2 de abril de 2016

Capítulo X - Passolargo

Frodo, Sam e Pippin voltaram para a pequena sala. Estava tudo escuro.
Merry ainda não tinha chegado e o fogo já quase se extinguira. Foi só quando reavivaram as brasas e jogaram mais gravetos na lareira que descobriram que Passolargo os tinha acompanhado. Ali estava ele, calmamente sentado numa poltrona perto da porta.
— Olá! — disse Pippin. — Quem é o senhor, e o que deseja?
— Chamam-me Passolargo — respondeu ele. — E embora possa ter esquecido, seu amigo prometeu conversar comigo em particular.
— O senhor disse que poderia me dizer algo do meu interesse — disse Frodo. — O que é?
— Várias coisas — respondeu Passolargo. — Mas, é claro, tenho meu preço.
— Que quer dizer? — perguntou Frodo secamente.
— Não se assuste! E só isto: direi o que sei, e darei bons conselhos ao senhor – mas vou querer uma recompensa.
— E qual será ela?, eu pergunto — disse Frodo.
Suspeitava agora que tinha caído nas mãos de um chantagista, e lembrava com certo desconforto que tinha trazido apenas uma pequena quantia em dinheiro. Tudo o que tinha mal satisfaria um patife daqueles, e ao mesmo tempo não era dinheiro que pudesse jogar fora.
— Nada que não esteja ao seu alcance — respondeu Passolargo com um sorriso lento, como se adivinhasse o pensamento de Frodo. — Apenas isto: deve me levar junto com o senhor, até que eu queira abandoná-lo.
— Ah, é?! — retorquiu Frodo surpreso, mas não muito aliviado. — Mesmo que precisasse de mais um companheiro, eu não concordaria com uma coisa dessas, não antes de saber mais sobre o senhor e suas atividades.
— Excelente! — exclamou Passolargo, cruzando as pernas e se recostando na cadeira. — Parece que o senhor está voltando ao normal de novo, e isso é ótimo. Até agora foi descuidado demais. Muito bem! Direi o que sei, e deixarei a recompensa por sua conta. Ficará feliz em garanti-la, depois de me ouvir.
— Então prossiga! — disse Frodo. — O que o senhor sabe?
— Muito; muitas coisas obscuras — disse Passolargo com uma voz triste. — Mas em relação ao seu negócio... — ele se levantou e dirigiu-se até a porta, abrindo-a e olhando para fora rapidamente. Depois fechou-a sem fazer ruído e sentou-se de novo. — Tenho ouvidos atentos — continuou ele, abaixando a voz. — E, embora eu não possa desaparecer, já cacei muitas coisas ferozes e espertas, e geralmente posso evitar que me vejam, se desejar. Agora, eu estava atrás da cerca-viva esta noite, na Estrada a oeste de Bri, quando quatro hobbits apareceram, vindo da região das colinas. Não preciso repetir tudo o que disseram ao velho Tom Bombadil, ou o que conversaram entre si, mas uma coisa me interessou. “Por favor. Lembrem-se”, disse um deles, “de que o nome Bolseiro não deve ser mencionado. Sou o Sr. Monteiro. Se for preciso dar algum nome”. Isso me interessou tanto que eu os segui até aqui. Pulei o portão logo atrás deles. Talvez o Sr. Bolseiro tenha um motivo honesto que o faça deixar para trás o próprio nome; mas se for assim, devo pedir que ele e seus amigos sejam mais cautelosos.
— Não vejo por que meu nome possa despertar interesse em Bri — disse Frodo furioso. — E ainda preciso saber o motivo do seu interesse. O Sr. Passolargo pode ter um motivo honesto para ficar espionando; mas se for assim, devo pedir que se explique.
— Boa resposta — disse Passolargo rindo. — Mas a explicação é simples: eu estava procurando um hobbit chamado Frodo Bolseiro. Queria encontrá-lo rápido. Sabia que ele estava levando do Condado, bem, um segredo que interessa a mim e a meus amigos. Agora, não me leve a mal! — gritou ele, logo que Frodo levantou-se da poltrona e Sam ficou em pé com esgares no rosto. — Cuidarei melhor do segredo do que vocês. E é preciso muita cautela! — Inclinou-se para frente e olhou nos olhos dos hobbits. — Vigiem cada sombra! — disse ele em voz baixa. — Cavaleiros Negros passaram por Bri. Na segunda-feira, um desceu pelo Caminho Verde, pelo que dizem; e um outro apareceu mais tarde, subindo o Caminho Verde vindo do Sul.
Fez-se silêncio. Finalmente Frodo falou para Pippin e Sam:
— Deveria ter adivinhado pelo jeito com que o porteiro nos cumprimentou — disse ele.
— E o proprietário da estalagem parece ter ouvido alguma coisa. Por que fez pressão para que nos juntássemos ao grupo? E por que raios nos comportamos como perfeitos idiotas? Deveríamos ter ficado aqui, quietos.
— Teria sido melhor — disse Passolargo. — Eu teria evitado que tivessem ido para a sala de estar, se pudesse; mas o estalajadeiro não permitiu que eu os encontrasse, e se recusou a dar qualquer recado.
— Você acha que ele... — começou Frodo.
— Não, não acho que o velho Carrapicho tenha más intenções. É só que ele não gosta nem um pouco de vagabundos misteriosos como eu — Frodo olhou para ele intrigado. — Bem, tenho aparência de patife, não tenho? — Disse Passolargo, crispando o lábio e com um brilho estranho nos olhos. — Mas espero que possamos nos conhecer melhor. Quando isso acontecer, quero que me explique o que aconteceu no final da sua canção, pois aquela pequena travessura...
— Foi puro acidente! — interrompeu Frodo.
— Imagino — disse Passolargo. — Acidente, então! Aquele acidente o colocou numa situação perigosa.
— Não muito mais perigosa do que já era — disse Frodo. — Eu sabia que esses cavaleiros estavam me perseguindo; mas agora, de qualquer forma, parece que perderam meu rastro e foram embora.
— Não deve contar com isso! — disse Passolargo categoricamente. — Eles voltarão. E mais estão a caminho. Há outros. Sei quantos são. Conheço esses Cavaleiros. — Parou, e seus olhos ficaram frios e duros. — E há algumas pessoas em Bri que não merecem confiança — continuou ele. — Bill Samambaia, por exemplo. Ele tem o nome sujo na região de Bri, e pessoas estranhas o visitam. Devem tê-lo notado em meio ao grupo: um sujeito moreno e sarcástico. Estava bastante íntimo de um dos estranhos do Sul, e eles se esgueiraram para fora logo depois do seu “acidente”. Nem todos esses sulistas têm boas intenções; e quanto a Bill Samambaia, este venderia qualquer coisa a qualquer pessoa; e seria capaz de fazer maldades só par a se divertir.
— O que Samambaia vai vender, e o que o meu acidente tem a ver com ele? — perguntou Frodo, ainda determinado a não entender as alusões de Passolargo.
— Informações sobre você, é claro — respondeu Passolargo. — Um relatório da sua façanha seria de grande interesse para certas pessoas. Depois disso nem precisariam saber seu nome verdadeiro. Parece-me muito provável que saberão de tudo antes do fim da noite. Já é o bastante? Pode fazer o que bem entender a respeito da minha recompensa: levar-me como guia ou não. Mas devo dizer que conheço todas as terras entre o Condado e as Montanhas Sombrias, pois andei por elas durante muitos anos. Sou mais velho do que pareço. Posso ser útil. Terão que abandonar a estrada aberta depois do que aconteceu esta noite; os cavaleiros estarão vigiando noite e dia. Vocês podem escapar de Bri, e conseguir avançar enquanto o sol estiver alto, mas não vão chegar muito longe. Eles vão alcançá-los num local deserto, em algum lugar escuro onde não possam conseguir socorro. Querem que os encontrem? Eles são terríveis!
Os hobbits o olhavam, e viam surpresos que seu rosto estava contorcido, como se estivesse sentindo dores, e as mãos agarravam os braços da poltrona. A sala estava muito quieta e a luz parecia ter diminuído. Por um tempo, Passolargo ficou parado, com os olhos distantes, como se vagasse em lembranças longínquas, ou escutasse ruídos da noite ao longe.
— É isso! — exclamou ele depois de uns momentos, passando a mão sobre a testa. — Talvez eu saiba mais do que vocês sobre esses perseguidores. Vocês os temem, mas não os temem o suficiente, ainda. Amanhã terão que escapar, se puderem. Passolargo pode levar vocês por caminhos que raramente são usados. Vão deixar que os acompanhe?
Houve um silêncio pesado. Frodo não respondeu; tinha a mente confusa, com medo e dúvidas. Sam franziu a testa, olhou para seu mestre e finalmente falou:
— Com sua permissão, Sr. Frodo, eu diria não! Esse Passolargo, ele nos previne e recomenda cuidado, e com isso concordo e digo sim; podemos começar por ele. Ele vem de lugares ermos, e nunca ouvi falar bem de pessoas desse tipo. Ele sabe alguma coisa, isto é óbvio, e sabe mais do que eu gostaria; mas isso não é motivo para permitirmos que nos conduza a algum lugar sombrio, onde não haverá socorro, como diz.
Pippin se agitava e parecia inquieto. Passolargo não respondeu a Sam, mas dirigiu o olhar penetrante para Frodo, que desviou os olhos.
— Não — disse ele devagar. — Não concordo. Eu acho, eu acho que você não é exatamente o que deseja aparentar. Começou falando comigo como se fosse um habitante de Bri, mas sua voz mudou. Sam parece estar certo nesse ponto: não vejo por que deva nos prevenir para que tenhamos cuidado, e mesmo assim pedir que o levemos, sem garantia nenhuma. Por que o disfarce? Quem é você? O que realmente sabe sobre... sobre meus negócios, e como ficou sabendo?
— A lição de cautela foi bem aprendida — disse Passolargo, com um sorriso austero. — Mas ter cautela é uma coisa e vacilar é outra. Nunca chegarão a Valfenda sozinhos, e a única chance que têm é confiar em mim. Devem se decidir. Responderei algumas de suas perguntas, se isso ajudar na decisão. Mas por que acreditariam em minha história, se ainda não confiam em mim? Mesmo assim, vou lhes contar.
Naquele momento ouviu-se uma batida na porta. O Sr. Carrapicho tinha chegado com velas, e atrás vinha Nob com canecas de água quente.
Passolargo se retirou para um canto.
— Vim desejar-lhes boa noite — disse o estalajadeiro, colocando as velas nas mesas. — Nob, leve a água para os quartos! — Carrapicho entrou e fechou a porta. — É o seguinte — começou ele, hesitando e com uma aparência preocupada. — Se lhes causei algum dano, sinto muito. Mas uma coisa vai embora com outra, como devem admitir, e sou um homem ocupado. Mas primeiro uma coisa, e depois outra nesta semana sacudiram minha memória, como se diz por aí; e espero que não seja tarde demais. Vejam vocês, alguém me pediu que eu ficasse de olho nuns hobbits do Condado, especialmente um de nome Bolseiro.
— E o que isso tem a ver comigo? — perguntou Frodo. — Não...
— Ah, sabe melhor do que eu! — disse o proprietário com astúcia. — Vou dar com a língua nos dentes, mas me disseram que esse tal de Bolseiro usaria o nome de Monteiro, e me deram uma descrição que se encaixa multo bem com o senhor, se me permite dizer.
— É mesmo? Então quero ouvi-la! — disse Frodo, interrompendo de modo insensato.
— Um sujeitinho troncudo com bochechas vermelhas — disse o Sr. Carrapicho solenemente. Pippin mal segurava a risada, mas Sam parecia indignado. — “Essa descrição não vai ajudar muito, pois corresponde à maioria dos hobbits, Cevado”, diz ele para mim — continuou o Sr. Carrapicho, olhando para Pippin. — “Mas esse é mais alto que alguns e mais claro que a maioria, e tem uma covinha no queixo: um camarada empertigado com olhos brilhantes”. Peço desculpas, mas quem disse foi ele, não eu.
— Ele disse? E quem é ele? — perguntou Frodo ansioso.
— Ah, foi Gandalf, se sabe de quem estou falando. Dizem que é um mago, mas é um grande amigo meu, mago ou não mago. Mas agora já não sei o que ele vai ter para me dizer, se nos encontrarmos de novo: azedar toda a minha cerveja ou me transformar num toco de madeira, eu acho. Ele é um pouco precipitado. Mesmo assim, o que está feito está feito.
— Bem, o que o senhor fez? — disse Frodo, já ficando impaciente com a lenta elucidação dos pensamentos de Carrapicho.
— Onde eu estava? — disse o proprietário, parando e estalando os dedos. — Ah, sim! O velho Gandalf Há três meses ele entrou direto no meu quarto sem bater. “Cevado”, diz ele, “vou partir pela manhã. Você poderia fazer-me um favor?” “É só pedir”, disse eu. “Estou compressa”, disse ele, “e não tenho tempo, mas quero que um recado seja levado até o Condado. Você tem alguém que pudesse enviar alguém de confiança?” “Posso encontrar alguém”, disse eu. “Amanhã, talvez, ou depois de amanhã”. “Faça isso amanhã”, disse ele, e então me deu uma carta. O endereço está bem legível — disse o Sr. Carrapicho, tirando uma carta do bolso, e lendo o endereço lenta e orgulhosamente (dava valor à sua reputação de homem letrado): “Sr. FRODO BOLSEIRO, BOLSÃO, VILA DOS HOBBITS, no CONDADO”.
— Uma carta de Gandalf. Para mim! — gritou Frodo.
— Ah! — disse o Sr. Carrapicho. — Então seu nome correto é Bolseiro?
— É — disse Frodo — e é melhor o senhor entregá-la imediatamente, e explicar por que nunca a enviou. Acho que é isso que veio me dizer, suponho, embora tenha demorado tanto para chegar ao ponto.
O pobre Sr. Carrapicho parecia embaraçado.
— Está certo, senhor — disse ele. — E peço desculpas. Tenho um medo mortal do que Gandalf vai dizer, se meu esquecimento causou algum mal. Mas eu não a segurei comigo de propósito. Guardei-a a salvo. Depois não consegui encontrar ninguém disposto a ir até o Condado no dia seguinte, nem no outro dia, e não podia dispensar nenhum dos meus empregados; e então uma coisa atrás da outra afastaram a carta da minha cabeça. Sou um homem ocupado. Vou fazer o que for possível para ajeitar as coisas; se houver algo a meu alcance, é só dizer. Deixando a carta de lado, não prometi menos a Gandalf. “Cevado”, diz ele para mim, “esse meu amigo do Condado, ele pode passar por aqui logo, junto com um outro. Virá dizendo que seu nome é Monteiro. Não se esqueça disso! Mas você não precisa perguntar nada. E se eu não estiver com ele, pode ser que ele esteja em apuros, e precisando de ajuda. Faça por ele o que puder, e eu ficarei grato”, diz ele. E aqui está o senhor, e o apuro parece que não está muito longe.
— Que quer dizer? — perguntou Frodo.
— Esses homens negros — disse o proprietário abaixando a voz. — Estão procurando Bolseiro, e se as intenções deles são boas, então sou um hobbit. Foi na segunda-feira, todos os cachorros estavam uivando e os gansos, berrando. Achei estranho. Nob veio e me disse que dois homens negros estavam na porta perguntando por um hobbit chamado Bolseiro. O cabelo de Nob estava em pé. E aquele Guardião, Passolargo, também andou fazendo perguntas. Tentou entrar aqui para vê-lo, antes mesmo que comessem qualquer coisa.
— Fez isso mesmo — disse Passolargo de repente, dando uns passos à frente e aparecendo na luz. — E muitos problemas teriam sido evitados se tivesse permitido sua entrada, Carrapicho.
O estalajadeiro pulou surpreso.
— Você! — gritou ele. — Você está sempre aparecendo de repente. O que quer agora?
— Ele está aqui com a minha permissão — disse Frodo. — Veio para oferecer ajuda.
— Bem, talvez o senhor saiba o que está fazendo — disse o Sr, Carrapicho, olhando desconfiado para Passolargo. — Mas se estivesse na sua pele, não me envolveria com um Guardião.
— Então, ia se envolver com quem? — perguntou Passolargo. — Com um estalajadeiro gordo que só lembra o próprio nome porque as pessoas o gritam o dia todo? Eles não podem ficar no Pônei para sempre. Você iria com eles, evitando os homens negros?
— Eu? Deixar Bri? Não faria isso por dinheiro algum — disse o Sr. Carrapicho, parecendo realmente amedrontado. — Por que o senhor não pode ficar aqui quietinho por uns tempos, Sr. Monteiro? Que coisas estranhas são estas que estão acontecendo? O que esses homens negros querem, e de onde vêm? Gostaria de saber.
— Sinto muito, mas não posso explicar tudo — respondeu Frodo. — Estou cansado e muito preocupado, E é uma longa história. Mas se quer me ajudar, devo avisá-lo que estará correndo perigo enquanto eu estiver hospedado em sua casa. Esses Cavaleiros Negros: não tenho certeza, mas receio que venham de...
— Eles vêm de Mordor — disse Passolargo em voz baixa. — De Mordor, Carrapicho, se isto quer dizer alguma coisa para você.
— Socorro! — gritou o Sr. Carrapicho, ficando pálido. Evidentemente, conhecia o nome. — Esta é a pior notícia que já chegou a Bri desde que me conheço por gente.
— É — disse Frodo. — O senhor ainda está disposto a me ajudar?
— Estou — disse o Sr. Carrapicho. — Mais que nunca. Embora não saiba o que uma pessoa como eu possa fazer contra, contra... — sua voz falhou.
— Contra a sombra do Leste — disse Passolargo baixinho. — Você não pode muito, Carrapicho, mas uma coisa pequena já é de grande ajuda. Você pode permitir que o Sr. Monteiro fique aqui esta noite, sob esse nome, e pode esquecer o nome Bolseiro até que ele esteja bem longe.
— Farei isso — disse Carrapicho. — Mas eles não vão precisar da minha ajuda para descobrir que ele está aqui. É uma pena que o Sr. Bolseiro tenha atraído a atenção das pessoas esta noite, para não dizer mais nada. A história sobre a partida daquele Sr. Bilbo já tinha sido comentada esta noite em Bri. Até mesmo o nosso Nob ficou fazendo suposições naquele cérebro lento; e outras pessoas em Bri demoram menos para compreender as coisas.
— Bem, só podemos esperar que os Cavaleiros não voltem tão cedo — disse Frodo.
— Espero mesmo que não — disse Carrapicho. — Mas sejam eles assombrações ou não, não vão entrar no Pônei tão facilmente. Não se preocupem até amanhã cedo. Nob não vai dizer nada. Os homens pretos só vão entrar aqui por cima de meu cadáver. Eu e meu pessoal vamos montar guarda esta noite; mas é melhor que vocês durmam, se conseguirem.
— De qualquer modo, deve nos chamar ao amanhecer — disse Frodo. — Devemos partir o mais cedo possível. Sirva o desjejum às seis e meia, por favor.
— Certo! Cuidarei de tudo — disse o proprietário. — Boa noite, Sr. Bolseiro – deveria dizer, Monteiro. Boa noite agora! Onde está o Sr. Brandebuque?
— Não sei — disse Frodo numa ansiedade repentina. Tinham esquecido Merry, e estava ficando tarde. — Receio que esteja lá fora. Ele tinha dito algo sobre sair para tomar ar.
— Bem, não há dúvida de que precisam que cuidemos de vocês: seu grupo se comporta como se estivesse de férias! — disse Carrapicho. — Preciso ir e trancar as portas rápido, mas cuidarei para que seu amigo consiga entrar quando voltar. É melhor mandar Nob procurá-lo. Boa noite para todos!
Finalmente o Sr. Carrapicho saiu, não sem antes lançar outro olhar desconfiado para Passolargo, balançando a cabeça. Seus passos se retiraram pelo corredor.
— E então? — disse Passolargo. — Quando é que vai abrir essa carta?
Frodo olhou cuidadosamente o lacre antes de rompê-lo. Certamente, a carta parecia ser de Gandalf. Dentro vinha a seguinte mensagem, na sua letra forte, mas elegante:

PÔNEI SALTITANTE, Bri.
Dia do Meio do Ano, Ano do Condado 1418.

Caro Frodo
Recebi uma notícia ruim aqui, e preciso partir imediatamente. É melhor que deixe Bolsão logo, e saia do Condado o mais tardar antes do final de julho. Voltarei logo que puder e seguirei você, se souber que já partiu. Deixe um recado para mim aqui, se passar por Bri. Pode confiar no estalajadeiro (Carrapicho).
Você pode encontrar um amigo meu na Estrada: um homem, esbelto, moreno, alto, que alguns chamam de Passolargo. Ele está por dentro de nossos assuntos e ajudará você. Vá para Valfenda.
Lá espero encontrar você de novo. Se eu não for para lá, Elrond poderá aconselhá-lo.
Um abraço apressado,
GANDALF

PS. Não o use novamente, por motivo nenhum! Não viaje à noite!
PPS. Certifique-se de que se trata do verdadeiro Passolargo. Há muitos homens estranhos na estrada.
Seu nome verdadeiro é Aragorn.
Nem tudo que é ouro fulgura,
Nem todo o vagante é vadio;
O velho que é forte perdura,
Raiz funda não sofre o frio.
Das cinzas um figo há de vir.
Das sombras a luz vai jorrar;
A espada há de nova, luzir,
O sem-coroa há de reinar
PPPS. Espero que Carrapicho envie esta logo. Ele é um homem confiável, mas tem uma memória que parece um quarto de despejo: nunca encontramos o que precisamos. Se ele esquecer, vou fazer churrasquinho dele.
Até a vista!

Frodo leu a carta e depois passou-a para Pippin e Sam.
— Realmente, o velho Carrapicho fez uma grande confusão! — disse ele. — Merece virar churrasquinho. Se eu tivesse recebido a carta imediatamente, já poderíamos estar a salvo em Valfenda agora. Mas o que pode ter acontecido a Gandalf? Ele escreve como se estivesse indo na direção de um grande perigo.
— Há muitos anos que ele faz isso — disse Passolargo.
Frodo se virou e olhou para ele pensativamente, lembrando-se do segundo P.S. de Gandalf.
— Por que não me disse logo que era amigo de Gandalf? — perguntou ele. — Teríamos economizado tempo.
— Será mesmo? Será que vocês teriam acreditado em mim antes deste momento? — disse Passolargo. — Eu não sabia nada a respeito dessa carta. Tudo o que sabia era que teria de persuadi-los a confiar em mim sem nenhuma prova, se quisesse ajudá-los. De qualquer modo, eu não pretendia contar tudo sobre mim de uma só vez, tinha que observar vocês primeiro, e ter certeza de que realmente se tratava de vocês. O Inimigo já preparou armadilhas para mim antes. Logo que tomei uma decisão, estava disposto a contar-lhes tudo o que quisessem saber. Mas devo admitir... — acrescentou ele com um sorriso estranho. — Esperava que gostassem de mim por mim mesmo. Um homem procurado às vezes se cansa da desconfiança e deseja amizade, mas, nesse ponto, acredito que minha aparência não ajude em nada.
— Não ajuda mesmo – pelo menos à primeira vista — riu Pippin com um alívio repentino, após ter lido a carta de Gandalf. — Mas beleza não põe mesa, como se diz no Condado; além disso, arrisco dizer que vamos ficar bem parecidos com você depois de passarmos dias deitados em cercas-vivas e valas.
— Seriam necessários mais que alguns dias, ou semanas ou anos, vagando pelas Terras Ermas, para que vocês ficassem parecidos com Passolargo — respondeu ele. — E morreriam primeiro, a não ser que sejam feitos de uma matéria mais resistente do que aparentam.
Pippin ficou quieto, mas Sam não se intimidara e ainda olhava Passolargo com desconfiança.
— Como podemos saber que você é o Passolargo de que Gandalf fala? — perguntou ele. — Você nunca mencionou Gandalf, até essa carta aparecer. Deve ser um espião nos enganando, pelo que vejo, tentando nos convencer a ir com você. Você deve ter matado o verdadeiro Passolargo e tomado as roupas dele. Que tem a dizer sobre isso?
— Que você é um sujeito corajoso — respondeu Passolargo. — Mas receio que minha única resposta para você, Sam Gamgi, seja esta: se eu tivesse matado o verdadeiro Passolargo, poderia matar vocês. E já teria matado vocês, sem tanto lero-lero. Se eu estivesse atrás do Anel, já poderia estar de posse dele – AGORA!
Ficou de pé, e de repente pareceu mais alto. Brilhava em seus olhos uma luz, aguda e imperiosa. Jogando para trás a capa, colocou a mão no cabo de uma espada que estava escondida, pendurada ao longo de seu corpo. Eles não ousaram se mexer. Sam ficou parado, de boca aberta, olhando para ele com ar abobalhado.
— Mas eu sou o verdadeiro Passolargo, felizmente — disse ele, olhando para baixo na direção deles, suavizando a expressão de seu rosto com um sorriso repentino. — Sou Aragorn, filho de Arathorn, e se em nome da vida ou da morte puder salvá-los, assim o farei.
Houve um longo silêncio. Finalmente Frodo falou, hesitando.
— Acreditei que era amigo antes de a carta chegar — disse ele — ou pelo menos desejei acreditar. Você me assustou várias vezes esta noite, mas nunca da maneira que os servidores do Inimigo teriam feito, ou pelo menos assim imagino. Acho que um dos espiões dele teria – bem – uma aparência melhor e causaria uma sensação pior, se é que me entende.
— Entendo — riu Passolargo. — Tenho uma aparência feia e causo uma sensação boa, não é isso? Nem tudo o que é ouro fulgura, nem todo o vagante é vadio.
— Então os versos se aplicavam a você? — perguntou Frodo. — Eu não estava entendendo o que queriam dizer. Mas como sabia que estava escrito isso na carta de Gandalf?
— Eu não sabia — respondeu ele. — Mas sou Aragon, filho de Arathorn, e esses versos acompanham meu nome. — Retirou sua espada da bainha, e todos viram que a lâmina estava de fato quebrada, trinta centímetros abaixo do cabo. — Não tem muita utilidade, não é Sam? — disse Passolargo. — Mas em breve ela será novamente forjada, e há de novo, luzir.
Sam não dizia nada.
— Bem — disse Passolargo — com a permissão de Sam, está tudo combinado. Passolargo será o seu guia. Pegaremos uma estrada difícil amanhã. Mesmo que consigamos deixar Bri sem dificuldades, não é de esperar que possamos sair sem sermos notados. Mas tentarei fazer com que nos percam de vista o mais cedo possível. Conheço um ou dois caminhos que saem desta região sem passar pela estrada principal. Assim que dispersarmos os perseguidores, iremos em direção ao Topo do Vento.
— Topo do Vento? — disse Sam. — O que é isso?
— É uma colina, ao norte da Estrada, mais ou menos a meio caminho entre Valfenda e Bri. De lá se pode ter uma boa vista de toda a região, e teremos uma chance de olhar à nossa volta. Gandalf vai naquela direção, se for atrás de nós. Depois do Topo do Vento, nossa viagem vai ficar mais difícil, e teremos de escolher, entre vários perigos, quais iremos enfrentar.
— Quando viu Gandalf pela última vez? — perguntou Frodo. — Sabe onde ele está ou o que está fazendo?
Passolargo ficou com a expressão séria.
— Eu não sei — disse ele. — Vim com ele para o Oeste na primavera. Frequentemente eu ficava vigiando os limites do Condado nesses últimos anos, quando ele estava ocupado em algum outro lugar. Raramente ele permitia que o Condado ficasse sem proteção. Vimo-nos pela última vez em primeiro de maio: no Vau Sarn, no Brandevin. Ele me disse que os negócios com você tinham corrido bem, e que você estaria partindo para Valfenda na primeira semana de setembro. Como sabia que ele estava ao seu lado, fiz uma viagem por conta própria. E a coisa não saiu bem; não há dúvida de que ele recebeu alguma notícia, e eu não estava perto para ajudá-lo. Estou preocupado pela primeira vez desde que o conheci. Deveríamos ter recebido recados, mesmo que ele não pudesse vir em pessoa. Quando voltei, muitos dias atrás, escutei a notícia ruim. Fiquei sabendo que Gandalf tinha sumido, e que os cavaleiros tinham sido vistos. Foi o povo élfico de Gilldor que me contou; e mais tarde me disseram que você tinha deixado sua casa, mas não soube de notícia alguma sobre sua partida da Terra dos Buques. Estive de olho na Estrada Leste, ansioso.
— Você acha que os Cavaleiros Negros têm algo a ver com isso – quero dizer, com o desaparecimento de Gandalf? — perguntou Frodo.
— Não sei de mais nada que possa tê-lo atrasado, exceto o próprio inimigo — disse Passolargo. — Mas não perca as esperanças! Gandalf é maior do que vocês, pessoas do Condado, imaginam – geralmente, conseguem enxergar apenas as piadas e os brinquedos dele. Mas esse nosso negócio será sua maior tarefa.
Pippin bocejou.
— Sinto muito — disse ele. — Mas estou morto de cansaço. Apesar de todo perigo e preocupação, preciso ir para a cama, ou vou dormir sentado aqui mesmo. Cadê aquele tolo do Merry? Seria a gota d’água, se tivéssemos de sair no escuro para procurá-lo.
Naquele momento, escutaram uma porta bater; depois, passos vieram correndo ao longo do corredor. Merry entrou como um raio, seguido de Nob.
Fechou a porta num segundo e depois se encostou nela. Estava sem fôlego. Todos olharam-no alarmados por um momento; depois ele disse, ofegante:
— Eu os vi, Frodo! Eu os vi! Os Cavaleiros Negros!
— Os Cavaleiros Negros? Onde?
— Aqui, na aldeia. Fiquei aqui dentro por uma hora. Então, como vocês não voltavam, saí para dar um passeio. Tinha acabado de voltar e estava parado fora do alcance da luz da lamparina, para ver as estrelas. De repente, comecei a tremer e senti que alguma coisa horrível se aproximava sorrateiramente: havia um tipo de sombra mais profunda entre as sombras na estrada, bem atrás da área iluminada pela lamparina. Essa sombra sumiu na escuridão imediatamente, sem fazer um ruído. Não vi cavalos.
— Para que lado essa coisa foi? — perguntou Passolargo, repentina e abruptamente.
Merry se assustou, ao notar o estranho pela primeira vez.
— Continue — disse Frodo. — Este é um amigo de Gandalf. Depois eu explico.
— Parece que ela subiu a Estrada, em direção ao leste — continuou Merry. — Tentei ir atrás. Mas é claro que desapareceu quase imediatamente; mesmo assim, contornei a esquina e continuei até a última casa da Estrada.
Passolargo olhou para Merry admirado.
— Você tem um coração valente — disse ele. — Mas foi tolice sua!
— Eu não sei — disse Merry. — Não foi coragem nem tolice, eu acho. Mal pude me controlar. Parecia que eu estava sendo arrastado para algum lugar. De qualquer modo fui, e de repente ouvi vozes perto da cerca-viva. Uma delas murmurava; a outra cochichava, ou chiava. Não pude entender nada do que falaram. Não me aproximei mais, porque meu corpo inteiro começou a tremer. Então fiquei apavorado, e voltei, e já ia fugir para casa quando alguma coisa veio atrás de mim e eu... eu caí.
— Eu o encontrei, senhor — acrescentou Nob. — O Sr. Carrapicho me mandou com uma lanterna. Desci até o Portal Oeste, e depois subi de novo até o Portal Sul. Bem na altura da casa de Bill Samambaia, tive a impressão de ver alguma coisa na Estrada. Não poderia jurar, mas me pareceu que dois homens estavam se agachando sobre alguma coisa, para levantá-la. Dei um grito, mas quando cheguei ao lugar, não vi sinal deles; vi apenas o Sr. Brandebuque, deitado à margem da Estrada. Parecia estar dormindo. “Pensei que estivesse numa enrascada”, disse-me ele, quando o sacudi. Estava muito esquisito, e assim que o despertei, ficou de pé e correu para cá como uma lebre.
— Receio que seja isso — disse Merry. — Mas não tenho ideia do que falei. Tive um sonho feio, do qual não me recordo. Fiquei em frangalhos. Não sei o que aconteceu comigo.
— Eu sei — disse Passolargo. — O Hálito Negro. Os Cavaleiros devem ter deixado os cavalos do lado de fora, passando pelo Portal Sul em segredo. Agora vão saber tudo o que aconteceu, pois visitaram Bill Samambaia; e provavelmente aquele sulista também era um espião. Pode ser que aconteça alguma coisa, antes que deixemos Bri.
— O que vai acontecer? — disse Merry. — Eles vão atacar a estalagem?
— Não, acho que não — disse Passolargo. — Ainda não estão todos aqui. E, de qualquer modo, não é assim que eles agem. Na solidão e no escuro são mais fortes; não vão abertamente atacar uma casa onde haja luzes e muitas pessoas – pelo menos até que estejam desesperados. Não enquanto tivermos todas as longas milhas até Eriador à nossa frente. Mas o poder deles está no terror, e alguns aqui em Bri já estão sob as suas garras. Eles vão obrigar esses infelizes a fazer algum serviço maldoso: Samambaia, alguns daqueles estranhos, e talvez o porteiro também. Eles trocaram palavras com Harry no Portal Oeste, na segunda-feira. Eu estava vigiando. Harry estava pálido e tremia quando o deixaram.
— Parece que temos inimigos por todo lado — disse Frodo. — Que devemos fazer?
— Fiquem aqui, e não vão para seus quartos! É certeza que eles já sabem onde vocês devem dormir. Os quartos de hobbits têm janelas voltadas para o norte, e ficam junto ao solo. Vamos ficar todos juntos, e bloquear essa janela e a porta. Mas primeiro Nob e eu vamos trazer sua bagagem.
Enquanto Passolargo fazia isso, Frodo contou rapidamente a Merry tudo o que tinha acontecido desde a ceia. Merry ainda estava lendo a carta de Gandalf e pensando quando Passolargo e Nob voltaram.
— Bem, senhores — disse Nob. — Amassei os lençóis e coloquei uma almofada deitada em cada cama. E fiz uma bela imitação de sua cabeça com um tapete de lã marrom, Sr. Bol-Monteiro — acrescentou ele, sorrindo.
Pippin riu.
— O disfarce parece perfeito! — disse ele. — Mas o que vai acontecer quando eles descobrirem tudo?
— Vamos ver — disse Passolargo. — Espero que consigamos defender nossa fortaleza até amanhã.
— Boa noite a todos — disse Nob, e saiu para fazer seu turno na guarda das portas.
As mochilas e o resto da bagagem foram empilhados no chão da sala.
Empurraram uma poltrona baixa contra a porta e fecharam a janela.
Espiando lá fora, Frodo viu que a noite ainda estava clara. A Foice* pendia clara sobre as encostas da Colina de Bri. Então ele fechou e bloqueou as pesadas folhas interiores da janela, cerrando depois a cortina. Passolargo reavivou o fogo e apagou as velas.
Os hobbits deitaram em seus cobertores com os pés virados para a lareira; Passolargo se acomodou na poltrona em frente à porta. Conversaram um pouco, pois Merry tinha ainda muitas perguntas a fazer.
— A vaca pula pra Lua! — disse Merry sufocando a risada, e se enrolando no cobertor. — Isso foi ridículo, Frodo! Mas eu queria estar lá para ver. As pessoas ilustres de Bri ainda vão estar comentando isso daqui a cem anos.
— Espero que sim — disse Passolargo.
Depois todos ficaram quietos, e os hobbits, um por um, adormeceram.


*Nota – Nome que os hobbits dão à Ursa maior.

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