11 de abril de 2016

Capítulo VI - O Lago Proibido

Frodo acordou e viu Faramir debruçado sobre ele. Por um segundo, foi dominado por velhos temores, que o fizeram sentar-se e se esquivar.
— Não há nada a temer — disse Faramir.
— Já amanheceu? — disse Frodo bocejando.
— Ainda não, mas a noite está chegando ao fim, e a lua cheia está se pondo. Quer vir vê-la? Além disso, há um assunto sobre o qual preciso de sua opinião. Lamento muito acordá-lo, mas você pode vir?
— Eu vou — disse Frodo, levantando-se e tremendo um pouco ao deixar os cobertores e as peles quentes. Estava frio na caverna sem fogueiras. O ruído da água crescera na quietude. Frodo colocou a capa e seguiu Faramir.
Sam, acordando de repente por algum instinto de vigilância, viu primeiro a cama vazia do mestre e pulou de pé. Depois viu dois vultos escuros, Frodo e um homem, recortados contra o arco, que agora se enchia de uma luz opaca e branca. Correu atrás deles, passando por fileiras de homens adormecidos sobre colchões ao longo da parede.
Ao atravessar a abertura da caverna, viu que a Cortina se transformara agora num véu deslumbrante de seda e pérolas e fios de prata: pingentes de luar se derretendo. Mas não parou para admirá-la, e virando-se seguiu seu mestre através da porta estreita na parede da caverna. Primeiro foram ao longo de um corredor negro, depois subiram muitos degraus úmidos, e então chegaram a uma pequena plataforma plana cortada na pedra e iluminada pelo céu claro, que se vislumbrava lá em cima através de uma abertura longa e funda.
Desse ponto saiam dois lances de escada: um que aparentemente subia, levando à alta margem do rio, e o outro fazendo uma curva à esquerda. Foram por este, que subia em espiral como a escada de um torreão. Finalmente saíram da escuridão rochosa e olharam ao redor. Estavam sobre uma rocha larga e plana sem muro ou parapeito. À direita, a leste, a correnteza caia, esparramando-se sobre vários patamares, e depois, descendo uma canaleta íngreme, enchia um canal não muito fundo com uma força sombria de água salpicada de espuma, e dando voltas e correndo quase aos pés deles mergulhava subitamente por sobre a borda que se abria à esquerda. Um homem estava ali, perto da borda, quieto, olhando para baixo. Frodo virou-se para ver os filetes lisos das águas que arqueavam e mergulhavam. Depois fixou seu olhar na vastidão. O mundo estava quieto e frio, como se a aurora se aproximasse. Na distância, a oeste, a lua cheia estava descendo, redonda e branca. Uma névoa clara tremeluzia no grande vale abaixo deles: um abismo largo cheio de vapor prateado, no fundo do qual rolavam as frias águas noturnas do Anduin. Uma escuridão negra assomava mais além, e nela faiscavam, aqui e acolá, frios, afiados, remotos, brancos como dentes de fantasmas, os picos das Ered Nimrais, as Montanhas Brancas do Reino de Gondor, cobertas pela neve eterna. Por um tempo Frodo ficou ali parado sobre a elevada pedra, e um tremor percorreu-lhe o corpo, quando ele pensou se em algum lugar na vastidão das terras da noite seus velhos companheiros estariam dormindo ou caminhando, ou mortos, envoltos na névoa. Por que fora levado para aquele lugar, depois de ser acordado de um sono de esquecimento?
Sam ansiava por uma resposta para a mesma pergunta, e não pôde evitar murmurar, apenas para o ouvido de seu mestre, pensava ele:
— É uma bela vista, sem dúvida, Sr. Frodo, mas gela o coração, para não mencionar os ossos! O que está acontecendo?
Faramir ouviu e respondeu.
— Pôr-da-lua sobre Gondor. A bela Ithil, quando parte da Terra Média, lança um olhar sobre os cachos brancos do velho Mindoluin. Vale alguns calafrios. Mas não foi para mostrar isto que os trouxe aqui – embora no que se refere a você, Mestre Samwise, você não foi trazido, e só está pagando a pena por sua vigilância. Um gole de vinho pode consertar as coisas. Venham, olhem agora!
Subiu ao lado da silenciosa sentinela na borda escura, e Frodo o seguiu. Sam ficou para trás. Já se sentia inseguro o suficiente naquela plataforma alta e molhada.
Faramir e Frodo olharam para baixo. Viram as águas brancas se derramando numa vasilha espumante, para depois rodopiarem numa bacia oval nas rochas, até saírem outra vez através de uma passagem estreita, indo correr, espumando e tagarelando, por regiões mais calmas e planas. O luar ainda caia oblíquo sobre os pés da cachoeira, e tremeluzia nas ondas da bacia. De repente Frodo percebeu uma pequena coisa preta na margem próxima, mas, no mesmo momento em que a viu, ela mergulhou e desapareceu bem atrás da fervura borbulhante da cachoeira, furando a água negra com a precisão de uma flecha ou de uma pedra cortante.
Faramir voltou-se para o homem ao seu lado.
— Agora, o que você diria que é isso, Anborn? Um esquilo ou um martim-pescador? Existem martins-pescadores pretos nos lagos noturnos da Floresta das Trevas?
— O que quer que seja, não é um pássaro — respondeu Anborn. — Tem quatro membros e mergulha como um homem; demonstra um grande domínio nessa prática, também. O que estará fazendo? Procurando uma subida por trás da Cortina, que conduza ao nosso esconderijo? Parece que finalmente fomos descobertos. Estou com meu arco aqui, e posicionei outros arqueiros, quase todos com pontarias tão boas como a minha, em ambas as margens. Estamos aguardando apenas sua ordem para atirar, Capitão.
— Devemos atirar? — perguntou Faramir, virando-se depressa para Frodo.
Frodo ficou sem responder por um momento. Então disse:
— Não! Não! Imploro que não atire. — Se Sam tivesse tido coragem, teria dito “Sim”, mais rápido e mais alto. Não estava enxergando, mas podia muito bem supor pelas palavras deles o que estavam vendo.
— Então você sabe o que é esta coisa? — disse Faramir. — Vamos lá, agora que já viu, diga-me por que deve ser poupada. Em todas as nossas conversas você não mencionou uma só vez seu companheiro vagabundo, e eu deixei o assunto de lado. Ele podia esperar até ser capturado e trazido à minha presença. Enviei meus caçadores mais hábeis para procurá-lo, mas ele os despistou, e meus homens só o acharam agora, com a exceção de Anborn, que o viu uma vez na noite passada. Mas agora ele cometeu transgressão maior do que apenas preparar armadilhas para coelhos nas terras altas: ousou vir a Henneth Annún, deverá pagar com a vida. Fico assombrado com ele: é tão secreto e furtivo, e agora vem se divertir no lago, bem diante de nossa janela. Será que acha que os homens dormem à noite sem montar guarda? Por que pensa assim?
— Acho que há duas respostas — disse Frodo. — Por um lado, ele sabe pouco sobre os homens, e, embora seja matreiro, seu refúgio é tão oculto que é possível que ele não saiba que há homens escondidos aqui. Por outro lado, acho que está sendo atraído para cá por um desejo dominador, maior que sua cautela.
— Você diz que ele está sendo atraído para cá? — disse Faramir em voz baixa. — Então ele pode saber, ele sabe de seu fardo?
— Na verdade sabe. Ele mesmo o carregou por muitos anos.
— Ele o carregou? — disse Faramir, ofegando em sua surpresa. — Esse assunto a cada vez se enreda em novos enigmas. Então ele persegue essa coisa?
— Talvez. É precioso para ele. Mas não falei disso.
— O que então a criatura está procurando?
— Peixe — disse Frodo. — Olhe!
Espiaram lá embaixo, no lago escuro. Uma pequena cabeça preta apareceu na extremidade da bacia, mal contrastando com a sombra profunda das rochas.
Houve um rápido cintilar prateado, e um rodamoinho de pequenas ondas, que se aproximou da margem. Então, com uma enorme agilidade, uma figura semelhante a uma rã saiu da água e subiu o barranco. Imediatamente se sentou e começou a morder a pequena coisa prateada que faiscava conforme ia virando em suas mãos: os últimos raios da lua estavam agora caindo atrás da parede rochosa, na extremidade do lago.
Faramir riu baixinho.
— Peixe! — disse ele. — É uma fome menos perigosa. Ou talvez não: os peixes do lago de Henneth Annûn podem lhe custar tudo o que tem.
— Agora eu o tenho bem na mira — disse Anborn. — Não devo atirar, Capitão? Nossa pena para os que vêm a este lugar sem permissão é a morte.
— Espere, Anborn — disse Faramir. — Esse assunto é mais complexo do que parece. O que você tem a dizer agora, Frodo? Por que deveríamos poupá-lo?
— A criatura está desgraçada e faminta — disse Frodo. — Não sabe do perigo que está correndo. E Gandalf, o seu Mithrandir, teria ordenado a você que não o matasse por essa razão, e por outras. Proibiu que os elfos o fizessem. Não sei muito bem por quê, e do que suponho não posso falar abertamente aqui. Mas essa criatura está de alguma forma ligada à minha missão. Até você nos encontrar e nos levar, ele era meu guia.
— Seu guia! — disse Faramir. — O assunto cada vez fica mais estranho. Eu faria muito por você, Frodo, mas isso não posso garantir: deixar que esse viajante clandestino parta daqui livremente, para reunir-se a você mais tarde se quiser, ou para ser capturado por orcs e dizer tudo o que sabe sob ameaça de tortura. Deve ser capturado ou morto. Morto, se não for capturado depressa. Mas como se pode capturar essa criatura escorregadia de muitos aspectos , a não ser com uma flecha emplumada?
— Deixe-me chegar perto dele devagar — disse Frodo. — Vocês podem deixar seus arcos preparados, e pelo menos atirar em mim, se eu falhar. Não vou fugir.
— Então vá e seja rápido! — disse Faramir. — Se ele escapar ileso, deverá ser seu fiel servidor pelo resto de seus infelizes dias. Conduza Frodo até a margem, Anborn, e vá com cuidado. Essa coisa tem nariz e ouvidos. Dê-me seu arco.
Anborn resmungou e foi descendo a escada até o patamar, e depois subiu a outra escada, até que finalmente ele e Frodo chegaram a uma abertura estreita coberta por densos arbustos. Atravessando silenciosamente, Frodo se viu no topo do barranco ao sul do lago. As águas estavam escuras e a cachoeira pálida e cinzenta, refletindo apenas os últimos raios de luar do céu a oeste. Não conseguiu ver Golum. Avançou um pouco e Anborn o seguiu de perto.
— Siga em frente! — sussurrou ele ao ouvido de Frodo. — Tome cuidado com a sua direita. Se você cair no lago, ninguém exceto seu amigo pescador poderá ajudá-lo. E não se esqueça de que os arqueiros estão por perto, embora não possa vê-los.
Frodo se esgueirou para frente, usando as mãos à moda de Golum para ir achando o caminho e para se equilibrar. A maioria das rochas era plana e lisa, mas escorregadia. Parou para escutar. Primeiro não ouviu nada além do ruído incessante da cachoeira atrás dele. Então, de repente, não muito longe, um murmúrio chiado.
— Peixxe, peixxe bonzinho. A Cara Branca desapareceu, meu precioso, até que enfim, é sim. Agora podemos comer peixe em paz. Não, não em paz, precioso. Pois o Precioso está perdido, é sim, perdido. Hobbits sujos, hobbits malvados. Foram e nos deixaram, Golum; e o Precioso se foi. Só o pobre Sméagol sozinho. Não, Precioso, homens maus vão pegá-lo, roubar meu Precioso. Ladrões. Nós odeia eles. Peixxe, peixxe bonzinho. Nos deixa fortes, com os olhos atentos e os dedos ágeis, é sim. Estrangular eles, precioso. Estrangular todos eles, é sim, se nós tiver uma chance. Peixxess bonzinhos, peixxess bonzinhos.
Assim continuou sua fala, quase tão incessante quanto a cachoeira, apenas interrompida por um lamber de beiços ou um gorgolejar.
Frodo estremeceu, ouvindo com pena e nojo. Gostaria que aquilo parasse, que nunca precisasse ouvir aquela voz de novo. Anborn não estava muito longe. Frodo podia se esgueirar de volta e pedir a ele que mandasse os arqueiros atirarem. Provavelmente chegariam perto o suficiente, enquanto Golum devorava peixes e estava desatento.
Apenas um tiro certeiro e Frodo estaria livre daquela voz miserável para sempre.
Mas não, agora Golum tinha um direito sobre ele. O servo tem um direito sobre o mestre pelos serviços prestados, mesmo se prestados por medo. Teriam soçobrado nos Pântanos Mortos se não fosse por Golum. Frodo também percebia claramente, de alguma forma, que Gandalf não teria desejado aquilo.
— Sméagol! — disse ele baixinho.
— Peixxess, peixxess bonzinhos — disse a voz.
— Sméagol! — disse ele um pouco mais alto. A voz parou. — Sméagol, o Mestre veio procurar você. O Mestre está aqui. Venha, Sméagol! — Não houve resposta a não ser um chiado, como o de alguém inalando ar.
— Venha, Sméagol! — disse Frodo. — Estamos em perigo. Os homens vão matá-lo, se o encontrarem aqui. Venha depressa, se quiser escapar da morte. Venha até o Mestre!
— Não — disse a voz. — Mestre não bonzinho. Deixa o pobre Sméagol e vai com novos amigos. O Mestre pode esperar. Sméagol não terminou.
— Não há tempo — disse Frodo. — Traga peixes com você. Venha!
— Não! Preciso terminar o peixe.
— Sméagol! — disse Frodo desesperado. — O Precioso vai ficar bravo. Vou pegar o Precioso e dizer a ele: faça Golum engolir os ossos e engasgar. Para nunca experimentar peixe de novo. Venha, o Precioso está esperando!
Houve um chiado agudo. De repente, da escuridão surgiu Golum, se arrastando de quatro, como um cachorro que fez algo errado e foi repreendido. Trazia um peixe parcialmente devorado na boca e um outro na mão.
Chegou perto de Frodo, quase cara a cara, e o farejou. Seus olhos opacos estavam brilhando. Depois tirou o peixe da boca e se levantou.
— Mestre bonzinho! — sussurrou ele. — Hobbit bonzinho voltou para o pobre Sméagol. O bom Sméagol vem. Agora vamos depressa, vamos sim. Através das árvores, enquanto os Caras estão escuros. Sim, vamos!
— Sim, vamos logo — disse Frodo. — Mas não já. Vou com você como prometi. Prometo de novo. Mas não agora. Você ainda não está a salvo. Vou salvá-lo, mas precisa confiar em mim.
— Precisamos confiar no Mestre? — disse Golum desconfiado. — Por quê? Por que não já? Onde está o outro, o hobbit rabugento e bruto? Onde está ele?
— Lá em cima — disse Frodo, apontando para a cachoeira. — Não vou sem ele. Devemos voltar para encontrá-lo. — Sentiu o coração apertado. Isso era quase um truque sujo. Na verdade ele não temia que Faramir fosse permitir que Golum fosse morto, mas provavelmente o faria prisioneiro e o prenderia; certamente o que Frodo estava fazendo iria parecer uma traição para a pobre criatura traidora. Provavelmente seria impossível fazê-lo entender ou acreditar que Frodo lhe salvara a vida da única forma possível. Que mais poderia fazer? Ser fiel, o máximo possível, aos dois lados. — Venha! — disse ele. — Senão o Precioso vai ficar bravo. Vamos voltar agora, subindo o rio. Vá andando, vá andando, você na frente!
Golum foi se arrastando perto da borda por um trecho, bufando e desconfiado. De repente parou e levantou a cabeça.
— Tem alguma coisa ali! — disse ele. — Não é um hobbit. — De repente se virou. Uma luz verde faiscava em seus olhos protuberantes. — Messtre, messtre! — chiou ele. — Maldito! Traidor! Falso! — Cuspiu e esticou seus longos braços, estalando os dedos brancos. Naquele momento, o vulto grande e negro de Anborn surgiu por trás e caiu sobre ele. Uma grande mão forte o pegou pela nuca e o ergueu.
Golum se torcia feito um raio, todo molhado e cheio de lodo como estava, serpenteando como uma enguia, mordendo e arranhando como um gato. Mas outros dois homens surgiram das sombras.
— Fique quieto! — disse um deles. — Senão vamos enchê-lo de flechas e deixá-lo como um ouriço. Fique quieto!
Golum amoleceu o corpo, e começou a gemer e chorar. Eles o amarraram, sem qualquer delicadeza.
— Calma, calma! — disse Frodo. — Ele não tem força para enfrentar vocês. Não o machuquem, se for possível. Ficará mais quieto se não for ferido. Sméagol! Eles não vão machucá-lo. Vou com você e ninguém vai lhe fazer mal. A não ser que me matem também. Confie no Mestre.
Golum virou-se e cuspiu em Frodo. Os homens o pegaram, cobriram-lhe os olhos com um capuz, e o carregaram.
Frodo os seguiu, sentindo-se um perfeito patife. Foram pela abertura atrás dos arbustos, e voltaram, pelas escadas e corredores, para a caverna. Duas ou três tochas estavam acesas. Os homens começavam a se levantar. Sam estava lá, e lançou um olhar estranho para o fardo inerte que os homens traziam.
— Pegaram-no? — disse ele a Frodo.
— Sim. Ou melhor, não, eu não o peguei. Ele veio até mim, porque num primeiro momento confiou no que eu disse, eu receio. Não queria que o amarrassem desse jeito. Espero que esteja bem; mas odeio tudo isso.
— Eu também — disse Sam. — E nunca nada vai ficar bem onde esse pedaço de desgraça estiver.
Um homem veio e acenou para os hobbits, e os levou para o cômodo no fundo da caverna. Faramir estava sentado em sua cadeira, e a lamparina fora reacendida no nicho sobre a cabeça dele. Fez um sinal para que se sentassem nos bancos perto dele.
— Tragam vinho para os convidados — disse ele. — E tragam-me o prisioneiro.
O vinho foi trazido e então veio Anborn carregando Golum.
Retirou-lhe o capuz da cabeça e o colocou de pé, ficando atrás dele para apoiá-lo. Golum piscou, encobrindo a malícia de seus olhos com as pálpebras pesadas e pálidas. Tinha a aparência de uma criatura absolutamente miserável, ensopado e pingando, cheirando a peixe (ainda segurava um na mão). Os cabelos ralos caiam como mato viscoso pela sua fronte ossuda, o nariz escorria.
— Soltem nós! Soltem nós! — disse ele. — A corda nos machuca, machuca sim, machuca nós, e não fizemos nada.
— Nada? — disse Faramir, observando a criatura miserável com um olhar agudo, mas seu rosto não tinha qualquer expressão de ódio, ou pena, ou surpresa: — Nada? Você nunca fez nada para merecer ser amarrado ou punido de forma ainda mais severa? Entretanto, felizmente não sou eu quem deve julgar isso. Mas esta noite você entrou num lugar onde a entrada se paga com a morte. Os peixes deste lago se compram a um alto preço.
Golum soltou o peixe da mão.
— Não quero peixe — disse ele.
— O preço não está fixado no peixe — disse Faramir. — Apenas vir aqui e olhar para o lago acarreta pena de morte. Poupei-o até agora por causa das súplicas de Frodo, que diz que dele pelo menos você merece alguma gratidão. Mas a mim também você deve satisfações. Qual é o seu nome? De onde vem? E para onde vai? Qual é a sua ocupação?
— Estamos perdidos, perdidos — disse Golum. — Sem nome, sem ocupação, sem Precioso, sem nada. Só vazio. Só faminto; é sim, estamos com fome. Alguns peixinhos, peixinhos ruins e magros, para uma pobre criatura, e eles dizem morte. São tão sábios, tão justos, muito justos.
— Não muito sábios — disse Faramir. — Mas justos, sim, talvez justos o quanto permite nossa pouca sabedoria. Solte-o, Frodo! — Faramir pegou uma pequena faca de seu cinto e a entregou a Frodo. Golum interpretou o gesto de forma errada, gritou e caiu no chão.
— Agora, Sméagol! — disse Frodo. — Você tem de confiar em mim. Não vou abandoná-lo. Responda com sinceridade, se puder. Será para o seu bem, não para seu mal.
Cortou as cordas dos pulsos e tornozelos de Golum e o colocou de pé.
— Venha até aqui — disse Faramir. — Olhe para mim! Sabe o nome deste lugar? Já esteve aqui antes?
Lentamente Golum ergueu os olhos e olhou com má vontade nos de Faramir. Toda a luz desapareceu deles, que por um momento fitaram desolados e opacos os olhos resolutos do homem de Gondor. Fez-se completo silêncio. Depois Golum deixou cair a cabeça e foi se encolhendo no chão até ficar agachado, tremendo.
— Nós não sabe e nós não quer saber — choramingou ele. — Nunca veio aqui, nunca vem de novo.
— Há portas trancadas e janelas cerradas em sua mente, e salas escuras atrás delas — disse Faramir. — Mas neste assunto julgo que está falando a verdade. Isto é bom para você. Que juramento pode fazer garantindo nunca mais voltar, e nunca trazer qualquer criatura viva para cá, oralmente ou por escrito?
— O Mestre sabe — disse Golum com um olhar oblíquo para Frodo. — É sim, ele sabe. Nós vai prometer ao Mestre, se ele nos salvar. Vamos prometer por Ele, é sim. — Arrastou-se em direção aos pés de Frodo. — Salve nós, Mestre bonzinho! — gemeu ele. — Sméagol promete pelo Precioso, promete sinceramente. Nunca voltar de novo, nunca falar, não, nunca! Não, precioso, não!
— Está satisfeito? — perguntou Faramir.
— Estou — disse Frodo. — No mínimo, ou você terá de aceitar essa promessa ou fazer cumprir a sua lei. Nada vai conseguir além disso. Mas eu prometi que, se ele viesse até mim, nada de mau lhe aconteceria. E eu não gostaria de passar por mentiroso.
Faramir parou por um momento, pensando.
— Muito bem — disse ele finalmente. — Eu o entrego ao seu mestre, a Frodo, filho de Drogo. Que ele declare o que fará com você!
— Mas, Senhor Faramir — disse Frodo curvando-se — ainda não declarou sua vontade no que concerne ao referido Frodo, e até que isso seja conhecido, ele não pode fazer planos próprios para si ou para seus companheiros. Seu julgamento foi prorrogado para o amanhecer, mas não falta muito.
— Então vou declarar minha sentença — disse Faramir. — Quanto a você, Frodo, usando meu poder, que está sob autoridade maior, declaro-o livre no reino de Gondor, até a mais distante das antigas fronteiras; a única restrição que faço é que nem você nem os que o acompanham têm permissão de vir para este lugar espontaneamente. Essa sentença deverá valer por um ano e um dia, e depois cessará, a não ser que antes disso você venha a Minas Tirith e se apresente ao Senhor e Regente da Cidade. Então solicitarei a ele que confirme o que fiz e que o faça valer por toda a vida. Enquanto isso, quem quer que seja que você tome sob a sua proteção, estará sob a minha proteção e sob o escudo de Gondor. Respondi sua pergunta?
Frodo fez uma grande reverência.
— Respondeu perfeitamente — disse ele — e coloco-me aos seus serviços, se isso valer alguma coisa para alguém tão nobre e honrado.
— Tem grande valor — disse Faramir. — E agora, você toma essa criatura, esse Sméagol, sob sua proteção?
— Tomo Sméagol sob minha proteção — disse Frodo.
Sam deu um suspiro perfeitamente audível, e não foi pela troca de cortesias, a qual, como faria qualquer hobbit, ele aprovou completamente. Na verdade, no Condado um assunto desses demandaria muito mais palavras e reverências.
— Então digo a você — disse Faramir, voltando-se para Golum. — Você está sob uma sentença de morte; mas enquanto acompanhar Frodo estará livre, de nossa parte. Mas se alguma vez for encontrado por qualquer homem de Gondor sozinho, sem estar na companhia dele, a sentença será cumprida. E que a morte possa encontrá-lo depressa, dentro ou fora de Gondor, se você não lhe servir bem. Agora me responda: para onde estava indo? Ele disse que você era o seu guia. Para onde o estava levando?
Golum não respondeu.
— Isso eu não permito que fique em segredo — disse Faramir. — Responda-me, ou reverterei meu julgamento!
Ainda assim Golum não respondeu.
— Vou responder por ele — disse Frodo. — Ele me trouxe ao Portão Negro, como eu pedi, mas não houve como passarmos por ele.
— Não há portões abertos para a Terra Inominada — disse Faramir.
— Em vista disso, nós nos desviamos e viemos pela estrada que vai para o sul — Frodo continuou — pois ele disse que há, ou pode haver, uma trilha perto de Minas Ithil.
— Minas Morgul — disse Faramir.
— Não sei bem ao certo — disse Frodo —, mas a trilha sobe, eu acho, pelas montanhas na encosta norte daquele vale onde fica a velha cidade. Sobe até uma fenda alta e depois desce até o que fica além dela.
— Você sabe o nome da passagem alta? — perguntou Faramir.
— Não — disse Frodo.
— Chama-se Cirith Ungol. — Golum soltou um chiado agudo e começou a murmurar consigo mesmo. — Não é esse o nome? — perguntou Faramir virando-se para ele.
— Não! — disse Golum, e depois deu um grito estridente, como se alguém o tivesse apunhalado. — Sim, sim, escutamos o nome uma vez. Mas que importância tem o nome para nós? O Mestre diz que precisa entrar. Então precisamos tentar algum caminho. Não há outro modo de tentar, não há.
— Nenhum outro modo? — disse Faramir. — Como sabe disso? E quem já explorou todos os confins desse reino negro? — Fitou Golum longa e pensativamente. De repente, falou de novo. — Leve embora essa criatura, Anborn. Trate-o com gentileza, mas fique vigiando. E você, Sméagol, não tente mergulhar na cachoeira. As rochas têm dentes que poderiam matá-lo antes de sua hora. Deixe-nos agora e leve seu peixe.
Anborn saiu e Golum foi andando agachado diante dele. A cortina do cômodo foi fechada.
— Frodo, acho que você está agindo de maneira incauta nesse assunto — disse Faramir. — Não acho que você deveria ir com essa criatura. Sméagol é mau.
— Não, não totalmente mau — disse Frodo.
— Não totalmente, talvez — disse Faramir. — Mas a maldade o devora como um cancro, e está crescendo. Ele não o conduzirá para o bem. Se vocês se separarem, dar-lhe-ei um salvo-conduto e orientação para qualquer ponto nas fronteiras de Gondor que ele queira escolher.
— Ele não aceitaria — disse Frodo. — Iria me seguir como já faz há muito tempo. E já prometi muitas vezes tomá-lo sob minha proteção, e ir aonde ele me conduzisse. Você não poderia pedir que eu quebrasse o juramento que fiz a ele.
— Não — disse Faramir. — Mas meu coração poderia. Pois me parece um mal menor alguém aconselhar outro homem a quebrar um juramento do que a própria pessoa quebrá-lo, especialmente se vir um amigo inconscientemente atado ao seu próprio mal. Mas não – se ele o acompanhar, você precisa agora aturá-lo. Mas não acho que você deva ir a Cirith Ungol, sobre a qual ele lhe disse menos do que sabe. Isso eu percebi com clareza na mente dele. Não vá para Cirith Ungol!
— Aonde então deverei ir? — perguntou Frodo. — De volta ao Portão Negro, para me entregar à guarda? O que você sabe sobre esse lugar que torna seu nome tão terrível?
— Nada ao certo — disse Faramir. — Nós de Gondor nunca passamos para o lado leste da Estrada nestes dias, e nenhum de nós, homens mais jovens, jamais passou, nem qualquer um jamais colocou os pés nas Montanhas da Sombra. Delas só conhecemos velhos relatos e rumores de dias passados. Mas há algum terror escuro que habita as passagens acima de Minas Morgul. Quando se menciona Cirith Ungol, velhos e mestres na tradição ficam pálidos e calados.
“O vale de Minas Morgul passou para o mal há muito e muito tempo, e era uma ameaça e um terror enquanto o Inimigo banido ainda morava longe, e Ithilien ainda estava quase totalmente em nosso poder. Como você sabe, aquela cidade já foi um lugar forte, altivo e belo, Minas Ithil, a irmã gêmea de nossa própria cidade. Mas foi tomada por homens cruéis que o Inimigo dominara durante sua primeira demonstração de força, e que vagavam sem lar e sem senhor depois da queda dele. Comenta-se que serviram a homens de Númenor que haviam caído numa maldade escura; o Inimigo deu-lhes anéis de poder, e assim os devorou: transformaram-se em fantasmas vivos, terríveis e maus. Depois que ele partiu, tomaram Minas Ithil e lá se estabeleceram, e a encheram, e também todo o vale ao seu redor, de ruína: parecia vazia mas não estava, pois um terror disforme morava dentro das paredes arruinadas. Eram nove Senhores, e depois do retorno de seu mestre, que eles auxiliaram e prepararam em segredo, fortaleceram-se de novo. Então os Nove Cavaleiros saíram dos portões de horror, e não conseguimos opor-lhes resistência. Não se aproxime da cidadela deles. Será avistado. É um lugar de maldade que nunca adormece, cheio de olhos sem pálpebras. Não vá por ali.
— Mas qual outro caminho você me indicaria? — perguntou Frodo. — Disse que não pode me conduzir em pessoa até as montanhas, nem atravessá-las. Mas eu as preciso atravessar, pois assumi solenemente perante o Conselho o compromisso de encontrar um caminho, ou perecer na busca. E se eu voltar atrás, recusando a estrada em seu fim amargo, haverá lugar para mim entre elfos ou homens? Você gostaria que eu fosse a Gondor com essa Coisa, a Coisa que alucinou de desejo seu irmão? Que feitiço operaria em Minas Tirith? Deverá haver duas cidades de Minas Morgul, sorrindo uma para a outra, através da terra morta coberta de podridão?
— Eu não gostaria disso — disse Faramir.
— Então o que me aconselharia a fazer?
— Não sei. Apenas não aconselharia você a ir em direção à morte ou ao tormento. E não acho que Mithrandir teria escolhido esse caminho.
— Mas, já que ele se foi, devo tomar as trilhas que puder encontrar. E não há muito tempo para procurar — disse Frodo.
— É um destino terrível e uma missão desesperada — disse Faramir. — Mas pelo menos lembre-se de minha advertência: tome cuidado com esse guia, Sméagol. Ele já cometeu assassinatos antes. Leio isso nele. — Faramir suspirou. — Bem, assim nos encontramos e nos despedimos, Frodo, filho de Drogo. Não há necessidade de palavras gentis: não espero revê-lo em qualquer outro dia sob este sol. Mas agora você deve partir com minha bênção sobre você e sobre todo o seu povo. Descanse um pouco enquanto lhe preparam a comida. Gostaria muito de saber como esse Sméagol rastejante tomou posse à da Coisa da qual falamos, e como a perdeu, mas não vou incomodá-lo agora. Se um dia, além de qualquer esperança, você retornar a terra dos vivos e nós recontarmos nossas histórias, sentados perto de uma muralha ao sol, rindo das tristezas antigas, então você poderá me contar. Até esse dia, ou outro dia além da visão das Pedrasvidentes de Númenor, boa sorte!
Levantou-se e fez uma grande reverência para Frodo, e abrindo a cortina passou para a caverna.

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