11 de abril de 2016

Capítulo X - A voz de Saruman

Passaram pelo túnel arruinado e pararam sobre um monte de pedras, olhando para a rocha escura de Orthanc, e para suas muitas janelas, ainda uma ameaça em meio à desolação que se espalhava ao redor. A água tinha baixado quase por completo. Aqui e ali restavam algumas poças escuras, cobertas de destroços e escória; porém a maior parte do amplo círculo estava descoberta de novo, um lugar desolado cheio de limo e pedras caídas, perfurado por buracos enegrecidos, e salpicado por pilares e postes que pendiam para um lado ou para o outro feito bêbados. Na borda da vasilha despedaçada jaziam grandes montes de entulho, como o cascalho juntado por uma grande tempestade; além deles o vale verde e irregular subia o longo precipício por entre os braços escuros das montanhas.
Através da devastação eles viram cavaleiros avançando com cautela; vinham da encosta norte e já se aproximavam de Orthanc.
— Lá vêm Gandalf, Théoden e seus homens! — disse Legolas. — Vamos encontrá-los!
— Ande com cuidado! — disse Merry. — Há lajes soltas que podem virar e jogá-lo dentro de algum poço, se não for cauteloso!
Seguiram pelo que restava da estrada que vinha dos portões de Orthanc, andando devagar, pois as pedras estavam rachadas e cheias de lodo. Os cavaleiros, ao vê-los se aproximando, pararam sob a sombra da rocha e esperaram. Gandalf avançou para encontrá-los.
— Bem, Barbárvore e eu tivemos umas discussões interessantes, e fizemos alguns planos — disse ele — e tivemos todos o mais que indispensável descanso. Agora precisamos continuar outra vez. Espero que vocês, companheiros, tenham descansado também, e recuperado as energias.
— Descansamos sim — disse Merry. — Mas nossas discussões começaram e terminaram em fumaça. Nossa disposição em relação a Saruman está um pouco melhor do que estava.
— É mesmo? — disse Gandalf — Bem, a minha não. Tenho agora uma última tarefa a desempenhar antes de partir: devo fazer uma visita de despedida a Saruman. Perigosa, e provavelmente inútil; mas isso precisa ser feito. Aqueles dentre vocês que quiserem podem me acompanhar – mas cuidado! E não façam gracejos! Agora não é hora para isso.
— Eu vou — disse Gimli. — Quero vê-lo para saber se ele realmente se parece com você.
— E como você vai saber isso, Mestre Anão? — disse Gandalf — Saruman poderia se parecer comigo aos seus olhos, se isso se adequasse aos propósitos dele em relação a você. E será que você já é sábio o suficiente para detectar todos os disfarces dele? Bem, talvez, vamos ver. Pode ser que ele se sinta acanhado em se expor diante de muitos olhos diferentes ao mesmo tempo. Mas ordenei a todos os ents que desaparecessem de vista, então talvez consigamos convencê-lo a aparecer.
— Qual é o perigo? — perguntou Pippin. — Ele vai atirar em nós, ou despejar fogo pelas janelas? Ou vai nos lançar um feitiço à distância?
— A última coisa é a mais provável, se você se dirigir à porta dele com o coração desprevenido — disse Gandalf. — Mas não há como saber o que ele fará, ou o que decidirá tentar. Não é seguro se aproximar de um animal selvagem acuado. E Saruman tem poderes que você nem imagina. Tomem cuidado com a voz dele!
Agora estavam ao pé de Orthanc. Era uma torre negra, e a rocha brilhava como se estivesse molhada. As muitas facetas da pedra tinham arestas perfeitas, como se tivessem sido recentemente cinzeladas. Algumas estrias e pequenas lascas acumuladas junto da base eram as únicas marcas da fúria dos ents.
No lado oriental, no ângulo formado por duas facetas, havia uma grande porta, bem acima do solo; e sobre ela via-se uma janela que se abria em folhas sobre uma sacada cercada por grades de ferro. Conduzindo à soleira da porta subia um lance de vinte e sete degraus largos, que alguma arte desconhecida esculpira na mesma rocha negra.
Essa era a única entrada para a torre, mas várias janelas altas haviam sido cortadas em vãos fundos parede acima: lá no alto elas espiavam como pequenos olhos nas faces íngremes dos chifres.
Ao pé da escada, Gandalf e o rei desmontaram.
— Vou subir — disse Gandalf. — Já estive em Orthanc, e conheço o perigo que estou correndo.
— E eu também vou subir — disse o rei. — Estou velho, e já não temo perigo nenhum. Quero falar com o inimigo que me fez tanto mal. Éomer virá comigo, para cuidar que meus pés idosos não vacilem.
— Como quiser — disse Gandalf — Aragorn me acompanhará. Que os outros esperem ao pé da escada. Vão ouvir e ver o suficiente, se houver alguma coisa para ouvir e ver.
— Não! — disse Gimli. — Legolas e eu queremos uma vista mais próxima. Somos os únicos aqui que representamos nossos povos. Também vamos.
— Então venham! — disse Gandalf.
Com isso subiu os degraus, com Théoden ao seu lado.
Os Cavaleiros de Rohan ficaram inquietos em seus cavalos, dos dois lados da escada, lançando olhares sombrios para a grande torre, temendo o que poderia acontecer a seu senhor. Merry e Pippin se sentaram no último degrau, sentindo-se ao mesmo tempo desimportantes e desprotegidos.
— Meia milha de lama daqui até o portão! — murmurou Pippin. — Gostaria de poder me esgueirar de volta até a casa de guarda sem ser notado! Por que viemos? Não somos desejados.
Gandalf parou diante da porta de Orthanc e bateu nela com seu cajado. A porta produziu um som oco.
— Saruman, Saruman! — gritou ele, numa voz alta e imperiosa. — Saruman, apareça!
Por algum tempo não houve qualquer resposta. Finalmente a janela acima da porta foi destrancada, mas não se via ninguém através da abertura escura.
— Quem é? — perguntou uma voz. — O que deseja?
Théoden estremeceu.
— Conheço essa voz — disse ele — e amaldiçoo o dia em que dei ouvidos a ela pela primeira vez.
— Vá e traga Saruman, já que você se transformou no lacaio dele, Gríma Língua de Cobra! — disse Gandalf. — E não nos faça esperar!
A janela se fechou. Eles esperaram. De repente, uma outra voz falou, suave e melodiosa, seu próprio som um encantamento. As pessoas que escutavam aquela voz desavisadamente mal conseguiam depois reportar as palavras que tinham ouvido; e quando conseguiam titubeavam, pois pouca força restava nelas. A maior parte do que conseguiam lembrar era o prazer que sentiram ao ouvir a voz falando, e que tudo o que ela dissera parecera sábio e razoável, despertando neles um desejo de, mediante um acordo rápido, parecerem sábios também. Quando outras vozes falavam, pareciam por contraste rudes e grosseiras; e se se opusessem à voz o ódio se acendia no coração dos que estavam sob o efeito do encanto. Para alguns o encanto durava apenas enquanto a voz lhes falava, e quando ela se dirigia aos outros eles sorriam, como os homens fazem quando percebem o truque de um ilusionista diante do qual os outros ficam pasmos. Para muitos, apenas a voz era o suficiente para mantê-los cativos; mas para aqueles que eram seduzidos por ela o encantamento perdurava mesmo quando estava longe, e eles continuavam escutando a voz suave sussurrando e incitando-os. Mas ninguém ficava impassível; ninguém conseguia recusar seus pedidos e seus comandos sem um esforço de mente e de vontade, enquanto seu mestre tivesse controle dela.
— Então? — disse a voz, agora com gentileza. — Por que precisam perturbar meu descanso? Não vão me deixar em paz de modo algum, dia e noite? — O tom era de um coração gentil machucado por insultos imerecidos.
Eles ergueram os olhos, atônitos, pois não tinham ouvido ninguém se aproximar; e viram uma figura parada perto da grade, olhando para baixo: um velho, vestido num grande manto, cuja cor era difícil de definir, pois mudava se eles mexessem os olhos, ou se ele se movimentasse. O rosto era longo, com uma fronte alta; tinha olhos profundos e escuros, difíceis de penetrar, embora a expressão que agora tinham fosse grave e benevolente, além de um pouco cansada. Os cabelos e a barba eram brancos, mas mechas negras ainda se mostravam na altura dos lábios e das orelhas.
— Parecido, e ao mesmo tempo diferente — murmurou Gimli.
— Vamos lá, agora — disse a voz suave. — Pelo menos dois de vocês eu conheço de nome. A Gandalf conheço bem demais para ter muitas esperanças de que ele procure auxílio ou conselhos aqui. Mas você, Théoden, Senhor da Terra dos Cavaleiros de Rohan, declara-se através de seu nobre brasão, e ainda mais pelo belo semblante da Casa de Eorl, ó, valoroso filho de Thengel, o Triplamente Renomado! Por que não veio antes, e como amigo? Desejava muito vê-lo, poderosíssimo rei das terras do oeste, especialmente nestes últimos dias, para salvá-lo dos conselhos ignorantes e maldosos que o cercam. Já será tarde demais? Apesar dos danos que me foram causados, nos quais os homens de Rohan, infelizmente, têm uma parcela de culpa, eu ainda o salvaria, e o livraria da ruína que se aproxima inevitavelmente, se você prosseguir por esta estrada que ora tomou. Na verdade, só eu posso ajudá-lo agora.
Théoden abriu a boca, como se fosse falar, mas não disse nada. Ergueu os olhos até o rosto de Saruman, que tinha seu olhar escuro e solene inclinado sobre ele, e depois para Gandalf ao seu lado; parecia hesitar; Gandalf não fez sinal algum, mas ficou quieto como uma pedra, como alguém que espera pacientemente algum chamado que ainda não chegou. Os Cavaleiros se agitaram a princípio, murmurando exclamações de aprovação às palavras de Saruman; depois eles também ficaram em silêncio, como se estivessem sob o domínio de um encantamento. Tinham a impressão de que Gandalf nunca tinha dito palavras tão belas e adequadas ao seu senhor. Todas as suas conversas com Théoden pareciam agora rudes e arrogantes. Sobre seus corações pairava uma sombra, o medo de um grande perigo: o fim da Terra dos Cavaleiros numa escuridão para a qual Gandalf os estivera conduzindo, enquanto Saruman estava ao lado de uma porta de saída, segurando-a semi-aberta de modo que um raio de luz entrava. Fez-se um silêncio pesado. Foi Gimli, o anão, quem o cortou subitamente.
— As palavras desse mago estão de cabeça para baixo — rosnou ele, agarrando o cabo do machado. — Na língua de Orthanc, ajuda significa ruína, e salvar significa matar, isto está claro. Mas não viemos aqui para implorar nada.
— Paz! — disse Saruman, e por um momento fugaz sua voz ficou menos suave, e uma luz faiscou em seus olhos para depois desaparecer. — Não estou falando com você ainda, Gimli, filho de Glóin — disse ele. — Sua terra fica longe daqui, e você tem pouco a ver com os problemas desta região. Mas não foi por vontade própria que você foi envolvido neles, então não vou culpá-lo pela parte que desempenhou – corajosa, não duvido. Mas, eu lhe peço, permita-me primeiro falar ao Rei de Rohan, meu vizinho, que já foi meu amigo.
“Que tem a dizer, Rei Théoden? Vai ficar com minha paz e com toda a ajuda que meu conhecimento, fundado em longos anos, pode trazer? Faremos juntos nossos planos contra dias maléficos, e repararemos nossas ofensas com tamanha boa vontade que nossos estados poderão florescer com mais beleza do que nunca?
Théoden ainda não respondeu. Se lutava contra o ódio ou a dúvida ninguém sabia dizer. Éomer falou.
— Senhor, escute-me! — disse ele. — Agora estamos sentindo o perigo sobre o qual fomos alertados. Será que avançamos para a vitória apenas para no fim pararmos estupefatos diante de um velho mentiroso que tem mel em sua língua bifurcada? É dessa forma que um lobo aprisionado falaria aos cães de caça, se pudesse. Que ajuda pode ele lhe oferecer, na verdade? Tudo o que ele deseja é escapar desta situação. Mas o senhor vai negociar com esse perito em traição e assassinato? Lembre-se de Théodred nos Vaus, e do túmulo de Háma no Abismo de Helm.
— Se estamos falando de línguas envenenadas, que dizer da sua, jovem serpente? — disse Saruman, e o clarão de seu ódio agora ficava visível aos olhos de todos. — Mas então, Éomer, filho de Éomund! — continuou ele com sua voz suave outra vez. — Cada homem com sua função. Seu valor está nas armas, e você goza de muita honra por meio dele. Mate aqueles que seu senhor apontar como inimigos, e fique satisfeito. Não se intrometa nas políticas que não consegue entender. Talvez, se chegar a ser rei, você descubra que um rei deve escolher seus amigos com cautela. A amizade de Saruman e o poder de Orthanc não podem ser descartados sem mais nem menos, não importa quantos ressentimentos, verdadeiros ou imaginados, possam no fundo existir. Vocês venceram uma batalha e não uma guerra – e, mesmo assim, auxiliados por uma força com a qual não poderão contar outra vez. Pode ser que vocês encontrem a Sombra da Floresta em suas próprias portas em seguida: ela é intratável, insensata e não nutre amor pelos homens.
“Mas, meu senhor de Rohan, devo ser chamado de assassino porque homens valorosos caíram em batalha? Se você vai para a guerra desnecessariamente, pois eu não a desejava, então homens serão mortos. Mas se, baseado nisso, eu sou um assassino então toda a Casa de Eorl está manchada com assassinatos; pois eles lutaram em muitas guerras e atacaram muitos que os desafiaram. Apesar disso, com alguns eles fizeram as pazes depois, pelo menos para serem políticos. Eu digo, Rei Théoden: vamos ter paz e amizade, você e eu? A decisão cabe a nós.
— Vamos ter paz  — disse Théoden finalmente, com uma voz inarticulada e fazendo esforço. Vários Cavaleiros gritaram de alegria. Théoden ergueu a mão. — Sim, vamos ter paz — disse ele, agora numa voz clara —, teremos paz quando você e seus feitos tiverem perecido – e os feitos de seu senhor escuro, a quem você nos entregaria. Você é um mentiroso, Saruman; um corruptor dos corações dos homens. Estende-me sua mão, e eu percebo apenas um dedo da garra de Mordor. Cruel e fria! Mesmo que sua guerra contra mim tivesse sido justa – e não foi, pois mesmo que você fosse dez vezes mais sábio não teria o direito de comandar a mim e aos meus para seus próprios lucros como desejava – mesmo assim, que me diz de suas tochas em Folde Ocidental e das crianças que jazem mortas lá? E eles despedaçaram o corpo de Háma diante dos portões do Forte da Trombeta, depois que ele estava morto. Quando você pender de uma forca em sua própria janela para a diversão de seus próprios corvos, eu ficarei em paz com você e Orthanc. O mesmo vale para a casa de Eorl. Sou um filho menor de grandes antepassados, mas não preciso lamber seus pés. Vire-se em outra direção. Mas receio que sua voz tenha perdido o encanto.
Os Cavaleiros ergueram os olhos para Théoden como homens acordados de um sonho. A voz de seu senhor soou-lhes nos ouvidos rude como a de um velho corvo, após a música de Saruman. Mas Saruman se descontrolou por uns momentos, tomado de ira. Debruçou-se sobre a grade da sacada como se fosse golpear o rei com seu cajado.
Alguns tiveram a impressão súbita de estarem vendo uma serpente se enrolando e preparando o bote.
— Forcas e corvos! — chiou ele, e eles estremeceram diante da súbita mudança. — Velho caduco! O que é a casa de Eorl a não ser um estábulo com teto de palha, onde os bandidos bebem em meio ao mau cheiro, e seus fedelhos rolam pelo chão junto com os cachorros? Eles mesmos já escaparam da forca por muito tempo. Mas o laço vai se apertando, lento no início, sufocante e forte no fim. Enforque-se se quiser! — Agora sua voz mudava, conforme lentamente ele ia se controlando. — Não sei por que tenho paciência de conversar com você. Pois não preciso de você, nem de seu pequeno bando de galopeiros, que avançam com a mesma velocidade com que fogem, Théoden, Senhor dos Cavalos. Há muito tempo lhe ofereci uma posição acima de seu mérito e de sua sabedoria. Acabo de oferecê-la de novo, de modo que aqueles a quem você desencaminha possam ver claramente a escolha da estrada. Você me oferece fanfarronadas e abuso. Que assim seja. Voltem para suas cabanas!
“Mas você, Gandalf. Pelo menos por você eu lamento, e me solidarizo com sua vergonha. Como é possível aguentar uma companhia dessas? Pois você é orgulhoso, Gandalf – e não sem motivo, pois tem uma mente privilegiada e olhos que enxergam longe e fundo. Mesmo agora você se recusa a escutar meus conselhos?
Gandalf estremeceu e levantou os olhos.
— O que você tem a dizer que não foi dito em nosso último encontro? — perguntou ele. — Ou talvez você tenha coisas para desdizer.
Saruman fez uma pausa.
— Desdizer? — meditou ele, como se estivesse intrigado. — Desdizer? Fiz um esforço para aconselhá-lo para seu próprio bem, mas você mal ouviu o que eu disse. É orgulhoso e não gosta de conselhos, tendo na verdade um estoque de sua boa sabedoria. Mas naquela ocasião você errou, eu acho, obstinadamente fazendo mau juízo de minhas intenções. Temo que na minha ansiedade em persuadi-lo eu tenha perdido a calma. E de fato me arrependo disso. Pois não tinha más intenções em relação a você; mesmo agora elas não existem, embora você retorne a mim em companhia dos violentos e dos ignorantes. Por que eu deveria? Então não somos ambos membros de uma ordem nobre e antiga e muito excelente da Terra Média? Nossa amizade seria benéfica a nós dois da mesma forma. Ainda poderíamos realizar muitas coisas juntos, para curar as desordens do mundo. Deixe que entendamos um ao outro, e nos livremos do pensamento de pessoas menores! Que eles aguardem nossas decisões! Para o bem de todos, estou disposto a corrigir o que já passou e recebê-lo. Está disposto a conversar comigo? Está disposto a subir?
Tão grande foi o poder que Saruman exerceu em seu último esforço que nenhum dos ouvintes permaneceu impassível. Mas agora o encanto era inteiramente diferente. Eles ouviram o protesto educado de um rei gentil que tinha um ministro equivocado, mas muito amado. Mas estavam trancados fora, escutando através da porta palavras que não se destinavam a eles: crianças malcriadas ou servidores estúpidos que por acaso ouvem o discurso impalpável dos mais velhos, imaginando como ele os afetaria.
Aqueles dois eram feitos de matéria mais nobre: eram veneráveis e sábios. Era inevitável que fizessem uma aliança. Gandalf subiria até a torre para discutir questões profundas, além da compreensão dos outros, nos altos cômodos de Orthanc. A porta se fecharia, e eles seriam deixados fora, dispensados para aguardarem que algum trabalho ou punição lhes fosse designado. Até mesmo na mente de Théoden o pensamento tomou forma, como uma sombra de dúvida: “Ele vai nos trair; vai subir – estaremos perdidos.”
Então Gandalf soltou uma gargalhada. A fantasia se desvaneceu como uma baforada de fumaça.
— Saruman, Saruman! — disse Gandalf ainda rindo. — Saruman, você perdeu seu rumo na vida. Deveria ter sido o bobo do rei para ganhar seu pão, e chicotadas também, arremedando seus conselheiros. Ai de mim! — interrompeu-se ele, dominando a própria hilaridade. — Entendermo-nos um ao outro? Temo estar além de sua compreensão. Mas você, Saruman, eu entendo bem demais! Lembro-me mais claramente de seus argumentos e feitos do que você supõe. Quando o visitei pela última vez, você era o carcereiro de Mordor, e para lá eu deveria ser mandado. Não, o hóspede que escapou pelo telhado pensará duas vezes antes de retornar pela porta. Não, acho que não vou subir. Mas escute, Saruman, pela última vez! Não está disposto a descer? Isengard acabou se mostrando menos forte do que sua esperança e sua imaginação a fizeram. O mesmo pode acontecer a outras coisas nas quais você ainda confia. Não seria bom deixá-la por um tempo? Recorrer a coisas novas, talvez? Pense bem, Saruman! Não está disposto a descer?
Uma sombra passou pelo rosto de Saruman, que em seguida ficou pálido como um cadáver.
Antes que ele pudesse disfarçar, todos viram atrás da máscara a angústia mental causada pela dúvida: ao mesmo tempo odiava ficar e temia deixar seu refúgio.
Por um segundo ele hesitou, e ninguém respirava. Depois falou, e sua voz estava esganiçada e fria. O orgulho e o ódio o estavam conquistando.
— Se eu vou descer? — zombou ele. — É comum que um homem desarmado desça para falar com ladrões do lado de fora? Posso ouvi-lo muito bem daqui. Não sou nenhum tolo, e não confio em você, Gandalf. Eles não estão à vista na minha escada, mas eu sei onde os selvagens demônios da floresta estão à espreita, sob seu comando.
— Os traiçoeiros estão sempre desconfiados — respondeu Gandalf com uma voz cansada. — Mas você não deve temer por sua pele. Não desejo matá-lo, ou machucá-lo, como bem sabe, se realmente me entende. E tenho o poder de protegê-lo. Estou lhe dando uma última oportunidade. Pode deixar Orthanc, livre – se quiser.
— Isso soa bem — retrucou Saruman. — Bem à maneira de Gandalf, o Cinzento: tão condescendente, tão gentil. Não duvido que você acharia Orthanc confortável, e minha partida conveniente. Mas por que eu desejaria partir? E o que está querendo dizer com “livre”? Existem condições, eu presumo.
— Razões para partir você pode ver de suas janelas — respondeu Gandalf. — Outras ocorrerão à sua mente. Seus servidores estão destruídos e dispersos, seus vizinhos foram por você transformados em seus inimigos; e você enganou seu novo mestre, ou pelo menos tentou. Quando o olho dele se virar para cá, será o olho vermelho da ira. Mas, quando eu digo “livre”, quero dizer “livre”: livre de prisão, ou corrente ou comando: para ir para onde quiser, até, até para Mordor, Saruman, se você desejar. Mas primeiro deverá me entregar a Chave de Orthanc e seu cajado. Serão garantias de sua conduta, para serem devolvidos mais tarde, se os merecer.
O rosto de Saruman ficou lívido, contorcido pela raiva, e uma luz vermelha se acendeu em seus olhos. Ele riu alucinado.
— Mais tarde! — gritou ele, e sua voz se ergueu num grito. — Mais tarde! Sim, quando você também tiver as próprias Chaves de Barad-dûr, suponho eu; e as coroas de sete reis, e os cajados dos Cinco Magos, e tiver comprado para si um par de botas muito maiores do que estas que você está usando agora. Um plano modesto. Um plano em que meu auxílio quase não será necessário! Tenho outras coisas para fazer. Não seja tolo! Se quiser fazer um acordo comigo, enquanto tem a oportunidade, vá embora, e volte quando estiver sóbrio! E deixe em paz esses assassinos e essa pequena gentalha que se pendura em sua cauda! Passe um bom dia! — Virou-se e deixou a sacada.
— Volte, Saruman! — disse Gandalf numa voz imperiosa.
Para a surpresa dos outros, Saruman se virou outra vez, e como se estivesse sendo arrastado contra a própria vontade voltou lentamente até a grade de ferro, debruçando-se sobre ela, respirando com dificuldade. Seu rosto estava contorcido e enrugado. A mão segurava o pesado cajado negro como uma garra.
— Não lhe dei permissão para sair — disse Gandalf numa voz firme. — Ainda não terminei. Você se transformou num tolo, Saruman, e apesar disso causa pena. Poderia ainda ter desviado da loucura e do mal, e ter sido útil. Mas você escolhe ficar e ruminar as pontas de suas antigas tramas. Então fique! Mas eu o aviso, você não vai sair com facilidade outra vez. Não, a menos que as mãos escuras do leste se estendam para apanhá-lo, Saruman! — gritou ele, e sua voz cresceu em poder e autoridade. — Olhe! Não sou Gandalf, o Cinzento, que você traiu. Sou Gandalf, o Branco, que retornou da morte. Agora você não tem cor alguma e eu o expulso da ordem e do Conselho. — Ergueu a mão e falou lentamente, numa voz límpida e fria. — Saruman, seu cajado está quebrado. — Houve um estalido, o cajado se partiu em pedaços, e sua parte superior caiu aos pés de Gandalf. — Vá! — disse Gandalf com um grito.
Saruman caiu para trás e foi embora se arrastando. Nesse momento, um objeto pesado e brilhante foi arremessado lá de cima. Bateu contra a grade de ferro, no instante em que Saruman se afastou dela e, passando perto da cabeça de Gandalf, chocou-se contra a escada sob seus pés. A grade tiniu e se rompeu. A escada se trincou lançando estilhaços em faíscas brilhantes.
Mas a bola não sofreu nenhum dano: rolou escada abaixo, um globo de cristal, escuro, mas reluzindo com um coração de fogo. No momento em que foi rolando em direção a uma poça, Pippin correu atrás dele e o apanhou.
— Tratante assassino! — exclamou Éomer.
Mas Gandalf ficou impassível.
— Não, isso não foi jogado por Saruman — disse ele —, nem mesmo por sua ordem, eu acho. Veio de uma janela bem mais acima. Um tiro de despedida do Mestre Língua de Cobra, imagino eu, mas a pontaria dele é ruim.
— A pontaria foi ruim, talvez porque ele não conseguia se decidir sobre qual dos dois ele odiava mais, Saruman ou você — disse Aragorn.
— Pode ser — disse Gandalf — Aqueles dois têm pouco consolo na companhia um do outro: vão se estraçalhar com palavras. Mas a punição é justa. Se Língua de Cobra algum dia conseguir sair de Orthanc vivo, isso já será mais do que ele merece.
— Aqui, meu rapaz, vou ficar com isso. Não pedi que você o pegasse — gritou ele, voltando-se de repente e vendo Pippin subindo os degraus, devagar, como se estivesse carregando um grande peso. Gandalf desceu para encontrá-lo e mais do que depressa tomou o globo escuro das mãos do hobbit, embrulhando-o nas dobras de sua capa.
— Vou cuidar disto — disse ele. — Não é algo, acredito eu, que Saruman escolheria para jogar fora.
— Mas ele pode ter outras coisas para jogar — disse Gimli. — Se este é o fim do debate, vamos pelo menos sair do alcance de qualquer coisa que possa ser lançada de lá de cima!
— É o fim — disse Gandalf — Vamos.
Viraram as costas para as portas de Orthanc, e desceram. Os cavaleiros aclamaram o rei com alegria, e felicitaram Gandalf. O encanto de Saruman estava quebrado: tinham-no visto aparecer ao ser chamado, e ir embora se arrastando, dispensado.
— Bem, já está feito — disse Gandalf. — Agora preciso encontrar Barbárvore e lhe contar como foram as coisas.
— Certamente ele já adivinhou — disse Merry. — Havia alguma probabilidade de isso terminar de alguma outra maneira?
— Probabilidade não havia — respondeu Gandalf — embora a situação tenha estado por um fio. Mas eu tinha razões para tentar; algumas clementes, outras nem tanto. Primeiro, Saruman viu que o poder de sua voz estava diminuindo. Ele não pode ao mesmo tempo ser um tirano e um conselheiro. Quando o plano está maduro, deixa de ser segredo. Mas ele caiu na armadilha, e tentou lidar com suas vítimas uma a uma, enquanto as outras escutavam. Então dei a ele uma última escolha, uma escolha justa: renunciar tanto a Mordor quanto a seus planos particulares, e consertar a situação ajudando-nos em nossas necessidades. Ele sabe quais são elas, ninguém sabe melhor. Poderia ter prestado grandes serviços. Mas ele escolheu recusá-los e manter o poder de Orthanc. Ele não está disposto a servir, apenas a comandar. Agora vive aterrorizado pela sombra de Mordor, e apesar disso ainda sonha em controlar a tempestade. Tolo infeliz! Será devorado, se o poder do leste estender seus braços até Isengard. Não podemos destruir Orthanc de fora, mas Sauron – quem sabe o que ele pode fazer?
— E se Sauron não vencer? O que você fará com ele? — perguntou Pippin.
— Eu: Nada! — disse Gandalf — Não lhe farei nada. Não quero dominar as coisas. O que acontecerá com ele? Não sei dizer. Lamento que tanta coisa que foi boa agora apodreça na torre. Mesmo assim, as coisas não saíram mal para nós. Estranhos são os caminhos da sorte! Com grande frequência o ódio fere a si mesmo! Suponho que, mesmo que tivéssemos entrado, teríamos encontrado poucos tesouros em Orthanc mais preciosos que a coisa que Língua de Cobra atirou contra nós.
Um grito agudo, subitamente interrompido, veio de uma janela aberta lá em cima.
— Parece que Saruman pensa da mesma forma — disse Gandalf. — Vamos deixá-los!
Voltaram-se então para as ruínas dos portões. Mal tinham passado sob o arco quando, das sombras das pedras empilhadas onde tinham ficado, Barbárvore e outros doze ents vieram subindo a largas passadas.
Aragorn, Gimli e Legolas olharam surpresos para eles.
— Aqui estão três de meus companheiros, Barbárvore — disse Gandalf. — Já lhe falei deles, mas você não os tinha visto. — Disse o nome deles um a um.
O velho ent olhou para eles longa e curiosamente, e falou com cada um individualmente. Por fim voltou-se para Legolas.
— Então você veio de lá da Floresta das Trevas até aqui, meu bom elfo? Antigamente costumava ser uma grande floresta!
— E ainda é — disse Legolas. — Mas não tão grande que possa fazer com que nós, que vivemos nela, fiquemos cansados de ver novas árvores. Eu realmente adoraria viajar pela Floresta de Fangorn. Mal atravessei as bordas dela, e não senti desejo algum de lhe dar as costas.
Os olhos de Barbárvore brilharam de satisfação.
— Espero que consiga realizar seu desejo, antes que as colinas envelheçam muito — disse ele.
— Irei até lá, se tiver a sorte — disse Legolas. — Combinei com meu amigo que, se tudo correr bem, vamos primeiro visitar Fangorn juntos – se tivermos a sua permissão.
— Qualquer elfo que vier com você será bem-vindo — disse Barbárvore.
— O amigo de que falo não é um elfo — disse Legolas. — Refiro-me a Gimli, o filho de Glóin, aqui ao meu lado.
Gimli fez uma grande reverência, e o machado escorregou de seu cinto e bateu contra o chão.
— Hum, hun! Espere um pouco — disse Barbárvore, lançando ao anão um olhar sombrio. — Um anão é portador de um machado! Hum! Tenho boa vontade com os elfos, mas você está pedindo muito. Essa é uma estranha amizade!
— Pode parecer estranha — disse Legolas — mas enquanto Gimli viver não entrarei em Fangorn sozinho. O machado dele não é para as árvores, mas para pescoços de orcs, ó Fangorn, Mestre da Floresta de Fangorn. Ele matou quarenta e dois na batalha.
— Hum, espere um pouco! — disse Barbárvore. — Essa história está melhor! Bem, bem, as coisas transcorrerão como devem; e não há necessidade de nos apressarmos ao encontro delas. Mas agora precisamos nos separar por um tempo. O dia está chegando ao fim, e apesar disso Gandalf diz que vocês devem partir antes do cair da noite, e que o Senhor da Terra dos Cavaleiros está ansioso para voltar para casa.
— Sim, precisamos ir, e ir agora — disse Gandalf — Receio que devo lhe tomar as sentinelas do portão. Mas você pode passar bem sem elas.
— Talvez eu possa — disse Barbárvore. — Mas vou sentir falta deles. Ficamos amigos em tão pouco tempo que até acho que devo estar ficando apressado – voltando à juventude, talvez. Mas, também, eles são a primeira coisa nova que vi sob sol ou lua em muitos longos, longos dias. Não os esquecerei. Coloquei os nomes deles na Longa Lista. Os ents vão se lembrar.

Ents da terra, da idade dos montes,
bebedores de água, grandes andantes;
famintos quais lobos, os hobbits crianças,
essa gente-que-ri, o povo menor.

— Permanecerão nossos amigos enquanto as folhas se renovarem. Passem bem! Mas se tiverem notícias em sua bela terra, no Condado, mandem-me uma mensagem! Sabem o que quero dizer: palavra ou sinal das entesposas. Venham vocês mesmos, se puderem!
— Viremos! — disseram Merry e Pippin juntos, e viraram-se apressadamente.
Barbárvore olhou para eles e ficou em silêncio por um tempo, balançando a cabeça pensativamente.
Depois voltou-se para Gandalf.
— Então Saruman não quis sair? — disse ele. — Não achava que iria. O coração dele está apodrecido como o de um huorn negro. Mesmo assim, se eu tivesse sido vencido, e todas as minhas árvores estivessem destruídas, eu não viria enquanto tivesse um buraco escuro para me esconder.
— É — disse Gandalf. — Mas você não planejou cobrir todo o mundo com suas árvores e sufocar todos os outros seres vivos. Mas é isso, Saruman fica para nutrir seu ódio e tecer outra vez as teias que sabe tecer. Ele tem a Chave de Orthanc. Mas não se deve permitir que ele escape.
— Certamente não! Os ents vão cuidar disso — disse Barbárvore. — Saruman não colocará um pé além da rocha sem minha permissão. Os ents vão vigiá-lo.
— Muito bom! — disse Gandalf — Era isso que eu esperava. Agora posso ir e me dedicar a outros assuntos com uma preocupação a menos. Mas vocês devem ser cautelosos. As águas baixaram. Receio que não será suficiente colocar sentinelas em toda a volta da torre. Não duvido que houvesse caminhos profundos cavados embaixo de Orthanc, e que Saruman tenha a esperança de entrar e sair sem ser visto, em breve. Se vocês estão dispostos a desempenhar a tarefa, peço-lhes que derramem as águas de novo; e que façam isso até que Isengard se transforme num lago perene, ou até que vocês descubram as saídas. Enquanto todas as passagens subterrâneas estiverem alagadas e as saídas bloqueadas, Saruman deverá ficar lá em cima e olhar pelas janelas.
— Deixe isso por conta dos ents! — disse Barbárvore. — Vamos vasculhar o vale de cima a baixo e espiar embaixo de cada cascalho. As árvores estão voltando para viver aqui, árvores velhas, selvagens. Daremos a elas o nome de Floresta Vigia. Nenhum esquilo circulará por aqui sem que eu fique sabendo. Deixe isso por conta dos ents! Até que passem sete vezes os anos durante os quais ele nos atormentou, os ents não se cansarão de vigiá-lo.

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