17 de abril de 2016

Capítulo XV: Dos Noldor em Beleriand

Já se relatou como, com a orientação de Ulmo, Turgon de Nevrast descobriu o vale oculto de Tumladen; e este (como mais tarde se soube) ficava a leste do curso superior do Sirion, num círculo de montanhas altas e escarpadas, aonde não chegava nenhum ser vivo à exceção das águias de Thorondor. Existia, porém, um caminho nas profundezas, por baixo das montanhas, escavado nas trevas do mundo, por águas que fluíam para se juntar à correnteza do Sirion. E esse caminho Turgon descobriu, e chegou assim à verde planície em meio às montanhas, e viu a colina-ilha de pedra dura e lisa que ficava ali; pois o vale havia sido outrora um lago enorme.
Turgon soube, então, que havia encontrado o local de seus desejos, e decidiu construir ali uma bela cidade, um monumento em memória de Tirion sobre Túna. Voltou porém para Nevrast e lá permaneceu sossegado, embora sempre pensando num modo de realizar seu projeto.
Ora, depois da Dagor Aglareb, a inquietação que Ulmo instilara em seu coração lhe voltou, e Turgon convocou muitos dos mais resistentes e mais habilidosos de seu povo, levou-os em segredo para o vale oculto, e ali começaram a construção da cidade que Turgon havia imaginado. Montaram também guarda em toda a sua volta, para que ninguém que viesse de fora pudesse deparar com seu trabalho, e o poder de Ulmo que corria nas águas do Sirion os protegia. Turgon, porém, ainda residia na maior parte do tempo em Nevrast até que afinal a cidade ficou pronta, após cinquenta e dois anos de faina em segredo. Diz-se que Turgon a denominou Ondolindë, na fala dos elfos de Valinor, a Rocha da Música da Água, pois havia nascentes na colina; mas no idioma sindarin o nome foi mudado, tornando-se Gondolin, a Rocha Oculta. Preparou-se então Turgon para partir de Nevrast e abandonar seus palácios em Viny amar à beira-mar. E ali Ulmo mais uma vez veio até ele e lhe falou.
— Agora irás finalmente para Gondolin, Turgon; e manterei meu poder sobre o Vale do Sirion, e sobre todas as águas que existem ali, para que ninguém se dê conta de tua viagem. Ninguém tampouco encontrará a entrada secreta contra a tua vontade. De todos os reinos dos eldalië, Gondolin será o que resistirá mais tempo a Melhor. Não tenhas, porém, amor em excesso pela obra de tuas mãos e pelas invenções de teu coração. Lembra-te que a verdadeira esperança dos noldor está no oeste e vem do Mar.
E Ulmo avisou a Turgon que ele também estava sujeito à Condenação de Mandos, a qual Ulmo não tinha nenhum poder para eliminar.
— Assim, pode acontecer que a maldição dos noldor também te descubra antes do fim, e que a traição surja dentro de tuas muralhas. Então, elas correrão perigo de incêndio. No entanto, se esse perigo chegar muito perto, da própria Nevrast, virá alguém te avisar; e dele, superando a destruição e o fogo, nascerá a esperança para elfos e homens. Deixa. Portanto, nesta casa armas e uma espada para que em anos futuros ele as possa encontrar e, assim, tu o reconheças e não sejas enganado. — E Ulmo determinou a Turgon de que tipo e tamanho deveriam ser o elmo, a cota de malha e a espada que ele ali deixaria.
Retornou Ulmo, então, para o mar, e Turgon despachou todo o seu povo, que chegou a compor um terço dos noldor da combativa de Fingolfin e uma multidão ainda maior dos sindar. E eles desapareceram, uma companhia após a outra, em segredo, sob as sombras elas Ered ethrin, chegando a Gondolin sem serem vistos. E ninguém soube dizer para onde haviam ido. Em último lugar, Turgon se levantou e partiu com sua família em silêncio pelas colinas, entrando pelos portões nas montanhas; e estes se fecharam depois de sua passagem.
Por muitos e muitos anos, dali em diante, ninguém entrou nesse lugar, à exceção de Húrin e Huor. E o povo de Turgon nunca mais voltou a sair até o Ano da Lamentação, mais de trezentos e cinquenta anos depois. Contudo, por trás do círculo das montanhas, o povo de Turgon cresceu e prosperou. E dedicavam seus talentos ao trabalho incessante, de tal modo que Gondolin sobre o Amon Gwareth se tomou realmente bela e digna de ser comparada até mesmo a Tirion élfica, do outro lado do mar. Altas e brancas eram suas muralhas; bem-feitas, suas escadarias; e forte e elevada, a Torre do Rei. Dali, jorravam fontes cintilantes, e nos pátios de Turgon havia imagens das Árvores de outrora que o próprio Turgon criara com sua habilidade de elfo. E a Árvore que ele fez de ouro chamava-se Glingal; e a Árvore cujas flores ele fez de prata chamava-se Belthil. No entanto, mais bela do que todas as maravilhas de Gondolin era Idril, filha de Turgon, que foi chamada de Celebrindal, a Pés-de-prata, cujos cabelos eram como o ouro de Laurelin antes da chegada de Melkor. Assim, Turgon muito tempo viveu em bem-aventurança; mas Nevrast permaneceu desolada, deserta de seres vivos até a destruição de Beleriand.
Ora, enquanto a cidade de Gondolin estava sendo construída em segredo, Finrod Felagund trabalhava nas profundezas de Nargothrond; mas Galadriel, sua irmã, morava, como já foi relatado, no reino de Thingol, em Doriath. E às vezes Melian e Galadriel conversavam sobre Valinor e a felicidade de antigamente. Contudo, além da hora negra da morte das Árvores, Galadriel se recusava a ir, e sempre se calava.
— Há alguma desgraça que paira sobre você e sua gente — disse Melian um dia. — Isso eu posso ver em você, mas tudo o mais permanece oculto. Nem por visão, nem por pensamento, consigo perceber nada do que ocorreu ou ocorre no oeste: uma sombra encobre toda a terra de Aman e se estende para além, por sobre o mar. Por que você não quer me dizer mais?
— Essa desgraça ficou no passado — disse Galadriel. — E eu acabaria com a alegria que aqui nos resta, e não é perturbada pela lembrança. E talvez venha a ocorrer desgraça suficiente no futuro, embora a esperança ainda pareça brilhar.
— Não acredito que os noldor tenham vindo como mensageiros dos Valar, como se dizia de início — disse Melian, olhando nos olhos de Galadriel. — Não acredito, mesmo tendo eles chegado na exata hora de nossa necessidade. Pois eles nunca falam nos Valar, nem seus senhores supremos trouxeram nenhuma mensagem a Thingol, fosse de Manwë, de Ulmo, ou mesmo de Olwë, o irmão do Rei, e de sua própria gente que se pôs ao mar Por que motivo, Galadriel, foi o nobre povo dos noldor expulso de Aman como exilados? Ou que mal jaz no íntimo dos filhos de Fëanor, para que sejam tão arrogantes e cruéis? Não estou chegando perto da verdade?
— Perto — respondeu Galadriel — só que não fomos expulsos, mas viemos por vontade própria, e contra o desejo dos Valar. E correndo enorme perigo e a despeito dos Valar, viemos com este objetivo: nos vingarmos de Morgoth e recuperar o que ele roubou.
Falou, então, Galadriel a Melian a respeito das Silmarils e do assassinato do Rei Finwë em Formenos. Mesmo assim, não disse palavra sobre o Juramento, sobre o fratricídio ou sobre a queima dos barcos em Losgar.
— Agora, muito você me conta, e ainda mais eu percebo — disse Melian, entretanto. — Uma escuridão você desejaria lançar sobre o longo trajeto de Tirion até aqui, mas vejo o mal ali, mal do qual Thingol deveria saber para se orientar.
— Talvez — disse Galadriel — mas não de mim.
E Melian não tocou mais nesses assuntos com Galadriel; mas contou ao Rei Thingol tudo o que ouvira a respeito das Silmarils.
— É uma questão importante — disse ela — na realidade, mais importante do que os próprios noldor conseguem compreender. Pois a Luz de Aman e o destino de Arda estão agora presos a essas gemas, a obra de Fëanor, que já se foi. Elas não serão recuperadas, antecipo, por nenhum poder dos eldar; e o mundo será destruído em batalhas que estão por vir antes que elas sejam arrancadas das mãos de Morgoth. Veja bem! Fëanor eles assassinaram, e muitos outros, suponho. Mas a primeira de todas as mortes que provocaram e que ainda irão provocar foi a de Finwë, seu amigo. Morgoth matou-o antes de fugir de Aman.
Calado então ficou Thingol, dominado pela dor e pelos maus presságios; mas, finalmente, falou.
— Agora, enfim, entendo a vinda dos noldor do oeste, com a qual antes muito me admirei. Não foi em nosso auxílio que vieram ao não ser por acaso; pois os que permanecem na Terra Média os Valar deixam que recorram aos meios ao seu alcance, até na extrema necessidade. Vieram os noldor por vingança e em busca de compensação por sua perda. Mesmo assim, ainda mais fiéis serão eles como aliados contra Morgoth, com quem agora não se pode pensar que algum dia venham a entrar em acordo.
— É verdade que vieram por esses motivos — respondeu, porém, Melian. — Mas também por outros. Cuidado com os filhos de Fëanor! A sombra da ira dos Valar paira sobre eles. E eles agiram mal, percebo eu, tanto em Aman quanto com seu próprio povo. Uma mágoa que está apenas adormecida jaz entre os príncipes dos noldor.
— E que diferença isso me faz? — retrucou Thingol. — De Fëanor, só ouvi a história, que o descreve como realmente destemido. De seus filhos, pouco ouço o que seja do meu agrado.
Contudo, eles podem se revelar os inimigos mais letais de nosso inimigo.
— Suas espadas e seus conselhos sempre terão dois gumes — disse Melian, e daí em diante não mais tocou nesse assunto.
Não demorou muito para que começassem a circular histórias a respeito dos feitos dos noldor anteriores à chegada a Beleriand. Conhecida é sua procedência, e a terrível verdade foi aumentada e envenenada com mentiras; mas os sindar ainda eram incautos e confiantes em palavras; e (como bem se pode imaginar) Morgoth os escolheu para a primeira investida de sua maldade, pois eles não o conheciam. E Círdan, ao ouvir essas histórias sinistras, ficou perturbado. Pois era prudente e percebeu logo que, verdadeiras ou falsas, elas eram espalhadas àquela altura por rancor, que ele atribuía aos príncipes dos noldor, em decorrência da inveja entre suas Casas. Enviou, portanto, mensageiros a Thingol para relatar tudo o que ouvira.
Por acaso, naquela ocasião, os filhos de Finarfin eram mais uma vez hóspedes de Thingol, pois desejavam ver a irmã, Galadriel. Thingol, então, muito alterado, dirigiu-se a Finrod, com raiva.
— Você agiu mal comigo, parente, ao ocultar de mim questões tão importantes. Pois eu agora soube de todos os feitos nefastos dos noldor.
— Que mal lhe fiz, senhor? — perguntou-lhe Finrod — Ou que feito nefasto os noldor perpetraram em seu reino para afligi-lo? Nem contra vossa majestade nem contra nenhum indivíduo de seu povo eles agiram mal ou pretenderam o mal.
— Eu me admiro que você, filho de Eärwen — disse Thingol —, chegue à mesa de parentes com as mãos ensanguentadas da chacina dos parentes de sua mãe; e ainda assim não diga nada para se defender, nem procure pedir perdão!
Finrod então ficou muito atrapalhado, mas silenciou, porque não poderia se defender a não ser fazendo acusações aos outros príncipes dos noldor; e isso ele não queria fazer diante de Thingol. No entanto, no coração de Angrod, a lembrança das palavras de Caranthir voltou a crescer em ressentimento, e ele protestou.
— Senhor, não sei que mentiras lhe contaram, nem sua procedência. Mas nós não chegamos com as mãos ensanguentadas. Viemos sem nenhuma culpa, a não ser talvez a da loucura de dar ouvidos às palavras do cruel Fëanor, e de nos inebriarmos com elas como que com o vinho, efeito que passou com a mesma rapidez. Nenhum mal fizemos em nosso percurso, mas sofremos, sim, enorme violência, e a perdoamos. Por esse motivo, somos chamados de leva-e-traz e de possíveis traidores dos noldor. Uma inverdade, como o senhor sabe, pois em nossa lealdade nos calamos diante do senhor e, assim, atraímos sua ira. Agora, porém, não aceitaremos mais essas acusações, e a verdade o senhor saberá.
Então, Angrod falou com rancor contra os filhos de Fëanor, relatando o Fratricídio de Alqualondë, a Condenação de Mandos e a queima dos barcos em Losgar.
— Por que nós, que suportamos o Gelo Atritante, deveríamos aceitar a pecha de traidores e assassinos de nossos parentes?
— Mas a sombra de Mandos também paira sobre vocês — disse Melian. Thingol, porém, ficou muito tempo em silêncio antes de falar.
— Vão agora! Pois meu coração está revoltado. Mais tarde, podem voltar, se quiserem; pois não fecharei minhas portas para vocês, parentes, que foram enredados num mal para o qual não contribuíram. Com Fingolfin e seu povo também manterei a amizade, pois já pagaram caro pelo mal que fizeram. E em nosso ódio ao Poder que criou toda essa desgraça, nossas mágoas se perderão. Mas ouçam minhas palavras! Nunca mais chegará a meus ouvidos a língua dos que assassinaram meus parentes em Alqualondë! Nem em todo o meu reino ela poderá ser falada abertamente enquanto durar meu poder. Todos os sindar darão ouvidos à minha ordem de que não falem a língua dos noldor nem respondam a ela. E todos os que a usarem, serão considerados assassinos e impenitentes traidores de parentes.
Partiram então de Menegroth os filhos de Finarfin, pesarosos, percebendo que as palavras de Mandos seriam eternamente verdadeiras, e que nenhum dos noldor que acompanhasse Fëanor poderia escapar à sombra que pairava sobre sua Casa. E ocorreu exatamente o que Thingol dissera. Pois os sindar obedeceram à sua palavra e, dali em diante, em toda a Beleriand, eles se recusaram a usar a língua dos noldor e evitaram aqueles que a falavam em voz alta. Já os Exilados adotaram o idioma sindarin em todos os seus usos correntes, e a alta-fala do oeste era usada apenas pelos senhores dos noldor entre si. Ela sobreviveu, porém, para sempre como a língua da tradição, não importa onde morasse qualquer indivíduo daquele povo.
Aconteceu que Nargothrond ficou pronta (e no entanto Turgon ainda residia nos palácios em Viny amar), e os filhos de Finarfin lá se reuniram para uma festa. Galadriel veio de Doriath e permaneceu um pouco em Nargothrond. Ora, o Rei Finrod Felagund não tinha esposa, e Galadriel lhe perguntou por que era solteiro. Enquanto ela falava, um presságio ocorreu a Felagund.
— Um juramento eu também farei, e devo ser livre para cumpri-lo e ir para as trevas. Nem nada de meu reino irá durar para que um filho o herde. Diz-se, porém, que até aquela hora pensamentos tão frios não o haviam dominado; pois a verdade era que sua amada fora Amarië dos vany ar, e ela não o acompanhara no exílio.

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