24 de abril de 2016

Capítulo VII - A caminho de casa

Finalmente os hobbits voltavam seus rostos na direção de casa.
Estavam agora ansiosos por ver de novo o Condado, mas no início cavalgaram devagar, pois Frodo sentira-se mal. Quando chegaram ao Vau do Bruinen ele parou, relutando em atravessar a água; os outros notaram que por um tempo seus olhos pareciam alheios a eles e às coisas ao redor. Durante todo aquele dia, Frodo ficou em silêncio. Era o dia seis de outubro.
— Você está sentindo dores, Frodo? — perguntou Gandalf numa voz baixa, cavalgando ao seu lado.
— Bem, estou — disse Frodo. — É meu ombro. O ferimento dói, e a lembrança da escuridão pesa sobre mim. Está fazendo um ano hoje.
— É lamentável, mas há certos ferimentos que não podem ser totalmente curados — disse Gandalf.
— Temo que esse possa ser o meu caso — disse Frodo. — Não existe um retorno de verdade. Embora eu possa voltar, o Condado não será o mesmo, pois eu não serei o mesmo. Fui ferido por faca, ferrão e dente, sem falar no fardo que carreguei por tanto tempo. Quando poderei descansar?
Gandalf não respondeu.


Ao fim do dia seguinte a dor e a inquietação tinham passado, e Frodo estava alegre de novo, alegre como se não se lembrasse da escuridão do dia anterior.
Depois daquilo, a viagem transcorreu bem, e os dias se passaram depressa; eles cavalgavam com tranquilidade, e frequentemente se demoravam nos belos bosques onde as folhas estavam vermelhas e amarelas ao sol do outono. Por fim atingiram o Topo do Vento; a noite se aproximava, e a sombra da colina deitava-se escura sobre a estrada.
Então Frodo pediu aos outros que se apressassem e, negando-se a olhar na direção da colina, atravessou sua sombra com a cabeça curvada e cobrindo-se com a capa. Naquela noite o tempo mudou, e do oeste chegou um vento carregado de chuva, que soprou ruidoso e frio, fazendo as folhas amarelas rodopiarem no ar como pássaros.
Quando chegaram à Floresta Chet os galhos já estavam quase nus, e uma grande cortina de chuva os impedia de ver a Colina Bri.
Foi assim que, quase ao final de uma noite bravia e molhada dos últimos dias de outubro, os cinco viajantes subiram a estrada íngreme e chegaram ao Portão Sul de Bri. Estava bem trancado, e a chuva batia-lhes nos rostos; no céu escuro nuvens baixas passavam correndo, e eles se sentiram um pouco frustrados, pois esperavam uma recepção mais calorosa.
Depois de muito chamarem, o porteiro saiu, e eles viram que ele trazia na mão um grande porrete. Fitou-os com medo e desconfiança, mas quando viu que Gandalf estava ali e que seus companheiros eram hobbits, apesar das estranhas vestes, alegrou-se e deu-lhes as boas-vindas.
— Entrem! — disse ele, destrancando o portão. — Não vão ficar esperando notícias aqui fora, no frio e na chuva, nesta noite tumultuada. Mas não há dúvida de que o velho Cevado vai lhes dar as boas-vindas no Pônei, e lá vocês poderão ouvir tudo o que há para ouvir.
— E lá vocês vão ouvir tudo o que vamos contar, ou mais até — disse Gandalf rindo. — Como está Harry?
O porteiro fez uma careta.
— Foi embora — disse ele. — Mas é melhor perguntarem ao Cevado. Boa noite!
— Boa noite para você! — disseram eles passando pelo portão; notaram então que atrás da cerca-viva, ao lado da estrada, fora construído um barraco comprido, de onde vários homens saíram para observá-los por sobre a cerca. Quando se aproximaram da casa de Bill Samambaia, viram que a cerca-viva estava danificada e abandonada, e todas as janelas estavam lacradas com tábuas.
— Será que você o matou com aquela maçã, Sam? — disse Pippin.
— Não sou tão otimista, Sr. Pippin — disse Sam. — Mas gostaria de saber o que aconteceu àquele pobre pônei. Pensei nele muitas vezes, e nos lobos uivando e tudo mais.
Por fim chegaram ao Pônei Saltitante, que pelo menos externamente parecia o mesmo; havia luzes por trás das cortinas vermelhas nas janelas inferiores. Tocaram a campainha, e Nob veio atender a porta, abrindo apenas uma fresta e espiando por ela; quando os viu parados sob a lamparina, soltou um grito de surpresa.
— Senhor Carrapicho! Mestre! — gritou ele. — Eles voltaram!
— Ah, é, voltaram é? Já vou lhes dar uma lição — veio a voz de Carrapicho, que saiu correndo, com um bastão na mão. Mas, quando viu quem eram, parou de repente, e a expressão carregada em seu rosto transformou-se em surpresa e alegria. — Nob, seu miolo mole idiota! — gritou ele. — Você não consegue chamar os velhos amigos pelo nome? Não devia ficar me assustando desse jeito, nos tempos de hoje. Bem, bem! E de onde vocês vêm vindo? Jamais esperava ver qualquer um de vocês de novo, não esperava mesmo: indo para as Terras Ermas com o tal de Passolargo, e com todos aqueles Homens Negros à solta. Mas estou muito feliz em vê-los outra vez, sobretudo Gandalf! Entrem! Entrem! Os mesmos quartos de antes? Estão desocupados. Na verdade, a maioria dos quartos estão desocupados nos últimos tempos, e isso não vou esconder de vocês, pois logo verão com seus próprios olhos. E vou ver o que se pode fazer a respeito da ceia, o mais rápido possível; atualmente estou com falta de empregados. Ei, Nob, seu lesma! Diga ao Bob! Ah, mas estou esquecendo, Bob se foi: agora ele vai embora para casa quando anoitece. Bem, leve os pôneis dos hóspedes para os estábulos, Nob! E não duvido de que você mesmo vai levar o seu cavalo, Gandalf! Um belo animal, como eu disse a primeira vez que pus os olhos nele. Bem, entrem! Fiquem à vontade!
O Sr. Carrapicho não mudara absolutamente seu modo de falar, e ainda parecia continuar no mesmo corre-corre de sempre. Apesar disso, quase não se via ninguém, e tudo estava quieto; da sala de estar chegava o murmúrio baixo de no máximo duas ou três vozes. O rosto do proprietário, visto a menor distância e sob a luz de duas velas que ele acendera para iluminar-lhes o caminho, parecia bastante enrugado e marcado pela preocupação.
Conduziu-os pelo corredor até a sala que tinham usado naquela estranha noite mais de um ano atrás, e eles o seguiram um pouco ansiosos, pois parecia claro para todos que o velho Cevado estava enfrentando algum problema sério. As coisas não eram como antes.
Mas não disseram nada e esperaram.
Como já adivinhavam, o Sr. Carrapicho veio até a sala após a ceia para ver se tudo estivera a contento. E realmente estivera: nenhuma mudança para pior ocorrera, pelo menos em se tratando da cerveja ou da comida d'O Pônei.
— Não vou me atrever a sugerir que venham até a sala de estar esta noite — disse Carrapicho. — Vocês devem estar cansados, e de qualquer modo não há muita gente hoje. Mas, se puderem me conceder meia hora antes de irem dormir, eu gostaria imensamente de conversar um pouco com vocês, uma conversa só entre nós.
— É exatamente o que estamos querendo também — disse Gandalf. — Não estamos cansados. Fizemos uma viagem tranquila. Estávamos molhados, com frio e fome, mas tudo isso você resolveu. Venha, sente-se! E, se tiver um pouco de fumo, ficaremos agradecidos.
— Bem, se tivessem pedido qualquer outra coisa, eu teria ficado mais contente — disse Carrapicho. — Essa é justamente uma coisa que anda escassa por aqui, uma vez que só temos o fumo que cultivamos, e isso não é suficiente. Não se consegue nem um pouco do Condado atualmente. Mas vou ver o que posso fazer.
Quando voltou trouxe-lhes fumo suficiente para um ou dois dias, um rolo de folhas inteiras.
— Borda do Sul — disse ele —, é o melhor que temos; mas não se compara ao fumo da Quarta Sul, como eu sempre digo, embora eu esteja sempre a favor de Bri na maioria das coisas, sem querer ofendê-los.
Acomodaram-no numa grande poltrona perto do fogo, e Gandalf sentou-se do outro lado da lareira, ficando os hobbits em cadeiras baixas entre os dois; então conversaram por várias meias horas, e trocaram todas as notícias que o Sr. Carrapicho quis ouvir ou dar. A maioria das coisas que os viajantes tinham a dizer simplesmente causavam surpresa e desconcerto no anfitrião, que nem podia imaginá-las; as novidades provocavam poucos comentários além de um “Não diga!”, que o Sr. Carrapicho frequentemente repetia num desafio à evidência dos seus próprios ouvidos.
— Não diga!, Sr. Bolseiro, ou será que devo chamá-lo de Sr. Monteiro? Estou ficando tão confuso. Não diga, Mestre Gandalf! Nunca imaginei! Quem teria pensado numa coisa dessas nos dias de hoje! Mas ele também disse muita coisa a seu respeito. As coisas não iam nada bem, dizia. O negócio não estava nem satisfatório, estava para lá de ruim. Ninguém de Fora se aproxima de Bri — disse ele. — E as pessoas daqui ficam a maior parte do tempo em casa, com as portas cerradas. Isso tudo por causa daqueles forasteiros e vagabundos que começaram a chegar pelo Caminho Verde no ano passado, como vocês devem se lembrar; mais deles vieram depois. Alguns não passavam de pobres coitados fugindo de problemas, mas a maior parte era de homens maus, ladrões traiçoeiros. E houve confusão bem aqui em Bri, coisa séria. É sim, tivemos um combate de verdade, e algumas pessoas foram assassinadas, assassinadas! Vocês acreditam?
— Acredito sim — disse Gandalf. — Quantas?
— Três e duas — disse Carrapicho, referindo-se às pessoas grandes e às pequenas. — O pobre Mat Urzal, e Rowlie Macieira e o pequeno Tom Espinheiro, do outro lado da Colina; e Willie Ladeira, lá de cima, e um dos Monteiros de Estrado: todos bons camaradas, dos quais sentimos a falta. E Harry Barba-de-Bode, que costumava ficar no Portão Oeste, junto com aquele Bill Samambaia, os dois passaram para o lado dos forasteiros, e foram embora com eles; e acredito que foram esses dois que deixaram os outros entrar. No dia da luta, quero dizer. E isso foi depois que nós lhes mostramos o caminho da rua e os expulsamos: antes do final do ano, foi sim; e a luta foi no início do Ano Novo, depois da forte nevasca.
“E agora se transformaram em ladrões, e moram fora, escondidos nas florestas além de Archet, e nas terras selvagens ao norte. Eu digo que até parece coisa dos maus tempos de antigamente que as histórias contam. A estrada não é segura e ninguém se afasta muito; as pessoas se fecham cedo em suas casas. Temos de manter vigias ao redor de toda a cerca e colocamos um monte de homens sobre os portões à noite.
— Bem, ninguém nos incomodou — disse Pippin —, e nós viemos devagar, sem manter vigilância. Pensamos ter deixado os problemas para trás.
— Ah, não deixaram mesmo, mestre, e é uma grande lástima — disse Carrapicho. — Mas não me admira que os deixaram em paz. Não atacariam pessoas armadas, com espadas, capacetes, escudos e tudo mais. Pensariam duas vezes, sem dúvida. E devo dizer que fiquei um pouco surpreso quando os vi.
Os hobbits então perceberam de repente que as pessoas os tinham olhado assustadas não tanto pela surpresa de sua volta, mas pelas estranhas vestes que usavam.
Eles mesmos tinham-se acostumado tanto à guerra e a cavalgarem em comitivas bem ordenadas que se tinham esquecido de que a malha brilhante aparecendo por baixo de suas capas, os capacetes de Gondor e da Terra dos Cavaleiros, e as belas insígnias em seus escudos pareceriam esquisitas em sua própria terra.
O mesmo valia para Gandalf, que agora cavalgava em seu altivo cavalo cinzento, todo vestido de branco com um grande manto azul e prateado cobrindo o corpo, trazendo consigo a longa espada Glamdring.
Gandalf riu.
— Bem, bem — disse ele —; se eles têm medo de apenas cinco de nós, então encontramos inimigos piores em nossas viagens. Mas de qualquer modo vão deixá-los em paz durante a noite, enquanto ficarmos aqui.
— E por quanto tempo ficarão? — perguntou Carrapicho. — Não vou negar que ficaríamos felizes em tê-los aqui por um tempo. Você pode entender, não estamos acostumados a esse tipo de problema, e os guardiões foram todos embora, pelo que me dizem. Acho que só agora entendemos direito o que eles faziam por nós. Pois houve coisa pior que ladrões por aqui. Lobos ficaram uivando ao redor das cercas no inverno passado. E há vultos escuros nas florestas, seres terríveis que fazem o sangue congelar só de se pensar neles. Foi tudo muito perturbador, se vocês me entendem.
— Acho que foi — disse Gandalf. — Houve perturbação em toda parte ultimamente, muita perturbação. Mas alegre-se, Cevado! Você esteve à beira de problemas muito sérios, e fico feliz em saber que não se envolveu mais neles. Mas tempos melhores estão chegando. Talvez melhores do que qualquer tempo que você possa recordar. Os guardiões retornaram. Voltamos com eles. E há um rei de novo, Cevado. Logo ele estará pensando neste lugar.
“Então o Caminho Verde se abrirá de novo, e os mensageiros dele virão para o norte, e haverá idas e vindas, e os seres malignos serão expulsos das terras ermas. Na verdade, com o tempo não haverá mais terras ermas, e haverá gente e campo onde antes só havia desertos.
O Sr. Carrapicho balançou a cabeça.
— Se houver algumas pessoas decentes e respeitáveis na estrada, isso não trará mal algum — disse ele. — Mas não queremos mais gentalha e rufiões. Não queremos forasteiros em Bri, e nem perto de Bri. Queremos ficar em paz. Não quero uma multidão de forasteiros acampando aqui e se acomodando ali e rasgando a terra virgem.
— Vocês vão ficar em paz, Cevado — disse Gandalf. — Há espaço suficiente para vários reinos entre o Isen e o rio Cinzento, ou ao longo da margem sul do Brandevin, sem que ninguém precise morar num raio de muitos dias de cavalgada de Bri. E muita gente costumava morar lá no norte, a cem milhas ou mais daqui, na outra extremidade do Caminho Verde: nas Colinas Norte, ou junto ao lago Vesperturvo.
— Lá em cima, perto do Fosso dos Mortos? — perguntou Carrapicho, cada vez mais incrédulo. — Dizem que aquele lugar é assombrado. Só um ladrão iria para lá.
— Os guardiões vão lá — disse Gandalf. — Fosso dos Mortos, você diz. Assim foi chamado por muitos anos; mas o nome verdadeiro, Cevado, é Fornost Brain, Cidadela do Norte dos Reis. E o rei irá até lá algum dia, e então vocês verão belas pessoas passando por aqui.
— Bem, isso soa melhor, devo admitir — disse Carrapicho. — E será bom para os negócios, sem dúvida. Contanto que ele deixe Bri em paz.
— Ele vai deixar sim — disse Gandalf. — O rei conhece Bri, e ama este lugar.
— Ele conhece mesmo? — disse Carrapicho com uma expressão intrigada. — Embora não tenha certeza, não vejo por que ele deveria conhecer, sentado em seu trono em seu grande castelo, a centenas de milhas de distância. E bebendo vinho numa taça de ouro, não me espantaria. Que significa O Pônei para ele, ou canecas de cerveja? Não que a minha cerveja não seja boa, Gandalf. Tem sido de rara qualidade desde que você veio, no outono do ano passado, e disse uma palavra boa sobre ela. E isso tem sido um consolo em meio a tantos problemas, devo admitir.
— Ah! — disse Sam. — Mas ele diz que a sua cerveja sempre foi boa.
— Ele diz?
— Claro que diz. Ele é Passolargo. O chefe dos guardiões. Isso ainda não entrou em sua cabeça?
Entrou finalmente, e o rosto de Carrapicho transformou-se em espanto puro. Os olhos no seu rosto largo ficaram redondos, e sua boca escancarada.
— Passolargo! — exclamou ele, quando recuperou o fôlego. — Ele de coroa e tudo mais com uma taça de ouro! Pois bem, aonde vamos chegar?
— A tempos melhores, para Bri de qualquer modo — disse Gandalf
— Espero que sim, com certeza — disse Carrapicho. — Bem, esta foi a melhor conversa que tive em muito e muito tempo. E não vou negar que vou dormir mais tranquilo esta noite, com o coração mais leve. Vocês me deram muita coisa em que pensar, mas vou deixar isso para amanhã. Vou dormir, e não tenho dúvida de que vocês ficarão felizes em fazer o mesmo. Ei, Nob! — chamou ele, indo até a porta. — Nob, seu lesma! Agora! — disse ele consigo mesmo, batendo na testa. — Agora, de que isso me faz lembrar?
— Não de outra carta que o senhor esqueceu, Sr. Carrapicho, espero eu — disse Merry.
— Ora, ora, Sr. Brandebuque, não fique me fazendo lembrar disso! Mas olhe só, o senhor interrompeu meu pensamento. Onde eu estava? Nob, estábulos, ah!, é isso. Tenho uma coisa que pertence a vocês. Lembram-se de Bill Samambaia, e do roubo dos cavalos? O pônei que vocês compraram dele, bem, ele está aqui. Voltou por conta própria. Mas onde esteve sabem melhor que eu. Estava desgrenhado como um cachorro velho e magro como um varal de roupa, mas estava vivo. Nob cuidou dele.
— O quê? O meu Bill? — gritou Sam. — Bem, eu nasci com sorte, não importa o que o meu Feitor tenha a dizer. Mais um desejo que se torna realidade! Onde está ele? — Sam recusou-se a ir dormir antes de visitar Bill em seu estábulo.


Os viajantes ficaram em Bri durante todo o dia seguinte, e o Sr. Carrapicho não pôde reclamar de seu negócio, pelo menos naquela noite. A curiosidade superou todos os temores, e sua casa ficou lotada. De noite, por delicadeza, os hobbits ficaram um tempo na sala de estar, e responderam a muitas perguntas. Como as memórias de Bri eram boas, perguntaram muitas vezes a Frodo se ele havia escrito seu livro.
— Ainda não — respondia ele. — Estou indo para casa agora, para colocar minhas anotações em ordem.
Prometeu escrever sobre os estranhos eventos de Bri, e dessa forma dar um pouco de interesse a um livro que parecia destinado a tratar principalmente dos remotos e secundários assuntos “lá do sul”.
Então um dos mais novos pediu uma canção. Mas fez-se um silêncio de morte, e ele se encolheu sob olhares de censura, e o pedido não se repetiu. Evidentemente não se desejava qualquer incidente estranho na sala de estar outra vez.
Nenhum problema de dia, nem qualquer som durante a noite, incomodaram a paz de Bri enquanto os viajantes permaneceram lá; mas na manhã seguinte eles se levantaram cedo, pois o tempo ainda estava chuvoso e eles desejavam chegar ao Condado antes do cair da noite, e a cavalgada era longa. Toda a gente de Bri saiu às portas para vê-los partir, e sentiam uma alegria que havia mais de um ano não provavam; aqueles que não tinham visto antes os forasteiros com toda a sua indumentária ficaram boquiabertos à presença deles: diante de Gandalf com sua barba branca, e da luz que parecia emanar dele, como se seu manto azul fosse apenas uma nuvem cobrindo a luz do sol; e diante dos quatro hobbits, que pareciam cavaleiros errantes saídos de histórias quase esquecidas. Mesmo aqueles que tinham rido da conversa sobre o Rei começaram a achar que poderia haver alguma verdade nela.
— Bem, boa sorte em sua estrada, e boa sorte em sua volta para casa! — disse o Sr. Carrapicho. — Deveria tê-los avisado antes de que também lá nem tudo vai bem, se o que ouvimos dizer for verdade. Coisas estranhas acontecendo, dizem por aí. Mas uma coisa puxa a outra, e eu estava cheio de meus próprios problemas. Mas, se me desculpam o atrevimento, vocês voltaram mudados de suas viagens, e agora parecem pessoas que podem lidar com problemas complicados. Não duvido de que logo vão colocar tudo em ordem. Boa sorte para vocês! E quanto mais vezes voltarem, mais eu ficarei satisfeito.
Lhe desejaram boa sorte e partiram, passando pelo Portão Oeste, e avançando na direção do Condado. Bill, o pônei, foi com eles, e como antes carregando um monte de bagagens; mas trotava ao lado de Sam e parecia todo contente.
— Pergunto-me o que o velho Cevado estava querendo insinuar — disse Frodo.
— Posso adivinhar alguma coisa — disse Sam num tom tristonho. — O que eu vi no Espelho: árvores cortadas e tudo mais, e meu velho feitor expulso da Rua. Deveria ter apressado minha volta para casa.
— É alguma coisa está errada com a Quarta Sul, evidentemente — disse Merry. — Há uma escassez geral de erva-de-fumo.
— O que quer que seja — disse Pippin — Lotho deve estar por trás disso: podem ter certeza.
— Por trás, mas não no comando — disse Gandalf. — Vocês se esqueceram de Saruman. Ele começou a se interessar pelo Condado antes que Mordor o fizesse.
— Bem, temos você conosco — disse Merry. — Assim tudo será logo esclarecido.
— Estou com vocês agora — disse Gandalf — mas logo não estarei. Não vou até o Condado. Vocês mesmos devem cuidar dos problemas de lá, foi para isso que foram treinados. Ainda não entenderam? Meu tempo acabou: deixou de ser a minha tarefa colocar as coisas em ordem, ou ajudar as pessoas a fazerem isso. E quanto a vocês, meus caros amigos, não precisarão de ajuda. Agora estão crescidos. Na verdade cresceram muito, e estão entre os grandes, e agora deixei de temer por qualquer um de vocês.
— Mas, se querem saber, vou tomar outro rumo logo. Vou ter uma longa conversa com Bombadil: uma conversa que nunca tive em todo o meu tempo. Ele é um criador de limo, e eu tenho sido uma pedra fadada a rolar. Mas meus dias de rolar estão terminando, e agora teremos muito a dizer um ao outro.
— Bem como sempre, pode ter certeza — disse Gandalf. — Bastante despreocupado. eu diria, não muito interessado em qualquer coisa que fizemos ou vimos, a não ser talvez em nossas visitas aos ents. Talvez mais tarde haja tempo para irem visitá-lo. Mas, se eu fosse vocês, iria depressa para casa, ou não chegarão à Ponte do Brandevin antes que os portões se fechem.
— Mas não há nenhum portão — disse Merry. — Não na Estrada; você sabe muito bem disso. É claro que existe o Portão da Terra dos Buques, mas eles me deixarão entrar a qualquer hora.
— Não havia nenhum portão, você quer dizer — disse Gandalf. — Acho que agora vocês vão encontrar alguns. E podem ter mais problemas do que esperam, até mesmo no Portão da Terra dos Buques. Mas vão se sair bem. Adeus, caros amigos! Não pela última vez, ainda não. Adeus!
Guiou Scadufax para fora da estrada, e o grande cavalo saltou sobre o fosso verde que a margeava; então, a um grito de Gandalf, ele partiu, correndo na direção das Colinas dos Túmulos como o vento que vem do norte.
— Bem, aqui estamos, apenas os quatro que partimos juntos — disse Merry. — Deixamos os outros para trás, um a um. Parece quase um sonho que foi se desmanchando devagar.
— Não para mim — disse Frodo. — Para mim é como adormecer de novo.


Em pouco tempo chegaram ao ponto da Estrada Leste onde se haviam despedido de Bombadil, e tinham esperanças e quase uma certeza de vê-lo outra vez ali parado, esperando para cumprimentá-los quando passassem. Mas não se via sinal dele, e havia uma névoa cinzenta ao sul, encobrindo as Colinas dos Túmulos, e um véu espesso por sobre a Floresta Velha lá adiante.
Pararam e Frodo olhou para o sul pensativo.
— Gostaria muito de rever o velho camarada — disse ele. — Como será que está passando?

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