11 de abril de 2016

Capítulo XI - O “palantír”

O sol afundava atrás do longo braço ocidental das montanhas quando Gandalf com seus companheiros, e o rei com seus Cavaleiros, partiram de Isengard. Gandalf levou Merry na garupa do cavalo, e Aragorn levou Pippin. Dois dos homens do rei foram na frente, cavalgando rápido, e logo sumiram de vista dentro do vale. Os outros foram seguindo num passo tranquilo. Os ents, numa fila solene, ficaram como estátuas junto ao portão, com os longos braços erguidos, mas sem fazer qualquer ruído. Merry e Pippin olharam para trás, quando já tinham descido um bom trecho da estrada sinuosa. O sol ainda brilhava no céu, mas sombras compridas alcançavam Isengard: ruínas cinzentas caindo na escuridão.
Agora Barbárvore estava sozinho ali, como o tronco distante de uma velha árvore: os hobbits pensaram em seu primeiro encontro com ele, sobre o patamar ensolarado lá longe, nas fronteiras de Fangorn.
Chegaram ao pilar da Mão Branca. Ainda estava de pé, mas a mão esculpida tinha sido derrubada e desfeita em pedaços. Bem no meio da estrada jazia o longo dedo indicador, branco no crepúsculo, sua unha vermelha enegrecendo.
— Os ents prestam atenção a todos os detalhes! — disse Gandalf.
Continuaram cavalgando, e o anoitecer se aprofundou no vale.
— Vamos cavalgar muito esta noite, Gandalf? — perguntou Merry depois de um tempo. — Não sei como você se sente com essa gentalha pendurada atrás de você, mas a gentalha está cansada e ficaria feliz em parar de se pendurar e se deitar.
— Então você ouviu aquilo? — disse Gandalf — Não se ressinta! Fique agradecido por não ter tido palavras mais longas endereçadas a você. Ele estava com os olhos em você. Se for algum consolo para seu orgulho, eu diria que, no momento, você e Pippin estão mais nos pensamentos dele do que todos nós. Quem são, como chegaram até lá e por quê; o que sabem, se vocês foram capturados e, em caso positivo, como escaparam enquanto todos os orcs pereceram – é com esses pequenos enigmas que a grande mente de Saruman está preocupada. Uma zombaria vinda de Saruman, Meriadoc, é um elogio, se você se sente honrado com a preocupação dele.
— Obrigado! — disse Merry. — Mas é uma honra maior pendurar-me em sua cauda, Gandalf. Pelo menos por uma coisa: nessa posição se tem a oportunidade de fazer uma pergunta pela segunda vez. Vamos cavalgar muito esta noite?
Gandalf riu.
— Um hobbit insaciável! Todos os magos deveriam ter um ou dois hobbits aos seus cuidados – para ensinar-lhes o significado dessa palavra e para corrigi-los. Peço desculpas. Mas já pensei até nessas questões menores. Vamos cavalgar por algumas horas, com calma, até chegarmos ao fim do vale. Amanhã deveremos cavalgar mais rápido.
— Quando viemos, nossa ideia era voltar direto de Isengard para a casa do rei em Edoras através das colinas, uma cavalgada de alguns dias. Mas pensamos melhor e mudamos o plano. Mensageiros já foram na frente para o Vale do Abismo, para avisar que o rei está retornando amanhã. De lá ele partirá com muitos homens para o Templo da Colina, por trilhas que cortam as montanhas. De agora em diante não mais que dois ou três deverão ir abertamente pelos campos, de dia ou de noite, e só quando necessário.
— Com você é tudo ou nada! — disse Merry. — Receio que eu não estivesse pensando em nada além da cama de hoje à noite. Onde ficam e o que são o Abismo de Helm e todo o resto? Não sei nada sobre esta região.
— Então é melhor que aprenda alguma coisa, se desejar entender o que está acontecendo. Mas não agora, e não por meu intermédio: tenho muitas coisas urgentes em que pensar.
— Tudo bem, vou tentar com Passolargo ao lado da fogueira do acampamento: ele é menos impaciente. Mas por que todo esse segredo? Pensei que tivéssemos vencido a batalha!
— Sim, vencemos, mas foi apenas a primeira vitória, e isso em si aumenta nosso perigo. Havia algum vínculo entre Isengard e Mordor que eu ainda não descobri. Como trocavam notícias não sei ao certo; mas eles trocavam. O Olho de Baraddûr estará olhando impacientemente na direção do Vale do Mago, eu acho; e na direção de Rohan. Quanto menos vir, melhor será.


A estrada seguia lentamente, descendo o vale com muitas curvas. Algumas vezes mais distante, outras mais próximo, corria o Isen em seu leito de pedras. A noite desceu das montanhas. Toda a névoa tinha-se dissipado. Um vento gelado soprava.
A lua, agora quase cheia, enchia o céu do leste com um reflexo pálido e frio. As saliências das montanhas à direita deles desciam até colinas nuas. A vasta planície se abria cinzenta diante deles.
Finalmente pararam. Depois mudaram de direção, abandonando a estrada e passando outra vez à macia turfa da região montanhosa. Indo uma ou duas milhas para o oeste, atingiram um valezinho. Abria-se em direção ao sul, apoiando-se na encosta do redondo Dol Baran, o último dos montes da cordilheira do norte, que tinha os pés verdes e o topo coberto por urzes. As encostas do vale estavam emaranhadas com a samambaia do ano anterior, no meio da qual os brotos encaracolados da primavera começavam a sair por sobre a terra de cheiro suave. Espinheiros cresciam espessos sobre os barrancos baixos, e sob eles o grupo montou acampamento, cerca de duas horas antes da meia-noite.
Acenderam uma fogueira numa concavidade, em meio às raízes de um espinheiro que se alastrava, alto como uma árvore, retorcido pelos anos, mas robusto em todos os seus galhos. Brotos cresciam nas extremidades de cada ramo.
Foram designados vigias, dois para cada turno. Os outros, depois que tinham comido, embrulharam-se em capa e cobertor e dormiram. Os hobbits se deitaram num canto sozinhos, sobre um monte de samambaia velha. Merry estava com sono, mas Pippin agora parecia curiosamente inquieto. A samambaia estalava e farfalhava conforme ele se virava de um lado para o outro.
— Qual é o problema? — perguntou Merry. — Está deitado num formigueiro?
— Não — disse Pippin —, mas não me sinto confortável. Fico pensando quanto tempo faz que não durmo numa cama.
Merry bocejou.
— Descubra contando nos dedos! — disse ele. — Mas você deve saber quanto tempo faz que partimos de Lórien.
— Ah, aquilo... — disse Pippin. — Estou dizendo uma cama de verdade, num quarto.
— Bem, então Valfenda — disse Merry. — Mas esta noite eu poderia dormir em qualquer lugar.
— Você teve sorte, Merry — disse Pippin baixinho, depois de uma longa pausa. — Você estava na garupa de Gandalf.
— É, e daí?
— Conseguiu alguma notícia, alguma informação dele?
— Sim, bastante. Mais que o usual. Mas você escutou tudo ou a maior parte; estava perto e nós não estávamos falando nenhum segredo. Mas pode ir com ele amanhã, se acha que vai conseguir arrancar mais coisas dele – e se ele o aceitar.
— Posso? Muito bom! Mas ele está fechado, não está? Não mudou nada.
— Ah, mudou sim! — disse Merry, despertando um pouco de seu sono, e começando a imaginar o que estaria incomodando seu companheiro. — Ele cresceu, ou algo assim. Pode ser ao mesmo tempo mais gentil e mais aterrador, mais alegre e mais solene do que antes, eu acho. Ele mudou, mas ainda não tivemos a oportunidade de ver o quanto. Mas pense na última parte daquela conversa com Saruman! Lembre-se de que Saruman já foi um superior de Gandalf. Presidente do Conselho, não importa o que isso seja exatamente. Ele era Saruman, o Branco. Gandalf é o Branco agora. Saruman voltou quando recebeu ordens, e seu cajado foi tomado; depois Gandalf lhe disse para ir, e ele simplesmente foi!
— Bem, se Gandalf mudou, então está mais reservado do que nunca, e isso é tudo — argumentou Pippin. — Aquela... bola de vidro, também. Ele pareceu muito satisfeito com ela. Sabe ou supõe algo sobre ela. Mas ele nos conta o que é? Não, nem uma palavra. Mas fui eu quem a apanhou e a impediu de rolar para dentro de uma poça. Aqui, vou ficar com isso, meu rapaz – e isso é tudo o que ele disse. Fico pensando no que seria aquilo. Era tão pesada. — A voz de Pippin ficou muito baixa, como se ele estivesse conversando consigo mesmo.
— Ei! — disse Merry. — Então é isso que o está incomodando? Agora, Pippin, meu rapaz, não se esqueça do conselho de Gildor – aquele que Sam costumava repetir: Não se intrometa nas coisas dos Magos, pois eles são sutis e se enfurecem com facilidade.
— Mas toda a nossa vida por meses tem sido uma longa intromissão nas coisas dos Magos — disse Pippin. — Eu gostaria de um pouco de informação, além do perigo. Gostaria de dar uma olhada naquela bola.
— Durma! — disse Merry. — Vai conseguir informação suficiente, mais cedo ou mais tarde. Meu caro Pippin, nenhum Túk jamais conseguiu superar um Brandebuque em questões de curiosidade. Mas eu lhe pergunto, isso são horas?
— Está certo! Qual é o problema em eu dizer que gostaria de dar um a olhada naquela pedra? Sei que não posso tê-la, com o velho Gandalf sentado em cima dela, como uma galinha chocando um ovo. Mas não ajuda muito não ouvir de você nada além de um você-não-pode-tê-la-então-durma!
— Bem, que mais eu poderia dizer? — perguntou Merry. — Sinto muito Pippin, mas você realmente vai ter de esperar até amanhã. Ficarei tão curioso quanto você desejar depois do desjejum, e vou ajudar de todas as maneiras que puder no engabelamago. Mas não consigo mais ficar acordado. Se bocejar um pouco mais, meu rosto vai rachar de orelha a orelha. Boa noite!
Pippin não disse mais nada. Agora estava quieto, mas o sono continuava distante, e não o encorajava o som da respiração suave de Merry, que adormecera alguns minutos depois de ter dito boa noite. O pensamento do globo negro parecia ficar mais forte enquanto tudo ao redor foi ficando em silêncio. Pippin sentia de novo o peso dele em suas mãos, e via outra vez as misteriosas profundezas negras dentro das quais ele tinha olhado por um momento. Agitado, virou-se para o outro lado, tentando pensar em alguma outra coisa.
Finalmente não pôde aguentar mais, Levantou-se e olhou ao redor. Estava frio, e ele se embrulhou em sua capa. A lua brilhava branca e fria no fundo do vale, e as sombras dos arbustos eram negras. Por toda a volta se deitavam figuras adormecidas. Os dois guardas não estavam à vista: estavam em cima da colina, talvez, ou escondidos pela samambaia. Movido por algum impulso que não compreendia, Pippin caminhou suavemente até onde Gandalf estava deitado. Olhou para ele. O mago parecia estar dormindo, mas as pálpebras não estavam completamente fechadas: havia um brilho de olhos sob os longos cílios, Pippin recuou depressa. Mas Gandalf não fez qualquer sinal; atraído para a frente mais uma vez, meio contra sua vontade, o hobbit se arrastou de novo por trás da cabeça do mago. Ele estava enrolado num cobertor, com a capa estendida por cima; bem perto dele, entre seu flanco direito e seu braço dobrado, havia uma elevação, algo redondo embrulhado num pano escuro; parecia que a mão de Gandalf tinha escorregado dela e caído ao chão.
Mal conseguindo respirar, Pippin chegou mais perto, passo a passo.
Finalmente se ajoelhou. Então estendeu as mãos sorrateiramente, e levantou o embrulho devagar: não parecia tão pesado quanto ele esperara. “Apenas algum pacote de ninharias, talvez, afinal de contas”, pensou ele, com uma estranha sensação de alívio, mas não colocou o pacote de volta no lugar. Parou um instante segurando-o nas mãos. Então ocorreu-lhe uma ideia. Afastou-se na ponta dos pés, apanhou uma pedra grande e voltou..
Rapidamente agora retirou o pano, embrulhou a pedra nele e, ajoelhando-se, colocou-o de volta perto da mão do mago. Então finalmente olhou para a coisa que tinha descoberto. Ali estava ela: um globo liso de cristal, agora escuro e sem brilho, jazendo a descoberto diante de seus joelhos. Pippin o ergueu, cobriu-o depressa com a própria capa, e deu meia volta para retornar à sua cama. Nesse momento, Gandalf se mexeu dormindo, e murmurou algumas palavras: pareciam ser de uma língua estranha; sua mão tateou e agarrou a pedra embrulhada; então o mago suspirou e não se mexeu mais.
— Seu tolo imbecil — murmurou Pippin para si mesmo. — Vai se meter numa encrenca terrível, Ponha isso de volta, rápido! — Mas agora ele percebia que seus joelhos tremiam, e não ousou se aproximar do mago o suficiente para alcançar o embrulho.
“Nunca vou conseguir colocá-lo de volta agora sem acordar Gandalf”, pensou ele, “não até que eu esteja um pouco mais calmo. Então posso muito bem dar uma olhada primeiro. Mas não aqui!” Afastou-se sorrateiramente e sentou-se sobre um montículo verde não muito distante de sua cama. A lua espiava por sobre a borda do valezinho.
Pippin estava sentado com os joelhos dobrados e a bola entre eles.
Abaixou-se muito sobre ela, como uma criança faminta sobre um prato de comida, num canto longe dos outros. Colocou de lado a capa e olhou para ela. O ar parecia parado e tenso ao seu redor. Primeiro o globo estava escuro, completamente negro, com o luar reluzindo sobre a superfície. Então apareceu um brilho fraco pulsando no centro dele, que prendia seus olhos, de modo que agora Pippin não conseguia desviar o olhar. Logo todo o interior parecia estar em chamas; a bola estava girando, ou as luzes lá dentro estavam virando.
De repente se apagaram.
Pippin soltou um suspiro e fez um esforço, mas permaneceu curvado, e depois ficou rígido; seus lábios se moveram sem fazer ruído por uns instantes. Então, com um grito estrangulado, caiu para trás e ficou imóvel no chão.


O grito foi agudo. Os guardas saltaram dos barrancos. Todo o acampamento logo ficou em polvorosa.
— Então, este é o ladrão — disse Gandalf. Jogou depressa sua capa sobre o globo. — Mas você, Pippin! Este é um acontecimento lamentável! — Ajoelhou-se ao lado do corpo de Pippin: o hobbit estava deitado de costas, rígido, com olhos cegos na direção do céu.
— O feitiço! Que mal terá esse hobbit causado a si mesmo, e a todos nós? — O rosto do mago estava contraído e lívido.
Pegou a mão de Pippin e curvou-se sobre seu rosto, tentando escutar-lhe a respiração; depois colocou a mão sobre a fronte. O hobbit estremeceu. Seus olhos se fecharam.
Soltou um grito e sentou-se, olhando espantado para todos os rostos à sua volta, pálidos ao luar.
— Isso não é para você, Saruman! — gritou ele numa voz aguda e fraca, afastando-se de Gandalf. — Vou mandar buscá-lo imediatamente. Está entendendo? Diga apenas isso! — Então Pippin esforçou-se para se levantar e escapar, mas Gandalf o segurou com delicadeza e firmeza. — Peregrin Túk! — disse ele. — Volte!
O hobbit relaxou o corpo e caiu para trás, segurando na mão do mago.
— Gandalf! — exclamou ele. — Gandalf! Perdoe-me!
— Perdoá-lo? — disse o mago. — Diga-me primeiro o que fez!
— Eu, eu peguei a bola e olhei para ela — gaguejou Pippin — e vi coisas que me fizeram sentir medo. E queria me afastar, mas não consegui. Então ele veio e me interrogou; e olhou para mim, e, e isso é tudo.
— Isso não serve — disse Gandalf asperamente. — O que você viu, e o que você disse?
Pippin fechou os olhos e estremeceu, mas não disse nada. Todos o olhavam em silêncio, com a exceção de Merry, que se virou para o outro lado. Mas o rosto de Gandalf ainda estava inflexível.
— Fale! — disse ele.
Numa voz baixa e hesitante, Pippin começou outra vez, e lentamente suas palavras foram ficando mais claras e fortes.
— Vi um céu escuro, e altas ameias — disse ele. — E pequenas estrelas. Tudo parecia muito longínquo e muito distante no tempo, mas, apesar disso, nítido e frio. Então as estrelas desapareceram e reapareceram – estavam sendo bloqueadas por seres com asas. Muito grandes, eu acho, realmente; mas no cristal pareciam morcegos rodeando a torre. Tive a impressão de que havia nove deles. Um começou a voar na minha direção, ficando cada vez maior. Tinha um horrível – não, não! Não posso dizer.
“Tentei fugir, porque achei que ele ia voar para fora; mas quando ele tinha coberto todo o globo desapareceu. Então ele veio. Não falou de modo que eu pudesse ouvir palavras. Apenas olhou, e eu entendi.
“‘Então você voltou? Por que deixou de dar notícias por tanto tempo?’
“Não respondi. Ele disse: ‘Quem é você?’ Eu ainda não respondi, mas isso me machucava terrivelmente; e ele me pressionou, então eu disse: ‘Um hobbit.’
“Então de repente ele pareceu me enxergar, e riu de mim. Foi cruel. Foi como ser cortado a facadas. Eu lutei. Mas ele disse: ‘Espere um momento! Logo vamos nos encontrar de novo. Diga a Saruman que esse regalo não é para ele. Vou mandar buscá-lo imediatamente. Está entendendo? Diga apenas isso!’
“Então ele olhou para mim todo satisfeito. Senti que estava sendo despedaçado. Não, não! Não posso falar mais nada. Não me lembro de mais nada.
— Olhe para mim! — disse Gandalf
Pippin olhou direto nos olhos dele. O mago prendeu o olhar do hobbit por um momento em silêncio. Então seu rosto ficou mais suave, e a sombra de um sorriso apareceu. Colocou a mão de leve sobre a cabeça de Pippin.
— Tudo bem! — disse ele. — Não diga mais nada! Você não se tornou mau. Não há mentira em seus olhos, como eu receava. Mas ele não falou com você por muito tempo. Um tolo, mas um tolo honesto, você continua sendo, Peregrin Túk. Pessoas mais sábias poderiam ter-se saído pior numa situação dessas. Mas veja bem! Você foi salvo, e todos os seus amigos também, principalmente pela boa sorte, como se diz. Não pode contar com ela uma segunda vez. Se ele o tivesse interrogado, ali e naquela hora, é quase certeza que você lhe teria contado tudo o que sabe, para a ruína de todos nós. Mas ele foi ávido demais. Não queria apenas informação. Queria você, rápido, de modo que pudesse negociar com você na Torre Escura, sem pressa. Não trema! Se você se intromete nos assuntos dos Magos, deve estar preparado para coisas desse tipo. Mas vamos lá! Eu o perdoo. Console-se! As coisas não acabaram tão mal quanto poderiam.
Levantou Pippin com delicadeza e o conduziu de volta para a sua cama.
Merry foi atrás, e sentou-se ao lado do companheiro.
— Deite-se aí e descanse, se puder, Pippin! — disse Gandalf. — Confie em mim. Se sentir de novo um prurido nas mãos, diga-me! Essas coisas têm cura. Mas de qualquer forma, meu caro hobbit, não coloque um embrulho de pedra sob meu cotovelo outra vez! Agora vou deixá-los por uns momentos.
Com isso Gandalf voltou para a companhia dos outros, que ainda estavam parados diante da pedra de Orthanc, pensativos e preocupados.
— O perigo chega na noite quando menos esperamos — disse ele. — Escapamos por pouco!
— Como está o hobbit Pippin? — perguntou Aragorn.
— Acho que tudo ficará bem agora — respondeu Gandalf. — Ele não ficou preso por muito tempo, e os hobbits têm um poder de recuperação surpreendente. A memória, ou o horror que a acompanha, provavelmente vão desaparecer depressa. Depressa demais, talvez. Você poderia, Aragorn, pegar a pedra de Orthanc e guardá-la? É uma tarefa perigosa.
— Realmente perigosa, mas não para todos — disse Aragorn. — Há uma pessoa que poderá reivindicá-la por direito. Pois este é certamente o palantír de Orthanc, do tesouro de Elendil, colocado aqui pelos Reis de Gondor. Agora minha hora se aproxima. Vou ficar com ele!
Gandalf olhou para Aragorn e então, para a surpresa do outro, ergueu a pedra coberta, fez uma reverência e a entregou.
— Receba-o, senhor! — disse ele —, como garantia de outras coisas que serão devolvidas. Mas se posso aconselhá-lo para seu próprio bem, não o use... ainda! Tenha cuidado!
— Quando é que fui apressado ou descuidado, eu que esperei e me preparei por tantos longos anos? — disse Aragorn.
— Nunca ainda. Então não tropece no final da estrada — respondeu Gandalf. — Mas pelo menos guarde esse objeto em segredo. Você, e todos os outros aqui presentes! O hobbit, Peregrin, mais que todos, não deve saber onde foi guardado. O acesso maligno pode acometê-lo outra vez. Pois, infelizmente, ele o segurou e olhou, o que nunca deveria ter acontecido. Ele nunca deveria ter tocado na pedra em Isengard, e naquela ocasião eu deveria ter sido mais rápido. Mas minha mente estava ocupada com Saruman, e eu não percebi imediatamente a natureza da pedra. Depois eu fiquei cansado, e enquanto estava ponderando sobre tudo o sono me dominou. Agora eu sei!
— Sim, não resta dúvida — disse Aragorn. — Finalmente ficamos sabendo qual era o elo entre Isengard e Mordor, e como funcionava. Muita coisa está explicada.
— Estranhos poderes têm nossos inimigos, e estranhas fraquezas! — disse Théoden. Mas há muito tempo se diz: com frequência o mal com o mal se apaga.
— Isso acontece muitas vezes — disse Gandalf. — Mas desta vez fomos estranhamente favorecidos pela sorte. Talvez. Esse hobbit me salvou de cometer um erro grave. Tinha pensado se deveria ou não investigar eu mesmo essa pedra, para descobrir suas utilidades. Se tivesse feito isso, eu mesmo me teria revelado a ele. Ainda não estou pronto para uma prova dessas, se é que realmente algum dia estarei. Mas mesmo que encontrasse a força para me esquivar seria desastroso que ele me visse, agora – antes da hora em que todo o segredo já não trará mais vantagem alguma.
— Acho que essa hora já chegou — disse Aragorn.
— Ainda não — disse Gandalf. — Ainda resta um pouco de dúvida, da qual devemos tirar proveito. O Inimigo, está claro, pensou que a pedra estivesse em Orthanc – e por que não deveria? Por esse motivo, pensou também que o hobbit fosse um prisioneiro lá, levado por Saruman a olhar no cristal e a se atormentar. Aquela mente escura ficará repleta agora da voz e do rosto do hobbit, e de expectativas: vai demorar um pouco até que ele descubra o erro que cometeu. Temos de agarrar essa oportunidade proporcionada pelo tempo. Temos estado muito tranquilos. Precisamos nos mexer. A vizinhança de Isengard não é um bom lugar para permanecermos agora. Vou imediatamente na frente com Peregrin Túk. Isso será melhor para ele do que ficar deitado no escuro enquanto os outros dormem.
— Vou ficar com Éomer e dez Cavaleiros — disse o rei. — Deverão cavalgar comigo no início da manhã. O resto pode ir com Aragorn e partir assim que estiverem dispostos.
— Como quiser — disse Gandalf — Mas vá na maior velocidade possível, para o abrigo das colinas e do Abismo de Helm.
Nesse momento, uma sombra caiu sobre eles. O luar claro pareceu de repente bloqueado. Vários Cavaleiros gritaram e se agacharam, com as mãos na cabeça, como se tentassem proteger-se de um golpe que viesse de cima: foram dominados por um medo cego e um frio mortal.
Encolhendo-se, ergueram os olhos. Uma enorme figura alada passou cobrindo a lua como uma nuvem negra. Fez um rodopio e foi para o norte, voando mais rápido do que qualquer vento da Terra Média. As estrelas se apagavam diante dela. Mas logo sumiu. Levantaram-se, rígidos como pedras. Gandalf estava olhando para cima, os braços estendidos para baixo, as mãos crispadas.
— Nazgúl! — gritou ele. — O mensageiro de Mordor. A tempestade se aproxima! Os Nazgúl atravessaram o Rio! Cavalguem, cavalguem! Não esperem pela aurora! Que os rápidos não esperem pelos lentos. Cavalguem!
Saiu de um salto, chamando Scadufax enquanto corria. Aragorn o seguiu. Indo em direção a Pippin, Gandalf pegou-o em seus braços.
— Você virá comigo desta vez — disse ele. — Scadufax vai lhe mostrar como voa.
Depois correu para o lugar onde tinha dormido. Scadufax já estava lá. Pendurando no ombro a pequena bolsa onde guardava todas as suas coisas, o mago saltou sobre o lombo do cavalo. Aragorn levantou Pippin e o colocou nos braços de Gandalf, embrulhado em capa e cobertor.
— Até logo! Partam logo! — gritou Gandalf — Vamos, Scadufax!
O grande cavalo empinou a cabeça. Sua cauda esvoaçante brilhou no luar. Então deu um salto à frente, levantando poeira, e se foi como o Vento Norte que sopra das montanhas.
— Uma bela noite de sono! — disse Merry para Aragorn. — Algumas pessoas têm uma grande sorte. Pippin não queria dormir, e queria cavalgar com Gandalf – e lá vai ele! Em vez de ser transformado numa pedra, e ficar plantado aqui para sempre, como uma advertência.
— Se fosse você o primeiro a erguer a pedra de Orthanc, e não ele, qual seria a situação agora? — disse Aragorn. — Você poderia ter-se saído pior. Quem pode saber? Mas agora sua sorte é vir comigo, eu receio. Imediatamente. Vá e se apronte, e traga qualquer coisa que Pippin tenha deixado para trás. Apresse-se!


Scadufax voava pelas planícies, sem que fosse preciso guiá-lo ou incitá-lo. Menos de uma hora se passara, e eles já tinham alcançado e atravessado os Vaus do Isen. O Túmulo dos Cavaleiros, com suas lanças frias, jazia cinzento atrás deles.
Pippin estava se recuperando. Estava quente, mas o vento em seu rosto era intenso e refrescante. Estava com Gandalf. O terror da pedra e da sombra hedionda sobre a lua ia desaparecendo, coisas deixadas para trás na névoa das montanhas, ou num sonho passageiro. Respirou fundo.
— Não sabia que você cavalgava em pelo, Gandalf — disse ele. — Você está sem sela ou rédea!
— Não cavalgo à maneira dos elfos, a não ser em Scadufax — disse Gandalf. — Mas Scadufax não aceita rédeas. Você não o cavalga: ele está disposto a carregá-lo – ou não. Se estiver disposto, isso é o suficiente. Então ele cuidará para que você permaneça sobre seu lombo, a não ser que você queira atirar-se no ar.
— Com que velocidade ele está indo? — perguntou Pippin. — Rápido como o vento, mas com muita suavidade. E como são leves suas passadas!
— Agora ele está correndo como o cavalo mais rápido poderia galopar — respondeu Gandalf —, mas isso para ele não é rápido. O terreno está subindo um pouco aqui, e está mais acidentado do que estava além do rio. Mas veja como as Montanhas Brancas estão se aproximando sob as estrelas! Mais adiante estão os picos de Thrihyrne como lanças negras. Não vai demorar muito para chegarmos até a bifurcação da estrada e atingirmos a Garganta do Abismo, onde foi travada a batalha, duas noites atrás.
Pippin ficou em silêncio outra vez por um tempo. Ouviu Gandalf cantando baixinho para si mesmo, murmurando trechos curtos de rimas em muitas línguas, enquanto as milhas corriam debaixo deles. Finalmente o mago passou a uma canção da qual o hobbit conseguiu entender as palavras: alguns versos chegaram claros aos seus ouvidos através do vento apressado.

Grandes reis e navios
Três vezes três
Que trouxeram da terra submersa
Pelo mar na fluidez?
Sete estrelas, sete pedras
Branca árvore talvez.

— O que está dizendo, Gandalf? — perguntou Pippin.
— Estava apenas repassando algumas das Rimas da Tradição em minha cabeça — respondeu o mago. — Os hobbits, eu suponho, esqueceram-nas, mesmo aqueles que as conheciam.
— Não, nem todas — disse Pippin. — E temos muitas que são nossas, que talvez não fossem de seu interesse. Mas nunca ouvi essa. De que se trata as sete estrelas e sete pedras?
— É sobre os palantíri dos Reis de Outrora — disse Gandalf.
— Que são eles?
— O nome significa que enxerga de longe. A pedra de Orthanc era um deles.
— Então ela não foi feita... não foi feita — Pippin hesitou — pelo Inimigo?
— Não — disse Gandalf — Nem por Saruman. Está além de sua arte, e além da arte de Sauron também. Os palantír vieram de além do Ponente, de Eldamar. Os Noldor os fizeram. O próprio Fêanor, talvez, os tenha feito, em dias tão distantes que o tempo não pode ser medido em anos. Mas não há nada que Sauron não possa desviar para usos malignos. Pobre Saruman! Foi sua desgraça, percebo agora. Perigosos para todos nós são os instrumentos de uma arte mais profunda do que a possuída por nós mesmos. Mesmo assim ele deve carregar a culpa. Tolo!, quis mantê-lo em segredo, para seus próprios interesses. Nunca disse uma palavra sobre a pedra a ninguém do Conselho. Não tínhamos pensado ainda no destino dos palantíri de Gondor em suas guerras desastrosas. Pelos homens foram praticamente esquecidos. Mesmo em Gondor, eram um segredo conhecido por poucos; em Arnor, eram lembrados apenas numa rima da tradição entre os Dúnedain.
— Com que finalidade os Homens de Outrora os usavam? — perguntou Pippin, deliciado e atônito ao conseguir respostas para tantas perguntas, e imaginando o quanto aquilo iria durar.
— Para enxergar à distância, e conversar em pensamento uns com os outros — disse Gandalf. — Dessa maneira protegeram e uniram por muito tempo o reino de Gondor. Colocaram Pedras em Minas Anor, em Minas Ithil e em Orthanc, no círculo de Isengard. A principal, a pedra mestra, estava sob a Cúpula das Estrelas em Osgiliath, antes de sua destruição. As outras três estavam muito distantes, no norte. Na casa de Elrond, conta-se que elas estavam em Armúminas, e em Amon Súl, e a pedra de Elendil estava sobre as Colinas das Torres, que olhavam na direção de Mithlond no Golfo de Lúri, onde jazem os navios cinzentos.
“Cada palantír se comunicava com os outros, mas todos os que estavam em Gondor estavam sempre abertos à vista de Osgiliath. Agora parece que, assim como a rocha de Orthanc resistiu às tempestades do tempo, também o palantír daquela torre permaneceu. Mas sozinho ele não poderia fazer nada além de ver pequenas imagens de coisas distantes e dias remotos. Muito útil, sem dúvida, ele era para Saruman; apesar disso, parece que ele não ficou satisfeito. Olhou mais e mais além, até que lançou seu olhar sobre Barad-dûr. Então foi pego!
“Quem pode saber onde estão agora as pedras perdidas de Arnor e Gondor, enterradas ou debaixo de águas profundas? Acho que esta era a pedra de Ithil, pois ele tomou Minas Ithil há muito tempo, transformando-o num lugar maligno: Minas Morgul ficou sendo seu nome.
“Agora é fácil supor com que rapidez o olho errante de Saruman caiu e ficou preso na armadilha, e como, desde então, ele foi persuadido de longe, e intimidado, quando a persuasão não surtia efeito. O feitiço contra o feiticeiro, o falcão debaixo do pé da águia, a aranha numa teia de aço! Por quanto tempo, fico imaginando, foi ele forçado a procurar com frequência esta pedra para inspeções e instruções, e por quanto tempo a pedra de Orthanc foi de tal modo inclinada na direção de Barad-dûr que, se qualquer pessoa sem uma força de vontade extraordinária agora olhar dentro dela, a pedra levará sua mente e vista rapidamente para lá? E que poder tem ela de atrair para si as pessoas! Acaso eu não o senti? Mesmo agora meu coração deseja testar minha força de vontade sobre ela, para ver se eu não conseguiria arrancá-la dele e voltá-la para onde eu quisesse – para olhar através dos amplos mares de água e de tempo até atingir Tirion, a Bela, e perceber a mão e a mente inimagináveis de Ranor trabalhando, enquanto tanto a Árvore Branca como a Dourada estivessem em flor! — Gandalf suspirou e ficou em silêncio.
— Gostaria de ter sabido tudo isso antes — disse Pippin. — Eu não tinha noção do que estava fazendo.
— Ah, sim, você tinha — disse Gandalf — Sabia que estava se comportando de modo errado e tolo, e disse isso para si mesmo, mas não escutou. Eu não lhe disse tudo isso antes porque foi só meditando sobre tudo o que aconteceu que finalmente entendi, neste momento em que cavalgamos juntos. Mas se eu tivesse falado antes isso não teria diminuído seu desejo, ou feito com que ele ficasse mais fácil de resistir. Pelo contrário. Não! A mão queimada ensina melhor. Depois disso o conselho sobre o fogo chega ao coração.
— É verdade — disse Pippin. — Se todas as sete pedras fossem colocadas diante de mim agora, eu fecharia os olhos e poria as mãos no bolso.
— Muito bem! — disse Gandalf. — Era isso que eu esperava.
— Mas eu gostaria de saber... — começou Pippin.
— Peço clemência! — exclamou Gandalf — Se fornecer informações for a cura para sua curiosidade, vou passar o resto de meus dias respondendo a você. Que mais quer saber?
— Os nomes das estrelas, e de todos os seres vivos, e a história completa da Terra Média, e do Sobrecéu e dos Mares Divisores — disse rindo Pippin. — É claro! Por que menos? Mas esta noite não estou com pressa. Por enquanto estava só pensando sobre a sombra negra. Ouvi-o gritar “mensageiro de Mordor”, que era aquilo? Que poderia fazer em Isengard?
— Era um Cavaleiro Negro com asas, um Nazgúl — disse Gandalf. — Poderia tê-lo levado para a Torre Escura.
— Mas não veio em minha busca, veio? — vacilou Pippin. — Quero dizer, ele não sabia que eu tinha...
— Claro que não — disse Gandalf. — São duzentas léguas ou mais em linha reta de Barad-dûr até Orthanc, e até um Nazgúl levaria algumas horas para voar entre os dois lugares. Mas Saruman certamente olhou dentro da Pedra desde o ataque dos orcs, e não duvido que tenha sido lida uma parte de seus pensamentos secretos maior do que ele desejava. Um mensageiro foi enviado para descobrir o que ele está fazendo. E depois do que aconteceu esta noite um outro virá, eu acho, e depressa. Assim Saruman chegará ao último aperto na morsa na qual colocou a própria mão. Ele não tem nenhum prisioneiro para enviar. Não tem nenhuma pedra com a qual possa enxergar, e não pode responder aos chamados. Sauron só poderá crer que ele está detendo o prisioneiro e se recusando a usar a pedra. Não vai adiantar nada Saruman dizer a verdade ao mensageiro. Isengard pode estar arruinada, mas ele ainda está a salvo em Orthanc. Portanto, quer ele queira ou não, dará a impressão de ser um rebelde. E contudo ele nos rejeitou, para evitar exatamente que isso acontecesse! O que fará numa situação dessas, não posso adivinhar. Acho que ele ainda tem poder, enquanto permanecer em Orthanc, para resistir aos Nove Cavaleiros. Pode ser que ele tente. Pode ser que tente prender o Nazgúl, ou pelo menos matar a coisa na qual ele agora cavalga pelos ares. Nesse caso, que Rohan cuide de seus cavalos!
“Mas não sei dizer se o resultado será bom ou ruim para nós. Pode ser que os planos do Inimigo sejam confundidos, ou atrasados por sua ira em relação a Saruman. Pode ser que ele saiba que eu estava lá e fiquei na escada de Orthanc – com hobbits pendurados em minha cauda. Ou que um herdeiro de Elendil ainda vive e ficou ao meu lado. Se Língua de Cobra não foi iludido pela armadura de Rohan, ele poderá se lembrar de Aragorn e do título que ele reivindicou. É isto que eu temo. É por isso que precisamos fugir – não do perigo, mas em direção a um perigo maior. Cada passada de Scadufax o leva para mais perto da Terra da Sombra, Peregrin Túk.
Pippin não respondeu, mas agarrou-se à capa, como se um frio repentino o golpeasse. Terras cinzentas passavam embaixo deles.
— Veja agora! — disse Gandalf — Os vales do Folde Ocidental estão se abrindo diante de nós. Aqui retornamos à estrada que leva ao leste. A sombra escura mais à frente é a abertura da Garganta do Abismo. Daquele lado fica Aglarond, e as Cavernas Cintilantes. Não me peça para falar sobre elas. Pergunte a Gimli, se vocês se encontrarem, e pela primeira vez na vida poderá ouvir uma resposta mais longa do que deseja. Você não vai poder ver as cavernas com os próprios olhos, não nesta viagem. Logo elas já estarão distantes lá atrás.
— Pensei que você ia parar no Abismo de Helm! — disse Pippin. — Então, para onde está indo?
— Para Minas Tirith, antes que os mares da guerra a envolvam.
— Ah! E a que distância fica?
— Léguas e mais léguas — respondeu Gandalf. — Três vezes mais longe que as moradias do Rei Théoden, e elas ficam a mais de cem milhas a leste deste lugar, num voo dos mensageiros de Mordor. Scadufax deve ir por uma estrada mais longa. Qual deles se mostrará mais rápido?
— Vamos cavalgar até o nascer do dia, para o qual ainda faltam algumas horas. Depois disso, até mesmo Scadufax precisará descansar, em alguma reentrância das montanhas: em Edoras, eu espero. Durma, se conseguir! Poderá ver o primeiro raio da aurora sobre o teto dourado da casa de Eorl. E dali a dois dias verá a sombra púrpura do Monte Mindol um e as muralhas da Torre de Denethor, brancas pela manhã.
— Adiante agora, Scadufax! Corra, meu bom cavalo, corra como nunca correu antes! Agora chegaremos às terras onde você foi criado e das quais conhece cada pedra. Corra agora! A esperança repousa na rapidez!
Scadufax empinou a cabeça e soltou um relincho, como se um corneteiro o tivesse convocado para alguma batalha. Então projetou-se para a frente. Saía fogo de suas patas: a noite corria acima dele.
Enquanto adormecia lentamente, Pippin teve uma estranha sensação: ele e Gandalf estavam imóveis como pedras, sentados sobre a estátua de um cavalo que corria, enquanto o mundo rolava sob os pés dele com um grande barulho de vento.

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