2 de abril de 2016

Capítulo VIII - Neblina sobre as Colinas dos Túmulos

Naquela noite não escutaram ruídos. Frodo porém não podia dizer com certeza se foi em sonhos ou acordado, que ouviu uma doce voz cantando em sua mente: uma canção que vinha como uma luz pálida atrás de uma cortina de chuva cinzenta, a voz crescendo até transformar aquele véu chuvoso em cristal e prata, para depois se distanciar, revelando aos olhos um campo muito verde sob a luz do sol.
A visão se desmanchou com o despertar, e ali estava Tom, assobiando como um bando de pássaros; o sol já subia atrás da colina, emitindo luz através da janela. Lá fora, a paisagem estava verde e dourada.
Depois do desjejum, que novamente tomaram sozinhos, os hobbits se prepararam para dizer adeus, sentindo nos corações o peso que permitia uma manhã como aquela: fresca, clara e limpa sob um céu lavado de outono, de um azul tênue. Uma brisa fresca soprava do noroeste. Os tranquilos pôneis já estavam quase ariscos, farejando e se mexendo inquietos. Tom saiu da casa e acenou com o chapéu, depois dançou na porta de entrada, dizendo que os hobbits deveriam se levantar e partir, e em boa velocidade.
Saíram cavalgando ao longo de uma trilha sinuosa que vinha de trás da casa, inclinando-se numa subida em direção ao topo da colina no lado norte, onde desaparecia.
Tinham acabado de descer dos pôneis para conduzi-los pela última ladeira íngreme, quando de repente Frodo parou.
— Fruta d’Ouro — gritou ele. — Minha linda senhora, toda vestida de verde-prata! Não lhe dissemos adeus, nem a vimos desde ontem à noite!
Estava tão perturbado que já ia voltando; mas naquele momento um chamado, uma voz cristalina, desceu ondulando colina abaixo. Ali, no topo, estava ela, acenando para eles: os cabelos esvoaçavam soltos, e, conforme captavam a luz do sol, brilhavam e reluziam. Uma luz como o brilho da água sobre a grama orvalhada vinha de seus pés, enquanto dançava.
Os hobbits correram ladeira acima, e pararam sem fôlego ao lado dela.
Fizeram reverências, mas, com um aceno de braço, ela pediu que olhassem em volta; ali, no topo da colina, puderam ver a paisagem sob a luz da manhã. Agora tudo estava claro e podia-se enxergar longe. Na vinda, quando tinham parado no outeiro da Floresta, quase não puderam enxergar nada, por causa da névoa que lhes velava a visão, mas agora o outeiro aparecia, erguendo-se claro e verde por entre as árvores escuras do oeste.
Naquela direção, o terreno coberto de vegetação se levantava em cordilheiras verdes, amarelas, avermelhadas sob o sol. Atrás delas se escondia o vale do Brandevin. Ao sul, sobre a linha do Voltavime, havia um brilho distante, como de vidro claro, no ponto em que o rio Brandevin fazia uma grande curva no terreno mais baixo, para depois correr para regiões desconhecidas dos hobbits. Ao norte, além das colinas que iam sumindo, a terra fugia em espaços planos e protuberâncias cinzentas, verdes e cor de terra, até desaparecer na distância sombria e sem forma. Ao leste, as Colinas dos Túmulos se erguiam, topo atrás de topo dentro da manhã, sumindo da visão numa conjectura: não passava de uma conjectura azul, com pontos de um branco remoto, que se misturava ao céu no horizonte, mas que mesmo assim falava-lhes das montanhas altas e distantes, presentes na memória de antigas histórias.
Encheram os pulmões de ar, sentindo que um salto e alguns passos largos os levariam aonde quisessem. Parecia fraqueza de espírito irem andando em direção à estrada ao longo das bordas enrugadas das montanhas, quando na verdade deveriam ir aos pulos, com o mesmo vigor de Tom, sobre os degraus de pedra das colinas, diretamente até as Montanhas.
Fruta d’Ouro dirigiu-lhes a palavra, chamando sobre si seus olhares e pensamentos.
— Apressem-se agora, belos convidados! — disse ela. — E continuem firmes em seus propósitos! Rumo ao norte com o vento no olho esquerdo, e sorte em seus passos! Apressem-se enquanto o sol brilha. — E para Frodo, ela disse: — Adeus, amigo-dos-elfos, foi um encontro feliz!
Mas Frodo não teve palavras para responder. Fez uma grande reverência, montou o pônei e, seguido pelos amigos, avançou lentamente, pela descida suave atrás da colina.
Perderam de vista a casa de Tom Bombadil e o vale, e depois a Floresta.
O ar ficou mais quente entre as paredes verdes formadas pelas encostas das colinas; o cheiro da turfa subia forte e doce. Voltando-se, ao atingirem o fundo do vale verde, viram Fruta d’Ouro, agora pequena e esguia como uma flor ensolarada contra o céu: ainda estava ali, olhando-os, com as mãos estendidas na direção deles. No momento em que olharam, saudou-os com a voz cristalina, e levantando a mão virou-se e sumiu atrás da colina.
O caminho se estendia sinuoso ao longo do fundo do vale, volteando a base verde de uma colina íngreme, para depois chegar a outro vale mais amplo e mais fundo, continuando através das saliências de outras colinas, descendo pelas bordas longas, subindo de novo pelas encostas suaves, chegando a novos topos e descendo outros vales. Não se via árvore ou qualquer sinal de água: o território era de capim e turfa curta e macia; tudo era silêncio, a não ser pelo sussurro do ar e por gritos agudos e solitários de aves estranhas. Conforme continuavam, o sol subia e o calor aumentava. Cada vez que atingiam um topo, tinham a impressão de que a brisa diminuía. Quando olhavam em direção ao oeste, a Floresta distante parecia estar fumegando, como se a chuva que caíra estivesse subindo vaporizada, das folhas, raízes e do solo.
Agora uma sombra envolvia o horizonte, uma névoa escura sobre a qual o céu parecia um chapéu azul, quente e pesado.
Por volta de meio-dia, chegaram a uma colina cujo topo era amplo e achatado, como um prato raso com uma borda verde e elevada. Ali dentro o ar estava parado, e parecia que o céu estava perto de suas cabeças. Atravessaram o topo para olhar para o norte. Então os corações se alegraram, pois parecia óbvio que já tinham avançado mais do que esperavam. Sabiam que as distâncias agora ficavam nebulosas e incertas, mas não havia dúvida de que as Colinas estavam chegando ao fim.
Um vale comprido se estendia lá embaixo, descrevendo curvas em direção ao norte, até chegar a uma abertura entre duas encostas íngremes. Adiante, parecia não haver mais colinas. Ao norte mal se podia enxergar uma linha longa e escura.
— Aquela é uma fileira de árvores — disse Merry — que deve estar demarcando a Estrada. Ao longo dela, por muitas léguas a leste da ponte, há árvores crescendo. Dizem que foram plantadas antigamente.
— Esplêndido! — disse Frodo. — Se conseguirmos avançar bastante esta tarde como fizemos de manhã, já teremos deixado as Colinas antes de o sol se pôr, e então poderemos caminhar à procura de um lugar para acampar.
Mas no momento em que falava, olhou para o leste, e percebeu que daquele lado as colinas eram mais altas, e olhavam-nos de cima; e todas aquelas colinas estavam cobertas por montículos verdes, alguns deles com pedras fincadas, que apontavam para o céu como dentes afiados em gengivas verdes.
A paisagem tinha algo de perturbador, por isso eles se viraram e desceram para dentro do círculo côncavo. No meio dele ficava uma única pedra, que se erguia sob o sol, e que naquela hora não projetava sombras. Não tinha um formato definido, mas parecia ter um significado: como um marco, ou um dedo guardião ou, mais ainda, um aviso. Mas eles estavam famintos, e ainda era meio-dia, hora que espanta os temores; resolveram se encostar na pedra, do lado leste. Era fria, como se o sol não tivesse o poder de aquecê-la; mas naquele momento isso pareceu agradável.
Ali comeram e beberam; fizeram a melhor refeição ao ar livre que se poderia desejar, pois a comida vinha de “lá de baixo da Colina”. Tom tinha arranjado o suficiente para passarem bem o dia. Os pôneis, descarregados, passeavam pela grama.
A cavalgada sobre as Colinas e a refeição pesada, o sol morno, o cheiro da turfa, o longo tempo que ficaram deitados, esticando as pernas e olhando o céu lá em cima: talvez essas coisas sejam o suficiente para explicar o que aconteceu. De qualquer modo, foi assim que aconteceu: acordaram de súbito e perturbados de um sono que não estivera em seus planos. A pedra fincada estava fria, projetando uma sombra comprida e pálida, que se estendia ao leste sobre suas cabeças.
O sol, de um amarelo claro e aguado, brilhava através da névoa logo acima da encosta oeste da concavidade em que estavam deitados; ao norte, ao sul e ao leste, além da encosta, a neblina estava espessa, fria e branca.
O ar estava quieto, pesado e gelado. Os pôneis se encostavam uns nos outros, com as cabeças para baixo.
Os hobbits pularam de pé, alarmados, e correram até a borda oeste.
Descobriram que estavam numa ilha em meio à neblina. Quando olharam tristes para o sol que se punha, viram-no afundar diante de seus olhos num mar branco, e uma sombra fria e cinzenta se espalhava no leste atrás deles. A neblina subia pelas encostas, ultrapassando a altura de suas cabeças, até se tornar um telhado: estavam enclausurados num recinto de neblina cujo ponto central era a pedra fincada.
Tiveram a impressão de que estavam sendo aprisionados numa armadilha, mas mesmo assim não se desesperaram. Ainda podiam lembrar-se da visão que os enchera de esperanças, da linha da Estrada, que ainda sabiam em que direção ficava. De qualquer modo, sentiam agora tamanha repugnância por aquele lugar côncavo em volta da pedra, que mal podiam pensar em ficar lá por mais tempo. Arrumaram as mochilas tão rápido quanto os dedos gelados permitiram.
Logo estavam conduzindo os pôneis em fila indiana sobre a borda e pela longa encosta norte da colina, mergulhando num mar de neblina. Conforme desciam, a névoa ficava mais úmida e fria, e os cabelos lhes caíam murchos sobre a testa, gotejando. Quando chegaram ao fundo do vale, estava tão frio que pararam e tiraram das mochilas capas e capuzes, que em pouco tempo ficaram cobertos de gotas cinzentas.
Depois, montados nos pôneis, continuaram lentamente, adivinhando o caminho pelas subidas e descidas do solo. Pelo que podiam imaginar, estavam rumando para a abertura em forma de portão, na extremidade norte do longo vale, que tinham visto pela manhã.
Uma vez atravessada a abertura, só teriam de se manter em linha reta o máximo possível, e no final era bem provável que atingissem a Estrada.
Não conseguiam pensar em mais nada além disso, mas tinham uma vaga esperança de que talvez, além das Colinas, não houvesse neblina.
Avançavam muito devagar. Para evitar que se separassem e vagassem em direções distintas, continuavam em fila indiana, e Frodo ia à frente. Sam estava logo atrás, depois do qual vinha Pippin, seguido por Merry. O vale parecia não ter fim. De repente Frodo viu um sinal auspicioso. Dos dois lados à frente, uma escuridão assomava por entre a névoa, e ele supôs que finalmente estavam se aproximando da abertura nas colinas, o portão norte das Colinas dos Túmulos. Se passassem por ali, estariam livres.
— Venham! Sigam-me! — gritou ele por sobre os ombros, e avançando rapidamente.
Mas sua esperança logo se transformou em preocupação e pânico. As manchas escuras ficaram mais escuras, mas se encolheram; de repente viu, erguendo-se agourentas diante dele e se inclinando levemente uma em direção à outra como os batentes de uma porta sem trave, duas enormes pedras fincadas. Frodo não se lembrava de ter visto nenhum sinal delas no vale, quando tinha olhado da colina pela manhã. Antes que percebesse já tinha passado entre elas: e no mesmo momento em que fez isso, foi envolvido pela escuridão.
O pônei se afastou bufando e Frodo caiu. Quando olhou para trás, descobriu que estava sozinho. Os outros não o tinham seguido.
— Sam! — gritou ele. — Pippin, Merry! Venham! Por que não me acompanham?
Não houve resposta. Foi tomado pelo medo e correu para trás, atravessando as duas pedras e gritando, desesperado:
— Sam! Sam! Merry! Pippin!
O pônei disparou dentro da névoa e desapareceu. A certa distância, ou pelo menos assim parecia, Frodo pensou ter escutado um grito:
— Ei! Frodo! Ei!
A voz parecia vir do leste, à sua esquerda. Ele estava parado, ao lado das grandes pedras, fazendo um enorme esforço para enxergar na escuridão. Mergulhou em direção ao chamado, e percebeu que estava subindo uma encosta íngreme.
Avançando com esforço, ele chamou de novo, e continuou chamando cada vez mais freneticamente, mas ficou sem resposta por um tempo; depois começou a ouvir um chamado fraco, que parecia distante e bem acima de onde estava:
— Frodo! Ei! — gritavam vozes sumidas dentro da névoa: e então um grito, como socorro, socorro! Várias vezes repetido, terminando num último socorro! Se perdeu, como um longo lamento interrompido. Frodo avançou aos tropeços, com toda a velocidade que conseguia, em direção aos gritos; mas a luz do dia se extinguira, e a noite se fechou ao seu redor, o que tornava impossível ter certeza de qualquer direção. Tinha a impressão de estar sempre subindo.
Apenas a mudança no nível do solo a seus pés lhe avisou quando finalmente chegou ao topo de uma encosta ou colina. Estava cansado e suado, e apesar disso gelado.
A escuridão era total.
— Onde estão vocês? — gritou ele arrasado.
Não houve resposta. Ficou quieto, escutando. De repente percebeu que estava ficando muito frio, e que no ponto alto em que se encontrava o vento começava a soprar, frio como gelo. Uma mudança se operava no tempo. A névoa passava por ele agora, em trapos e farrapos. Sua respiração produzia fumaça, e a escuridão estava menos próxima e densa. Olhou para cima e viu, surpreso, que estrelas apagadas apareciam no céu, por entre chumaços apressados de nuvem e neblina.
O vento começou a chiar sobre o capim.
De repente imaginou ter ouvido um grito abafado, e foi em direção a ele; enquanto avançava, a névoa começou a subir e a se desvanecer, descobrindo o céu estrelado.
Um olhar rápido revelou que estava agora olhando para o sul, e sobre o topo redondo de uma colina, a qual provavelmente subira vindo do norte. À sua direita, erguia-se contra as estrelas do oeste uma figura escura. Ali estava um grande túmulo.
— Onde vocês estão? — gritou ele novamente, com raiva e medo.
— Aqui! — disse uma voz, profunda e fria, que parecia vir do solo. — Estou esperando você!
— Não! — disse Frodo; mas não fugiu.
Os joelhos enfraqueceram, e ele caiu no chão. Nada aconteceu, e não houve nenhum ruído. Tremendo, Frodo olhou para cima, em tempo de ver uma figura alta e escura, como uma sombra contra as estrelas, se inclinando sobre ele. Pensou ter visto dois olhos, muito frios, embora iluminados por uma luz pálida, que parecia vir de alguma distância remota. Então alguma coisa o prendeu, mais forte e mais fria que ferro.
O toque frio congelou seus ossos, e ele perdeu os sentidos.


Quando voltou a si, por um momento não podia lembrar de nada, a não ser de uma sensação de terror.
Então, de repente, percebeu que estava aprisionado, irremediavelmente preso; estava num túmulo. Tinha sido pego por uma das Criaturas Tumulares, e já estava provavelmente subjugado aos terríveis encantamentos daquelas criaturas descritas em histórias sussurradas. Não ousou se mexer, e ficou como estava quando acordou: deitado de costas sobre uma pedra fria, com as mãos sobre o peito.
Mas, embora o medo fosse tão grande que parecia ser parte da própria escuridão que o envolvia, Frodo se viu pensando em Bilbo Bolseiro e suas histórias, nas caminhadas que faziam pelas alamedas do Condado, conversando sobre estradas e aventuras. Há uma semente de coragem escondida (bem no fundo, é verdade) no coração do hobbit mais gordo e mais tímido, aguardando algum perigo definitivo e desesperador que a faça germinar. Frodo não era muito gordo, nem muito tímido; na verdade, embora não soubesse disso, Bilbo (e Gandalf) o consideravam o melhor hobbit do Condado. Pensou que tivesse chegado ao fim de sua aventura, um fim terrível, mas esse pensamento renovou suas forças. Percebeu seus músculos se contraindo, como para um salto final; deixara de se sentir frágil como uma vítima indefesa.
Enquanto estava ali deitado, pensando e tentando se controlar, percebeu de repente que a escuridão cedia aos poucos: uma luz pálida e esverdeada crescia à sua volta.
Num primeiro momento não pôde ver em que tipo de lugar estava, pois a luz parecia emanar dele próprio, e do chão ao redor, e ainda não tinha atingido o teto ou a parede. Virou-se, e na fria escuridão viu, deitados ao lado, Sam, Pippin e Merry. Estavam de costas, com as faces totalmente pálidas, e vestidos de branco. Ao redor deles estavam muitos tesouros, talvez de ouro, embora naquela luz tivessem uma aparência fria e desagradável. Diademas adornavam-lhes a cabeça, correntes de ouro cobriam-lhes a cintura, e nos dedos tinham vários anéis. Havia espadas perto deles, e escudos aos seus pés. Mas, atravessada sobre os três pescoços, estava uma longa espada desembainhada.
De repente, começou a soar uma canção: um murmúrio frio, que subia e descia de tom. A voz parecia distante e infinitamente lúgubre, algumas vezes num tom alto e agudo subindo pelo ar, outras como um gemido grave vindo do solo. Naquela cadeia disforme de sons tristes e horríveis, sequências de palavras tomavam forma uma vez ou outra: tristes, duras, frias palavras, impiedosas e desprezíveis. A noite blasfemava contra a manhã que lhe fora roubada, e o frio amaldiçoava o calor pelo qual ansiava. Frodo estava congelado até os ossos. Depois de um tempo, a canção ficou mais clara aos ouvidos, e, com o coração tomado de pavor, ele percebeu que a música tinha se transformado num encantamento.

Frio haja nas mãos, no coração e na espinha,
e frio seja o sono sobre a pedra daninha:
que nunca despertem de seu pétreo leito,
nunca, até a Lua morta, até o Sol desfeito.
Ao soprar negro dos ventos os astros vão morrer.
E eles sobre o ouro ainda irão jazer,
até que o lorde escuro sua mão soerga
sobre o mar morto e sobre a terra negra.

Atrás de sua cabeça, Frodo escutou o ruído de algo rangendo e arranhando, Levantando-se sobre um dos braços, olhou e agora pôde ver na luz pálida que estavam num tipo de corredor, que formava uma esquina atrás deles. Vindo da esquina, um longo braço tateava, se aproximando, caminhando sobre os próprios dedos em direção a Sam, que estava mais próximo, e em direção ao cabo da espada que estava sobre ele.
Num primeiro momento, Frodo sentiu que de fato o encantamento o transformara em pedra. Depois, teve um desejo alucinado de fugir.
Imaginava se, colocando o Anel, poderia escapar da Criatura Tumular e achar uma saída. Pensou em si mesmo correndo livre sobre o capim, chorando por Merry, Sam e Pippin, mas livre e vivo. Até Gandalf admitiria que não havia mais nada a ser feito.
Mas a coragem despertada ficava cada vez mais forte: não poderia abandonar seus amigos tão facilmente. Hesitou, tateando o bolso, e lutou contra si mesmo de novo; enquanto isso acontecia, o braço chegava mais perto. Subitamente, seu senso de determinação ficou mais apurado, e ele agarrou uma pequena espada que jazia ao lado, e ficando de joelhos agachou-se sobre os corpos dos companheiros. Com toda força que tinha, golpeou o braço rastejante na região do pulso, e a mão caiu decepada: mas nesse mesmo momento, a espada se estilhaçou até o punho. Houve um grito agudo e a luz desapareceu. No escuro, ouvia-se o ruído de algo rosnando.
Frodo caiu para frente sobre Merry, sentindo seu rosto gelado.
Imediatamente voltou à sua mente, de onde tinha se ausentado logo que a neblina começara, a memória da casa lá embaixo da Colina, e de Tom cantando. Lembrou-se da rima que Tom tinha lhe ensinado. Numa voz fraca e desesperada, começou:

Ei, Tom Bombadillo!

E, ao pronunciar aquele nome, a voz pareceu ficar mais forte: produzia agora um som forte e vigoroso, e a câmara escura parecia ecoar tambores e cornetas.

Ei! Tom Bombadillo, Tom Bombadil!
Na mata ou na colina ou junto à margem do rio,
No jogo, ao sol e à lua, ouve agora nossa voz!
Vem, Tom Bombadil, que no aperto estamos sós!

Fez-se um silêncio súbito e profundo, durante o qual Frodo podia escutar seu coração batendo. Depois de um momento longo e lento, escutou claramente, embora distante, como se viesse de baixo da terra ou através de espessas paredes, uma voz que, respondendo, cantava:

O velho Tom Bombadil é mesmo um bom camarada;
Azul-claro é sua jaqueta e sua bota é amarelada.
Ninguém jamais o apanha porque Tom é mais sabido;
Sua canção tem mais poder e seu pé é mais rápido.

Houve um som retumbante, como de pedras rolando e caindo, e de repente a câmara foi iluminada, por uma luz real, a luz do dia. Uma pequena abertura semelhante a uma porta apareceu na extremidade da câmara além dos pés de Frodo; e ali estava a cabeça de Tom (com chapéu, pena e tudo o mais) recortada pela luz do sol que nascia vermelho atrás dela. A luz atingiu o solo e os rostos dos três hobbits deitados ao lado de Frodo. Eles não se mexeram, mas a tonalidade doentia desapareceu de suas faces. Agora parecia que estavam apenas dormindo profundamente.
Tom se abaixou, retirando o chapéu, e entrou na câmara escura, cantando:

Sai daí, velha Criatura!
Desaparece à luz do dia!
Esvai-te como a neblina, como o vento choraminga,
Pelas terras mais estéreis, além dos longes montes!
Não voltes nunca mais! Deixa o túmulo vazio!
Perdido e esquecido sejas, mais negro que o negror
Onde portões jamais se abrem, até que o mundo se conserte.

Com essas palavras, ouviu-se um grito e uma parte da extremidade interna da câmara caiu com um estrondo. Então ouviu-se um guincho agudo blasfemando, desaparecendo numa distância inimaginável; depois disso, silêncio.
— Venha, amigo Frodo — disse Tom. — Vamos sair para o terreno limpo Preciso de sua ajuda para levá-los.
Juntos, carregaram Merry, Pippin e Sam para fora. Quando saiu do túmulo pela última vez, Frodo teve a impressão de ter visto uma mão decepada ainda se contorcendo, como uma aranha ferida, num amontoado de terra caída. Tom ainda entrou mais uma vez, e ouviu-se o ruído de muita pancada e pisoteio. Quando saiu, carregava nos braços uma boa parte do tesouro: coisas de ouro e prata, cobre e bronze: muitas pedras e correntes e joias ornamentais. Subiu a colina verde e depositou-os no topo, ao sol.
Ficou ali, com o chapéu na mão e o vento nos cabelos, olhando os três hobbits, que tinham sido colocados de costas sobre o capim no lado oeste do montículo. Levantando o braço direito, disse numa voz clara e imponente:
— Acordem, meus camaradas! Acordem à minha voz! Coração e corpo quentes! A pedra fria a sós! A porta escura, aberta; o braço morto, quebrado. A Noite já noutra Noite; o portão escancarado.
Para a alegria de Frodo, os hobbits começaram a se mexer, espreguiçando-se e esfregando os olhos, e então de repente se levantaram. Olharam em volta assustados, primeiro para Frodo e depois para Tom, grande como a vida, no topo da colina acima deles; e então olharam para si próprios, naqueles farrapos brancos e finos, coroados e adornados com ouro pálido, tilintando com o som das joias.
— Que raio? — começou Merry, sentindo o diadema de ouro caindo-lhe sobre um olho. Então parou, e uma sombra cobriu-lhe o rosto, e ele fechou os olhos. — É claro, eu me lembro! — disse ele. — Os homens de Carn Dúm nos alcançaram durante a noite, e fomos vencidos. Ah! A lança no meu coração! — Agarrou o próprio peito. — Não! Não! — disse ele, abrindo os olhos. — O que estou dizendo? Estive sonhando. Onde você estava, Frodo?
— Pensei que estava perdido — disse Frodo. — Mas não quero falar sobre isso. Vamos pensar no que vamos fazer agora! Vamos embora!
— Vestidos assim, senhor? — disse Sam. — Onde estão minhas roupas?
Jogou seu diadema, o cinto e os anéis no chão, olhando em volta desesperado, como se esperasse achar sua capa, jaqueta e calças, e outras vestimentas de hobbits caídas em algum lugar ali perto.
— Você não vai mais achar suas roupas — disse Tom, pulando do túmulo e rindo enquanto dançava em volta deles à luz do sol.
Podia-se pensar que nada terrível ou perigoso tinha acontecido, e na verdade o terror desapareceu de seus corações quando olharam para ele, vendo o brilho alegre daqueles olhos.
— O que está querendo dizer? — perguntou Pippin, olhando para ele, meio intrigado e meio entretido. — Por que não?
Mas Tom balançou a cabeça, e disse:
— Vocês conseguiram sair de uma grande enrascada. Roupas são uma perda mínima, se você escapa de se afogar. Fiquem felizes, e deixem que a luz quente do sol aqueça agora coração e corpo! Tirem esses farrapos velhos. Corram nus sobre o capim, enquanto Tom vai caçar!
Desceu a colina aos pulos, assobiando e cantando. Olhando para baixo em direção a ele, Frodo viu-o correndo para longe e em direção ao sul, ao longo da depressão verde entre aquela colina e a próxima, ainda assobiando e chamando:

Ei, amigos! Vamos logo! Onde se meteram?
Em cima, embaixo, perto ou longe, os pôneis se perderam?
Fuça-Fuça, Espanador, e Trombadinha!
Meia-branca, Bolo-fofo e Orelhinha!

Assim ele cantava, correndo muito, jogando o chapéu para cima e apanhando-o em seguida, até sumir numa dobra do solo: mas por algum tempo, o seu Ei, amigos! Vamos logo! Continuou chegando até eles, flutuando no vento, que tinha mudado de curso e soprava do sul.
O ar estava ficando quente de novo. Os hobbits corriam sobre a grama, como Tom tinha dito. Depois, ficaram deitados, tomando banho de sol, com o deleite daqueles que foram levados de repente de um inverno rigoroso para um clima ameno, ou pessoas que, depois de ficarem muito tempo adoentadas ou de cama, um belo dia acordam e descobrem que estão inesperadamente boas, e que a nova manhã vem cheia de promessas.
Na hora que Tom voltou, já estavam se sentindo fortes (e famintos). Ele reapareceu, primeiro o chapéu, sobre a saliência da colina, e atrás dele vinham numa fila obediente seis pôneis: cinco que eram dos hobbits e mais um. Este último era justamente o Bolo-fofo: maior, mais forte, mais gordo (e mais velho) que os outros cinco. Merry, que era dono dos outros, nunca os chamara assim, mas eles passaram a atender pelos novos nomes que Tom lhes dera, até o fim de suas vidas. Tom os chamou um por um, e eles subiram a colina, ficando em fila. Depois ele fez uma reverência para os hobbits.
— Aqui estão seus pôneis, agora! — disse ele. — Eles têm mais senso (de certo modo) que vocês, hobbits errantes – mais senso nas suas narinas. Pois à distância já farejam o perigo ao qual vocês se atiram; e se correm para se salvar, então correm para o lado certo. Devem perdoá-los, pois, embora tenham corações fiéis, não foram feitos para enfrentar o terror das Criaturas Tumulares. Vejam, aqui estão eles de volta, trazendo todos os fardos!
Merry, Sam e Pippin se vestiram com roupas de reserva que tinham trazido nas mochilas; logo começaram a sentir muito calor, pois foram obrigados a colocar algumas das coisas mais grossas e quentes que haviam trazido para se proteger do inverno que chegava.
— De onde vem esse animal velho, esse Bolo-fofo? — perguntou Frodo.
— Ele é meu — disse Tom. — Meu amigo de quatro pernas, embora raramente o monte; fica por aí, livre nas encostas das colinas. Quando seus pôneis ficaram comigo, conheceram o meu Bolo, e durante esta noite procuraram-no farejando, correndo logo para encontrá-lo. Achei que Bolo os procuraria e, com suas palavras de sabedoria, espantaria todo o medo que os dominava. Mas agora, meu alegre Bolo-fofo, o velho Tom vai montar. Pi! Tom vai com vocês, vai levá-los até a estrada, e para isso precisa de um pônei. Pois não é fácil conversar com hobbits montados, se você for a pé, tentando correr ao lado deles.
Os hobbits ouviram aquilo deliciados, e agradeceram a Tom muitas vezes; mas ele riu, dizendo que eram tão bons em se perder, que não ficaria satisfeito até que os visse sãos e salvos além dos limites de suas terras.
— Tenho coisas a fazer — disse ele — meus afazeres e minhas cantorias, minhas conversas e caminhadas, e preciso cuidar de minhas terras. Tom não pode estar sempre por perto, para abrir portas e fendas de salgueiros. Tom tem sua casa para cuidar, e Fruta d’Ouro está esperando.
Pelo sol, podia-se ver que era de manhã, entre nove e dez horas, e os hobbits começaram a pensar em comida. A última refeição tinha sido o almoço ao lado da pedra fincada, no dia anterior. Agora comiam os restos das provisões oferecidas por Tom, com acréscimos que ele mesmo trouxera consigo. Não foi uma grande refeição (levando em consideração os hobbits e as circunstâncias) mas assim mesmo (graças a ela) se sentiram muito melhor. Enquanto comiam, Tom subiu até o túmulo e examinou os tesouros. A maioria das peças foram arrumadas numa pilha que brilhava no capim. Ordenou-lhes que ficassem ali, “à disposição de qualquer um que as achasse, aves, animais, elfos ou homens, e todas as criaturas gentis”, pois assim o encanto do túmulo seria quebrado e espalhado, e nenhuma criatura voltaria àquele lugar. Escolheu para si um pequeno broche, adornado com pedras azuis que tinham muitas nuances, como flores de seda ou como as asas de borboletas azuis. Olhou longamente para a joia, como se tocado por alguma lembrança, balançando a cabeça, e finalmente dizendo:
— Aqui está um brinquedo bonito para Tom e sua bela senhora. Bela era aquela que usou isto há muito tempo sobre o ombro. Agora Fruta d’Ouro vai usá-lo e não a esqueceremos!
Para cada um dos hobbits escolheu um punhal, longo em forma de folha e afiado, de um artesanato maravilhoso, trabalhado com formas de serpentes vermelhas e douradas.
Os punhais brilharam quando foram retirados das bainhas pretas; eram forjados em algum tipo estranho de metal, leve e resistente, e adornado com muitas pedras que faiscavam. Seja por alguma virtude das bainhas, seja pelo encantamento do túmulo, as lâminas, sem ferrugem, afiadas, reluzentes ao sol, pareciam não ter sido alteradas pelo tempo.
— Facas velhas são longas o bastante para serem usadas como espadas pelos hobbits — disse ele. — É bom ter lâminas afiadas, se pessoas do Condado forem caminhando para o leste, para o sul, ou em direção ao perigo sombrio e distante.
Então Tom disse que aquelas lâminas tinham sido forjadas muitos anos atrás pelos homens de Ponente: eram inimigos do Senhor do Escuro, mas foram derrotados pelo maldoso rei de Carn Dúm na Terra de Angmar.
— Poucos agora se recordam deles — murmurou Tom. — Mesmo assim, alguns ainda vagueiam, filhos de reis esquecidos, caminhando solitários, protegendo os incautos das coisas malignas.
Os hobbits não entenderam aquelas palavras, mas, enquanto Tom falava, tiveram uma visão que parecia muito antiga, uma planície ampla e sombria, sobre a qual caminhavam figuras de homens, altos e severos, com espadas brilhantes, e por último vinha um com uma estrela na testa. Então a visão desapareceu, e voltaram para o mundo ensolarado.
Era hora de partir novamente. Aprontaram-se, arrumando as mochilas e carregando os pôneis. As novas armas foram penduradas nos cintos de couro, embaixo dos casacos; os hobbits se sentiam muito desajeitados com elas, e imaginavam se algum dia seriam úteis. Lutar nunca tinha antes passado por suas cabeças, nem mesmo como uma das aventuras a que aquela fuga poderia conduzi-los.
Finalmente partiram, conduzindo os pôneis colina abaixo; depois, num trote rápido, seguiram ao longo do vale. Quando olharam para trás, viram o topo do velho túmulo na colina, onde a luz do sol, reluzindo sobre o ouro, subia como uma chama amarela. Depois contornaram uma saliência das colinas, e não o viram mais.
Embora Frodo olhasse em volta e para todos os lados, não viu nem sinal das duas pedras grandes, fincadas como um portão; logo chegaram à fenda norte, passando por ela rapidamente, e a região estendeu-se diante de seus olhos. Foi uma viagem alegre, com Tom Bombadil trotando contente ao lado deles, ou à frente, montado em Bolo-fofo, que ia bem mais rápido do que prometia a sua barrigueira. Tom cantava a maior parte do tempo, mas quase tudo o que saía de seus lábios não fazia sentido, ou talvez fosse alguma língua estranha, desconhecida dos hobbits, uma língua antiga cujas palavras eram principalmente de felicidade e prazer.
Avançavam mantendo o ritmo, mas logo perceberam que a Estrada ficava muito mais à frente do que tinham imaginado. Mesmo sem neblina, o sono do meio-dia teria evitado que chegassem até ela antes de anoitecer no dia anterior. A linha escura que tinham visto não era uma fileira de árvores, mas arbustos crescendo à beira de um fosso profundo, com barrancos íngremes dos dois lados. Tom disse que, em certa época, aquele fosso tinha sido a divisa de um reino, muitos anos atrás.
Parecia se lembrar de alguma coisa triste relacionada a essa história, e não falava muito.
Desceram um barranco e subiram do lado oposto, passando através de uma fissura que havia ali, e então Tom virou-se para o norte, pois até aquele ponto tinham rumado um pouco em direção ao oeste. O terreno agora era aberto e bastante plano, de modo que apertaram o passo; mas o sol já estava bem baixo quando finalmente viram à frente uma fileira de árvores altas, e agora sabiam que tinham voltado para a Estrada, depois de muitas aventuras inesperadas. Fizeram a galope este último trecho, parando sob as sombras compridas das árvores. Estavam no alto de um outro barranco íngreme, e a Estrada, agora apagada pelo cair da noite, se estendia em curvas abaixo deles. Naquele ponto, ia quase do sudoeste para o nordeste, e à direita descia abruptamente numa depressão larga.
O solo estava acidentado, com muitos vestígios da forte chuva recém-caída; havia poças e buracos cheios de água.
Desceram o barranco, olhando para baixo e para cima. Não se via nada.
— Bem, finalmente estamos aqui de novo! — disse Frodo. — Suponho que não perdemos mais que dois dias no meu atalho através da Floresta. Mas talvez o atraso tenha sido útil – pode tê-los feito perder nossa trilha.
Os outros olharam-no. Subitamente a sombra do medo dos Cavaleiros Negros tomou conta deles de novo. Desde que entraram na Floresta, a principal coisa que tinham em mente era voltar para a Estrada; só agora, quando estavam diante dela, é que se lembraram do perigo que os perseguia, e que muito provavelmente os estaria esperando na própria Estrada. Olharam com ansiedade para trás, na direção do sol poente, mas a Estrada se apresentava escura e vazia.
— O senhor acha — perguntou Pippin com hesitação — o senhor acha que seremos perseguidos esta noite?
— Não, espero que não esta noite — respondeu Tom Bombadil. — Talvez nem amanhã. Mas não confiem em minhas suposições; pois não posso dizer nada com certeza. Para o leste, meu conhecimento falha. Tom não é o senhor dos Cavaleiros da Terra Negra, que fica distante de sua região.
Mesmo assim, os hobbits gostariam que os acompanhasse. Sentiam que ele saberia lidar com os Cavaleiros Negros, se é que alguém podia lidar com eles. Logo estariam avançando em terras completamente estranhas, além de todas as lendas do Condado, com exceção apenas das mais distantes e remotas; no crepúsculo que se formava, sentiram saudade de casa. Sentiam-se profundamente solitários e perdidos. Ficaram em silêncio, relutando em se despedir pela última vez. Demorou para que percebessem que Tom estava lhes desejando boa viagem, e dizendo que mantivessem a coragem e continuassem cavalgando sem parar até anoitecer.
— Tom dará um conselho, enquanto durar este dia (depois do que serão guiados e acompanhados pela própria sorte): a quatro milhas daqui, indo pela Estrada, encontrarão uma aldeia, Bri, sob a Colina Bri, com portas viradas para o oeste. Ali vão ver uma velha estalagem chamada O Pônei Saltitante. Cevado Carrapicho é o dono, um homem respeitável. Ali podem passar a noite, e depois a manhã favorecerá vocês no seu caminho. Sejam corajosos, mas tenham cuidado! Mantenham a alegria nos corações, e partam ao encontro de seu destino!
Imploraram para que fosse pelo menos até a estalagem, e que ali bebessem juntos mais uma vez; mas Tom riu e recusou o convite, dizendo:
— Aqui termina a terra de Tom: os confins ele não passa. Tem sua casa pra cuidar, e a sua espera Fruta d’Ouro.
Depois se virou, jogou o chapéu para cima, pulou no lombo de Bolo, e foi subindo o barranco, cantando no crepúsculo.
Os hobbits subiram também, e ficaram olhando até que ele desapareceu de vista.
— Fico triste por ter de me despedir do Senhor Bombadil — disse Sam. — É uma pessoa extraordinária, disso não há dúvida. Acho que podemos avançar bastante e não ver ninguém melhor, nem mais estranho. Mas não nego que ficarei feliz ao ver esse Pônei Saltitante que mencionou. Espero que seja igual ao Dragão Verde, perto de nossa casa! Que tipo de gente existe em Bri?
— Há hobbits em Bri — disse Merry — além de pessoas grandes. Arrisco dizer que será bem parecido com nossa terra. O Pônei é uma boa estalagem, pelo que dizem. Meu pessoal vai lá de vez em quando.
— Pode ser tudo o que desejamos — disse Frodo. — Mas de qualquer forma, é longe do Condado. Não se sintam muito em casa! Por favor, lembrem-se – todos vocês – de que o nome Bolseiro NÃO deve ser mencionado. Sou o Sr. Monteiro, se for preciso dar algum nome.
Montaram os pôneis e cavalgaram em silêncio dentro da noite. A escuridão foi descendo rápido, enquanto iam avançando lentamente, descendo a colina e subindo de novo, até que finalmente viram luzes piscando a certa distância.
Diante deles erguia-se a Colina Bri, barrando o caminho, uma massa escura contra estrelas sombrias; em seu flanco oeste se aninhava uma grande aldeia. Agora se apressavam em direção a ela, desejando apenas encontrar uma lareira, e uma porta que os separasse da noite.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!