17 de abril de 2016

Capítulo XII: Dos homens

Permaneceram então em paz os Valar atrás de suas montanhas e, tendo concedido a luz a Terramédia, a deixaram por muito tempo abandonada. A autoridade de Morgoth não era contestada a não ser pela bravura dos noldor. Ulmo, que recebia notícias da Terra por meio de todas as águas, não deixava de pensar nos exilados.
A partir dessa época foram contados os Anos do Sol. Mais rápidos e breves são eles do que os longos Anos das Árvores em Valinor. Foi nesse período que o ar da Terra Média se tornou pesado com o hálito do crescimento e da mortalidade; e a transformação e o envelhecimento de todas as coisas foram muito acelerados. A vida pululava no solo e nas águas na Segunda Primavera de Arda, e os eldar aumentaram em número. E, sob o novo Sol, Beleriand se tornara verde e bela.
Ao primeiro raiar do Sol, os Filhos Mais Novos de Ilúvatar despertaram na terra de Hildórien, nas regiões orientais da Terra Média; mas o primeiro Sol raiou no Oeste, e os olhos dos homens que se abriam se voltaram para ele; e seus pés, quando Perambularam pela Terra, acabavam indo naquela direção. Atani foi como os eldar os chamaram, o Segundo Povo; mas também os chamavam de Hildor, os Sucessores, entre muitos outros nomes: Apanónar, os Posteriores; Engwar, os Enfermiços; e Firimar, os Mortais. Ainda os chamavam de Usurpadores, Desconhecidos, Inescrutáveis, Malditos, Desajeitados, Temerosos-da-noite, Filhos do Sol. Dos homens, pouco se conta naquelas histórias que dizem respeito aos Dias Antigos, antes do surgimento dos mortais e do desaparecimento dos elfos, à exceção daqueles ante-passados dos homens, os atanatári, que nos primeiros anos do Sol e da Lua entraram na região Norte do mundo. A Hildórièn não veio nenhum Vala para guiar os homens ou convocá-los a ir morar em Valinor. E os homens sempre temeram os Valar, em vez de amá-los, e não compreendiam os objetivos dos Poderes, estando em desacordo com eles e em luta com o mundo. Ulmo, porém, pensava muito neles, propiciando a resolução e a vontade de Manwë, e suas mensagens muitas vezes lhes chegavam por águas correntes e inundações. Contudo, os homens não têm habilidade para essas questões, e tinham ainda menos naquele tempo, antes de se misturarem aos elfos. Por isso, adoravam as águas, e seus corações se comoviam, mas não compreendiam suas mensagens. Mesmo assim, diz-se que antes que se passasse muito tempo eles encontraram elfos escuros em muitos lugares e com eles fizeram amizade. E os homens tornaram-se companheiros e discípulos, em sua infância, desse povo antigo, nômade da raça élfica, que nunca partiram para Valinor e conheciam os Valar somente como um rumor e um nome distante.
Não fazia muito que Morgoth voltara para a Terra Média, e seu poder não se espalhara muito, além de ser mantido sob controle pela súbita chegada da grande luz. Havia pouco perigo nas terras e nas colinas; e, lá, novos seres, criados eras antes no pensamento de Yavanna e plantados como sementes nas trevas, afinal brotavam e floriram. A oeste, norte e sul, os filhos dos homens se dispersavam e vagueavam; e sua alegria era a alegria da manhã antes de o orvalho secar, quando cada folha estava verde.
No entanto, a alvorada é breve, e o dia muitas vezes não corresponde à sua promessa.
Aproximava-se então a hora das grandes guerras das forças do norte, quando os noldor, os sindar e os homens lutaram contra os exércitos de Morgoth Bauglir, e sucumbiram derrotados.
Para essa finalidade sempre se voltaram as mentiras astutas que Morgoth semeara no passado, e que voltava a semear entre seus inimigos, aliadas à maldição decorrente do fratricídio em Alqualondë e do Juramento de Fëanor. Somente uma parcela se conta aqui dos feitos daquela época; e a maior parte fala dos noldor, das Silmarils e dos mortais cujos destinos se enredaram com os deles. Naquela época, os elfos e os homens eram semelhantes em estatura e força física, mas os elfos tinham mais sabedoria, habilidade e beleza; e aqueles que haviam morado em Valinor e contemplado os Poderes superavam os elfos-escuros nesses aspectos tanto quanto estes últimos suplantavam os mortais. Somente no Reino de Doriath, cuja rainha Melian era da linhagem dos Valar, os sindar quase se equiparavam aos calaquendi do Reino Abençoado.
Imortais eram os elfos, e sua sabedoria crescia de uma Era para outra, sem que nenhuma enfermidade ou pestilência lhes trouxesse a morte. Seus corpos eram na verdade da matéria da Terra e podiam ser destruídos; e naquela época eram mais parecidos com os corpos dos homens, pois não haviam sido habitados tanto tempo pelo fogo de seu espírito, que os consome por dentro com o passar das eras. Já os homens eram mais frágeis, mais fáceis de serem mortos por arma ou acidente, e mais difíceis de curar; eram sujeitos a doenças e muitas enfermidades, e envelheciam e morriam. O que pode acontecer com seus espíritos após a morte, os elfos não sabem. Alguns dizem que eles vão para os palácios de Mandos; mas seu local de espera por lá não é o mesmo dos elfos. E abaixo de Ilúvatar, à exceção de Manwë, somente Mandos sabe para onde vão depois do período de recordação, nos palácios silenciosos, às margens do Mar de Fora. Ninguém jamais voltou das mansões dos mortos, a não ser Beren, filho de Barahir, cuja mão tocou uma Silmaril; mas depois disso ele nunca mais falou com homens mortais. Talvez o destino dos homens após a morte não esteja nas mãos dos Valar, nem esteja tudo previsto na Música dos Ainur.
Depois, quando, em decorrência do triunfo de Morgoth e satisfazendo seu maior desejo, elfos e homens vieram a se desentender, aqueles indivíduos da raça élfica que ainda viviam na Terramédia definharam e empalideceram, enquanto os homens usurparam a luz do Sol. Os quendi passaram então a perambular pelos locais solitários das grandes terras e ilhas, preferindo o luar e a luz das estrelas, os bosques e as cavernas, tomando-se como sombras e lembranças, à exceção daqueles que de quando em quando navegavam para o oeste e desapareciam da Terramédia.
No entanto, na alvorada do tempo, elfos e homens eram aliados e se consideravam semelhantes. Houve alguns dentre os homens que aprenderam a sabedoria dos eldar e se tornaram grandes e destemidos entre os capitães dos noldor. E, na glória e na beleza dos elfos, e também em seu destino, plena participação tiveram os filhos de elfos e de mortais, Eárendil e Elwing, bem como Elrond, seu filho.

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