17 de abril de 2016

Capítulo XVIII: Da ruína de Beleriand e da queda de Fingolfin

Ora, Fingolfin, Rei do Norte e Rei Supremo dos noldor, ao ver que seu povo se tornara numeroso e forte, e que os homens a eles aliados eram muitos e destemidos, pensou mais uma vez num ataque a Angband; pois sabia que aviam em perigo enquanto o círculo do Cerco não se fechasse e Morgoth estivesse livre para trabalhar em suas minas profundas, maquinando maldades que ninguém poderia prever antes que ele as revelasse. Essa posição era sábia na medida de seu conhecimento; pois os noldor ainda não compreendiam a plenitude do poder de Morgoth, nem entendiam que sua guerra contra ele, desassistida, era no final sem esperanças, quer se apressassem, quer postergassem. Contudo, como a terra era bela e seus reinos, vastos, os noldor em sua maioria estavam satisfeitos com as coisas como estavam, confiantes de que isso duraria muito e sem nenhuma pressa em iniciar um ataque no qual muitos sem dúvida pereceriam, fosse na vitória, fosse na derrota. Estavam, portanto, pouco dispostos a dar ouvidos a Fingolfin; e os filhos de Fëanor naquela época menos que todos os outros. Entre os líderes dos noldor; somente Angrod e Aegnor pensavam como o Rei; pois moravam em regiões de onde se podiam descortinar as Thangorodrim; e a ameaça de Morgoth estava presente em seu pensamento. Assim, os planos de Fingolfin deram em nada, e a terra ainda teve paz por algum tempo.
Porém, quando a sexta geração de homens depois de Bëor e Marach ainda não havia atingido a maioridade, passados quatrocentos e cinzenta e cinco anos da chegada de Fingolfin, aconteceu o mal que ele tanto tempo temera, e ainda mais horrendo e súbito do que seus piores pavores.
Pois Morgoth havia muito tempo vinha preparando sua força em segredo, enquanto a maldade no seu coração crescia cada vez mais e mais amargo se tornava seu ódio aos noldor. E ele desejava não só exterminar seus inimigos, mas também destruir e profanar as terras das quais eles se haviam apossado e embelezado. Diz-se também que seu ódio suplantou seu raciocínio, pois, se tivesse suportado esperar, até que seus intentos estivessem satisfeitos, os noldor teriam perecido totalmente. Por seu lado, no entanto, ele subestimou a bravura dos elfos, e ainda não levava em consideração os homens.
Chegou um período no inverno em que a noite era escura e sem Lua; e a vasta planície de Ardgalen se estendia na penumbra sob as estrelas frias, das fortalezas nas colinas dos noldor ao sopé das Thangorodrim. As fogueiras dos vigias queimavam baixas, e os sentinelas eram poucos. Na planície, poucos estavam acordados nos acampamentos dos cavaleiros de Hithlum.
Então, de repente, Morgoth fez jorrar enormes rios de chamas, que desciam das Thangorodrim mais velozes do que balrogs e se derramaram por toda a planície. E as Montanhas de Ferro vomitaram labaredas de muitos matizes venenosos; e suas emanações pestilentas impregnaram o ar; e eram fatais. Assim pereceu Ard-galen, e o fogo devorou sua relva. Tomou-se uma região queimada e devastada, cheia de uma poeira asfixiante, estéril e sem vida. Daí em diante, seu nome foi mudado, e ela passou a se chamar Anfauglith, a Poeira Sufocante. Grande quantidade de ossos calcinados tinha ali seu túmulo a céu aberto; pois muitos dos noldor pereceram no incêndio, tendo sido apanhados pelas labaredas velozes, sem poder fugir para as colinas. As elevações de Dorthonion e das Ered Wethrin impediram o avanço das torrentes de fogo, mas os bosques das suas encostas que davam para Angband todos se incendiaram, e a fumaça gerou confusão entre os defensores. Assim teve início a quarta das grandes batalhas, Dagor Bragollach, a Batalha das Chamas Repentinas.
Na vanguarda desse incêndio vinha Glaurung, o Dourado, pai de todos os dragões, no apogeu de sua força. Atrás dele vinham balrogs, e atrás destes vinham os exércitos sinistros dos orcs, em multidões tais como os noldor nunca haviam visto ou imaginado. E eles atacaram as fortalezas dos noldor, romperam o Cerco a Angband e, onde quer que os encontrassem, matavam os noldor e seus aliados, elfos-cinzentos e homens. Muitos dos mais corajosos inimigos de Morgoth foram destruídos nos primeiros dias dessa guerra, desnorteados, dispersos e incapazes de reunir suas forças. A guerra nunca mais cessou de todo em Beleriand; mas considera-se que a Batalha das Chamas Repentinas terminou quando as investidas de Morgoth se reduziram, com a chegada da primavera.
Assim terminou o Cerco a Angband; e os inimigos de Morgoth foram dispersados e isolados uns dos outros. A maior parte dos elfos-cinzentos fugiu para o sul, abandonando a guerra ao norte; muitos foram acolhidos em Doriath, e o reino e poderio de Thingol muito aumentaram naquela época, pois o poder de Melian, a rainha, estava entretecido nas suas fronteiras, e o mal ainda não podia penetrar naquele reino oculto. Outros foram refugiar-se nas fortalezas à beira-mar e em Nargothrond; e alguns fugiram dali para se esconder em Ossiriand; ou, tendo cruzado as montanhas, perambulavam sem abrigo nos ermos. E rumores da guerra e da queda do sítio chegaram aos ouvidos dos homens no leste da Terra Média.
Os filhos de Finarfin foram os mais atingidos pelo impacto do ataque; e Angrod e Aegnor foram mortos. A seu lado, caiu Bregolas, senhor da Casa de Bëor, bem como grande parte dos guerreiros daquela gente. No entanto, Barahir, irmão de Bregolas, estava na luta mais para o oeste, perto do Passo do Sirion. Ali, o Rei Finrod Felagund, vindo apressado do sul, ficou isolado de sua gente e cercado com poucos acompanhantes no Pântano de Serech. E teria sido morto ou capturado, se Barahir não chegasse com seus homens mais valentes e o resgatasse, protegendo-o com um círculo de lanças para abrir caminho em meio à batalha, com enormes perdas. Assim escapou Felagund e retornou às profundezas de sua fortaleza em Nargothrond; mas fez um juramento de amizade e auxílio permanente em qualquer necessidade a Barahir e toda a sua gente; e, como prova do juramento, deu a Barahir seu anel. Barahir era agora por direito o senhor da Casa de Bëor, e voltou a Dorthonion; mas a maior parte de seu povo fugira de casa para se refugiar na segurança de Hithlum.
Tão espantoso foi o ataque de Morgoth, que Fingolfin e Fingon não puderam vir em auxílio dos filhos de Finarfin; e os exércitos de Hithlum foram rechaçados com enormes perdas, sendo empurrados de volta para as fortalezas das Ered Wethrin; e mesmo essas eles mal conseguiram defender dos orcs. Diante das muralhas de Eithel Sirion caiu Hador, o Cabeça-dourada, já aos sessenta e seis anos de idade, defendendo a retaguarda de seu senhor Fingolfin; e com ele caiu seu filho caçula, Gundor, perfurado por muitas flechas. E os dois foram pranteados pelos elfos.
Então, Galdor, o Alto, assumiu a posição de autoridade do pai. E, graças à força e à altura das Montanhas Sombrias, que resistiram à correnteza de fogo, e à bravura dos elfos e dos homens do norte, que nem orc nem balrog tinham conseguido derrotar, Hithlum permaneceu incólume, uma ameaça no flanco do ataque de Morgoth; mas Fingolfin foi separado de seus semelhantes por um oceano de inimigos.
Pois a guerra havia sido desfavorável aos filhos de Fëanor, e praticamente toda a fronteira oriental fora tomada no ataque A Passagem de Aglon fora forçada, embora com enorme custo para os exércitos de Morgoth. E Celegorm e Curufin, derrotados, fugiram para o sul e para o oeste, pelas fronteiras de Doriath e, chegando afinal a Nargothrond, procuraram abrigo com Finrod Felagund. Aconteceu assim que sua gente reforçou o poderio de Nargothrond; mas teria sido melhor, como se viu depois, que tivessem permanecido no leste com seus parentes.
Maedhros realizou feitos de bravura extraordinária; e os orcs fugiram diante de seu rosto. Pois, desde sua tortura nas Thangorodrim, seu espírito ardia como um fogo branco em seu íntimo, e ele era como alguém que volta dos mortos. Assim, a grande fortaleza sobre a Colina de Himring não foi conquistada; e muitos dos mais corajosos que restaram, tanto do povo de Dorthonion quanto das fronteiras orientais, vieram reunir-se ali a Maedhros. E por um tempo ele fechou mais uma vez a Passagem de Aglon, para que os orcs não entrassem em Beleriand por aquele caminho. Os orcs, porém, derrotaram os cavaleiros do povo de Fëanor em Lothlann, pois Glaurung fora para lá, passando pela Falha de Maglor, e destruíra toda a terra entre os braços do Gelion. E os orcs tornaram a fortaleza instalada na encosta ocidental do Monte Rerir, devastaram toda a Thargelion, a terra de Caranthir; e profanaram o Lago Helevom. Dali cruzaram o Gelion, com fogo e terror, e se embrenharam em Beleriand Oriental. Maglor juntou-se a Maedhros em Himring. Já Caranthir fugiu e uniu os que restavam de sua gente ao povo disperso dos caçadores, Amrod e Amras. Juntos, eles recuaram e passaram por Ramdal, no sul. Sobre o Amon Ereb, mantiveram vigilância e alguma força de combate, com o auxílio dos elfos-verdes; e os orcs não entraram em Ossiriand, nem chegaram a Taur-im-Duinath e aos ermos do sul.
Ora, chegaram notícias a Hithlum de que Dorthonion estava perdida, os filhos de Finarfin, derrotados, e os filhos de Fëanor, expulsos de suas terras. Fingolfin então contemplou (como lhe parecia) a total destruição dos noldor, e a derrota irremediável de todas as suas casas. E, cheio de cólera e desespero, montou em Rochallor, seu cavalo magnífico, e partiu sozinho, sem que ninguém pudesse contê-lo. Passou por Dor-nu-Fauglith como um vento em meio à poeira; e todos os que viram sua investida fugiram assustados, acreditando que o próprio Oromë chegara. Pois ele fora dominado por uma loucura furiosa, tal que seus olhos brilhavam como os olhos dos Valar. Assim, chegou sozinho aos portões de Angband, fez soar sua trompa e golpeou mais uma vez as portas de bronze, desafiando Morgoth a se apresentar para um combate homem a homem. E Morgoth veio. Essa foi a última vez naquelas guerras em que ele atravessou as portas de seu reduto; e o que se diz é que não aceitou o desafio de bom grado.
Pois, embora seu poder fosse maior que tudo o que existe no mundo, ele era o único dos Vaiar que conhecia o medo. Agora, porém, não podia fugir ao desafio diante de seus capitães. Pois as rochas reverberavam com a música aguda da trompa de Fingolfin, sua voz chegava clara e nítida às profundezas de Angband, e Fingolfin chamava Morgoth de covarde e de senhor de escravos. Por isso, Morgoth veio, subindo lentamente de seu trono subterrâneo, e o ruído de seus passos era como trovões no seio da terra. E se apresentou trajando uma armadura negra.
Parou diante do Rei como uma torre, com sua coroa de ferro. E seu enorme escudo, negro sem brasão, lançava uma sombra como uma nuvem de tempestade. Fingolfin, entretanto, cintilava dentro da sombra como uma estrela; pois sua malha era recoberta de prata, e seu escudo azul era engastado com cristais. E ele sacou sua espada Ringil, que refulgia como o gelo.
Morgoth então ergueu bem alto Grond, o Martelo do Mundo Subterrâneo, e o fez baixar como um raio. Fingolfin, porém, deu um salto para o lado, e Grond abriu um tremendo buraco na terra, de onde jorraram fumaça e fogo. Muitas vezes Morgoth tentou esmagá-la, e a cada vez Fingolfin escapava com um salto, como o relâmpago que sai de uma nuvem escura. E fez sete ferimentos em Morgoth; e sete vezes Morgoth deu um grito de agonia, com o que os exércitos de Angband se prostraram no chão, aflitos, e os gritos ecoaram pelas terras do norte.
Mas, por fim, o Rei se cansou, e Morgoth o empurrou para baixo com o escudo. Três vezes, Fingolfin foi esmagado até se ajoelhar, e três vezes ele se levantou portando seu escudo quebrado e seu elmo amassado. Entretanto, a terra estava toda esburacada e rasgada ao seu redor, e ele tropeçou e caiu para trás aos pés de Morgoth. E Morgoth pôs o pé esquerdo sobre o pescoço de Fingolfin; e o peso era o de uma colina desmoronando. Contudo, num golpe final e desesperado, Fingolfin lhe cortou o pé com Ringil, e o sangue jorrou negro e fumegante, enchendo os buracos feitos por Grond. Assim morreu Fingolfin, Rei Supremo dos noldor, o mais altivo e destemido dos Reis élficos de outrora. Os orcs não se vangloriaram desse duelo junto aos portões. Nem os elfos cantam esse feito, pois é por demais profunda sua dor.
Entretanto, a história ainda é lembrada, já que Thorondor, Rei das Águias, levou as notícias a Gondolin e às plagas remotas de Hithlum. E Morgoth apanhou o corpo do Rei élfico e o partiu para lançá-la aos lobos. Thorondor, porém, veio apressado de seu ninho em meio aos picos de Crissaegrim, lançou-se sobre Morgoth e lhe feriu o rosto. O farfalhar das asas de Thorondor era como o ruído dos ventos de Manwë. Ele pegou o corpo com suas garras poderosas e, alçando voo de repente fora do alcance dos dardos dos orcs, levou o Rei embora. E o depositou no topo de uma montanha que, do norte, dava para o vale oculto de Gondolin. Turgon veio e construiu um monumento de pedras sobre o pai. Nenhum orc jamais ousou passar por cima do monte de Fingolfin ou se aproximar de seu túmulo, enquanto não se realizasse a sina de Gondolin e a traição não surgisse entre sua gente. Morgoth mancou para sempre, a partir daquele dia, e a dor de seus ferimentos não podia ser mitigada. E, no rosto, trazia a cicatriz deixada por Thorondor.
Enorme foi a lamentação em Hithlum quando se tomou conhecida a queda de Fingolfin; e Fingon, pesaroso, assumiu a chefia da Casa de Fingolfin e o reino dos noldor; mas seu jovem filho Ereinion (que mais tarde foi chamado de Gil-galad) ele enviou para os Portos.
Agora o poder de Morgoth dominava as terras do norte; mas Barahir não se dispunha a fugir de Dorthonion e disputava cada metro de território com seus inimigos. Morgoth, então, perseguiu sua gente até a morte, até restarem poucos deles. E toda a floresta das encostas setentrionais daquela região foi aos poucos se transformando numa região de tamanho pavor e feitiços sinistros, que nem mesmo os orcs nela penetravam, a menos que a necessidade os forçasse, e ela se chamou Deldúwath, e Taur-nu-Fuin, a Floresta Sob a Sombra da Noite. As árvores que ali cresceram depois do incêndio eram negras e sinistras, com as raízes enroscadas, tateando no escuro como garras de animais. E aqueles que se desgarravam no meio delas ficavam perdidos e cegos, e eram estrangulados ou perseguidos até a loucura por espectros aterrorizantes. Afinal, de tal desespero era a situação de Barahir, que sua mulher Emeldir, a de Coração Viril (cuja disposição era mais lutar ao lado do marido e do filho do que fugir), reuniu todas as mulheres e crianças que restavam e deu armas àquelas que quisessem portá-las. Conduziu-as, então, para dentro das montanhas que estavam às suas costas; e por trilhas perigosas, até finalmente chegarem com grandes perdas e desditas a Brethil. Algumas foram recebidas entre os haladin; mas outras prosseguiram pelas montanhas até Dor-lómin e o povo de Galdor, filho de Hador.
Entre essas estavam Rían, filha de Belegund, e Morwen, que era chamada de Eledhwen, ou seja, Brilho Élfico, filha de Baragund. Nenhuma, porém, jamais voltou a ver os homens que haviam deixado. Pois eles foram exterminados um a um, até que no final restavam a Barahir apenas doze homens: Beren, seu filho; Baragund e Belegund, seus sobrinhos, filhos de Bregolas; e nove servos fiéis de sua casa, cujos nomes foram por muito tempo lembrados nas canções dos noldor: Radhruin e Dairuin, eram eles, Dagnir e Ragnor, Gildor e Gorlim, o Infeliz, Arthad e Urthel, e Hathaldir, o Jovem. Tornaram-se eles proscritos, sem esperanças, um bando de desesperados que não podia escapar e não queria se render, pois suas moradas estavam destruídas, e suas mulheres e filhos, se não tivessem sido capturados ou exterminados, tinham fugido. De Hithlum não chegavam nem notícias nem ajuda, e Barahir e seus homens eram caçados como animais selvagens. Recolheram-se então para o planalto árido acima da floresta, e perambularam em meio aos laguinhos e charnecas rochosas da região, o mais longe possível dos espiões e dos encantamentos de Morgoth. Sua cama eram as urzes, e seu teta, o céu enevoado.
Por quase dois anos depois da Dagor Bragollach, os noldor ainda defendiam a passagem ocidental perto das nascentes do Sirion, pois o poder de Ulmo estava naquela água, e Minas Tirith resistia aos orcs. Com o tempo, entretanto, depois da queda de Fingolfin, Sauron, o mais terrível e mais poderoso dos servos de Morgoth, que no idioma sindarin era chamado de Gorthaur, levantou-se contra Orodreth, o guardião da torre sobre Tol Sirion. Sauron agora se tornara um feiticeiro de poder tremendo, mestre das sombras e dos espectros, torpe na inteligência, cruel na força, deformando tudo o que tocava, confundindo o que governava, senhor de lobisomens. Seu domínio era um tormento. Tomou Minas Tirith de assalto, pois uma negra nuvem de terror se abateu sobre os que a defendiam; e Orodreth foi expulso e fugiu para Nargothrond. Sauron transformou-a então num posto de vigia para Morgoth, uma fortaleza do mal e uma ameaça. E a bela ilha de Tol Sirion foi amaldiçoada, passando a se chamar Tol-in— Gaurhoth, a Ilha dos Lobisomens. Nenhuma criatura viva podia passar pelo vale sem que Sauron a avistasse da torre onde ficava. E Morgoth agora controlava a passagem ocidental, enchendo com seu terror os campos e os bosques de Beleriand. Para lá de Hithlum, ele perseguia implacável seus inimigos, procurava seus esconderijos e tornava suas fortalezas uma a uma. Os orcs, cada vez mais audaciosos, perambulavam à vontade por toda parte, descendo pelo Sirion no oeste e pelo Celon no leste, e cercaram Doriath. E atormentavam as terras de modo a fazer fugirem deles bichos e aves, enquanto o silêncio e a desolação se espalhavam com constância a partir do Norte. Muitos dos noldor e dos sindar, eles levaram em cativeiro até Angband, e os tornaram escravos, forçando-os a usar sua perícia e seus conhecimentos a serviço de Morgoth. E Morgoth mandava seus espiões para o mundo, e eles se apresentavam sob formas falsas, e a trapaça estava em sua fala. Prometiam recompensas mentirosas e, com palavras astuciosas, procuravam despertar o medo e a inveja entre os povos, acusando seus reis e chefes de ganância e de traição uns para com os outros. E, em virtude da maldição do Fratricídio de Alqualondë, as pessoas com frequência acreditavam nessas mentiras. De fato, à medida que o tempo escurecia, elas revelavam ter um fundo de verdade, pois os corações e mentes dos elfos de Beleriand se anuviavam em desespero e medo. No entanto, os noldor sempre temeram mais a traição por parte daqueles de sua própria linhagem que tivessem sido escravos em Angband. Pois Morgoth usava alguns deles para seus objetivos nefastos e, fingindo dar-lhes a liberdade, os mandava para outras regiões, mas sua vontade estava acorrentada à dele, e eles se afastavam só para voltar novamente para seu lado. Portanto. Se algum dos cativos escapasse de verdade e retornasse a seu povo, não teria boa acolhida e vagaria só, proscrito e desesperado.
Para os homens, Morgoth simulava compaixão, se alguém se dispusesse a dar ouvidos a suas mensagens, dizendo que suas aflições derivavam somente de sua servidão aos noldor rebeldes; mas que, nas mãos do legítimo Senhor da Terra Média, eles receberiam honrarias e uma justa recompensa pela bravura, se abandonassem à rebelião. Contudo, poucos homens das Três Casas dos edain se dispuseram a lhe dar ouvidos, nem mesmo quando levados aos tormentos de Angband. Por conseguinte, Morgoth os perseguia com ódio; e mandava seus mensageiros atravessarem as montanhas.
Diz-se que foi nessa época que os homens morenos chegaram pela primeira vez a Beleriand.
Alguns já estavam em segredo sob o domínio de Morgoth e vieram atender a um chamado seu.
Nem todos, porém, pois os rumores sobre Beleriand, suas terras e águas, suas guerras e sua abundância, se espalhavam por toda à parte, e os pés inquietos dos homens estavam sempre dirigidos para o oeste naquele tempo. Esses homens eram baixos e atarracados, de braços longos e fortes. Sua pele era morena ou amarelada, e seu cabelo era escuro, como seus olhos.
Suas casas eram numerosas, e alguns deles gostavam mais dos anões das montanhas do que dos elfos. Maedhros, porém, consciente da fraqueza dos noldor e dos edain, ao passo que as profundezas de Angband pareciam ter reservas inesgotáveis e sempre renovadas, fez aliança com esses homens recém-chegados e deu sua amizade a seus maiores chefes, Bór e Ulfang. E Morgoth ficou bem satisfeito, pois era isso o que planejara. Os filhos de Bór eram Borlad, Borlach e Borthand; e eles acompanharam Maedhros e Maglor com lealdade, iludindo a esperança de Morgoth. Os filhos de Ulfang, o Negro, eram Ulfast, Ulwarth e Uldor, o Maldito.
Esses acompanharam Caranthir, jurando-lhe fidelidade, e se revelaram pérfidos.
Não havia grande amor entre os edain e os orientais; e eles raramente se encontravam. Pois os recém-chegados residiram muito tempo em Beleriand Oriental, mas o povo de Hador estava preso em Hithlum, e a Casa de Bëor estava praticamente destruída. O povo de Haleth de início não foi atingido pela guerra ao norte, pois vivia mais ao sul, na Floresta de Brethil. Agora, porém, já havia combates entre eles e os orcs invasores, pois eram homens de disposição valente e não abandonariam sem luta os bosques que amavam. E, em meio ao relato de derrotas dessa época, os feitos dos haladin são relembrados com honras. É que, depois da conquista de Minas Tirith, os orcs chegaram pela passagem ocidental e talvez tivessem causado devastação até as Fozes do Sirion; mas Halmir, senhor dos haladin, mandou rapidamente um aviso a Thingol, pois era amigo dos elfos que vigiavam as fronteiras de Doriath. Então, Beleg Arcoforte, chefe da guarda de fronteiras de Thingol, levou enorme exército de sindar, armados com machados, para Brethil. E, saindo das profundezas da floresta, Halmir e Beleg atacaram uma legião de orcs desprevenida e a destruiu. Daí em diante, a maré negra que vinha do norte foi contida naquela região, e os orcs não ousaram cruzar o Teiglin por muitos anos. O povo de Haleth continuou a viver em paz, embora alerta, na Floresta de Brethil; e, por trás de sua guarda, o Reino de Nargothrond   teve descanso e pôde reunir suas forças.
Nessa época, Húrin e Huor, os filhos de Galdor, de Dor-lómin, estavam morando com os haladin, de quem eram aparentados. Nos tempos anteriores a Dragor Bragollach, essas duas Casas de edain foram unidas numa grande festa, na qual Galdor e Glóredhel, filhos de Hador Cabeçadourada, se casaram com Hareth e Haldir, filhos de Halmir, senhor dos haladin. Foi assim que os filhos de Galdor foram abrigados em Brethil por Haldir, seu tio, de acordo com os costumes dos homens naquela época. E os dois entraram naquela batalha contra os orcs, e até mesmo Huor, que não pôde ser impedido, apesar de ter apenas treze anos de idade. Estando, porém, com uma companhia que fora isolada dos outros, eles foram perseguidos até o Vau de Brithiach e ali teriam sido capturados ou mortos se não fosse o poder de Ulmo, que ainda era forte no Sirion. Uma névoa subiu do rio e os escondeu dos inimigos; e eles escaparam atravessando o Brithiach para entrar em Dimbar. Ali vagaram por entre as colinas aos pés das muralhas íngremes de Crissaegrim, até ficarem desnorteados pelas ciladas daquela terra sem saber para onde seguir ou como voltar. Ali Thorondor os avistou e mandou duas de suas águias em seu auxílio. E as águias os carregaram para além das Montanhas Circundares. Até o vale secreto de Tumladen e a cidade oculta de Gondolin. Que nenhum homem havia visto até então.
Ali Turgon, o Rei, os recebeu bem, quando soube de sua origem, pois mensagens e sonhos lhe haviam chegado do mar pelo Sirion acima, de Ulmo, Senhor das Águas, advertindo-o sobre aflições futuras e o aconselhando a tratar bem os filhos da Casa de Hador, de quem lhe viria socorro em hora de necessidade. Húrin e Huor foram hóspedes na Casa do Rei por quase um ano, e o que se diz é que nesse período Húrin aprendeu muito da tradição dos elfos e compreendeu também algo a respeito das decisões e propósitos do Rei Pois Turgon sentia grande afeição pelos filhos de Galdor e conversava muito com eles. Na realidade, desejava mantê-los em Gondolin por amor, não apenas para fazer valer sua lei de que nenhum desconhecido, elfo ou homem, que descobrisse o caminho até o reino secreto e pusesse os olhos na cidade, dali pudesse sair. Enquanto o Rei não abrisse o cerco e o povo oculto se apresentasse.
Contudo, Húrin e Huor desejavam retornar a seu próprio povo e participar das guerras e aflições que agora os atormentavam.
— Senhor — disse então Húrin a Turgon — não somos senão mortais e diferentes dos eldar. Eles podem suportar a passagem de muitos anos enquanto aguardam o combate com seus inimigos em algum futuro distante; para nós, porém, o tempo é curto; e nossa esperança e força logo definham. Além do mais, não descobrimos o caminho até Gondolin e de fato não sabemos ao certo onde fica essa cidade; pois fomos trazidos em meio ao pavor e ao espanto pelos altos caminhos do ar e, por felicidade, nossos olhos foram vendados Turgon então concedeu-lhes o pedido.
— Do mesmo modo que chegaram, vocês têm permissão para partir, se Thorondor estiver disposto. Fico triste com essa partida. Mesmo assim, dentro de pouco tempo, como os eldar esperam, podemos voltar a nos encontrar.
Maeglin, o filho da irmã do Rei, que tinha poder em Gondolin, não se entristeceu nem um pouco com sua ida, embora se ressentisse do privilégio a eles concedido pelo Rei, pois não sentia nenhum afeto por quem fosse da raça dos homens.
— A mercê do Rei é maior do que vocês reconhecem; e a lei se tomou menos rigorosa do que no passado; se não, vocês não teriam escolha, a não ser permanecer aqui até o fim da vida — disse ele a Húrin.
— É de fato enorme a mercê do Rei — respondeu-lhe Húrin.
— Mas, se nossa palavra não for suficiente, faremos juramentos solenes. — E os irmãos juraram nunca revelar os pensamentos de Turgon e manter em segredo tudo o que haviam visto no reino. Despediram-se, então, e as águias chegaram para levá-los embora à noite, deixando-os em Dorlómin antes do amanhecer.Seu povo muito se alegrou ao vê-los, pois mensageiros de Brethil haviam trazido notícias de que estavam desaparecidos; mas eles se recusaram a declarar até mesmo a seu pai onde haviam estado, só relatando que haviam sido resgatados em terras ermas pelas águias, que os haviam trazido para casa.
— Vocês viveram um ano na selva? — perguntou então Galdor. — Ou as águias os abrigaram em seus ninhos? Mas vocês encontraram alimentos e belos trajes; e voltam como jovens príncipes, não como pessoas perdidas na mata.
— Contentem-se com o fato de termos voltado — respondeu Húrin —, pois só sob o voto de silêncio recebemos essa permissão.
Então, Galdor não os questionou mais; mas ele e muitos outros suspeitavam da verdade. E, com o tempo, a estranha sorte de Húrin e Huor chegou aos ouvidos dos servos de Morgoth.
Ora, quando soube do rompimento do Cerco a Angband, Turgon não permitiu que ninguém de seu povo saísse para guerrear; pois considerava Gondolin forte e achou que ainda não era chegada a hora de revelar sua existência. Entretanto, ele também acreditava que o final do Cerco era o início da derrocada dos noldor, a menos que chegasse alguma ajuda. Enviou então grupos de gondolindrim em segredo às Fozes do Sirion e à Ilha de Balar. Ali, eles construíram barcos e navegaram na direção do extremo oeste, em missão a eles confiada por Turgon, à procura de Valinor, para pedir perdão e auxílio aos Valar. E eles imploraram às aves marinhas que os guiassem Os mares, porém, eram vastos e revoltos; e sombra e encantamento se abateram sobre eles. E Valinor permaneceu oculta. Por isso, nenhum dos mensageiros de Turgon chegou ao oeste, muitos se perderam e poucos retornaram; mas a sina de Gondolin estava cada vez mais próxima.
Chegaram a Morgoth rumores desses fatos, que o inquietaram em meio a suas vitórias, e ele desejava muito ter notícias de Felagund e Turgon. Pois os dois haviam desaparecido sem que se soubesse onde, e. Entretanto, não estavam mortos. E Morgoth temia o que ainda poderiam fazer contra ele. De Nargothrond conhecia de fato o nome, mas nem sua localização nem sua força. E de Gondolin nada sabia; e pensar em Turgon era o que o preocupava mais. Enviou portanto um número cada vez maior de espiões a Beleriand: mas chamou de volta a Angband os principais exércitos de orcs, pois percebeu que não poderia iniciar uma batalha vitoriosa e definitiva enquanto não reunisse novas forças, já que não avaliara corretamente o valor dos noldor nem o poder armado dos homens que lutavam a seu lado. Por importante que tivesse sido sua vitória na Bragollach e nos anos seguintes, e por grave que tivesse sido o dano imposto aos inimigos, suas próprias perdas não haviam sido menores. E, embora ele agora controlasse Dorthonion e o Passo do Sirion, os eldar, recuperando-se do susto inicial, começavam agora a reconquistar o que haviam perdido. Assim, Beleriand no sul voltou a ter uma paz aparente por alguns breves anos; mas as forjas de Angband trabalhavam a pleno vapor.
Passados sete anos da quarta batalha, Morgoth retomou sua investida e mandou uma força imensa contra Hithlum O ataque às passagens das Mmontanhas Sombrias foi duro: e, no cerco a Eithel Sirion, Galdor, o Alto, Senhor de Dor-lómin, foi morto por uma flecha Essa fortaleza ele controlava em nome de Fingon, o Rei Supremo; e naquele mesmo lugar seu pai, Hador Lórin-dol, morrera pouco antes. Húrin, seu filho, acabava de atingir a maioridade, mas era grande na força tanto da mente quanto do corpo. E expulsou das Ered Wethrin os orcs, com grande mortandade, perseguindo-os até muito longe pelas areias de An-fauglith.
O Rei Fingon, porém, teve dificuldade para conter o exército de Angband, que desceu do norte.
E a batalha foi travada nas próprias planícies de Hithlum. Ali, Fingon estava em menor número; mas os barcos de Círdan subiram trazendo grande contingente pelo Estuário de Drengist e, na hora da necessidade, os elfos-das-Falas se lançaram sobre o exército de Morgoth, pelo oeste. Com isso, os orcs se dispersaram e fugiram, dando a vitória aos elfos; e os arqueiros montados os perseguiram até mesmo em meio às Montanhas de Ferro.
Daí em diante, Húrin, filho de Galdor, governou a Casa de Hador em Dor-lómin e serviu a Fingon. Húrin era de estatura menor que seus pais, ou que seu filho; mas seu corpo era incansável e resistente, ágil e veloz, semelhante ao da família de sua mãe, Hareth, dos haladin.
Sua mulher foi Morwen Eledhwen, filha de Baragund da Casa de Bëor, a que fugiu de Dorthonion com Rían, filha de Belegund, e Emeldir, mãe de Beren.
Também naquela época, os proscritos de Dorthonion foram exterminados, como será relatado daqui em diante; e Beren, filho de Barahir, tendo escapado sozinho, chegou com grande dificuldade a Doriath.

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