17 de abril de 2016

Capítulo XI: Do sol, da lua e da ocultação de Valinor

Conta-se que, depois da fuga de Melkor, os Valar passaram muito tempo sentados imóveis, nos seus tronos no Círculo da Lei; mas não estavam ociosos, como Fëanor declarara, no desatino de seu coração. Pois os Valar podem fazer muitas coisas com o pensamento, em vez de usar as mãos; e sem usar a voz, em silêncio, eles podem conferenciar uns com os outros. Assim, eles cumpriram vigília na noite de Valinor, e seu pensamento voltou a tempos anteriores a Eä e avançou até o Fim. Contudo, nem o poder nem a sabedoria mitigavam sua dor e o conhecimento do mal na hora em que ele surge. E não lamentavam mais a perda das Árvores do que o desencaminhamento de Fëanor: das obras de Melkor, uma das mais perversas. Pois em todas as partes do corpo e da mente, em valentia, em resistência, em beleza, em compreensão, em talento, em força e em sutileza, no mesmo grau, Fëanor havia sido o mais poderoso de todos os Filhos de Ilúvatar, e nele ardia uma chama brilhante. As obras maravilhosas para a glória de Arda que ele poderia ter criado, se tudo tivesse sido diferente, somente Manwë poderia de certo modo conceber. E os vany ar que estavam em vigília junto aos Valar relataram que, quando os mensageiros repetiram a Manwë as respostas de Fëanor a seus arautos, Manwë chorou e baixou a cabeça. Já à última frase de Fëanor — de que no mínimo os feitos futuros dos noldor vive-riam para sempre em canções —, Manwë ergueu a cabeça, como alguém que ouve uma voz ao longe.
— Assim seja! Custosas lhes sairão essas canções e serão, entretanto, uma boa aquisição. Pois o preço não poderia ser outro. Assim, exatamente como Eru nos falou, uma beleza ainda não concebida chegará a Eä e ainda terá sido bom que o mal tenha existido.
— E mesmo assim continuará sendo o mal — retrucou Mandos, porém — A mim Fëanor virá em breve.
Mas quando afinal os Valar souberam que os noldor haviam de fato deixado Aman e estavam de volta a Terra Média, eles se ergueram e começaram a concretizar em atos as decisões tomadas em pensamento para remediar os danos causados por Melkor. Então Manwë pediu a Yavanna e Nienna que exercessem todos os seus poderes em prol do crescimento e da cura. E elas aplicaram todos os seus poderes às Árvores. Porém, as lágrimas de Nienna não conseguiram curar seus ferimentos mortais, e por muito tempo Yavanna cantou sozinha na penumbra. Mesmo assim no exalo momento em que faltou esperança, e seu canto hesitou, Telperion produziu, afinal, num galho sem folhas, uma enorme flor de prata; e Laurelin, um único fruto de ouro.
Esses Yavanna colheu e então as Árvores morreram E seus troncos sem vida ainda estão em pé em Valinor, um monumento à alegria perdida. Já a flor e o fruto Yavanna deu a Aulë e Manwë os abençoou. E Aulë e seu povo criaram naves para contê-los e conservar seu brilho, como está relatado no Narsilion, o Cântico do Sol e da Lua. Essas naves os Valr entregaram a Varda, para que se tornassem lamparinas no firmamento, brilhando mais do que as estrelas antigas, por se encontrar mais perto de Arda. E ela lhes deu o poder de transitar pelas regiões inferiores de Ilmen e as pôs a percorrer trajetos definidos acima do cinturão da Terra, do oeste para o leste, e a voltar.
Tudo isso os Valar fizeram, relembrando, em sua penumbra, a escuridão das terras de Arda. E resolveram então iluminar a Terra Média para, com a luz, dificultar os feitos de Melkor. Pois lembravam-se dos avari que haviam permanecido junto às águas de seu despertar; e também não haviam abandonado totalmente os noldor no exílio. Além disso, Manwë sabia que a hora da chegada dos homens se aproximava. E o que se diz é que, da mesma forma que os Valar fizeram guerra a Melkor para proteger os quendi, agora eles eram tolerantes para proteger os hildor, Os Sucessores, os Filhos Mais Novos de Ilúvatar. Pois tão graves haviam sido os danos causados a Terra Média na guerra contra Utumno, que os Valar temiam que algo ainda pior pudesse acontecer, já que os hildor seriam mortais e mais fracos do que os quendi para suportar o medo e o tumulto. Ademais, não foi revelado a Manwë em que local se daria o início dos homens, a norte, sul ou leste. Por isso, os Valar produziram luz, mas fortificaram a terra onde habitavam.
Isil, o Esplendor, foi como os vany ar de outrora chamaram a Lua, em Valinor, flor de Telperion; e Anar, o Ouro de Fogo, fruto de Laurelin, foi como chamaram o Sol. Já os noldor também os chamaram de Rána, a Inconstante, e Vása, o Coração de Fogo, que desperta e incendeia. Pois o Sol foi criado como um sinal para o despertar do homem e para o declínio dos elfos, ao passo que a Lua homenageia sua memória.
A donzela que os Valar escolheram entre os Maiar para conduzir a nave do Sol chamava-se Arien; e aquele que guiava a ilha da Lua foi Tilion. No tempo das Árvores, Arien cuidava das flores douradas nos jardins de Vána e as regava com os orvalhos cintilantes de Laurelin. Já Tilion era um caçador do grupo de Oromë e possuía um arco de prata. Ele adorava a prata e, quando queria descansar, deixava os bosques de Oromë e, entrando em Lórien, deitava-se, sonhador, junto aos poços de Estë, sob os raios cintilantes de Telperion. E Tilion implorou que lhe dessem a missão de cuidar para sempre da última Flor de Prata. Arien, a donzela, era mais poderosa do que ele, e foi escolhida por não ter sentido medo do calor de Laurelin e por não ter sido ferida por ele, já que desde o início ela era um espírito de fogo que Melkor não havia conseguido enganar nem atrair para seu serviço. Os olhos de Arien eram brilhantes demais até mesmo para os elfos contemplarem; e, ao deixar Valinor, ela abandonou a forma e os trajes que, como os Valar, usava lá e se tornou como que uma labareda nua, terrível na plenitude de seu esplendor.
Isil foi criada e preparada em primeiro lugar, e subiu primeiro para o reino das estrelas, sendo a mais velha dos novos luzeiros, como Telperion fora a mais velha das Árvores. Por algum tempo, então, o mundo teve luar, e começou a se mover e a despertar grande quantidade de seres que muito haviam aguardado no sono de Yavanna. Os servos de Morgoth muito se admiraram, mas os elfos das Terras de Fora olhavam para o céu, felizes. E no exato instante em que a Lua surgiu, acima da escuridão no oeste, Fingolfin soou suas trombetas de prata e começou sua marcha para entrar na Terra Média. E as sombras de sua hoste iam longas e negras a sua frente.
Tilion já atravessara os céus sete vezes e, portanto, estava no extremo leste, quando a nave de Arien ficou pronta. E então Anar surgiu, gloriosa. E a primeira aurora do Sol foi como um enorme incêndio sobre as torres das Pelóri: as nuvens da Terra Média foram aquecidas, e ouviuse o som de muitas cachoeiras. Então, Morgoth de fato se intimidou, enfurnou-se nas maiores profundezas de Angband e recolheu seus servos, emitindo vapores fortíssimos e uma nuvem negra para ocultar seus domínios da luz da Estrela do Dia.
Ora, Varda pretendia que as duas naves viajassem em Ilmen e que sempre estivessem nas alturas, mas não juntas. Cada uma deveria passar por Valinor, entrar no leste e voltar, sendo que uma sairia do oeste no momento em que a outra começasse a voltar do leste. Assim, os primeiros dos novos dias foram contados à maneira das Árvores, pela mescla das luzes quando Arien e Tilion passavam cada um em seu trajeto, acima do meio da Terra. Entretanto, Tilion era inconstante e incerto em sua velocidade e não se fixava no caminho que lhe era designado.
Além disso, procurava se aproximar de Arien, sendo atraído pelo seu esplendor, embora a chama de Anar o queimasse, e a ilha da Lua ficasse chamuscada.
Em virtude da rebeldia de Tilion e ainda mais em resposta às súplicas de Lórien e Estë, que diziam que o sono e o descanso haviam sido banidos da Terra e as estrelas estavam ocultas, Varda mudou de opinião e concedeu um período no qual o mundo ainda tivesse sombra e penumbra. Anar descansaria algum tempo em Valinor, deitado no colo fresco e acolhedor do Mar de Fora; e o Entardecer, a hora da descida e do descanso do Sol, era a hora de maior luz e alegria em Aman. Logo, porém, o Sol era arrastado para baixo pelos servos de Ulmo e seguia apressado por baixo da Terra, chegando, assim, invisível, ao leste para ali voltar a subir no firmamento, a fim de que a noite não se prolongasse, e o mal não se espalhasse à luz da Lua.
Pelo poder de Anar, porém, as águas do Mar de Fora eram aquecidas e refulgiam com um fogo colorido, e Valinor teve luz por algum tempo depois da passagem de Arien. Contudo, à medida que Arien seguia por baixo da Terra e se aproximava do leste, o fulgor desbotava, e Valinor ficava às escuras. Nessa hora, os Valar mais lamentavam a morte de Laurelin. Ao amanhecer, as sombras das Montanhas da Defesa caíam pesadas sobre o Reino Abençoado.
Varda ordenou que a Lua se movimentasse da mesma forma e que, passando por baixo da Terra, nascesse no leste, mas somente depois que o Sol tivesse descido do céu. Tilion, no entanto, seguia com um ritmo instável, como ainda segue, e era sempre atraído por Arien, como sempre será. De tal modo que, com frequência, os dois podem ser vistos acima da Terra, juntos; ou pode acontecer que Tilion se aproxime tanto do Sol, que sua sombra esconda o brilho de Arien, e surja a escuridão no meio do dia.
Portanto, com as idas e vindas de Anar, os Valar contaram os dias a partir dali até a Mudança do Mundo. Pois Tilion pouco se demorava em Valinor, mas na maioria das vezes passava veloz pelas terras do ocidente, por Avathar, Araman ou Valinor, e mergulhava no abismo do outro lado do Mar de Fora, seguindo seu caminho em solidão em meio às grutas e cavernas nas raízes de Arda. Ali, costumava passar muito tempo perambulando, só voltando tarde.
Ainda assim, após a Longa Noite, a luz de Valinor era mais forte e mais clara do que a da Terramédia; pois o Sol lá descansava, e as luzes do firmamento se aproximavam mais da Terra naquela região. No entanto, nem o Sol nem a Lua  conseguem trazer à lembrança a luz que existia antes, a que emanava das Árvores antes que elas fossem tocadas pelo veneno de Ungoliant. Aquela luz sobrevive agora apenas nas Silmarils.
Morgoth, porém, odiava os novos luzeiros, e por algum tempo ficou desnorteado com esse inesperado golpe dos Valar. Atacou, então, Tilion, enviando espíritos de sombra contra ele, e houve luta em Ilmen sob os caminhos das estrelas, mas Tilion saiu vitorioso. E de Arien, Morgoth sentia um medo imenso e não ousava se aproximar, já não possuindo mais esse poder.
Pois, à medida que crescia em perversidade e transmitia o mal que concebia sob a forma de mentiras e criaturas nefastas, seu poder passava para elas e se dispersava, enquanto ele mesmo ficava cada vez mais preso a terra, relutante em sair de seus redutos sinistros. Com sombras, escondia a si mesmo e a seus servos de Arien, cujo olhar não conseguia suportar por muito tempo, e as terras em tomo de sua morada eram envoltas em vapores e nuvens enormes.
Ao ver, porém, a investida contra Tilion, os Valar ficaram em dúvida, temendo o que a perversidade e a astúcia de Morgoth poderiam ainda tramar contra eles. Embora não se dispusessem a enfrentá-lo na Terra Média, eles mesmo assim se lembravam da destruição de Almaren. E resolveram que nada de semelhante aconteceria a Valinor. Por isso, naquela época, voltaram a fortificar toda a terra e ergueram as paredes das Montanhas Pelóri a alturas tremendas e intransponíveis, a leste, norte e sul As encostas externas eram escuras e lisas, sem saliência ou ponto de apoio para os pés, e elas caíam em grandes precipícios, com a superfície lisa como vidro, e se elevavam em enormes picos coroados de gelo branco. Estabeleceu-se nelas uma guarda ininterrupta, e não havia passagem que as atravessasse, à exceção da Calaciry a. Essa passagem, entretanto, os Valar não fecharam, em consideração aos eldar que lhes eram fiéis. E na cidade de Tirion sobre a colina verde, Finarfin ainda governava os que restavam dos noldor na profunda fenda nas montanhas. Pois todos os que são da raça dos elfos, até mesmo os vany ar e seu senhor, Ingwë, precisam às vezes respirar o ar de fora e o vento que vem pelo mar das terras de seu nascimento. E os Valár ainda não se dispunham a isolar os teleri totalmente dos seus parentes. Mesmo assim, na Calaciry a, foram instaladas fortes torres e muitas sentinelas. E em sua extremidade, nos planaltos de Valmar, acampava um exército, para que nem ave, animal, elfo, homem, nem nenhuma criatura que habitasse a Terra Média  passasse por aquela tropa.
E foi também nessa época, que os poemas chamam de Nurtalë Valinóreva, a Ocultação de Valinor, que as Ilhas Encantadas foram criadas, e todos os mares ao redor foram preenchidos com sombras e desorientação. E essas ilhas foram dispostas como uma rede nos Mares Sombrios, de norte a sul, antes que Tol Eressëa, a Ilha Solitária, fosse alcançada por quem navegasse para o oeste. Dificilmente um barco conseguiria passar por elas, pois nos perigosos estreitos as ondas suspiravam eternamente em rochas escuras ocultas na névoa. E, naquela penumbra, um enorme cansaço se abatia sobre os marinheiros, acompanhado de ódio ao mar; mas quem chegasse a pisar nas ilhas ali ficaria preso, e dormiria até a Mudança do Mundo. Foi assim que, como Mandos lhes havia prenunciado em Araman, o Reino Abençoado se fechou para impedir a entrada dos noldor. E, dos muitos mensageiros que em tempos posteriores navegaram para o oeste, nenhum jamais chegou a Valinor — à exceção de um apenas: o mais poderoso marinheiro que teve sua história contada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!