24 de abril de 2016

Capítulo VIII - O expurgo do Condado

A noite já caíra quando, molhados e exaustos, os viajantes finalmente atingiram o Brandevin, encontrando o caminho bloqueado. Em cada extremidade da Ponte havia um grande portão cheio de pontas; do outro lado do rio via-se que algumas novas casas haviam sido construídas: com dois andares e janelas retas e estreitas, sem adornos e mal iluminadas, tudo muito sombrio e nada parecido com o Condado.
Bateram com força no portão externo e chamaram, mas no início não houve resposta; depois, para a surpresa deles, alguém tocou uma corneta, e as luzes nas janelas se apagaram. Uma voz gritou no escuro:
— Quem é? Fora daqui! Vocês não podem entrar. Não estão lendo a placa: Proibido entrar entre o pôr-do-sol e a aurora?
— É claro que não estamos lendo placa alguma no escuro — gritou Sam em resposta. — E, se hobbits do Condado devem ficar de fora na chuva numa noite destas, vou derrubar sua placa assim que a encontrar.
Então uma janela bateu, e uma multidão de hobbits com lamparinas irrompeu da casa à esquerda. Abriram o portão do lado oposto, e alguns vieram atravessando a ponte. Ao verem os viajantes, ficaram amedrontados.
— Venha cá! — disse Merry, reconhecendo um dos hobbits. — Se você não me conhece, Hob Guarda-cerca, deveria conhecer. Sou Merry Brandebuque, e gostaria de saber o que está acontecendo, e o que um habitante da Terra dos Buques como você está fazendo aqui. Você costumava ficar no Portão da Sebe!
— Céus! É o Sr. Merry, com certeza, e todo vestido para um combate! — disse o velho Hob. — Ora, disseram que estava morto! Perdido na Floresta Velha, de acordo com a opinião geral. Fico feliz em vê-lo vivo, afinal de contas!
— Então pare de me olhar através das barras com esse jeito embasbacado e abra o portão! — disse Merry.
— Lamento, Sr. Merry, mas são as ordens.
— Ordens de quem?
— Do Chefe, lá em cima em Bolsão.
— Chefe? Chefe? Quer dizer o Sr. Lotho? — perguntou Frodo.
— Acho que sim, Sr. Bolseiro; mas atualmente só podemos dizer “O Chefe”.
— É mesmo? — disse Frodo. — Bem, pelo menos me alegro por ele ter abandonado o sobrenome “Bolseiro”. Mas evidentemente já era hora de a família cuidar dele e colocá-lo em seu devido lugar.
Um silêncio tomou conta dos hobbits do outro lado do portão.
— Não é nada bom falar desse jeito — disse um deles. — Ele vai ficar sabendo disso. E, se fizerem tanto barulho assim, vão acabar acordando o Grande Homem do Chefe.
— Vamos acordá-lo de uma forma que irá surpreendê-lo — disse Merry. — Se você está querendo dizer que o seu precioso Chefe andou contratando rufiões das terras ermas, então já era tempo de termos voltado. — Saltou do pônei e, lendo a placa na luz das lamparinas, arrancou-a e a jogou por sobre o portão. Os hobbits recuaram, sem fazer menção de abrir. — Vamos, Pippin! — disse Merry. — Bastam dois de nós.
Merry e Pippin treparam no portão, e os hobbits fugiram correndo. Uma outra corneta soou. Da casa maior à direita, um vulto grande e imponente apareceu contra a luz que vinha da porta.
— O que está acontecendo? — rosnou ele vindo para fora. — Arrombamento de portão? Sumam daqui, ou vou torcer seus pescocinhos nojentos! — Então ele parou, pois percebeu o brilho de espadas.
— Bill Samambaia! — disse Merry — se você não abrir esse portão em dez segundos, vai se arrepender. Vou consertar você a ferro, se não obedecer. E, depois de abrir os portões, você vai passar por eles para nunca mais voltar. Você é um rufião, um ladrão de estrada.
Bill Samambaia hesitou e depois arrastou-se até o portão para destrancá-lo.
— Dê-me a chave! — disse Merry.
Mas o rufião atirou-a contra a cabeça do hobbit e correu para a escuridão. Quando passou pelos pôneis, um deles desferiu-lhe um coice, atingindo-o em plena corrida. Bill sumiu gritando dentro da noite, e nunca mais se ouviu falar dele.
— Bom trabalho, Bill — disse Sam, dirigindo-se ao pônei.
— É o fim de seu Grande Homem — disse Merry. — Mais tarde cuidaremos do Chefe. Enquanto isso, queremos pouso para a noite, e, como parece que vocês derrubaram a Estalagem da Ponte e construíram essa coisa feia no lugar, vão ter de nos acomodar.
— Lamento, Sr. Merry — disse Hob — mas isso não é permitido.
— Não é permitido o quê?
— Acolher pessoas de improviso, e consumir mais comida que o permitido, e tudo isso — disse Hob.
— Qual é o problema aqui? — disse Merry. — O ano foi ruim, ou qualquer coisa do tipo? Pensei que tinha sido um bom verão, com uma colheita farta.
— Bem, não, o ano foi bastante bom — disse Hob. — Produzimos um monte de alimentos, mas não sabemos exatamente o que é feito deles. Acho que são todos esses “coletores” e “distribuidores”, andando por aí contando e medindo e levando para estocar. Mais coletam do que distribuem, e a maior parte dos alimentos não aparece nunca mais.
— Tenham dó! — disse Pippin bocejando. — Isso tudo é enfadonho demais para mim esta noite. Temos comida em nossas mochilas. É só nos darem um quarto em que possamos descansar. Será bem melhor do que muitos lugares que já vi.
Os hobbits no portão ainda pareciam constrangidos; com certeza uma ou outra regra havia sido quebrada; mas não havia como discutir com quatro viajantes tão imponentes, totalmente armados, ainda por cima sendo dois deles tão extraordinariamente grandes e fortes. Frodo ordenou que fechassem os portões outra vez. De qualquer forma parecia sensato manter vigilância, enquanto os rufiões estivessem à solta. Então os quatro companheiros entraram na guarita dos hobbits e se acomodaram como puderam. Era um lugar vazio e feio, com uma lareira pequena e pobre, que não dava bom fogo. Nos cômodos superiores havia pequenas fileiras de camas duras, e em cada parede via-se um quadro com uma lista de Regras. Pippin arrancou-os todos. Não havia cerveja e a comida era escassa, mas, com a que os viajantes trouxeram e partilharam, todos fizeram uma bela refeição; Pippin quebrou a Regra 4, colocando no fogo a maior parte da quota de lenha reservada para o dia seguinte.
— Bem, e agora, que tal um cachimbo, enquanto vocês nos contam o que tem acontecido aqui no Condado? — disse ele.
— Atualmente não temos erva-de-fumo — disse Hob — ou pelo menos há só para os homens do Chefe. Parece que todo o estoque foi embora. Ouvimos dizer que carroças carregadas de fumo saídas da Quarta Sul passaram descendo a estrada velha, atravessando o caminho do Vau Sam. Isso teria sido no final do ano passado, depois que vocês partiram. Mas antes houve carregamentos partindo em segredo, em quantidades menores. Aquele Lotho...
— Cale essa boca, Hob Guarda-cerca! — gritaram vários dos outros. — Você sabe que esse tipo de conversa não é permitido. O Chefe vai ficar sabendo, e todos nós estaremos numa enrascada.
— Ele não ficaria sabendo de nada, se alguns de vocês não fossem delatores — retorquiu Hob enfurecido.
— Tudo bem, tudo bem! — disse Sam. — Já basta. Não quero ouvir mais nada. Sem boas-vindas, sem cerveja, sem fumo, e ao invés disso um monte de regras e conversa de orc. Esperava poder descansar, mas estou vendo que há muito trabalho e muito problema à frente. Vamos dormir e esquecer tudo até amanhã.


O novo “Chefe” evidentemente tinha meios de conseguir notícias. Da Ponte até Bolsão eram bem umas quarenta milhas, mas alguém fez a viagem correndo. E logo Frodo e seus amigos ficaram sabendo disso.
Eles não tinham nenhum plano definido, mas haviam pensado vagamente em primeiro descer até Criconcavo, para descansarem um pouco por lá. Mas agora, vendo como estavam as coisas, decidiram ir direto para a Vila dos Hobbits. Assim, no dia seguinte, partiram pela Estrada e avançaram depressa, quase sem paradas.
O vento diminuíra e o céu estava cinzento. O lugar parecia bastante triste e abandonado, mas afinal de contas era primeiro de novembro, o último suspiro do outono. Mesmo assim, parecia haver uma quantidade incomum de queimadas, e desprendia-se fumaça de vários pontos ao redor do caminho. Formava-se uma grande nuvem que subia lá longe na direção da Ponta do Bosque.
Quando caiu a noite, eles estavam próximos de Sapântano, uma aldeia à margem direita da Estrada, a cerca de vinte e duas milhas da Ponte. Ali pretendiam passar a noite; O Tronco Flutuante de Sapântano era uma boa estalagem. Mas, quando atingiram a extremidade leste da aldeia, encontraram uma barreira com uma enorme placa dizendo ESTRADA BLOQUEADA, e atrás dela se via um grande bando de Condestáveis com bastões nas mãos e penas nos chapéus, de aparência ao mesmo tempo arrogante e meio amedrontada.
— Que significa tudo isso? — disse Frodo, sentindo-se inclinado a rir.
— É isso mesmo, Sr. Bolseiro — disse o chefe dos Condestáveis, um hobbit de duas penas — vocês estão presos por Arrombamento de Portão, por Destruição dos Quadros de Regras e por Ataque aos Guardas do Portão, e por Invasão, e por Dormir nos Prédios do Condado sem Permissão, e por Suborno de Guardas por Meio de Comida.
— E o que mais? — perguntou Frodo.
— Isso já basta por enquanto — disse o Chefe dos Condestáveis.
— Posso acrescentar mais algumas infrações, se quiserem — disse Sam. — Xingamento de seu Chefe, Desejo de Esbofetear sua Cara Espinhenta, e Achar que Vocês Condestáveis são uns Bobalhões.
— Calma agora, Senhor, já basta. São ordens do Chefe que vocês nos acompanhem em silêncio. Vamos levá-los até Beirágua e entregá-los aos Homens do Chefe; e, quando ele estiver cuidando do seu caso, terão oportunidade de falar. Mas, se eu fosse vocês, falaria o mínimo possível, a menos que queiram ficar nos Tocadeados mais que o necessário.
Para o desapontamento dos Condestáveis, Frodo e todos os seus companheiros explodiram em riso.
— Não seja absurdo! — disse Frodo. — Eu vou aonde quiser, e quando bem quiser. Por acaso estou indo para Bolsão a negócios, mas, se vocês insistem em ir também, isso é da sua conta.
— Muito bem, Sr. Bolseiro — disse o líder, empurrando de lado a barreira. — Mas não se esqueça de que os prendi.
— Não vou me esquecer — disse Frodo. — Nunca. Mas posso perdoá-los. Contudo, não vou viajar mais hoje e, se vocês gentilmente me escoltarem até O Tronco Flutuante, ficarei agradecido.
— Não posso fazer isso, Sr. Bolseiro. A estalagem está fechada. Há uma casa de Condestáveis do outro lado da aldeia.
— Está bem — disse Frodo. — Vá na frente.
Sam estivera examinando todos os Condestáveis, e encontrou um seu conhecido entre eles.
— Ei, venha cá, Robin Covapequena! — chamou ele. — Quero trocar umas palavras com você.
Lançando um olhar humilde para o líder, que parecia irado mas não ousou interferir, o Condestável Covapequena atrasou o passo e aproximou-se de Sam, que desceu de seu pônei.
— Olhe aqui, Robin, seu Galinho! — disse Sam. — Você cresceu na Vila dos Hobbits, e deveria ter mais juízo, em vez de ficar tocaiando o Sr. Frodo e tudo mais. E o que significa isso de a estalagem estar fechada?
— Estão todas fechadas — disse Robin. — O Chefe não tolera cerveja. Pelo menos foi assim que tudo começou. Mas agora calculo que são os Homens dele que ficam com toda a cerveja. E ele também não tolera pessoas indo de um lado para o outro. Nesse caso, se elas quiserem ou precisarem, têm de ir até a casa dos Condestáveis para se explicar.
— Você deveria ter vergonha de estar metido num absurdo destes — disse Sam. — Você mesmo costumava gostar do interior de uma estalagem mais que do seu exterior. Você sempre dava uma passadinha por lá, mesmo quando estava trabalhando.
— E ainda continuaria fazendo a mesma coisa, se pudesse. Mas não seja duro comigo. O que posso fazer? Você sabe o motivo de eu ter-me transformado num Condestável há sete anos, antes que tudo isto começasse. Isso me permitia passear pelo lugar, e conhecer pessoas, e ouvir notícias, além de saber onde estava a boa cerveja. Mas agora é diferente.
— Mas você pode desistir. Deixe de ser Condestável, se o trabalho já não merece respeito — disse Sam.
— Não nos é permitido — disse Robin.
— Se eu ouvir não é permitido com mais frequência, vou ficar com raiva.
— Não posso dizer que lamentaria ver a cena — disse Robin, abaixando a voz. — Se todos nós ficássemos com raiva juntos, alguma coisa se poderia fazer. Mas são estes Homens, Sam, os Homens do Chefe. Ele os manda para todos os lugares, e, se algum de nós pequenos se levanta e exige nossos direitos, eles o arrastam para os Tocadeados. Levaram primeiro o velho Bolão e o Prefeito Will Pealvo, e depois levaram muitos mais. Ultimamente a situação está pior. Agora frequentemente nos espancam.
— Então por que vocês executam o trabalho no lugar deles? — disse Sam com raiva. — Quem os mandou para Sapântano?
— Ninguém mandou. Ficamos aqui na grande casa dos Condestáveis. Agora formamos a Primeira Tropa da Quarta Leste. Ao todo há centenas de Condestáveis, e eles querem mais, com todas essas novas regras. A maioria está contra a vontade, mas não todos. Até mesmo no Condado há alguns que gostam de se meter na vida dos outros, e de falar arrotando importância. E tem coisa pior: alguns espionam para o Chefe e seus Homens.
— Ah! Então foi assim que vocês ficaram sabendo a nosso respeito, é?
— Isso mesmo. Agora não nos permitem enviar notícias pelo velho serviço de Postagem Rápida, mas eles o usam, e mantêm mensageiros especiais em pontos diferentes. Um deles veio de Fosso Branco ontem à noite com uma “mensagem secreta”, e um outro a levou daqui. E chegou uma mensagem em resposta esta tarde, dizendo que vocês deviam ser presos e levados para Beirágua, e não direto para os Tocadeados. Está claro que o Chefe quer vê-los imediatamente.
— Não estará tão ansioso depois que o Sr. Frodo tiver acabado com ele — disse Sam.


A casa dos Condestáveis em Sapântano era ruim como a casa da Ponte. Era térrea, mas tinha as mesmas janelas estreitas, e fora construída com horríveis tijolos claros, muito mal assentados. O interior era úmido e melancólico, e a ceia foi servida numa mesa comprida e sem toalha que não era esfregada havia semanas. A comida não merecia aparato melhor. Os viajantes ficaram satisfeitos em deixar o lugar. Eram cerca de dezoito milhas até Beirágua, e eles partiram às dez horas da manhã.
Teriam partido antes, se não fosse tão visível a irritação do líder diante do atraso.
O vento oeste virara para o norte, e agora estava ficando mais frio, mas a chuva se fora. Estava bem cômica a cavalgada que partiu da aldeia, embora as poucas pessoas que saíram para observar as “fantasias” dos viajantes não parecessem bem certas de que o riso era permitido. Uma dúzia de Condestáveis foram designados para a escolta dos “prisioneiros”, mas Merry fez com que fossem marchando à frente, enquanto Frodo e seus amigos cavalgavam atrás. Merry, Pippin e Sam iam tranquilos, rindo, conversando e cantando, enquanto os Condestáveis iam pisando duro, tentando parecer severos e importantes. Frodo, entretanto, ficou em silêncio, parecendo bastante triste e pensativo.
A última pessoa pela qual passaram foi um velhinho corpulento que aparava uma cerca-viva.
— Ei, ei — zombou ele. — Quem prendeu quem?
Dois dos Condestáveis imediatamente deixaram a comitiva e foram na direção dele.
— Líder! — disse Merry. — Mande seus rapazes de volta aos seus lugares imediatamente, se não quiser que eu cuide deles!
Os dois hobbits, a uma palavra ríspida do líder, voltaram cabisbaixos.
—Agora avancem — disse Merry, e depois disso os viajantes cuidaram para manter os pôneis num passo rápido, obrigando os Condestáveis a avançarem na maior velocidade que podiam.
O sol apareceu, e, apesar do vento frio, eles logo começaram a bufar e suar. A altura da Pedra das Três Quartas, eles desistiram. Tinham percorrido quase catorze milhas com apenas uma parada ao meio-dia. Já eram três da tarde. Os Condestáveis estavam famintos, com os pés inchados, e não aguentavam mais aquele ritmo.
— Bem, sigam-nos no seu próprio passo! — disse Merry. — Nós vamos avançar.
— Até à vista, Galinho! — disse Sam. — Vou esperá-lo do lado de fora do Dragão Verde, se você não esqueceu onde fica a estalagem. Não fique perdendo tempo pelo caminho!
— Vocês estão infringindo a ordem de prisão, é isso que estão fazendo — disse o líder numa voz pesarosa — e eu não posso ser responsável por isto.
— Ainda vamos infringir muitas ordens, e não estamos pedindo que se responsabilize — disse Pippin. — Boa sorte a todos!
Os viajantes avançaram trotando, e, quando o sol começou a descer na direção das Colinas Brancas, lá longe no horizonte ocidental, eles chegaram a Beirágua, pelo caminho do amplo lago, e foi ali que tiveram o primeiro choque realmente doloroso. Esta era a terra de Sam e Frodo, e os dois agora percebiam que se preocupavam mais com ela do que com qualquer outro lugar do mundo. Muitas das casas que conheciam estavam faltando. Algumas pareciam ter sido incendiadas. As belas e antigas tocas de hobbits enfileiradas na margem do lado norte do Lago estavam abandonadas, e seus pequenos jardins, que costumavam descer verdejantes até a beira da água, estavam cheios de mato. Pior ainda, havia toda uma fileira das casas novas e feias, ao longo de toda a Beira do Lago, onde a Estrada da Vila dos Hobbits passava próxima à margem. Antes houvera uma avenida de árvores naquele ponto.
Agora não restava uma sequer. E, olhando frustrados estrada acima, na direção de Bolsão, eles viram a distância uma alta chaminé feita de tijolos. Derramava fumaça preta no ar da noite.
Sam ficou fora de si.
— Estou indo direto para lá, Sr. Frodo! — gritou ele. — Vou ver o que está acontecendo. Quero encontrar meu velho.
— Primeiro precisamos saber em que estamos nos metendo, Sam — disse Merry. — Calculo que o “Chefe” deve ter uma gangue de rufiões a postos. É melhor encontrarmos alguém que nos conte como estão as coisas por aqui.
Mas na aldeia de Beirágua todas as casas e tocas estavam fechadas, e ninguém os cumprimentou. Surpreenderam-se com isso, mas logo descobriram o motivo. Quando chegaram ao Dragão Verde, a última casa da Vila dos Hobbits, agora sem vida e com as janelas quebradas, ficaram perturbados ao verem meia dúzia de homens grandes e mal encarados, descansando contra a parede da estalagem; eram vesgos e amarelentos.
— Como aquele amigo de Bill Samambaia em Bri — disse Sam.
— Como muitos que vi em Isengard — murmurou Merry.
Os rufiões seguravam bastões nas mãos e traziam cornetas presas aos cintos, mas não portavam qualquer outro tipo de arma, pelo que se podia ver. À medida que os viajantes foram subindo, eles deixaram a parede vindo na direção da estrada, bloqueando o caminho.
— Aonde pensam que vão? — disse um deles, o maior e de aparência mais maligna. — Não há mais estrada para vocês. E onde estão aqueles inúteis Condestáveis?
— Estão vindo devagar — disse Merry. — Com os pés um pouco inchados, talvez. Prometemos esperá-los aqui.
— Droga!, que foi que eu disse? — disse o rufião para os companheiros. — Eu disse ao Charcote que não adiantava confiar naqueles pequenos idiotas. Devíamos ter mandado alguns de nossos rapazes.
— E que diferença teria feito? — disse Merry. — Não estamos acostumados a salteadores por estas bandas, mas sabemos como lidar com eles.
— Salteadores, é? — disse o homem. — Então esse é o seu tom? É melhor mudá-lo, ou nós o mudaremos por você. Vocês pequenos estão ficando muito petulantes. Não confiem demais na bondade do Patrão. Agora Charcote chegou, e ele fará o que Charcote mandar.
— E quais serão as ordens dele? — disse Frodo calmamente.
— Esta região precisa despertar e pôr as coisas no lugar — disse o rufião — e Charcote vai se encarregar disso; e vai ser duro, se for obrigado. Vocês precisam de um Patrão mais forte. E terão um antes do fim do ano, se houver mais algum problema. Então vão aprender algumas coisas, seus pequenos ratos.
— De fato, fico feliz em saber de seus planos — disse Frodo. — Estou indo visitar o Sr. Lotho, e talvez ele também se interesse em tomar conhecimento deles.
O rufião riu.
— Lotho! Ele sabe de tudo. Não se preocupe. Ele fará o que Charcote mandar. Porque, se um Patrão causa problema, podemos substitui-lo, entendeu? E, se pessoas pequenas tentam se meter onde não são desejadas, podemos afastá-las de qualquer confusão, entendeu?
— Entendi sim — disse Frodo. — Em primeiro lugar, percebo que vocês estão atrasados no tempo, e não sabem das novidades por aqui. Muita coisa aconteceu desde que vocês partiram do sul. Seu tempo acabou, como também o tempo de todos os outros rufiões. A Torre Escura caiu, e agora há um Rei em Gondor. E Isengard foi destruída, e o seu precioso mestre é um mendigo no deserto. Passei por ele na estrada. Agora os mensageiros do Rei é que virão subindo pelo Caminho Verde, e não os valentões de Isengard.
O homem o fitou e sorriu.
— Um mendigo no deserto! zombou ele. — É mesmo? Continuue a se gabar, continue, meu pavãozinho. Mas isso não vai nos impedir de viver nesta terrinha farta, onde vocês já tiveram vida mansa por tempo suficiente. E — disse ele com um gesto de desprezo para Frodo — aqui para os mensageiros do Rei! Quando deparar com um, talvez perceba a presença dele.
Aquilo foi demais para Pippin. Seus pensamentos voltaram ao Campo de Cormallen, e ali estava um vagabundo vesgo chamando o Portador do Anel de “pavãozinho”.
Jogou para trás a capa, ergueu sua espada num lampejo, e as cores da prata e do sable de Gondor reluziram nele quando avançou.
— Eu sou um mensageiro do Rei — disse ele. — Você está falando com o amigo do Rei, e um dos mais renomados em todas as terras do oeste. Você é um rufião idiota. Ajoelhe-se aqui na estrada e peça perdão, ou enfio esta assassina de troll em você!
A espada reluziu ao sol poente. Merry e Sam também puxaram suas espadas e se aproximaram para ajudar Pippin, mas Frodo não se mexeu. Os rufiões recuaram. O trabalho deles era assustar os camponeses de Bri e intimidar hobbíts confusos. Hobbits destemidos com espadas brilhantes e rostos severos eram uma grande surpresa. E havia um tom nas vozes dos recém chegados que eles nunca tinham ouvido antes, e que os fez gelar de medo.
— Fora daqui! — disse Merry. — E, se perturbarem esta aldeia de novo, vão se arrepender. — Os três hobbits avançaram, e então os rufiões se viraram e correram, fugindo pela Estrada da Vila dos Hobbits; mas não deixaram de tocar as cornetas enquanto corriam.
— Bem, acho que nosso retorno não foi nem um pouco precoce — disse Merry.
— Nem um dia. Talvez seja tarde demais, pelo menos para salvar Lotho — disse Frodo. — Tolo miserável, mas lamento por ele.
— Salvar Lotho? O que está querendo dizer? — disse Pippin. — Eu diria destruí-lo.
— Acho que você não está entendendo o que se passa, Pippin — disse Frodo. — Lotho nunca quis que as coisas chegassem a este ponto. Sempre foi um idiota malvado, mas agora foi pego. Os rufiões estão por cima, recolhendo, roubando, ameaçando, manipulando ou destruindo as coisas como bem desejam, em nome dele. E nem sequer em nome dele por muito mais tempo. Agora ele é um prisioneiro em Bolsão, eu acho, e deve estar bem amedrontado. Devemos tentar resgatá-lo.
— Bem, estou abismado! — disse Pippin. — De todos os finais para nossa viagem, este é o último que eu imaginaria: lutar com semi-orcs e rufiões no próprio Condado... para resgatar Lotho Pústula!
— Lutar? — disse Frodo. — Bem, pode ser que cheguemos a isso. Mas lembrem-se: não deve haver matança de hobbits, nem mesmo se eles passarem para o outro lado. Quero dizer os que passarem realmente, e não os que estão apenas obedecendo ordens dos rufiões sob ameaça. Jamais um hobbit matou outro de propósito no Condado. E isso não deve começar agora. E ninguém deve ser morto se eu puder evitar. Mantenha a calma e controle as mãos até o último minuto possível.
— Mas, se houver muitos desses rufiões — disse Merry —, com certeza isso vai significar luta. Você não vai resgatar Lotho, ou o Condado, apenas ficando chocado e triste, meu querido Frodo.
— Não — disse Pippin. — Não será tão fácil assustá-los da próxima vez. Eles foram pegos de surpresa. Você ouviu as cornetas soando? Evidentemente há outros rufiões aqui por perto. Ficarão muito mais valentes quando estiverem num grupo maior. Devemos pensar em nos proteger em algum lugar durante a noite. Afinal de contas, somos apenas quatro, mesmo estando armados.
— Tenho uma ideia — disse Sam. — Vamos até a casa do velho Tom Villa, lá no fim da Alameda Sul! Ele sempre foi um sujeito corajoso. E ele tem um monte de rapazes que são todos amigos meus.
— Não! — disse Merry. — Não adianta “nos protegermos”. É só isso que as pessoas têm feito, e exatamente o que os rufiões querem. Vão simplesmente nos atacar em grupo, nos encurralar, e então nos expulsar, ou nos queimar lá dentro. Não, precisamos fazer alguma coisa imediatamente.
— Fazer o quê? — disse Pippin.
— Sublevar o Condado! — disse Merry. — Agora! Acordar nosso povo! Eles odeiam tudo isso, você pode ver: todos eles, com a exceção de um ou dois velhacos, e alguns tolos que querem ser importantes, mas que de modo algum entendem o que realmente está acontecendo. Mas o povo do Condado tem estado tão acomodado há tanto tempo que não sabe o que fazer. Entretanto só precisam de uma fagulha para se incendiarem. Os Homens do Chefe devem saber disso. Vão tentar nos pisotear e nos apagar rápido. Temos muito pouco tempo. Sam, você pode dar uma corrida até a fazenda do Villa, se quiser. Ele é a pessoa mais importante por aqui, e a mais corajosa. Vamos! Vou tocar a corneta de Rohan, e fazê-los todos ouvir uma música que nunca ouviram antes.
Voltaram para o centro da aldeia. De lá Sam desviou seu caminho e galopou descendo a ladeira que levava até a propriedade de Villa. Não tinha ido muito longe quando ouviu um toque de corneta súbito e cristalino subindo pelos ares, ecoando longe, sobre colinas e campos. Tão imperioso era aquele chamado que o próprio Sam quase se virou e correu de volta. O pônei recuou e relinchou.
— Vamos, rapaz! Para a frente! — gritou ele. — Logo voltaremos.
Depois ele ouviu Merry mudar de tom, e logo subiu o Chamado de corneta da terra dos Bosques, agitando o ar.
— Acordem! Acordem! Faca, Fogo, Fúria! Acordem! Fogo, Fúria! Acordem!
Atrás de si Sam ouviu uma confusão de vozes e um grande estrondo de portas batendo. A sua frente surgiram luzes no crepúsculo; cães latiram, passos se aproximaram correndo. Antes que Sam chegasse ao fim da ladeira, já lá estava o Fazendeiro Villa com três de seus rapazes, o Jovem Tom, Jolly e Nick, correndo na direção dele. Empunhavam machados e estavam bloqueando o caminho.
— Não! Não é um dos rufiões — Sam ouviu-o dizer. — Pelo tamanho é um hobbit, mas com uma roupa muito esquisita. Ei! — gritou ele. — Quem é você, e o que é todo esse barulho?
— É Sam, Sam Gamgi. Eu voltei.
Villa aproximou-se e olhou em seu rosto à luz do crepúsculo.
— Bem! — exclamou ele. — A voz é a mesma, e o seu rosto não está pior do que era, Sam. Mas eu não o reconheceria na rua, vestido assim. Ao que parece, você andou por terras estrangeiras. Temíamos que estivesse morto.
— Isso eu não estou! — disse Sam. — Nem o Sr. Frodo. Ele está aqui com os seus amigos. E o barulho é por causa disso. Estão sublevando o Condado. Vamos expulsar esses rufiões, e o Chefe deles também. Estamos começando agora.
— Bom, bom! — exclamou Villa. — Finalmente começou! Estou louco por uma confusão desde o começo do ano, mas as pessoas daqui não queriam ajudar. E eu tinha de pensar na mulher e em Rosinha. Esses rufiões não respeitam nada. Mas venham agora, rapazes! Beirágua está se insurgindo. Precisamos participar disso!
— E a Sra. Villa e Rosinha? — disse Sam. — Ainda não é seguro deixá-las sozinhas.
— O meu Nibs está com elas. Você pode ir ajudá-lo, se quiser — disse Villa com um sorriso. Depois correu na direção da aldeia junto com os filhos.
Sam correu para a casa. Ao lado da grande porta redonda, no topo da escada que vinha do largo pátio, estavam a Sra. Villa e Rosinha; Nibs estava na frente delas, agarrando um garfo de feno.
— Sou eu! — gritou Sam trotando no pônei —, Sam Gamgi! Não tente me cutucar, Nibs. De qualquer modo, estou vestindo uma malha metálica.
Desceu do pônei e subiu a escada. Os três o observavam em silêncio.
— Boa noite, Sra. Villa! — disse ele. — Oi, Rosinha!
— Oi, Sam! — disse Rosinha. — Por onde esteve? Disseram que estava morto, mas eu estive à sua espera desde a primavera. Você não teve pressa, não é verdade?
— Talvez não — disse Sam envergonhado. — Mas agora estou com pressa. Vamos atacar os rufiões, e preciso voltar para junto do Sr. Frodo. Mas pensei em vir para ver como a Sra. Villa está passando. E você também, Rosinha.
— Estamos bem, obrigada — disse a Sra. Villa. — Ou deveríamos estar, se não fosse por esses rufiões ladros.
— Bem, então vá andando! — disse Rosinha. — Se você esteve cuidando do Sr. Frodo todo esse tempo, por que quereria abandoná-lo logo que as coisas ficam perigosas?
Aquilo foi demais para Sam. Ou ele ficava uma semana respondendo, ou não respondia nada. Virou-se e montou no pônei. Mas, no momento em que ia partir, Rosinha desceu correndo a escada.
— Eu acho que você está muito bem, Sam — disse ela. — Agora vá! Mas cuide-se e volte direto para cá assim que tiver resolvido o problema dos rufiões!


Quando Sam retornou, encontrou toda a aldeia agitada. Além de vários rapazes mais jovens, já mais de uma centena de hobbits robustos estavam reunidos, com machados, pesados martelos, longas facas e grossos bastões; além disso, alguns levavam arcos de caça. Muitos outros estavam chegando das fazendas distantes. Algumas pessoas da aldeia tinham acendido uma grande fogueira, só para deixar a coisa toda mais emocionante, e também porque isso era proibido pelo Chefe.
O fogo queimava forte enquanto se aproximava a noite. Outros, por ordem de Merry, estavam erguendo barreiras através da estrada nas duas extremidades da aldeia.
Quando os Condestáveis atingiram o lado mais baixo, ficaram aturdidos; mas, assim que viram como estavam as coisas, a maioria deles tirou as penas e juntou-se à revolta. Os outros se retiraram furtivamente.
Sam encontrou Frodo e seus amigos perto do fogo, conversando com o velho Tom Villa, enquanto uma multidão admirada de Beirágua se juntava ao redor para observá-los.
— Bem, qual é o próximo passo? — perguntou Villa.
— Não posso dizer até que saiba mais — disse Frodo. — Quantos são esses rufiões?
— Isso é difícil dizer — disse Villa. — Eles andam por aí, indo e vindo. Algumas vezes há cinquenta deles naqueles barracões lá em cima, no caminho da Vila dos Hobbits; mas eles saem e ficam perambulando, roubando ou recolhendo, como eles dizem. Ainda assim, é raro haver menos que vinte em volta do Patrão, como eles o chamam. Ele está em Bolsão, ou estava; mas agora não sai da propriedade. Ninguém o vê, na verdade, há uma ou duas semanas; mas os homens não deixam ninguém chegar perto.
— A Vila dos Hobbits não é o único lugar onde eles ficam, é? — disse Pippin.
— Não, e isso é que é o pior — disse Villa. — Há um bom grupo lá no sul, no Vale Comprido e perto do Vau Sam, ouvi dizer; e mais alguns rondando na Ponta do Bosque; e eles têm barracões em Encruzada. E além disso há os Tocadeados, como os chamam: os velhos túneis de estocagem em Grã Cava, transformados em prisões para aqueles que os enfrentam. Mesmo assim, calculo que não haja mais que trezentos ao todo, e talvez até menos. Podemos dominá-los, se ficarmos juntos.
— Eles têm armas? — perguntou Merry.
— Chicotes, facas e bastões, o suficiente para o trabalho sujo que fazem: é tudo o que exibiram até agora — disse Villa. — Mas arrisco dizer que eles têm outros equipamentos, se for preciso lutar. De qualquer forma, alguns têm arcos. Atingiram um ou dois de nosso pessoal.
— Aí está, Frodo! — disse Merry. — Eu sabia que íamos ter de lutar. Bem, foram eles que começaram a matança.
— Não exatamente — disse Villa. — Pelo menos, não foram eles que começaram a atirar. Os Túks começaram tudo. Compreenda, Sr. Peregrin, o seu pai nunca se entendeu com esse Lotho, desde o início: disse que, se alguém ia bancar o chefe a essa altura das coisas, essa pessoa deveria ser o Thain do Condado e não um arrivista qualquer. E, quando Lotho mandou seus homens, não conseguiram fazê-lo mudar de ideia. Os Túks são sortudos, têm aquelas tocas profundas nas Colinas Verdes, os Grandes Smials e tudo mais; e os rufiões não conseguem atacá-los, e eles não permitem a entrada dos rufiões nas terras deles. Quando entram, os Túks os caçam. Atiraram em três por saque e roubo. Depois disso os rufiões ficaram mais cruéis. E montaram uma vigilância cerrada na Terra dos Túks. Ninguém entra ou sai de lá.
— Bom para os Túks! — exclamou Pippin. — Mas alguém vai entrar lá de novo, agora. Estou indo para os Smials. Alguém quer ir comigo para Tuqueburgo?
Pippin partiu acompanhado de meia dúzia de rapazes montados em pôneis.
— Até breve! — gritou ele. — São só catorze milhas mais ou menos, indo pelos campos. Vou trazer-lhes um exército de Túks pela manhã.
Merry fez soar a corneta, enquanto eles iam entrando na noite que se adensava. O povo aplaudia.
— Mesmo assim — disse Frodo a todos que estavam próximos — eu não quero matança nenhuma, nem mesmo dos rufiões, a não ser que seja necessário para impedir que eles machuquem os hobbits.
— Está certo! — disse Merry. — Mas vamos ter uma visita da gangue da Vila dos Hobbits a qualquer momento, eu acho, eles não estão vindo só para conversar. Vamos tentar lidar com eles sem desordem, mas devemos estar preparados para o pior. E eu tenho um plano.
— Muito bem — disse Frodo. — Você prepara tudo.
Naquela mesma hora alguns hobbits, que tinham sido mandados para a Vila, chegaram correndo.
— Eles estão chegando! — disseram eles. — Vinte ou mais. Mas dois desviaram para o oeste através do campo.
— Para Encruzada, sem dúvida — disse Villa — a fim de engrossar a gangue. Bem, são quinze milhas de ida, e mais quinze de volta. Não precisamos nos preocupar com eles por enquanto.
Merry apressou-se dando ordens. Villa evacuou a rua, mandando todos para dentro de casa, com exceção dos hobbits mais velhos que tinham armas de algum tipo.
Não precisaram esperar muito. Logo já ouviam vozes gritando, e depois a batida de pés pesados no chão. De repente um esquadrão inteiro dos rufiões veio pela estrada.
Viram a barreira e começaram a rir. Não imaginavam existir qualquer coisa naquele lugarzinho que pudesse fazer frente a um grupo de vinte rufiões.
Os hobbits abriram a barreira e se puseram de lado.
— Obrigado! — zombaram os homens. — Agora vão correndo para suas casas e durmam, antes que sejam chicoteados. — Então avançaram em marcha ao longo da rua, gritando: — Apaguem essas luzes! Entrem e fiquem em casa, ou vamos prender cinquenta de vocês nos Tocadeados por um ano. Entrem! O Patrão está perdendo a paciência.
Ninguém deu atenção àquelas ordens; mas, quando os rufiões passaram, os hobbits fecharam o caminho atrás deles e os seguiram. Quando os homens se aproximaram da fogueira, depararam com Villa ali sozinho, esquentando as mãos.
— Quem é você, e o que pensa que está fazendo? — disse o líder dos rufiões.
Vílla olhou lentamente para ele.
— Eu ia lhe perguntar exatamente isso — disse ele. — Esta não é a sua terra, e ninguém quer vocês aqui.
— Bem, de qualquer forma ninguém quer você — disse o líder.
— Nós o queremos. Agarrem-no, rapazes! Tocadeado para ele, e podem aplicar-lhe um lembrete para que fique quieto!
Os homens deram um passo à frente e pararam de súbito. Ergueu-se um rugido de vozes ao redor deles, e de repente os rufiões perceberam que Villa não estava sozinho, muito pelo contrário. Estavam cercados. No escuro, no limiar da luz do fogo, havia um círculo de hobbits que surgiram das sombras. Havia quase duzentos deles, cada um segurando algum tipo de arma.
Merry deu um passo à frente.
— Já nos encontramos antes — disse ele ao líder — e eu o avisei para não voltar aqui. Estou avisando de novo: vocês estão sob a luz e cercados por arqueiros. Se tocarem um dedo neste fazendeiro, ou em qualquer pessoa, serão imediatamente atingidos. Coloquem no chão qualquer arma que tiverem.
O líder olhou em volta. Estava encurralado. Mas não sentiu medo, não agora, com vinte de seus homens na retaguarda. Sabia muito pouco sobre os hobbits para entender o perigo que estava correndo. Numa atitude tola, resolveu lutar. Julgou que seria fácil romper a barreira.
— Para cima deles, rapazes! — gritou ele. — Vamos lá!
Com uma faca comprida na mão esquerda e um bastão na outra, ele avançou para o círculo, tentando correr de volta para a Vila dos Hobbits.
Ensaiou um golpe na direção de Merry, que lhe barrava o caminho. Caiu morto com quatro flechas enfiadas no corpo.
Isso bastou para os outros, que se renderam. As armas foram-lhes tomadas e eles amarrados; fizeram-nos marchar para um barracão vazio construído por eles mesmos, e ali tiveram as mãos e pés atados, e ficaram trancados sob vigia. O líder morto foi arrastado dali e enterrado.
— Até que foi fácil demais, afinal de contas, não foi? — disse Villa. — Eu disse que poderíamos dominá-los. Mas precisávamos de uma convocação. Vocês vieram na hora exata, Sr. Merry.
— Ainda há mais o que fazer — disse Merry. — Se o senhor está certo em seus cálculos, ainda não lidamos nem com um décimo deles. Mas agora está escuro. Acho que o próximo golpe pode esperar até amanhã. Depois devemos visitar o Chefe.
— Por que não agora? — disse Sam. — Não passa muito das seis horas. E eu queria ver o meu velho. O senhor sabe o que aconteceu com ele, Sr. Villa?
— Ele não está muito bem, nem muito mal, Sam — disse o fazendeiro. — Eles escavaram toda a rua do Bolsinho, e isso foi um duro golpe para ele. Agora está em uma das casas novas que os Homens do Chefe costumavam construir, no tempo em que faziam alguma coisa além de incendiar e roubar: não mais que uma milha além do fim de Beirágua. Mas ele às vezes vem me visitar, quando tem uma oportunidade, e eu vejo que está mais bem alimentado que alguns desses pobres coitados. Tudo contra As Regras, é claro. Eu o teria acolhido em casa, mas isso não era permitido.
— Muito obrigado mesmo, Sr. Villa; nunca me esquecerei disso — disse Sam. — Mas quero vê-lo. Aquele Patrão e o tal de Charcote, do qual eles falaram, podem fazer alguma maldade lá em cima antes que amanheça.
— Está bem, Sam — disse Villa. — Escolha um ou dois rapazes e vá buscá-lo; traga-o para minha casa. Não será preciso chegar perto do antigo vilarejo dos hobbits do outro lado do Água. Meu Jolly vai lhe mostrar o caminho.
Sam partiu. Merry designou vigias para ocuparem postos de observação ao redor da aldeia, e guardas para tomarem conta das barreiras durante a noite. Então ele e Frodo foram para a casa de Villa. Sentaram-se com a família na cozinha aconchegante, e os Víllas fizeram algumas perguntas educadas sobre a viagem deles, mas mal ouviram as respostas: estavam muito mais preocupados com os acontecimentos no Condado.
— Tudo começou com Pústula, como o chamamos — disse o Sr. Algodão — e começou assim que vocês partiram, Sr. Frodo. Ele tinha ideias esquisitas, o Pústula. Parece que queria ter tudo para si mesmo, e depois ficar dando ordens para os outros. Logo descobrimos que ele já possuía uma propriedade maior do que precisava, e estava sempre agarrando mais, embora onde ele conseguia o dinheiro continuasse sendo um mistério: moinhos e maltarias, estalagens, fazendas, plantações de fumo. Já tinha comprado o moinho do Ruivão antes de vir para Bolsão, ao que parece.
“É claro que começou com uma propriedade na Quarta Sul que herdou do pai; e parece que andou vendendo uma grande porção do melhor fumo, e despachando tudo em segredo por um ou dois anos. Mas no fim do ano passado ele começou a mandar grandes quantidades de mercadorias, não só fumo. As coisas começaram a faltar, o que se agravou com a chegada do inverno. As pessoas ficavam com raiva, mas ele tinha o que responder. Um monte de homens, a maioria rufiões, chegaram com grandes carroças, alguns para levar as mercadorias para o sul, e outros para ficar. Mais e mais chegavam. E antes que nos déssemos conta foram-se instalando aqui e acolá em todo o Condado, e estavam derrubando árvores e cavando e construindo para si barracões e casas a seu bel-prazer. No início, as mercadorias e o prejuízo eram pagos por Pústula; mas logo eles começaram a mandar e desmandar, levando o que queriam.
“Depois houve um pouco de problemas, mas não o suficiente. O Velho Will, o Prefeito, foi até Bolsão para protestar, mas nunca chegou lá. Os rufiões botaram as mãos nele e o levaram, trancando-o numa toca em Grã Cava, onde ele está até agora. E depois disso, logo depois do Ano Novo, não havia mais Prefeito, e o Pústula autodenominou-se Condestável Chefe, ou apenas Chefe, e fez o que quis; e se alguém ficasse “petulante”, como diziam eles, ia para junto de Will. Assim as coisas foram de mal a pior. Não havia mais fumo, exceto para os homens, e o Chefe não tolerava cerveja, a não ser para seus homens, e fechou todas as estalagens; e, fora as regras. tudo foi escasseando cada vez mais, a não ser que alguém conseguisse esconder um pouco do que tinha quando os rufiões passavam recolhendo mercadorias ‘para uma distribuição justa’: o que significava que eles ficavam com tudo e nós com nada, com exceção das sobras que se podiam conseguir nas casas dos Condestáveis, se você conseguisse comê-las. Tudo muito ruim. Mas desde a vinda de Charcote tem sido pura desgraça.
— Quem é esse Charcote? — perguntou Merry. — Ouvi um dos rufiões falar nele.
— O maior rufião de todos, ao que parece — respondeu Villa. — Foi por volta da última colheita, talvez no fim de setembro, que ouvimos falar dele pela primeira vez. Nunca o vimos, mas ele está lá em Bolsão. E agora é o verdadeiro Chefe, eu acho. Todos os rufiões fazem o que ele manda, e o que ele manda é principalmente cortar, queimar e destruir; agora começaram a matar. O que fazem já não tem mais objetivo nenhum, por pior que seja. Derrubam árvores e as deixam no chão, queimam casas e não constroem outras.
“Veja, por exemplo, o moinho do Ruivão. Pústula o derrubou assim que chegou a Bolsão. Então trouxe um monte de homens imundos para construir um maior, cheio de rodas e geringonças esquisitas. Só aquele idiota do Ted ficou satisfeito com aquilo, e trabalha lá limpando rodas para os homens, onde seu pai era o Moleiro e proprietário. A ideia do Pústula era moer mais e mais depressa, ou pelo menos era isso o que dizia. Ele tem outros moinhos como esse. Mas você precisa conseguir grãos antes de moê-los, e para o novo moinho não havia maior quantidade do que já havia para o antigo. Mas desde que Charcote chegou eles não moem mais trigo nenhum. Ficam só martelando e soltando uma fumaça e um cheiro ruim, e não há paz na Vila dos Hobbits nem durante a noite. E eles despejam sujeira de propósito; emporcalharam toda a parte baixa do Água, e a sujeira está chegando ao Brandevin. Se pretendem transformar o Condado num deserto, estão no caminho certo. Não acho que o idiota do Pústula esteja por trás de tudo isto. É o Charcote, estou dizendo.
— É isso mesmo! — acrescentou o Jovem Tom. — Olhe, eles até levaram a velha mãe do Pústula, a Lobélia, e ele gostava dela, mesmo que ninguém mais gostasse. Algumas pessoas da Vila dos Hobbits viram. Ela ia descendo a ladeira com a velha sombrinha. Uns rufiões estavam subindo com uma carroça grande. “Aonde vão indo?”, diz ela. “Para Bolsão”, dizem eles. “Para quê?”, diz ela. “Levantar uns barracões para o Charcote”, dizem eles. “Quem disse que vocês podem?”, diz ela. “Charcote”, dizem eles. “Então saia da estrada, bruxa velha!” “Vão ver o Charcote, seus ladrões sujos!”, diz ela, e parte com a sombrinha para cima do líder, quase duas vezes maior que ela. Então eles a levaram. Arrastaram ela para os Tocadeados, naquela idade. Levaram outros de quem sentimos mais falta, mas não se pode negar que ela mostrou mais valentia que muitos.
No meio dessa conversa chegou Sam num atropelo, trazendo o Feitor.
— Boa noite, Sr. Bolseiro! — disse ele. — Fico realmente feliz em vê-lo de volta. Mas tenho contas a ajustar com o senhor, por assim dizer, se me permite a ousadia. O senhor nunca deveria ter vendido Bolsão, como eu sempre disse. Foi aí que toda a confusão começou. E enquanto o senhor esteve perambulando por terras estrangeiras, caçando homens negros montanha acima, pelo que diz o meu Sam, embora não explique muito bem para quê, eles foram lá e escavaram a rua do Bolsinho e arruinaram minhas batatas!
— Sinto muito, Sr. Gamgi — disse Frodo. — Mas agora eu voltei, e vou fazer o possível para consertar as coisas.
— Bem, o senhor não poderia ter falado mais bonito — disse o Feitor. — O Sr. Frodo Bolseiro é um cavalheiro de verdade, como eu sempre disse, não importa o que se possa pensar de outros que levam o mesmo nome, se me desculpa. E espero que o meu Sam tenha se comportado a contento.
— Perfeitamente a contento, Sr. Gamgi — disse Frodo. — Na verdade, se o senhor me acredita, ele é uma das pessoas mais famosas em todas as terras, e estão fazendo canções sobre seus feitos, desde aqui até o Mar e além do Grande Rio.
Sam corou, mas ficou agradecido a Frodo, pois os olhos de Rosinha estavam brilhando, e ela sorria para ele.
— É muito difícil acreditar — disse o Feitor —, embora eu possa perceber que ele andou se misturando a gente estranha. Que aconteceu com o colete dele? Não posso suportar esse roupão de ferro, seja ele elegante ou não.


A gente da casa do Fazendeiro Villa e todos os seus hóspedes acordaram cedo no dia seguinte. Não se ouvira nada durante a noite, mas certamente mais problemas viriam antes do final do dia.
— Até parece que não sobrou nenhum baderneiro lá em Bolsão — disse Villa. — Mas a gangue de Encruzada virá a qualquer hora.
Depois do desjejum chegou um mensageiro da Terra dos Túks. Estava animado.
— O Thain sublevou toda a nossa terra — disse ele — e a notícia está se espalhando feito fogo por todos os lados. Os rufiões que estavam vigiando nossa terra fugiram para o sul, os que escaparam vivos. O Thain foi atrás deles, sustar o avanço da grande gangue por aquele caminho; mas enviou para cá o Sr. Peregrin, com todos os outros de que pôde dispor.
A próxima notícia não foi tão boa. Merry, que estivera fora toda a noite, chegou cavalgando por volta das dez horas.
— Há um bando enorme a umas quatro milhas daqui — disse ele. — Estão vindo pela estrada de Encruzada, mas muitos rufiões perdidos se juntaram a eles. Deve haver perto de uma centena, e eles estão ateando fogo em tudo enquanto avançam. Malditos!
— Ah! Aqueles bandidos não param para conversar; matam se puderem — disse o Sr. Villa. — Se os Túks não chegarem antes, é melhor nos escondermos e atirarmos antes de perguntar. Será preciso alguma luta antes que tudo isto esteja terminado, Sr. Frodo.
Mas os Túks chegaram antes. Logo vieram marchando, uma centena de hobbits fortes, de Tuqueburgo e das Colinas Verdes, com Pippin à frente.
Agora Merry tinha um número suficiente de hobbits robustos para dar conta dos rufiões. Batedores reportaram que eles continuavam juntos. Sabiam que o interior se rebelara contra eles, e estava claro que pretendiam sufocar a rebelião de forma cruel na sua origem, em Beirágua. Mas, embora pudessem ter cara de malvados, não parecia haver um líder entre eles que entendesse de guerra. Avançavam sem qualquer precaução. Merry fez seus planos depressa.
Os rufiões chegaram pisando firme ao longo da Estrada Leste, e sem parar tomaram o caminho de Beirágua, que ia subindo por um trecho entre altos barrancos cobertos de cercas-vivas baixas. Fazendo uma curva a cerca de uns duzentos metros da estrada principal, encontraram uma forte barreira, feita de velhas carroças tombadas. Isso os fez parar. No mesmo momento, perceberam que as cercas-vivas, dos dois lados, logo acima de suas cabeças, estavam cheias de hobbits enfileirados. Atrás deles outros hobbits agora empurravam mais algumas carroças que tinham sido escondidas num campo, e assim bloquearam o caminho de volta.
Uma voz dirigiu-se a eles de cima.
— Bem, vocês caíram numa armadilha — disse Merry. — O mesmo aconteceu com seus companheiros da Vila dos Hobbits, e um deles está morto e os outros presos. Coloquem as armas no chão! Depois recuem vinte passos e sentem-se. Qualquer um que tentar fugir será alvejado.
Mas desta vez não foi tão fácil dominar os rufiões. Alguns deles obedeceram, mas foram imediatamente hostilizados por seus companheiros. Cerca de vinte tentaram voltar e atacaram as carroças. Seis foram atingidos, mas outros romperam a barreira, matando dois hobbits, e depois se espalharam pelo campo na direção da Ponta do Bosque. Mais dois caíram enquanto corriam. Merry fez soar um poderoso toque de corneta, e ao longe se ouviram toques em resposta.
— Não vão muito longe — disse Pippin. — Todo aquele campo está agora cheio de caçadores nossos.
Atrás, os homens presos no caminho estreito, que ainda somavam cerca de oitenta, tentaram trepar na barreira e nos barrancos, e os hobbits foram obrigados a atirar em muitos ou golpeá-los com machados. Mas muitos dos mais fortes e desesperados saíram pelo lado oeste, e atacaram seus inimigos ferozmente, pensando agora mais em matar do que em escapar. Muitos hobbits tombaram e o resto estava vacilando quando Merry e Pippin, que estavam no lado leste, vieram na direção dos rufiões e os atacaram. O próprio Merry matou o líder, um brutamontes vesgo que parecia um orc grande. Então recuou suas forças e prendeu os últimos homens num largo círculo de arqueiros.
Por fim tudo terminou. Quase setenta rufiões jaziam mortos no campo, e uns doze foram presos. Dezenove hobbits morreram, e uns trinta estavam feridos. Os rufiões mortos foram colocados em carroças e puxados para um velho poço de areia nas proximidades, e ali foram enterrados: no Poço da Batalha, como ficou sendo chamado.
Os hobbits caídos foram colocados juntos num túmulo na encosta da colina, onde mais tarde erigiu-se uma grande pedra com um jardim em volta. Assim terminou a Batalha de Beirágua, em 1419, a última batalha travada no Condado, e a única desde a dos Campos Verdes, em 1147, que ocorrera lá em cima, na Quarta Norte. Em consequência disso, embora felizmente tenha custado muito poucas vidas, a batalha tem um capítulo próprio no Livro Vermelho, e os nomes de todos os que participaram dela formaram uma Lista que os historiadores do Condado sabiam de cor. O considerável aumento da fama e da riqueza dos Villas vem dessa época, mas no topo da Lista, em todos os relatos, estão os nomes dos Capitães Meriadoc e Peregrin.
Frodo participara da batalha, mas sem sacar a espada, e sua principal tarefa fora impedir que os hobbits, em sua ira pela perda dos entes queridos, matassem aqueles inimigos que tinham deposto as armas. Depois que a luta terminou, e as tarefas ulteriores foram organizadas, Merry, Pippin e Sam juntaram-se a ele, e foram de volta para a casa dos Villas. Almoçaram tarde, e então Frodo disse com um suspiro:
— Bem, suponho que agora devemos cuidar do “Chefe”.
— É sim, quanto mais cedo melhor — disse Merry. — E não seja bonzinho demais! Ele é o responsável pela vinda desses rufiões, e por todo o mal que eles praticaram. O Fazendeiro Villa escolheu uma escolta de uns vinte hobbits robustos.
— Pois nós apenas supomos que não haja mais nenhum rufião em Bolsão — disse ele. — Não temos certeza.
Depois eles partiram a pé. Frodo, Sam, Merry e Pippin foram na frente.
Foi uma das horas mais tristes da vida deles. A grande chaminé se erguia à frente, e, quando se aproximavam da antiga aldeia do outro lado do Água, através de fileiras de novas casas miseráveis ao longo dos dois lados da estrada, viram o novo moinho em toda a sua feiúra carrancuda e suja: um grande prédio de tijolos montado sobre o rio, que era emporcalhado por uma descarga fétida e fumegante. Ao longo da Estrada de Beirágua todas as árvores tinham sido derrubadas.
Quando atravessaram a ponte e ergueram os olhos na direção da Colina, ficaram boquiabertos. Nem mesmo a visão que Sam tivera no Espelho pudera prepará-lo para aquela cena. A Granja Velha no lado leste tinha sido derrubada, e em seu lugar viam-se fileiras de barracões cobertos de piche.
Todas as castanheiras tinham-se ido. Os barrancos e cercas-vivas estavam destruídos. Grandes carroças estavam paradas em desalinho num campo batido e sem grama.
A rua do Bolsinho se transformara num enorme buraco cheio de cascalho e areia. Lá em cima não se via Bolsão, devido a um amontoado de barracões enormes.
— Eles cortaram! — gritou Sam. — Cortaram a Árvore da Festa! — disse ele apontando para o local onde estivera a árvore sob a qual Bilbo fizera o Discurso de Despedida.
Estava morta, caída no campo com os galhos cortados. Como se isso fosse a gota d'água, Sam rompeu em pranto.
Um riso pôs um fim às suas lágrimas. Havia um hobbit grosseiro recostado contra o muro baixo do pátio do moinho. Tinha o rosto encardido e as mãos pretas.
— Não está gostando, Sam? — zombou ele. — Mas você sempre foi um molenga. Pensei que tivesse ido embora em algum daqueles navios sobre os quais costumava tagarelar, navegando, navegando. E por que quis voltar? Agora temos trabalho a fazer no Condado.
— Estou vendo — disse Sam. — Não há tempo para se lavar, mas há tempo para ficar escorando muros. Mas olhe aqui, Mestre Ruivão, tenho contas a acertar nesta aldeia, e não queira aumentá-las com essa zombaria, ou sua bolsa será pequena demais para o acerto.
Ted Ruivão cuspiu por sobre o muro.
— Não me faça rir! — disse ele. — Você não pode pôr as mãos em mim. Sou amigo do Patrão. E ele quem vai pôr as mãos em você, se eu tiver de escutar mais alguma de suas asneiras.
— Não gaste mais palavras com esse tolo, Sam! — disse Frodo. — Espero que não haja muitos outros hobbits que ficaram assim. Seria pior do que todo o prejuízo causado pelos homens.
— Você é sujo e insolente, Ruivão — disse Merry. — E também está errado em seus cálculos. Estamos exatamente subindo a Colina para tirar de lá o seu estimado Patrão. Já cuidamos dos homens dele.
Ted perdeu o fôlego, pois naquele momento viu pela primeira vez a escolta que, a um sinal de Merry, marchava agora atravessando a ponte.
Recuando de volta para o moinho, ele correu segurando uma corneta que fazia soar forte.
— Economize o seu fôlego! — disse Merry rindo. — Tenho uma melhor.
Então, erguendo sua corneta de prata, soprou-a, e um tom claro retumbou por sobre a Colina, e das tocas e barracões e casas miseráveis da Vila responderam os hobbits, que saíram numa enxurrada, e com aplausos e gritos fortes seguiram a comitiva, subindo a estrada de Bolsão.
No topo da ladeira a comitiva parou, e Frodo e seus amigos continuaram avançando; chegaram por fim ao lugar outrora amado. O jardim estava cheio de cabanas e barracões, alguns tão próximos às antigas janelas da face oeste que bloqueavam toda a luz. Havia pilhas de entulho por toda a parte. A porta estava arranhada, a corrente da campainha solta, e a campainha não tocava. Bater na porta não adiantou nada. Por fim eles empurraram a porta, que cedeu. Entraram. O lugar fedia e estava cheio de sujeira e bagunça: parecia abandonado havia algum tempo.
— Onde estará escondido aquele desgraçado do Lotho? — disse Merry.
Eles tinham procurado em cada sala sem encontrar qualquer ser vivo, exceto ratos e camundongos.
— Vamos chamar os outros para uma busca nos barracões?
— Isto é pior que Mordor! — disse Sam. — De certa maneira muito pior. A gente sente na própria pele, como se diz; porque aqui é nossa casa, e ficamos lembrando de como era antes de ser toda destruída.
— Sim, isto aqui é Mordor — disse Frodo. — Apenas um de seus trabalhos. Saruman esteve fazendo o trabalho de Mordor todo o tempo, mesmo quando julgava estar trabalhando para si mesmo. E o mesmo vale para aqueles que Saruman enganou, como Lotho.
Merry olhou ao redor, frustrado e enojado.
— Vamos sair daqui! — disse ele. — Se tivesse sabido todo o mal feito por Saruman, eu lhe teria enfiado minha bolsa de fumo goela abaixo.
— Sem dúvida, sem dúvida! Mas você não sabia, e assim posso dar-lhe as boas-vindas em seu retorno para casa.
Ali, parado ao pé da porta, estava Saruman em pessoa, com uma aparência bem-alimentada e satisfeita; seus olhos reluziam com malícia e deleite.
Frodo teve um súbito lampejo.
— Charcote! — gritou ele.
Saruman riu.
— Então vocês ouviram o nome, não é? Todo o meu povo costumava me chamar assim em Isengard, eu acho. Um sinal de afeição, possivelmente*. Mas é evidente que não esperavam me ver aqui.
— Eu não esperava — disse Frodo. — Mas poderia ter adivinhado. Uma maldadezinha, num estilo mais mesquinho: Gandalf me advertiu de que você era capaz disso.
— Bem capaz — disse Saruman — e posso ir além de uma maldadezinha. Vocês me fizeram rir, seus senhorinhos-hobbits, cavalgando em companhia de todas aquelas grandes pessoas, tão seguros e tão satisfeitos consigo mesmos. Pensaram que se tinham saído muito bem da coisa toda, e agora podiam apenas cavalgar tranquilamente para casa e passar um tempo calmo no campo. A casa de Saruman podia estar toda em pedaços, e ele podia ser expulso, mas ninguém poderia tocar na de vocês. Ah, não! Gandalf cuidaria de seus interesses.
Saruman riu de novo.
— Não ele! Quando seus instrumentos já desempenharam a tarefa por ele designada, Gandalf os abandona. Mas vocês precisam ficar pendurados nele, vagabundeando e conversando, e cavalgando o dobro da distância que precisavam cavalgar. “Bem”, pensei eu, “se são assim tão tolos, vou chegar na frente deles para lhes dar uma lição. O mal com o mal se paga.” Teria sido uma lição mais dura, se vocês me tivessem dado um pouco mais de tempo e de homens. Mesmo assim já fiz tanta coisa que vocês terão dificuldade para consertar ou desfazer durante suas vidas. E será agradável pensar nisso, contrabalançando minhas perdas.
— Bem, se é com isso que você fica satisfeito — disse Frodo — tenho pena de você. Será uma satisfação apenas na memória, receio eu. Saia já daqui e não volte nunca mais!
Os hobbits das aldeias tinham visto Saruman sair de uma das barracas, e imediatamente vieram se amontoar em frente à porta de Bolsão.
Quando ouviram a ordem de Frodo, murmuraram raivosos:
— Não o deixe escapar! Mate-o! Ele é um bandido, um assassino. Mate-o!
Saruman olhou em volta, encarando aqueles rostos hostis, e sorriu.
— Matá-lo! — zombou ele. — Matem-no, se julgam que estão em número suficiente, meus bravos hobbits! — Empertigou-se e fitou-os com seus olhos escuros e sombrios. — Mas não pensem que porque perdi todas as minhas posses perdi também todo o meu poder! Qualquer um que me atacar será amaldiçoado. E, se meu sangue manchar o Condado, este lugar fenecerá e nunca mais poderá ser curado.
Os hobbits recuaram. Mas Frodo disse:
— Não acreditem nele. Não lhe resta nenhum poder, exceto a voz, que ainda pode intimidá-los e enganá-los, se permitirem. Mas não permitirei que ele seja morto. É inútil retribuir vingança com mais vingança: não vai sanar nada. Vá, Saruman, pelo caminho mais rápido!
— Língua! Língua! — chamou Saruman, e de uma cabana próxima saiu Língua de Cobra, arrastando-se quase como um cão. — Para a estrada de novo, Língua! — disse Saruman. — Esses gentis camaradas e senhorinhos estão nos expulsando de novo. Venha!
Saruman virou-se para partir, e Língua de Cobra arrastou-se atrás dele. Mas, no momento em que Saruman passou perto de Frodo, uma faca brilhou em sua mão, e houve um golpe rápido. A lâmina foi repelida pela malha metálica sob a roupa e se partiu. Uns doze hobbits, liderados por Sam, saltaram à frente com um grito, jogando o bandido no chão.
Sam sacou a espada.
— Não, Sam! — disse Frodo. — Não o mate, apesar de tudo. Pois ele não me feriu. E, de qualquer forma, não quero que ele seja morto desse jeito traiçoeiro. Saruman já foi grande, de uma espécie nobre contra a qual não deveríamos ousar levantar nossas mãos. Caiu, e sua cura está além de nosso alcance; mas ainda assim prefiro poupá-lo, na esperança de que possa encontrá-la.
Saruman ficou de pé, e olhou para Frodo. Havia uma expressão estranha em seus olhos, um misto de surpresa, respeito e ódio.
— Você cresceu, Pequeno — disse ele. — Sim, você cresceu muito. É sábio e cruel. Roubou a doçura de minha vingança, e agora parto amargurado, em dívida para com a sua clemência. Odeio você e sua demência! Bem, vou embora e não o incomodarei mais. Mas não espere de mim que lhe deseje saúde e vida longa. Não terá nenhuma das duas coisas. Mas isso não será por obra minha. Estou apenas prevendo.
Afastou-se e os hobbits abriram alas para ele passar; mas os nós de seus dedos iam ficando brancos enquanto as mãos agarravam as armas.
Língua de Cobra hesitou, e depois seguiu seu mestre.
— Língua de Cobra! — chamou Frodo. — Você não precisa segui-lo. Não conheço mal algum que me tenha feito. Pode ter descanso e comida aqui por um tempo, até estar mais forte para seguir seus próprios caminhos.
Língua de Cobra parou e olhou para trás, meio propenso a ficar.
Saruman virou-se:
— Mal algum? — grasnou ele. — Ah, não! Mesmo quando ele escapa furtivamente durante a noite, é só para apreciar as estrelas. Mas ouvi alguém perguntar onde o pobre Lotho está escondido? Você sabe, não é mesmo, Língua? Vai contar a eles?
Língua de Cobra se encolheu e choramingou:
— Não, não!
— Então conto eu — disse Saruman. — Língua matou o seu Chefe, pobre criatura, o seu bom Patrãozínho. Não é verdade, Língua? Apunhalou-o enquanto dormia, acho. Enterrou-o, espero; embora Língua tenha estado com muita fome ultimamente. Não, Língua não é bonzinho de verdade. É melhor que o deixem para mim.
Uma faísca de ódio alucinado brilhou nos olhos vermelhos de Língua de Cobra.
— Você me mandou fazer isso, você me obrigou — chiou ele.
Saruman riu.
— Você sempre faz o que Charcote manda, não é, Língua? Bem, agora ele diz: em frente!
Chutou Língua de Cobra no rosto no momento em que este rastejava, virou-se e partiu. Mas nesse instante algo se partiu: de súbito Língua de Cobra se levantou, sacando uma faca escondida e então, rosnando como um cachorro, saltou sobre as costas de Saruman, puxou-lhe a cabeça para trás, cortou-lhe a garganta e com um grito correu descendo a ladeira. Antes que Frodo pudesse se recuperar ou dizer alguma coisa, três arcos hobbits zuniram e Língua de Cobra caiu morto.
Frodo olhou para o corpo com pena e terror, pois enquanto olhava pareceu que de repente longos anos de morte se revelavam nele, e o corpo encolheu, e o rosto enrugado transformou-se em trapos de pele sobre um crânio hediondo.
Erguendo a barra da capa suja que estava caída ao lado dele, Frodo o cobriu, e deu-lhe as costas.
— E este é o fim dessa criatura — disse Sam. — Um fim terrível, que eu gostaria de não precisar ter assistido; mas foi melhor termo-nos livrado dele.
— E esse é o fim do fim da Guerra, eu espero — disse Merry.
— Espero que sim — disse Frodo suspirando. — O último golpe. E pensar que esse golpe deveria ser desferido aqui, bem na porta de Bolsão! Entre todas as minhas esperanças e medos, nunca imaginei isso.
— Não vou chamar isso de fim, antes de termos limpado toda a sujeira — disse Sam melancólico. — E isso exigirá um bocado de tempo e trabalho.
Para o assombro dos circunstantes, ao redor do corpo de Saruman formou-se uma névoa cinzenta que, subindo lentamente a uma grande altura qual a fumaça de uma fogueira, pairou sobre a Colina como um vulto pálido e amortalhado. Por um momento vacilou, olhando para o Oeste; mas do oeste veio um vento frio, e o vulto se curvou, e com um suspiro dissolveu-se em nada.

* Provavelmente o nome é de origem orc: charkú, “velho”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!