24 de abril de 2016

Capítulo VI - Muitas despedidas

Quando terminaram os dias de festejos, finalmente os Companheiros pensaram em retornar para seus lares. E Frodo dirigiu-se ao Rei, que estava sentado com a Rainha Arwen perto da fonte: ela ia cantando uma canção de Valinor, enquanto a Árvore crescia e florescia. Alegraram-se com a visita de Frodo, levantando-se para cumprimentá-lo, e Aragorn disse:
— Sei o que vem me dizer, Frodo: você deseja retornar para casa. Bem, caríssimo amigo, a árvore cresce melhor na terra em que nasceu, mas para você sempre haverá boas-vindas em todas as terras do oeste. E, embora o seu povo tenha pouca fama nas lendas dos grandes, agora terá mais renome do que muitos grandes reinos que não existem mais.
— É verdade que desejo retornar ao Condado — disse Frodo. — Mas primeiro preciso ir a Valfenda. Pois, se alguma coisa pode estar faltando em dias tão abençoados, essa coisa é justamente a presença de Bilbo; fiquei triste quando vi que entre todos os da casa de Elrond ele não viera.
— Surpreende-se com isso, Portador do Anel? — disse Arwen. — Pois você conhece o poder da coisa que agora foi destruída, e sabe que tudo o que foi realizado por aquele poder agora está morrendo. Mas o seu parente a possuiu por mais tempo que você. Agora está avançado em anos, de acordo com a sua espécie, e ele o aguarda, pois não deverá mais fazer qualquer viagem longa, exceto uma.
— Então peço permissão para partir em breve — disse Frodo.
— Iremos em sete dias — disse Aragorn. — Pois vamos acompanhá-lo ao longo de um bom trecho da estrada, na verdade até Rohan. Daqui a três dias Éomer retornará para levar Théoden de volta, para que ele descanse na Terra dos Cavaleiros, e nós o acompanharemos em honra do Tombado. Mas agora, antes de você partir, confirmarei as palavras que Faramir lhe disse, e você estará livre para sempre do reino de Gondor, como também todos os seus companheiros. E se houver algum presente que eu possa lhes oferecer, que esteja à altura de seus feitos, vocês o terão; mas poderão levar qualquer coisa que desejem, e deverão cavalgar com todas as honras e pompas dos príncipes desta terra.
Mas a Rainha Arwen disse:
— Vou lhe dar um presente. Pois sou a filha de Elrond. Não vou acompanhar meu pai quando ele partir para os Portos, pois a minha escolha é a mesma de Lúthien, e como ela eu também escolhi tanto o doce como o amargo. Mas você irá em meu lugar, Portador do Anel, quando a hora chegar, se você assim quiser. Se seus ferimentos ainda lhe doerem e a lembrança do fardo for pesada, então você poderá permanecer no oeste até que todas as feridas e todo o cansaço estejam curados. Mas use isto agora, em memória de Pedra Élfica e Estrela Vespertina, cujas vidas se entrelaçaram com a sua.
E ela pegou uma pedra branca semelhante a uma estrela que estava sobre o seu peito, pendurada numa corrente de prata, e a colocou em volta do pescoço de Frodo.
— Quando a lembrança do medo e da escuridão o incomodar — disse ela — isso lhe trará ajuda.


Em três dias, conforme dissera o rei, Éomer de Rohan chegou cavalgando à Cidade, e com ele veio um éored dos mais belos cavaleiros daquela terra. Foram-lhes dadas as boas-vindas, e, quando todos estavam sentados à mesa em Merethrond, o Grande Salão de Banquetes, ele contemplou a beleza das senhoras presentes e se encheu de admiração. E antes que fosse descansar, mandou chamar Gimli, o anão, e lhe disse:
— Gimli, filho de Glóin, seu machado está pronto?
— Não, senhor — disse Gimli — mas posso providenciar isso rapidamente, se for necessário.
— Cabe a você decidir — disse Éomer. — Pois entre nós ainda há certas palavras precipitadas a respeito da Senhora da Floresta Dourada. E agora eu a vi com meus próprios olhos.
— Bem, senhor — disse Gimli — e o que me diz então?
— Infelizmente — disse Éomer — não vou dizer que ela é a senhora mais bela que existe.
— Então preciso ir buscar meu machado — disse Gimli.
— Mas primeiro faço uma ressalva — disse Éomer. — Se eu a tivesse visto em outra companhia, eu teria dito tudo o que você deseja. Mas agora coloco a Rainha Arwen Estrela Vespertina em primeiro lugar, e de minha parte estou pronto a lutar com qualquer um que queira me desmentir. Devo mandar buscar minha espada?
Então Gimli fez uma grande reverência.
— Não, de minha parte está desculpado, senhor — disse ele. — Você escolheu a Tarde, mas meu amor destina-se à Manhã. E meu coração pressente que logo ela vai desaparecer para sempre.


Finalmente chegou o dia da partida, e uma comitiva numerosa e bela se preparava para deixar a Cidade rumo ao norte. Então os reis de Gondor e de Rohan foram até os Fanos e chegaram aos túmulos na Rath Dinen, e levaram embora o Rei Théoden sobre um grande esquife dourado, passando pela Cidade em silêncio. Então colocaram o esquife sobre uma grande carruagem que foi acompanhada por um cortejo de Cavaleiros de Rohan, com a bandeira à frente; Merry, sendo o escudeiro de Théoden, foi na carruagem com as armas do rei.
Para os outros Companheiros foram trazidos cavalos de acordo com a sua estatura; Frodo e Samwise cavalgaram ao lado de Aragorn, Gandalf montou Scadufax, e Pippin acompanhou os cavaleiros de Gondor; Legolas e Gimli, como sempre, foram juntos montados em Arod.
Nessa comitiva foram também a Rainha Arwen, Celeborn e Galadriel com todo o seu povo, Elrond com seus filhos, assim como os príncipes de Doí Amroth e de lthilien, e muitos capitães e cavaleiros. Nunca um rei da Terra dos Cavaleiros teve tal cortejo como o que acompanhava agora Théoden, filho de Thengel, para a sua terra natal.
Sem pressa e com tranquilidade eles entraram em Anórien e chegaram à Floresta Cinzenta sob o Amon Din, e lá ouviram um som de tambores batendo nas colinas, embora não se pudesse ver nenhum ser vivo. Então Aragorn mandou que tocassem as trombetas, e os arautos gritaram:
— Eis que o Rei Elessar chegou! A Floresta de Drúadan ele doa a Ghânburí-ghân e a seu povo, para que seja deles para sempre, e a partir de hoje nenhum homem pode entrar nela sem sua permissão!
Então os tambores retumbaram alto, e depois silenciaram.
Por fim, depois de quinze dias de viagem, a carruagem do Rei Théoden atravessou os campos verdes de Rohan e chegou a Edoras, e lá todos descansaram. O Palácio Dourado foi adornado com belas tapeçarias e ficou repleto de luz, e ali celebrou-se o banquete mais pomposo desde os dias de sua construção. Após três dias os homens da Terra dos Cavaleiros prepararam o funeral de Théoden, que foi colocado numa casa de pedra com suas armas e muitos outros objetos belos que possuíra, e sobre ela foi erigido um grande túmulo, coberto de turfa verde e sempre-em-mentes brancas. Agora havia oito jazigos no lado leste do Campo dos Túmulos.
Então os Cavaleiros da Casa do Rei, montados em cavalos brancos, cavalgaram ao redor do túmulo e cantaram juntos uma canção sobre Théoden, filho de Thengel, feita pelo menestrel Gléowine, que nunca mais compôs canção alguma. As vozes lentas dos Cavaleiros tocaram os corações até mesmo daqueles que não conheciam a língua daquele povo; mas a letra da canção trouxe uma luz aos olhos dos habitantes da Terra dos Cavaleiros quando ouviram mais uma vez, na distância, o trovão dos cascos do norte e a voz de Eorl elevando-se mais alto que o som da batalha no Campo de Celebrant, e a história dos reis prosseguiu retumbante, e a corneta de Helm ecoou alto nas montanhas, até que a Escuridão sobreveio e o Rei Théoden ergueu-se e cavalgou através da Sombra na direção do fogo, e morreu em esplendor, no momento em que o sol, retornando depois que morrera toda a esperança, brilhava sobre o Mindolluin pela manhã.
Trocando a dúvida, trocando o dúbio pelo dia raiando, veio cantando ao sol, espada a brandir Esperança reacesa, em esperança partindo; sobre a morte, sobre o medo, sobre a ruína erguido, além da perda, além da vida, para a glória subindo.
Mas Merry parou aos pés do verde túmulo e chorou; ao final da canção ele se ergueu gritando:
— Rei Théoden, Rei Théoden! Adeus! Como um pai o senhor foi para mim, por um curto período. Adeus!
Quando o funeral terminou, o choro das mulheres foi silenciando e Théoden foi deixado finalmente sozinho em seu túmulo, as pessoas se reuniram no Palácio Dourado para o grande banquete, pondo a tristeza de lado; pois Théoden vivera muitos anos e falecera gozando de uma honra que não era menor que a de nenhum de seus antepassados.
E quando chegou a hora em que, segundo o hábito da Terra dos Cavaleiros, deveriam beber à memória dos reis, Éowyn, a Senhora de Rohan, ergueu-se dourada como o sol e branca como a neve, e entregou uma taça cheia a Éomer.
Então um menestrel e mestre na tradição levantou-se e pronunciou todos os nomes dos Senhores da Terra dos Cavaleiros, em ordem: Eorl, o Jovem; Brego, construtor do Palácio; Aldor, irmão do desafortunado Baldor; Fréa, Fréawine, Goldwine, Déor e Gram; Helm, que se escondeu no Abismo de Helm quando a Terra dos Cavaleiros foi invadida; assim terminaram os nove túmulos do lado oeste, pois naquele tempo a linhagem foi interrompida, e depois vieram os túmulos do lado leste: Fréalaf, filho da irmã de Helm; Léofa, Walda, Folca, Folcwine, Fengel, Thengel, e por último Théoden. E, quando foi pronunciado o nome de Théoden, Éomer esvaziou a taça. Então Éowyn pediu aos que serviam que enchessem as taças e todos os reunidos ali se levantaram e beberam à saúde do novo rei, gritando:
— Salve, Éomer, Rei da Terra dos Cavaleiros!
Por fim, quando o banquete terminou, Éomer levantou-se e disse:
— Este é o banquete do funeral do Rei Théoden; mas antes de partirmos falarei de coisas alegres, pois ele não se importaria se eu fizesse isso, uma vez que sempre foi um pai para Éowyn, minha irmã. Ouçam então, meus convidados, bela gente de muitos reinos, nunca antes aqui reunidos neste salão! Faramir, Regente de Gondor e Príncipe de Ithilien, pede que Éowyn, Senhora de Rohan, seja sua esposa, e ela concorda de bom grado. Portanto eles ficarão noivos diante de todos vocês.
E Faramir e Éowyn deram um passo à frente e se deram as mãos; e todos beberam à saúde de ambos e se alegraram.
— Desse modo — disse Éomer —, a amizade entre Gondor e a Terra dos Cavaleiros fica ligada por um novo elo, e mais ainda me alegro.
— Você não é nem um pouco mesquinho, Éomer — disse Aragorn — oferecendo assim a Gondor a coisa mais bela de seu reino!
Então Éowyn olhou nos olhos de Aragorn e disse:
— Deseje-me felicidades, meu soberano e curador!
E ele respondeu:
— Desejei-te felicidades desde a primeira vez em que te vi. Cura meu coração ver-te agora completamente feliz.
Quando terminou o banquete, aqueles que deveriam partir despediram-se do Rei Éomer. Aragorn e seus cavaleiros, e o povo de Lórien e de Valfenda, se aprontaram para cavalgar; mas Faramir e Imrahil permaneceram em Edoras, e Arwen Estrela Vespertina também ficou, e disse adeus a seus irmãos. Ninguém viu o último encontro dela com seu pai, Elrond, pois eles subiram até as colinas e lá conversaram longamente; triste foi a separação, que deveria perdurar além do fim do mundo.
Por fim, antes que os convidados saíssem, Éomer e Éowyn aproximaram-se de Merry, dizendo:
— Adeus agora, Meriadoc do Condado e Holdwine da Terra dos Cavaleiros! Parta ao encontro da felicidade, e volte logo, pois será sempre bem-vindo!
E Éomer disse:
— Pelos seus feitos nos campos de Mundburg, os Reis de antigamente tê-lo-iam coberto de tantos presentes que uma carroça não poderia carregar; e apesar disso você diz que não aceita nada, a não ser as armas que lhe foram dadas. Isso vou tolerar, pois na verdade não tenho nada de valor para lhe oferecer; mas minha irmã implora que aceite esta pequena prenda, como uma lembrança de Dernhelm e das cornetas da Terra dos Cavaleiros na chegada da manhã.
Então Éowyn entregou a Merry uma corneta antiga, pequena mas habilidosamente confeccionada em fina prata e com um tiracolo verde; nela os artesãos tinham desenhado velozes cavaleiros, numa fileira que a contornava da extremidade até a boca, e gravaram também runas de grande virtude.
— Esta corneta é uma herança de nossa família — disse Éowyn. — Foi feita pelos anões, e veio do tesouro de Scatha, o Verme. Eorl, o Jovem, trouxe-a do norte. Aquele que a tocar numa hora de necessidade plantará o medo no coração de seus inimigos, e alegria nos corações dos amigos, que irão ouvi-lo e virão até ele.
Então Merry aceitou a corneta, pois não poderia recusá-la, e beijou a mão de Éowyn; e eles o abraçaram, e assim se separaram naquela ocasião.
Quando os convidados estavam prontos, beberam a taça de partida, e com muitos elogios e gestos de amizade partiram, chegando finalmente ao Abismo de Helm, onde descansaram por dois dias. Então Legolas pagou a promessa que fizera a Gimli, e ambos foram até as Cavernas Cintilantes; quando voltaram o elfo ficou em silêncio, dizendo apenas que Gimli era o único que podia encontrar palavras adequadas para descrevê-las.
— E nunca antes um anão cantou vitória sobre um elfo numa competição de palavras — disse ele. — Agora então vamos até Fangorn, onde acertaremos a contagem!
Da Garganta do Abismo cavalgaram até Isengard, e viram como os ents haviam-se ocupado. Todo o circulo de pedra fora derrubado e removido, e a terra dentro dele fora transformada num jardim cheio de pomares e árvores, atravessado por um rio; mas no meio de tudo havia um lago de águas límpidas, e dele surgia a Torre de Orthanc, alta e impenetrável, e sua rocha negra se espelhava no lago.
Por um tempo os viajantes sentaram-se no local onde os antigos portões de Isengard ficavam; agora havia duas árvores altas como sentinelas no início de uma trilha margeada de árvores que conduzia até Orthanc; todos olharam maravilhados para o trabalho feito, mas não se via qualquer ser vivo próximo ou distante.
De repente ouviram uma voz chamando hum-hom, hum-hom; e lá vinha Barbárvore descendo a trilha a largas passadas para cumprimentá-los, com Tronquesperto ao seu lado.
— Bem-vindos ao Jardinárvore de Orthanc! — disse ele. — Eu sabia que vocês deviam chegar, mas estava trabalhando lá em cima no vale; ainda há muito por fazer. Mas vocês também não ficaram ociosos lá no sul e no leste, pelo que ouvi dizer; e tudo o que ouvi é bom, muito bom. — Então Barbárvore louvou todos os feitos deles, dos quais parecia ter pleno conhecimento; quando finalmente terminou, olhou longamente para Gandalf.
— Bem, agora vamos! — disse ele. — Você se mostrou o mais poderoso, e todos os seus trabalhos foram bem sucedidos. Aonde estaria indo agora? E por que veio até aqui?
— Para ver como vai o seu trabalho, meu amigo — disse Gandalf —, e para agradecer-lhe por toda a ajuda em tudo o que foi realizado.
— Hum, bem, isso é justo — disse Barbárvore. — Pois com certeza os ents fizeram a sua parte. E não apenas tomando conta daquele, hum, daquele maldito assassino de árvores que morava aqui. Pois houve uma grande invasão daqueles, burórum, daqueles olhos-malignos-mãos-pretas-pernas-arqueadas, coração-de-pedra-dedos-de-garra, barriga-nojenta- sedento-de-sangue, morimaite-sincahonda, hum, bem, como vocês são pessoas apressadas e o nome inteiro deles é comprido como anos de tormento, aqueles vermes dos orcs; e eles atravessaram o Rio, e desceram do norte e da região que circunda toda a floresta de Laurelindórenan, na qual não conseguiram entrar, graças aos Grandes que estão lá. — Curvou-se diante do Senhor e da Senhora de Lórien. — E essas mesmas criaturas fedorentas ficaram mais que surpresas, embora isso também se possa dizer de pessoas melhores. E nem tantos se lembrarão de nós, pois não muitos escaparam vivos, e o Rio ficou com a maioria deles. Mas foi bom para vocês, pois, se eles não nos encontrassem, então o rei da terra verde não teria chegado muito longe, e, se tivesse, não haveria um lar para onde pudesse retornar.
— Sabemos muito bem disso — disse Aragorn —, e seus feitos nunca serão esquecidos em Minas Tirith ou em Edoras.
— Nunca é uma palavra longa demais até mesmo para mim — disse Barbárvore. — Não enquanto seus reinos perdurarem, você quer dizer; mas realmente eles terão de ser bem longos para que pareçam longos aos ents.
— A Nova Era começa — disse Gandalf — e nesta era pode muito bem acontecer de os reinos dos homens durarem mais que você, Fangorn, meu amigo. Mas agora me diga: e a tarefa que lhe designei? Como está Saruman? Ainda não está cansado de Orthanc? Pois na minha opinião ele não vai achar que vocês melhoraram a vista de suas janelas.
Barbárvore dirigiu um longo olhar a Gandalf, que Merry considerou quase maroto.
— Ah! — disse ele. — Achei mesmo que chegaria a esse ponto. Cansado de Orthanc?
— Muito cansado, finalmente; mas não ficou tão cansado de sua torre como de minha voz. Hum! Obriguei-o a escutar algumas histórias compridas, ou pelo menos o que pode ser considerado comprido em sua língua.
— Então por que ele ficou escutando? Você entrou em Orthanc? — perguntou Gandalf.
— Hum, não, não entrei em Orthanc! — disse Barbárvore. — Mas ele veio até a janela e escutou, pois não podia conseguir noticias de nenhum outro modo, e, embora odiando as notícias, estava ansioso por consegui-las; e cuidei para que ele escutasse todas. Mas eu acrescentei muitas coisas às noticias sobre as quais julguei que ele devia pensar. Ele ficou muito cansado. Sempre tinha pressa. Essa foi a sua ruína.
— Observo, meu bom Fangorn — disse Gandalf — que com muito cuidado você diz morava, tinha, foi. E o que me diz sobre o que é? Ele está morto?
— Não, morto não, pelo que sei — disse Barbárvore. — Mas ele partiu. Sim, partiu há sete dias. Deixei-o partir. Pouco restava dele quando saiu rastejando, e, quanto àquela criatura-verme que o acompanha, não passava de uma sombra pálida. Agora, não me diga, Gandalf, que eu prometi mantê-lo a salvo, pois eu sei disso. Mas as coisas mudaram desde então. E eu o mantive aqui até que ele estivesse impossibilitado, impossibilitado de fazer qualquer mal. Você deve saber que acima de tudo eu odeio prender coisas vivas, e me recuso a manter presas até mesmo criaturas como essa, a não ser que a necessidade seja extrema. Uma cobra sem presas pode rastejar para onde quiser.
— Você pode estar certo — disse Gandalf — mas a esta cobra ainda restava uma presa, eu acho. Ele tinha o veneno de sua voz, e julgo que persuadiu você, até mesmo você, Barbárvore, conhecendo o ponto fraco de seu coração. Bem, ele se foi, e não há mais nada a dizer. Mas agora a Torre de Orthanc volta para o Rei, a quem pertence. Embora talvez ele não precise dela.
— Isso veremos mais tarde — disse Aragorn. — Mas darei aos ents todo este vale para que o usem como quiserem, contanto que mantenham vigilância sobre Orthanc e cuidem para que ninguém entre nela sem minha autorização.
— A Torre está trancada — disse Barbárvore. — Obriguei Saruman a trancá-la e me entregar as chaves. Estão com Tronquesperto.
Tronquesperto curvou-se como uma árvore que se dobra ao vento, e entregou a Aragorn duas grandes chaves negras de formato intrincado, úmidas por um anel de aço.
— Agora, agradeço-lhes mais uma vez — disse Aragorn —, e desejo-lhes boa sorte. Que sua floresta cresça outra vez em paz. Quando este vale estiver cheio, haverá espaço de sobra a oeste das montanhas, onde outrora vocês caminharam.
O rosto de Barbárvore se entristeceu.
— As florestas podem crescer — disse ele. — Os bosques podem se espalhar. Mas não os ents. Não existem entinhos.
— Mas agora talvez haja mais esperança em sua procura — disse Aragorn. — Terras que estiveram por muito tempo fechadas ficarão abertas para vocês na direção do leste.
Mas Barbárvore balançou a cabeça e disse:
— É muito longe. E nestes dias existem muitos homens. Mas estou esquecendo meus modos! Vocês não querem ficar aqui para descansar um pouco? E quem sabe haja alguém que fique satisfeito em atravessar a Floresta de Fangorn e assim encurtar seu caminho para casa? — Olhou para Celeborn e Galadriel.
Mas todos, exceto Legolas, disseram que precisavam agora despedir-se e partir para o sul ou para o oeste.
— Venha, Gimli — disse Legolas. — Agora, com a permissão de Fangorn, visitarei os recônditos da Floresta Ent e verei árvores que não existem em nenhum outro lugar da Terra Média. Você virá comigo, mantendo a sua palavra; e assim viajaremos juntos para nossas próprias terras, na Floresta das Trevas e mais além.
Com isso Gimli concordou, embora sem muita satisfação, ao que pareceu.
— Aqui, então, finalmente, chegamos ao fim da Sociedade do Anel — disse Aragorn. — Mas espero que em breve vocês retornem à minha terra com a ajuda que prometeram.
— Viremos, se nossos senhores assim o permitirem — disse Gimli. — Bem, adeus, meus hobbits! Agora vocês devem ir para suas casas a salvo, e eu não ficarei acordado temendo os perigos que possam correr. Mandaremos noticias quando for possível, e alguns de nós poderão se encontrar de vez em quando; mas temo que nunca mais estaremos todos reunidos.
Então Barbárvore disse adeus a cada um deles, e curvou-se três vezes, devagar e com grande reverência, diante de Galadriel e Celeborn.
— Faz muito, muito tempo que não nos encontramos junto a árvore ou pedra, A vanimar, vanimálion nostari! — disse ele. — E triste que nos encontremos só agora, no final. Pois o mundo está mudando: sinto isso na água, sinto isso na terra, e farejo no ar. Não acho que nos encontraremos de novo.
E Celeborn disse:
— Eu não sei, Mais Velho.
Mas Galadriel falou:
— Não na Terra Média, não até que as terras que jazem sob as ondas se ergam de novo. Então, nos prados de salgueiros de Tasarinan podemos nos encontrar na primavera. Adeus!
Por último Merry e Pippin disseram adeus ao velho ent, e ele ficou mais descontraído quando olhou para eles.
— Bem, meu povo alegre — disse ele —, não vão beber mais um gole comigo antes de partirem?
— Claro que vamos — disseram eles, e Barbárvore os levou de lado, entrando em uma das sombras das árvores, e eles viram que ali fora colocado um grande jarro de pedra. Barbárvore encheu três tigelas e eles beberam, vendo os estranhos olhos do ent observando-os por sobre a borda de sua tigela.
— Cuidado, cuidado! — disse ele. — Pois vocês já cresceram desde que os vi pela última vez. — E os dois riram e esvaziaram suas tigelas.
— Bem, adeus! — disse ele. — E não se esqueçam de me avisar se em sua terra ouvirem qualquer notícia sobre as entesposas. — Então acenou as mãos grandes para toda a comitiva e sumiu por entre as Árvores.


Os viajantes cavalgavam agora com mais velocidade, e se dirigiam para o Desfiladeiro de Rohan, e Aragorn finalmente despediu-se deles, perto do local onde Pippin havia olhado na Pedra de Orthanc. Os hobbits se entristeceram com a separação, pois Aragorn nunca lhes faltara, e sempre fora o seu guia através de muitos perigos.
— Gostaria que houvesse uma pedra onde pudéssemos ver todos os nossos amigos — disse Pippin — e que fosse possível conversar com eles a distância!
— Agora só resta uma que você poderia usar — respondeu Aragorn — pois você não desejaria ver o que a Pedra de Minas Tirith pode lhe mostrar. Mas o palantír de Orthanc será guardado pelo Rei, para que ele possa ver o que se passa em seu reino, e o que os servidores estão fazendo. Pois não se esqueça, Peregrin Túk, de que você é um cavaleiro de Gondor, e eu não o dispenso do serviço. Agora você parte de licença, mas posso voltar a chamá-lo. E lembrem-se, queridos amigos do Condado, que meu reino também abrange o norte, e irei até lá um dia.
Então Aragorn despediu-se de Celeborn e Galadriel, e a Senhora lhe disse:
— Pedra Élfica, através da escuridão você conquistou a esperança, e agora possui tudo o que deseja. Use bem os seus dias!
Mas Celeborn disse:
— Parente, adeus! Que seu destino seja diferente do meu, e seu tesouro permaneça com você até o fim.
Com essas palavras despediram-se, na hora do pôr-do-sol; quando, depois de um tempo, eles se viraram e olharam para trás, viram o Rei do Oeste sentado sobre o seu cavalo com os cavaleiros ao redor; e o sol poente reluzia sobre eles e fazia com que seus arreios brilhassem como ouro vermelho, e o manto branco de Aragorn transformou-se numa chama. Então Aragorn pegou a pedra verde e a ergueu, e um fogo verde emanou de sua mão.
Logo a comitiva reduzida, seguindo o Isen, dirigiu-se para o oeste e cavalgou através do Desfiladeiro, entrando nas terras desertas mais além; depois rumaram para o norte, e passaram pelas fronteiras da Terra Parda. Os habitantes de lá fugiram e se esconderam, pois tinham medo do Povo Élfico, embora na realidade poucos elfos tivessem chegado àquele lugar; mas os viajantes não lhes deram atenção, pois ainda formavam uma grande comitiva e estavam providos de tudo do que necessitavam; continuaram o seu caminho tranquilamente, montando tendas quando bem queriam.
No sexto dia após se separarem do Rei, viajaram através de uma floresta descendo das colinas aos pés das Montanhas Sombrias, que agora assomavam à sua direita.
Quando saíram para o espaço aberto de novo ao pôr-do-sol, alcançaram um velho apoiado num cajado, vestindo farrapos cinzentos e de um branco sujo, e atrás dele vinha um outro mendigo, arrastando-se e choramingando.
— Bem, Saruman! — disse Gandalf. — Aonde vai indo?
— E o que isso lhe interessa? — respondeu ele. — Quer ainda comandar meus passos, e não está satisfeito com minha ruína?
— Você conhece as respostas — disse Gandalf — não e não. Mas de qualquer forma o tempo de meus trabalhos se aproxima de um fim. O Rei tomou para si o fardo. Se você tivesse esperado em Orthanc, poderia tê-lo visto, e ele teria demonstrado sua sabedoria e clemência.
— Isso é ainda mais um motivo para eu ter partido antes — disse Saruman — pois não desejo dele nenhuma das duas coisas. Na verdade, se você deseja uma resposta para a sua primeira pergunta, estou procurando um caminho para fora deste reino.
— Então mais uma vez você está indo pelo caminho errado — disse Gandalf —, e não vejo esperança em sua viagem. Mas você vai desprezar nossa ajuda? Pois é isso que estamos oferecendo a você.
— A mim? — disse Saruman. — Não, por favor não me sorriam! Prefiro as suas carrancas. E, quanto à Senhora aqui, não confio nela: ela sempre me odiou, e tramou a seu favor. Não duvido de que o tenha trazido por este caminho para ter o prazer de tripudiar sobre a minha pobreza. Se soubesse da sua perseguição, eu lhes teria negado este prazer.
— Saruman — disse Galadriel —, temos outras missões e outras preocupações que nos parecem mais urgentes do que ficar caçando você. Ao invés disso, diga que você foi alcançado pela boa sorte, pois agora lhe oferecemos uma última oportunidade.
— Se for realmente a última, fico contente — disse Saruman —; pois me será poupado o trabalho de recusá-la mais uma vez. Todas as minhas esperanças estão arruinadas, mas eu não partilharia das suas. Se é que têm alguma. — Por um momento seus olhos se acenderam. — Vão embora! Não passei longos anos estudando esses assuntos para nada. Vocês se destruíram e sabem disso. E vai me trazer algum consolo, enquanto vago sem rumo, pensar que vocês derrubaram a sua única casa quando destruíram a minha. E, agora, que navio poderá levá-los através de um mar tão vasto? — zombou ele. — Será um navio cinza, e cheio de fantasmas. — Ele riu, mas sua voz era rouca e hedionda. — Levante-se, idiota! — gritou ele para o outro mendigo, que se sentara no chão; bateu nele com o cajado. — Meia-volta! Se essas pessoas gentis estão indo pelo nosso caminho, então vamos tomar um outro. Em frente, ou não vai ter nem uma casca de pão para o jantar.
O mendigo se levantou e foi se arrastando e choramingando:
— Pobre velho Gríma! Pobre velho Gríma! Sempre espancado e amaldiçoado. Como o odeio! Gostaria de poder abandoná-lo!
— Então faça isso! — disse Gandalf.
Mas Língua de Cobra apenas desfechou um golpe de seus olhos turvos e aterrorizados em Gandalf, e então apertou o passo atrás de Saruman. Quando o par miserável passou pela comitiva, aproximaram-se dos hobbits, e Saruman parou para fitá-los; mas eles o contemplaram com pena.
— Então vocês também vieram para tripudiar sobre minha desgraça, não é, meus moleques? — disse ele. — Não se preocupam com as necessidades de um mendigo, não é mesmo? Pois vocês têm tudo o que desejam, comida, e belas roupas, e o melhor fumo para seus cachimbos. É sim, eu sei! Sei de onde a erva vem. Vocês não dariam um bocado para um mendigo, dariam?
— Eu daria, se tivesse — disse Frodo.
— Você pode ficar com o que me resta — disse Merry —, se esperar um pouquinho. — Desceu do cavalo e procurou no alforje de sua sela. Então entregou a Saruman uma bolsa de couro. — Leve o que temos — disse ele. — Esse fumo você conhece bem; veio dos escombros de Isengard.
— Meu, meu, é sim, e comprado a preços altíssimos! — gritou Saruman, agarrando a bolsa. — Isto é apenas uma reparação simbólica; pois vocês levaram muito mais, eu aposto. Apesar disso, um mendigo deve ficar agradecido, mesmo que um ladrão lhe devolva apenas uma parte do que lhe pertencia. Bem, vai ser bem feito para vocês quando chegarem em casa, se encontrarem na Quarta Sul as coisas piores do que desejariam. Que sua terra fique muito tempo sem fumo!
— Obrigado — disse Merry. — Nesse caso, quero de volta minha bolsa, que não é sua, e viajou muitas léguas comigo. Embrulhe o fumo num trapo seu.
— Um ladrão merece o outro — disse Saruman, dando as costas para Merry, e chutando Língua de Cobra; depois afastou-se em direção à floresta.
— Bem, gostei disso! — disse Pippin. — Ladrão, essa é boa! E de que vamos acusá-lo por nos ter aprisionado, machucado e arrastado através das mãos de orcs por toda Rohan?
— Ah! — disse Sam. — E ele disse comprado. Fico pensando como. E não gostei daquilo que ele disse sobre a Quarta Sul. Já é tempo de retornarmos.
— Com certeza — disse Frodo. — Mas não podemos ir mais rápido, se queremos ver Bilbo. Vou primeiro a Valfenda, aconteça o que acontecer.
— Sim, acho melhor você fazer isso — disse Gandalf — Mas sinto por Saruman! Acho que não se pode conseguir mais nada dele. Está completamente murcho. Mesmo assim, não tenho certeza de que Barbárvore esteja com a razão: imagino que ele ainda poderia fazer alguma maldade, de um modo mais mesquinho.


No dia seguinte entraram na parte norte da Terra Parda, onde nenhum homem morava agora, embora fosse um lugar verde e agradável.
Setembro chegou com dias dourados e noites de prata, e eles cavalgaram tranquilos até atingirem o rio Cisnefrota, e encontraram o antigo vau, a leste das cachoeiras onde as águas desciam abruptamente para as terras baixas. Muito mais a oeste, envoltos pela névoa, ficavam os pântanos e ilhotas através dos quais esse rio seguia até juntar-se ao Rio Cinzento: lá inúmeros cisnes moravam em meio aos juncos.
Assim entraram em Eregion, e finalmente surgiu uma manhã bonita, tremeluzindo sobre névoas cintilantes; olhando do acampamento que haviam feito numa colina baixa, os viajantes viram no leste o sol tocando três picos que se lançavam ao céu em meio a nuvens flutuantes: Caradhras, Celebdil e Fanuidhol. Estavam próximos dos Portões de Moria.
Detiveram-se ali por sete dias, pois aproximava-se o momento de uma nova despedida contra a qual eles relutavam. Logo Celeborn, Galadriel e seu povo rumariam para o leste, passando assim pelo Passo do Chifre Vermelho e descendo a Escada do Riacho Escuro e atingindo o Veio de Prata, prosseguindo para sua própria terra. Até aquele ponto, haviam viajado pelos caminhos do oeste, pois tinham muitos assuntos a tratar com Elrond e Gandalf e ali ainda demoraram bastante conversando com seus amigos. Várias vezes, muito depois de os hobbits já estarem dormindo, eles se sentavam juntos sob as estrelas, rememorando as eras passadas e todas as suas alegrias e trabalhos no mundo, ou discutindo assuntos a respeito dos dias vindouros. Se por acaso algum viajante tivesse passado, pouco teria visto ou ouvido, ficando com a impressão de que vira apenas vultos cinzentos esculpidos na pedra, monumentos em memória de coisas esquecidas, agora perdidas em terras despovoadas. Pois eles não se mexiam nem usavam as bocas para falar; olhavam de uma mente para a outra, e apenas seus olhos brilhantes se agitavam e se acendiam, enquanto trocavam pensamentos.
Por fim tudo foi dito, e eles se separaram outra vez por um tempo, até que chegasse a hora de os Três Anéis desaparecerem. Sumindo depressa dentro das pedras e sombras, o povo de mantos cinzentos de Lórien cavalgou na direção das montanhas, e aqueles que estavam indo para Valfenda se sentaram na colina e ficaram olhando, até que da névoa que se adensava surgiu um clarão, e eles não viram mais nada. Frodo sabia que Galadriel erguera o seu anel em sinal de adeus.
Sam voltou-se e suspirou:
— Gostaria de estar voltando para Lórien!
Finalmente numa noite, atravessando as altas charnecas, de repente, como sempre parecia aos viajantes, depararam com o profundo vale de Valfenda e viram lá embaixo lamparinas brilhando na casa de Elrond. Desceram, atravessaram a ponte e chegaram às portas; toda a casa estava cheia de luz e música, celebrando a alegria da volta de Elrond. Primeiro de tudo, antes de comerem ou se banharem, antes mesmo de tirarem suas capas, os hobbits foram procurar Bilbo. Encontraram-no sozinho em seu pequeno quarto, abarrotado de papéis, penas e lápis. Mas Bilbo estava sentado numa cadeira diante de um pequeno fogo reluzente. Parecia muito velho, mas tranquilo, e sonolento.
Abriu os olhos e olhou para cima no momento em que os hobbits entraram.
— Olá!
— Olá! — disse ele. — Então vocês voltaram? E além disso amanhã é meu aniversário. Que esperteza a de vocês! Sabem, vou completar cento e vinte e nove anos. E dentro de mais um ano, se eu for poupado, chegarei à idade do Velho Túk. Gostaria de derrotá-lo, mas isso vamos ver.
Depois da comemoração do aniversário de Bilbo, os quatro hobbits permaneceram em Valfenda por mais alguns dias, sentando-se longamente na companhia do velho amigo, que agora passava a maior parte do tempo em seu quarto, exceto na hora das refeições. Para estas ele ainda era geralmente muito pontual, e raras vezes deixava de acordar em tempo para participar delas. Sentados ao redor do fogo, cada um deles contou tudo o que conseguia lembrar sobre suas viagens e aventuras. No inicio, Bilbo fingia tomar algumas notas, mas frequentemente adormecia; quando acordava, dizia:
— Que esplêndido! Mas onde estávamos?
Então eles continuavam a história do ponto onde ele começara a cabecear.
A única parte que realmente pareceu despertá-lo e segurar-lhe a atenção foi o relato sobre a coroação e o casamento de Aragorn.
— É claro que eu fui convidado para as bodas — disse ele. — E as aguardei durante um longo tempo. Mas, de alguma forma, quando chegou a hora, achei que tinha muitas coisas para fazer aqui, e fazer as malas é um incômodo tão grande!
Após quase uma quinzena, Frodo olhou através de sua janela e viu que geara durante a noite, e as teias de aranha pareciam redes brancas.
Então, de repente, percebeu que deveria partir e dizer adeus a Bilbo. O clima ainda era bom e ameno, após um dos mais adoráveis verões de que se tinha memória; mas chegara outubro e logo começaria a chover e ventar outra vez. E ainda havia um longo caminho a percorrer. Mas não foi exatamente pensar no clima que o agitou. Ele teve um sentimento de que era hora de voltar para o Condado. Sam sentia a mesma coisa.
Apenas uma noite antes, ele dissera:
— Bem, Sr. Frodo, estivemos em muitos lugares e vimos muitas coisas, mas não acho que encontramos um lugar melhor do que este. Há um pouco de tudo aqui, se o senhor me entende: do Condado e da Floresta, de Gondor e das casas dos reis, das estalagens e prados, tudo misturado. Mesmo assim, de alguma forma, sinto que devemos partir em breve. Para falar a verdade, estou preocupado com o meu feitor.
— Sim, um pouco de tudo, Sam, exceto o Mar — respondera Frodo, depois repetiu para si mesmo: — Exceto o Mar.


Naquele dia Frodo falou com Elrond, e ficou acertado que deveriam partir na manhã seguinte. Para a alegria deles, Gandalf disse:
— Acho que vou também. Pelo menos até Bri. Quero ver Carrapicho.
Quando chegou a noite, foram dizer adeus a Bilbo.
— Bem, se vocês precisam ir, não há mais nada a fazer — disse ele. — Lamento. Vou sentir a falta de vocês. É bom saber que estão por perto. Mas agora estou ficando com sono. — Então deu a Frodo seu casaco de mithril e Ferroada, esquecendo-se de que já tinha feito isso antes; deu também três livros de histórias que com sua letra comprida e fina escrevera em diferentes ocasiões, em cujos dorsos vermelhos se lia: Traduções do Élfico, por B.B. Para Sam deu um pequeno saco com ouro. — Quase a última gota que sobrou da safra de Smaug — disse ele. — Pode vir a ser útil, se você pensa em se casar, Sam.
Sam enrubesceu.
— Não tenho nada mais para lhes oferecer, jovens companheiros — disse ele para Merry e Pippin — exceto bons conselhos. — E, quando lhes havia dado uma bela amostra deles, acrescentou um último item, à moda do Condado: — Não permitam que suas cabeças fiquem grandes demais para os seus chapéus! Mas, se vocês não pararem logo de crescer, vão achar os chapéus e as roupas caros.
— Mas, se você quer superar o Velho Túk — disse Pippin — não vejo por que não devamos tentar superar o Urratouro.
Bilbo riu, e tirou de um bolso dois belos cachimbos com embocaduras de madrepérola e adornados com prata trabalhada.
— Pensem em mim quando estiverem fumando! — disse ele. — Os elfos os fizeram para mim, mas agora deixei de fumar. — E então de repente ele cabeceou e adormeceu por uns momentos; quando acordou de novo, disse: — Agora, onde estávamos? Sim, é claro, dando presentes. E isso me faz lembrar: O que aconteceu com o meu anel, Frodo, que você levou embora?
— Eu o perdi, Bilbo querido — disse Frodo. — Livrei-me dele, você sabe.
— Que pena! — disse Bilbo. — Gostaria de vê-lo mais uma vez. Mas não, que tolo eu sou! Foi por isso que você foi, não é? Para se livrar dele? Mas é tudo tão complicado, pois tantas outras coisas parecem ter-se misturado com isso: os afazeres de Aragorn, o Conselho Branco e Gondor, e os Cavaleiros, os sulistas, os olifantes – você realmente viu um, Sam? – e cavernas e torres e árvores douradas e sei lá mais o quê. Evidentemente eu voltei de minha viagem por uma estrada direta demais. Acho que Gandalf poderia ter me mostrado mais lugares. Mas nesse caso o leilão teria terminado antes do meu retorno, e eu teria mais problemas do que tive. De qualquer forma, agora é muito tarde, e eu realmente acho bem mais confortável ficar aqui sentado ouvindo falar sobre tudo. O fogo aqui é acolhedor, e a comida muito boa, e há elfos quando você quiser vê-los. Quem precisa de mais?

A Estrada em frente vai seguindo
Deixando a porta onde começa.
Agora longe já vai indo,
Que a sigam outros, nada impeça!
Que partam para a sua jornada,
Porque meus pés irão ficar
No albergue em luz no fim da Estrada;
Quero dormir e descansar

E, quando Bilbo murmurou as últimas palavras, sua cabeça caiu sobre o peito e ele adormeceu profundamente.
A noite se adensou na sala, e a luz do fogo brilhou mais forte; os hobbits observaram Bilbo dormindo e viram que seu rosto sorria. Por um tempo ficaram sentados em silêncio; depois, Sam, olhando ao redor da sala para as sombras tremendo nas paredes, disse baixinho:
— Não acho, Sr. Frodo, que ele tenha escrito muito enquanto estivemos fora. Agora nunca vai escrever nossa história.
Bilbo então abriu um olho, quase como se tivesse ouvido. Então despertou.
— Vocês entendem, estou ficando tão sonolento — disse ele. — E, quando tenho tempo para escrever, só gosto mesmo é de escrever poesia. Fico pensando, Frodo, meu caro companheiro, se você não se importaria muito em organizar as coisas antes de partir. Recolha todos os meus papéis e anotações, e meu diário também, e leve-os com você, se quiser. Você entende, eu não tive muito tempo para selecionar e organizar e tudo mais. Peça que Sam o ajude, e, quando vocês tiverem organizado a coisa toda, voltem, e eu dou uma examinada rápida em tudo. Não serei muito exigente.
— Claro que vou fazer isso — disse Frodo. — E é claro que voltarei logo: não haverá mais nenhum perigo. Agora existe um rei de verdade, e logo ele vai deixar as estradas em ordem.
— Obrigado, meu caro companheiro! — disse Bilbo. — Esse realmente é um grande alívio para minha cabeça. — E dizendo isso ele adormeceu profundamente outra vez.


No dia seguinte Gandalf e os hobbits se despediram de Bilbo em seu quarto, pois estava frio lá fora; depois disseram adeus a Elrond e às pessoas de sua casa.
Quando Frodo parou na soleira da porta, Elrond lhe desejou uma boa viagem e o abençoou, dizendo:
— Eu acho, Frodo, que talvez você não precise voltar, a não ser que venha muito em breve. Por volta desta época do ano, quando as folhas estão douradas e ainda não caíram, procure Bilbo nos bosques do Condado. Eu estarei com ele.
Ninguém mais ouviu essas palavras, e Frodo as guardou consigo.

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