17 de abril de 2016

Capítulo XVI: De Maeglin

Aredhel Ar-Feiniel, a Dama Branca dos noldor, filha de Fingolfin, morava em Nevrast com Turgon, seu irmão, e foi com ele para o Reino Oculto. Cansou-se, porém, da cidade protegida de Gondolin, desejando cada vez mais voltar a cavalgar em território aberto e caminhar nas florestas, como costumava fazer em Valinor. E, quando se passaram duzentos anos desde que Gondolin ficara pronta, Aredhel dirigiu-se a Turgon e pediu permissão para partir. Turgon abominava a ideia de conceder essa permissão e por muito tempo se negou a dá-la. Acabou, porém, cedendo.
— Vá então, se quiser, embora seja contra a minha recomendação. Prevejo que disso virão desgraças tanto para você quanto para mim. Mas vá apenas procurar Fingon, nosso irmão. E os que eu mandar com você deverão voltar para Gondolin o mais rápido possível.
— Sou sua irmã, não sua criada — respondeu-lhe então Aredhel. — E, fora de seu território, farei o que me parecer conveniente. E, se é a contragosto que você me fornece uma escolta, irei sozinha.
— Não lhe dou a contragosto nada do que tenho. Mesmo assim, meu desejo é que ninguém que saiba o caminho até aqui venha a morar fora destas muralhas. E, embora eu confie em você, irmã, confio menos em que outros saibam se manter calados — respondeu Turgon.
E designou três senhores de sua Casa para cavalgar com Aredhel, pedindo-lhes que a levassem a Fingon em Hithlum, se pudessem convencê-la.
— E tenham cuidado — disse ele — pois, embora Morgoth ainda esteja cercado no norte, há muitos perigos na Terra Média, que a Dama desconhece.
Aredhel partiu então de Gondolin; e o coração de Turgon se afligiu com a separação. Mas quando chegaram ao Vau de Brithiach, no Rio Sirion, Aredhel dirigiu-se aos acompanhantes.
— Vamos agora para o sul, não para o norte, pois não quero ir até Hithlum; Meu coração deseja, sim, encontrar os filhos de Fëanor, meus amigos de outrora. — E, como não conseguissem dissuadi-la, viraram para o sul, em obediência a ela, e procuraram ser admitidos em Doriath.
Contudo, os guardas da fronteira lhes negaram acesso. Pois Thingol não admitia que nenhum noldor cruzasse o Cinturão, à exceção de seus parentes da Casa de Finarfin, e menos ainda os que fossem amigos dos filhos de Fëanor. Portanto, os guardas da fronteira falaram com Aredhel.
— Para chegar às terras de Celegorm que a senhora procura, de modo algum é permitido passar pelo território do Rei Thingol. Deverão seguir por fora do Cinturão de Melian, ao sul ou ao norte. O caminho mais rápido é pelas trilhas que vão para o leste a partir de Brithiach, através de Dimbar, e ao longo da fronteira norte desse reino, até passar pela Ponte do Esgalduin e pelos Vaus do Aros, chegando às terras que ficam por trás da Colina de Himring. Acreditamos que é ali que residem Celegorm e Curufin; e pode ser que os encontrem; mas a estrada é perigosa.
Aredhel então deu meia-volta e tentou a estrada perigosa entre os vales mal-assombrados das Ered Gorgoroth e as bordas setentrionais de Doriath. E, à medida que se aproximavam da região nefasta de Nan Dungortheb, os cavaleiros se enredaram em sombras; e Aredhel se afastou da escolta e se perdeu. Muito procuraram por ela, em vão, temendo que tivesse caído em alguma armadilha ou bebido dos riachos envenenados da região; mas as criaturas cruéis de Ungoliant, que moravam nas ravinas, despertaram para persegui-los, e eles mal conseguiram escapar com vida. Quando afinal voltaram e relataram sua história, houve enorme tristeza em Gondolin. E Turgon ficou muito tempo sozinho, suportando em silêncio a dor e a raiva. Aredhel, porém, tendo procurado em vão seus acompanhantes, seguiu viagem, pois era destemida e valente, como todos os descendentes de Finwë. Manteve-se no caminho e, tendo atravessado o Esgalduin e o Aros, chegou à terra de Himlad, entre o Aros e o Celon, onde Celegorm e Curufin moravam na época, antes de ser rompido o Cerco a Angband. Na ocasião, eles não estavam em casa, pois cavalgavam com Caranthir mais a leste em Thargelion; mas a gente de Celegonn deu-lhe as boas-vindas e pediu que ela ficasse com eles, com honras, até o retorno de seu senhor. Ali, por algum tempo, Aredhel se contentou; e sentiu enorme alegria em perambular em liberdade pelos bosques. No entanto, à medida que o ano ia se alongando e Celegorm não retornava, ela voltou a se sentir inquieta e se habituou a cavalgar sozinha, cada vez mais longe, à procura de novas trilhas e veredas inexploradas. Foi assim que no final do ano aconteceu de Aredhel chegar ao sul de Himlad e atravessar o Celon; e, antes que se desse conta, estava perdida em Nan Elmoth.
Naquele bosque, em eras passadas, Melian caminhara no crepúsculo da Terra Média, quando as árvores eram novas e um encantamento ainda pairava sobre ele. Agora, porém, as árvores de Nan Elmoth eram as mais altas e escuras de toda a Beleriand; e ali o sol nunca penetrava. Ali residia Eöl, que era chamado de elfo-escuro. Outrora, ele pertencera à linhagem de Thingol, mas em Doriath se sentia irrequieto e pouco à vontade; e, quando o Cinturão de Melian circundou a Floresta de Region, onde ele morava, ele fugiu para Nan Elmoth, onde passou a viver nas sombras profundas, apaixonado pela noite e pela penumbra sob as estrelas. Eöl evitava os noldor, considerando-os culpados por Morgoth ter voltado a perturbar a tranquilidade de Beleriand; mas dos anões ele gostava mais do que qualquer outro elfo de outrora. Com ele, os anões vieram a saber muito do que se passava nas terras dos eldar.
Ora, o trajeto dos anões ao descerem das Montanhas Azuis seguia duas estradas que atravessavam Beleriand Oriental, e a trilha do norte, que se dirigia aos Vaus do Aros, passava perto de Nan Elmoth. Ali Eöl se encontrava com os naugrim e conversava com eles. E, à medida que sua amizade se fortaleceu, ele às vezes se hospedava nas profundas mansões de Nogrod ou de Belegost. Lá aprendeu muito sobre o trabalho com metais e adquiriu grande habilidade nessa atividade. Criou um metal tão resistente quanto o aço dos anões, mas tão maleável que era possível fazê-la fino e flexível, embora continuasse resistente a qualquer lâmina ou dardo. Deulhe o nome de galvorn, pois era negro e brilhante como o azeviche, e Eöl se vestia com ele sempre que saía de Nan Elmoth. Contudo, Eöl, apesar de encurvado em virtude do trabalho de ferreiro, não era nenhum anão, mas um elfo alto, de importante linhagem dos teleri, nobre, embora de expressão carrancuda; e seus olhos viam longe nas sombras e nos cantos escuros. E ocorreu que ele enxergou Aredhel Ar-Feiniel enquanto ela vagava por entre as árvores altas perto dos limites de Nan Elmoth, um brilho branco na terra sombria. Belíssima ela lhe pareceu, e ele a desejou. Lançou, então, seus encantamentos sobre ela para que não conseguisse encontrar saída, mas que se aproximasse cada vez mais de sua morada nas profundezas do bosque. Ali ficavam sua oficina de ferreiro, seus salões sombrios e os criados que possuía, silenciosos e reservados como seu senhor. E, quando Aredhel, exausta de caminhar, chegou finalmente às suas portas, ele se revelou, acolheu-a e a conduziu para dentro de sua casa. E ali ela ficou, pois Eöl a tomou como esposa, e demorou muito até que algum parente de Aredhel voltasse a ter notícias dela.
Não se diz que Aredhel se opusesse totalmente a isso, nem que sua vida em Nan Elmoth lhe fosse detestável por muitos anos. Pois, embora em obediência à ordem de Eöl ela devesse evitar a luz do sol, os dois davam longos passeios juntos à luz das estrelas ou da foice da lua.
Ela podia passear sozinha se quisesse, só que Eöl a proibira de procurar os filhos de Fëanor ou qualquer outro noldo. E Aredhel teve um filho seu, nas sombras de Nan Elmoth. No íntimo, ela lhe deu um nome na língua proibida dos noldor, Lómion, que significa Filho do Crepúsculo.
Já o pai não lhe deu nome algum até ele completar doze anos. Chamou-o então de Maeglin, que significa Olhar Penetrante, pois percebia que os olhos do filho iam ainda mais fundo que os seus, e que seu pensamento lia os segredos dos corações que se escondiam por trás da névoa das palavras.
Quando Maeglin atingiu sua plena estatura, em rosto e forma lembrava seus parentes dos noldor, mas em temperamento e raciocínio havia saído ao pai. Falava pouco, a não ser em questões que o interessassem de perto. Além disso, sua voz tinha o poder de comover os que o ouviam e de derrubar os que resistissem a ele. Era alto e tinha cabelos negros; os olhos eram escuros, porém brilhantes e perspicazes, como os olhos dos noldor; e sua pele era branca. Com frequência, acompanhava Eöl às cidades dos anões a leste das Ered Lindon, e lá aprendia com prazer o que se dispusessem a lhe ensinar, e acima de tudo a arte de encontrar minérios de metais nas montanhas.
Diz-se, porém, que Maeglin amava mais a mãe e, se Eöl estivesse viajando, costumava se sentar muito tempo ao seu lado e escutar tudo o que ela pudesse lhe contar de seu povo e de seus feitos em Eldamar, assim como do poder e valor dos príncipes da Casa de Fingolfin. A tudo isso ele dedicava enorme atenção, mas principalmente ao que ouvia sobre Turgon e sobre ele não ter nenhum herdeiro. Pois Elenwë, sua mulher, perecera na travessia de Helcaraxë, e Idril Celebrindal era sua única filha.
O relato dessas histórias despertou em Aredhel o desejo de rever sua gente, e agora ela se espantava com o tédio que sentira da luz de Gondolin, das fontes ao sol, dos verdes gramados de Tumladen ao vento dos céus da primavera. Além disso, muitas vezes ficava sozinha nas sombras, quando o filho e o marido viajavam. Essas histórias também deram origem às primeiras desavenças entre Maeglin e Eöl. Pois, de modo algum quis a mãe revelar a Maeglin onde residia Turgon, nem de que modo se poderia chegar lá. E o filho dava tempo ao tempo, com a certeza de que um dia extrairia dela o segredo, ou talvez conseguisse ler seu pensamento desarmado. Mas antes de fazer isso, desejava observar os noldor e falar com os filhos de Fëanor, seu parente, que não moravam longe dali. Quando declarou sua intenção a Eöl, porém, o pai se enfureceu.
— Você pertence à Casa de Eöl, Maeglin, meu filho, não à dos golodhrim. Toda esta terra pertence aos teleri, e eu não lidarei, nem permitirei que meu filho o faça, com os assassinos de nossa gente, os invasores e usurpadores de nossos lares. Nisso você me obedecerá ou eu o acorrentarei. — E Maeglin não respondeu, mas calou-se com frieza e nunca mais saiu com Eöl.
E Eöl não confiava nele.
Ocorreu que, no solstício de verão, como era seu costume, os anões convidaram Eöl para uma festa em Nogrod; e ele foi. Então Maeglin e a mãe ficaram livres por algum tempo para fazer o que quisessem; e, com frequência, cavalgavam até as bordas da floresta, em busca do Sol. E cresceu no coração de Maeglin o desejo de deixar Nan Elmoth para sempre.
— Senhora — disse ele a Aredhel. — Vamos partir enquanto temos tempo! Que esperança existe neste bosque para a senhora ou para mim? Estamos aqui num cativeiro, e nenhuma vantagem irei eu aqui encontrar. Pois já aprendi tudo o que meu pai tinha a ensinar ou que os naugrim quiseram me revelar. E se fôssemos procurar Gondolin? A senhora será minha guia; e eu, seu protetor!
Alegrou-se então Aredhel, e olhou com orgulho para o filho. E, dizendo aos criados de Eöl que iam em busca dos Filho de Fëanor, partiram a cavalo pelos limites setentrionais de Nan Elmoth. Ali atravessaram a estreita corrente do Celon, entrando na terra de Himlad; e seguiram até os Vaus do Aros, continuando, assim, para o oeste, ao longo das bordas de Doriath.
Ora, Eöl voltou do leste mais cedo do que Maeglin previra e descobriu que a mulher e o filho haviam partido apenas dois dias antes. Tamanha foi sua ira, que ele seguiu atrás deles mesmo à luz do dia. Ao entrar em Himlad, controlou sua fúria e prosseguiu com cautela, lembrando-se do perigo que corria, pois Celegorm e Curufin eram senhores poderosos que não amavam Eöl nem um pouco; e, além do mais, Curufin tinha temperamento perigoso. Entretanto, os guardas de Aglon observaram a viagem de Maeglin e Aredhel até os Vaus do Aros; e Curufin, percebendo que acontecimentos estranhos estavam em andamento, desceu um pouco ao sul da Passagem e acampou perto dos Vaus.
E, antes de ter percorrido muito terreno em Himlad, Eöl foi cercado pelos cavaleiros de Curufin, sendo levado a seu senhor.
— Que missão traz o elfo-escuro a minha terra? — perguntou, então, Curufin a Eöl. — Questão urgente, talvez, para fazer quem se esconde do Sol sair por aí à luz do dia.
E Eöl, reconhecendo o perigo, refreou as palavras rancorosas que lhe vieram à mente.
— Disseram-me, Senhor Curufin, que meu filho e minha mulher, a Dama Branca de Gondolin, saíram a cavalo para visitá-lo enquanto eu estava fora de casa. Pareceu-me correto juntar-me a eles nessa visita.
Curufin então riu de Eöl.
— Se você lhes tivesse feito companhia, eles poderiam ter encontrado uma acolhida menos calorosa do que .esperavam; mas não importa, porque não era essa sua intenção. Não faz dois dias que atravessaram os Arossiach, partindo velozes para o oeste. Parece-me que você quer me enganar; a menos que você mesmo tenha sido enganado.
— Então, talvez o senhor me conceda permissão de seguir em frente e descobrir a verdade sobre esse assunto.
— Você tem minha permissão, mas não minha amizade — disse Curufin. — Quanto mais cedo deixar minha terra, mais ficarei satisfeito.
— É bom, senhor Curufin — disse Eöl, então, montando em seu cavalo —, encontrar um parente tão generoso quando necessitamos. Não me esquecerei disso quando voltar. Curufin lançou então um olhar sinistro para Eöl.
— Não se vanglorie do título de sua mulher diante de mim. Pois os que roubam as filhas dos noldor e se casam com elas sem doação ou permissão não se tornam parentes dos parentes delas. Concedi-lhe permissão para ir. Aceite-a e vá embora. Pelas leis dos eldar, não posso matá-lo neste momento. E ainda vou lhe dar um conselho: volte agora para sua morada nas trevas de Nan Elmoth; pois meu coração me diz que, se perseguir aqueles que não o amam mais, nunca voltará para lá.
Saiu entào Eöl às pressas, cheio de ódio de todos os noldor, pois agora percebia que Maeglin e Aredhel estavam fugindo para Gondolin E impelido pela raiva e pela vergonha da humilhação, atravessou os Vaus do Aros e cavalgou firme pelo caminho seguido por eles. Contudo, embora os dois não soubessem que ele os seguia, e embora Eöl tivesse a montaria mais veloz, em nenhum momento chegou a avistá-los, até que chegaram a Brithiach e abandonaram seus cavalos. Nesse momento, por falta de sorte, foram traídos, pois os cavalos relincharam alto, e a montaria de Eöl os ouviu e partiu veloz em sua direção. E de longe Eöl viu os trajes brancos de Aredhel, e observou para onde se dirigia, em busca da trilha secreta para entrar nas montanhas.
Ora, Aredhel e Maeglin chegaram ao Portão Exterior de Gondolin e à Guarda Escura sob as montanhas. Ali foi recebida com alegria e, passando pelos Sete Portões, chegou com Maeglin a Turgon sobre o Amon Gwareth. Então o Rei ouviu admirado tudo o que Aredhel tinha a contar; e olhou com simpatia para Maeglin, filho da irmã, vendo que ele era digno de ser incluído entre os príncipes dos noldor.
— Alegra-me de fato que Ar-Feiniel tenha voltado para Gondolin — disse ele. — E agora ainda mais bela será minha cidade do que nos tempos em que considerei minha irmã perdida. E Maeglin terá as mais altas honrarias em meu reino.
Então Maeglin fez uma grande reverência e aceitou Turgon como senhor e rei, para obedecer a todas as suas ordens. Daí em diante, porém, ficou calado e vigilante, pois a felicidade e o esplendor de Gondolin superavam tudo o que ele imaginara a partir das histórias de sua mãe; e estava admirado com a fortificação da cidade e a quantidade de habitantes. E também com os inúmeros objetos estranhos e belos que via. Contudo, nada atraía tanto seu olhar quanto Idril, a filha do Rei, que estava sentada a seu lado. Pois ela era dourada como os vany ar, parentes de sua mãe, e lhe parecia ser como o Sol de onde todo o salão do Rei extraía sua luz.
Eöl, entretanto, ao seguir Aredhel, encontrou o Rio Seco e a trilha secreta. E assim, sorrateiro, chegou à Guarda, sendo apanhado e interrogado. Quando a Guarda ouviu que ele alegava ser Aredhel sua esposa, todos se surpreenderam e enviaram um mensageiro veloz à Cidade, e este veio ao salão do Rei.
— Senhor — gritou ele — a Guarda deteve alguém que se aproximava às escondidas do Portão Escuro. Diz ele chamar-se Eöl, e é um elfo alto, moreno e carrancudo, da linhagem dos sindar.
Ele alega, porém, que a Senhora Aredhel é sua esposa e exige ser trazido à sua presença Sua ira é enorme e é difícil contê-la, mas não o matamos, como exige a lei.
— Que lástima! — disse então Aredhel. — Eöl nos seguiu, exatamente como eu temia. Mas foi com grande esperteza que o fez, pois não vimos nem ouvimos sinal de perseguição quando entramos pelo Caminho Oculto. — Voltou-se então para o mensageiro. — O que ele diz é verdade. É Eöl, eu sou sua esposa, e ele é o pai de meu filho. Não o matem, mas tragam-no aqui para a decisão do Rei, se o Rei assim determinar.
E isso foi feito. Trouxeram Eöl ao salão de Turgon e, diante do trono elevado, o puseram em pé, orgulhoso e mal-encarado. Embora estivesse tão admirado quanto seu filho com tudo o que via, seu coração se encheu ainda mais de raiva e ódio dos noldor. Turgon, porém, tratou-o com cortesia. Levantou-se e lhe ofereceu a mão.
— Bem-vindo seja, irmão, pois assim o considero. Aqui você habitará como lhe aprouver, com a restrição de aqui permanecer e não partir de meu reino. Pois é minha lei que ninguém que encontre o caminho para cá saia daqui.
Eöl, entretanto, recolheu a mão.
— Não reconheço sua lei. Nenhum direito tem o senhor nem ninguém de sua linhagem de conquistar reinos nesta terra ou de fixar fronteiras, seja aqui, seja acolá. Esta terra é dos teleri, à qual vocês trazem a guerra e todo tipo de perturbação, sempre com atitudes injustas e arrogantes. Não ligo a mínima para seus segredos nem vim espioná-la, mas reivindicar o que é meu: minha esposa e meu filho. Contudo, se sobre Aredhel, sua irmã, o senhor crê ter algum direito, ela que fique. Que o pássaro volte para a gaiola da qual logo enjoará, como  enjoou antes. Mas Maeglin, não. Meu filho o senhor não irá separar de mim. Venha, Maeglin, filho de Eöl! É seu pai quem ordena. Deixe a casa dos inimigos de seu pai e dos assassinos de sua gente, ou maldito seja! — Maeglin, porém, nada respondeu.
Sentou-se então Turgon em seu trono elevado, segurando seu cetro de justiça, e falou em tom severo.
— Não discutirei com você, elfo-escuro. Seus bosques sombrios somente são defendidos pelas espadas dos noldor. Sua liberdade de perambular por lá à vontade, você deve à minha gente.
Não fosse por eles há muito você já estaria mourejando na escravidão nas profundezas de Angband. E aqui eu sou Rei Quer você queira, quer não, minha decisão é lei. Só lhe é dada a seguinte escolha: ficar aqui ou morrer aqui. O mesmo vale para seu filho Eöl olhou então nos olhos do Rei Turgon. E não se intimidou, mas ficou ali muito tempo sem nenhuma palavra ou movimento, enquanto um silêncio total caía sobre o salão. E Aredhel teve medo, por saber que ele era perigoso. De repente, com a rapidez de uma serpente, ele apanhou uma azagaia que trazia escondida por baixo do manto e a lançou na direção de Maeglin, com um grito.
— Escolho a segunda opção para mim e também para meu filho! Vocês não ficarão com o que é meu!
Aredhel, porém, saltou diante do dardo, que a atingiu no ombro. E Eöl foi dominado por muitos, acorrentado e levado dali, enquanto outros cuidavam de Aredhel. Maeglin, entretanto, olhava para o pai em silêncio.
Foi determinado que Eöl fosse trazido no dia seguinte para ser julgado pelo Rei. E Aredhel e Idril conseguiram convencer Turgon a ser misericordioso. Ao entardecer, porém, apesar de o ferimento parecer pequeno, Aredhel adoeceu, caiu na escuridão e durante a noite morreu. Pois a ponta da azagaia estava envenenada, embora ninguém soubesse disso até que fosse tarde demais.
Logo, quando Eöl foi levado à presença de Turgon, não obteve misericórdia alguma. E o levaram até o Caragdûr, um precipício de rocha negra no lado norte do monte de Gondolin, para ali jogá-la do alto das muralhas escarpadas da cidade. E Maeglin estava presente sem nada dizer; mas no último instante, Eöl exclamou — Quer dizer que você renuncia a seu pai e a sua gente, filho desnaturado! Aqui você vai perder todas as suas esperanças; e que aqui você um dia morra a mesma morte que eu.
Lançaram então Eöl do alto do Caragdûr, e foi esse seu fim. Para todos em Gondolin, isso pareceu justo, mas Idril se sentiu confusa e, daquele dia em diante, não mais confiou em seu parente. Maeglin, porém, prosperou e adquiriu renome entre os gondolindrim, elogiado por todos e alvo da alta estima de Turgon; pois, se aprendia com disposição e rapidez tudo o que pudesse, também tinha muito a ensinar. E reuniu ao seu redor todos os que tinham maior pendor para a mineração e para o ofício de ferreiro. E explorou as Echoriath (que são as Montanhas Circundantes), lá encontrando ricos veios de diversos metais. O que mais valorizava era o ferro duro da mina de Anghabar no norte das Echoriath, e de lá obteve grande quantidade de metal forjado e de aço, de tal modo que as armas dos gondolindrim se tornaram cada vez mais fortes e mais afiadas. E isso lhes seria bem útil nos dias que viriam. Sábio em seus conselhos era Maeglin, além de cauteloso; e, no entanto, corajoso e valente se necessário.
E isso se comprovou em dias futuros. Pois, quando, no terrível ano das Nimaeth Amoediad, Turgon abriu seu cerco e avançou para ajudar Fingon no norte, Maeglin não quis permanecer em Gondolin como regente do Rei, mas foi para a guerra e lutou ao lado de Turgon, revelando-se cruel e destemido em combate.
Assim, tudo parecia bem com a sorte de Maeglin, que se tornara poderoso entre os príncipes dos noldor, e o segundo maior, no mais renomado dos reinos. Contudo, ele não revelava seu coração. E embora nem tudo saísse como desejava, suportava isso em silêncio, ocultando seus pensamentos, de modo que poucos conseguiam lê-los, a menos que se tratasse de Idril Celebrindal. Pois, desde seus primeiros dias em Gondolin, ele trazia no peito uma dor, cada vez pior, que lhe roubava a alegria. Ele adorava a beleza de Idril e a desejava, sem esperanças. Os eldar não se casavam com parentes tão próximos; nem nunca algum deles tivera esse tipo de desejo. E, fosse como fosse, Idril absolutamente não amava Maeglin. E, ao ficar sabendo como ele pensava nela, passou a amá-lo ainda menos. Pois, a seus olhos, havia algo de estranho e depravado nele, como de fato os eldar desde então sempre consideraram: um fruto nefasto do fratricídio, através do qual a sombra da maldição de Mandos caía sobre a última esperança dos noldor. Porém, com o passar dos anos, Maeglin ainda observava Idril e esperava; e seu amor se transformou em trevas em seu coração. E ele procurava cada vez mais fazer valer sua vontade em outras questões, sem evitar nenhuma faina ou carga, se com aquilo pudesse obter mais poder.
Foi assim em Gondolin; e em meio à bem-aventurança daquele reino, enquanto durou sua glória, fora plantada uma sinistra semente do mal.

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