2 de abril de 2016

Capítulo VIII - Adeus a Lórien


Naquela noite, a Comitiva foi chamada outra vez ao salão de Celeborn, e ali o Senhor e a Senhora os cumprimentaram com belas palavras.
Finalmente, Celeborn falou da partida deles.
— É chegada a hora — disse ele — em que aqueles que desejam continuar a Demanda devem endurecer seus corações e deixar esta terra. Aqueles que não mais desejam prosseguir podem permanecer aqui, por um tempo. Mas quer fiquem quer partam, a paz não pode ser assegurada. Pois chegamos agora ao limiar de nosso destino. Aqui, aqueles que desejarem podem esperar a aproximação da hora em que ou os caminhos do mundo se abrirão de novo, ou os convocaremos para a luta suprema de Lórien. Então poderão voltar às suas terras, ou ir para a morada duradoura daqueles que caem na batalha.
Fez-se silêncio.
— Todos resolveram partir — disse Galadriel, olhando nos olhos deles.
— Quanto a mim — disse Boromir — meu lar fica adiante, e não lá atrás.
— Isso é verdade — disse Celeborn — mas toda a Comitiva vai com você para Minas Tirith?
— Ainda não decidimos nosso caminho — disse Aragorn. — Depois de Lórien, não sei o que Gandalf pretendia fazer. Na verdade, acho que nem ele tinha um propósito definido.
— Talvez não — disse Celeborn — mas mesmo assim, quando deixarem este lugar, não poderão mais esquecer o Grande Rio. Como alguns de vocês bem sabem, os viajantes não podem atravessá-lo com bagagens entre Lórien e Gondor, a não ser de barco. E não estão as pontes de Osgiliath destruídas, e todos os desembarcadouros sob o domínio do Inimigo?
“De que lado vão viajar? O caminho para Minas Tirith fica deste lado, no Oeste; mas a estrada da Demanda fica do lado Leste do Rio, na margem mais escura. Que margem pegarão agora?
— Se meu conselho for acatado, iremos pela margem Oeste, e pelo caminho de Minas Tirith — respondeu Boromir. — Mas não sou o líder da Comitiva.
Os outros não disseram nada, e Aragorn parecia preocupado e cheio de dúvidas.
— Vejo que ainda não sabem o que fazer — disse Celeborn. — Não é meu papel fazer essa escolha em seu lugar; mas vou ajudá-los como puder. Alguns entre vocês sabem lidar com barcos: Legolas, cujo povo conhece o veloz Rio da Floresta, Boromir de Gondor, e Aragorn, o viajante.
— E um hobbit! — gritou Merry. — Nem todos nós achamos que um barco é como um cavalo xucro. Meu povo mora às margens do Brandevin.
— Isso está bem — disse Celeborn, — Então providenciarei barcos para a sua Comitiva. Devem ser pequenos e leves, pois se avançarem muito pela água haverá lugares onde serão forçados a carregá-los. Chegarão às correntezas do Sarn Gebir, e talvez finalmente às grandes cachoeiras de Rauros, onde o Rio cai vertiginosamente do Nen Hithoel; e há outros perigos. Os barcos podem fazer com que sua viagem seja menos penosa durante um certo trecho. Apesar disso, eles não vão ajudá-los a decidir: no fim, devem abandoná-los e ao Rio, e rumar para o Oeste – ou para o Leste.
Aragorn agradeceu a Celeborn várias vezes. A doação dos barcos o consolou por vários motivos, e não menos por agora poderem postergar por mais uns dias a decisão sobre qual caminho seguir. Os outros, da mesma forma, pareciam mais esperançosos. Quaisquer que fossem os perigos à frente, parecia melhor descer flutuando a larga correnteza do Anduin para enfrentá-los, do que prosseguir num caminho penoso com as costas arcadas. Apenas Sam ainda tinha dúvidas: ele, de qualquer forma, considerava que os barcos eram como cavalos selvagens, ou piores, e nem todos os perigos pelos quais tinha passado mudavam sua ideia a esse respeito.
— Prepararemos tudo, e vocês serão esperados no porto antes do meio-dia amanhã — disse Celeborn. — Enviarei pessoas pela manhã para que possam ajudá-los nos preparativos da viagem. Agora desejamos-lhes uma boa noite e um sono tranquilo.
— Boa noite, meus amigos! — disse Galadriel. — Durmam em paz! Esta noite, não sobrecarreguem seus corações pensando no melhor caminho. Pode ser que as trilhas nas quais cada um de vocês deve pisar já estejam diante de seus pés, embora talvez não consigam enxergá-las. Boa noite!
A Comitiva saiu e voltou para o pavilhão. Legolas os acompanhou, pois aquela deveria ser a última noite deles em Lothlórien, e apesar das palavras de Galadriel, todos queriam ficar juntos para planejar a viagem.
Por um longo tempo, debateram sobre o que deveriam fazer, e sobre o melhor modo de tentar atingir seus propósitos em relação ao Anel; mas não chegaram a decisão alguma. Estava claro que a maioria deles desejava ir primeiro até Minas Tirith e escapar, pelo menos por um tempo, do terror do Inimigo. Estariam dispostos a seguir um líder através do Rio e para dentro da sombra de Mordor; mas Frodo não dizia nada e Aragorn ainda estava dividido.
Seu próprio plano, enquanto Gandalf ainda estava com eles, era ir com Boromir e, com sua espada, ajudar a libertar Gondor. Pois ele acreditava que a mensagem dos sonhos era um chamado, e que tinha chegado finalmente a hora em que o herdeiro de Elendil deveria se apresentar e lutar contra Sauron pelo comando. Mas em Moria o fardo de Gandalf passara para seus ombros, e ele sabia que não podia agora abandonar o Anel, se Frodo finalmente se recusasse a acompanhar Boromír. Apesar disso, que ajuda poderia ele ou qualquer um da Comitiva prestar a Frodo, a não ser caminhar ao seu lado para dentro da escuridão?
— Irei para Minas Tirith, mesmo que vá sozinho, pois este é meu dever — disse Boromir, e depois ficou calado por um tempo, sentado com os olhos fixos em Frodo, como se tentasse ler os pensamentos do Pequeno. Finalmente falou de novo, numa voz suave, como se estivesse discutindo consigo mesmo. — Se você quer apenas destruir o Anel — disse ele — então não haverá muita utilidade na guerra e nas armas, e os homens de Minas Tirith não poderão ser de grande ajuda. Mas se você deseja destruir a força armada do Senhor do Escuro, então é tolice avançar pelos domínios dele sem armas; é tolice jogar fora... — parou de repente, como se tivesse percebido que estava pensando em voz alta. — Seria tolice jogar fora vidas, quero dizer — terminou ele. — É uma escolha entre defender um lugar forte e caminhar abertamente para os braços da morte. Pelo menos é assim que vejo as coisas.
Frodo percebeu algo novo e estranho no olhar de Boromir, e olhou-o fixamente. Estava claro que o pensamento de Boromir divergia de suas últimas palavras, Seria tolice jogar fora: o quê? O Anel de Poder? Ele tinha dito algo semelhante no Conselho, mas na ocasião aceitara a correção de Elrond. Frodo olhou para Aragorn, mas este parecia estar mergulhado em seus próprios pensamentos, e não fez sinal de que prestara atenção às palavras de Boromir. E assim a discussão terminou. Merry e Pippin já estavam dormindo, e Sam caindo de sono. A noite avançava.
Pela manhã, enquanto arrumavam sua sumária bagagem, vieram elfos que sabiam falar a língua deles e trouxeram-lhes muitos presentes em forma de comida e roupas para a viagem. A comida era, na maior parte, composta de bolos muito finos, feitos de uma farinha que, assada, era de um tom marrom-claro, e na parte interna tinha cor de creme. Gimli pegou um dos bolos e olhou-o com um ar duvidoso.
— Cram — disse ele numa voz muito baixa, enquanto quebrava um canto crocante e o mordiscava. Mas a expressão em seu rosto mudou rapidamente, e ele comeu todo o resto do bolo, com grande apetite.
— Basta, basta! — gritaram os elfos rindo. — Você já comeu o suficiente para um dia longo de marcha.
— Pensei que era apenas um tipo de gram, semelhante àquele que os homens de Valle fazem para levar em viagens a lugares desertos — disse o anão.
— E é — responderam eles. — Mas nós o chamamos de lembas ou pão-de-viagem, e é mais nutritivo que qualquer comida feita pelos homens, e mais saboroso que o cram, pelo que todos dizem.
— De fato é — disse Gimli. — E olhe, é melhor até que os pães-de-mel dos Beornings, e isso é um grande elogio, pois os Beornings são os melhores padeiros que eu conheço; mas hoje em dia não estão muito dispostos a distribuir seus pães entre os viajantes. Vocês é que são anfitriões muito gentis.
— Mesmo assim, é melhor que economizem a comida — disseram eles. — Comam um pouco de cada vez, e só quando necessário. Pois estamos lhes dando essas coisas para que sejam de serventia quando tudo mais faltar. Os bolos se mantêm frescos por muitos dias, se não se quebrarem e forem mantidos em sua embalagem de folhas, como os trouxemos. Apenas um pode manter um viajante em pé durante um longo dia de trabalho, mesmo que esse viajante seja um dos altos homens de Minas Tirith.
Depois os elfos desembrulharam e deram a eles as roupas que tinham trazido. Para cada um trouxeram um capuz e uma capa, feitos de acordo com seu tamanho, e do tecido sedoso produzido pelos Galadhrim, que era leve, e nem por isso deixava de ser quente. Era difícil precisar suas cores: pareciam ser cinzentos com a nuance do crepúsculo sob as árvores; apesar disso, quando movimentados ou colocados sob outra luz, eram verdes como a água sob as estrelas, ou castanhos como campos fulvos à noite, e de um prata escuro sob a luz das estrelas. Cada capa era presa ao pescoço por um broche semelhante a uma folha verde raiada de prata.
— São capas mágicas? — perguntou Pippin, olhando-as admirado.
— Não sei o que quer dizer — respondeu o líder dos elfos. — São trajes bonitos, e o fio é de boa qualidade, pois foi feito nesta terra. São vestimentas élficas, com certeza, se é isso que quer dizer. Folha e ramo, água e rocha: elas têm a beleza de todos esses elementos sob nosso amado crepúsculo de Lórien, pois colocamos o pensamento de tudo o que amamos nas coisas que fazemos. Mas são vestes, não armaduras, e não repelirão lanças ou lâminas. Mas vão servi-los bem: são leves de usar, quentes o suficiente e frescas o suficiente, conforme a necessidade. E vão encontrar nelas uma grande ajuda quando precisarem se esconder dos olhos inimigos, se andarem entre as rochas ou entre as árvores. Realmente, a Senhora os tem em alta conta! Pois ela mesma, com suas aias, teceu esse material, e nunca antes tínhamos vestido forasteiros com as roupas de nosso próprio povo!
Depois da refeição matinal, a Comitiva disse adeus ao gramado perto da fonte. Tinham um peso nos corações, pois o lugar era lindo e tinha se tornado para eles como sua própria casa, embora não fossem capazes de contar os dias e noites que passaram ali. Enquanto pararam um pouco para olhar a água cristalina sob a luz do sol, Haldir veio andando na direção deles, atravessando a relva verde da clareira. Frodo o cumprimentou com alegria.
— Estou voltando das Fronteiras do Norte — disse o elfo — e estou sendo enviado para ser o guia da Comitiva novamente. O Vale do Riacho Escuro está cheio de vapor e nuvens de fumaça, e as montanhas estão inquietas. Há rumores nas profundezas da terra. Se algum de vocês tivesse pensado em voltar para casa pelo Norte, não conseguiria passar por ali. Mas venham! Seu caminho agora é pelo Sul.
Conforme passaram através de Caras Galadhon, viram que os caminhos verdes estavam vazios; mas no alto das árvores muitas vozes murmuravam e cantavam. Eles por sua vez estavam em silêncio. Finalmente Haldir os conduziu, descendo as encostas ao Sul da colina, e chegaram outra vez ao grande portão cheio de lamparinas, e a ponte branca; assim foram passando e deixando para trás a cidade dos elfos. Então saíram da estrada pavimentada e tomaram uma trilha que entrava num denso maciço de pés de mallorn e seguia em frente, descrevendo curvas através de florestas sinuosas cobertas de sombra prateada, sempre conduzindo -os para baixo, para o Sul e para o Leste, em direção às margens do Rio.
Tinham avançado cerca de dez milhas, e o meio-dia já chegava, quando atingiram uma muralha alta e verde. Passando por uma abertura, de repente saíram da região arborizada.
Adiante se deitava um longo gramado verde, salpicado de douradas flores de elanor que reluziam ao sol. O gramado se estendia numa língua estreita entre duas margens: à direita e ao Oeste, o Veio de Prata corria brilhando; à esquerda e ao Leste, o Grande Rio rolava suas águas caudalosas, profundas e escuras.
Nas margens mais adiante, a floresta ainda prosseguia na direção Sul, até onde a vista podia alcançar, mas toda a região das margens estava vazia e desolada. Nenhum mallorn erguia seus ramos dourados além da Terra de Lórien.
Na margem do Veio de Prata, a alguma distância acima do encontro das correntezas, via-se um ancoradouro de pedras e madeiras brancas. Ali estavam ancorados muitos barcos e barcaças. Alguns estavam pintados com cores claras, e brilhavam como prata, ouro ou verde, mas a maioria deles eram brancos ou cinzentos.
Três pequenos barcos cinzentos tinham sido preparados para os viajantes, e nestes os elfos colocaram seus mantimentos. Acrescentaram também rolos de corda, três para cada barco. Pareciam finas, mas fortes, sedosas ao contato, de uma tonalidade cinzenta semelhante à dos trajes élficos.
— Que são estas coisas? — perguntou Sam, pegando uma corda que estava sobre o gramado.
— Cordas mesmo! — respondeu um elfo que estava nos barcos. — Nunca faça uma longa viagem sem uma corda! E uma corda que seja comprida, forte e leve. Estas são assim. Elas podem ser úteis em muitas ocasiões de necessidade.
— Não precisa me dizer isso! — disse Sam. — Vim sem nenhuma corda, e tenho me preocupado desde então. Mas estava perguntando do que estas são feitas, pois sei um pouco sobre a fabricação de cordas: é coisa de família, como se pode dizer.
— São feitas de hithlain — disse o elfo — mas não há tempo agora para instruí-lo na arte de sua fabricação. Se tivéssemos sabido que o ofício lhe agradava, poderíamos ter-lhe ensinado muito. Mas agora, infelizmente, a não ser que você volte aqui alguma vez, deve ficar satisfeito com nosso presente. Que seja de serventia!
— Venham! — disse Haldir. — Está tudo pronto agora para vocês. Entrem nos barcos! Mas tomem cuidado no início!
— Prestem atenção a essas palavras — disseram os elfos. — Esses barcos são de construção leve, e são espertos e diferentes dos barcos de outros povos. Não afundarão, não importa quanto os carregarem, mas são teimosos se forem mal conduzidos. Seria bom que se acostumassem a embarcar e desembarcar, aqui onde existe um ancoradouro, antes de partirem correnteza abaixo.
A Comitiva se dividiu da seguinte forma: Aragorn, Frodo e Sam num barco; Boromir, Merry e Pippin em outro, e no terceiro foram Legolas e Gimli, que tinham agora se tornado grandes amigos. Neste último colocaram a maioria dos mantimentos e das mochilas. Os barcos eram movimentados e dirigidos com remos curtos, que tinham lâminas largas em forma de folha. Quando tudo estava pronto, Aragorn os conduziu num teste, subindo o Veio de Prata. A correnteza era forte e eles avançavam devagar.
Sam ia sentado na proa, agarrado às bordas e olhando ansioso para a margem que se distanciava. A luz do sol, brilhando na água, ofuscava seus olhos. Quando passavam além do campo verde da Língua, as árvores se aproximavam da beira do rio.
Aqui e ali, folhas douradas voavam e flutuavam na correnteza ondulada. O ar estava muito claro e calmo. E tudo estava quieto, a não ser pelo canto alto e distante das cotovias.
Contornaram uma curva fechada do rio, e ali, nadando imponente e descendo a correnteza na direção deles, viram um enorme cisne. A água formava ondas dos dois lados de seu peito branco, abaixo do pescoço curvado. O bico brilhava como ouro polido e os olhos faiscavam como azeviche engastado em rochas amarelas; as enormes asas brancas estavam meio levantadas. Uma música descia o rio conforme o cisne se aproximava, e de repente perceberam que era um navio, construído e entalhado com o talento dos elfos, na forma de uma ave. Dois elfos vestidos de branco o conduziam com remos negros. Bem ao centro do navio se sentava Celeborn, e atrás dele vinha em pé Galadriel, alta e branca; uma coroa de flores douradas enfeitava-lhe os cabelos e, segurando uma harpa nas mãos, ela cantava. Triste e cristalino era o som de sua voz no ar claro e fresco.

Cantei as folhas, de ouro filhas, e, folhas vi brotar
Cantei o vento e vento veio os galhos farfalhar.
Além do Sol, da Lua além, no Mar espuma havia,
Em Ilmarin dourando a praia uma Árvore crescia.
Em Eldamar na Semprenoite com astros se ostentava.
Onde Eldamar da bela Tirion os muros encontrava.
Cresceram lá as douradas folhas nos ramos anuais,
Enquanto o pranto de elfos cai aquém de nossos cais.
Ó Lórien! Já vem o inverno, o Dia sem flor nem vida;
As folhas na água vão caindo do Rio em despedida.
Ó Lórien! Já por demais do Mar estive deste Lado,
Entrelacei em coroa murcha o elanor dourado.
Se barcos eu cantasse agora, que barco iria voltar,
Que barco me conduziria por tão vasto Mar?

Aragorn parou seu barco, enquanto o Navio-cisne se aproximava. A Senhora terminou a canção e os saudou.
— Viemos para dar-lhes nosso último adeus — disse ela — e para favorecê-los com as bênçãos de nossa terra.
— Embora tenham sido nossos hóspedes — disse Celeborn — vocês ainda não comeram conosco, e portanto convidamos a todos para um banquete de despedida, aqui, entre as águas correntes que os levarão para longe de Lórien.
O Cisne avançou lentamente até o ancoradouro, e eles viraram seus barcos para segui-lo. Ali, na extremidade de Egladil, sobre a relva verde, o banquete de despedida aconteceu; mas Frodo comeu e bebeu pouco, concentrando toda a atenção apenas na beleza da Senhora e de sua voz. Agora ela não parecia mais perigosa ou terrível, nem cheia de poderes ocultos. Já tomava, aos olhos dele, a aparência que os elfos nos últimos tempos algumas vezes têm para os homens: presente, e ao mesmo tempo remota, uma visão vivente daquilo que já foi deixado há muito para trás pelas velozes Correntezas do Tempo.
Depois que todos tinham comido e bebido, Celeborn, sentado na relva, falou-lhes de novo sobre a viagem, e, levantando a mão, apontou para o Sul, Para as florestas além da Língua.
— À medida que seguirem descendo o rio — disse ele — perceberão que as árvores vão desaparecer, e que estarão entrando numa região desolada. Ali o Rio corre num vale rochoso por entre altas charnecas, até que finalmente, depois de muitas milhas, chega à alta ilha de Rocha do Espigão, que nós chamamos de Tol Brandir. Ali ele estende seus braços ao redor das encostas íngremes da ilha, caindo então com grande estrondo e fumaça nas cataratas de Rauros, no Nindalf, o Campo Alagado, como se diz na língua de vocês. Aquela é uma região de pântanos morosos, onde o rio se torna tortuoso e muito dividido. Ali, por meio de várias desembocaduras, recebe as águas do Entágua, que vem da Floresta de Fangorn no Oeste. Às margens do Entágua, deste lado do Grande Rio, fica Rohan. Do outro lado ficam as colinas desoladas de Emyn Muil. Naquele ponto o vento sopra do Leste, pois as colinas se debruçam sobre os Pântanos Mortos e as Terras-de-Ninguém, em direção a Cirith Gorgor e aos portões negros de Mordor.
“Borornir e quem quer que o acompanhe à procura de Minas Tirith farão bem em deixar o Grande Rio acima de Rauros e cruzar o Entágua, antes que ele atinja os pântanos. Apesar disso, não devem subir muito aquele rio, nem se arriscar a ficar presos na Floresta de Fangorn. Aquela é uma terra estranha, e pouco conhecida. Mas não há dúvida de que Boromir e Aragorn não precisam desta advertência.
— Realmente ouvimos falar de Fangorn em Minas Tirith — disse Boromir. — Mas o que ouvi me parece ser, quase tudo, contos de velhas avós, como aqueles que contamos a nossas crianças. Tudo o que fica ao Norte de Rohan está agora para nós tão distante que a imaginação pode voar livremente. Há muito tempo, Fangorn fazia divisa com nosso reino, mas há muitas gerações de homens nenhum de nós visita aquela região, para poder provar se são verdadeiras ou falsas as lendas que chegaram até nós, vindas de anos longínquos.
“Eu próprio já estive algumas vezes em Rohan, mas nunca atravessei a floresta em direção ao Norte. Quando fui enviado como mensageiro, passei pelo Desfiladeiro num ponto próximo às Montanhas Brancas, e atravessei o Isen e o rio Cinzento chegando à Terra do Norte. Uma viagem longa e cansativa. Calculo que tenha viajado quatrocentas léguas, e isso levou muitos meses, pois perdi meu cavalo em Tharbad, no vau do rio Cinzento. Depois daquela viagem, e da estrada que trilhei com esta Comitiva, não duvido muito que consiga encontrar um caminho através de Rohan, e de Fangorn também, se houver necessidade.
— Então não preciso dizer mais nada — disse Celeborn. — Mas não despreze a tradição que vem de anos longínquos; talvez as velhas avós guardem na memória relatos sobre coisas que alguma vez foram úteis para o conhecimento dos sábios.
Nesse momento, Galadriel se levantou do gramado, e tomando uma taça da mão de uma de suas aias, encheu-a com hidromel branco e ofereceu-a a Celeborn.
— Agora é o momento de fazermos nosso brinde de despedida — disse ela. — Beba, Senhor dos Galadhrim! E não vamos permitir que nossos corações se entristeçam, embora a noite possa estar se aproximando e o crepúsculo já esteja chegando.
Então ofereceu uma taça a cada um da Comitiva, e propôs um brinde de boa viagem. Mas quando beberam, ordenou que se sentassem de novo na relva, e cadeiras foram colocadas para ela e para Celeborn. As aias pararam em silêncio ao seu lado, e por uns instantes ela olhou para os convidados. Finalmente, falou de novo.
— Bebemos uma taça de despedida — disse ela —, e as sombras se adensam entre nós. Mas antes que partam, trouxe em meu navio presentes que o Senhor e a Senhora dos Galadhrim agora oferecem a vocês em memória de Lothlórien.
Então chamou-os um por um.
— Aqui está o presente de Celeborn e Galadriel para o líder da Comitiva — disse ela a Aragorn, dando-lhe uma bainha feita sob medida para sua espada. Era coberta por uma gravura de flores e folhas feita em ouro e prata e que trazia inscrito, em runas élficas formadas por muitas pedras, o nome de Andúril e a linhagem da espada. — A lâmina que for retirada desta bainha não será manchada ou quebrada, mesmo na derrota — disse ela. — Mas há alguma outra coisa que deseja de mim em nossa despedida? Pois a escuridão irá nos separar, e pode ser que não nos encontremos de novo, a não ser longe daqui, numa estrada que não tem retorno.
E Aragorn respondeu:
— Senhora, conhece todos os meus desejos, e há muito tempo guarda o único tesouro que procuro. Mas ele não lhe pertence, e não poderia oferecê-lo a mim, mesmo que estivesse disposta; apenas atravessando a escuridão é que poderei chegar até ele.
— Mesmo assim, talvez isto possa aliviar seu coração — disse Galadriel — pois foi deixado aos meus cuidados para que entregasse a você, caso passasse por esta terra. — Então ela ergueu de seu colo uma grande pedra verde-clara, engastada num broche de prata, moldado na forma de uma águia com as asas abertas; ao erguê-lo, a pedra brilhou como o sol através das folhas na primavera. — Esta pedra dei a Celebrían, minha filha, e ela a sua própria filha; e agora ela chega até você como um símbolo de esperança. Assuma neste momento o nome que foi predito para você, Elessar, Pedra Élfica da casa de Elendil!
Então Aragorn pegou a pedra e fixou o broche sobre o peito, e aqueles que olhavam para ele ficaram admirados, pois não tinham ainda notado sua altura e sua postura de rei, e tiveram a impressão de que muitos anos de luta caíram de seus ombros.
— Agradeço-lhe pelos presentes que me deu — disse ele — ó Senhora de Lórien, de quem nasceram Celebrían e Arwen, Estrela da Tarde. Que maior elogio poderia eu fazer?
A Senhora curvou a cabeça, e então voltou-se para Boromir, oferecendo-lhe um cinto de ouro; a Merry e Pippin ofertou pequenos cintos de prata, cada um com uma fivela moldada na forma de uma flor de ouro. A Legolas ofereceu um arco semelhante aos usados pelos Galadhrim, mais comprido e robusto que os arcos da Floresta das Trevas, e cuja corda era feita de fios de cabelo élfico. Vinha acompanhado de um feixe de flechas.
— Para você, pequeno jardineiro e amante das árvores — disse ela a Sam — tenho apenas um pequeno presente. — Colocou na mão dele uma pequena caixa de madeira cinza, sem adornos, a não ser por uma única runa de prata sobre a tampa. — Aqui está escrito um G de Galadriel — disse ela. — Mas também pode significar “gramado” na sua língua. Esta caixa contém terra de meu pomar, e nela está a bênção que Galadriel ainda pode conceder. A terra não impedirá que você se desvie do caminho, nem irá defendê-lo de qualquer perigo; mas se a guardar e finalmente voltar a ver sua terra, então talvez possa recompensá-lo. Embora possa encontrar tudo deserto e abandonado, haverá poucos jardins na Terra Média que florescerão como o seu, se espalhar esta terra lá. Então poderá se lembrar de Galadriel, e ter uma vista distante de Lórien, que você viu apenas em nosso inverno. Porque nossa primavera e nosso verão já passaram, e nunca mais serão vistos de novo na terra, a não ser em lembranças.
Sam corou até as orelhas e murmurou qualquer coisa inaudível, enquanto agarrava a caixa e tentava fazer uma reverência.
— E que presente um anão pediria aos elfos? — perguntou Galadriel, voltando-se para Gimli.
— Nenhum, Senhora — respondeu Gimli. — A mim basta ter visto a Senhora dos Galadhrim, e ter ouvido suas gentis palavras.
— Escutem vocês todos, elfos — exclamou ela para aqueles à sua volta. — Não deixem ninguém dizer que os anões são ávidos e indelicados! Mesmo assim, com certeza Gimli, filho de Glóin, você deseja algo que eu possa ofertar. Revele seu desejo, eu lhe peço! Você não deve ser o único convidado a ficar sem um presente.
— Não quero nada, Senhora Galadriel — disse Gimli, fazendo uma grande reverência e gaguejando. — Nada, a não ser que talvez... a não ser que seja permitido pedir, não, desejar um único fio de seu cabelo, que ultrapassa o ouro da terra como as estrelas ultrapassam as gemas da mina. Não peço tal presente, mas a Senhora me ordenou que revelasse meu desejo.
Os elfos se agitaram e murmuraram atônitos, e Celeborn observou o anão admirado, mas a Senhora sorriu.
— Diz-se que o talento dos anões está em suas mãos e não em suas línguas — disse ela. — Mas não se pode dizer o mesmo de Gimli. Pois ninguém jamais me fez um pedido tão ousado, e ao mesmo tempo tão cortês. E como posso negá-lo, já que fui eu quem ordenou que ele falasse? Mas, diga-me, o que você faria com um presente desses?
— Guardá-lo-ia como uma relíquia, Senhora — respondeu ele — em memória das palavras que me disse em nosso primeiro encontro. E se eu algum dia retornar às forjas de minha terra, será colocado num cristal indestrutível, para ser a herança de minha casa e um testemunho de boa vontade entre a Montanha e a Floresta até o fim dos dias.
Então a Senhora desfez uma de suas longas tranças e cortou três fios dourados, colocando-os na mão de Gimli.
— Estas palavras acompanharão o presente — disse ela. — Não vou predizer, pois todas as predições são vãs nestes tempos: de um lado está a escuridão, e do outro só há esperança. Mas se a esperança não falhar, então digo a você, Gimli, filho de Glóin, que suas mãos vão se encher de ouro e, apesar disso, o ouro não vai dominá-lo.
— E você, Portador do Anel — disse ela voltando-se para Frodo. — Dirijo-me a você por último, embora não seja o último em meus pensamentos. Para você, preparei isto. — Ergueu um pequeno frasco de cristal: brilhava quando ela o virava em sua mão, e raios de luz branca emanavam dele. — Este frasco — disse ela — contém a luz da estrela de Eärendil engastada nas águas de minha fonte. Brilhará ainda mais quando a noite cair ao seu redor. Que essa luz ilumine os lugares escuros por onde passar, quando todas as outras luzes se apagarem. Lembre-se de Galadriel e de seu Espelho!
Frodo pegou o frasco, e por um momento, enquanto ele brilhava entre eles, viu a Senhora novamente como uma rainha, grandiosa e bela, mas não terrível. Fez uma reverência e não soube o que dizer.
Depois a Senhora se levantou, e Celeborn os conduziu de volta ao ancoradouro. Uma tarde dourada se deitava sobre a terra verde da Língua, e a água brilhava em tons de prata. Finalmente tudo ficou pronto. Os membros da Comitiva tomaram seus lugares nos barcos como antes. Gritando adeus, os elfos de Lórien, com grandes varas cinzentas, os empurraram para a correnteza, e as águas ondulantes os levaram lentamente para longe. Os viajantes estavam quietos, sem se mover ou conversar. Na margem verde próxima à Língua, a Senhora Galadriel parou sozinha e em silêncio.
Quando passaram por ela, todos se voltaram, e seus olhos observaram-na lentamente flutuando para longe deles. Pois foi essa a impressão que tiveram: Lórien estava se distanciando, como um navio claro cujos mastros eram árvores encantadas, navegando para praias esquecidas, enquanto eles sentavam-se desamparados na margem do mundo cinzento e sem folhas.
Enquanto olhavam, o Veio de Prata passou, entrando nas correntezas do Grande Rio, e os barcos viraram e começaram a tomar velocidade em direção ao Sul. Logo a forma branca da Senhora era pequena e distante. Ela brilhava como uma janela de vidro sobre uma colina ao longe no sol poente, ou como um lago remoto visto de uma montanha: um cristal caído no colo da terra. Então Frodo teve a impressão de que ela levantara o braço num último aceno, e distante, mas perfeitamente claro, vinha com o vento o som de sua voz cantando. Mas agora ela cantava na língua antiga dos elfos de além-Mar, e ele não conseguia entender as palavras: bela era a música, mas não podia consolá-lo.
Apesar disso, como acontece com as palavras élficas, estas ficaram gravadas em sua memória, e muito tempo depois ele as interpretou o melhor que pôde: a língua era a das músicas élficas, e falava de coisas pouco conhecidas na Terra Média.

Ai! lauriê lantar lassi súrinen,
Yéni únótimê ve rámar aldaron!
Yéni ve lintê yuldar avánier
mi oromardi lisse-miruvóreva
Andúnê pella, Vardo tellumar
nu luini yassen tintilar i eleni
ómaryo airetári-lírinen.
Sí man i yulman nin enquantuva?
An sí Tintallê Varda Oiolossêo
ve fanyar máryat Elentári ortanê
ar ilyê undulávê lumbulê;
ar sindanóriello caita morniê
i falmalinnar imbê met, ar hísiê
untúpa Calaciryo míri oialê
Sí vanwa ná, Rómello vantva, Valimar!
Namáriê! Nai hiruvalyê Valimar.
Nai elyê hiruva. Namárie.

“Ai, como ouro caem as folhas ao vento, longos anos inumeráveis como as asas das árvores! Os longos anos se passaram como goles rápidos do doce hidromel em salões altos além do Oeste, sob as abóbadas azuis de Varda onde as estrelas tremem na canção de sua voz, de santa e rainha. Quem agora há de encher-me a taça outra vez? Pois agora a Inflamadora, Varda, a Rainha das Estrelas, do Monte Sempre Branco ergueu suas mãos como nuvens, e todos os caminhos mergulharam fundo nas trevas; e de uma terra cinzenta a escuridão se deita sobre as ondas espumantes entre nós, e a névoa cobre as joias de Calacirya para sempre. Agora perdida, perdida para aqueles do Leste está Valimar! Adeus! Talvez hajas de encontrar Valimar. Talvez tu mesmo hajas de encontrá -la. Adeus!”
Varda é o nome da Senhora que os elfos nestas terras de exílio chamaria de Elbereth.
De repente o rio fez uma curva, e as margens se ergueram dos dois lados, e a luz de Lórien se escondeu. Àquela bela terra Frodo nunca mais voltou.


Os viajantes agora voltaram sua atenção para a viagem; o sol estava à sua frente e ofuscava seus olhos todos cheios de lágrimas. Gimli chorou abertamente.
— Olhei pela última vez para aquela que era a mais bela — disse ele a Legolas, seu companheiro. — Daqui para frente, não chamarei nada de belo, a não ser o presente que ela me deu. — Colocou a mão no peito. — Diga-me, Legolas, por que vim nesta Demanda! Mal sabia onde o maior perigo estava. Elrond estava certo quando disse que não podíamos prever o que poderíamos encontrar em nosso caminho. O tormento no escuro era o perigo que eu temia, e esse perigo não me demoveu. Mas eu não teria vindo, se soubesse do perigo da luz e da alegria. Agora, com esta despedida, sofri meu maior ferimento, e não poderia haver pior nem mesmo que eu tivesse de ir nesta noite, diretamente ao encontro do Senhor do Escuro. Pobre Gimli, filho de Glóin!
— Não — disse Legolas. — Pobres todos nós! E todos os que caminham pelo mundo nestes últimos tempos. Pois assim são os modos deste mundo: encontrar e perder, como parece àqueles cujo barco está na correnteza veloz. Mas considero você um abençoado, Gimli, filho de Glóin: pois sua perda você sofre de livre e espontânea vontade, e poderia ter escolhido outro caminho. Mas não abandonou seus companheiros, e a menor recompensa que poderá ter é que a memória de Lothlórien permaneceáa sempre viva e imaculada em seu coração, e não vai se apagar nem envelhecer.
— Talvez — disse Gimli. — E agradeço por suas palavras. Palavras verdadeiras, sem dúvida; apesar disso, todo esse consolo é frio. A lembrança não é o que deseja o coração. É apenas um espelho, mesmo que seja cristalino como Kheled-zâram. Pelo menos, é isso que sente o coração de Gimli, o anão. Os elfos podem enxergar as coisas de outra forma. Na verdade, ouvi dizer que para eles a memória e mais semelhante à realidade do que ao sonho. Não é assim para os anões. Mas deixemos de falar disso. Olhe para o barco! Está muito afundado na água com toda esta bagagem, e o Grande Rio é veloz. Não quero afogar minha tristeza em água fria. — Pegou um remo, e dirigiu o barco para a margem Oeste, seguindo o de Aragorn que ia à frente, e que já tinha saído do meio da correnteza.
Assim continuou a Comitiva em seu longo caminho, descendo as águas velozes e caudalosas, sempre levados para o Sul. Florestas nuas se erguiam nas duas margens, e eles não conseguiam ver qualquer sinal das terras que ficavam para trás.
A brisa se aquietou e o Rio corria sem qualquer ruído. Nenhuma voz de pássaro quebrava o silêncio. O sol se cobria de névoa à medida que o dia ficava velho, até brilhar no céu claro como uma pérola branca e nobre. Depois se apagou no Oeste, e o crepúsculo chegou cedo, seguido por uma noite cinzenta e sem estrelas. Para dentro das horas escuras e silenciosas eles continuaram navegando, guiando seus barcos pelas sombras das florestas do Oeste. Grandes árvores passavam como fantasmas, lançando suas raízes retorcidas e famintas através da névoa para dentro da água. A região era desolada e fria. Frodo ouvia o som apagado e borbulhante do Rio que ondulava por entre as raízes das árvores e os troncos soltos perto da margem, até que sua cabeça pendeu e ele caiu num sono agitado.

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