17 de abril de 2016

Capítulo VII: Das Silmarils e da inquietação dos Noldor

Naquela época foram feitas as coisas que mais tarde alcançaram maior renome entre todas as obras dos elfos. Pois Fëanor, atingindo seu poder máximo, foi dominado por uma nova ideia, ou talvez lhe tivesse ocorrido alguma sombra de presságio do triste destino que se acercava. E ele se perguntava como a luz das Árvores, a glória do Reino Abençoado, poderia manter-se imperecível. Começou, então, um trabalho longo e secreto, para o qual recorreu a todo o seu conhecimento, seu poder e sua habilidade sutil. E, ao final de tudo, fez as Silmarils.
Como três magníficas pedras preciosas eram elas na forma. Mas não antes do Fim, quando retornará Fëanor, que pereceu antes que o Sol fosse criado, e agora está sentado nos Palácios da Espera e não surge mais entre seus parentes; somente depois que o Sol passar, e a Lua cair, será conhecido de que substância elas eram feitas. Aparentemente do cristal dos diamantes e, no entanto, mais duras do que ele, de tal modo que nenhuma violência pudesse danificá-las ou quebrá-las no Reino de Arda. Contudo, esse cristal estava para as Silmarils como o corpo para os Filhos de Ilúvatar: a morada do fogo interior, que se encontra dentro dele e, ainda assim, em todas as suas partes; e que é sua vida. E o fogo interior das Silmarils, Fëanor criou a partir da fusão da luz das Árvores de Valinor, que ainda sobrevive nas joias, embora as Árvores já há muito tenham definhado e não brilhem mais. Portanto, mesmo na escuridão do cofre mais profundo, as Silmarils brilhavam com luz própria, como as estrelas de Varda; e, no entanto, como se de fato fossem seres vivos, elas se deleitavam na luz e a recebiam e refletiam em matizes mais maravilhosos do que antes.
Todos os que moravam em Aman ficaram maravilhados e se deleitavam com a obra de Fëanor.
E Varda consagrou as Silmarils, para que dali em diante nenhuma carne mortal, nem mãos impuras, nem nada de mau, pudesse tocá-las, que não se queimasse e murchasse. E Mandos previu que os destinos de Arda, da terra, do mar e do ar estavam dentro delas. O coração de Fëanor apegou-se profundamente a essas gemas que ele próprio havia criado.
E então Melkor cobiçou as Silmarils, e a mera lembrança de seu brilho era um fogo a lhe corroer o coração. Daquela época em diante, instigado por esse desejo, ele buscou, cada vez mais avidamente, um meio de destruir Fëanor e encerrar a amizade entre os Valar e os elfos; mas disfarçou seus objetivos com astúcia, e nenhuma malignidade podia ser vislumbrada no semblante que ele apresentava. Por muito tempo dedicou-se ele a esse trabalho, e a princípio lentos e estéreis eram seus esforços. Contudo, quem semeia mentiras no final não deixará de ter sua colheita; e em breve poderá descansar da labuta enquanto outros vão colher e semear em seu lugar. Melkor sempre encontrava ouvidos que lhe dessem atenção, e algumas línguas que aumentassem o que haviam escutado; e suas mentiras passaram de amigo a amigo, como segredos cujo conhecimento demonstra a sabedoria de quem os revela. Amargo foi o preço pago pelos noldor, nos tempos que se seguiram, pela tolice de manter os ouvidos abertos.
Quando via que muitos se inclinavam em sua direção, Melkor costumava caminhar entre eles; e, em meio a suas belas palavras, eram entremeadas outras, com tanta sutileza, que muitos daqueles que as ouviam, ao procurar se lembrar, acreditavam terem elas brotado de seu próprio pensamento. Ele fazia surgirem visões em seus corações dos esplêndidos reinos que eles poderiam ter governado por si mesmos, em poder e liberdade, no leste; e então se espalharam rumores de que os Valar teriam atraído os eldar para Aman em decorrência de sua inveja, temendo que a beleza dos quendi e o poder criador que Ilúvatar lhes havia transmitido crescessem tanto, que os Valar não pudessem mais controlá-lo, à medida que os elfos crescessem e se espalhassem pelas terras do mundo.
Naquela época, além disso, embora os Valar soubessem de fato da chegada dos homens, que ocorreria, os elfos nada sabiam a respeito; pois Manwë não lhes havia feito essa revelação.
Melkor, porém, falou-lhes em segredo dos homens mortais, percebendo que o silêncio dos Valar poderia ser distorcido. Pouco sabia ele, ainda, dos homens, pois, absorto em seu próprio pensamento, na Música, prestara pouquíssima atenção ao Terceiro Tema de Ilúvatar; mas agora corriam entre os elfos rumores de que Manwë os mantinha cativos, para que os homens pudessem chegar e suplantá-los nos territórios da Terra Média, pois os Valar consideravam que poderiam influenciar com maior facilidade essa raça mais fraca e de vida curta, privando os elfos da herança de Ilúvatar. Pouca verdade havia nisso; e raramente os Valar chegaram a tentar influenciar a vontade dos homens; mas muitos dos noldor acreditaram, ou acreditaram em parte, nessas palavras nefastas.
Assim, antes que os Valar percebessem, a paz de Valinor estava envenenada. Os noldor começaram a resmungar contra eles, e muitos se encheram de orgulho, esquecendo-se de que grande parte do que possuíam e conheciam lhes chegara como presente dos Valar. Ardia com maior violência a nova chama do desejo de liberdade e de territórios mais vastos no coração impaciente de Fëanor; e Melkor ria em segredo, pois era esse o alvo ao qual se dirigiam suas mentiras, já que odiava Fëanor acima de todos e sempre cobiçara as Silmarils. Dessas, porém, não lhe era permitido aproximar-se. Pois, embora em grandes comemorações Fëanor as usasse, refulgentes sobre a testa, em outras ocasiões elas eram guardadas em segurança, trancadas nas câmaras profundas de seus tesouros em Tirion. De fato, Fëanor começara a amar as Silmarils com um amor ganancioso, ressentindo-se de que qualquer um as visse, à exceção do pai e de seus sete filhos. Agora raramente se lembrava de que a luz das pedras não era propriedade sua.
Nobres príncipes eram Fëanor e Fingolfin, os filhos mais velhos de Finwë, respeitados por todos em Aman; mas agora eles se haviam tornado orgulhosos, e cada um sentia ciúme de seus direitos e de seus bens. E então Melkor espalhou novas mentiras em Eldamar, e rumores chegaram aos ouvidos de Fëanor, dizendo que Fingolfin e seus filhos estavam tramando usurpar a liderança de Finwë e da linha primogênita de Fëanor, para suplantá-los, com a permissão dos Valar; pois aos Valar desagradava que as Silmarils estivessem em Tirion, e não confiadas à sua guarda. Já para Fingolfin e Finarfin foi dito: —Cuidado! Pouco amor já teve um dia o orgulhoso filho de Míriel pelos filhos de Indis. Agora ele se tornou importante, e tem o pai sob seu domínio. Não vai demorar muito para ele expulsar vocês de Túna! E, quando Melkor viu que as mentiras se inflamavam, e que o orgulho e a raiva haviam despertado entre os noldor, ele lhes falou de armas. E foi nessa época que os noldor começaram a forjar espadas, machados e lanças. Também fizeram escudos, exibindo os símbolos das muitas casas e clãs que competiam entre si. Somente estes eles usavam em público, e de outras armas não falavam, pois cada um acreditava que somente ele havia recebido o aviso. E Fëanor construiu uma forja secreta, que nem mesmo Melkor conhecia; e ali temperou espadas cruéis para si e para os filhos, além de criar elmos altos, com plumas vermelhas. Lamentou amargamente Mahtan o dia em que ensinara  o marido de Nerdanel todo o conhecimento de metais que havia aprendido com Aulë.
E assim, por meio de mentiras, rumores maldosos e conselhos falsos, Melkor atiçou os corações dos noldor para a luta; e de suas contendas, com o tempo, resultou o fim dos belos dias de Valinor e o crepúsculo de sua glória antiquíssima. Pois Fëanor começava agora a falar abertamente em rebelião contra os Valar, proclamando alto e bom som que partiria de Valinor de volta para o mundo de fora e livraria os noldor da escravidão, se eles quisessem segui-la.
Houve então enorme inquietação em Tirion, o que perturbou Finwë. E ele convocou todos os senhores seus súditos para uma reunião. Fingolfin, porém, apressou-se a chegar a seus palácios e parou diante dele.
— Rei e pai, não queres reprimir o orgulho de nosso irmão, Curufinwë, que é chamado, com muito acerto, de Espírito de Fogo? Com que direito ele fala por todo o nosso povo, como se fosse Rei? Foste tu que há muito tempo falaste aos quendi, pedindo-lhes que aceitassem a convocação dos Valar para vir a Aman. Foste tu que conduziste os noldor pela longa estrada, superando os perigos da Terra Média até a luz de Eldamar. Se não te arrependes agora do que fizeste, tens pelo menos dois filhos que honram tuas palavras.
Mas no momento exato em que Fingolfin falava, Fëanor entrou no salão, e estava totalmente armado: com o elmo na cabeça e uma poderosa espada de lado. — Quer dizer que é mesmo como imaginei — disse ele. — Meu meio-irmão prefere estar antes de mim com meu pai neste assunto, como em qualquer outro.
Voltando-se então contra Fingolfin, ele sacou a espada e gritou: — Vai embora, e ocupa teu devido lugar!
Fingolfin fez uma reverência a Finwë e, sem dizer palavra ou olhar na direção de Fëanor, saiu do salão. Fëanor, entretanto, o acompanhou, detendo-o à porta da casa do rei; e tocou o peito de Fingolfin com a ponta de sua espada brilhante.
— Vê, meu meio-irmão! Esta é mais afiada do que tua língua. Tenta, uma vez mais que seja, usurpar meu lugar e o amor de meu pai, e pode ser que ela livre os noldor de alguém que procura ser o senhor de escravos.
Essas palavras foram ouvidas por muitos, já que a morada de Finwë ficava na grande praça aos pés da Mindon. Mais uma vez, porém, Fingolfin não deu resposta e, passando pela multidão em silêncio, foi procurar Finarfin, seu irmão.
Ora, a inquietação dos noldor na realidade não passava despercebida aos Valar, mas sua semente havia sido plantada na escuridão. Portanto, como Fëanor fora o primeiro a falar abertamente contra eles, os Valar julgaram que ele fosse o instigador da insatisfação, por serem notórias sua teimosia e arrogância, embora todos os noldor se houvessem tomado orgulhosos. E Manwë sentiu grande dor, mas vigiava sem dizer palavra. Os Valar haviam trazido os eldar para sua terra em liberdade, para que ficassem ou partissem; e, embora pudessem considerar a partida uma insensatez, os Valar não poderiam impedi-los de ir embora. Agora, os atos de Fëanor não poderiam ser ignorados, e os Valar estavam irritados e consternados. E Fëanor foi convocado a se apresentar diante deles junto aos portões de Valmar, para responder por suas palavras e seus atos. Foram também convocados todos os outros que haviam tido qualquer participação na questão, ou qualquer conhecimento dela. E Fëanor, parado diante de Mandos no Círculo da Lei, recebeu ordens de responder a tudo o que lhe fosse perguntado. Então, afinal, foi desnudada a raiz e revelada a influência perniciosa de Melkor. E imediatamente Tulkas deixou o conselho para ir buscá-lo e trazê-lo mais uma vez a julgamento. Fëanor, porém, não foi considerado livre de culpa, pois fora ele quem desrespeitara a paz de Valinor, tendo puxado a espada contra alguém de sua própria família, e Mandos lhe disse: — Tu falas de escravidão. Se for mesmo escravidão, não podes escapar a ela; pois Manwë é Rei de Arda, e não apenas de Aman. E esse ato foi contrário às leis, seja em Aman, seja em outra parte.
Portanto, a sentença está agora decidida: por doze anos deixarás Tirion, onde a ameaça foi feita.
Durante esse período, reflete em teu íntimo e lembra-te de quem és e do que és. Após esse prazo, essa questão estará resolvida e considerada reparada se os outros te desobrigarem.
— Eu desobrigo meu irmão — disse então Fingolfin. Fëanor, porém, não disse palavra em resposta, permanecendo parado em silêncio diante dos Valar. Em seguida, deu meia-volta, saiu do conselho e partiu de Valmar.
Com ele, para o exílio, foram seus sete filhos; e ao norte de Valinor construíram, nas montanhas, uma fortaleza provida de cofres. Ali, em Formenos, grande quantidade de pedras preciosas foi acumulada, assim como armas, e as Silmarils foram trancadas numa câmara de ferro. Para lá também foi Finwë, o Rei, pelo amor que sentia por Fëanor. E Fingolfin governou os noldor em Tirion. Assim, tornaram-se aparentemente realidade as mentiras de Melkor, embora Fëanor, por seus próprios atos, tivesse provocado esses acontecimentos. E o rancor que Melkor havia semeado perdurou, estendendo-se ainda por muito tempo entre os filhos de Fingolfin e os de Fëanor.
Ora, Melkor, sabendo que seus expedientes haviam sido revelados, escondeu-se, passando de um lugar a outro como uma nuvem nas colinas. E Tulkas procurou por ele em vão. Pareceu então ao povo de Valinor que a luz das Árvores estava mais fraca, e que as sombras de tudo o que estivesse em pé ficavam mais longas e mais escuras nessa época.
Diz-se que por um tempo Melkor não mais foi visto em Valinor, nem se ouviu rumor algum dele, até que de repente chegou a Formenos e falou com Fëanor diante de suas portas. Amizade simulou ele com argumentos astuciosos, incitando Fëanor a seu pensamento anterior de fugir às peias dos Valar; e ele disse: — Vê a verdade de tudo o que eu falei, e como foste banido injustamente. Porém, se o coração de Fëanor ainda é livre e audaz, como foram suas palavras em Tirion, então eu o ajudarei e o levarei para longe desta terra estreita. Pois não sou eu também um Vala? Sim, e mais do que aqueles que se sentam em majestade em Valimar; e sempre fui amigo dos noldor, o mais habilidoso e valente dos povos de Arda.
Ora, o coração de Fëanor ainda estava magoado com a humilhação perante Mandos; e ele olhou para Melkor em silêncio, ponderando se na realidade poderia ainda confiar nele a ponto de permitir que o auxiliasse em sua fuga. E Melkor, vendo que Fëanor hesitava e sabendo que seu coração era presa das Silmarils, disse afinal: — Este é um lugar seguro e bem guardado; mas não penses que as Silmarils estejam em segurança em nenhum cofre dentro do reino dos Valar! Sua astúcia ultrapassou, porém, o objetivo. Suas palavras tocaram muito fundo e despertaram um fogo mais ameaçador do que o projetado. E Fëanor contemplou Melkor com olhos que atravessaram em chamas seu semblante enganoso e penetraram nos recônditos de sua mente, percebendo ali sua feroz cobiça pelas Silmarils. Então o ódio suplantou o medo de Fëanor, e ele amaldiçoou Melkor, mandando que se fosse dali.
— Sai já de meus portões, tu, prisioneiro de Mandos! — E bateu as portas de sua casa no nariz do mais poderoso de todos os que habitavam Eä.
Melkor partiu, então, envergonhado, pois ele próprio estava em perigo, e não vislumbrava ainda a hora de sua vingança. Mas seu coração estava obscurecido pelo ódio. E Finwë foi tomado de um medo imenso; e apressado mandou mensageiros a Manwë, em Valmar.
Ora, os Valar estavam reunidos em conselho diante dos portões, temendo o alongamento das sombras, quando chegaram os mensageiros de Formenos. De imediato, Oromë e Tulkas se levantaram, mas, no momento em que iam partir em perseguição, chegaram mensageiros de Eldamar, dizendo que Melkor havia fugido pela Calaciry a, e que, do morro de Túna, os elfos o haviam visto passar irado, como uma nuvem de tempestade. E disseram que dali ele se dirigira para o norte, pois os teleri em Alqualondë haviam visto sua sombra passar por seu porto, na direção de Araman
Assim, Melkor partiu de Valinor e, durante algum tempo, as Duas Árvores voltaram a brilhar sem sombras, e a terra esteve cheia de luz. Os Valar procuraram em vão notícias do inimigo. E, como uma nuvem muito ao longe que se avoluma cada vez mais, trazida por um vento frio e lento, uma dúvida agora estragava a alegria de todos os moradores de Aman, o temor de um mal desconhecido, que ainda poderia surgir.

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