24 de abril de 2016

Capítulo X - O Portão Negro se abre

Dois dias mais tarde o exército do oeste estava todo reunido no Pelennor. A tropa de orcs e orientais retornara de Anórien, mas acossados e dispersados pelos rohirrim eles tinham fugido, derrotados, quase sem resistir, na direção de Cair Andros; com essa ameaça afastada e com novas forças chegando do sul, a Cidade ficou tão bem guarnecida quanto possível. Batedores reportaram que não restava nenhum inimigo nas estradas do leste até a altura da Encruzilhada do Rei Caído. Tudo agora estava pronto para o último golpe. Legolas e Gimli cavalgariam juntos outra vez na companhia de Aragorn e Gandalf, que iam na vanguarda com os dúnedain e os filhos de Elrond. Mas Merry, para a sua vergonha, não deveria ir com eles.
— Você não está em condições de fazer uma viagem dessas — disse-lhe Aragorn. — Mas não tenha vergonha. Se não fizer mais nada nesta guerra, já terá conquistado uma grande honra. Peregrin irá representando o povo do Condado; não lhe inveje a oportunidade de perigo, pois, embora tenha feito o que a sorte lhe permitiu, ele ainda não realizou um feito à altura do seu. Mas, na verdade, todos correm o mesmo risco. Embora possa ser nossa função ir ao encontro de um fim mais amargo diante do Portão de Mordor, se isso acontecer, vocês também chegarão a um confronto final, seja aqui ou em qualquer lugar onde a maré negra venha a alcançá-los. Adeus!
Assim, desalentado, Merry ficou assistindo à concentração do exército. Bergil estava ao lado dele, também amuado, pois seu pai deveria marchar liderando uma companhia de homens da Cidade: porém estava impedido de retomar seu posto na Guarda até que seu caso fosse julgado. No mesmo grupo deveria partir Pippin, como um soldado de Gondor. Merry podia enxergá-lo, não muito distante: um vulto pequeno porém ereto entre os homens altos de Minas Tirith.
Finalmente as trombetas soaram e o exército começou a se mover. Tropa a tropa, companhia a companhia, faziam uma conversão e partiam para o leste. Muito tempo depois que todos tinham sumido de vista descendo a grande estrada para o Passadiço, Merry ficou ali parado. O último brilho do sol da manhã faiscara sobre lança e elmo e se perdera, e ainda ele permanecia ali, com a cabeça curvada e o coração pesado, sentindo-se solitário e sem amigos. Todos os que lhe eram caros haviam partido para dentro da escuridão que pairava sobre o céu distante do leste, e restavam-lhe pouquíssimas esperanças de que um dia voltasse a ver qualquer um deles.
Como se despertada pelo seu estado de desespero, a dor em seu braço retornara, e ele se sentia fraco e velho, e a luz do sol parecia tênue. Acordou com o toque da mão de Bergil.
— Venha, mestre Perian! — disse o menino. — Você ainda sente dores, estou vendo. Vou acompanhá-lo de volta até os Curadores. Mas não tenha medo! Eles voltarão. Os homens de Minas Tirith nunca serão derrotados. E agora contam com o Senhor Pedra Élfica, e também com Beregond da Guarda.


Antes do meio-dia, o exército chegou a Osgiliath. Ali os trabalhadores e operários disponíveis estavam todos ocupados. Alguns reforçavam as balsas e as pontes flutuantes que o inimigo fizera e em parte destruíra na fuga; alguns reuniam suprimentos e produtos de saques; outros, do lado leste do Rio, erguiam defesas improvisadas.
A vanguarda atravessou as ruínas da Velha Gondor e o amplo Rio, subindo a longa e estreita estrada que nos dias de apogeu fora feita para conduzir da bela Torre do Sol até a alta Torre da Lua, que agora era Minas Morgul em seu vale maldito. Pararam cinco milhas além de Osgiliath, terminando o primeiro dia de marcha. Mas os cavaleiros continuaram avançando, e antes do início da noite chegaram à Encruzilhada e ao grande circulo de árvores, onde tudo estava quieto. Não viram sinais do inimigo, nem ouviram qualquer grito ou chamado, nenhuma lança viera voando de alguma rocha ou maciço de árvores pelo caminho; apesar disso, quanto mais avançavam, mais se sentiam observados.
Pedra e árvore, folha e capim pareciam estar escutando atentamente. A escuridão se dissipara, e na distância a oeste o sol se punha sobre o Vale do Anduin, e os picos brancos das montanhas se ruborizavam no ar azul; mas uma sombra e um desalento pesavam sobre os Ephel Dúath.
Aragorn postou então trombeteiros em cada uma das quatro estradas que saiam do circulo de árvores, e eles tocaram uma grande fanfarra, e os arautos gritaram em vozes imponentes:
— Os Senhores de Gondor retornaram, e estão tomando posse desta terra que lhes pertence.
A hedionda cabeça de orc que estava fincada sobre a figura esculpida foi derrubada e partida em pedaços, e a velha cabeça do rei foi erguida e colocada de volta em seu lugar, ainda coroada com as flores douradas e brancas: e os homens trabalharam lavando e raspando todos os garranchos horríveis que os orcs haviam desenhado sobre a pedra.
Agora, num debate, alguns opinaram que Minas Morgul deveria ser atacada primeiro e, se conseguissem tomá-la, deveria ser completamente destruída.
— E talvez — disse Imrahil — a estrada que conduz de lá até a passagem acima seja um acesso mais fácil para atacarmos o Senhor do Escuro do que o Portal Norte.
Mas Gandalf imediatamente reprovou a ideia, por causa do mal que morava no vale, onde as mentes dos homens vivos se voltariam para a loucura e o terror, e também por causa das notícias que Faramir trouxera. Pois, se o Portador do Anel tivesse realmente tentado aquele caminho, então, acima de tudo, deveriam desviar o Olho de Mordor de lá.
Portanto, no dia seguinte, após a chegada do exército principal, montaram uma forte guarda na Encruzilhada para garantir alguma defesa, no caso de Mordor enviar uma força pela passagem de Morgul, ou trazer mais homens do sul. Para essa guarda escolheram na maioria arqueiros que conheciam os caminhos de Ithilien e que ficariam escondidos nas florestas e veredas nas imediações do encontro dos caminhos. Mas Gandalf e Aragorn cavalgaram com a vanguarda até a entrada do Vale Morgul para observar a cidade maligna. Estava escura e sem vida, pois os orcs e as criaturas inferiores de Mordor que outrora moravam lá haviam sido destruídos em batalha, e os nazgúl estavam fora. Mesmo assim, o ar do vale estava carregado de medo e hostilidade. Então destruíram a ponte maligna, espalharam chamas rubras pelos campos nocivos e partiram.
No dia seguinte, o terceiro após a partida de Minas Tirith, o exército iniciou sua marcha rumo ao norte seguindo a estrada. Por aquele caminho era cerca de cem milhas da Encruzilhada até o Morannon, e o que lhes poderia acontecer até que chegassem lá ninguém sabia. Avançavam abertamente, mas com cautela, com batedores montados à frente, outros a pé dos dois lados, especialmente no flanco leste, pois ali havia maciços escuros de árvores, e um terreno irregular de estreitos vales rochosos e penhascos, atrás dos quais as compridas e sinistras encostas dos Ephel Dúath se amontoavam. O clima do mundo permanecia belo, continuava a soprar o vento oeste, mas nada conseguia dispersar a melancolia e a névoa triste que pairava ao redor das Montanhas da Sombra; atrás delas, às vezes grandes porções de fumaça subiam e ficavam suspensas nos ventos mais altos.
De quando em quando, Gandalf mandava tocar as trombetas, e os arautos gritavam:
— Os Senhores de Gondor chegaram! Que todos deixem esta terra ou se rendam!
Mas Imrahil disse:
— Não digam Os Senhores de Gondor. Digam O Rei Elessar. Pois esta é uma verdade, mesmo que ele ainda não tenha assumido o trono; isso fará o Inimigo preocupar-se mais, se os arautos usarem esse nome.
E depois disso, três vezes ao dia, os arautos proclamavam a chegada do Rei Elessar. Mas ninguém respondia ao desafio. Não obstante, embora marchassem numa paz aparente, os corações de todo o exército, dos postos mais altos até os mais baixos, estavam pesados, e a cada milha que avançavam ao norte um mau presságio crescia dentro deles. Foi perto do fim do segundo dia desde que partiram em marcha da Encruzilhada que encontraram, pela primeira vez, uma ocasião de batalha. Um poderoso grupo de orcs e orientais tentou aprisionar a companhia que vinha à frente numa emboscada, exatamente no local onde Faramir tinha atocaiado os homens de Harad, no ponto em que a estrada entrava num corte profundo através de uma saliência das colinas a leste. Mas os Capitães do Oeste foram devidamente advertidos por seus batedores, homens habilidosos de Henneth Annún, liderados por Mablung; dessa forma, os que preparavam a emboscada acabaram presos nela. Cavaleiros deram uma grande volta no sentido oeste e vieram atacando o flanco do inimigo e sua retaguarda, e os orcs e orientais foram destruídos ou rechaçados para o leste, na direção das colinas. Mas a vitória pouco encorajou os corações dos capitães.
— É apenas uma simulação — disse Aragorn — e seu principal propósito, julgo eu, foi mais nos levar a uma suposição errada sobre o ponto fraco de nosso Inimigo do que nos causar muito mal, por enquanto.
E daquela noite em diante os nazgúl vieram e passaram a seguir cada movimento do exército. Ainda voavam alto, e fora do alcance da visão, a não ser para Legolas; mesmo assim, sua presença podia ser sentida, na forma de um adensamento das sombras e um obscurecimento do sol, e, embora os Espectros do Anel ainda não estivessem dando voos rasantes sobre seus inimigos e se mantivessem em silêncio, sem soltar nenhum grito, não se podia afastar o terror que causavam.
Assim foi passando o tempo e a viagem desesperada. No quarto dia posterior à passagem pela Encruzilhada, o sexto depois da partida de Minas Tirith, chegaram por fim ao término das terras viventes, e começaram a penetrar na desolação que se alastrava diante dos portões da Passagem de Cirith Gorgor; conseguiam divisar os pântanos e o deserto que se estendia ao norte e a oeste dos Emyn Muil. Tão desoladas eram aquelas paragens, e tão profundo o horror que pairava sobre elas, que alguns homens do exército sentiram-se acovardados, não conseguindo avançar mais, a pé ou cavalgando, em direção ao norte.
Aragorn olhou para eles, e seus olhos se encheram de pena, e não de ira, pois aqueles eram jovens de Rohan, do distante Folde Ocidental, lavradores de Lossarnach, e para eles, desde a infância, Mordor tinha sido um nome maligno, e apesar disso irreal, uma lenda que não fazia parte de suas vidas simples; e eles caminhavam como homens num sonho hediondo que se tornara realidade, sem entender aquela guerra nem por que o destino os levava para tal paragem.
— Podem ir! — disse Aragorn. — Mas mantenham a honra que puderem. E não corram! Há uma tarefa que podem tentar para assim não se sentirem tão envergonhados. Façam seu caminho pelo sudoeste até chegarem a Cair Andros, e, se a ilha ainda estiver dominada pelos inimigos, como eu suspeito, então reconquistem-na, se puderem, e mantenham-na até o fim em defesa de Gondor e Rohan!
Então alguns, envergonhados diante de tal demência, superaram o medo e continuaram avançando, e os outros ganharam novas esperanças, ouvindo a menção de um feito corajoso à altura deles a que podiam se dedicar, e partiram. Dessa forma, sendo que muitos homens já haviam sido deixados na Encruzilhada, foi com menos de seis mil homens que os Capitães do Oeste chegaram finalmente para desafiar o Portão Negro e o poder de Mordor.
Agora avançavam devagar, esperando a cada hora uma resposta para o seu desafio; mantinham-se juntos, já que seria desperdício de soldados enviar batedores ou grupos pequenos à frente do exército principal. Ao cair da noite do quinto dia de marcha desde o Vale Morgul, acamparam pela última vez, fazendo fogueiras com a madeira morta e com as urzes secas que conseguiram encontrar. Passaram as horas da noite acordados, percebendo muitos seres parcialmente visíveis que andavam e espreitavam por toda a volta; ouviram também uivos de lobos. O vento cessara e todo o ar parecia parado. Podiam ver pouca coisa, pois, embora não houvesse nuvens e a lua crescente já tivesse quatro dias, havia fumaça e vapores que subiam da terra e o luar branco se escondia nas névoas de Mordor.
Ficou frio. Quando chegou a manhã, o vento começou a se agitar outra vez, mas agora vinha do norte, e logo se amainou numa brisa crescente. Todos os seres notívagos tinham-se ido, e a terra parecia vazia. Ao norte, em meio aos seus buracos fétidos jaziam os primeiros grandes outeiros e amontoados de escória, rocha quebrada e terra arruinada, o vômito dos vermes que habitavam Mordor; mas ao sul, agora já próxima, assomava a grande fortaleza de Cirith Gorgor, com o Portão Negro no meio, tendo ao lado as duas Torres dos Dentes, altas e escuras. Pois em sua última marcha os Capitães tinham desviado da estrada principal no ponto em que ela se curvava para o leste, evitando o perigo das colinas à espreita, e agora aproximavam-se do Morannon pelo noroeste, do mesmo modo que Frodo fizera.
As duas enormes portas de ferro do Portão Negro sob seu arco sinistro estavam muito bem fechadas. Sobre a ameia nada se via. Estava tudo quieto, mas persistia a sensação de vigilância. Tinham chegado ao derradeiro estágio de sua loucura e pararam, abandonados e sentindo frio, na luz cinzenta do início do dia, diante de torres e muralhas que seu exército não podia atacar com esperanças, nem mesmo se tivessem levado até lá máquinas muito poderosas, e se as tropas inimigas fossem para guarnecer a muralha e o portão. Mas eles sabiam que todas as colinas e rochas ao redor do Morannon estavam cheias de inimigos ocultos, e o sombrio desfiladeiro mais além era perfurado e cheio de túneis apinhados de ninhadas de seres malignos. E ali parados eles viram todos os nazgúl reunidos, pairando como abutres sobre as Torres dos Dentes, sabendo que estavam sendo vigiados. Mas ainda assim o Inimigo não dava qualquer sinal.
Não lhes restava outra escolha além de desempenhar o seu papel até o fim. Portanto Aragorn agora colocara o exército na melhor formação que pôde planejar: eles foram reunidos em dois grandes montes de pedra arruinada e terra que os orcs tinham acumulado em anos de trabalho. Diante deles, na direção de Mordor, jazia como um fosso um grande pântano de lama fétida e poças putrefatas. Quando tudo estava ordenado, os Capitães cavalgaram à frente na direção do Portão Negro com uma grande guarda de cavaleiros levando a bandeira, acompanhados dos arautos e dos trombeteiros. Lá ia Gandalf como o principal arauto, Aragorn com os filhos de Elrond, Éomer de Rohan e lmrahil; a Legolas, Gimli e Peregrin foi solicitado que também fossem, de modo que todos os inimigos de Mordor tivessem uma testemunha.
Chegaram perto do Morannon, e desfraldaram a bandeira, tocando as trombetas; os arautos avançaram e fizeram suas vozes soar por sobre a muralha de Mordor.
— Apareça! — gritaram eles. — Que o Senhor da Terra Negra apareça! Justiça será feita para com ele. Pois agiu mal travando guerra contra Gondor e roubando suas terras. Portanto o Rei de Gondor ordena que ele repare seus erros e depois parta para sempre. Apareça!
Fez-se um longo silêncio, e não se ouviu nenhum som em resposta, da muralha ou do portão. Mas Sauron já fizera seus planos, e tinha em mente primeiro brincar cruelmente com aqueles camundongos antes de iniciar a matança. Foi assim que, exatamente quando os Capitães estavam prestes a virar as costas, o silêncio foi subitamente quebrado. Veio um longo retumbar de grandes tambores, como trovões nas montanhas, e então um zurrar de cornetas que fez tremer as próprias pedras e feriu os ouvidos dos homens. E então a porta do meio do Portão Negro se abriu com um grande clangor, e de lá saiu uma embaixada da Torre Escura. Como seu líder veio cavalgando um vulto maligno, montado num cavalo negro, se aquilo era um cavalo, pois era enorme e hediondo, e sua cara uma máscara horripilante, mais parecendo um crânio que uma cabeça viva, e das covas de seus olhos e de suas narinas saía fogo. O cavaleiro estava todo vestido de negro, e negro era seu elmo imponente; mas este não era um Espectro do Anel, e sim um homem vivo. Era o Tenente da Torre de Barad-dûr, e seu nome não é lembrado em história alguma, pois ele próprio o esquecera, e ele disse:
— Sou a Boca de Sauron.
Mas conta-se que ele foi um renegado, que vinha da raça daqueles que eram chamados de numenorianos negros, pois eles estabeleceram suas moradias na Terra Média durante os dias do domínio de Sauron e o adoraram, enamorados pelo conhecimento do mal. E ele havia entrado para o serviço da Torre Escura quando esta se ergueu de novo pela primeira vez, e por causa de sua esperteza foi crescendo cada vez mais nos favores do Senhor; aprendeu grandes feitiçarias, e sabia muito da mente de Sauron; era mais cruel que qualquer orc. Era ele que agora saia pelo portão, e com ele vinha apenas uma pequena companhia de soldados arreados de negro, e uma única bandeira, negra e estampada com o vermelho do Olho Maligno. Parando agora a alguns passos dos Capitães do Oeste, ele os olhou de cima a baixo e riu.
— Há alguém nesse bando que tem autoridade para dirigir-se a mim? — perguntou ele. — Ou mesmo com capacidade de me entender? Não tu, pelo menos! — caçoou ele, voltando-se para Aragorn com desprezo. — Para se fazer um rei, é preciso mais que um pedaço de vidro élfico, ou uma gentalha dessas. Ora, qualquer bandido das colinas pode exibir tal sequela!
Aragorn não disse nada em resposta, mas fixou os olhos do outro e sustentou o olhar, e por um momento os dois lutaram assim; mas logo, embora Aragorn não se movesse nem dirigisse a mão para qualquer arma, o outro vacilou e recuou, como se tivesse sido ameaçado por um golpe.
— Sou um arauto e um embaixador, e não posso ser atacado! — gritou ele.
— Onde rezam tais leis — disse Gandalf — também é costume dos embaixadores usarem menos insolência. Mas ninguém o ameaçou. Não tem nada a temer de nós, até que sua missão seja cumprida. Mas, a não ser que seu mestre tenha adquirido mais sabedoria, então você, juntamente com todos os servidores, estará em grande perigo.
— Então! — disse o Mensageiro. — Este é o porta-voz, velho barba-cinzenta? Será que não ouvimos sobre ti algumas vezes, e de tuas andanças, sempre armando planos e traições a distância? Mas desta vez esticaste o teu nariz longe demais, mestre Gandalf, e verás o que acontece para aquele que tece suas tolas teias diante dos pés de Sauron, o Grande. Tenho provas que me mandaram mostrar a ti – a ti especialmente, se tu ousasses aparecer. — Acenou para um dos guardas, e este veio à frente, carregando um pacote embrulhado em tecido negro.
O Mensageiro desembrulhou o pacote, e ali, para a surpresa e frustração de todos os Capitães, ele ergueu primeiro a pequena espada que Sam carregara, e depois uma capa cinzenta com um broche élfico, e finalmente o colete de mithril que Frodo usara, embrulhado em suas vestes rasgadas. Uma escuridão se formou diante dos olhos deles, e tiveram a impressão de que num momento o mundo se paralisara, mas seus corações estavam mortos e sua última esperança desaparecera. Pippin, que estava atrás do Príncipe Imrahil, saltou à frente com um grito de dor.
— Silêncio! — disse Gandalf num tom severo, empurrando-o para trás; o Mensageiro soltou uma alta risada.
— Então você ainda tem outro desses moleques! — exclamou ele. — Que utilidade vê neles não posso adivinhar, mas mandá-los como espiões para Mordor superou até sua costumeira loucura. De qualquer forma, agradeço a ele, pois está claro que pelo menos esse pirralho já viu esses símbolos antes, e agora seria inútil você negar.
— Não desejo negar nada — disse Gandalf. — Na verdade, conheço-os, e toda a sua história, e apesar de seu desdém, nojenta Boca de Sauron, você não pode dizer o mesmo. Mas por que os traz aqui?
— Casaco de anão, capa de elfo, espada do oeste tombado, e espião daquela pequena terra-de-ratos que é o Condado – não, não se assuste! Sabemos muito bem aqui estão as marcas de uma conspiração. Agora, pode ser que aquele que carregava essas coisas fosse uma criatura que vocês não sentissem perder, ou pode ser o contrário: alguém que lhes era caro, talvez? Se for assim, tome resoluções rápidas com a pouca esperteza que lhe resta. Pois Sauron não gosta de espiões, e o destino dessa criatura depende agora de sua escolha.
Ninguém respondeu, mas ele viu todos os rostos pálidos de medo e o horror em seus olhos, e riu outra vez, pois pareceu-lhe que sua brincadeira ia bem.
— Bem, bem! — disse ele. — Ele lhes era querido, estou vendo. Ou quem sabe sua missão era de tal ordem que vocês não queriam que fracassasse? Pois fracassou. E agora ele deverá suportar o lento tormento de anos, tão longo e lento quanto as artes da Grande Torre podem conceber; nunca será libertado, a não ser talvez quando estiver mudado e destruído, de modo que possa vir até vocês, para que vejam o que fizeram. Isso certamente acontecerá – a não ser que vocês aceitem os termos de meu Senhor.
— Diga quais são os termos — disse Gandalf numa voz severa, mas os que estavam perto viram a angústia em seu rosto, e agora ele parecia um homem velho e mirrado, esmagado, finalmente vencido. Ninguém duvidava de que ele fosse aceitar.
— Os termos são estes — disse o Mensageiro, sorrindo e encarando-os um a um — a gentalha de Gondor e seus iludidos aliados devem retirar-se imediatamente para além do Anduin, não sem primeiro prestarem juramento de nunca mais atacar Sauron, o Grande, aberta ou secretamente. Todas as terras a leste do Anduin deverão pertencer a Sauron para sempre, e unicamente a ele. A região a oeste do Anduin, até as Montanhas Sombrias e o Desfiladeiro de Rohan, deverá pagar tributo a Mordor, e os homens de lá não poderão portar armas, mas terão permissão para governar seus próprios assuntos. No entanto, deverão ajudar a reconstruir Isengard, a qual destruíram por capricho, e essa região será de Sauron, e lá seu tenente deverá morar: não Saruman, mas alguém mais digno de confiança.
Olhando nos olhos do Mensageiro, todos leram seu pensamento. Seria ele aquele tenente que reuniria tudo o que restasse do oeste sob seu controle seria tirano e eles os seus escravos.
Mas Gandalf disse:
— Isso é exigir muito pela entrega de um servidor: que seu Mestre deva receber em troca o que de outra forma lhe custaria muitas guerras! Ou será que o campo de Gondor destruiu sua esperança na guerra, e ele agora deu para barganhar? E, se realmente déssemos tanto valor ao prisioneiro? Que garantia teremos de que Sauron, o Mestre Máximo da Traição, manterá sua parte no acordo? Onde está esse prisioneiro? Que o tragam aqui para que o vejamos, e então consideraremos essas exigências.
Gandalf, atento, olhando para ele como alguém empenhado em esgrimir com um inimigo mortal, teve a impressão de que, pelo tempo de um suspiro, o Mensageiro ficou perdido; mas rapidamente ele riu outra vez.
— Não seja tão insolente a ponto de discutir com a Boca de Sauron! — gritou ele. — Você pede garantias! Sauron não dá nenhuma. Se você implora por sua demência, deve primeiro fazer o que ele ordena. Estes são os seus termos. É pegar ou largar!
— Vamos pegar! — disse Gandalf de repente. Jogou para o lado a capa e uma luz branca brilhou como uma espada naquele lugar escuro.
Diante da mão erguida do mago, o Mensageiro recuou, e Gandalf, avançando, agarrou e tirou dele as provas: casaco, capa e espada.
— Vamos pegar estes em memória de nosso amigo — gritou ele. — Mas, quanto aos seus termos, nós os rejeitamos completamente. Vá embora, pois sua embaixada terminou e a morte se aproxima de você. Não viemos até aqui para desperdiçar palavras fazendo tratos com Sauron, traiçoeiro e maldito, e muito menos com um de seus escravos. Suma daqui!
Então o Mensageiro de Mordor não voltou a rir. Seu rosto se contorcia de estupefação e ódio, semelhante ao de um animal selvagem que, ao pular sobre sua presa, é ferido no focinho por um ferrão. Tomado de raiva, a boca babando, emitiu sons estrangulados, sem nexo e cheios de fúria. Mas olhou nos rostos cruéis dos Capitães e em seus olhos fatais, e o medo que sentiu derrotou a ira.
Soltou um enorme grito e, virando-se, saltou sobre o cavalo e com sua companhia galopou alucinadamente de volta para Cirith Gorgor. Mas, enquanto se distanciavam, seus soldados tocaram as cornetas num sinal há muito combinado, e mesmo antes que chegassem ao portão Sauron acionou sua armadilha.
Tambores retumbaram e fogos subiram aos ares. As grandes portas do Portão Negro se escancararam. Delas saiu como uma onda um grande exército, com a mesma rapidez das águas rodopiantes quando uma comporta se abre.
Os Capitães montaram de novo e recuaram, e do exército de Mordor subiu um grito de escárnio. A poeira se ergueu sufocando o ar, pois de um ponto próximo dali veio marchando uma tropa de orientais que estivera esperando pelo sinal nas sombras de Ered Lithui, além da Torre mais distante. As colinas dos dois lados do Morannon despejavam inúmeros orcs. Os homens do oeste estavam encurralados, e logo, por toda a volta dos montes cinzentos onde eles estavam, forças dez vezes maiores e ainda mais numerosas que isso os cercariam num mar de inimigos. Sauron tinha mordido a isca com mandíbulas de aço.


Sobrou pouco tempo para que Aragorn ordenasse a sua batalha.
Sobre um monte estavam ele e Gandalf, e ali, bela e desesperada, erguia-se a bandeira da Árvore e das Estrelas. Sobre o outro monte ao lado erguiam-se as bandeiras de Rohan e Doí Amroth, Cavalo Branco e Cisne de Prata; em torno de cada monte foi formado um circulo que vigiava em todas as direções, eriçado de lanças e espadas. Mas na frente, na direção de Mordor, onde o primeiro e terrível assalto viria, estavam os filhos de Elrond à esquerda, com os dúnedain ao redor deles, e à direita o Príncipe Imrahil com os homens de Doí Amroth, altos e belos, além de soldados escolhidos da Torre da Guarda.
O vento soprou, as trombetas cantaram, flechas zuniram; mas o sol. agora subindo em direção ao sul, foi velado pelos vapores de Mordor, e através de uma névoa ameaçadora ele reluzia, remoto, num vermelho morto, como se fosse o final do dia, ou talvez o fim de todo o mundo de luz. E das trevas que se adensavam os nazgúl vieram com suas vozes frias, gritando palavras de morte; então toda esperança se extinguiu.
Pippin se curvara, esmagado pelo terror contra o chão, quando ouviu Gandalf recusar os termos e condenar Frodo ao tormento da Torre, mas conseguira controlar-se, e agora estava ao lado de Beregond, na primeira fileira de Gondor, com os homens de Imrahil. Pois parecia-lhe melhor morrer logo e deixar a amarga história de sua vida, uma vez que tudo estava arruinado.
— Gostaria que Merry estivesse aqui — ouviu sua própria voz dizer, e pensamentos velozes passaram-lhe pela mente, no momento em que via o inimigo avançando para o ataque. — Bem, bem, agora pelo menos entendo o pobre Denethor um pouco mais. Poderíamos morrer juntos, Merry e eu, já que devemos morrer de qualquer forma, não é mesmo? Bem, como ele não está aqui, espero que encontre um fim mais fácil. Mas agora preciso dar o melhor de mim.
Sacou a espada e a contemplou, e as figuras entrelaçadas, vermelhas e douradas; e as letras fluentes de Númenor brilharam como fogo sobre a lâmina. “Esta espada foi feita justamente para uma hora como esta”, pensou ele. “Se pelo menos eu pudesse golpear com ela o Mensageiro nojento, então quase empataria com o velho Merry. Bem, vou golpear alguém deste bando de animais antes do fim. Gostaria de poder ver um sol fresco e a relva verde outra vez.”
Então, no momento em que o hobbit pensava em tais coisas, o primeiro ataque chocou-se contra eles. Os orcs, impedidos pelos pântanos que se espalhavam diante dos montes, pararam e derramaram suas flechas contra as fileiras de defesa. Mas em meio a eles chegou, a largas passadas, rugindo como animais, uma grande companhia de trolls das montanhas, vinda de Gorgoroth. Eram mais altos e mais encorpados que homens, e estavam vestidos apenas com malhas justas de escamas resistentes; mas carregavam escudos redondos, enormes e negros, e brandiam pesados martelos em suas mãos encaroçadas. Temerários, mergulharam nas poças e atravessaram-nas andando, urrando enquanto se aproximavam. Como uma tempestade caíram sobre a fileira dos homens de Gondor, batendo sobre elmo e cabeça com arma e escudo, como um ferreiro que malha o ferro quente e flexível. Ao lado de Pippin, Beregond caiu, subjugado e aturdido; o grande chefe dos trolls que o derrubara debruçou-se sobre ele, esticando uma garra sufocante, pois essas cruéis criaturas costumavam morder as gargantas daqueles que derrubavam.
Então Pippin deu um golpe para cima, e a espada com as letras do Ponente perfurou o couro e penetrou fundo nas entranhas do troll, cujo sangue negro jorrou aos borbotões. A criatura cambaleou para a frente e foi ao chão, desmoronando como uma pedra, enterrando os que estavam embaixo. Negrume, fedor e uma dor esmagadora dominaram Pippin, e sua mente caiu numa grande escuridão. “Assim tudo termina como eu suspeitara”, disse seu pensamento, no instante em que se perdia; riu um pouco ainda dentro de si mesmo antes de fugir, parecia quase alegre por estar afastando finalmente toda a dúvida, a preocupação e o medo. E então, no momento em que o pensamento voava para dentro do esquecimento, ouviu vozes, que pareciam estar gritando de algum mundo esquecido lá em cima:
— As Águias estão chegando! As Águias estão chegando!
Por mais um momento o pensamento de Pippin perdurou.
— Bilbo! — disse ele. — Mas não! Isso aconteceu na história dele, há muito e muito tempo. Esta é minha história, e agora está terminada. Adeus!
E seu pensamento voou para longe; seus olhos não viram mais nada.

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