2 de abril de 2016

Capítulo VII - Na casa de Tom Bombadil


Os quatro hobbits atravessaram a ampla soleira de pedra e depois pararam, piscando. Estavam numa sala comprida e baixa, iluminada por lamparinas penduradas às vigas do teto; sobre a mesa de madeira escura e polida queimavam muitas velas, altas e amarelas, emitindo uma luz forte.
Numa cadeira, do lado oposto à porta de entrada, estava uma mulher. Os longos cabelos loiros caíam em cachos sobre seus ombros; o vestido era verde, verde como juncos novos, salpicado de prata como gotas de orvalho; o cinto de ouro parecia uma corrente de lírios-roxos, presa por botões azuis de miosótis.
Rodeando-lhe os pés, em grandes vasilhas de cerâmica verde e azul, boiavam nenúfares brancos, e ela parecia estar num trono no centro de um lago.
— Entrem, caros convidados! — disse ela.
Ao ouvi-la falar, os hobbits reconheceram a voz cristalina que tinham ouvido cantando. Deram alguns passos tímidos adiante, e começaram a fazer reverências, sentindo-se estranhamente surpresos e desajeitados, como pessoas que, batendo à porta de uma choupana para pedir um copo de água, tivessem sido atendidas por uma jovem e bela rainha-élfica toda coberta de flores. Mas antes que pudessem dizer qualquer coisa, ela pulou por sobre os nenúfares e correu na direção deles, rindo; enquanto corria, seu vestido fazia um ruído suave, como o do vento agitando as flores à margem de um rio.
— Venham, meus queridos! — disse ela, pegando Frodo pela mão. — Vamos rir e nos divertir! Sou Fruta d’Ouro, Filha do Rio. — Então passou ligeiramente por eles para fechar a porta, dando depois as costas para a entrada, com os braços brancos abertos. — Vamos trancar a noite lá fora, pois talvez ainda estejam com medo, da neblina, das sombras das árvores, das águas profundas e das coisas hostis. Nada temam! Pois esta noite estão sob o teto de Tom Bombadil.
Os hobbits olhavam-na maravilhados; ela olhou para cada um deles, sorrindo.
— Bela senhora Fruta d’Ouro — disse Frodo finalmente, sentindo seu coração se encher de uma alegria que não conseguia entender.
Estava maravilhado como já tinha ficado em outras ocasiões, ao ouvir belas vozes élficas; mas o encanto que agora tomava conta dele era diferente: menos agudo e grandioso, mas mais profundo e próximo dos corações mortais, maravilhoso, mas não estranho.
— Bela senhora Fruta d’Ouro — disse ele de novo. — Agora a alegria escondida nas canções que escutamos se revela diante de mim.

Mais clara do que a água, esbelta qual ramo esguio!
Junco na fonte viva, linda Filha do Rio!
Na primavera e verão, na primavera prolongada!
O canto da cascata, das folhas a risada!

De repente parou, gaguejando, tomado pela surpresa de se ver dizendo essas coisas. Mas Fruta d’Ouro riu.
— Bem-vindos! — disse ela. — Nunca ouvi dizer que as pessoas do Condado pudessem dizer coisas tão doces. Mas vejo que é um amigo-dos-elfos; posso ver isso na luz dos seus olhos e no tom da sua voz. Este é um feliz encontro! Sentem-se agora, e esperem pelo Senhor da casa. Ele não vai demorar. Está cuidando de seus animais cansados.
Os hobbits, alegres, sentaram-se em cadeiras baixas de junco, enquanto Fruta d’Ouro se ocupava em pôr a mesa; os olhos deles a seguiam, pois a graça esguia de seus movimentos os enchia de um prazer sereno. De algum ponto atrás da casa, vinha o som de cantoria. Entre muitos lindas bonecas e belas nenecas e dingue-dongues não delongues, ouviam-se, repetidas vezes, as seguintes palavras: O velho Tom Bombadil é mesmo bom camarada; Azul-claro é sua jaqueta, a bota é amarelada.
— Linda senhora! — disse Frodo novamente, depois de um tempo. Diga-me, se minha pergunta não parece tola, quem é Tom Bombadil?
— Ele é — disse ela, cessando seus movimentos rápidos e sorrindo. Frodo olhou para ela curioso. — Ele é, como já viram — disse ela em resposta ao olhar de Frodo. — Ele é o Senhor da floresta, das águas e das colinas.
— Então toda esta região estranha lhe pertence?
— Na verdade não! — respondeu ela, e o sorriso que tinha no rosto desapareceu. — Isso seria um fardo pesado demais — acrescentou ela em voz baixa, como se falasse consigo mesma. — As árvores e o capim e todas as coisas que crescem ou vivem neste lugar só pertencem a si mesmas. Tom Bombadil é o Senhor. Ninguém jamais prendeu o velho Tom quando ele caminhava pela floresta, atravessava as águas, ou pulava nos topos das colinas, seja de noite, seja de dia. Ele não tem medo. Tom Bombadil é o Senhor.
Uma porta se abriu e por ela entrou Tom Bombadil. Agora estava sem chapéu, e uma coroa de folhas do outono adornava seu cabelo castanho e espesso. Riu e, dirigindo-se até Fruta d’Ouro, tomou sua mão.
— Aqui está minha bela senhora — disse ele, fazendo uma reverência diante dos hobbits. — Aqui está minha Fruta d’Ouro, toda vestida de verde-prata e com flores no cinto! A mesa está posta? Vejo creme amarelo e favos de mel, e pão branco com manteiga; leite, queijo e ervas verdes e frutas maduras. É o suficiente para nós? A ceia está pronta?
— A ceia está — disse Fruta d’Ouro — mas talvez os convidados não estejam.
Tom gritou, batendo palmas:
— Tom, Tom! Seus convidados estão cansados, e você quase tinha esquecido! Venham agora, meus alegres amigos, e Tom cuidará para que se refresquem. Vão limpar as mãos encardidas, lavar os rostos cansados, tirar as capas enlameadas e pentear os cabelos embaraçados!
Tom abriu a porta e eles o seguiram por um corredor curto que virava bruscamente. Chegaram a um quarto baixo, com teto inclinado (um puxado, ao que parecia, construído do lado norte da casa). As paredes eram de pedra lisa, mas na maior parte cobertas por cortinas e tapetes verdes e amarelos.
O chão também era de pedra, coberto com juncos verdes e novos. Havia quatro colchões macios, ao lado dos quais ficava uma pilha de cobertores brancos, colocados sobre o chão. Contra a parede oposta estava um banco comprido, cheio de grandes vasilhas de barro, e perto dele ficavam jarros cor de terra, alguns com água fria, outros com água fumegante. Ao lado de cada cama, chinelos fofos e verdes, prontos para serem usados.
Logo depois, de banho tomado e reconfortados, os hobbits estavam sentados à mesa, dois de cada lado, e nas pontas sentaram-se Fruta d’Ouro e o Senhor. Foi uma refeição longa e alegre. Embora os hobbits tenham comido como só os hobbits mais famintos sabem comer, não faltou nada. A bebida em suas vasilhas parecia água fresca e cristalina, mas entrava-lhes nos corações como vinho, libertando suas vozes. De repente, os convidados perceberam que estavam cantando alegremente, como se cantar fosse mais fácil e natural que conversar.
Finalmente Tom e Fruta d’Ouro se levantaram e tiraram a mesa rapidamente.
Ordenaram aos convidados que sentassem quietos, o que fizeram em poltronas acompanhadas de banquinhos para os pés cansados. O fogo na ampla lareira diante deles queimava com um cheiro doce, como se fosse alimentado de troncos de macieiras. Quando tudo estava em ordem, apagaram-se todas as luzes da sala, com a exceção de uma lamparina e de um par de velas, colocadas em cada um dos lados da guarda da chaminé. Então Fruta d’Ouro se aproximou deles, segurando uma vela; desejou-lhes boa noite e um sono profundo.
— Fiquem em paz agora — disse ela — até que amanheça! Não tenham medo dos ruídos noturnos! Pois nada atravessa portas ou janelas aqui, a não ser o luar e a luz das estrelas, e o vento que sopra da colina. Boa noite!
Enquanto atravessava a sala, seu vestido brilhava e farfalhava.
O som de seus passos era como o de um riacho caindo suavemente colina abaixo, sobre pedras frescas na quietude da noite.
Tom ficou por um tempo sentado em silêncio ao lado deles, enquanto cada um tentava criar coragem para fazer alguma das muitas perguntas que queriam ter feito durante a ceia. O sono congestionava-lhes as pálpebras. Finalmente Frodo falou:
— Escutou meu chamado, Senhor, ou foi só o acaso que o trouxe naquele momento?
Tom se agitou, como se tivesse sido acordado de um sonho agradável.
— O quê? — disse ele. — Se ouvi seu chamado? Não, não ouvi. Estava ocupado, cantando. Foi só o acaso que me levou até lá, se você chama isso de acaso. Não estava nos meus planos, embora eu estivesse esperando vocês. Tivemos notícias suas, e soubemos que estavam vagando pela região. Supusemos que logo desceriam até a água: todas as trilhas conduzem a esse destino, descendo até o Voltavime. O Velho Salgueiro-homem canta alto; escapar de suas garras hábeis é difícil para as pessoas pequenas. Mas Tom tinha uma missão a cumprir, da qual não podia se esquivar.
Tom abaixou a cabeça, como se o sono estivesse novamente tomando conta dele; mas continuou, numa voz suave, cantando:

Tinha um serviço a fazer – nenúfares recolher,
folhas verdes e flores brancas, pra agradar minha senhora,
os últimos deste ano, antes de o inverno chegar,
para enfeitar seus pés, até o derreter das neves.
No fim de cada verão, eu vou buscá-los pra ela,
num lago largo, lindo e claro, nas margens do Voltavime;
onde cedo na primavera e tarde abrem no verão.
À beira do lago há muitos anos, achei a Filha do Rio,
a linda e jovem Fruta d’Ouro, sentada por entre os juncos.
Doce mente então cantava e o coração batia!

Abriu os olhos e olhou para eles com um súbito brilho azul.
— E isso foi bom pra vocês; porque não mais hei de ir nas águas afundar, no meio desta floresta, durante este ano velho. Nem pretendo passar pela casa do Velho Salgueiro, no início da primavera, não até a estação feliz, quando a Filha do Rio dançando pelos caminhos vai nas águas se banhar.
Ficou em silêncio de novo; mas Frodo não conseguiu deixar de fazer mais uma pergunta: a que mais desejava ver respondida.
— Conte-nos, Senhor, sobre o Salgueiro-homem. O que é ele? Já ouvi alguma coisa a respeito antes.
— Está certo — disse o velho. — Agora está na hora de descansar. Não é bom ouvir certas coisas quando as sombras caem sobre o mundo. Durmam até amanhã cedo. Descansem sobre os travesseiros! Não temam os ruídos da noite! Não tenham medo de nenhum salgueiro cinzento! — Com isso pegou a lamparina e a apagou, e, segurando uma vela em cada mão, conduziu os hobbits até seu aposento.
Os colchões e travesseiros eram macios e fundos, e os cobertores de lã branca. Mal se deitaram nas camas fofas, puxando as leves cobertas, e já estavam dormindo.


Na calada da noite, Frodo teve um sonho sem luz. Via agora a lua nova nascendo; sob sua luz tênue aparecia diante dele uma parede negra de pedra, perfurada por um arco escuro que parecia um portão. Frodo tinha a impressão de estar sendo erguido, e passando pelo arco descobriu que a parede de pedra era um círculo de colinas, e que no centro dele ficava uma planície, no meio da qual se levantava um pináculo de pedra, semelhante a uma enorme torre, mas obra da natureza.
No topo estava a figura de um homem. A lua, galgando o céu, pareceu parar por um momento sobre a cabeça deste homem, reluzindo nos cabelos brancos que o vento agitava. Subindo da planície escura vinha o grito de vozes cruéis, e o uivo de muitos lobos. De repente, uma sombra, na forma de grandes asas, passou cobrindo a lua. A figura levantou os braços e uma luz emanou do cajado que segurava. Uma águia enorme deu um voo rasante e a carregou para longe. As vozes gemeram e os lobos uivaram se lamentando.
Um som, como de ventania, trouxe o ruído de cascos, galopando, galopando, galopando, vindo do Leste. “Cavaleiros Negros!”, pensou Frodo enquanto acordava, ainda com o som de cascos ecoando em sua cabeça. Perguntou-se então se teria coragem de abandonar a segurança daquelas paredes de pedra. Permaneceu imóvel, ainda escutando; mas tudo agora estava no mais absoluto silêncio, e finalmente ele se virou e adormeceu novamente, ou vagou em algum outro sonho do qual não se recordou depois.
Ao lado, Pippin sonhava tranquilo; mas algo mudou em seus sonhos e ele começou a se agitar e a resmungar. De repente acordou, ou pensou ter acordado; mas mesmo assim ainda escutava na escuridão o som que perturbara seus sonhos: tipe-tape, esquique: o som era como o de vento agitando galhos, dedos de árvores arranhando parede e janela: crique, crique, crique. Ficou imaginando se havia salgueiros perto da casa; e então de repente teve a terrível impressão de não estar numa casa comum, mas dentro do salgueiro e escutando aquela horrível voz chiada, rindo dele novamente. Sentou-se, e sentiu as mãos afundando nos travesseiros fofos, e então se deitou de novo, aliviado. Teve a impressão de escutar o eco das palavras: “Nada tema! Fique em paz até amanhã cedo! Não tenha medo dos ruídos noturnos!” Então adormeceu novamente.
Foi o barulho da água que Merry escutou em seu sono tranquilo: água fluindo suave, e depois se espalhando irresistivelmente por toda a volta da casa, num lago escuro e sem margens. Borbulhava sob as paredes e subia, devagar mas de um modo que não deixava dúvidas. “Vou me afogar!”, pensou ele. “A água vai penetrar as paredes e invadir a casa, e então vou me afogar.” Pareceu-lhe que estava deitado sobre um brejo lodoso, e ao se levantar colocou o pé no canto de uma pedra fria e dura que revestia o chão. Então lembrou onde estava e deitou-se novamente. Teve a impressão de escutar ou de se lembrar das palavras: “Nada atravessa estas portas e janelas a não ser o luar e a luz das estrelas, e o vento que sopra da colina.” Um pequeno sopro doce de ar moveu a cortina. Merry respirou fundo e adormeceu de novo.
Pelo que pôde se lembrar, Sam dormiu toda a noite completamente feliz, se é que as pedras ficam felizes.
Acordaram, todos os quatro de uma vez, com a luz do dia. Tom andava pelo quarto de um lado para o outro, assobiando como um passarinho. Quando os ouviu se movimentando, bateu palmas e gritou:
— Bela boneca, feliz neneca! Venham, meus queridos!
Afastou as cortinas amarelas, e os hobbits puderam então ver que elas cobriam duas janelas, dos dois lados do quarto, uma se abrindo para o leste, e a outra para o oeste.
Levantaram-se reanimados. Frodo correu para a janela leste, e se viu olhando para uma horta coberta de orvalho. De certa maneira, tinha esperado ver um terreno coberto de turfa estendendo-se até as paredes, turfa toda marcada por cascos. Na verdade, sua visão era mediada por um canteiro de pés de feijão altos, apoiados em estacas; mas acima e adiante o topo cinzento da colina assomava contra a luz do sol nascente. A manhã estava clara: a leste, atrás de compridas nuvens que pareciam fios de lã com as pontas manchadas de vermelho, brilhava uma tonalidade profunda de amarelo.
O céu anunciava chuva, mas a luz se espalhava rapidamente, e as flores vermelhas dos pés de feijão começaram a brilhar, contrastando com as folhas verdes e úmidas.
Pippin olhava, através da janela oeste, para um lago de névoa. A Floresta se escondia sob a neblina. Era como um teto de nuvens visto de cima. Havia uma vala ou canal, onde a névoa se partia em muitas ondas de plumas; o vale do Voltavime. O córrego descia pelo lado esquerdo da colina, e mergulhava nas sombras brancas. Bem próximo ficava um canteiro de flores e uma cerca-viva podada e enredada em prata; atrás da cerca via-se um gramado bem cortado, que a névoa coloria de um cinza-claro. Não se via nenhum salgueiro.
— Bom dia, alegres amigos! — gritou Tom, abrindo totalmente a janela leste. Uma brisa fresca entrou, com um cheiro de chuva. — O sol não vai mostrar sua cara hoje, eu acho. Estive andando por aí, pulando nos topos das colinas, desde o início desta aurora cinzenta, sentindo o cheiro do vento e do tempo, com capim molhado sob os pés, céu molhado sobre a cabeça. Para acordar Fruta d’Ouro, cantei embaixo da janela; mas nada acorda os hobbits de manhã cedinho. Durante a noite, as pessoas pequenas acordam em meio à escuridão, mas depois que a luz chega, continuam dormindo! Dingue-dongue não delongue! Acordem agora, meus alegres amigos! Esqueçam os ruídos noturnos. Dingue-dongue-dilo, meus queridos! Se vierem logo, encontrarão a mesa do desjejum posta. Se demorarem, só terão capim molhado e água de chuva.
Não precisou falar duas vezes – embora a ameaça de Tom não soasse muito séria – os hobbits se apressaram, e só deixaram a mesa depois de um tempo razoável, quando ela começava a parecer vazia. Nem Tom nem Fruta d’Ouro estiveram presentes. Podia-se ouvir Tom pela casa, fazendo barulho na cozinha, e subindo e descendo a escada, cantando dentro e fora. A sala dava para o oeste, debruçando-se sobre o vale coberto de névoa, e a janela estava aberta. Gotas de água pingavam dos beirais de sapé acima deles. Antes que tivessem terminado o desjejum, um teto inteiriço de nuvens se formou, e uma chuva vertical cinzenta começou a cair suave e continuamente.
Atrás dessa cortina de chuva, a Floresta ficava completamente oculta.
Ao olharem pela janela, os hobbits ouviram descendo pelo ar, como se acompanhasse a chuva vinda do céu, a voz cristalina de Fruta d’Ouro, cantando no pavimento acima deles. Quase não conseguiam entender as palavras, mas parecia claro que era uma canção de chuva, doce como o cair da água sobre topos de colinas secas; a canção contava a história de um rio, desde que minava nas montanhas até chegar ao Mar bem abaixo. Os hobbits escutavam deliciados; Frodo sentia alegria no coração, agradecendo ao tempo camarada que atrasava sua partida. A ideia de partir tinha-lhe pesado no coração desde a hora que acordara, mas agora supunha que não iriam naquele dia.
O vento alto se acalmou no oeste, e nuvens mais espessas e úmidas se formaram, para derramar sua carga de chuva nas cabeças calvas das Colinas. Não se via nada em volta da casa a não ser água caindo. Frodo parou perto da porta aberta e ficou observando a trilha caiada se transformar num pequeno rio de leite, e depois correr borbulhando até o vale. Tom Bombadil veio aos pulinhos do canto da casa, acenando com os braços como se estivesse mandando a chuva embora – e de fato, quando pulou sobre a soleira, parecia estar seco, com exceção de suas botas. Estas ele tirou e colocou no canto da chaminé. Então sentou-se na maior poltrona, chamando os hobbits para se reunirem à sua volta.
— Hoje é o dia de Fruta d’Ouro lavar tudo — disse ele. — O dia de limpeza do outono. Molhado demais para hobbits – que eles descansem enquanto podem. É um bom dia para histórias longas, e para perguntas e respostas, por isso Tom vai começar a conversa.
Contou-lhes então muitas histórias notáveis, às vezes quase como se as estivesse contando para si mesmo, outras vezes olhando-os de repente com um brilho azul no olhar, debaixo das grossas sobrancelhas. Frequentemente sua voz virava uma canção, e ele se levantava da poltrona para dançar pela sala. Contou-lhes histórias de abelhas e flores, do jeito de ser das árvores e das estranhas criaturas da Floresta, sobre coisas más e coisas boas, coisas amigas e hostis, coisas cruéis e gentis, e sobre segredos escondidos sob os arbustos espinhosos.
Conforme escutavam, os hobbits passaram a entender a vida da Floresta, separada deles; na realidade, até começaram a se sentir estranhos, num lugar onde todos os outros elementos estavam em casa. Entrando e saindo da conversa, sempre estava o Velho Salgueiro-homem, e Frodo pôde aprender o suficiente para satisfazer sua curiosidade, na verdade mais que suficiente, pois o assunto não era fácil. As palavras de Tom desnudavam o coração e o pensamento das árvores, que sempre eram obscuros e estranhos, cheios de um ódio pelas coisas que circulam livres sobre a terra, roendo, mordendo, quebrando, cortando, queimando: destruidores e usurpadores. A Floresta Velha tinha esse nome não sem motivo, pois era realmente antiga, sobrevivente de florestas vastas já esquecidas; e nela ainda viviam, com a idade das próprias colinas, os pais dos pais das árvores, relembrando o tempo em que eram senhores.
Os anos incontáveis tínham-nos enchido de orgulho e sabedoria arraigada, e também de malícia.
Mas nenhum deles era mais perigoso que o Grande Salgueiro: este tinha o coração apodrecido, mas a força ainda era verde; era habilidoso, senhor dos ventos, e sua canção e pensamento corriam a floresta dos dois lados do rio. Seu sedento espírito cinza retirou da terra o poder, que se espalhou como raízes finas no solo, e invisíveis dedos-ramos no ar, chegando a dominar quase todas as árvores da Floresta, da Cerca até as Colinas.
De repente a conversa de Tom abandonou a floresta e foi pulando, subindo pelo jovem córrego, sobre cascatas borbulhantes, sobre seixos e pedras gastas, e por entre pequenas flores no capim fechado e gretas molhadas, vagando finalmente até as Colinas. Ouviram então sobre os Grandes Túmulos e os morros verdes e os anéis de pedra sobre as colinas e nas baixadas entre as colinas. Rebanhos de ovelhas baliam. Paredes verdes e brancas se ergueram. Havia fortalezas nas alturas. Reis de pequenos reinados lutaram entre si, e o Sol jovem brilhava como fogo no metal vermelho de suas espadas novas e gananciosas. Houve vitória e derrota; torres caíram, fortalezas foram queimadas, e as chamas subiram pelo céu. Empilhou-se ouro nos ataúdes dos reis e rainhas mortos; e a terra os cobriu, e as portas de pedra se fecharam; o capim cresceu e cobriu tudo. Por um tempo, as ovelhas circularam, comendo o capim, mas logo as colinas estavam de novo desertas. Uma sombra veio de lugares distantes e escuros, e os ossos se mexeram dentro dos túmulos. Criaturas Tumulares andavam pelas cavidades com um tilintar de anéis em dedos frios e correntes de ouro ao vento. Os anéis de pedra sorriam no chão como dentes quebrados ao luar.
Os hobbits tremeram. Até no Condado, os rumores sobre as Criaturas Tumulares das Colinas dos Túmulos além da Floresta já tinham sido ouvidos. Mas essa história nenhum hobbit gostava de escutar, mesmo num lugar confortável ao lado do fogo, e bem distante. Esses quatro de repente lembraram-se das coisas que a alegria daquela casa tinha afastado de suas mentes: a casa de Tom Bombadil se aninhava bem ali, em meio àquelas terríveis colinas. Perderam o fio da história e se agitaram inquietos, olhando uns para os outros, Quando voltaram a acompanhar as palavras de Tom, perceberam que ele tinha enveredado por estranhas regiões além de suas memórias e de seu pensamento consciente, para tempos em que o mundo era mais vasto, e os mares fluíam direto para a Praia do ocidente; Tom ainda se movia de um lado para o outro, cantando luzes de estrelas antigas, de uma época em que apenas os ancestrais dos elfos estavam acordados. Então, de repente, parou, e eles viram que sua cabeça caía, como se estivesse adormecendo.
Os hobbits continuaram quietos diante dele , encantados; parecia que, como se sob o encanto de suas palavras, o vento tivesse ido embora e as nuvens tivessem secado, o dia se retirava, com a escuridão vinda do leste e do oeste, e todo o céu ficou repleto da luz de estrelas brancas.
Frodo não sabia dizer se havia passado ali a manhã e a tarde de um dia ou de muitos dias. Não se sentia faminto ou cansado, apenas maravilhado. As estrelas brilhavam através da janela e o silêncio do céu parecia estar por toda a sua volta.
Finalmente falou, saindo de seu encantamento, com um medo repentino daquele silêncio.
— Quem é o Senhor? — perguntou ele.
— O quê? — disse Tom, ajeitando-se na poltrona, os olhos brilhando na escuridão. — Ainda não sabe meu nome? Esta é a única resposta. Diga-me, quem é você, sozinho e sem nome? Mas você é jovem e eu sou velho. Mais ancião, é o que sou. Vejam bem, meus amigos: Tom Bombadil já estava aqui antes do rio e das árvores; Tom se lembra da primeira gota de chuva e do primeiro broto de árvore. Fez trilhas antes das pessoas grandes, e viu o povo pequeno chegando. Já estava aqui antes dos Reis e dos túmulos e das Criaturas Tumulares. Quando os elfos passaram para o oeste, Tom já estava, antes de os mares serem encurvados. Conheceu o escuro sob as estrelas quando não havia medo – antes de o Senhor do Escuro chegar de Fora.
Uma sombra pareceu passar pela janela, e os hobbits olharam rapidamente naquela direção. Quando se viraram de novo, Fruta d’Ouro estava na porta atrás deles, emoldurada de luz. Segurava uma vela, protegendo a chama com a mão contra a corrente de ar, e a luz fluía através dela, como flui a luz do sol através de uma concha branca.
— A chuva passou — disse ela — e novas águas correm colina abaixo, sob as estrelas. Vamos rir e nos alegrar.
— E vamos comer e beber! — gritou Tom. — Histórias compridas são sedentas, e escutá-las é um trabalho que dá fome, de manhã, à tarde e à noite!
Com isso pulou da poltrona, e com um movimento do corpo pegou uma vela da guarda da chaminé, acendendo-a na chama que Fruta d’Ouro segurava; então dançou em volta da mesa. De repente, atravessou a porta pulando e desapareceu.
Logo voltou, trazendo uma bandeja grande e carregada. Tom e Fruta d’Ouro puseram a mesa; os hobbits ficaram sentados, ao mesmo tempo encantados e rindo: pela extrema beleza e graça de Fruta d’Ouro e pela alegria e esquisitice das cabriolagens de Tom. Contudo, parecia que de alguma maneira eles dançavam a mesma dança, nenhum atrapalhando o outro, os dois entrando e saindo e circulando em volta da mesa; rapidamente, comida, vasilhas e luzes foram colocadas em ordem. A madeira refletia a luz das velas, brancas e amarelas. Tom fez uma reverência diante dos convidados.
— A ceia está pronta! — disse Fruta d’Ouro; e os hobbits então puderam ver que ela estava vestida de prateado, com um cinto branco, e seus sapatos pareciam de escama de peixe. Mas Tom estava todo de azul-claro, o azul de miosótis recém-banhados pela chuva, e usava meias verdes.
A ceia foi ainda melhor que a anterior. Os hobbits, sob o encantamento das palavras de Tom, poderiam ter perdido uma ou muitas refeições, mas com a comida diante deles parecia que não comiam havia pelo menos uma semana. Não cantaram e nem falaram por um período, prestando muita atenção ao que estavam fazendo. Mas depois de algum tempo, seus corações e espíritos se elevaram novamente, e suas vozes soaram com jovialidade e alegria.
Depois de comerem, Fruta d’Ouro cantou varias canções para eles, canções que começavam alegremente nas colinas e desciam suaves até o silêncio; e durante o silêncio, eles viam em suas mentes lagos e águas mais amplos do que jamais tinham visto, e olhando para esses lagos viam o céu sob seus pés, e as estrelas como joias nas profundezas. Então, ela desejou-lhes boa-noite mais uma vez, deixando-os perto da lareira. Mas agora Tom parecia totalmente acordado, e os cobriu de perguntas.
Parecia já saber muito sobre eles e suas famílias, e na verdade também sobre toda a história e afazeres do Condado, desde os tempos que os próprios hobbits mal lembravam.
Isso não os surpreendeu, mas Tom não escondeu que seu conhecimento se devia, em grande parte, ao velho Magote, aparentemente mais importante do que eles tinham imaginado.
— Há terra sob seus velhos pés, e barro em seus dedos; sabedoria nos ossos, e ele tem os dois olhos abertos — disse Tom.
Também ficou claro que Tom tinha relações com os elfos, e parecia que, de algum modo, notícias da fuga de Frodo tinham chegado até ele através de Gildor.
E de fato, tanto sabia Tom, e tão habilidosas eram suas perguntas, que Frodo se viu contando a ele mais sobre Bilbo, e suas próprias esperanças e temores do que jamais contara a alguém, até mesmo a Gandalf.
— Mostre-me o precioso Anel! — disse ele de repente, em meio à história: e Frodo, para a própria surpresa, puxou a corrente do bolso, e soltando dela o Anel, entregou-o imediatamente a Tom.
O Anel pareceu crescer por um momento naquela grande mão morena. Então, de repente, Tom ergueu-o na altura dos olhos e riu. Por um segundo os hobbits tiveram uma visão, cômica e alarmante, de seu olho azul brilhando através do círculo de ouro. Depois Tom colocou o Anel na ponta de seu dedo mínimo, levando-o para perto da luz da vela. Por um momento, os hobbits não perceberam nada de estranho a respeito disso. Então ficaram pasmos. Nenhum sinal de Tom desaparecer.
Tom riu de novo, e jogou o Anel para os ares – e ele sumiu num clarão.
Frodo soltou um grito – e Tom se inclinou para frente, devolvendo o Anel com um sorriso.
Frodo examinou-o de perto, com grande suspeita (como alguém que tivesse emprestado uma joia a um ilusionista). Era o mesmo Anel, ou parecia ser o mesmo, com o mesmo peso: pois Frodo sempre tivera a impressão de que aquele Anel pesava na mão de modo estranho. Mas algo o forçava a se certificar. Talvez estivesse um pouquinho zangado com Tom, por dar tão pouca importância ao que até Gandalf considerava tão perigosamente importante. Esperou pela oportunidade, quando a conversa continuava, e Tom estava contando uma história absurda sobre os texugos e seus estranhos hábitos – nesse momento, colocou o Anel.
Merry virou-se para ele para dizer alguma coisa e levou um susto, contendo uma exclamação. Frodo estava deliciado (de certo modo): era mesmo o seu Anel, pois Merry olhava estupefato para a poltrona, e obviamente não conseguia enxergá-lo. Frodo se levantou e andou em silêncio, da lareira até a porta de entrada.
— Você aí! — gritou Tom, olhando em direção a ele com um olhar de quem enxerga perfeitamente: — Ei! Venha, Frodo! Aonde você está indo? O velho Tom Bombadil ainda não está tão cego assim. Tire seu Anel de ouro. Sua mão fica mais bonita sem ele. Volte! Largue dessa brincadeira e sente-se de novo ao meu lado! Temos de conversar um pouco mais, e pensar sobre amanhã cedo. Tom precisa lhe ensinar a estrada certa, para evitar que se perca.
Frodo riu (tentando se sentir satisfeito), e tirando o Anel voltou e se sentou de novo. Tom agora dizia que achava provável que o sol aparecesse no dia seguinte, e que a manhã seria alegre, e que poderiam ter boas esperanças ao partir.
Mas deviam ir cedo; pois o tempo naquela região era uma coisa sobre a qual nem mesmo Tom tinha certeza, e algumas vezes mudava antes que ele pudesse trocar de jaqueta.
— Não sou o senhor do tempo — disse ele — bem como não o é nenhum ser de duas pernas.
Seguindo seus conselhos, decidiram rumar o máximo possível para o norte saindo da casa, sobre as encostas mais baixas do lado oeste das Colinas: dessa forma, poderiam ter esperanças de alcançar a Estrada Leste num dia de viagem, e evitar os Túmulos. Tom disse que não tivessem medo mas que cuidassem de suas próprias obrigações.
— Não saiam do capim verde. Não vão se misturar com pedras velhas ou com as criaturas geladas, nem se intrometer em suas casas, a não ser que sejam pessoas fortes, com corações que nada temem! — disse isso mais de uma vez e aconselhou-os a passar pelos Túmulos do lado oeste, se por acaso se aproximassem de um deles. Então ensinou-lhes uma rima para cantar, se por azar ficassem em perigo ou n’algum tipo de dificuldade no dia seguinte.

Ei! Tom Bombadillo, Tom Bombadil!
Na mata ou na colina ou junto à margem do rio,
No fogo, ao sol e à lua, ouve agora nossa voz!
Vem, Tom Bombadil, que no aperto estamos sós!

Depois de cantarem isso juntos, Tom deu tapinhas nos ombros de cada um deles com um sorriso, e levando as velas, conduziu-os de volta para o quarto.

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