17 de abril de 2016

Capítulo VIII: Do ocaso de Valinor

Quando Manwë soube dos caminhos que Melkor havia tomado, pareceu-lhe claro que Melkor pretendia fugir para suas antigas fortalezas no norte da Terra Média; e Oromë e Tulkas foram para o norte com a máxima rapidez, procurando alcançá-lo, se possível, mas não encontraram nenhum traço nem rumor dele para além das costas dos teleri, nos territórios desolados e despovoados próximos ao Gelo. Daquele momento em diante, a guarda foi redobrada ao longo da fronteira norte de Aman; mas inutilmente, pois, antes mesmo que fosse iniciada a perseguição, Melkor deu meia-volta e, em segredo, passou direto para o extremo sul. Pois ele ainda era um Valar, e podia mudar sua apresentação ou andar sem forma, como seus irmãos; embora esse poder ele logo perdesse para sempre.
Assim, sem ser visto, ele afinal chegou à sombria região de Avathar. Essa terra estreita ficava ao sul da Baía de Eldamar, junto aos sopés orientais das Pelóri, e suas praias tristes e longas se estendiam para o sul, escuras e inexploradas. Ali, abaixo das muralhas escarpadas das montanhas e junto ao mar frio e negro, as sombras eram as mais profundas e densas do mundo; e ali, em Avathar, em total segredo, Ungoliant havia feito morada. Os eldar não sabiam de onde ela teria vindo; mas alguns diziam que, em épocas muito remotas, ela  descera da escuridão que cerca Arda, quando Melkor pela primeira vez contemplara com inveja o Reino de Manwë, e que no início ela fora um dos seres que ele corrompera para seu serviço. Ungoliant, no entanto, renegara seu Senhor, por desejar ser senhora de seu próprio prazer, tomando para si todas as coisas a fim de nutrir seu vazio. E ela fugira para o sul, escapando às investidas dos Valar e aos caçadores de Oromë, pois a vigilância destes sempre fora dirigida para o norte, e o sul ficara por muito tempo negligenciado. De lá ela se arrastara na direção da luz do Reino Abençoado; pois ansiava pela luz e a odiava.
Numa ravina, morava ela sob a forma de uma aranha monstruosa, tecendo suas teias negras numa fenda nas montanhas. Ali, sugava toda a luz que conseguia encontrar e passava a tecê-la em redes sinistras de uma escuridão sufocante, até que nenhuma luz conseguiu mais chegar à sua morada; e ela estava faminta.
Ora, Melkor chegou a Avathar e a procurou. Assumiu novamente a forma que havia usado como tirano de Utumno: a de um Senhor cruel, alto e terrível. Nessa forma, ele permaneceu eternamente. Ali, nas sombras negras, fora do alcance até mesmo dos olhos de Manwë, em seus altos palácios, Melkor tramou sua vingança com Ungoliant. Contudo, quando compreendeu o objetivo de Melkor, Ungoliant ficou num dilema entre o desejo e um medo imenso. Pois ela não se dispunha a desafiar os perigos de Aman e o poder dos Senhores temíveis; e se recusava a sair do esconderijo. Disse-lhe, portanto, Melkor: — Faz o que ordeno; e se ainda sentires fome quando tudo estiver terminado, eu te darei aquilo que teu desejo possa exigir. Sim, e com as duas mãos.
Com frivolidade fez ele esse voto, como sempre; e, em seu íntimo, ele ria. Foi assim que o grande ladrão conseguiu seduzir a que lhe era inferior.
Um manto de trevas ela teceu ao redor de ambos quando Melkor e ela avançaram: uma Antiluz, na qual as coisas pareciam não mais existir, e os olhos não conseguiam penetrar porque ela era vazia. E então, lentamente, ela começou a criar suas teias: corda a corda, de fenda em fenda, de rocha saliente até pináculo de pedra, sempre subindo, arrastando-se e se agarrando, até afinal chegar ao próprio cume de Hy armentir, a montanha mais alta naquela região do mundo, muito ao sul da enorme Taniquetil. Ali, os Valar não vigiavam; pois a oeste das Pelóri havia uma terra vazia na penumbra e, a leste, as montanhas, à exceção da região esquecida de Avathar, davam apenas para as águas turvas do mar inexplorado.
Agora, porém, no topo da montanha estava Ungoliant. Ela teceu uma escada de cordas trançadas e a jogou para baixo. E Melkor subiu por essa escada e chegou àquele lugar nas alturas, parou a seu lado e baixou o olhar até o Reino Protegido. Abaixo deles, estavam os bosques de Oromë, e a oeste tremeluziam os campos e as pastagens de Yavanna, dourados abaixo do alto trigo dos deuses. Melkor olhou, entretanto, para o norte, e avistou ao longe a planície reluzente e os damos de prata de Valmar, cintilando à mescla de luzes de Telperion e Laureún. Deu, então, uma forte risada, e desceu veloz pelas longas encostas acidentais. E Ungoliant estava a seu lado, e sua escuridão os encobria.
Aquela era a época de uma festa, como Melkor bem sabia. Embora todas as estações e épocas seguissem a vontade dos Valar, e em Valinor não existisse nenhum inverno de morte, mesmo assim eles estavam então no Reino de Arda, e este era apenas um pequeno território nos palácios de Eä, cuja vida é o Tempo, que flui para sempre, da primeira nota ao último acorde de Eru. E exatamente como era então para os Valar um prazer (como está relatado no Ainulindalé) se apresentarem vestindo as formas dos filhos de Ilúvatar, eles também apreciavam comer e beber, além de colher da Terra os frutos de Yavanna, que sob o comando de Eru haviam criado.
Portanto, Yavanna estabeleceu épocas para o florescimento e a maturação de tudo o que crescia em Valinor. E, a cada primeira colheita de frutos, Manwë oferecia uma grande festa em louvor a Eru, quando todos os povos de Valinor manifestavam sua alegria em música e poesia sobre Taniquetil. Essa hora era agora, e Manwë decretou que a festa fosse mais gloriosa do que qualquer outra já realizada desde a chegada dos eldar a Aman. Pois, embora a fuga de Melkor prenunciasse dificuldades e aflições futuras, e na realidade ninguém pudesse dizer quais outros danos seriam causados a Arda antes que ele fosse novamente subjugado, nessa ocasião Manwë pretendia curar o mal que havia surgido entre os noldor. E todos foram chamados ao palácio, no topo de Taniquetil, para ali deixar de lado os rancores que existiam entre os príncipes e relegar ao esquecimento as mentiras de seu Inimigo.
Vieram os vany ar, e vieram também os noldor de Tirion; e os Maiar se reuniram; e os Valar estavam engalanados em sua beleza e majestade; e eles cantavam diante de Manwë e Varda em seus grandiosos salões ou dançavam nas encostas verdes da Montanha que davam para o oeste, na direção das Árvores. Nesse dia, as ruas de Valmar estavam vazias, e as escadas de Tirion, em silêncio. E toda a terra estava adormecida, em paz. Somente os teleri, do outro lado das montanhas, ainda cantavam nas praias, pois eles pouco se importavam com estações ou épocas, e não dedicavam um pensamento sequer aos interesses dos governantes de Arda ou à sombra que havia caído sobre Valinor, pois, por enquanto, ainda não haviam sido tocados por ela.
Somente uma coisa prejudicou o intento de Manwë. Fëanor de fato viera, pois somente a ele Manwë dera ordem para vir. Já Finwë não viera, como não viera mais ninguém dos noldor de Formenos. Pois disse Finwë: — Enquanto persistir a interdição a Fëanor, meu filho, de entrar em Tirion, eu me considero destronado, e me recuso a me encontrar com meu povo.
E Fëanor não viera trajado para uma festa. Não usava nenhum ornamento, nem prata, ouro, nem pedra preciosa. E recusou aos Valar e aos eldar a visão das Silmarils, deixando-as trancadas em Formenos em sua câmara de ferro. Não obstante, ele se encontrou com Fingolfin diante do trono de Manwë, e os dois se reconciliaram, pelo menos em palavras. E Fingolfin não deu importância à espada desembainhada, pois estendeu a mão e disse:
— Como prometi, cumpro agora. Eu te perdoo e não guardo nenhum rancor.
Fëanor então segurou sua mão em silêncio; mas Fingolfin disse. — Meio-irmão de sangue, irmão total serei no coração. Tu serás o líder, e eu te seguirei. Que nenhum ressentimento possa nos separar.
— Eu te ouço — disse Fëanor. — Assim seja. — No entanto, eles não sabiam o significado que suas palavras teriam.
Diz-se que, no momento em que Fëanor e Fingolfin estavam diante de Manwë, ocorreu a mescla das luzes, quando as duas Árvores brilharam, e a cidade silenciosa de Valmar se encheu de um brilho de ouro e prata. E, naquele mesmo instante, Melkor e Ungoliant atravessaram apressados os campos de Valinor, como a sombra de uma nuvem negra ao sabor do vento que passa veloz sobre a terra ensolarada. E os dois chegaram à colina verde de Ezellohar. Então a Antiluz de Ungoliant subiu até as raízes das Árvores, e Melkor de um salto escalou a colina. E, com sua lança negra, atingiu cada Árvore até o cerne, ferindo todas profundamente. E a seiva jorrou como se fosse seu sangue e se derramou pelo chão. Contudo, Ungoliant tudo sugou; e, indo de uma Árvore a outra, grudou seu bico negro nos ferimentos até que as esgotou. E o veneno da Morte que ela continha penetrou em seus tecidos e as fez murchar, na raiz, no galho, na folha. E elas morreram. E, ainda assim, Ungoliant sentiu sede. Foi até os Poços de Varda, e também os secou; mas Ungoliant arrotava vapores negros enquanto bebia: e inchou tanto, e de forma tão horrenda, que Melkor sentiu medo.
Abateu-se assim sobre Valinor a grande escuridão. Dos feitos daquele dia, muito está relatado no Aldudénië, que Elemmíre dos vany ar compôs e é conhecido de todos os eldar. No entanto; nenhuma canção ou história poderia conter toda a dor e o terror que se sucederam. A Luz desapareceu; mas a Escuridão que se seguiu era mais do que falta de luz. Naquela hora, criou-se uma Escuridão que parecia ser não uma falta, mas um ser provido de existência própria: pois ela era, na realidade, feita de maldade a partir da luz, e tinha o poder de penetrar no olho, de entrar no coração e na mente, e sufocar a própria vontade.
Das alturas de Taniquetil, Varda olhou para baixo e viu a Sombra que se erguia em súbitas torres de trevas. Valmar havia mergulhado num profundo mar noturno. Logo a Montanha Sagrada estava só, uma última ilha num mundo submerso. Toda a música cessou. Reinava o silêncio em Valinor, e não se ouvia nenhum som, além de algo que vinha de longe, com o vento, atravessando a passagem nas montanhas: o lamento dos teleri, como o grito frio de gaivotas. Pois o vento soprava gelado do leste naquela hora, e as vastas sombras do mar rolavam contra as muralhas do litoral.
Manwë, porém, de seu trono elevado, olhou ao longe; e somente seus olhos atravessaram a noite, até que divisaram uma Escuridão mais do que escura, na qual não conseguiam penetrar, imensa, mas muito distante, movendo-se agora para o norte a grande velocidade. E ele soube que Melkor havia vindo e ido embora.
Teve início então a perseguição. E a terra tremeu com os cavalos da hoste de Oromë, e as faíscas acesas pelos cascos de Nahar foram a pnmeira luz que voltou a Valinor. Porém, assim que qualquer um deles alcançava a Nuvem de Ungoliant, os cavaleiros dos Valar ficavam cegos e apavorados, e se dispersavam e não sabiam para onde estavam indo; e o som da Valaróma hesitava e se calava. E Tulkas parecia alguém preso a uma teia negra à noite, e ele estava ali indefeso, debatendo-se, em vão, no ar. Mas quando a Escuridão passou, era tarde demais.
Melkor havia fugido para onde queria, e sua vingança estava consumada.

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