2 de abril de 2016

Capítulo VII - O espelho de Galadriel


O sol se escondia por trás das montanhas, e as sombras se aprofundavam na floresta, quando a Comitiva partiu.
O caminho que trilhavam agora atravessava conjuntos de árvores onde a escuridão já havia se instalado. A noite surgia por detrás das árvores quando eles andavam, e os elfos descobriram suas lamparinas prateadas.
De repente chegaram a um espaço aberto outra vez, e se viram sob um claro céu noturno, salpicado pelas primeiras estrelas. Havia um trecho amplo e sem árvores adiante, formando um grande círculo com descidas que se estendiam de ambos os lados. Além desse espaço via-se um fosso profundo, perdido na sombra suave, mas a grama sobre sua borda era verde, como se ainda brilhasse em memória do sol que já se fora.
Mais adiante, do lado oposto, erguia -se a uma enorme altura uma muralha verde circundando uma colina verde coberta de pés de mallorn, mais altos do que quaisquer outros que eles tinham visto naquela região. Não se podia adivinhar sua altura, mas erguiam-se no crepúsculo como torres vivas. Nas numerosas camadas de galhos e por entre as folhas que sempre se agitavam, brilhavam incontáveis luzes, verdes, douradas e prateadas.
Haldir voltou-se para a Comitiva.
— Bem-vindos a Caras Galadhon! — disse ele. — Esta é a cidade dos Galadhrim, onde moram o Senhor Celeborn e Galadriel, a Senhora de Lórien. Mas não podemos entrar por aqui, pois os portões não se abrem para o Norte. Devemos dar a volta chegando pelo lado Sul, e o caminho não é curto, pois a cidade é grande.
Havia uma estrada pavimentada com pedras brancas percorrendo a borda externa do fosso. Por ali foram na direção Oeste, com a cidade sempre subindo como uma nuvem verde à esquerda; à medida que a noite ia chegando, muitas outras luzes se acendiam, até que toda a colina pareceu estar incendiada de estrelas.
Finalmente chegaram a uma ponte branca, e atravessando-a depararam com os grandes portões da cidade: abriam-se para o Sudoeste, e ficavam entre as extremidades da muralha, que ali se encontravam; eram resistentes e altos, munidos de muitas lamparinas.
Haldir bateu e falou, o que fez com que os portões se abrissem sem qualquer ruído, mas Frodo não viu nenhum sinal de guardas. Os viajantes entraram e os portões se fecharam atrás deles. Estavam numa alameda funda entre as extremidades da muralha, e avançando rapidamente por ela entraram na Cidade das Arvores. Não viram ninguém, nem escutaram o som de nenhum passo nos caminhos; mas havia muitas vozes enchendo o ar ao redor e acima deles. Mais acima, na colina, puderam escutar vozes cantando, que pareciam cair sobre as folhas como uma chuva suave.
Continuaram por muitos caminhos, e subiram muitas escadas, até que chegaram às partes altas e viram adiante, em meio a um vasto gramado, uma fonte tremeluzindo.
Estava iluminada por lamparinas prateadas penduradas aos galhos das árvores, e caía sobre um vaso de prata, do qual jorrava água cristalina.
No lado Sul do gramado subia a maior de todas as árvores; a copa lisa e grande reluzia como uma seda cinzenta; o tronco se erguia imponente até que os primeiros galhos, bem em cima, abriam seus enormes braços sob nuvens de folhas sombreadas. Ao lado ficava uma grande escada branca, e na base três elfos estavam sentados. Pularam de pé logo que viram os viajantes se aproximando, e Frodo viu que eram altos e estavam vestindo malhas metálicas cinzentas, e de seus ombros pendiam mantos longos e brancos.
— Aqui moram Celeborn e Galadriel — disse Haldir. — É o desejo deles que vocês subam para que possam conversar.
Um dos Guardas Élficos tocou então uma nota límpida numa pequena corneta, ao que uma outra respondeu em três toques que vinham lá de cima.
— Vou primeiro — disse Haldir. — Deixem que Frodo venha em seguida, e com ele Legolas. Os outros podem nos seguir na ordem em que desejarem. É uma longa subida para os que não estão acostumados com este tipo de escada, mas podem descansar durante a escalada.
Ao subir lentamente, Frodo passou por vários flets: alguns de um lado, outros na posição oposta, e outros ainda colocados na copa da árvore, de modo que a escada passava por todos eles. Numa grande altura acima do solo, deparou com um grande talan, semelhante ao convés de um grande navio. Sobre ele estava construída uma casa, tão grande que quase poderia ser utilizada como salão para homens no chão. Frodo entrou atrás de Haldir, e viu-se num cômodo de formato oval, no meio do qual crescia o tronco do grande mallorn, nesse ponto se afilando em direção a coroa, e mesmo assim formando um pilar bem largo.
O cômodo estava repleto de uma luz suave; as paredes eram verdes e prateadas, o teto era dourado. Muitos elfos estavam sentados ali. Em duas cadeiras, sob a copa da árvore e com um ramo vivo à guisa de dossel, estavam sentados, lado a lado, Celeborn e Galadriel. Levantaram-se para cumprimentar os convidados, como fazem os elfos, mesmo aqueles tidos como reis poderosos. Eram muito altos, a Senhora não menos que o Senhor; eram belos e austeros.
Usavam trajes completamente brancos; os cabelos da Senhora eram de um dourado profundo, e os do Senhor Celeborn eram longos e prateados, mas não se via nenhum sinal de idade naqueles rostos, a não ser que estivesse na profundeza dos olhares, que eram agudos como lanças sob a luz das estrelas, e apesar disso profundos: os poços de profundas recordações.
Haldir conduziu Frodo à presença deles, e o Senhor deu -lhe boas-vindas em sua própria língua. A Senhora Galadriel não disse uma palavra, mas ficou observando longamente seu rosto.
— Sente-se agora perto de mim, Frodo do Condado! — disse Celeborn. — Quando todos tiverem chegado conversaremos juntos.
Cumprimentou cada um dos companheiros de Frodo com cortesia, chamando -os pelo nome quando entravam.
— Bem-vindo, Aragorn, filho de Arathorn! — disse ele. — Somam-se trinta e oito anos do mundo lá fora desde que esteve nesta terra, e esses anos pesam muito para você. Mas o fim está próximo, seja bom seja ruim. Enquanto estiver aqui, coloque de lado o fardo que carrega!
— Bem-vindo, filho de Thranduil! Muito raramente meus parentes viajam até aqui, vindos do Norte.
— Bem-vindo, Gimli, filho de Glóin! Realmente faz muito tempo que vimos alguém do povo de Durin em Caras Galadhon. Mas hoje quebramos nossa antiga lei. Que isso possa ser um sinal de que, embora o mundo esteja escuro atualmente, melhores dias estão próximos, e de que a amizade entre nossos povos será renovada.
Gimli fez uma grande reverência.
Quando todos os convidados estavam sentados diante de sua cadeira, o Senhor olhou-os de novo.
— Aqui estão oito — disse ele. — Nove deveriam ter partido: assim diziam as mensagens. Mas talvez tenha havido alguma mudança nos planos, sobre a qual não ouvimos. Elrond está distante, e a escuridão se adensa entre nós; durante todo este ano as sombras cresceram ainda mais.
— Não, não houve nenhuma mudança nos planos — disse a Senhora Galadriel, falando pela primeira vez. Tinha uma voz límpida e musical, mas mais grave do que o habitual para uma mulher. — Gandalf, o Cinzento, partiu com a Comitiva, mas não passou as fronteiras desta terra. Agora, contem-nos onde está, pois eu desejava muito conversar com ele outra vez. Mas não posso vê-lo de longe, a não ser que entre nos limites de Lothlórien: uma grande névoa o envolve, e os caminhos de seus pés e de sua mente estão ocultos para mim.
— Infelizmente! — disse Aragorn. — Gandalf, o Cinzento, caiu na sombra, Permaneceu em Moria e não conseguiu escapar.
Ao ouvir essas palavras, todos os elfos no salão choraram de dor e surpresa.
— Essa é uma péssima notícia. A pior que já foi anunciada aqui em longos anos repletos de acontecimentos tristes. — Voltou-se para Haldir. — Por que nada disso me foi contado antes? — perguntou ele na língua dos elfos.
— Nós não conversamos com Haldir sobre nossos feitos e propósitos — disse Legolas. — Primeiro porque estávamos cansados e o perigo estava muito próximo, e depois nós quase esquecemos nossa dor por um tempo, percorrendo felizes os belos caminhos de Lórien.
— Apesar disso, nosso sofrimento é grande, e nossa perda não pode ser reparada — disse Frodo. — Gandalf era nosso guia, e nos conduziu através de Moria. Quando nossa fuga parecia impossível, ele nos salvou, e sucumbiu.
— Conte-nos agora a história inteira — disse Celeborn.
Aragorn contou então tudo o que tinha acontecido na passagem de Caradhras e nos dias que se seguiram; falou também de Balin e seu livro, e da luta na Câmara de Mazarbul, e do fogo, e da ponte estreita, e da chegada do Terror.
— Parecia um mal do Mundo Antigo, que eu nunca tinha visto antes — disse Aragorn. — Era ao mesmo tempo uma sombra e uma chama, forte e terrível.
— Era um balrog de Morgoth — disse Legolas. — A mais mortal das maldições que afligem os elfos, com exceção daquele que está na Torre Escura.
— De fato, eu vi sobre a ponte aquele que assombra nossos piores sonhos. Eu vi a Ruína de Durin — disse Gimli em voz baixa, com os olhos cheios de terror.
— Isso é muito triste! — disse Celeborn. — Há muito tempo já temíamos que existisse um terror adormecido sob Caradhras. Mas se eu soubesse que os anões tinham acordado esse mal em Moria outra vez, teria proibido que você passasse pela fronteira do Norte, você e todos os que o acompanham. E se isso fosse possível, talvez se pudesse dizer que Gandalf, no último momento da sabedoria caiu na loucura, entrando sem necessidade nas entranhas de Moria.
— Dizer isso seria realmente precipitado — disse Galadriel gravemente. — Nenhum dos feitos de Gandalf foi desnecessário em toda sua vida. Aqueles que o seguiam não sabiam o que passava pela sua cabeça e não podem prestar contas de seus propósitos. Mas o que quer que tenha acontecido com o guia, seus seguidores não têm culpa. Não se arrependa de ter dado boas-vindas ao anão. Se nosso povo estivesse exilado longe de Lothlórien há muito tempo, quem dos Galadhrim, até mesmo Celeborn o Sábio, passando perto daqui, não desejaria rever seu antigo lar, mesmo que este tivesse se tornado um covil de dragões? Escuras são as águas do Kheled-zâram, e frias são as nascentes do Kibil-nâla, e belos eram os salões cheios de pilares de Khazad-dôm nos Dias Antigos, antes que poderosos reis caíssem no seio da rocha.
Ela olhou para Gimli, que estava carrancudo e triste, e sorriu. E o anão, ouvindo os nomes ditos em sua própria língua antiga, levantou os olhos encontrando os dela, e teve a impressão de que olhou de repente para o coração de um inimigo e ali viu amor e compreensão. A admiração cobriu seu rosto, que então sorriu para ela.
Levantou-se desajeitadamente e fez uma reverência ao modo dos anões:
— Apesar disso, mais bela ainda é a terra de Lórien, e a Senhora Galadriel está acima de todas as joias que existem sobre a terra!
Fez-se silêncio. Finalmente Celebom falou de novo.
— Eu não sabia que sua situação era tão delicada — disse ele. — Que Gimli esqueça as palavras precipitadas: falei com o coração confuso. Farei o que puder para ajudá-los, a cada um de acordo com suas necessidades e desejos, mas especialmente àquele entre os pequenos que carrega o fardo.
— Sua demanda é conhecida por nós — disse Galadriel, olhando para Frodo. — Mas não conversaremos sobre ela mais abertamente neste local. Mesmo assim, talvez o fato de terem vindo até aqui procurando ajuda não terá sido em vão, e fica claro agora que esses eram os próprios propósitos de Gandalf. Pois o Senhor dos Galadhrim é considerado o mais sábio de todos os elfos da Terra Média, capaz de dar presentes acima do poder dos mais poderosos reis. Ele mora no Oeste desde os dias da aurora, e eu já morei com ele por anos sem conta; antes da queda de Nargothrond ou Gondolin, eu atravessei as montanhas, e juntos, através de eras do mundo, combatemos a longa derrota.
“Fui eu quem pela primeira vez reuniu o Conselho Branco. E se meus planos não tivessem falhado, o Conselho teria sido governado por Gandalf, o Cinzento, e então talvez as coisas tivessem acontecido de outra forma. Mas mesmo assim ainda resta esperança. Não vou lhes dar conselho, dizendo ‘façam isto’, ‘façam aquilo’. Pois não é fazendo ou planejando, nem escolhendo entre um ou outro caminho, que posso ser de ajuda; posso ajudá-los sabendo o que aconteceu e acontece e, em parte, o que vai acontecer, mas vou lhes dizer isto: sua Demanda está sobre o fio de uma faca. Desviem só um pouco do caminho, e nada dará certo, para a ruína de todos. Mas a esperança ainda permanece, enquanto toda a Comitiva for sincera.
E com essas palavras ela os segurou com seu olhar, e em silêncio ficou olhando e perscrutando cada um deles, um após o outro. Nenhum, a não ser Legolas e Aragorn, pôde suportar o olhar da Senhora por muito tempo. Sam corou rapidamente e baixou a cabeça.
Finalmente a Senhora Galadriel os liberou de seus olhos e sorriu.
— Não permitam que seus corações fiquem consternados — disse ela. — Esta noite dormirão em paz.
Então eles suspiraram e se sentiram subitamente cansados, como alguém que tivesse sido interrogado longa e detalhadamente, embora nenhuma palavra tivesse sido pronunciada.
— Podem ir agora! — disse Celeborn. — Vocês estão exaustos com tanta tristeza e de tanto caminharem. Mesmo que sua Demanda não nos interessasse muito, vocês teriam refúgio nesta Cidade, até que estivessem curados e reconfortados. Agora devem descansar, e vamos evitar de falar, por um tempo, da estrada que os espera.
Naquela noite, a Comitiva dormiu sobre o chão, para a grande satisfação dos hobbits. Os elfos ergueram para eles um pavilhão entre as árvores perto da fonte, e colocaram ali colchões macios; então, pronunciando palavras de paz com belas vozes élficas, deixaram-nos. Por alguns momentos, os hobbits conversaram sobre a noite anterior na copa das árvores e sobre a viagem daquele dia, e sobre o Senhor e a Senhora, pois ainda não tinham tido a coragem de lembrar o que tinha ficado mais para trás.
— Por que você corou, Sam? — perguntou Pippin. — Você logo desabou. Qualquer um teria pensado que você estava com a consciência pesada. Espero que não seja nada além de um plano maldito para roubar um de meus cobertores.
— Nunca pensei em nada disso — respondeu Sam, que não estava disposto para brincadeiras. — Se quer saber a verdade, eu me senti como se estivesse nu, e não gostei disso. Parecia que ela estava olhando dentro de mim e me perguntando o que eu faria se me fosse dada a chance de fugir de volta para casa no Condado, para uma toca pequena e agradável, com... com um pedaço de jardim que fosse meu.
— É engraçado — disse Merry. — Quase o mesmo que eu senti; só que, só que... bem, acho que não vou falar mais nada — acrescentou ele sem jeito.
Todos eles pareciam ter tido uma experiência semelhante: cada um sentiu que se lhe oferecia uma escolha entre uma sombra cheia de medo, que se encontrava lá na frente, e alguma coisa profundamente desejada, que se apresentava clara aos olhos do espírito, e que para tê-la bastava desviar-se da estrada e deixar a Demanda e a guerra contra Sauron para outros.
— Tive também a sensação — disse Gimli — de que minha escolha permaneceria em segredo e seria apenas de meu próprio conhecimento.
— Para mim pareceu muito estranho — disse Boromir. — Talvez tenha sido apenas um teste, e ela pensou em ler nossos pensamentos para seus próprios propósitos. Mas quase poderia dizer que ela estava nos tentando, e oferecendo o que ela fingia ter o poder de nos dar. Não é preciso dizer que me recusei a escutar. Os homens de Minas Tirith dizem palavras verdadeiras. — Mas o que ele achava que a Senhora tinha lhe oferecido, Boromir não disse.
Quanto a Frodo, não dizia nada, embora Boromir o pressionasse com perguntas.
— Ela o fitou por mais tempo, Portador do Anel — disse ele.
— Sim — disse Frodo — mas o que quer que tenha entrado em minha mente, lá deve ficar.
— Bem, tenha cuidado! — disse Boromir. — Não me sinto muito seguro a respeito dessa Senhora Élfica e de seus propósitos.
— Não fale mal da Senhora Galadriel! — disse Aragorn com severidade. — Você não sabe o que está dizendo. Não existe maldade nela ou nesta terra, a não ser que um homem o traga aqui ele mesmo. Se for assim, que ele tome cuidado! Mas esta noite poderei dormir sem medo pela primeira vez desde que deixei Valfenda. E poderei dormir profundamente, e esquecer um pouco meu sofrimento! Sinto o coração e o corpo cansados. — Jogou-se sobre seu colchão e adormeceu imediatamente, num longo sono.
Os outros logo fizeram o mesmo, e nenhum som ou sonho perturbaram seu sono. Quando acordaram, viram que a luz do dia se espalhava sobre a grama diante do pavilhão, e a fonte subia e caía, reluzindo ao sol.
Permaneceram alguns dias em Lothlórien, pelo que puderam dizer ou lembrar. Durante todo o tempo em que moraram ali, o sol brilhou intensamente, a não ser por uma chuva suave que às vezes caía e passava, deixando todas as coisas novas e limpas.
O ar era fresco e suave, como no início da primavera; apesar disso, sentiam ao redor a quietude profunda e pensativa do inverno. Tinham a impressão de que faziam pouca coisa além de comer e beber e descansar, e caminhar por entre as árvores, e isso era o suficiente.
Não tinham visto o Senhor e a Senhora outra vez, e tinham pouca conversa com os elfos, pois poucos deles sabiam ou usavam a língua Westron. Haldir lhes acenara um adeus e retornara para as fronteiras no Norte, onde uma grande guarda estava montada desde que a Comitiva trouxera as notícias sobre Moria.
Legolas estava distante, com os Galadhrim, e depois da primeira noite não dormiu com os outros companheiros, embora voltasse para comer e conversar com eles. Sempre levava Gimli consigo quando ia passear pelo lugar, e os outros ficaram surpresos com essa mudança.
Agora, quando os companheiros se sentavam ou passeavam, conversavam sobre Gandalf e tudo o que cada um tinha descoberto ou observado nele ficava claro em suas mentes.
À medida que se curavam da dor e do cansaço do corpo, o sofrimento pela perda ficava mais intenso. Frequentemente escutavam por perto vozes élficas cantando, e sabiam que eles estavam fazendo canções de pesar por sua perda, pois podiam entender o nome dele entre as doces palavras tristes que não conseguiam captar.
Mithrandir, Mithrandir, cantavam os elfos, Oh, Cinzento Peregrino! Pois assim gostavam de chamá-lo. Mas mesmo quando Legolas estava com a Comitiva, não interpretava as canções para eles, dizendo que não tinha habilidade para isso, e que para ele o sofrimento ainda era muito recente, um assunto para lágrimas e não ainda para canções.
Foi Frodo quem primeiro colocou alguma coisa de sua mágoa em palavras pausadas. Raramente sentia vontade de fazer uma canção ou uma rima; mesmo quando estava em Valfenda, tinha escutado mas não as cantava, embora sua memória estivesse repleta de muitas coisas que outros tinham feito antes dele. Mas agora, sentado ao lado da fonte de Lórien e escutando ao redor as vozes dos elfos, seu pensamento tomou forma numa canção que lhe parecia bonita; apesar disso, quando tentava repeti-la para Sam, apenas pequenos trechos permaneciam, apagados como um monte de folhas murchas.

Na noite escura do Condado seus pés se ouviram na Colina;
sem sol, sem lua partiu calado em viagem longa sibilina.
Das Terras Ermas até o Ocidente, do monte Sul ao vazio Norte,
passando por dragão ardente, na mata escura andou sua sorte.
Homens, elfos, hobbits, anões, mortais criaturas e imortais,
ave em galho, fera em grotões, interpelou com seus sinais.
O dorso curvo sob sua carga, a mão que cura, o fio da espada,
voz de clarim, do, fogo a marca, um peregrino só na estrada.
Um senhor sábio entronizado, de fácil ira e riso bom,
um velho de chapéu surrado, curvado sobre seu bordão.
De pé na ponte estava só, a Fogo e Sombra em desafio;
quebrou o bordão de encontro à mó em Khazad – dúm seufim se viu.

— Veja só, logo o senhor estará superando o Sr. Bilbo! — disse Sam.
— Não, receio que não — disse Frodo. — Mas isto é o melhor que pude fazer até agora.
— Bem, Sr. Frodo, se fizer outra tentativa, espero que diga alguma coisa sobre os fogos — disse Sam. — Alguma coisa assim: Dos fogos todos os mais lindos, em mil estrelas explodindo, após trovões com aguaceiros, caíam qual chuva de canteiros. Embora isso não faça justiça a eles, nem de longe.
— Não, vou deixar essa parte por sua conta, Sam. Ou talvez ao encargo de Bilbo... Bem, não consigo mais falar disso agora. Não consigo suportar a ideia de dar-lhe a notícia.


Uma tarde, Frodo e Sam estavam caminhando juntos no fresco crepúsculo.
Ambos se sentiam inquietos de novo. De repente, a sombra da partida havia caído sobre Frodo: sabia de alguma forma que estava bem próximo o momento de deixar Lothlórien.
— Que acha dos elfos agora, Sam? — perguntou ele. — Já lhe fiz esta mesma pergunta uma vez antes... Agora parece há muito tempo, mas desde aquela época você viu mais coisas sobre eles.
— Realmente vi — disse Sam. — E acho que existem elfos e elfos. Todos são bastante élficos, mas não são todos iguais. Agora estas pessoas não são andarilhos sem lar, e parecem um pouco mais conosco: parecem pertencer a este lugar, mais ainda que os hobbits pertencem ao Condado. Se fizeram a terra ou a terra os fez é difícil dizer, se entende o que quero dizer. Aqui tudo é maravilhosamente silencioso. Parece que nada está acontecendo, e parece que ninguém quer que nada aconteça. Se existe alguma mágica, está muito bem escondida, num lugar que não posso alcançar com as mãos, por assim dizer.
— Você pode senti-la e vê-la em todo lugar — disse Frodo.
— Bem — disse Sam — não se pode ver ninguém operando a mágica. Nenhum fogo de artifício como aqueles do pobre Gandalf. Fico surpreso em não termos encontrado o Senhor e a Senhora durante todos esses dias. Imagino agora que ela poderia fazer algumas coisas maravilhosas, se tivesse vontade. Eu adoraria ver alguma mágica élfica, Sr. Frodo.
— Eu não! — disse Frodo. — Estou satisfeito. Não sinto falta dos fogos de Gandalf, mas das suas sobrancelhas grossas, de seu humor instável, e da sua voz.
— Está certo — disse Sam. — E não pense que estou colocando defeito. Sempre quis ver um pouco de mágica como aquela que se conta nas histórias antigas, mas nunca ouvi falar de uma terra melhor que esta. É como estar em casa e de férias ao mesmo tempo, se entende o que quero dizer, Não quero partir. Mesmo assim, estou começando a sentir que, se temos de continuar, então é melhor irmos logo. O trabalho que nunca se começa é o que mais demora para terminar, como dizia meu velho pai. E não acho que este povo pode fazer muito mais para nos ajudar, seja através de mágica ou não. Acho que quando deixarmos esta terra é que sentiremos mais falta de Gandalf.
— Receio que esteja absolutamente certo, Sam — disse Frodo. — Mas espero do fundo do coração que, antes de partirmos, possamos ver a Senhora dos elfos outra vez.
No momento em que falava, os dois viram, como se viesse em resposta àquelas palavras, a Senhora Galadriel se aproximando. Alta, bela e branca, caminhava por entre as árvores. Não disse nada, mas acenou para eles.
Mudando de direção, conduziu-os para a encosta Sul da colina de Caras Galadhon, e, atravessando uma cerca-viva alta e verde, eles chegaram a um jardim fechado.
Ali não crescia nenhuma árvore e o jardim se abria para o céu. A estrela da tarde tinha subido e brilhava num fogo branco sobre a floresta do Oeste. Descendo um longo lance de escadas, a Senhora entrou numa concavidade funda e verde, através da qual corria murmurando a água prateada que jorrava da fonte na colina. Embaixo, sobre o pedestal pequeno entalhado como uma árvore cheia de ramos, ficava uma bacia de prata, larga e rasa, e ao lado dela se via um jarro de prata.
Com a água do riacho, Galadriel encheu a bacia até a borda, e soprou sobre ela; quando a água estava parada novamente, ela falou.
— Este é o Espelho de Galadriel — disse ela. — Trouxe-os aqui para que possam examiná-lo, se quiserem.
O ar estava quieto e o vale, escuro; a senhora élfica, ao lado de Frodo, era alta e pálida.
— Que vamos procurar, e o que vamos ver? — perguntou Frodo, cheio de assombro.
— Posso ordenar ao Espelho que revele muitas coisas — respondeu ela. — E para algumas pessoas posso mostrar o que desejam ver. Mas o Espelho também revelará fatos que não foram ordenados, e estes são sempre mais estranhos e compensadores do que as coisas que desejamos ver. O que você verá, se permitir que o Espelho trabalhe livremente, não posso dizer. Pois ele revela coisas já passadas, coisas que estão acontecendo, e as que ainda podem acontecer. Mas o que ele vê, nem mesmo o mais sábio pode dizer. Você deseja olhar?
Frodo não respondeu.
— E você? — disse ela, voltando-se para Sam. — Isto é o que seu povo chamaria de mágica, eu acho, embora não entenda claramente o que querem dizer, além do fato de ele usarem, ao que parece, a mesma palavra para os artifícios do Inimigo. Mas esta, se você quiser, é a mágica de Galadriel. Você não tinha dito que queria ver alguma mágica élfica?
— É sim — disse Sam, oscilando um pouco entre o medo e a curiosidade, — Vou dar uma espiada, Senhora, se me permitir.
— E eu não me importaria em dar uma olhada no que está acontecendo em casa — disse ele à parte para Frodo. — Parece que já faz um tempo terrivelmente longo que estou fora. Mas lá, provavelmente só vou ver as estrelas, ou alguma coisa que não conseguirei entender.
— Provavelmente — disse a Senhora com um sorriso suave. — Mas venha, você vai olhar e ver o que puder. Não toque na água!
Sam subiu no pedestal e se inclinou sobre a bacia. A água tinha uma aparência sólida e escura. Estrelas estavam refletidas na superfície.
— Só vejo estrelas, como já imaginava — disse ele.
Então teve um pequeno sobressalto, pois as estrelas desapareceram. Como se um véu escuro tivesse sido retirado, o Espelho ficou cinza, e depois transparente. Ali o sol brilhava e os galhos das árvores ondulavam e se agitavam ao vento. Mas antes que Sam pudesse perceber o que tinha visto, a luz se apagou; e agora ele julgava ver Frodo deitado num sono profundo sob um penhasco escuro. Então teve a impressão de estar se vendo entrar por uma passagem ensombreada, e subindo uma escada sinuosa que não tinha fim. Teve a sensação de estar procurando desesperadamente alguma coisa, mas o que era não conseguiu saber, como num sonho, a visão mudou e se transformou na anterior, e ele viu as árvores outra vez. Mas desta vez não estavam tão próximas, e Sam pôde ver o que estava acontecendo: as árvores não estavam se agitando ao vento, estavam caindo, batendo contra o chão.
— Olha só! — gritou Sam numa voz enraivecida. — Estou vendo Ted Ruivão cortando árvores, e ele não devia. Elas não devem ser derrubadas: é aquela alameda para lá do moinho que faz sombra na estrada para Beirágua. Gostaria de pegar e derrubar ele!
Mas agora Sam notava que o Velho Moinho tinha desaparecido, e um grande edifício de tijolos vermelhos estava sendo construído no lugar dele. Bandos de pessoas trabalhavam sem parar. Havia uma chaminé alta e vermelha ao lado. Uma fumaça preta pareceu cobrir a superfície do Espelho.
— Há alguma maldade sendo feita no Condado — disse ele. — Elrond sabia o que estava dizendo quando quis mandar o Sr. Merry de volta. — Então, de repente, Sam deu um grito e pulou para trás. — Não posso ficar aqui — disse ele alucinado. — Preciso ir para casa. Eles cavaram a rua do Bolsinho, e estou vendo meu pobre e velho pai descendo a Colina com suas coisas num carrinho de mão. Preciso ir para casa!
— Você não pode ir para casa sozinho — disse a Senhora. — Você não desejava ir para casa sem seu patrão, antes de olhar no Espelho, e mesmo assim sabia que coisas horríveis podiam muito bem estar acontecendo no Condado. Lembre-se de que o Espelho revela muitas coisas, e nem todas já aconteceram. Algumas nunca chegam a acontecer, a não ser que aqueles que as veem desviem de seu caminho para impedi-las. O Espelho é um guia perigoso para a ação.
Sam sentou-se no chão e cobriu o rosto com as mãos.
— Gostaria de nunca ter vindo aqui, e não quero mais ver nenhuma mágica — disse ele, e então emudeceu. Depois de um momento, falou numa voz espessa, como se lutasse contra as lágrimas. — Não, vou para casa pela estrada longa com o Sr. Frodo, ou não vou — disse ele. — Mas espero realmente voltar algum dia. Se o que vi no Espelho vier a acontecer de verdade, alguém vai pagar muito caro por isso!
— Deseja olhar, Frodo? — disse a Senhora Galadriel. — Você não queria ver nenhuma mágica élfica, e estava satisfeito.
— A Senhora me aconselha a olhar? — perguntou Frodo.
— Não — disse ela. — Não aconselho nada. Não sou uma conselheira. Você pode aprender alguma coisa e, quer as coisas que verá sejam boas quer sejam más, a visão pode ser compensadora, ou não. Ver é ao mesmo tempo bom e perigoso. Apesar disso, eu acho, Frodo, que você tem a coragem e a sabedoria suficientes para se arriscar, caso contrário não o teria trazido aqui. Faça como quiser!
— Vou olhar — disse Frodo, subindo ao pedestal e se curvando sobre a água escura. Imediatamente o Espelho ficou transparente e mostrou uma região pouco iluminada.
Montanhas assomavam escuras na distância, contra o céu pálido. Uma longa estrada cinzenta recuava, descrevendo curvas, até se perder de vista. Na distância se via uma figura, vindo lentamente pela estrada, apagada e pequena no início, mas ficando cada vez maior e mais nítida conforme se aproximava. De repente Frodo percebeu que a figura o fazia lembrar de Gandalf. Quase gritou o nome do mago, então viu que o vulto estava vestido não de cinza, mas de branco, um branco que emitia uma luz opaca no crepúsculo, e que sua mão segurava um cajado branco. A cabeça estava tão curvada que não se podia ver o rosto, e naquele momento a figura enveredou por uma curva da estrada e desapareceu da visão do Espelho. A mente de Frodo ficou cheia de dúvidas: seria uma visão de Gandalf em uma de suas longas viagens solitárias de antigamente, ou seria aquela a figura de Saruman? Depois disso a visão mudou. Numa imagem vívida, embora pequena e rápida, ele enxergou de relance Bilbo andando inquieto de um lado para o outro de seu quarto. A mesa estava carregada de papéis em desordem; uma chuva batia nas janelas. Então se fez uma pausa; depois muitas cenas rápidas se seguiram e Frodo sabia, de alguma forma, que eram partes de uma grande história na qual estava envolvido.
A névoa se desfez e ele teve uma visão que não conhecia, mas identificou imediatamente: o Mar. Escureceu. O mar se levantou e se enfureceu numa grande tempestade.
Então Frodo viu, contra o sol que afundava num vermelho-sangue em meio a um torvelinho de nuvens, o contorno negro de um navio alto com as velas rasgadas, que vinha navegando do Oeste. Depois, um rio largo correndo através de uma cidade populosa. Depois, uma fortaleza branca com sete torres. Depois, de novo, um navio com velas negras, mas agora era manhã de novo, e a água fazia ondas na luz, e uma bandeira levando o emblema de uma árvore branca brilhava ao sol. Subiu uma fumaça de fogo e batalha, e outra vez o sol se pôs num vermelho ígneo que se apagou numa névoa cinzenta; entrando na névoa passou uma pequena embarcação, piscando com muitas luzes.
Sumiu e Frodo suspirou, preparando-se para descer. Mas, de repente, o Espelho ficou totalmente escuro, como se um buraco se abrisse no mundo da visão, e Frodo olhasse no vazio. No abismo negro apareceu um único Olho que cresceu lentamente, até cobrir quase toda a extensão do Espelho. Tão terrível era aquela visão que Frodo ficou colado ao solo, sem poder gritar ou desviar o olhar. O Olho estava emoldurado por fogo, mas era ele mesmo que reluzia, amarelo como o de um gato, vigilante e atento, e a fenda negra de sua pupila era um abismo, uma janela que se abria para o nada.
Então o Olho começou a se movimentar, procurando algo de um lado e de outro, e Frodo percebeu, com medo e certeza, que ele próprio era uma das muitas coisas que estavam sendo procuradas. Mas também percebeu que não podia ser visto – por enquanto, a não ser que o desejasse. O Anel que estava pendurado na corrente em seu pescoço ficou pesado, mais pesado que uma pedra, fazendo a cabeça pender para baixo. O Espelho parecia estar ficando quente, e nuvens de vapor subiam da água. Frodo estava escorregando para frente.
— Não toque na água! — disse a Senhora Galadriel num tom suave.
A visão desvaneceu-se e Frodo se viu olhando para as estrelas frias que piscavam na bacia de prata.
Recuou tremendo e olhou para a Senhora.
— Sei o que você viu por último — disse ela —, pois está também em minha mente. Não tenha medo! Mas não pense que é apenas cantando por entre as árvores, ou só por meio de flechas frágeis e arcos élficos que nós da terra de Lothlórien nos defendemos e nos guardamos do Inimigo. Digo a você, Frodo, que neste exato momento em que conversamos eu percebo o Senhor do Escuro e sei o que se passa na mente dele, ou pelo menos tudo que se relaciona aos elfos. E ele sempre se insinua para me ver e ler meus pensamentos. Mas a porta ainda está fechada.
Levantou os braços brancos, e estendeu as mãos na direção Leste num gesto de rejeição e recusa. Eärendil , a Estrela da Tarde, a mais amada pelos elfos, emanava do céu um brilho. Tão claro era o brilho que a silhueta da Senhora Élfica lançava uma sombra apagada sobre o chão. Os raios da estrela reluziram sobre um anel em seu dedo, que cintilou como ouro polido coberto com luz prateada, e a pedra branca que havia nele piscou como se a Estrela da Tarde tivesse descido para descansar na mão dela.
Frodo olhou para o anel admirado, pois de repente teve a impressão de que compreendia tudo.
— Sim — disse ela, adivinhando o que ele pensava. — Não é permitido falar disso, e Elrond não o faria. Mas não se pode esconder do Portador do Anel, e de alguém que tenha visto o Olho. É verdade, na terra de Lórien, no dedo de Galadriel, permanece um dos Três. Este é Nenya, o Anel de Adamante, do qual sou guardiã.
“Ele suspeita, mas não sabe... ainda não. Entende agora por que sua vinda aqui representa para nós a passada do Destino? Pois, se você falhar, então seremos expostos ao Inimigo, e Lothlórien desaparecerá, e as marés do tempo a levarão embora. Partiremos para o Oeste, ou seremos reduzidos a um povo rústico de vale e caverna, para lentamente esquecermos e sermos esquecidos.
Frodo deixou cair a cabeça.
— E o que a Senhora deseja? — perguntou ele finalmente.
— Que aconteça o que deve acontecer — respondeu ela. — O amor dos elfos por sua terra e seus trabalhos é mais profundo que as profundezas do Mar, sua tristeza é eterna e nunca poderá ser completamente abrandada. Mesmo assim, jogarão tudo fora se a outra opção for a submissão a Sauron: pois agora os elfos o conhecem. Você não deve responder pelo destino de Lothlórien, mas apenas pelo desempenho de sua própria tarefa. Apesar disso, eu poderia desejar que, se isso adiantasse de alguma coisa, o Um Anel nunca tivesse sido forjado, ou que continuasse perdido para sempre.
— A Senhora Galadriel é sábia, destemida e bela — disse Frodo. — Dar-lhe-ei o Um Anel se assim o desejar. Esse peso é demais para mim.
Galadriel riu, com uma risada súbita e cristalina.
— Sábia, a Senhora Galadriel pode ser — disse ela — mas aqui ela encontrou alguém que está à sua altura em cortesia. De um modo gentil, você se vingou do teste que apliquei ao seu coração em nosso primeiro encontro. Agora começa a enxergar com olhos agudos. Não vou negar que meu coração desejou muito pedir o que está oferecendo. Por muitos longos anos, pensei o que faria, caso o Grande Anel me chegasse às mãos, e veja! Ele está agora ao meu alcance. O mal que foi concebido há muito tempo continua agindo de muitas maneiras, quer o próprio Sauron seja ou não derrotado. Não teria sido uma ação nobre a ser creditada ao Anel dele, se eu o tivesse tomado à força ou ameaçando meu hóspede?
“E agora finalmente ele chega. Você me oferece o Anel livremente! No lugar do Senhor do Escuro, você coloca uma Rainha. E não serei escura, mas bela e terrível como a Manhã e a Noite! Bela como o Mar e o Sol e a Neve sobre a Montanha! Aterrorizante como a Tempestade e o Trovão! Mais forte que os fundamentos da terra. Todos deverão me amar e se desesperar!
Levantou a mão e do anel que usava emanou uma grande luz que iluminou a ela somente, deixando todo o resto escuro. Ficou diante de Frodo e parecia agora de uma altura incalculável, e de uma beleza insuportável, terrível e digna de adoração.
Depois deixou a mão cair, e a luz se apagou; e de repente ela riu de novo e eis então que se encolheu: era uma mulher élfica frágil, vestida num traje simples e branco, cuja voz gentil era suave e triste.
— Passei pelo teste — disse ela. — Vou diminuir e me dirigir para o Oeste, continuando a ser Galadriel.
Ficaram em silêncio por um longo tempo. Finalmente a Senhora falou outra vez.
— Vamos voltar! — disse ela. — Amanhã cedo você deve partir, pois agora já fizemos nossa escolha, e as marés do tempo estão fluindo.
— Gostaria de perguntar uma coisa antes de irmos — disse Frodo. — Algo que sempre quis perguntar a Gandalf em Valtenda. Tendo a permissão de usar o Um Anel, por que não posso ver todos os outros anéis e adivinhar os pensamentos daqueles que os usam?
— Você ainda não tentou — disse ela. — Apenas três vezes colocou o Anel em seu dedo, desde que soube que o possuía. Não tente! Ele o destruiria. Gandalf não lhe disse que os anéis concedem poderes de acordo com a capacidade de cada um que os possui? Antes que você pudesse usar esse poder, sentiria a necessidade de ficar muito mais forte, e treinar sua vontade em relação ao domínio dos outros. Mas mesmo assim, como Portador do Anel e um daqueles que o colocou no dedo e viu o que está oculto, sua visão ficou mais aguçada. Percebeu meus pensamentos muito melhor que várias pessoas consideradas sábias, viu o Olho daquele que controla os Sete e os Nove. E não viu e reconheceu o Anel em meu dedo? Você viu meu anel? — perguntou ela, voltando-se para Sam.
— Não, Senhora — respondeu ele. — Para falar a verdade, estava me perguntando sobre o que conversavam. Vi uma estrela através de seu dedo. Mas, se perdoa o que vou dizer, acho que meu patrão está certo. Eu gostaria que a Senhora ficasse com o Anel dele. Poderia pôr as coisas no lugar certo. Impediria que eles expulsassem meu pai e o deixassem perdido por aí, faria com que certas pessoas pagassem pelo serviço sujo que fizeram.
— Eu faria — disse ela. — É assim que tudo começaria. Mas infelizmente não pararia ali. Não falemos mais nisso. Vamos!

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