisotearam na lama de seu sangue.
A batalha estava perdida, mas, mesmo assim, Húrin, Huor e o que restava da Casa de Hador mantinham-se firmes com Turgon, de Gondolin; e as hostes de Morgoth ainda não haviam conseguido conquistar o Passo do Sirion. Falou então Húrin a Turgon:
— Vá agora, Senhor, enquanto é tempo! Pois no Senhor reside a última esperança dos elfos. E enquanto Gondolin resistir, Morgoth ainda sentirá medo no coração.
— Agora, por pouco tempo, Gondolin poderá manter-se oculta; e, ao ser descoberta, deverá cair — respondeu Turgon.
— Porém, se resistir só um pouco mais — disse Huor —, então de sua casa surgirá a esperança para elfos e homens. Isso eu lhe digo, Senhor, com os olhos da morte: mesmo que nos separemos aqui para sempre e que eu não volte a ver suas muralhas brancas, de mim e do Senhor uma nova estrela nascerá. Adeus!
E Maeglin, filho da irmã de Turgon, que estava por perto, ouviu essas palavras e não as esqueceu; mas nada disse.
Turgon aceitou, então, os conselhos de Húrin e Huor. E, convocando todos os que restavam do exército de Gondolin, bem como aqueles do povo de Fingon que puderam ser reunidos, recuou na direção do Passo do Sirion. E seus capitães, Ecthelion e Glorfindel, protegeram os flancos à direita e à esquerda, para que nenhum inimigo passasse por eles. Já os homens de Dor-lómin defenderam a retaguarda, como Húrin e Huor desejavam; pois em seu íntimo não queriam deixar as Terras do norte e, se não conseguissem reconquistar seus lares, ali permaneceriam até o final. Desse modo foi reparada a traição de Uldor; e de todos os feitos da guerra que os pais dos homens realizaram em benefício dos eldar, a resistência final dos homens de Dor-lómin é o mais famoso.
Foi assim que Turgon forçou um caminho na direção sul até que, sob a proteção da guarda de Húrin e Huor, desceu pelo Sirion e escapou. Sumiu no meio das montanhas, sem ser visto pelos olhos de Morgoth. Os irmãos, porém, reuniram em torno de si os remanescentes dos homens da Casa de Hador e foram cedendo palmo a palmo, até chegar a uma posição por trás do Pântano de Serech, tendo à sua frente o córrego de Rivil. Ali fi-caram e não recuaram mais.
Então, todas as hostes de Angband os atacaram como enxames, cobriram o córrego com seus mortos e cercaram o que restava de Hithlum como uma maré que se avoluma em tomo de uma rocha. Ali, quando o Sol se pôs no sexto dia; e a sombra das Ered Wethrin escureceu, Huor caiu, atingido no olho por uma flecha envenenada, e todos os corajosos homens de Hador foram exterminados a seu redor, aos montes. E os orcs os decapitaram e empilharam suas cabeças como um monte de ouro à luz do pôr-do-sol.
Em último lugar, Húrin resistia sozinho. Largou, então, seu escudo para brandir o machado com as duas mãos. Contam as canções que o machado fumegava no sangue negro da guarda de trolls de Gothmog, até se consumir; e a cada vez que abatia um inimigo, Húrin gntava: “Aurë entuluva! O dia voltará!” Setenta vezes repetiu ele esse grito; mas acabaram por capturá-la vivo, por ordem de Morgoth, pois os orcs o agarraram com suas mãos, que não se soltavam mesmo quando ele as decepava dos braços. E a cada instante o inimigo se renovava, até que afinal ele caiu soterrado por eles. Gothmog então o amarrou e o arrastou até Angband sob zombarias.
Assim terminou a Nimaeth Amoediad, quando o Sol se punha do outro lado do mar. Caiu a noite sobre Hithlum, e do oeste veio uma grande tempestade de vento.
Grande foi o triunfo de Morgoth, e seu objetivo se realizou de um modo que o agradou. Pois homens haviam tirado a vida de homens e traído os eldar; e o medo e o ódio haviam sido despertados entre aqueles que deveriam ter estado unidos contra Morgoth. Daquela época em diante, os corações dos elfos se distanciaram dos homens, com a única exceção daqueles pertencentes às Três Casas dos edain.
O reino de Fingon não mais existia; e os filhos de Fëanor vagavam como folhas ao vento. Seus exércitos estavam dispersos; e sua aliança, rompida. E eles se acostumaram a uma vida selvagem nos bosques, aos pés das Ered Lindon, misturando-se aos elfos-verdes de Ossiriand, destituídos de seu poder e glória de outrora. Uns poucos dos haladin ainda habitavam Brethil, sob a proteção dos bosques, e Handir, filho de Haldir, era seu senhor. Já a Hithlum nunca mais voltou um sequer do exército de Fingon, nem homem nenhum da Casa de Hador; nem sequer notícias da batalha ou do destino de seus senhores. Morgoth, porém, mandou para lá os orientais que lhe prestaram serviço, negando-lhes as ricas terras de Beleriand, por eles cobiçadas. Morgoth encerrou-os em Hithlum, com a proibição de sair dali. Essa foi a recompensa que lhes deu pela traição a Maedhros: o direito de pilhar e atormentar os velhos, as mulheres e as crianças do povo de Hador. Os que restaram dos eldar de Hithlum foram levados para as minas do norte, para lá trabalhar como escravos, à exceção de alguns que o enganaram e fugiram para o meio das matas e das montanhas.
Os orcs e os lobos perambulavam à vontade por todo o norte e cada vez mais se aproximavam do sul, entrando em Beleriand, chegando mesmo a Nan-tathren, a Terra dos Salgueiros, e aos limites de Ossiriand; e ninguém se sentia seguro nos campos ou nas matas. Doriath na realidade persistia, e os palácios de Nargothrond continuavam ocultos; mas Morgoth pouca atenção lhes dedicava, fosse por pouco saber a respeito deles, fosse por ainda não ter chegado sua hora nos desígnios profundos da sua maldade. Agora, muitos fugiam para os Portos e se refugiavam atrás das muralhas de Círdan; e os marinheiros percorriam a costa para cima e para baixo, acossando o inimigo em desembarques rápidos. No ano seguinte, porém, antes de chegar o inverno, Morgoth mandou um enorme contingente atravessar Hithlum e Nevrast. Eles desceram pelo Rio Brithon e pelo Nenning, arrasaram toda a região das Falas e sitiaram as muralhas de Brithombar e Eglarest. Traziam consigo ferreiros, mineiros e criadores de fogo, que montaram grandes engenhos. E, apesar da bravura da resistência, as muralhas acabaram destruídas. Os Portos foram então arrasados; e a torre de Barad Nimras, derrubada. E a maioria do povo de Cirdan foi exterminada ou escravizada Alguns porém, entraram em embarcações e escaparam pelo mar. Entre eles, estava Ereinion Gil-galad, o filho de Fingon, que o pai mandara para os Portos depois da Dagor Bragollach. Esses sobreviventes navegaram com Círdan na direção sul até a Ilha de Balar, e construíram um abrigo para todos os que ali chegassem, pois também mantinham um reduto nas Fozes do Sirion, e muitos barcos leves e velozes estavam escondidos nas angras e nas águas onde os juncais eram densos como uma floresta.
E, quando Turgon soube disso, mais uma vez mandou mensageiros às Fozes do Sirion e solicitou o auxílio de Círdan, o Armador. A pedido de Turgon, Círdan construiu sete barcos velozes, que saíram velejando para o oeste. Mas nenhuma notícia deles jamais voltou a Balar, a não ser de um, o último. Os marinheiros daquele barco muito lutaram no mar e, voltando finalmente. Em desespero, afundaram numa grande tempestade à vista do litoral da Terramédia.
Um deles foi, porém, salvo por Ulmo da fúria de Ossë, e as ondas o levantaram lançando-o na praia em Nevrast. Seu nome era Voronwë, e ele era um dos que Turgon enviara de Gondolin como mensageiros.
Agora, o pensamento de Morgoth estava sempre voltado para Turgon. Pois Turgon lhe escapara, e, de todos os seus inimigos, esse era o que ele mais desejava capturar ou destruir. E, esse pensamento o perturbava e estragava o sabor da vitória, já que Turgon, da poderosa Casa de Fingolfin, era agora de direito o Rei de todos os noldor. E Morgoth temia e odiava a Casa de Fingolfin, pela amizade que eles mantinham com Ulmo, seu inimigo, e pelos ferimentos que Fingolfin lhe infligira com sua espada. E Morgoth temia Turgon mais do que todos os parentes; pois outrora, em Valinor, seu olho deparara com Turgon e, sempre que Turgon se aproximava, uma sombra se abatia sobre o espírito de Morgoth, um presságio de que, em algum momento ainda oculto, seria de Turgon que a ruína lhe viria.
Portanto, Húrin foi levado à presença de Morgoth, pois Morgoth sabia que Húrin tinha a amizade do Rei de Gondolin. Húrin, entretanto, o desafiou e zombou dele. Morgoth amaldiçoou Húrin, Morwen e sua prole, lançando sobre eles uma sina de escuridão e tristeza.
Tirou, então, Húrin da prisão e o instalou numa cadeira de pedra num local alto das Thangorodrim.
Ali ele ficou preso pelos poderes de Morgoth, que, em pé, ao seu lado, o maldiçoou mais uma vez.
— Agora fica sentado aí; e contempla as terras em que o mal e o desespero se abaterão sobre aqueles que amas. Ousaste zombar de mim e questionar o poder de Melkor, Senhor dos destinos de Arda. Por isso, com meus olhos, verás; e com meus ouvidos, escutarás. E não sairás nunca deste lugar enquanto a maldição não atingir seu amargo final.
E assim mesmo aconteceu. No entanto, não se diz que Húrin em algum momento tenha pedido a Morgoth misericórdia ou a morte, para si mesmo ou para qualquer um dos seus.
Por ordem de Morgoth, os orcs reuniram com enorme esforço todos os corpos dos caídos na grande batalha, bem como seus arreios e suas armas, e os empilharam num monte enorme no meio de Anfauglith. E era como um morro que se podia ver de longe. Haudh-en-Ndengin, os elfos o chamaram, a Colina dos Mortos; e Haudh-en-Nirnaeth, a Colina das Lágrimas. Mas a relva surgiu ali e cresceu alta e verde na colina, somente ali em todo o deserto criado por Morgoth. E nenhuma criatura de Morgoth dali em diante voltou a pisar na terra debaixo da qual as espadas dos eldar e dos edain se esfarelavam com a ferrugem.

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