17 de abril de 2016

Capítulo XIII: Da volta dos Noldor

Diz-se que, dos Exilados, Fëanor e seus filhos foram os primeiros a chegar a Terra Média e aportaram nos ermos de lammoth, o Grande Eco, junto às margens distantes do Estuáno de Drengist. E no mesmo instante em que os noldor pisaram na praia, seus gritos foram acolhidos pelas colinas e multiplicados, de modo que um clamor como o de inúmeras vozes poderosas encheu todo o litoral do norte; e o ruído do incêndio dos barcos em Losgar seguiu com os ventos do mar, como uma comoção de enorme fúria E, ao longe, todos os que ouviram aquele som se admiraram.
Ora, as labaredas daquele incêndio foram vistas não só por Fingolfin, que Fëanor abandonara em Araman, mas também pelos orcs e pelos vigias de Morgoth. Não houve relato do que Morgoth pensou em seu íntimo diante da notícia de que Fëanor, seu pior inimigo, trouxera um exército do Oeste. Pode ser que o temesse pouco, pois ainda não provara as espadas dos noldor; e logo se viu que pretendia expulsá-los de volta para o mar.
Sob as frias estrelas, antes do nascer da Lua, a hoste de Fëanor subiu pelo longo Estuário de Drengist, que adentrava pelas Colinas Ressoantes das Ered Lómin, e assim passou do litoral para a vastidão de Hithlum. Chegaram afinal ao lago comprido de Mithrim e, junto à sua margem norte, armaram acampamento na região de mesmo nome. Mas as hostes de Morgoth, instigadas pelo tumulto de Lammoth e pela luz do incêndio em Losgar, atravessaram as passagens das Ered Wethrin, as Montanhas de Sombra, e atacaram Fëanor de súbito, antes que o acampamento estivesse pronto ou preparado para a defesa. E ali nos campos cinzentos de Mithrim travou-se a segunda batalha nas Guerras de Beleriand. Dagor-nuin-Giliath, ela é chamada, a Batalha-sob-asestrelas, pois a Lua ainda não havia nascido; e é celebrada em versos. Os noldor, embora em número inferior e apanhados de surpresa, conquistaram uma rápida vitória, pois a luz de Aman ainda não se apagara em seus olhos, eles eram fortes e ágeis, além de mortais em sua raiva; e suas espadas eram longas e terríveis. Os orcs fugiram deles e foram expulsos de Mithrim com grandes perdas, sendo escorraçados para o outro lado das Montanhas de Sombra para a vasta planície de Ard-galen, que ficava ao norte de Dorthonion.
Ali, os exércitos de Morgoth, que foram na direção sul para o Vale do Sirion e sitiaram Círdan nos Portos das Falas, vieram em seu auxílio e foram derrotados com eles. Pois Celegorm, filho de Fëanor, deles tendo tomado conhecimento, armou-lhes uma emboscada com uma parte do exército élfico e, abatendo-se sobre eles a partir das colinas próximas a Eithel Sirion, expulsou-os para o Pântano de Serech. Péssimas sem dúvida foram às notícias que afinal chegaram a Angband, e Morgoth ficou desnorteado. Dez dias durara a batalha; e, de todos os exércitos que ele havia preparado para a conquista de Beleriand, dela retomou não mais do que um punhado de soldados.
Entretanto, motivos tinha ele para enorme regozijo, embora lhe ficassem ocultos por algum tempo. Pois Fëanor, em sua fúria contra o Inimigo, não quis parar, mas continuou a perseguir os orcs restantes, com a intenção de, assim, chegar ao próprio Morgoth. E dava sonoras risadas enquanto brandia a espada, feliz por ter desafiado a ira dos Valar e os perigos da viagem e ver chegar a hora de sua vingança. Nada sabia ele de Angband, nem da imensa força de defesa que Morgoth preparara com tanta rapidez. Porém, mesmo que tivesse sabido, isso não o teria dissuadido, pois Fëanor estava enlouquecido, consumido pela chama de sua própria ira. Assim, seguia ele muito adiante da vanguarda de seu exército. E, percebendo isso, os servos de Morgoth resolveram acuá-la, e de Angband saíram balrogs para ajudá-los. Ali, nos confins de Dor Daedeloth, a terra de Morgoth, Fëanor foi cercado, com poucos amigos a seu lado. Lutou por muito tempo, sem desanimar, embora estivesse envolto em chamas e com muitos ferimentos. Finalmente, porém, foi derrubado por Gothmog, Senhor dos balrogs, que Ecthelion mais tarde matou em Gondolin. Ali, Fëanor teria perecido, se seus filhos naquele momento não tivessem chegado em seu auxílio; e os balrogs o abandonaram, partindo para Angband.
Seus filhos então levantaram o pai e o carregaram de volta, na direção de Mithrim. Mas quando se aproximavam de Eithel Sirion e já estavam na trilha de subida para passar para o outro lado das montanhas, Fëanor pediu-lhes que parassem. Pois seus ferimentos eram mortais, e ele sabia que sua hora havia chegado. E, das encostas das Ered Wethrin, com sua última visão, ele contemplou ao longe os cumes das Thangorodrim, as mais imponentes torres da Terra Média, e soube, com a antevisão da morte, que nenhum poder dos noldor jamais as derrubaria; mas amaldiçoou o nome de Morgoth três vezes e incumbiu os filhos de cumprir seu Juramento e vingar seu pai. Morreu então, mas não teve enterro nem túmulo, pois seu espírito era tão ardente que, no momento em que escapou, o corpo caiu transformado em cinzas e se dissipou como fumaça. E seu semblante nunca mais apareceu em Arda; nem seu espírito deixou os palácios de Mandos. Assim terminou o mais poderoso dos noldor, cujos feitos originaram sua maior fama e suas piores desgraças.
Ora, Mithrim era habitada pelos elfos-cinzentos, povo de Beleriand que viera do outro lado das montanhas para o norte, e os noldor se alegraram ao encontrá-los, como parentes havia muito afastados. De início, porém, a conversa não foi fácil entre eles, pois, durante a longa separação, os idiomas dos calaquendi em Valinor e dos moriquendi em Beleriand se tornaram muito diferentes. Com os elfos de Mithrim, os noldor souberam do poder de Elu Thingol, Rei em Doriath, e do cinturão encantando que protegia seu reino. Também notícias desses grandes feitos ao norte vieram na direção sul, chegando a Menegroth e aos portos de Brithombar e Eglarest. Então, todos os elfos de Beleriand se encheram de admiração e de esperança com a chegada de seus parentes poderosos, que assim retornavam inesperadamente do oeste no exato momento de sua necessidade, e acreditaram a princípio que eles vinham como emissários dos Valar para salvá-los.
Porém, bem na hora em que Fëanor morria, chegou a seus filhos uma embaixada de Morgoth, reconhecendo a derrota e oferecendo termos de rendição, até mesmo a entrega de uma Silmaril.
Então Maedhros, o Alto, o primogênito, convenceu seus irmãos a simular um tratado com Morgoth e ir encontrar seus emissários no lugar marcado; mas os noldor tinham tão pouca fé quanto ele. Portanto, cada delegação compareceu com mais força do que o combinado; mas Morgoth mandou mais, e vieram também balrogs. Maedhros sofreu uma emboscada, e todos os seus acompanhantes foram mortos. Ele, no entanto, foi levado vivo, por ordem de Morgoth, até Angband.
Os irmãos de Maedhros então recuaram e fortificaram um grande acampamento em Hithlum; mas Morgoth mantinha Maedhros como refém, e mandou avisar que não o soltaria a menos que os noldor desistissem da guerra, voltando para o oeste ou então partindo para longe de Beleriand, para o sul do mundo. Os filhos de Fëanor sabiam, porém, que, não importava como agissem, Morgoth os trairia e não soltaria Maedhros. E também eram obrigados a cumprir o Juramento, não podendo por motivo algum renunciar à guerra com o Inimigo. Assim, Morgoth pegou Maedhros e o pendurou no alto de um precipício nas Thangorodrim, e ele estava preso à rocha pelo pulso da mão direita, envolto numa faixa de aço.
Agora chegavam ao acampamento em Hithlum rumores da marcha de Fingolfin e dos que o seguiram, que haviam atravessado o Gelo Atritante; e todos se admiraram com a chegada da Lua. Só que, quando a hoste de Fingolfin entrou em Mithrim, o Sol nasceu flamejante no oeste.
E Fingolfin desfraldou suas bandeiras azuis e prata, tocou seus clarins, e flores cresciam sob seus pés que marchavam. Assim, terminaram as eras das estrelas. Com o raiar da grande luz, os servos de Morgoth fugiram para dentro de Angband; e Fingolfin conseguiu passar sem combate pela segurança de Dor Daedeloth, enquanto seus inimigos se escondiam debaixo da terra.
Bateram, então, os elfos nos portões de Angband, e o desafio de suas trombetas fez tremerem as torres das Thangorodrim. E Maedhros os ouviu em meio a seu tormento, mas sua voz se perdeu nos ecos da pedra.
Mas Fingolfin, por ter um temperamento diferente do de Fëanor, e ter muita cautela com os ardis de Morgoth, recuou de Dor Daedeloth e voltou na direção de Mithrim, pois ouvira notícias de que ali encontraria os filhos de Fëanor, e por desejar, também, ter o escudo das Montanhas Sombrias para que seu povo pudesse descansar e se fortalecer. Pois vira a força de Angband e não achava que ela fosse cair apenas com toques de clarim. Portanto, chegando afinal a Hithlum, armou seu primeiro acampamento e morada junto às margens norte do lago de Mithrim. No coração dos que acompanhavam Fingolfin não havia muito amor pela Casa de Fëanor, já que a agonia dos que haviam resistido à travessia no Gelo havia sido tremenda, e Fingolfin considerava os filhos cúmplices do pai. Havia então perigo de luta entre os dois exércitos, mas, por graves que tivessem sido suas baixas no percurso, as hostes de Fingolfin e de Finrod, filho de Finarfin, ainda eram mais numerosas do que os seguidores de Fëanor; e estes agora recuaram diante dos outros e se mudaram, indo habitar a margem sul, com o lago entre eles. Muitos do povo de Fëanor, de fato arrependidos do incêndio em Losgar, se admiraram com a bravura que havia trazido os amigos, abandonados do outro lado do Gelo do Norte; e lhes teriam dado as boas-vindas, mas, por vergonha, não ousaram.
Assim, em virtude da maldição que se abatia sobre eles, os noldor não realizavam nada, enquanto Morgoth hesitava, e o pavor da luz ainda era recente e forte entre os orcs. Morgoth, contudo, despertou dos pensamentos e, percebendo a cisão entre seus inimigos, riu. Nos subterrâneos de Angband, fez com que fossem criados imensos vapores e fumaças, e eles emanavam dos cumes pestilentos das Montanhas de Ferro. E ao longe, em Mithrim, podiam ser vistos, poluindo os ares luminosos nas primeiras manhãs do mundo. Um vento veio do leste e os carregou para cima de Hithlum, escurecendo o novo Sol; e eles desceram e serpentearam pelos campos e grotões, pairando sobre as águas do Mithrim, lúgubres e venenosos.
Então Fingon, o valente, filho de Fingolfin, decidiu salvar o feudo que dividia os noldor, antes que seu Inimigo estivesse pronto para o combate. Pois a Terra tremia ao norte com o estrondo das forjas subterrâneas de Morgoth. Havia muito tempo, na bem-aventurança de Valinor, antes que Melkor fosse libertado, ou que mentiras os separassem, Fingon havia sido muito amigo de Maedhros; e, embora ainda não soubesse que Maedhros não se esquecera dele quando do incêndio dos barcos, a ideia da antiga amizade lhe doía no coração. Por isso, ousou um feito que tem justificado renome entre os maiores príncipes dos noldor. Sozinho e sem se aconselhar com ninguém, partiu em busca de Maedhros. Auxiliado pela própria escuridão criada por Morgoth, chegou sem ser visto ao reduto dos inimigos. Subiu bem alto pelos contrafortes das Thangorodrim e contemplou em desespero a desolação daquela terra; mas nenhuma passagem ou fenda conseguiu encontrar através da qual pudesse penetrar na fortaleza de Morgoth. Então, em desafio aos orcs, que ainda estavam acuados nos escuros vãos subterrâneos, apanhou sua harpa e entoou uma canção de Valinor que os noldor haviam composto nos velhos tempos, antes que surgisse a discórdia entre os filhos de Finwë. E sua voz ecoou nos grotões melancólicos que antes nunca tinham ouvido nada a não ser gritos de medo e aflição.
Assim descobriu Fingon o que procurava. Pois, de repente, acima dele, ao longe e com voz muito fraca, sua canção foi retomada, e uma voz chamou por ele em resposta. Era Maedhros que cantava em meio a seu tormento. Mas Fingon subiu até a base do precipício onde estava pendurado seu parente e dali não pôde avançar. E chorou ao ver a cruel invenção de Morgoth.
Maedhros, portanto, angustiado e sem esperanças, implorou a Fingon que o matasse com uma flecha. E Fingon preparou uma flecha e retesou o arco. Sem ver nenhuma saída, gritou a Manwë.
— Ó, Rei, que amas todos os pássaros, leva agora esta flecha emplumada e volta a ter pena dos noldor nesta hora de necessidade!
Sua oração foi atendida prontamente. Pois Manwë, que ama todos os pássaros e a quem eles trazem notícias da Terra Média até Taniquetil, enviara a raça das Águias, com a ordem de que habitassem os penhascos do norte e mantivessem Morgoth sob vigilância, já que Manwë ainda se condoía dos elfos exilados. E as Águias traziam aos ouvidos pesarosos de Manwë notícia de grande parte do que se passava naqueles tempos. Ora, no exato instante em que Fingon retesou o arco, desceu das alturas Thorondor, Rei das Águias, a mais poderosa de todas as aves que já existiram, cujas asas abertas cobriam mais de sessenta metros, e, detendo a mão de Fingon, ergueu-o e o levou até a face do rochedo em que Maedhros estava pendurado. Fingon, porém, não conseguiu soltar o elo infernal que lhe prendia o pulso, nem cortá-la, nem arrancá-la da pedra. Mais uma vez, em sua dor, Maedhros implorou que o matasse; mas Fingon lhe decepou a mão acima do pulso, e Thorondor os trouxe de volta a Mithrim.
Ali Maedhros com o tempo sarou, pois a chama da vida era forte dentro dele; e sua resistência era do mundo antigo, tal como só possuíam aqueles que haviam sido criados em Valinor. Seu corpo recuperou-se do tormento e voltou à saúde, mas a sombra de sua dor não lhe saía do coração, e ele viveu para usar a espada com a mão esquerda com perigo mais mortal do que antes com a direita. Por esse feito, Fingon conquistou grande fama, e todos os noldor o elogiaram. Com isso, mitigou-se o ódio entre as Casas de Fingolfin e de Fëanor. Pois Maedhros implorou perdão pelo abandono em Araman; e renunciou ao direito de reinar sobre todos os noldor.
— Se não restasse rancor entre nós, senhor — disse ele a Fingolfin — ainda assim a coroa deveria ser sua de direito, o mais velho da Casa de Finwë e o não menos sábio. — Com isso, porém, nem todos os seus irmãos concordaram de coração. Logo, e como Mandos previra, a Casa de Fëanor passou a ser chamada de os Espoliados, por ter sido passado para a Casa de Fingolfin o direito, que era seu por primogenitura, tanto em Elendë quanto em Beleriand, bem como pela perda das Silmarils. Os noldor, entretanto, estando novamente unidos, montaram guarda junto às fronteiras de Dor Daedeloth, e Angband ficou sitiada pelo oeste, pelo sul e pelo leste. E enviaram mensageiros para todos os lados a fim de conhecer as regiões de Beleriand e lidar com as pessoas que ali habitassem.
Ora, o Rei Thingol não acolheu de coração aberto a chegada de tantos príncipes cheios de poder, vindas do oeste, ansiosos por novos territórios; e não se dispôs a abrir seu reino, nem a remover seu cinturão encantado, pois, prudente com a sabedoria de Melian, não confiava que a repressão a Morgoth perdurasse. De todos os príncipes dos noldor, somente os da Casa de Finarfin tinham permissão de entrar nos limites de Doriath, já que podiam alegar um grau próximo de parentesco com o próprio Rei Thingol, pois sua mãe era Eárwen de Alqualondë, filha de Olwë.
Angrod, filho de Finarfin, foi o primeiro dos Exilados a vir a Menegroth, como mensageiro de seu irmão Finrod, e muito tempo conversou ele com o Rei, relatando os feitos dos noldor no norte, falando de seus números e da organização de suas forças; mas, sendo sincero, ponderado e considerando todos os males então perdoados, não disse palavra sobre o fratricídio, nem sobre a forma do exílio dos noldor ou sobre o Juramento de Fëanor. O Rei Thingol prestou atenção às suas palavras e lhe disse antes de Angrod partir: — O seguinte você dirá àqueles que o enviaram. Em Hithlum, os noldor têm permissão para ficar, bem como nos planaltos de Dorthonion e nas terras a leste de Doriath que estejam vazias e ermas. Em qualquer outra parte, porém, há muitos do meu povo, e não quero vê-los constrangidos em sua liberdade, muito menos expulsos de seus lares. Atentem bem, vocês, príncipes do oeste, para o modo como vão se comportar; pois eu sou o Senhor de Beleriand, e todos os que procuram aqui habitar deverão me dar ouvidos. Em Doriath, ninguém poderá permanecer, a não ser aqueles a quem eu convidar como hóspedes ou que me procurarem em grande necessidade.
Ora, os senhores dos noldor estavam reunidos em assembleia em Mithrim, e para lá se dirigiu Angrod, ao sair de Doriath, trazendo a mensagem do Rei Thingol. Fria pareceu a acolhida aos noldor, e os filhos de Fëanor se irritaram com as palavras, mas Maedhros riu.
— Rei é aquele que consegue manter seus domínios, ou seu título será em vão Thingol não nos dá nada além de terras sobre as quais não exerce poder. Na realidade, neste momento somente Doriath seria seu reino, não fosse pela chegada dos noldor. Portanto, que reine ele em Doriath e se alegre por ter como vizinhos os filhos de Finwë, não os orcs de Morgoth que encontramos.
Em outras partes, tudo correrá como nos parecer conveniente.
No entanto, Caranthir, que não gostava dos filhos de Finarfin, e era dos irmãos o mais agressivo e de temperamento mais irritável, protestou em voz alta.
— E mais! Que os filhos de Finarfin não fiquem correndo de um lado para o outro contando suas histórias para esse elfo-escuro lá nas grutas dele! Quem os nomeou nosso porta-voz para lidar com ele. E, embora tenham vindo de fato para Beleriand, que não se esqueçam assim tão depressa de que seu pai é um senhor dos noldor, embora sua mãe seja de outra linhagem.
Com isso, irou-se Angrod e abandonou a assembleia. Maedhros chegou a censurar Caranthir; mas a maioria dos noldor, dos dois séquitos, ao ouvir suas palavras, sentiu o coração perturbado, temendo o espírito cruel dos filhos de Fëanor que parecia sempre explodir em violência ou em palavras impensadas. Maedhros, entretanto, conteve seus irmãos, e eles deixaram a assembleia. Pouco depois, partiram de Mithrim na direção leste e atravessaram o Aros para chegar ao vasto território em torno da Colina de Himring. Aquela região daí em diante foi chamada de Fronteira de Maedhros; pois na direção norte havia pouca defesa de colina ou rio contra alguma investida de Angband. Ali Maedhros e seus irmãos montavam guarda, reunindo as pessoas que quisessem a eles vir; e tinham pouco contato com seus parentes a oeste, a não ser em caso de necessidade. Diz-se na verdade que o próprio Maedhros maquinou esse plano para reduzir as chances de rivalidade e por ter o grande desejo de que o principal perigo do ataque se abatesse sobre ele. Maedhros, por seu lado, manteve a amizade com a Casa de Fingolfin e a de Finarfin. E às vezes vinha até elas para conversas de interesse mútuo. Contudo, Maedhros também estava preso ao Juramento, embora este estivesse no momento como que esquecido.
Ora, o povo de Caranthir morava mais a leste para além do curso superior do Gelion, em torno do Lago Helevorn, aos pés do Monte Rerir e mais ao sul. E eles escalavam os picos das Ered Luin e olhavam para o leste com espanto pois as regiões da Terra Média lhes pareciam selvagens e imensas. E foi assim que o povo de Caranthir deparou com os anões, que, depois do violento ataque de Morgoth e da chegada dos noldor, haviam parado de comerciar em Beleriand. Entretanto, embora os dois povos gostavam de trabalhos habilidosos e sentissem muita vontade de aprender, não havia grande amor entre eles. Pois os anões eram reservados e suscetíveis, e Caranthir era arrogante e mal disfarçava seu desdém pela falta de beleza dos naugrim, exemplo seguido por seu povo. Não obstante, como temiam e odiavam Morgoth, os dois povos fizeram uma aliança e dela tiraram grande proveito. Pois os naugrim aprenderam muitos segredos técnicos naquela época, de modo que os ferreiros e pedreiros de Nogrod e de Belegost  ganharam renome entre sua gente; e. Quando os anões retomaram suas viagens por Beleriand, todo o comércio de suas minas passava primeiro pelas mãos dè Caranthir, o que lhe trouxe grande riqueza.
Passados vinte anos do Sol, Fingolfin, Rei dos noldor, deu uma grande festa. Ela se realizou na primavera, perto das lagoas de Ivrin. Onde nascia o veloz Rio Narog, pois ali as terras eram verdejantes e belas aos pés das Montanhas Sombrias, que as protegiam do norte A alegria daquela festa foi relembrada por muito tempo nos dias de tristeza que estavam por vir. E ela se chamou Mereth Aderthad, a Festa da Reunião. Para ali vieram muitos dos líderes e do povo de Fingolfin e Finrod, e dos filhos de Fëanor, Maedhros e Maglor, com guerreiros da Fronteira oriental, e também compareceram, em grande número, elfos-cinzentos, nômades dos bosques de Beleriand, assim como o povo dos Portos, com Círdan, seu senhor. Vieram até mesmo elfos-verdes de Ossiriand a Terra dos Sete Rios, muito distante, à sombra das muralhas das Montanhas Azuis De Doriath, porém, vieram apenas dois mensageiros, Mablung e Daeron, trazendo cumprimentos do Rei.
Em Mereth Aderthad, foram dados espontaneamente muitos conselhos, e feitos juramentos de lealdade e amizade. Diz-se que nessa festa a língua dos elfos-cinzentos foi a mais falada, mesmo pelos noldor, pois eles aprenderam rapidamente o idioma de Beleriand, ao passo que os sindar eram lentos para dominar a língua de Valinor. Os corações dos noldor estavam enlevados e cheios de esperança; e, para muitos deles, parecia que as palavras de Fëanor haviam sido justificadas, ao lhes recomendar que procurassem a liberdade e belos territórios na Terra Média. E, de fato, seguiram-se longos anos de paz, enquanto suas espadas protegiam Beleriand da destruição de Morgoth, e o poder dele permanecia trancado por trás de seus portões. Naquela época, havia alegria sob o novo Sol e a nova Lua, e toda a terra estava contente. Ainda assim, a Sombra pairava no norte.
E quando outros trinta anos se passaram, Turgon, filho de Fingolfin, deixou Nevrast, onde morava, e foi procurar Finrod, seu amigo, na ilha de Tol Sirion; e os dois saíram em viagem ao longo do rio na direção sul, por estarem um pouco entediados das montanhas do norte. E enquanto prosseguiam, à noite os alcançou adiante dos Alagados do Crepúsculo, ao lado das águas do Sirion, e eles adormeceram as suas margens, sob as estrelas de verão. Ulmo, porém, subindo o rio, lançou sobre eles um sono profundo e sonhos pesados. E a perturbação dos sonhos não os abandonou depois que acordaram, mas nenhum disse nada ao outro, pois sua lembrança não era nítida, e cada um acreditava que só ele havia recebido uma mensagem de Ulmo. No entanto, a inquietação para sempre se abateu sobre eles, bem como dúvidas sobre o que aconteceria; e muitas vezes eles perambularam sozinhos por terras ainda não desbravadas, procurando por toda parte locais de força oculta. Pois a cada um lhe parecia que deveria se preparar para um dia nefasto e construir um abrigo, para a eventualidade de Morgoth sair de Angband em ataque e derrotar os exércitos do norte.
Houve uma ocasião em que Finrod e Galadriel, sua irmã, foram hospedados por Thingol, seu parente, em Doriath. Então, maravilhou-se Finrod com a força e a majestade de Menegroth, seus tesouros e arsenais, seus salões de pedra de muitas colunas. E brotou em seu íntimo o desejo de construir amplos salões atrás de portões eternamente vigiados em algum lugar profundo e secreto sob as colinas. Assim, ele abriu o coração com Thingol, relatando seus sonhos. E Thingol lhe falou do profundo desfiladeiro do Rio Narog e das cavernas aos pés dos Altos Faroth, em sua escarpada margem ocidental. E, quando Finrod partiu, Thingol lhe forneceu guias para levá-lo àquele lugar do qual poucos tinham conhecimento. Assim, Finrod chegou às Cavernas de Narog e ali começou a construir profundos salões e arsenais, no estilo das mansões de Menegroth. E essa fortaleza se chamou Nargothrond. Nesse trabalho, Finrod foi auxiliado pelos anões das Montanhas Azuis, que foram bem recompensados, pois Finrod trouxera mais tesouros de Tirion do que qualquer outro príncipe dos noldor. E naquela época foi feito para ele o Nauglamír, o Colar dos Anões, a mais célebre de suas obras nos Dias Antigos. Era uma gargantilha de ouro engastada com inúmeras pedras preciosas de Valinor.
Mas essa joia tinha em si o poder de pousar levemente em quem a usasse, como se fosse um fio de linho, e qualquer que fosse o pescoço que cingisse, sempre assentava com graça e beleza.
Ali, em Nargothrond, Finrod estabeleceu seu lar com muitos de sua gente. E, na língua dos anões, foi chamado de Felagund, o Escavador de Grutas; e esse nome ele adotou até a morte.
Contudo, Finrod Felagund não foi o primeiro a habitar as grutas às margens do Rio Narog Galadriel, sua irmã, não foi com ele para Nargothrond, pois em Doriath morava Celeborn, parente de Thingol, e havia grande amor entre os dois. Por isso, ela permaneceu no Reino Oculto, residindo com Melian; e com ela adquiriu enorme conhecimento e sabedoria a respeito da Terra Média.
Já Turgon tinha lembranças da cidade instalada no alto de uma colina, Tirion, a bela, com sua torre e sua árvore; e não encontrava o que buscava. Mas voltou para Nevrast e se acomodou em Viny amar, à beira-mar. E, no ano seguinte, o próprio Ulmo lhe apareceu e recomendou que voltasse a entrar sozinho no Vale do Sirion. Turgon partiu e, sob a orientação de Ulmo, descobriu o vale oculto de Tumladen, nas Montanhas Circundantes, no centro do qual havia uma colina de pedra. Dessa descoberta, ele não falou a ninguém por um tempo, mas retomou ainda uma vez a Nevrast, e ali começou em segredo a elaborar o projeto de uma cidade no estilo de Tirion sobre Túna, pela qual seu coração ansiava no exílio.
Ora, Morgoth, fiando-se nos relatos de seus espiões de que os senhores dos noldor andavam passeando sem se preocupar com a guerra, pôs à prova a força e o estado de alerta de seus inimigos. Mais uma vez, de modo muito inesperado, seu poder se ergueu, e de repente houve terremotos no norte, o fogo saía de fendas na terra, e as Montanhas de Ferro vomitavam labaredas, enquanto orcs avançavam cano uma avalanche pela planície de Ard-galen. Dali, precipitaram-se pelo Passo do Sirion no oeste; e no leste invadiram a terra de Maglor, na abertura entre as colinas de Maedhros e os contrafortes das Montanhas Azuis. Fingolfin e Maedhros não estavam de olhos fechados, porém; e, enquanto outros perseguiam os bandos esparsos de orcs que se espalhavam por Beleriand, perpetrando grandes males, eles se abateram sobre o corpo principal do exército de ambos os flancos quando este atacava Dorthonion.
Derrotaram os servos de Morgoth e, perseguindo-os por Ard-galen, os destruíram totalmente, até o último, à vista dos portões de Angband. Essa foi a terceira grande batalha das Guerras de Beleriand, e se chamou Dagor Aglareb, a Batalha Gloriosa.
Foi uma vitória e, ainda assim, uma advertência. E os príncipes lhe deram atenção, reforçando ainda mais sua aliança, fortalecendo e organizando sua vigilância, para iniciar o Cerco a Angband, que durou quase quatrocentos anos do Sol. Por um longo período após Dagor Aglareb, nenhum servo de Morgoth se dispôs a sair de seus portões, por temor aos senhores dos noldor. E Fingolfin se vangloriava de que, a menos que houvesse traição entre eles mesmos, Morgoth jamais conseguiria romper o esconderijo dos eldar, nem surpreendê-los desprevenidos. Contudo, os noldor não conseguiam nem conquistar Angband, nem recuperar as Silmarils; e a guerra nunca cessou totalmente em todo aquele período do Cerco, pois Morgoth inventava novas maldades e, de quando em quando, testava seus inimigos. Tampouco foi possível o cerco total à fortaleza de Morgoth, pois as Montanhas de Ferro, de cuja enorme muralha em curva se projetavam às torres das Thangorodrim, a defendiam dos dois lados e eram intransponíveis aos noldor, em virtude da neve e do gelo. Assim, em sua retaguarda e na direção norte, Morgoth não tinha inimigos; e por essas vias às vezes saíam espiões, que por caminhos tortuosos entravam em Beleriand. E, no desejo supremo de semear o medo e a desunião entre os eldar, Morgoth ordenou aos orcs que capturassem vivo qualquer um que pudessem e o trouxessem amarrado até Angband. E alguns ele amedrontou tanto com o terror de seus olhos, que eles não precisavam mais de correntes, mas viviam apavorados, fazendo sua vontade onde quer que estivessem. Assim, Morgoth ficou sabendo grande parte de tudo o que havia acontecido desde a rebelião de Fëanor; e se alegrou, vendo ali a semente de muitas dissensões entre seus inimigos.
Quando quase cem anos haviam decorrido desde a Dagor Aglareb, Morgoth tentou apanhar Fingolfin desprevenido (pois sabia da vigilância de Maedhros); e despachou um exército para as regiões brancas do norte. Eles se voltaram para o oeste e depois para o sul, chegando às costas do Estuário de Drengist pela rota que Fingolfin seguira a partir do Gelo Atritante.
Assim, invadiriam o reino de Hithlum pelo oeste, mas foram vislumbrados a tempo, e Fingon se abateu sobre eles entre as colinas no limite do Estuário, empurrando para o mar a maioria dos orcs. Essa não foi incluída entre as grandes batalhas, pois os orcs não estavam em grande número, e somente parte da população de Hithlum lutou ali. A partir daí, porém, houve paz por muitos anos, sem nenhum ataque direto proveniente de Angband, pois Morgoth percebia agora que os orcs desassistidos não eram inimigos à altura dos noldor; e buscou outra ideia em seu íntimo.

Passados mais de cem anos, Glaurung, o primeiro dos urulóki, os dragões de fogo do norte, saiu pelos portões de Angband à noite. Ele ainda era jovem e mal havia atingido metade de seu tamanho, pois longa e demorada é a vida dos dragões, mas os elfos fugiram diante dele para as Ered Wethrin e Dorthonion, amedrontados. E ele destruiu os campos de Ard-galen. Então, Fingon, príncipe de Hithlum, cavalgou em sua direção com arqueiros igualmente montados e o cercou com uma roda de velozes cavaleiros. E, ainda não tendo desenvolvido plenamente sua couraça, Glaurung não conseguiu suportar seus dardos e fugiu de volta para Angband, sem voltar a sair por muitos anos. Fingon foi alvo de grandes louvores, e os noldor se alegraram; pois poucos previam o pleno significado e a ameaça desse novo ser. Morgoth porém estava insatisfeito por Glaurung se ter mostrado tão prematuramente. Depois dessa derrota, houve a Longa Paz de quase duzentos anos. Em todo esse tempo, não houve senão contendas nas fronteiras, e toda a Beleriand prosperava e enriquecia. Com a proteção da guarda de seus exércitos no norte, os noldor construíram suas moradas e suas torres, e criaram muitas coisas lindas nessa época, além de poemas, histórias e livros de tradições. Em muitas partes da região, os noldor e os sindar fundiram-se num só povo, falando o mesmo idioma; embora permanecesse entre eles a diferença de que os noldor tinham maior poder físico e mental, sendo os maiores guerreiros e sábios, sabendo construir com pedras e sendo amantes das encostas das colinas e das vastidões. Já os sindar tinham as vozes mais belas, eram mais talentosos na música, a exceção de Maglor, filho de Fëanor, e adoravam os bosques e as margens dos nos. E alguns elfos-cinzentos ainda perambulavam à vontade, sem residência fixa, e cantavam enquanto caminhavam.

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