11 de abril de 2016

Capítulo VIII - As escadarias de Cirith Ungol

Golum estava puxando a capa de Frodo e chiando de medo e impaciência.
— Devemos ir — disse ele. — Não podemos ficar aqui. Apressem-se!
Com relutância Frodo deu as costas para o oeste e foi seguindo os passos de seu guia, entrando na escuridão do leste. Deixaram o circulo de árvores e foram ao longo da estrada na direção das montanhas. Essa estrada também continuava reta por um trecho, mas logo começou a desviar para o sul, até passar exatamente embaixo da grande saliência de pedra que tinham visto à distância. Negra e ameaçadora ela se erguia, mais escura que o céu negro que a emoldurava.
Esgueirando-se sob sua sombra, a estrada continuava, e fazendo o contorno projetava-se de novo para o leste, começando a subir vertiginosamente. Frodo e Sam iam com passadas lentas e os corações pesados, incapazes agora de se preocupar muito com o perigo que corriam. A cabeça de Frodo estava pesada, seu fardo o forçava a se curvar outra vez. Logo que a grande Encruzilhada ficou para trás, aquele peso, quase esquecido em Ithilien, começara a aumentar de novo.
Agora, sentindo o caminho se tornar íngreme diante de seus pés, Frodo ergueu os olhos cansados, e então a viu, exatamente da forma que Golum dissera que veria: a cidade dos Espectros do Anel. Encolheu-se contra o paredão de pedra.
Um vale longo e inclinado, um abismo fundo de sombra, penetrava as montanhas. Do lado oposto, um pouco para dentro dos braços do vale, altas sobre um assento de pedra nas encostas negras das Ephel Dúath, erguiam-se as muralhas e a torre de Minas Morgul. Tudo era negro à sua volta, a terra e o céu, mas a torre estava iluminada por uma luz. Não pela luz aprisionada do luar, que outrora jorrava através das paredes de mármore de Minas Ithil, a Torre da Lua, bela e radiante na concavidade das colinas. Na realidade, a luz que agora brilhava ali era mais pálida que a lua doentia passando por algum eclipse lento, vacilando e bruxuleando como alguma exalação repugnante de podridão, uma luz cadavérica, uma luz que nada iluminava. Nas muralhas e na torre apareciam janelas, como incontáveis buracos negros olhando para dentro na escuridão; mas a parte superior da torre girava lentamente, primeiro para um lado e depois para outro, uma enorme cabeça fantasmagórica dirigindo seu olhar de soslaio para dentro da noite. Por um momento os três companheiros ficaram ali parados, encolhidos, os olhos fixos no alto contra a própria vontade.
Golum foi o primeiro a se recuperar. Mais uma vez puxou as capas dos hobbits apressando-os. Mas sem dizer nada. Quase os arrastou para a frente. Cada passo era relutante, e o tempo parecia diminuir seu ritmo, de modo que entre o ato de erguer um pé e o de colocá-lo no chão de novo minutos de aversão se passavam.
Assim chegaram lentamente à ponte branca. Ali a estrada, reluzindo desmaiada, passava por sobre o rio em meio ao vale e continuava, subindo em curvas, na direção do portão da cidade: uma boca negra que se abria no círculo exterior das muralhas ao norte.
Amplos planos jaziam nas duas margens, prados sombrios cobertos de pálidas flores brancas. Eram também luminosas, belas e apesar disso tinham formatos horrorosos, como as formas dementes de um sonho ruim; exalavam um fraco odor, sepulcral e nauseabundo; um cheiro podre enchia o ar. De um prado a outro a ponte saltava. Viam-se figuras na cabeceira, esculpidas habilmente e representando formas humanas e animais, mas todas deformadas e abomináveis.
A água que corria embaixo era silenciosa, e dela subia um vapor, mas essa névoa, enrolando-se e girando em volta da ponte, era fria como a morte. Os sentidos de Frodo começaram a vacilar e sua mente escureceu. Então, de repente, como se alguma força estivesse operando contra a sua vontade, começou a correr, cambaleando para a frente, com as mãos estendidas tateando o ar, e a cabeça balançando de um lado para o outro. Golum e Sam correram atrás dele. Sam amparou o mestre em seus braços, no momento em que ele tropeçou e quase caiu, exatamente no limiar da ponte.
— Não, não por ali! Não, não por ali! — sussurrou Golum, mas a respiração entre seus dentes pareceu rasgar a quietude pesada como um assobio, e ele se abaixou no chão aterrorizado.
— Pare, Sr. Frodo! — murmurou Sam ao ouvido de Frodo. — Volte! Por ali não. Golum diz que não, e pela primeira vez concordo com ele.
Frodo passou a mão sobre a fronte e num esforço violento desviou os olhos da cidade sobre a colina. A torre luminosa o fascinava, e ele lutava contra o desejo que sentia de subir pela estrada reluzente na direção do portão.
Finalmente, fazendo um novo esforço, virou as costas, e no momento em que fazia isso sentiu o Anel resistindo ao seu movimento, puxando a corrente em seu pescoço; também os olhos, quando Frodo os desviou, pareceram naquele momento ter sido cegados. A escuridão diante dele era impenetrável.
Golum, rastejando no chão como um animal amedrontado, já estava desaparecendo no escuro. Sam, apoiando e guiando seu trôpego mestre, foi atrás dele o mais rápido que conseguiu. Não muito longe da margem mais próxima do rio havia um vão na muralha rochosa que ladeava a estrada. Passaram por ele, e Sam percebeu que estavam numa trilha estreita que num primeiro momento reluziu fracamente, como reluzia a estrada principal, até que subindo acima dos prados de flores mortas a trilha desaparecia e ficava escura, subindo em seu traçado tortuoso e entrando nas encostas do lado norte do vale.
Ao longo dessa trilha os hobbits foram se arrastando, lado a lado, incapazes de ver Golum na sua frente, a não ser quando ele se virava e lhes acenava para que avançassem. Nesses momentos os olhos brilhavam com uma luz verde esbranquiçada, refletindo talvez o brilho pernicioso de Morgul, ou iluminados por alguma disposição que reagia dentro dele. Daquele brilho mortal e das órbitas escuras Frodo e Sam estavam sempre conscientes, todo o tempo espiando cheios de temor por sobre os ombros, e sempre se esforçando para recuperar o controle dos próprios olhos para poderem achar a trilha escura. Lentamente avançaram, com esforço. Quando subiram acima do mau cheiro e dos vapores do riacho envenenado, a respiração ficou mais fácil e a cabeça mais lúcida, mas agora sentiam as pernas mortas de cansaço, como se tivessem andado a noite toda carregando um fardo, ou tivessem nadado muito contra uma maré de águas pesadas.
Finalmente não conseguiam avançar mais sem uma pausa.
Frodo parou e sentou-se numa pedra. Tinham agora escalado até o topo de uma grande corcova de rocha nua. A frente deles havia um fosso na encosta do vale, e em volta da cabeceira dele a trilha continuava, apenas uma saliência ampla com um abismo à direita; através da íngreme face sul da montanha ela subia, até desaparecer no alto do negrume.
— Preciso descansar um pouco, Sam — sussurrou Frodo. — Está pesado para mim, Sam, meu rapaz. Fico pensando quanto tempo conseguirei carregá-lo. De qualquer forma, preciso descansar antes que nos aventuremos por ali — disse ele, apontando para o caminho estreito a frente.
— Pssiu! Pssiu! — chiou Golum correndo na direção deles. — Pssiu! — Tinha os dedos nos lábios e balançava a cabeça insistentemente. Puxando a manga de Frodo, apontou na direção da trilha, mas Frodo nem se mexeu.
— Ainda não — disse ele —, ainda não.
O cansaço e algo mais que o cansaço o oprimiam. Parecia que um encantamento pesado tinha sido lançado sobre sua mente e seu corpo.
— Preciso descansar — murmurou ele.
Ao ouvir isso, o medo e a agitação de Golum cresceram tanto que ele falou de novo, chiando e cobrindo a boca com a mão, como se quisesse impedir que o som chegasse até ouvintes invisíveis no ar.
— Não, aqui não. Não descansar aqui. Tolos! Olhos podem nos ver. Quando vierem até a ponte vão nos ver. Vamos! Subam, subam! Venham!
— Venha, Sr. Frodo — disse Sam. — Ele está certo outra vez. Não podemos ficar aqui.
— Está certo — disse Frodo com uma voz remota, como a de alguém que fala semiadormecido. — Vou tentar.
Mesmo exausto, pôs-se de pé.
Mas era tarde demais. Naquele momento a rocha se agitou e tremeu embaixo deles. O grande ruído retumbante, mais alto do que nunca, reboou sob o chão e ecoou nas montanhas. Então, com uma rapidez estonteante, surgiu um grande clarão vermelho. De trás das montanhas orientais ele saltou no céu e tingiu de escarlate as nuvens baixas. Naquele vale de sombra e de luz fria e mortal parecia insuportavelmente violento e cruel. Picos de rocha e montanhas, como espadas chanfradas, surgiram negros e assustados contra a chama crescente de Gorgoroth. Então ouviu-se um enorme estrondo de trovão. E Minas Morgul respondeu. Houve um clarão de relâmpagos lívidos: garfos de fogo azul saltando da torre e das colinas ao redor para dentro das nuvens sombrias. A terra rosnou e da cidade veio um grito. Misturado a vozes roucas como as das aves de rapina, e ao relinchar agudo de cavalos alucinados de raiva e medo, veio um guincho dilacerante, que foi rapidamente aumentando num tom agudo, ultrapassando o alcance da audição. Os hobbits se viraram na direção dele, e se jogaram ao chão, com as mãos nos ouvidos.
Quando o terrível grito acabou, morrendo num longo gemido repugnante e depois silenciando, Frodo lentamente levantou a cabeça.
Cortando o vale estreito, agora quase ao nível de seus olhos, as muralhas da cidade maligna se erguiam, e seu portão cavernoso, na forma de uma boca aberta com dentes reluzentes, abriu-se ainda mais. E através do portão avançou um exército. Toda aquela tropa vestia fardas pretas, escuras como a noite. Contra as muralhas descoradas e o pavimento luminoso da estrada Frodo podia vê-los, pequenas figuras negras em inúmeras fileiras, marchando rápida e silenciosamente, passando para o lado de fora numa correnteza infinita. Diante deles um grande grupo de cavaleiros avançando como sombras ordenadas, e na frente destes vinha um, maior que todos os outros: um Cavaleiro, todo negro, a não ser por sua cabeça encapuzada que tinha um elmo semelhante a uma coroa, que faiscava com uma luz perigosa. Agora estava se aproximando da ponte, e os olhos atentos de Frodo o seguiam, incapazes de piscar ou desviar-se. Seria ele o Senhor dos Nove Cavaleiros, que retornara à terra para conduzir sua horrenda tropa à batalha? Sim, sem dúvida ali estava o rei desfigurado cuja mão fria apunhalara o Portador do Anel com sua faca mortal. O antigo ferimento latejou de dor e um grande arrepio se espalhou na direção do coração de Frodo.
No momento em que esses pensamentos o enchiam de medo e o mantinham preso, como se sob o efeito de algum tipo de encantamento, o Cavaleiro de repente parou, bem em frente à entrada da ponte, e atrás dele toda a tropa ficou imóvel.
Houve uma pausa, um silêncio total. Talvez fosse o Anel chamando o Senhor dos Espectros, e por um momento ele ficou perturbado, sentindo algum outro poder dentro de seu vale. Para um e outro lado sua cabeça voltou-se, coberta pelo elmo e coroada de terror, esquadrinhando as sombras com olhos invisíveis. Frodo esperou, como um pássaro sentindo a aproximação de uma cobra, incapaz de se mexer. E enquanto esperava sentiu, mais insistente que nunca, a ordem para que colocasse o Anel. Mas, embora a pressão fosse grande, Frodo não se sentia inclinado a ceder a ela. Sabia que o Anel só iria traí-lo, e que não tinha, mesmo que o colocasse, poder para enfrentar o Rei de Morgul — ainda não.
Não havia mais qualquer resposta àquela ordem em sua própria vontade, embora estivesse enfraquecida pelo medo, e Frodo sentia apenas os golpes de um grande poder que vinha de fora. Essa força externa tomou sua mão, e enquanto Frodo observava com sua mente, não deliberadamente mas em estado de expectativa (como se estivesse assistindo a alguma distante história antiga), moveu a mão centímetro por centímetro na direção da corrente em seu pescoço. Então sua própria vontade se agitou; lentamente forçou a mão de volta e a pôs à busca de alguma outra coisa, uma coisa escondida perto de seu peito. Parecia fria e dura quando a mão se fechou em volta dela: o frasco de Galadriel, há tanto tempo guardado, e quase esquecido até aquele momento. Quando o tocou, por uns momentos todo o pensamento do Anel foi banido de sua mente. Suspirou e abaixou a cabeça.
Nessa hora o Rei dos Espectros se virou, cravou as esporas no lombo do cavalo e começou a atravessar a ponte, e toda a sua tropa escura o seguiu. Talvez os capuzes élficos tivessem desafiado seu olhar, e a mente de seu pequeno inimigo, fortalecida, tivesse desviado seu pensamento. Mas ele estava com pressa. A hora já tinha soado, e ao comando de seu grande Mestre ele devia marchar levando a guerra para o oeste.
Logo desapareceu, como uma sombra entrando na sombra, descendo a estrada tortuosa, e atrás dele ainda as fileiras negras atravessavam a ponte. Um exército tão grande nunca saíra daquele vale desde os dias do poder de Isildur; nenhuma tropa tão desumana e forte em armas houvera investido contra os vaus do Anduin; apesar disso, era apenas uma, e não a maior tropa que Mordor podia enviar.
Frodo se mexeu. E de repente seu coração buscou Faramir. “A tempestade finalmente irrompeu”, pensou ele. “Esse grande conjunto de lanças e espadas está indo para Osgiliath. Poderá Faramir chegar a tempo? Ele supunha, mas será que realmente sabia a hora? E quem poderá proteger os vaus quando o Rei dos Nove Cavaleiros chegar? E outros exércitos virão. Estou atrasado demais. Tudo está perdido. Hesitei no caminho. Tudo está perdido. Mesmo que consiga cumprir minha missão, ninguém jamais saberá. Não haverá ninguém a quem eu possa contar. Terá sido em vão.”
Tomado de fraqueza, Frodo chorou. E a tropa de Morgul ainda atravessava a ponte. Então, a uma grande distância, como se saísse de lembranças do Condado, nalguma tenra manhã ensolarada, quando o dia chegava e as portas estavam se abrindo, Frodo ouviu a voz de Sam falando.
— Acorde, Sr. Frodo! Acorde! — Se a voz tivesse acrescentado: “Seu desjejum está pronto”, ele mal se teria surpreendido. Certamente Sam tinha pressa. — Acorde, Sr. Frodo! Eles se foram — disse ele.
Houve um clangor surdo. Os portões de Minas Morgul tinham se fechado. A última fileira de lanças desaparecera pela estrada. A torre ainda arreganhava os dentes através do vale, mas a sua luz estava sumindo. Toda a cidade voltava a mergulhar numa sombra escura e sinistra, e no silêncio. Mesmo assim, ainda havia muita vigilância.
— Acorde, Sr. Frodo! Eles se foram, e é melhor irmos também. Ainda há alguma coisa viva naquele lugar, alguma coisa com olhos, ou uma mente que vê, se o senhor me entende; e quanto mais ficarmos parados em um ponto, mais depressa vão nos encontrar. Vamos, Sr. Frodo!
Frodo levantou a cabeça, e então se pôs de pé. O desespero não o abandonara, mas a fraqueza tinha passado. Ele até ensaiou um sorriso sério, sentindo agora claramente o contrário do que sentira no momento anterior, que devia fazer o que precisava ser feito, se pudesse, e que não vinha ao caso se Faramir ou Aragorn ou Elrond ou Galadriel ou Gandalf, ou qualquer outra pessoa, saberiam ou não disso. Pegou seu cajado em uma mão e o frasco na outra. Quando viu que a luz clara já começava a verter através de seus dedos, colocou-o junto ao peito e o apertou contra o coração. Depois, dando as costas à cidade de Morgul, agora não mais que um brilho cinzento através do fosso escuro, ele se preparou para tomar a estrada que subia. Golum, ao que parecia, tinha fugido ao longo da borda para dentro da escuridão mais além, quando os portões de Minas Morgul se abriram, deixando os hobbits onde estavam. Agora voltava rastejando, com os dentes tiritando e os dedos estalando.
— Tolos! Idiotas! — chiou ele. — Apressem-se! Não devem pensar que o perigo passou. Não passou. Apressem-se!
Eles não responderam, mas o seguiram pela borda ascendente.
Nenhum dos dois gostou muito daquilo, mesmo depois de terem enfrentado tantos outros perigos; mas não durou muito. Logo a trilha atingiu um canto arredondado, onde a encosta da montanha se projetava outra vez, e ali de repente entrava por uma abertura estreita na rocha. Tinham chegado à primeira escada sobre a qual Golum havia falado. A escuridão era quase completa, e não conseguiam ver nada além do alcance das mãos; mas os olhos de Golum brilhavam claros, alguns metros acima, quando se voltavam para eles.
— Cuidado! — sussurrou ele. — Degraus. Um monte de degraus. Devem ter cuidado!
Certamente era preciso cautela. Frodo e Sam num primeiro momento se sentiram mais tranquilos, tendo agora uma parede de cada lado, mas a escadaria era quase tão íngreme quanto uma escada de mão, e conforme iam subindo ficavam mais conscientes do grande abismo negro atrás deles. E os degraus eram estreitos, com espaços irregulares, e frequentemente traiçoeiros: estavam gastos e lisos nas bordas, alguns estavam quebrados, e outros se rachavam no momento em que eram pisados.
Os hobbits iam subindo com esforço, até que no fim já se agarravam com dedos desesperados aos degraus à frente, forçando os joelhos doloridos a se dobrarem e depois se esticarem; e, enquanto a escada cortava seu caminho cada vez mais fundo dentro da montanha íngreme, as paredes rochosas se erguiam cada vez mais altas sobre suas cabeças. Depois de muito tempo, exatamente na hora em que sentiam que não poderiam aguentar mais, viram os olhos de Golum voltando-se para eles.
— Subimos — sussurrou ele. — A primeira escada já passou. Hobbits espertos, que sobem tão alto, hobbits muito espertos. Apenas mais alguns degraus e tudo estará terminado, é sim.
Zonzos e muito cansados, Sam, e Frodo atrás dele, arrastaram-se pelo último degrau, depois sentaram-se massageando as pernas e os joelhos. Estavam num corredor escuro e profundo que parecia ainda subir diante deles, embora com uma inclinação mais suave e sem degraus. Golum não permitiu que descansassem por muito tempo.
— Ainda há outra escada — disse ele. — Escada muito mais comprida. Descansem quando chegarmos no topo da próxima escada. Ainda não!
Sam resmungou.
— Você disse mais comprida? — perguntou ele.
— Sim, ssim, mais comprida — disse Golum. — Mas não tão difícil. Os hobbits subiram a Escada Reta. Em seguida vem a Escada Tortuosa.
— E o que vem depois disso? — disse Sam.
— Veremos — disse Golum baixinho. — É sim, veremos!
— Pensei que você tinha dito que havia um túnel – disse Sam. — Não há um túnel ou alguma coisa para se atravessar?
— Ah, sim, há um túnel — disse Golum. — Mas os hobbits podem descansar antes de tentarmos isso. Se o atravessarem, estaremos quase no topo. Quase, quase, se eles atravessarem, é sim!
Frodo estremeceu. A subida o fizera suar, mas agora ele sentia seu corpo frio e pegajoso, e havia uma corrente de ar gelado no corredor escuro, soprando das alturas invisíveis. Levantou-se e mexeu o corpo.
— Bem, vamos continuar! — disse ele. — Isto aqui não é lugar para se ficar sentado.
O corredor parecia continuar por milhas, e sempre o ar gelado soprava sobre eles, transformando-se, enquanto os três continuavam, num vento cortante. As montanhas pareciam estar tentando, com seu hálito mortal, intimidá-los, afastá-los dos segredos dos lugares altos, ou varrê-los para dentro da escuridão deixada para trás. Eles só perceberam que tinham chegado ao fim quando de repente deixaram de sentir a parede à sua direita.
Não conseguiam enxergar quase nada.
Grandes massas negras e disformes, sombras profundas e cinzentas assomavam acima e ao redor deles, mas de vez em quando uma opaca luz vermelha piscava lá no alto, sob as nuvens carrancudas, e por um momento eles puderam divisar picos altos, à frente e dos dois lados, como pilares sustentando um vasto teto propenso a ceder.
Parecia que tinham escalado centenas de metros, chegando a um amplo patamar. Havia um penhasco à esquerda e uma fenda à direita. Golum foi na frente, mantendo-se próximo ao penhasco. Já não estavam mais subindo, mas o chão agora estava mais irregular e perigoso no escuro, e havia blocos e pedaços de pedra caídos no caminho. Avançavam lenta e cuidadosamente. Quantas horas haviam se passado desde a entra da no Vale Morgul Frodo e Sam já não conseguiam mais calcular. A noite parecia interminável.
Finalmente perceberam mais uma vez uma parede assomando, e outra vez uma escadaria se abriu diante deles. Pararam de novo, e mais uma vez começaram a subir. Era uma escalada longa e cansativa; mas esta escadaria não afundava na encosta da montanha. Aqui a enorme face do penhasco inclinava-se para trás e a trilha, como uma cobra, ziguezagueava encosta acima. Em um ponto ela se aproximava da borda da fenda escura, e Frodo, olhando para baixo, viu, como um vasto poço profundo, o grande abismo na cabeceira do Vale Morgul. Em suas profundezas brilhava, como um fio de vaga-lumes, a estrada dos espectros que ia da Cidade Morta para a Passagem Inominada. Rapidamente voltou-se para o outro lado. Sempre subindo, a escadaria fazia curvas e avançava, até que finalmente, num último lance, curto e reto, atingia de novo um outro nível. A trilha desviara da passagem principal no grande desfiladeiro, e agora seguia seu próprio curso perigoso, no fundo de uma fenda menor em meio às regiões mais altas das Ephel Dúath.
Os hobbits podiam vagamente discernir altos pilares e pináculos pontudos de pedra dos dois lados, entre os quais havia grandes rachaduras e fendas, mais negras que a noite, onde invernos esquecidos tinham corroído e esculpido a rocha esquecida pelo sol. E agora a luz vermelha no céu parecia mais forte; embora não pudessem saber se uma manhã terrível realmente estava chegando àquele lugar de sombra, ou se estavam vendo apenas a chama de alguma grande violência de Sauron no tormento de Gorgoroth mais além. Ainda muito à frente e ainda muito acima Frodo, erguendo os olhos, viu o que supôs ser exatamente o coroamento daquela triste estrada. Contra a vermelhidão sombria do céu do leste, uma fenda se desenhava na borda mais alta, estreita, profunda, entre duas saliências negras; e em cada saliência havia um chifre de pedra.
Parou e olhou com mais atenção. O chifre à esquerda era esguio e alto, e nele queimava uma luz vermelha, ou então a luz vermelha da terra mais além estava brilhando através de um buraco. Agora ele via: era uma torre negra que se erguia acima da passagem extrema. Frodo tocou o braço de Sam e apontou.
— Não gosto nada daquilo! — disse Sam. — Então esta sua passagem secreta afinal de contas está sendo vigiada — rosnou ele, virando-se para Golum. — Como você já sabia, o tempo todo, eu suponho?
— Todos os caminhos são vigiados, é sim — disse Golum. — Claro que são. Mas os hobbits precisam tentar algum caminho. Este pode ser menos vigiado. Talvez eles tenham todos ido embora, para a grande batalha, talvez!
— Talvez! — grunhiu Sam. — Bem, parece que ainda temos muito chão pela frente, e ainda temos de subir muito antes de chegarmos lá. E ainda há o túnel. Acho que o senhor devia descansar agora, Sr. Frodo. Não sei que horas são do dia ou da noite, mas estamos caminhando há muitas e muitas horas.
— Sim, precisamos descansar — disse Frodo. — Vamos achar algum canto protegido do vento, e reunir nossas forças – para a etapa final.
Era isso o que ele sentia. Os terrores da terra além, e o feito a ser realizado lá, pareciam ainda remotos, remotos demais para se preocupar. Toda a sua mente estava concentrada em atravessar ou livrar-se daquela parede e daquela guarda impenetráveis. Se uma vez conseguisse realizar aquela coisa impossível, então de alguma forma a missão seria cumprida, ou assim lhe parecia naquela hora escura de cansaço, ainda lutando nas sombras rochosas sob Cirith Ungol.
Numa fenda escura entre dois pilares de pedra eles se sentaram: Frodo e Sam na parte interna, e Golum agachado no chão perto da abertura. Ali os hobbits fizeram o que imaginavam ser sua última refeição antes de descer à Terra Inominada, talvez a última que fariam juntos. Comeram um pouco da comida de Gondor, e pedaços do pão-de-viagem dos elfos, e beberam. Mas estavam racionando a água e beberam apenas o suficiente para molhar as bocas secas.
— Pergunto-me quando encontraremos água de novo — disse Sam. — Mas suponho que mesmo lá eles bebam. Os orcs bebem, não bebem?
— Sim, eles bebem — disse Frodo. — Mas não vamos falar nisso. Aquela bebida não é para nós.
— Então é maior ainda a necessidade de enchermos nossas garrafas — disse Sam. — Mas não há água aqui em cima: não ouvi nenhum ruído ou borbulho. E de qualquer forma Faramir nos disse que não bebêssemos água nenhuma em Morgul.
— Nenhuma água que venha de Imlad Morgul, foram suas palavras — disse Frodo. — Não estamos naquele vale agora, e, se encontrássemos uma nascente, ela estaria correndo para ele, e não dele.
— Eu não confiaria nisso — disse Sam —, não até estar morrendo de sede. Há uma sensação maligna neste lugar. — Sam farejou. — E um cheiro, eu acho. O senhor está percebendo? Um tipo estranho de cheiro, abafado. Não gosto dele.
— Não gosto de nada por aqui — disse Frodo —, pedra ou poço, água ou osso. Terra, ar e água, tudo parece amaldiçoado. Mas nessa direção vai nossa trilha.
— É, é isso mesmo — disse Sam. — E de modo algum estaríamos aqui se estivéssemos mais bem informados antes de partir. Mas suponho que seja sempre assim. Os feitos corajosos das velhas canções e histórias, Sr. Frodo: aventuras, como eu as costumava chamar. Costumava pensar que eram coisas à procura das quais as pessoas maravilhosas das histórias saiam, porque as queriam, porque eram excitantes e a vida era um pouco enfadonha, um tipo de esporte, como se poderia dizer. Mas não foi assim com as histórias que realmente importaram, ou aquelas que ficam na memória. As pessoas parecem ter sido simplesmente embarcadas nelas, geralmente – seus caminhos apontavam naquela direção, como se diz. Mas acho que eles tiveram um monte de oportunidades, como nós, de dar as costas, apenas não o fizeram. E, se tivessem feito, não saberíamos, porque eles seriam esquecidos. Ouvimos sobre aqueles que simplesmente continuaram – nem todos para chegar a um final feliz, veja bem; pelo menos não para chegar àquilo que as pessoas dentro de uma história, e não fora dela, chamam de final feliz. O senhor sabe, voltar para casa, descobrir que as coisas estão muito bem, embora não sejam exatamente iguais ao que eram – como aconteceu com o velho Sr. Bilbo. Mas essas não são sempre as melhores histórias de se escutar, embora possam ser as melhores histórias para se embarcar nelas! Em que tipo de história teremos caído?
— Também fico pensando — disse Frodo. — Mas não sei. E é assim que acontece com uma história de verdade. Pegue qualquer uma de que você goste. Você pode saber, ou supor, que tipo de história é, com final triste ou final feliz, mas as pessoas que fazem parte dela não sabem. E você não quer que elas saibam.
— Não, senhor, claro que não. Veja o caso de Beren: ele nunca pensou que ia pegar aquela Silmaril da Coroa de Ferro em Thangorodrim. E apesar disso ele conseguiu, e aquele lugar era pior e o perigo era mais negro que o nosso. Mas é uma longa história, é claro, e passa da alegria para a tristeza e além dela – e a Silmaril foi adiante e chegou a Eärendil. E veja, senhor, eu nunca tinha pensado nisso antes! Nós temos – o senhor tem um pouco da luz dele naquela estrela de cristal que a Senhora lhe deu! Veja só, pensando assim, estamos ainda na mesma história! Ela está continuando. Será que as grandes histórias nunca terminam?
— Não, nunca terminam como histórias — disse Frodo. — Mas as pessoas nelas vêm e vão quando seu papel termina. Nosso papel vai terminar mais tarde – ou mais cedo.
— E então poderemos descansar e dormir um pouco — disse Sam. Sorriu de um modo sombrio. — E quero dizer exatamente isso, Sr. Frodo. Quero dizer um simples descanso comum, e sono, e acordar para uma manhã de trabalho no jardim. Receio que isso seja tudo que estou esperando todo o tempo. Todos os grandes planos importantes não são para pessoas como eu. Mesmo assim, fico imaginando se seremos colocados em canções e histórias. Estamos numa, é claro; mas quero dizer: transformados em palavras, o senhor sabe, contadas perto da lareira, ou lidas de grandes livros com letras pretas e vermelhas, anos e anos depois. E as pessoas vão dizer: “Vamos escutar sobre Frodo e o Anel!” E eles vão dizer: “Sim, essa é uma de minhas histórias favoritas. Frodo foi muito corajoso, não foi, papai?” Sim, meu filho, o mais famoso dos hobbits, e isso significa muito.”
— Significa muito demais — disse Frodo e riu, um riso longo e claro, que vinha do fundo de seu coração. Um som assim não se ouvia naquelas partes desde que Sauron chegara à Terra Média. Sam de repente teve a impressão de que todas as pedras estavam escutando e todas as rochas se debruçavam sobre eles. Mas Frodo não deu atenção a elas e riu de novo. — Olhe, Sam, ouvir você me faz rir como se a história já estivesse escrita. Mas você deixou de fora um dos principais personagens: Samwise, o bravo. “Quero ouvir mais sobre Sam, papai. Por que ele não falou mais coisas, papai? É disso que eu gosto. Acho engraçado. E Frodo não teria ido muito longe sem Sam, teria, papai?”
— Ora, Sr. Frodo — disse Sam —, o senhor não devia caçoar. Eu estava falando sério.
— Eu também estava — disse Frodo. — Eu também estou. Estamos indo meio rápido demais. Você e eu, Sam, ainda estamos enfiados nos piores lugares da história, e é bem provável que alguns digam neste ponto: “Feche o livro, papai, não queremos ler mais nada.”
— Pode ser — disse Sam —: mas eu não diria isso. Coisas feitas e terminadas, que já fazem parte das grandes histórias, são diferentes. Veja bem, até Golum poderia ser bom numa história, melhor do que tê-lo ao seu lado, de qualquer forma. E houve um tempo em que ele mesmo gostava de histórias, por conta própria. Será que ele se considera o herói ou o vilão?
— Golum! — chamou ele — Você gostaria de ser o herói... ora, onde ele se meteu de novo?
Não havia sinal de Golum na abertura do patamar onde estavam, nem nas sombras ao redor. Recusara a comida deles, embora tivesse aceitado, como de costume, um gole de água; depois aparentemente se aconchegara para dormir.
Os hobbits tinham suposto que pelo menos um de seus objetivos durante sua longa ausência do dia anterior fora procurar comida que lhe apetecesse, e agora ele evidentemente fugira de novo, enquanto os dois conversaram. Mas para quê, desta vez?
— Não gosto que ele desapareça sem avisar — disse Sam. — Muito menos agora. Não pode estar procurando comida aqui em cima, a não ser que haja algum tipo de rocha que lhe apeteça. Por aqui não existe nem um pouquinho de musgo!
— Não adianta nos preocuparmos com ele agora — disse Frodo. — Não teríamos ido longe, nem teríamos chegado a ver a passagem, sem ele, e por isso vamos ter de aturar o jeito dele. E, se ele é falso, então é falso.
— Mesmo assim, preferia tê-lo diante de meus olhos – disse Sam. — Ainda mais se ele for falso. O senhor se recorda de que ele nunca disse se a passagem era ou não vigiada? E agora vemos uma torre lá – que pode estar abandonada, e pode não estar. O senhor acha que ele foi buscá-los, orcs ou o que quer que sejam?
— Não, acho que não — respondeu Frodo. — Mesmo que esteja se ocupando com alguma maldade, não acho que seja isso: não buscando orcs, ou qualquer servidor do Inimigo. Por que teria esperado até agora, e passado por todo o trabalho da subida, e chegado tão perto do lugar que teme? Provavelmente poderia ter-nos entregado aos orcs muitas vezes desde que o encontramos. Não, se houver alguma coisa, será algum pequeno truque particular e próprio, que ele considera muito secreto.
— Bem, acho que o senhor tem razão, Sr . Frodo — disse Sam.
— Não que isso me console muito. E eu não me engano: não duvido que ele me entregaria aos orcs com a mesma satisfação com a qual estenderia a mão para que fosse beijada. Mas eu estava esquecendo o Precioso. Não, creio que todo o tempo foi O Precioso para o pobre Sméagol. Essa é a única ideia em todos os pequenos planos dele, se é que ele tem algum. Mas como nos trazer aqui vai ajudá-lo nesses planos é mais do que posso adivinhar.
— Muito provavelmente nem mesmo ele pode adivinhar — disse Frodo. — E não acho que ele tenha apenas um plano definido naquela cabeça confusa. Acho que realmente, em parte, ele está tentando salvar seu Precioso do Inimigo, enquanto puder. Pois seria o desastre final para ele também, se o Inimigo o conseguisse. E por outro lado, talvez, ele esteja apenas ganhando tempo e aguardando uma oportunidade.
— É, Caviloso e Fedegoso, como eu já disse — continuou Sam. — Mas quanto mais chegarem perto da terra do Inimigo, mais parecido com Fedegoso Caviloso ficará. Guarde minhas palavras: se conseguirmos chegar até a passagem, ele realmente não vai permitir que levemos a coisa preciosa através da fronteira sem arranjar algum tipo de problema.
— Ainda não chegamos lá — disse Frodo.
— Não, mas é melhor ficarmos de olhos abertos até chegarmos. Se formos pegos cochilando, Fedegoso vai dar a volta por cima bem rápido. Mesmo assim seria seguro o senhor dar uma dormidinha agora, mestre. Seguro, se se deitar perto de mim. Ficaria muito satisfeito em vê-lo dormindo. Eu ficaria vigiando; e de qualquer forma, se o senhor se deitar perto, com meu braço em volta de seu corpo, ninguém poderia tocá-lo sem que o seu Sam ficasse sabendo.
— Dormir! — disse Frodo e suspirou, como se num deserto tivesse avistado uma miragem de frescor verde. — Sim, até mesmo aqui eu conseguiria dormir.
— Então durma, mestre! Deite sua cabeça em meu colo.


E assim Golum os encontrou horas mais tarde, quando retornou, arrastando-se pela trilha, saindo da escuridão adiante. Sam estava sentado, recostado na pedra, a cabeça caindo de lado e com a respiração pesada. Em seu colo a cabeça de Frodo, imersa num sono profundo; sobre sua fronte branca descansava uma das mãos morenas de Sam, e a outra pousava suavemente sobre o peito de seu mestre. Havia paz no rosto dos dois.
Golum olhou para eles. Uma expressão estranha passou por seu rosto magro e faminto. Apagou-se o brilho de seus olhos, que ficaram opacos e cinzentos, velhos e cansados. Um espasmo de dor pareceu contorcer seu corpo, e ele se virou, olhando para trás na direção da passagem, balançando a cabeça, como se empenhado em alguma discussão interior. Depois voltou, e lentamente, estendendo uma mão trêmula, com todo o cuidado tocou o joelho de Frodo — mas o toque foi quase uma carícia. Por um momento fugaz, se os que dormiam pudessem tê-lo visto, pensariam que estavam observando um velho hobbit cansado, encolhido pelos anos que o tinham carregado para longe de seu tempo, para longe dos amigos e parentes, e dos campos e riachos da juventude, um ser velho e faminto merecedor de compaixão.
Mas àquele toque Frodo se mexeu e chamou baixinho em seu sono, e imediatamente Sam despertou completamente. A primeira coisa que viu foi Golum — “passando as patas no mestre”, como pensou.
— Ei, você! — disse ele num modo áspero. — Que está fazendo?
— Nada, nada — disse Golum baixinho. — Mestre bonzinho!
— Sem dúvida — disse Sam. — Mas onde você esteve safando-se sorrateiramente e voltando do mesmo jeito, seu velho vilão?
Golum se retirou, e um brilho verde faiscou sob suas pálpebras pesadas. Agora quase parecia uma aranha, agachado sobre as pernas dobradas, com seus olhos protuberantes. O momento fugaz passara e não poderia mais ser relembrado.
— Safando-me, safando-me! — chiou ele. — Os hobbits são sempre tão educados, é sim. O hobbits bonzinhos! Sméagol os traz por caminhos secretos que ninguém mais poderia encontrar. Está cansado, está com sede, é sim, com sede; e ele os leva e procura trilhas, e então eles dizem safado, safado. Amigos muito bonzinhos, é sim, meu precioso, muito bonzinhos.
Sam sentiu um pouco de remorso, embora não sentisse mais confiança.
— Sinto muito — disse ele. — Sinto muito, mas você me assustou e me acordou de meu sono. E eu não deveria estar dormindo, e isso me fez ser um pouco rude. Mas o Sr. Frodo está muito cansado, e eu pedi que ele tirasse um cochilo; e, bem, foi isso que aconteceu. Sinto muito. Mas onde você esteve?
— Safei-me sorrateiramente — disse Golum, e o brilho verde não abandonava seus olhos.
— Oh, muito bem — disse Sam —, diga como quiser! Não acho que está muito longe da verdade. E agora é melhor todos nós começarmos a nos safar sorrateiramente juntos. Que horas são? É hoje ou amanhã?
— É amanhã — disse Golum —, ou era amanhã quando os hobbits foram dormir. Muito tolos, muito perigoso – se o pobre Sméagol não estivesse por aí, vigiando sorrateiramente.
— Acho que logo vamos enjoar dessa palavra — disse Sam. — Mas não se incomode, eu vou acordar o mestre. — Suavemente afastou o cabelo da fronte de Frodo, e curvando-se falou-lhe baixinho. — Acorde, Sr. Frodo! Acorde!
Frodo se mexeu, abriu os olhos e sorriu, vendo o rosto de Sam debruçado sobre o dele.
— Está me chamando cedo, não é, Sam? — disse ele. — Ainda está escuro!
— Sim, está sempre escuro aqui — disse Sam. — Mas Golum voltou, Sr. Frodo, e diz que já é amanhã. Então devemos ir andando. O inicio do fim.
Frodo respirou fundo e se sentou.
— O inicio do fim! — disse ele. — Olá, Sméagol! Achou alguma comida? Você descansou?
— Sem comida, sem descanso, nada para Sméagol — disse Golum. — Ele é um safado.
Sam estalou a língua, mas se conteve.
— Não dê nomes a si mesmo, Sméagol — disse Frodo. — Não é uma atitude inteligente, sejam eles verdadeiros ou falsos.
— Sméagol precisa aceitar o que lhe é dado — respondeu Golum. — Quem lhe deu esse nome foi o gentil Mestre Samwise, o hobbit que é tão inteligente.
Frodo olhou para Sam.
— Sim, senhor — disse ele. — Eu usei essa palavra, quando acordei de meu sono de repente e tudo o mais, e o encontrei por perto. Eu disse que estava arrependido, mas logo não vou estar mais.
— Vamos lá, deixem isso de lado então — disse Frodo. — Mas agora parece que chegamos ao ponto, você e eu, Sméagol. Diga-me. Agora nós podemos achar o caminho sozinhos? Estamos vendo a passagem, uma entrada, e, se pudermos encontrá-la agora, então acho que nosso acordo pode terminar aqui. Você fez o que prometeu, e está livre: livre para procurar comida e descanso, aonde quer que deseje ir, exceto para os servidores do Inimigo. E um dia poderei recompensá-lo, eu ou aqueles que se lembrarem de mim.
— Não, não, ainda não — choramingou Golum. — Oh, não! Eles não podem encontrar o caminho sozinhos, podem? Não, de jeito nenhum. O túnel está se aproximando. Sméagol precisa continuar. Sem comida. Sem descanso. Por enquanto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!