11 de abril de 2016

Capítulo VII - Viagem até a encruzilhada

Frodo e Sam voltaram a suas camas e ficaram ali deitados em silêncio, descansando um pouco, enquanto os homens se punham em movimento e a atividade do dia começava. Depois de um tempo trouxeram-lhes água, e então foram levados a uma mesa onde havia comida para três. Faramir quebrou o jejum com eles.
Não dormira desde a batalha no dia anterior, e mesmo assim não parecia cansado. Quando terminaram a refeição, levantaram-se.
— Que a fome não os incomode na estrada — disse Faramir. — Vocês têm poucas provisões, mas mandei colocar em suas mochilas um pequeno estoque de comida adequada para viajantes. Não lhes faltará água enquanto caminharem por Ithilien, mas não bebam de nenhum riacho que corre de Imlad Morgul, o Vale da Morte Viva. Também devo dizer-lhes isto: meus batedores e sentinelas voltaram todos, até alguns que se esgueiraram sob a vista do Morannon. Todos acham uma coisa estranha. A terra está vazia. Nada na estrada, nem sons de passos, ou de cornetas, ou de cordas de arcos se ouvem em lugar algum. Um silêncio de espera cresce acima da Terra Inominada. Não sei o que isso pressagia. Mas o tempo caminha rapidamente para alguma grande conclusão. A tempestade está chegando. Apressem-se enquanto podem! Se estão prontos, vamos. O sol vai logo subir acima da sombra.
As mochilas dos hobbits lhes foram trazidas (um pouco mais pesadas que antes), e também dois cajados de madeira polida, com ponteiras de ferro, e com cabeças esculpidas através das quais passavam correias de couro trançadas.
— Não possuo presentes adequados para lhes oferecer em nossa despedida — disse Faramir — mas recebam estes cajados. Podem ser de utilidade para os que caminham ou escalam no ermo. Os homens das Montanhas Brancas os usam, mas estes foram diminuídos para que ficassem adequados ao seu tamanho, e receberam ponteiras novas. São feitos da bela árvore lebethron, amada pelos artesãos de Gondor, e foi-lhes conferido um poder de encontrar e retomar. Que esse poder não fracasse totalmente sob a Sombra em direção à qual vocês vão!
Os hobbits fizeram uma grande reverência.
— Nobilíssimo anfitrião — disse Frodo. — Foi-me dito por Elrond Meio-elfo que eu encontraria amizade no caminho, secreta e inesperada. Certamente eu não esperava encontrar uma amizade como a demonstrada aqui. Tê-la encontrado transforma o mal num grande bem.
Agora estavam prontos para partir. Golum foi trazido de algum canto ou esconderijo, e parecia agora mais satisfeito consigo mesmo, embora se mantivesse perto de Frodo e evitasse o olhar de Faramir.
— Seu guia deverá ter os olhos vendados — disse Faramir —, mas você e seu servidor Samwise estão liberados dessa exigência, se desejarem.
Golum soltou um grito estridente, contorceu-se e se agarrou em Frodo, quando vieram para vendar-lhe os olhos; Frodo então disse:
— Cubram os olhos de nós três, e cubram os meus primeiro, e talvez ele perceba que não há nenhuma intenção de lhe fazer mal.
Isso foi feito e os três foram levados da caverna de Henneth Annûn. Depois de percorrerem os corredores e as escadas, sentiram o ar fresco da manhã, leve e suave, à sua volta. Ainda continuaram de olhos vendados por mais um tempo, subindo e depois descendo suavemente. Finalmente a voz de Faramir ordenou que as vendas fossem retiradas.
Estavam sob os galhos das árvores outra vez. Não se ouvia o ruído da cachoeira, pois uma longa ladeira que conduzia ao sul estava agora entre eles e o precipício no qual o rio corria. A oeste podiam ver a luz através das árvores, como se o mundo de repente terminasse ali, numa borda que se abria apenas para o céu.
— Aqui nossos caminhos se separam pela última vez — disse Faramir. — Se seguirem meu conselho, não rumarão para o leste já. Sigam em frente, pois assim terão a proteção da floresta por muitas milhas. A oeste há uma borda onde a terra cai dentro de grandes vales, algumas vezes de forma abrupta e íngreme, outras vezes em longas encostas. Fiquem perto das bordas e arredores da floresta. No início da jornada, poderão caminhar durante o dia, suponho eu. A terra sonha em falsa paz, e por um tempo todo o mal está afastado. Passem bem, enquanto puderem!
Então abraçou os hobbits à maneira de seu povo, abaixando-se e colocando as mãos sobre os ombros deles, e beijando-lhes as testas.
— Partam com a boa vontade de todos os homens bons! — disse ele.
Os hobbits se curvaram até o chão. Então ele se virou e sem olhar para trás deixou-os e se foi com os dois guardas que esperavam a pouca distância dali.
Frodo e Sam ficaram assombrados ao ver a rapidez com que os homens vestidos de verde se moviam agora, desaparecendo quase num piscar de olhos. A floresta onde Faramir estivera parecia vazia e melancólica, como se um sonho tivesse passado. Frodo suspirou e virou-se para o sul. Como se quisesse expressar seu pouco-caso diante de tanta cortesia, Golum estava escarafunchando na terra ao pé de uma árvore.
“Já com fome outra vez?”, pensou Sam. “Bem, lá vamos nós de novo.”
— Eles se foram finalmente? — disse Golum. — Homenss ssujos e malvados! O pescoço de Sméagol ainda está doendo, está sim. Vamos!
— Sim, vamos — disse Frodo. — Mas se você só consegue falar mal daqueles que lhe ofereceram clemência, fique quieto!
— Mestre bonzinho! — disse Golum. — Sméagol só estava brincando. Sempre perdoa, perdoa sim, é sim, mesmo as pequenas mentiras do Mestre. E sim, Mestre bonzinho, Sméagol bonzinho!
Frodo e Sam não responderam. Pegando as mochilas e segurando os cajados, entraram na floresta de Ithilien.


Duas vezes naquele dia descansaram e comeram um pouco da comida fornecida por Faramir: frutas secas e carne salgada em quantidade para muitos dias, e pão bastante para durar enquanto estivesse fresco. Golum não comeu nada.
O sol subiu e passou sobre suas cabeças sem ser visto; depois começou a descer, e a luz através das árvores a oeste ficou dourada. O tempo todo andaram na sombra fresca e verde, e tudo ao redor deles estava em silêncio. Os pássaros pareciam ter todos voado para longe ou emudecido.
A escuridão chegou cedo à floresta silenciosa, e antes do cair da noite eles pararam, cansados, pois tinham caminhado sete léguas ou mais desde Henneth Annûn. Frodo se deitou e dormiu a noite toda no chão fofo atrás de uma velha árvore. Sam, ao seu lado, estava mais inquieto: acordou várias vezes, mas em nenhuma delas viu sinal de Golum, que escapara assim que os outros se acomodaram para dormir. Se tinha dormido sozinho em algum buraco ali perto, ou se vagara sem descanso, rondando por toda a noite, não disse; mas retornou com o primeiro raio de sol, e acordou os companheiros.
— Precisa acordar, é sim, eles precisa! — disse ele. — Longos caminhos ainda a percorrer, para o sul e para o leste. Os hobbits precisam se apressar!
Aquele dia foi quase como o anterior, a não ser pelo silêncio, que parecia mais profundo; o ar ficou pesado, e começou a ficar abafado sob as árvores. Parecia que uma tempestade estava se formando. Golum frequentemente parava, farejando o ar, e nesses momentos dizia baixinho a si mesmo que deveria fazê-los caminhar com mais rapidez.
Quando o terceiro estágio da marcha do dia avançava e a tarde ia terminando, a floresta se abriu, e as árvores ficaram maiores e mais espaçadas. Grandes azevinhos com circunferências enormes se erguiam escuros e solenes em amplas clareiras, acompanhados em alguns pontos por freixos esbranquiçados e carvalhos gigantes que começavam a exibir brotos verde-amarronzados. Ao redor deles se espalhavam longos trechos de gramado verde, salpicados de celidônias e anêmonas, brancas e azuis, agora fechadas para dormir; havia também acres cheios de jacintos silvestres: seus caules lustrosos em forma de sino já apareciam através da terra. Não se via nenhuma criatura viva, animal ou pássaro, mas naqueles lugares abertos Golum sentia medo, e agora eles caminhavam com cautela, correndo de uma sombra longa para a outra. A luz estava rapidamente sumindo quando chegaram ao fim da floresta. Ali sentaram-se sob um velho carvalho nodoso que lançava suas raízes, retorcidas como cobras, através de um barranco íngreme e esburacado. Um vale profundo e escuro jazia diante deles. Do lado oposto a floresta se fechava de novo, azul e cinzenta no fim de tarde sombrio, e avançava em direção ao sul . A direita as Montanhas de Gondor reluziam, remotas no oeste, sob um céu manchado de fogo. A esquerda estava a escuridão: as altas muralhas de Mordor; da escuridão vinha o longo vale, caindo abruptamente num fosso que se alargava cada vez mais na direção do Anduin.
Lá no fundo corria um riacho veloz: Frodo podia ouvir-lhe a voz pedregosa subindo através do silêncio, e no lado mais próximo dele uma estrada se desenhava como uma fita clara, descendo até a névoa cinzenta e fria que nenhum raio do pôr-do-sol conseguia atingir. Frodo teve a impressão de divisar ao longe, flutuando como se estivessem num mar de sombras, os topos altos e apagados e os pináculos quebrados de velhas torres, arruinadas e escuras. Virou-se para Golum.
— Você sabe onde estamos? — perguntou ele.
— Sei, Mestre. Lugares perigosos. Esta é a estrada que vem da Torre da Lua, Mestre, descendo até a cidade arruinada perto das margens do Rio. A cidade arruinada, é sim, lugar muito desagradável, cheio de inimigos. Não deveríamos ter seguido o conselho dos homens. Os hobbits desviaram muito da trilha. Agora devem ir para o leste, subindo por ali. — Acenou com seu braço ossudo na direção das montanhas obscuras. — E não podemos usar esta estrada. Ah, não! Povos cruéis vêm por este caminho, descendo da Torre.
Frodo baixou os olhos até a estrada. De qualquer forma, nada se movia nela agora. Parecia solitária e abandonada, descendo até ruínas vazias na névoa. Mas havia uma sensação maligna no ar, como se seres que os olhos não podiam enxergar realmente estivessem subindo e descendo. Frodo estremeceu ao olhar outra vez os distantes pináculos que agora desapareciam na noite, e o som da água parecia frio e cruel: a voz de Morgulduin, o riacho poluído que corria do Vale dos Espectros.
— Que faremos? — disse ele. — Caminhamos muito. Devemos procurar algum lugar na floresta lá atrás onde possamos nos deitar sem sermos vistos?
— Não há bom esconderijo no escuro — disse Golum. — É de dia que os hobbits devem se esconder agora, é sim, de dia.
— Ora, vamos! — disse Sam. — Precisamos descansar um pouco, mesmo que acordemos outra vez no meio da noite. Ainda haverá horas de escuridão pela frente, tempo suficiente para você nos conduzir numa longa marcha. Se souber o caminho.
Golum concordou com relutância, e virou-se na direção das árvores, indo um pouco para o leste ao longo das bordas esparsas da floresta. Não estava disposto a descansar no chão tão próximo da estrada maligna, e depois de alguma discussão todos eles se acomodaram na forquilha de uma grande azinheira, cujos galhos grossos, saindo juntos do tronco, formavam um bom esconderijo e um refugio razoavelmente confortável.
A noite caiu e ficou totalmente escuro sob a abóbada da árvore. Frodo e Sam beberam um pouco de água e comeram uns pedaços de pão e frutas secas, mas Golum imediatamente se acomodou e adormeceu. Os hobbits não pregaram os olhos.
Devia ser um pouco mais de meia-noite quando Golum acordou: de repente viram aqueles olhos opacos brilhando na direção deles. Ficou escutando e farejando, o que parecia ser, como os hobbits já tinham notado antes, o seu método de descobrir a hora da noite.
— Estamos descansados? Dormimos um belo sono? — disse ele. — Vamos!
— Não estamos, e não dormimos — resmungou Sam. — Mas vamos se é necessário.
Golum imediatamente desceu dos galhos da árvore, caindo de quatro, e os hobbits o seguiram com mais lentidão.
Assim que desceram partiram de novo, com Golum na frente, na direção do leste, subindo a terra escura e montanhosa. Podiam enxergar pouca coisa, pois a noite era agora tão profunda que eles mal conseguiam perceber os troncos das árvores antes de esbarrarem neles. A irregularidade do terreno aumentava cada vez mais, e caminhar era mais difícil, mas Golum não parecia se incomodar de forma alguma. Conduziu-os através de moitas e restos de sarças, algumas vezes contornando a borda de uma fenda profunda ou um poço escuro, outras descendo em concavidades negras cobertas de arbustos, para depois sair delas; mas, a cada vez que desciam um pouco, a subida seguinte era mais longa e íngreme. Estavam constantemente subindo. Em sua primeira pausa olharam para trás, e mal puderam divisar o teto da floresta que tinham deixado lá embaixo, jazendo como uma vasta e densa sombra, um pedaço de noite mais escuro sob um céu escuro e vazio. Parecia haver um grande negrume assomando lentamente a leste, devorando as estrelas apagadas e indistintas. Mais tarde, a lua que descia livrou-se da perseguição de uma nuvem, mas estava completamente cercada por uma aura amarela e doentia. Finalmente Golum virou-se para os hobbits.
— Dia logo — disse ele. — Os hobbits precisam se apressar. Não é seguro ficar exposto nestes lugares. Apressem-se!
Apertou o passo, e eles o seguiram com dificuldade. Logo começaram a subir uma grande vertente. Na maior parte estava coberta com uma profusão de tojos e mirtilos, e espinheiros baixos e ásperos, embora em alguns pontos se abrissem clareiras, cicatrizes de fogueiras recentes. Os arbustos de tojo iam ficando mais frequentes conforme chegavam perto do topo; eram muito velhos e altos, magros e pernudos na base, mas espessos em cima, já mostrando flores amarelas que luziam fracamente na escuridão e exalavam um cheiro suave. Eram tão altos os arbustos espinhosos que os hobbits podiam andar eretos debaixo deles, passando através de corredores secos forrados por uma camada fofa e cheia de espinhos. Na borda oposta dessa larga lombada eles detiveram sua marcha e se arrastaram para se esconderem numa moita emaranhada de espinheiros. Os galhos retorcidos, inclinando-se até o chão, suportavam um labirinto de velhas sarças trepadeiras. No interior, bem no fundo havia um espaço vazio, com caibros formados por galhos e espinheiros mortos, e com um teto feito pelas primeiras folhas e brotos da primavera.
Deitaram-se ali durante um tempo, cansados demais para comerem; olhando através de buracos na cobertura eles esperaram pelo desabrochar lento do dia. Mas nenhum dia chegou, apenas um crepúsculo escuro e morto. No leste havia um brilho vermelho opaco sob as nuvens baixas: não era o vermelho da aurora. Além de uma extensão de terras confusas, as montanhas de Ephel Dúath franziam-lhes o cenho, negras e disformes na parte inferior onde a noite se deitava espessa e não passava, e ostentando na parte superior topos dentados e pontas nítidas e ameaçadoras projetadas contra o brilho do fogo. Mais adiante, à direita, uma grande encosta das montanhas se sobressaía, escura e negra em meio às sombras, lançando-se para o oeste.
— Para onde vamos agora? — perguntou Frodo. — E aquela a abertura do... do Vale Morgul, lá adiante, além daquela massa negra?
— Precisamos pensar nisso já? — disse Sam. — Com certeza não caminharemos mais hoje, enquanto for de dia.
— Talvez não, talvez não — disse Golum. — Mas devemos partir logo, para a Encruzilhada. É sim, para a Encruzilhada. Ali está o caminho, é sim, Mestre.
O brilho vermelho sobre Mordor se extinguiu. O crepúsculo foi ficando mais profundo enquanto grandes quantidades de vapor subiam no leste e se espalhavam acima deles. Frodo e Sam comeram um pouco e depois se deitaram, mas Golum estava inquieto. Não estava disposto a comer da comida deles, mas bebeu um pouco de água e depois se arrastou pelo lugar, sob os arbustos, farejando e resmungando. Então, de repente, desapareceu.
— Foi caçar, suponho eu — disse Sam e bocejou.
Era sua vez de dormir primeiro, e logo adormeceu profundamente. Sonhou estar de volta no jardim do Bolsão, procurando algo; mas tinha uma mochila pesada nas costas, que o fazia se abaixar. Tudo parecia cheio de capim e mato áspero. E espinhos e samambaias estavam invadindo os canteiros próximos do pé da cerca-viva.
— Tem muito serviço para mim, estou percebendo; mas estou cansado demais — ficava ele repetindo. De repente se lembrou do que estava procurando. — Meu cachimbo! — disse ele, e com isso acordou.
— Idiota! — disse ele para si mesmo, ao abrir os olhos e perguntando-se por que estava deitado sob a cerca-viva. — Esteve na sua mochila o tempo todo!
— Então percebeu, em primeiro lugar, que seu cachimbo poderia estar na mochila, mas ele não tinha fumo, e depois que estava a centenas de milhas do Bolsão. Sentou-se. Parecia estar quase escuro. Por que seu mestre havia permitido que continuasse dormindo no turno dele, direto até o anoitecer?
— O senhor não dormiu nem um pouco, Sr. Frodo? — disse ele. — Que horas são? Parece que está ficando tarde.
— Não, não está — disse Frodo. — Mas o dia está escurecendo em vez de clarear: escurecendo cada vez mais. Pelo que calculo, ainda não é meio-dia, e você só dormiu umas três horas.
— Fico pensando no que estará acontecendo — disse Sam. — Será uma tempestade se formando? Se for, será a pior que jamais houve. Desejaremos estar num buraco fundo, e não apenas enfiados embaixo de uma cerca-viva. — Parou para escutar. — O que é aquilo? Trovões ou tambores, ou o quê?
— Não sei — disse Frodo. — Está assim faz algum tempo. Algumas vezes parece que o chão treme, outras parece o ar pesado latejando em nossos ouvidos.
Sam olhou em volta.
— Onde está Golum? — disse ele. — Ainda não voltou?
— Não — disse Frodo. — Não houve nenhum sinal ou ruído dele.
— Bem, não posso suportá-lo — disse Sam. — Na verdade, nunca levei alguma coisa numa viagem que sentisse menos pesar em perder no caminho. Mas seria bem ao estilo dele, depois de todas essas milhas, sair e se perder agora, exatamente quando vamos precisar dele – quer dizer, se é que ele algum dia vai ser de alguma utilidade, o que eu duvido.
— Você está esquecendo os Pântanos — disse Frodo. — Espero que nada lhe tenha acontecido.
— E eu espero que ele não esteja preparando nenhum truque. E de qualquer forma espero que não caia em outras mãos, como se poderia dizer. Porque, se isso acontecer, logo estaremos em apuros.
Nesse momento, um ruído retumbante soou de novo, agora mais alto e profundo. O chão pareceu tremer sob os pés deles.
— Acho que já estamos em apuros, de qualquer forma — disse Frodo. — Receio que nossa jornada esteja chegando ao fim.
— Talvez — disse Sam —, mas onde há vida há esperança, como meu Feitor costumava dizer; e necessidade de comida, como ele na maioria das vezes costumava acrescentar. O senhor coma alguma coisa, Sr. Frodo. E depois vá dormir.


A tarde, como Sam supunha chamar-se aquele período, avançava.
Olhando pela cobertura eles conseguiam ver apenas um mundo pardacento, sem sombras, desaparecendo lentamente numa escuridão sem cor e sem forma. Estava abafado mas não quente. Frodo dormiu um sono inquieto, virando-se de um lado para o outro, e algumas vezes murmurando. Duas vezes Sam teve a impressão de que ele estava pronunciando o nome de Gandalf. O tempo parecia se arrastar interminavelmente. De repente Sam ouviu um chiado atrás dele, e lá estava Golum de quatro, espiando-os com olhos brilhantes.
— Acordem, acordem! Acordem, dorminhocos! — sussurrou ele. — Acordem! Nenhum tempo para perder. Devemos ir, é sim, devemos ir já. Nenhum tempo para perder!
Sam o fitou desconfiado: Golum parecia amedrontado ou excitado.
— Ir já? Qual é o seu joguinho? Ainda não está na hora. Ainda não deve ser nem hora do chá, pelo menos em lugares decentes onde existe hora do chá.
— Idiota! — chiou Golum. — Não estamos em lugares decentes. O tempo está ficando curto, é sim, passando rápido. Nenhum tempo para perder. Devemos ir. Acorde, Mestre, acorde! — Cutucou Frodo, e este, subitamente acordando de seu sono, sentou-se e o segurou pelo braço. Golum se soltou e recuou. — Não devem ser tolos — chiou ele. — Devemos ir. Nenhum tempo para perder!
E não conseguiram arrancar mais nada dele. Onde estivera, e o que julgava estar acontecendo para ficar com tanta pressa, ele não dizia. Sam estava cheio de profundas suspeitas, e demonstrou isso; mas Frodo não deu sinal do que se passava em sua mente.
Suspirou, pegou a mochila e se preparou para partir e entrar na escuridão sempre crescente.


Muito furtivamente Golum os conduziu encosta abaixo, mantendo-se sob alguma cobertura sempre que podia, e correndo, quase abaixado até o chão, através de qualquer lugar aberto; mas agora a luz estava tão fraca que mesmo um animal de olhar agudo daquela região erma mal poderia ter visto os hobbits, encapuzados, em suas capas cinzentas, nem tê-los ouvido, caminhando com a cautela das pessoas pequenas. Sem o estalido de um graveto ou o farfalhar de uma folha, eles passaram e desapareceram.
Por cerca de uma hora eles continuaram, em silêncio, em fila indiana, oprimidos pela escuridão e pela quietude absoluta do lugar, quebrada apenas de vez em quando pelo retumbar fraco, que parecia ser de um trovão distante ou de batidas de tambores em alguma concavidade das colinas. Desceram do esconderijo e depois, virando-se para o sul, foram pela trilha mais direta que Golum pôde encontrar através de uma encosta longa e irregular, que subia em direção às montanhas. De repente, não muito à frente, assomando como uma muralha negra, eles viram um cinturão de árvores. Quando se aproximaram, perceberam que eram de grande porte, muito antigas ao que parecia, e ainda se erguendo altas embora os topos estivessem esqueléticos e quebrados, como se uma tempestade e golpes de raios as tivessem castigado, mas sem conseguir matá-las ou abalar suas raízes insondáveis.
— A Encruzilhada, é sim — sussurrou Golum, as primeiras palavras ditas desde que haviam deixado o esconderijo. — Devemos ir por ali.
Virando para o leste agora, ele os conduziu encosta acima, e então, de repente, estava diante deles: a Estrada do Sul, desenhando seu caminho ao redor dos sopés externos das montanhas, até mergulhar subitamente no grande circulo de árvores.
— Este é único caminho — sussurrou Golum. — Nenhum caminho além da estrada. Nenhum caminho. Devemos ir para a Encruzilhada. Mas se apressem! Façam silêncio!
Tão furtivos como batedores dentro do acampamento inimigo, esgueiraram-se até a estrada e foram ao longo de sua borda oeste sob o barranco pedregoso, cinzentos como as próprias pedras, com os pés leves de gatos caçando.
Finalmente alcançaram as árvores, e descobriram que estavam num grande círculo descoberto, que se abria no centro para o céu sombrio; os espaços entre as imensas copas eram como grandes arcos escuros de algum palácio arruinado.
Exatamente no centro quatro caminhos se encontravam. Atrás deles estava a estrada que conduzia ao Morannon; à frente a que continuava em sua longa viagem para o sul; à direita a estrada que vinha da antiga Osgiliath, subindo e cruzando, passava para o leste e entrava na escuridão; o quarto caminho, a estrada que deviam tomar.
Parado ali por um momento, cheio de pavor, Frodo percebeu uma luz brilhando; viu-a reluzir no rosto de Sam, ao seu lado. Voltando-se em direção a ela, ele viu, além de um arco de galhos, a estrada para Osgiliath se estendendo quase reta como uma fita esticada, sempre descendo e entrando no oeste.
Lá, distante, além da triste Gondor agora subjugada pela escuridão, o sol estava descendo, encontrando finalmente a orla da grande muralha de nuvens lentas, e caindo num fogo agourento na direção do Mar ainda não poluído. A breve luz bateu num enorme vulto sentado, parado e solene como os grandes reis de pedra dos Argonath. Os anos o haviam corroído, e mãos violentas o tinham mutilado. A cabeça se fora, e em seu lugar estava colocada em arremedo uma pedra redonda e áspera, rudemente pintada por mãos selvagens à semelhança de um rosto sorridente com um grande olho vermelho no meio da testa. Sobre os joelhos e sobre a cadeira imponente, e ao redor de todo o pedestal, havia garranchos ociosos, misturados aos símbolos grosseiros usados pelos vermes que habitavam Mordor.
De repente, capturado pelos raios horizontais do sol, Frodo viu a cabeça do velho rei: rolara e jazia ao lado da estrada.
— Olhe, Sam! — disse ele, falando impelido pelo espanto. — Olhe! O rei está coroado outra vez!
Os olhos estavam vazados e a barba esculpida quebrada, mas ao redor da fronte alta e austera havia uma grinalda de ouro e prata. Uma planta rasteira com flores semelhantes a pequenas estrelas brancas se enredara através da fronte, como se em reverência ao rei caído, e nas rachaduras de seu cabelo de pedra reluziam saiões amarelos.
— Eles não podem conquistar para sempre! — disse Frodo. Então, de repente, a breve luz desapareceu. O sol afundou e sumiu e, como quando se apaga uma lamparina, caiu a noite negra.

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