17 de abril de 2016

Capítulo XVII: Da chegada dos homens ao oeste

Passados mais de trezentos anos da vinda dos noldor para Beleriand, nos dias da Longa Paz, Finrod Felagund, senhor de Nargothrond, passeava a leste do Sirion e fora caçar com Maglor e Maedhros, filhos de Fëanor. Cansou-se, porém, da caçada e prosseguiu sozinho na direção das montanhas de Ered Lindon, que via cintilando ao longe. Tomando a Estrada dos Anões, atravessou o Gelion no Vau de Sarn Athrad e, voltando-se para o sul e cruzando o curso superior do Ascar, chegou ao norte de Ossiriand.
Num vale em meio aos contrafortes das montanhas, abaixo das fontes de Thalos, viu luzes à noite e ouviu mais ao longe o som de cantos. Com isso ficou muito admirado, pois os elfos-verdes daquela terra não acendiam fogueiras, nem cantavam à noite. De início, temeu que um ataque de orcs tivesse atravessado o Cerco do Norte; mas, à medida que se aproximava, viu que não se tratava disso, pois os cantores usavam uma língua que nunca ouvira antes, nem de anões, nem de orcs. Felagund, então, parado em silêncio na sombra noturna das árvores, olhou para o acampamento lá embaixo e avistou um povo estranho.
Ora, eles pertenciam à família e aos seguidores de Bëor, o Velho, como ele mais tarde foi chamado, um líder entre os homens. Passadas muitas vidas vagando para sair do leste, ele os conduzira afinal através das Montanhas Azuis, os primeiros da raça dos homens a entrar em Beleriand. E cantavam porque estavam felizes, e acreditavam ter escapado de todos os perigos, tendo chegado finalmente a uma terra sem medo Por muito tempo, Felagund os observou, e o amor por eles brotou em seu coração; mas ele continuou escondido nas árvores até que todos estivessem dormindo. Seguiu então para o meio dos adormecidos e se sentou ao lado da fogueira que se apagava, por ninguém vigiada.
Apanhou uma harpa tosca que Bëor deixara de lado e começou a tocar música tal como nunca chegara aos ouvidos dos homens; pois eles ainda não tinham mestres na arte, a não ser os elfos-escuros das terras ermas.
Ora, os homens acordaram e escutaram Felagund, que tocava harpa e cantava, e cada qual julgou estar tendo um sonho agradável, até perceber que seus companheiros também estavam acordados a seu lado. A beleza da música e o encanto dos versos eram tais, que ninguém falou nem se mexeu enquanto Felagund tocava. Havia sabedoria nas palavras do Rei élfico, e os corações que o ouviam tornavam-se mais sábios Pois os fatos sobre os quais cantava, a criação de Arda, a bem-aventurança de Aman para além das sombras do Mar, chegavam aos olhos dos homens como visões nítidas, e o idioma élfico era interpretado em cada mente de acordo com sua capacidade.
Foi assim que os homens chamaram o Rei Felagund, que foi o primeiro dos eldar que conheceram, de Nóm, ou seja, Sabedoria, na linguagem daquele povo; e, por causa dele, chamaram seu povo de nómin, os Sábios. Na verdade, a princípio, eles acreditaram que Felagund fosse um dos Valar, de quem tinham ouvido rumores de que moravam longe no oeste. E essa seria (há quem diga) a causa de sua viagem. Felagund, porém, permaneceu com eles e lhes ensinou o verdadeiro conhecimento. Eles o amaram e o aceitaram como senhor, sendo para sempre leais à Casa de Finarfin.
Ora, os eldar superavam todos os outros povos na habilidade com idiomas; e Felagund descobriu também que conseguia ler na mente dos homens aqueles pensamentos que eles desejavam revelar na fala, de modo que suas palavras eram interpretadas com facilidade. Disse também que esses homens lidavam havia muito com os elfos-escuros a leste das montanhas e com eles aprenderam grande parte de sua fala. E, como todas as línguas dos quendi tinham uma única origem, a língua de Bëor e seu povo lembrava o idioma élfico em muitas palavras e construções. Não demorou, portanto, para Felagund conseguir conversar com Bëor; e, enquanto ali permaneceu, os dois muito falaram um com o outro. No entanto, quando questionado a respeito do surgimento dos homens e suas vagens, Bëor dizia muito pouco. E na realidade pouco sabia, pois os ancestrais de seu povo contavam poucas histórias do passado, e um silêncio se abatera sobre a memória deles.
— Atrás de nós, ficam as trevas — dizia Bëor — e nós lhes demos as costas. Não desejamos voltar para lá, nem mesmo em pensamento. Nossos corações estão voltados para o oeste, e acreditamos que encontraremos a Luz.
Entretanto, dizia-se depois entre os eldar que, quando os homens despertaram em Hildórien, ao nascer do Sol, os espiões de Morgoth estavam alertas e logo lhe levaram a notícia. E essa questão lhe pareceu tão importante, que, em segredo e oculto pelas sombras, ele próprio saiu de Angband e penetrou na Terra Média, deixando o comando da guerra nas mãos de Sauron. De seus contatos com os homens, os eldar de fato nada sabiam na época, e descobriram pouca coisa mais tarde. Mas percebiam com clareza que (como a sombra do Fratricídio e da Condenação de Mandos se abatia sobre os noldor) uma escuridão encobria os corações dos homens, mesmo no povo de amigos-dos-elfos que conheceram primeiro. Corromper ou destruir tudo o que surgisse de novo e belo sempre fora o principal desejo de Morgoth; e, sem dúvida, também era esse seu objetivo nessa viagem: usando o medo e as mentiras, tomar os homens inimigos dos eldar, e instigá-los a deixar o leste para entrar em Beleriand. Esse plano era, porém, de lenta maturação e nunca foi plenamente realizado; pois os homens (ao que se diz) eram de início muito poucos, e Morgoth, temendo a união e o poder crescente dos eldar, retornou para Angband, deixando atrás de si, na época, nada mais do que alguns servos, e esses dos menos astutos e poderosos.
Ora, Felagund soube por Bëor que havia muitos outros homens de pensamento semelhante que também estavam viajando para o oeste.
— Outros da minha própria gente cruzaram as Montanhas e vêm perambulando não muito longe daqui; e os haladin, um povo do qual estamos isolados pela fala, ainda estão nos vales nas encostas orientais, esperando notícias antes de decidir avançar. Existem ainda outros homens, cujo idioma é mais parecido com o nosso, com quem lidamos às vezes. Estavam à nossa frente na marcha para o oeste, mas nós os ultrapassamos, pois são um povo numeroso, que mesmo assim se mantém unido e se movimenta com vagar, sendo todos eles governados por um líder que chamam de Marach.
Ora, os elfos-verdes de Ossiriand ficaram perturbados com a chegada dos homens, e, quando souberam que um senhor dos eldar, do outro lado do Mar, estava entre eles, enviaram mensageiros a Felagund.
— Senhor — diziam —, se tens poder sobre esses recém-chegados, faze com que voltem por onde vieram, ou que continuem seu caminho. Pois, nesta terra não desejamos que desconhecidos destruam a paz em que vivemos. E esse povo derruba árvores e caça animais. Portanto, não somos seus amigos. E, se não quiserem partir, nós os atormentaremos de todas as formas possíveis.
Seguindo, então, o conselho de Felagund, Bëor reuniu todas as famílias e parentes nômades de seu povo para que se mudassem para o outro lado do Gelion e fixassem residência nas terras de Amrod e Amras, junto às margens orientais do Celon, ao sul de Nan Elmoth, perto das fronteiras de Doriath. E o nome dessa terra daí em diante foi Estolad, o Acampamento. Com tudo, quando, passado um ano, Felagund quis voltar para sua própria terra, Bëor lhe implorou permissão para acompanhá-la. E permaneceu a serviço do Rei de Nargothrond enquanto durou sua vida Foi assim que ele recebeu seu nome, Bëor, pois antes seu nome era Balan. Bëor significava “vassalo” no idioma de seu povo. O comando do povo ele entregou a Baran, seu primogênito; e nunca mais voltou a Estolad.
Logo após a partida de Felagund, os outros homens de quem Bëor falara também chegaram a Beleriand. Os primeiros foram os haladin; mas, deparando com a antipatia dos elfos-verdes, eles se voltaram para o norte e foram morar em Thargelion, na região de Caranthir, filho de Fëanor. Ali, por algum tempo, tiveram paz; e a gente de Caranthir prestava pouca atenção a eles. No ano seguinte, Marach conduziu seu povo através das montanhas. Era uma gente alta, belicosa, que marchava em companhias organizadas. E os elfos de Ossiriand se esconderam e não armaram emboscadas para eles. Marach, porém, tendo sabido que o povo de Bëor habitava uma terra verde e fértil, desceu pela Estrada dos Anões e se instalou na região a sul e leste das moradas de Baran, filho de Bëor; e houve grande amizade entre esses povos.
O próprio Felagund voltava com frequência para visitar os homens. E muitos outros elfos das terras acidentais, tanto noldor quanto sindar, viajavam até Estolad, na ânsia de ver os edain, cuja vinda tinha sido prevista havia muito. Ora, atani, o Segundo Povo, era o nome dado aos homens em Valinor na tradição que falava da sua chegada. Já na fala de Beleriand, esse nome passou a ser edain, e ali era usado apenas em referência às três famílias de amigos-dos-elfos.
Fingolfin, como Rei de todos os noldor, enviou-lhes mensagens de boas-vindas; e então muitos rapazes dispostos dos edain partiram para prestar serviços aos reis e senhores dos eldar. Entre eles estava Malach, filho de Marach, que morara em Hithlum catorze anos. Ele aprendera a língua élfica e recebera o nome de Aradan.
Os edain não permaneceram muito tempo em Estolad, pois muitos ainda desejavam ir para o oeste; só não sabiam o caminho. À sua frente, estavam as bordas de Doriath, e ao sul estava o Sirion e seus pântanos intransponíveis. Por isso, os reis das três Casas dos noldor, vendo esperança de força nos filhos dos homens, mandaram avisar que quaisquer edain que assim desejassem, poderiam se mudar e vir residir em meio a seu povo. Começou assim a migração dos edain. De início, aos poucos, mas mais tarde em famílias e clãs, eles levantaram acampamento e deixaram Estolad, até que, após cerca de cinquenta anos, muitos milhares haviam passado para as terras dos Reis. A maioria deles seguiu pela longa estrada para o norte, até os caminhos se tornarem bem conhecidos. O povo de Bëor veio a Dorthonion e habitou terras governadas pela Casa de Finarfin. O povo de Aradan (pois Marach, seu pai, permaneceu em Estolad até sua morte) em sua grande maioria prosseguiu para o ocidente; e alguns chegaram a Hithlum, mas Magor, filho de Aradan, e boa parte do povo desceram o Sirion e entraram em Beleriand, morando algum tempo nos vales das encostas meridionais das Ered Wethrin.
Diz-se que em todas essas questões, ninguém, a não ser Finrod Felagund, procurou o conselho do Rei Thingol, que não ficou satisfeito, tanto por esse motivo, quanto por ter sido perturbado por sonhos relacionados à chegada dos homens muito antes de se ouvirem as primeiras notícias deles. Por conseguinte, ele ordenou que os homens não se apropriassem de nenhuma terra para habitar, à exceção do norte, e que os príncipes a quem serviam se responsabilizassem pelo que eles fizessem.
— Em Doriath. Nenhum homem entrará enquanto durar meu reinado, nem mesmo os da Casa de Bëor, que serve a Finrod, o Amado — disse Thingol. Naquela ocasião, nada lhe disse Melian, mas depois ela falou com Galadriel.
— Agora o mundo corre veloz na direção de grandes notícias E um dos homens, exatamente da Casa de Bëor, de fato virá; e o Cinturão de Melian não o impedirá, pois um destino maior do que meu poder o estará enviando. E os versos que brotarão dessa vinda persistirão quando toda a Terra Média estiver mudada.
Entretanto, muitos homens permaneceram em Estolad; e ainda morava lá muitos anos depois um povo de origens diversas, até que na destruição de Beleriand eles foram derrotados ou fugiram de volta para o leste. Pois, além dos velhos que consideravam encerrados seus dias de nômades, não eram poucos os que desejavam seguir por conta própria e temiam os eldar, bem como a luz nos seus olhos. Surgiram então discórdias entre os edain, discórdias nas quais a sombra de Morgoth poderia ser detectada, pois é certo que ele sabia da vinda dos homens para Beleriand e de sua crescente amizade com os elfos. Os líderes da insatisfação eram Bereg, da Casa de Bëor, e Amlach, um dos netos de Marach.
— Enfrentamos longos caminhos — diziam eles, abertamente — desejando escapar aos perigos da Terra Média e dos seres sinistros que ali habitam; pois ouvimos dizer que havia Luz no oeste Mas agora descobrimos que a Luz fica do outro lado do Mar. Não podemos ir para lá, onde moram em bem-aventurança os Deuses, com exceção de um, pois o Senhor da Escuridão está aqui diante de nós; assim como os eldar, sábios porém cruéis, que lhe fazem guerra sem cessar.
No norte, vive ele, dizem os eldar. E lá estão a dor e a morte das quais fugimos. Não iremos nessa direção.
Foram então convocados um conselho e uma assembleia dos homens, que se reuniram em grande quantidade. E os amigos-dos-elfos responderam a Bereg.
— Sem dúvida, é do Rei das Trevas que vêm todos os males dos quais fugimos; mas ele pretende dominar toda a Terra Média, e para onde poderemos nos voltar sem que ele nos persiga? A menos que seja derrotado aqui, ou pelo menos mantido sob cerco. A única coisa que o restringe é a coragem dos eldar; e talvez tenha sido com esse objetivo, o de auxiliá-los na necessidade, que fomos trazidos para esta terra.
— Que os eldar cuidem disso! — respondeu Bereg. — Nossas vidas já são breves o suficiente.
Levantou-se então alguém que a todos pareceu ser Amlach, filho de Imlach, proferindo palavras cruas que abalaram o coração de todos os que o ouviram.
— Tudo isso são histórias dos elfos, contos para enganar recém-chegados incautos. O Mar não tem fim. Não há Luz nenhuma no oeste. Vocês vieram atrás de um fogo-fátuo dos elfos até o fim do mundo! Quem de vocês viu o menor dos Deuses? Quem contemplou o Senhor do Escuro no norte? São os eldar que procuram dominar a Terra Média. Em sua ganância por riquezas, eles cavaram a terra em busca de seus segredos e despertaram a ira dos seres que moram abaixo dela, como sempre fizeram e sempre farão. Que os orcs fiquem com o reino que é deles, e nós com o nosso. Existe espaço no mundo, desde que os eldar nos deixem em paz! Aqueles que estavam escutando ficaram então por algum tempo assustados, e uma sombra de medo se abateu sobre seus corações. E resolveram partir das terras dos eldar. Mais tarde, no entanto, Amlach voltou a estar entre eles e negou ter estado presente no debate ou ter pronunciado as palavras que eles relatavam. Surgiram, então, a dúvida e a perplexidade entre os homens.
— Vocês agora acreditarão pelo menos nisso — disseram os amigos-dos-elfos — que de fato existe um Senhor do Escuro e que seus espiões e emissários estão entre nós; pois ele nos teme e teme a força que podemos dar a seus inimigos.
— Ele nos odeia, isso sim — responderam ainda alguns — e seu ódio vai crescer quanto mais aqui permanecermos, intrometendo-nos em sua disputa com os Reis dos eldar, sem nenhuma vantagem para nós.
Assim, muitos dos que ainda se encontravam em Estolad se prepararam para ir embora; e Bereg conduziu mil indivíduos do povo de Bëor na direção sul, e eles desapareceram dos relatos daqueles tempos.
— Agora tenho uma disputa só minha — disse Amlach, arrependido — com esse Mestre das Mentiras, e essa briga durará até o fim de meus dias. — Dirigiu-se então para o norte e foi prestar serviços a Maedhros. Já aqueles do seu povo que tinham opinião semelhante à de Bereg escolheram um novo líder, refizeram o caminho através das montanhas, voltando a Eriador, e foram esquecidos.
Nessa época, os haladin permaneceram em Thargelion, contentes. Morgoth, porém, ao ver que por meio de mentiras e trapaças não conseguia afastar totalmente elfos e homens, encheu-se de ira e procurou causar aos homens os maiores males possíveis. Enviou, portanto, um ataque de orcs. Passando pelo leste, eles burlaram o cerco e chegaram sorrateiros através das Ered Lindon pelas passagens da Estrach dos Anões, abatendo-se sobre os haiadin nos bosques meridionais da terra de Caranthir.
Ora, os haladin não viviam sob o comando de senhores, nem em grandes aglomerados; mas cada propriedade era isolada e decidia suas próprias questões. Eram um povo lento para se unir.
Havia, porém, entre eles um homem chamado Haldad, que era autoritário e destemido. Ele reuniu todos os homens corajosos que conseguiu encontrar e recuou para o território entre o Ascar e o Geúon. Ali, no canto mais remoto, construiu uma paliçada de um rio ao outro. Para trás dela foram levadas todas as mulheres e crianças que conseguiram salvar. Ali foram sitiados, até seus alimentos terminarem.
Haldad tinha dois gêmeos: Haleth, a filha, e Haldar, o filho. E os dois foram valentes na defesa, pois Haleth era mulher de grande coração e força. No final, porém, Haldad foi morto numa investida contra os orcs; e Haldar, que se apressou a salvar o corpo do pai da carnificina, foi abatido a seu lado. Haleth, então, manteve seu povo unido, embora eles estivessem sem esperanças; e alguns se jogaram nos rios e morreram afagados. Entretanto, sete dias depois, quando os orcs faziam sua última investida e já haviam atravessado a paliçada, ouviu-se de repente o som de clarins, e Caranthir com seu exército desceu do norte e empurrou os orcs para dentro dos rios.
Caranthir então encarou os homens com simpatia e prestou grandes homenagens a Haleth.
Ofereceu-lhe compensações pela morte do pai e do irmão. E vendo, tarde demais, a bravura que havia nos edain, fez-lhe uma oferta.
— Se você quiser morar mais ao norte, terá lá a amizade e a proteção dos eldar, e territórios livres somente seus. Haleth, porém, era orgulhosa e não propensa a. Ser orientada ou governada; e a maioria dos haladin era de disposição semelhante. Agradeceu, portanto, a Caranthir mas respondeu: — Tenho agora a firme intenção, senhor, de abandonar a sombra das montanhas e ir para o oeste, para onde outros da nossa gente já foram.
Assim, quando reuniram todos os que encontraram vivos daqueles que haviam fugido enlouquecidos para os bosques com o ataque dos orcs e recolheram o que restava dos pertences em suas casas incendiadas, os haladin tornaram Haleth como chefe. E ela os conduziu afinal a Estolad, onde permaneceram algum tempo.
Continuaram, porém, um povo à parte, e ficaram para sempre conhecidos entre elfos e homens como o povo de Haleth. Haleth foi sua chefe enquanto viveu, mas não se casou, e depois dela a chefia passou para Haldan, filho de Haldar, seu irmão. No entanto, logo Haleth desejou se transferir mais para o ocidente. E, embora a maior parte de seu povo fosse contrária a essa decisão, ela os conduziu ainda uma vez. Seguiram, assim, sem ajuda ou orientação dos eldar; e, atravessando o Celon e o Aros, entraram na região perigosa entre as Montanhas do Terror e o Cinturão de Melian. Naquela época, esse território não era ainda tão nefasto quanto se tornou mais tarde, mas não era uma estrada pela qual homens mortais pudessem seguir sem auxílio. E Haleth só conseguiu completar o percurso com muita dificuldade e perda, forçando seu povo a avançar apenas pela força da vontade dela. Afinal atravessaram o Vau de Brithiach, e muitos se arrependeram amargamente da jornada; mas agora não havia mais retomo. Assim, em novas terras, eles voltaram a levar a vida de antes, na medida do possível. Moravam em propriedades livres nos bosques de Talath Dimen do outro lado do Teiglin; enquanto alguns se desgarraram, embrenhando-se bastante no reino de Nargothrond. Eram, entretanto, muitos os que amavam a Senhora Haleth, que desejavam ir aonde ela fosse e permanecer sob seu comando. E esses ela levou para a Floresta de Brethil, entre o Teiglin e o Sirion. Para lá, nos dias funestos que se seguiram, acorreram muitos de seu povo disperso.
Ora, Brethil era considerada pelo Rei Thingol parte de seus domínios, muito embora estivesse fora do Cinturão de Melian, e Thingol teria negado essa área a Haleth. Felagund, porém, que gozava da amizade de Thingol, tendo sabido de tudo o que acontecera ao povo de Haleth, obteve para ela esse beneficio: de morar livremente em Brethil, com a condição única de seu povo guardar as Travessias do Teiglin contra todos os inimigos dos eldar e não permitir que nenhum arc entrasse nos bosques. A essa condição, Haleth deu uma resposta.
— Onde estão Haldad, meu pai, e Haldar, meu irmão? Se o Rei de Doriath teme uma amizade entre Haleth e aqueles que devoraram sua família, o modo de pensar dos eldar é incompreensível para os homens.
E morou Haleth em Brethil até sua morte. E seu povo ergueu sobre ela um túmulo com a forma de uma colina verdejante na parte mais alta da floresta, Tûr Haretha, a Colina da Senhora, Haudh-en-Arwen no idioma sindarin.
Foi assim que aconteceu de os edain habitarem as terras dos eldar, alguns aqui, outros acolá, uns nômades, outros fixos, em clãs ou pequenos grupos. E a maior parte deles logo aprendeu o idioma dos elfos-cinzentos, tanto como língua comum quanto porque muitos desejavam conhecer as tradições dos elfos.
Depois de algum tempo, contudo, vendo que não era conveniente a mistura desordenada da vida em comum de elfos e homens, e percebendo que os homens precisavam de senhores de sua própria gente, os Reis élficos designaram regiões separadas nas quais os homens poderiam levar a vida e indicaram chefes para governar essas terras livremente. Os homens eram aliados dos eldar na guerra, mas marchavam sob o comando de seus próprios líderes Entretanto, muitos dos edain se compraziam com a amizade dos elfos e permaneciam entre eles tanto tempo quanto lhes fosse permitido. E os rapazes costumavam prestar serviço por um período nos exércitos dos reis.
Ora, Hador Lórindol, filho de Hathol, filho de Magor, filho de Malach Arachn, entrou para a Casa de Fingolfin na juventude e era amado pelo Rei. Fingolfin, por isso, concedeu-lhe o domínio sobre Dor-lómin; e naquele território Hador reuniu a maioria das pessoas do seu clã e se tomou o mais poderoso dos chefes dos edain. Em sua casa, somente se falava o idioma élfico; mas sua própria língua não fora esquecida, e dela derivou o idioma geral de Númenor.
Em Dorthonion, porém, o comando do povo de Bëor e da região de Ladros foi dado a Boromir, filho de Boron, que era neto de Bëor, o Velho.
Os filhos de Hador foram Galdor e Gundor; e os filhos de Galdor foram Húrin e Huor. O filho de Húrin foi Túrin, a Perdição de Glaurung; e o filho de Huor foi Tuor, pai de Eärendil, o Abençoado. O filho de Boromir foi Bregor, cujos filhos foram Bregolas e Barahir; e os filhos de Bregolas foram Baragund e Belegund. A filha de Baragund foi Morwen, mãe de Túrin; e a filha de Belegund foi Rían, mãe de Tuor. Já o filho de Barahir foi Beren Maneta, que conquistou o amor de Lúthien, filha de Thingol, e voltou dos Mortos. Deles nasceu Elwing, mulher de Eärendil, e todos os Reis de Númenor mais tarde.
Todos esses foram enredados na teia da Condenação dos noldor; e realizaram grandes feitos que os eldar ainda relembram entre as histórias dos Reis de outrora. E naquela época a força dos homens se somava ao poder dos noldor, e eram grandes suas esperanças. E Morgoth estava severamente cercado, pois o povo de Hador, resistente para aguentar o frio e longos períodos de nomadismo, não temia fazer longas incursões eventuais ao norte e lá montar guarda para vigiar os movimentos do Inimigo. Os homens das Três Casas cresceram e se multiplicaram, mas a maior delas foi à Casa de Hador Cabeça-dourada, par dos Senhores élficos. Seu povo tinha grande força e estatura, era alerta no raciocínio, corajoso e leal, rápido na irritação e no riso, poderoso entre os Filhos de Ilúvatar na juventude da Humanidade. Louros eram eles em sua maioria, e de olhos azuis; mas Túrin, cuja mãe era Morwen, da Casa de Bëor, não era assim. Os homens daquela casa tinham cabelos escuros ou castanhos, e olhos cinzentos. E de todos eram os mais parecidos com os noldor e os mais amados por eles; pois eram sérios, habilidosos, céleres na compreensão e de longa memória; e ainda levados com mais facilidade à compaixão do que ao riso. Semelhante a eles era o povo da floresta de Haleth, mas esses tinham menor estatura e menor curiosidade pelas tradições. Usavam poucas palavras e não apreciavam grandes ajuntamentos humanos. Muitos dentre eles apreciavam a solidão e perambulavam livremente pelos bosques, enquanto o espanto com as terras dos eldar ainda lhes era recente.
No entanto, nos reinos do oeste, sua passagem foi curta e seus dias, infelizes.
Os anos de vida dos edain foram prolongados, de acordo com o cálculo dos homens, depois de sua chegada a Beleriand; mas, no final, Bëor, o Velho, faleceu quando já tinha vivido noventa e três anos, quarenta e quatro dos quais a serviço do Rei Felagund. E, quando jazia morto, sem nenhum ferimento ou mágoa, mas abatido pela idade, os eldar viram pela primeira vez o rápido ocaso da vida dos homens e a morte por cansaço que eles mesmos não conheciam. E lamentaram muito a perda de seus amigos. Bëor, entretanto, entregara a vida de bom grado e fize-ra a passagem em paz. E os eldar muito se admiraram com o estranho destino dos homens, pois em toda a sua tradição de conhecimento não havia nenhuma menção a ele, e seu fim lhes era desconhecido.
Mesmo assim, os edain de outrora aprenderam rapidamente com os eldar toda arte e todo conhecimento que puderam absorver, e seus filhos desenvolveram sabedoria e perícia, até suplantar de longe todos os outros seres humanos que ainda permaneciam a leste das montanhas e não haviam visto os eldar, nem contemplado os rostos que conheceram a Luz de Valinor.

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