2 de abril de 2016

Capítulo VI - A Floresta Velha

Frodo acordou de súbito. Ainda estava escuro no quarto. Merry estava ali, com uma vela numa mão, enquanto a outra espancava a porta.
— Já vai! O que foi? — perguntou Frodo, ainda assustado e confuso.
— O que foi? — gritou Merry. — Está na hora de acordar. São quatro e meia e há muita neblina. Vamos! Sam já está aprontando o desjejum. Até Pippin já se levantou. Só vou selar os pôneis e carregar a bagagem. Acorde aquele preguiçoso do Fatty! Ele pelo menos tem de se levantar para se despedir.
Logo após as seis horas, os cinco hobbits estavam prontos para partir.
Fatty Bolger ainda bocejava. Saíram da casa em silêncio. Merry foi na frente, conduzindo um pônei carregado por um caminho que atravessava um matagal atrás da casa, passando por várias plantações. As folhas das árvores reluziam, e todos os galhos gotejavam, o orvalho gelado tornava a grama cinzenta. No silêncio reinante, ruídos distantes pareciam próximos e claros: pássaros tagarelando num quintal, alguém fechando a porta de uma casa ao longe.
No barracão encontraram os pôneis; pequenos animais robustos, do tipo apreciado pelos hobbits: não velozes, mas bons para um longo dia de trabalho.
Montaram, e logo foram em direção à névoa, que parecia relutante em dar-lhes passagem, e se fechava proibitivamente atrás deles. Depois de uma hora de viagem, devagar e sem conversarem, viram de repente a Cerca surgir adiante. Era alta e estava coberta por uma rede de teias de aranha prateadas.
— Como vão conseguir atravessar a Cerca? — perguntou Fredegar.
— Sigam-me e verão! — disse Merry.
Dobrou à esquerda ao longo da Cerca, e logo chegaram a um ponto onde ela se inclinava para dentro, acompanhando a beira de uma valeta. A alguma distância da Cerca, um corte havia sido feito no solo, que descia suavemente e entrava na terra. Nas laterais, paredes de tijolo se erguiam em linha reta, para depois descreverem um arco, formando um túnel que mergulhava embaixo da Cerca e saía do outro lado da valeta.
Neste ponto Fatty Bolger parou.
— Adeus, Frodo! — disse ele. — Gostaria que não estivessem indo pela Floresta. Só espero que não precisem ser resgatados antes do fim do dia. Mas boa sorte para vocês – hoje e sempre!
— Se à nossa frente não existirem coisas piores que a Floresta Velha, serei uma pessoa de sorte — disse Frodo. — Diga a Gandalf para se apressar através da Estrada Leste: logo voltaremos para ela, avançando o mais rápido possível.
— Adeus! — gritaram todos, descendo pela valeta e desaparecendo dentro do túnel.
O interior era escuro e úmido. A outra extremidade era fechada por um portão feito de grossas barras de ferro. Merry desceu do pônei e destrancou o portão, e, quando todos tinham passado, fechou-o novamente. Houve uma pancada e o trinco travou com um clique.
O som era agourento.
— Pronto! — disse Merry. — Vocês deixaram o Condado, e agora estão do lado de fora, na borda da Floresta Velha.
— As histórias que contam sobre este lugar são verdadeiras? — perguntou Pippin.
— Não sei a que histórias se refere — respondeu Merry. — Se estiver falando das histórias de medo que as babás de Fatty lhe contavam, sobre orcs, lobos e coisas assim, diria que não. Pelo menos eu não acredito nelas. Mas a Floresta é esquisita. Tudo nela é muito mais vivo, mais ciente do que está acontecendo, por assim dizer, do que são as coisas no Condado. E as árvores não gostam de forasteiros. Elas vigiam as pessoas. Geralmente, ficam satisfeitas somente em vigiar, enquanto dura a luz do dia, e não fazem muita coisa. De vez em quando, uma árvore mais hostil pode derrubar um galho, ou levantar uma raiz, ou agarrar você com um ramo longo, mas à noite as coisas podem ser mais alarmantes, pelo que ouvi dizer. Estive lá depois do anoitecer apenas uma ou duas vezes, e só perto da Cerca. Tive a impressão de que todas as árvores estavam cochichando entre si, passando notícias e planos numa língua ininteligível; e os galhos balançavam e se mexiam sem qualquer vento. Na verdade, dizem que as árvores se locomovem, e podem cercar forasteiros e prendê-los. Há muito tempo, elas de fato atacaram a Cerca: vieram e se plantaram bem próximas, curvando-se sobre ela. Mas vieram os hobbits e cortaram centenas de árvores; depois fizeram uma grande fogueira na Floresta, queimando todo o solo numa longa faixa a leste da Cerca. Depois disso as árvores desistiram de atacar, mas se tornaram muito hostis. Ainda existe o lugar, um espaço amplo e escalvado não muito distante, onde a fogueira foi feita.
— Só as árvores é que são perigosas? — perguntou Pippin.
— Existem várias coisas esquisitas morando dentro da Floresta, e do lado de lá — disse Merry. — Ou pelo menos assim ouvi dizer; eu nunca vi nenhuma delas. Mas alguma coisa deixa trilhas. Toda vez que se entra lá, pode-se encontrar trilhas abertas; elas parecem mudar de tempo em tempo, de modo singular. Não muito longe deste túnel há, ou houve por um longo tempo, o início de uma trilha bem larga conduzindo à Clareira da Fogueira, e continuando mais ou menos na direção que pretendemos seguir, para o leste e um pouco ao norte. É essa trilha que vou tentar encontrar.
Agora os hobbits tinham deixado o portão do túnel e seguiam pela ampla cavidade.
Do outro lado havia uma trilha que subia até o solo da Floresta, cem metros ou mais além da Cerca; mas desaparecia logo ao atingir o pé das árvores.
Olhando para trás, eles podiam ver a escura linha da Cerca através dos galhos das árvores, que já se emaranhavam ao redor. À frente, só conseguiam enxergar troncos de árvores de tamanhos e formas inumeráveis: retos ou inclinados, torcidos, curvados, grossos ou delgados, lisos ou nodosos e cheios de galhos; e todos os galhos eram verdes ou, quando cobertos por musgo ou lodo, cinzentos.
Só Merry parecia bastante alegre.
— É melhor você ir na frente e encontrar a trilha — disse Frodo a ele. — Não vamos nos dispersar, e é importante sempre ter a Cerca como ponto de referência.
Fizeram o caminho por entre as árvores, e os pôneis pisavam cuidadosamente, evitando as muitas raízes torcidas e emaranhadas. Não havia vegetação rasteira. O solo descrevia uma subida, e, conforme avançavam, parecia que as árvores se tornavam mais altas, mais escuras, e a Floresta mais fechada. Não se ouvia qualquer ruído, a não ser um ocasional gotejar de umidade caindo das folhas paradas. Até agora, não se escutava qualquer sussurro ou movimento entre os galhos; mas todos os hobbits tinham a desagradável sensação de que estavam sendo observados com desaprovação. Logo essa desaprovação se intensificou, passando a antipatia e até inimizade.
A sensação foi ficando cada vez mais forte, até que se viram olhando rápido para cima, ou para trás por sobre os ombros, como se esperassem um golpe repentino.
Ainda não havia nenhum sinal da trilha, e cada vez mais as árvores pareciam barrar a passagem. De repente, Pippin sentiu que não podia suportar isso por mais tempo, e sem avisar ninguém soltou um grito alto:
— Ei! Ei! Não vou fazer mal nenhum. Apenas me deixem passar, está bem?
Os outros pararam, assustados; mas o grito foi sumindo, como se tivesse sido abafado por uma cortina pesada. Não houve eco ou resposta, mas a Floresta pareceu ficar mais fechada e mais atenta que antes.
— Eu não gritaria, se fosse você — disse Merry. — Isso pode prejudicar mais que ajudar.
Frodo começou a se perguntar se realmente era possível encontrar uma trilha, e se tinha feito a coisa certa, trazendo os outros para aquela abominável Floresta.
Merry olhava de um lado para o outro, e parecia já não ter certeza da direção a seguir. Pippin percebeu isso.
— Não demorou muito para nos perdermos — disse ele.
Mas nesse momento Merry deu um suspiro de alívio, e apontou para frente.
— Bem, bem — disse ele. — Estas árvores realmente mudam de lugar. Lá está a Clareira da Fogueira à nossa frente (pelo menos espero que seja), mas a trilha que levava a ela parece ter saído do lugar!
Conforme avançavam, a floresta ficava mais bem iluminada. De repente, saíram do meio das árvores, e se viram num amplo espaço circular. Podia se ver o céu acima, limpo e azul; o que surpreendeu a todos, pois sob o teto da Floresta não puderam ver o dia nascendo, nem a neblina se desvanecer. Entretanto, o sol ainda não estava alto o suficiente para emitir raios que atingissem o centro da clareira, embora sua luz alcançasse as copas das árvores. Na borda da clareira, todas as folhas eram mais densas e verdes, cercando o lugar com uma parede quase sólida. Nenhuma árvore crescia ali, apenas um mato grosso e muitas plantas altas: cicutas e salsas-do-mato de talo comprido e amarelado, ervas-de-fogo que se abriam em penugens cinzentas, urtigas e cardos exuberantes. Um lugar triste, mas que comparado à densa Floresta parecia um jardim alegre e encantador.
Os hobbits se sentiram encorajados, olhando cheios de esperança para a luz do dia que se espalhava no céu. Do outro lado da clareira, havia uma falha na parede de árvores, e além dela uma trilha bem desenhada. Podia-se ver que a trilha entrava na Floresta e que em alguns pontos era larga e descoberta, embora de vez em quando as árvores se aproximassem e a cobrissem com a sombra de seus galhos escuros. Foram por ali. Continuavam a subir suavemente, mas agora com muito mais rapidez e com os corações mais leves, parecia que a Floresta estava mais branda, e que afinal iria deixá-los passar sem grandes dificuldades.
Mas depois de uns momentos o ar ficou quente e abafado. As árvores começaram a se aproximar dos dois lados da trilha, e não se conseguia enxergar muito à frente. Agora sentiam novamente, e mais forte que nunca, a má disposição da Floresta exercendo pressão sobre eles.
O silêncio era tão grande que o ruído dos cascos dos pôneis, farfalhando nas folhas mortas e ocasionalmente tropeçando em raízes escondidas, parecia um estrondo aos ouvidos. Frodo tentou cantar alguma coisa para encorajá-los, mas sua voz não passava de um murmúrio:

Ó vós que vagais pela terra sombria confiai!
Porque, embora negra se estenda,
termina a floresta algures algum dia,
o sol que se abre penetra sua tenda;
sol que levanta, o sol que anoitece,
dia que termina, o dia que começa.
Pois a leste e a oeste a floresta perece...

Perece – logo após ter dito a palavra, sua voz desapareceu. O ar parecia pesado, fazendo com que pronunciar palavras ficasse muito cansativo. Logo atrás deles, um grande ramo caiu de uma velha árvore, quebrando-se com um estalo no solo.
As árvores pareciam se fechar à frente deles.
— Elas não gostam dessa coisa de terminar e perecer — disse Merry. — Eu não cantaria mais nada agora. Espere até chegarmos à borda, e então nos viraremos para elas, cantando num coro bem alto!
Falava de modo alegre, e embora pudesse estar bastante ansioso, não o deixava transparecer. Os outros não responderam. Estavam deprimidos. Um grande peso se instalava no coração de Frodo, que a cada passo se arrependia de ter desafiado a ameaça que as árvores representavam. Estava de fato quase parando e propondo que voltassem (se ainda era possível), quando as coisas mudaram de rumo. A trilha, antes inclinada, ficou quase plana. As escuras árvores se afastaram para os lados, e à frente podia-se ver a trilha seguindo quase em linha reta. Diante deles, mas ainda a certa distância, surgia o topo verde de uma colina, sem árvores, erguendo-se como uma cabeça calva acima da Floresta ao redor. A trilha parecia ir direto para lá.
Agora avançavam rápido novamente, deliciados com a ideia de subir acima do nível do teto da Floresta por uns momentos. A trilha desceu, e depois começou a subir de novo, conduzindo-os finalmente ao pé da encosta íngreme da colina. Ali abandonava as árvores e sumia dentro da turfa. A mata se erguia em toda a volta da colina, como uma cabeleira espessa que terminava abruptamente num círculo em volta de uma coroa raspada.
Os hobbits conduziram os pôneis colina acima, descrevendo voltas e mais voltas até alcançarem o topo. Ali pararam e olharam tudo ao seu redor.
Com a luz do sol, o ar brilhava, embora ainda envolvido pela névoa, que os impedia de enxergar longe. Perto de onde estavam a névoa já tinha se dissipado quase totalmente; embora aqui e acolá ainda se depositasse em depressões na vegetação, e ao sul ainda subisse como vapor ou mechas de fumaça branca.
— Aquela — disse Merry apontando com a mão — aquela é a linha do Voltavime. Ele desce das Colinas e corre em direção ao sudoeste pelo meio da Floresta, para se juntar ao Brandevin abaixo de Fim da Sebe. Não devemos ir por ali! O vale do Voltavime é tido como a parte mais estranha de toda a mata – é como se fosse o centro de onde as coisas estranhas vêm.
Os outros olharam na direção em que Merry apontava, mas não conseguiram ver quase nada além da névoa cobrindo o vale úmido e profundo; além desse ponto, a parte sul da Floresta sumia de vista.
O sol no topo da colina agora ficava quente. Deveria ser por volta de onze horas, mas a cerração do outono ainda os impedia de enxergar muita coisa nas outras direções.
No lado oeste, não conseguiam enxergar nem a Cerca nem o vale do Brandevin além dela. Ao norte, para onde olhavam com mais esperanças, não enxergavam nada que pudesse ser a linha da grande Estrada Leste, para a qual se dirigiam. Estavam ilhados num mar de árvores, e o horizonte parecia coberto por um véu.
No lado sudeste, o solo descia íngreme, como se as encostas da colina mergulhassem por baixo das árvores; pareciam encostas de uma ilha, que na verdade é uma montanha que se ergue de águas profundas. Sentaram-se na borda verde e olharam para a mata abaixo deles, enquanto comiam sua refeição do meio-dia. À medida que o sol ia subindo e passava do meio-dia, puderam ver na distância ao leste as linhas verde-acinzentadas das Colinas que ficavam além da Floresta Velha daquele lado.
Aquilo os animou muito, pois era bom ver o sinal de qualquer coisa além dos limites da mata, embora sua intenção não fosse ir por ali, se pudessem evitar: as Colinas dos Túmulos tinham nas lendas dos hobbits uma reputação tão sinistra quanto a própria Floresta.
Finalmente decidiram continuar a viagem. A trilha que os trouxera até a colina reapareceu do lado norte; mas depois de segui-la por certo tempo perceberam que ela se curvava cada vez mais para a direita. Logo começaram a descer rapidamente, e imaginaram que a trilha devia realmente conduzi-los para o vale do Voltavime: não era em hipótese alguma a direção que desejavam tomar. Depois de discutirem o assunto, resolveram abandonar essa trilha enganosa e rumar para o norte; pois, embora não tivessem conseguido enxergar nada quando estavam na colina, a Estrada devia ficar daquele lado, e não poderia estar a muitas milhas de distância. Além disso, do lado norte e à esquerda da trilha, o terreno parecia mais seco e mais aberto, subindo encostas onde a mata era mais rala, e pinheiros e outras árvores coníferas tomavam o lugar dos carvalhos e freixos e outras árvores estranhas e sem nome da mata mais densa.
Num primeiro momento, pareceu que tinham feito uma boa escolha: avançaram numa velocidade razoável, mas toda vez que vislumbravam o sol em alguma clareira, tinham a inexplicável sensação de estarem enveredando para o leste. Entretanto, depois de um tempo, as árvores começaram a se fechar de novo, exatamente nos pontos em que à distância tinham parecido menos densas e entrelaçadas. Então, de repente, surgiram no solo grandes dobras, que pareciam marcas feitas por rodas de carroças gigantescas; eram sulcos largos como estradas afundadas, há muito sem uso e sufocadas por espinheiros. Essas dobras geralmente cruzavam o caminho que desejavam fazer, e eles só podiam atravessá-las descendo e depois subindo de novo, o que era problemático e difícil para os pôneis. Cada vez que desciam, encontravam a depressão cheia de arbustos densos e de um mato emaranhado, que de alguma forma não davam passagem à esquerda, e só se abriam quando eles viravam para a direita.
Além disso, era preciso caminhar um tanto no fundo, até conseguirem encontrar uma passagem para a outra margem. Cada vez que saíam do sulco, as árvores pareciam mais profundas e escuras, e era sempre mais difícil achar passagens à esquerda e para cima, o que os forçava a ir para a direita e para baixo.
Depois de uma ou duas horas, tinham perdido completamente o senso de direção, embora soubessem muito bem que tinham deixado de rumar para o Norte havia muito tempo.
Estavam sendo conduzidos, simplesmente seguindo um curso escolhido para eles – em direção ao leste e ao sul, para dentro do coração da Floresta, e não o contrário.
A tarde já terminava quando atingiram aos trancos e barrancos uma vala mais larga e profunda que todas que já tinham encontrado. O declive era tão acentuado e o mato tão denso que ficou impossível sair dali, de qualquer um dos lados, sem que deixassem para trás os pôneis e a bagagem. Tudo o que podiam fazer era seguir caminho pela própria vala – para baixo. O solo ficou fofo, e em alguns pontos lamacento; nascentes de água apareceram nas margens, e logo eles se viram seguindo um riacho que corria e murmurava através do leito coberto de mato. Então o solo começou a descer rapidamente, e o riacho ficou mais caudaloso e a correnteza mais forte, fluindo e pulando colina abaixo. Estavam agora num fosso fundo, escuro e coberto por árvores que formavam um arco muito acima de suas cabeças.
Depois de avançarem aos tropeços por algum tempo ao longo da corrente de água, de repente saíram da escuridão, como se através de um portão vissem a luz do sol diante deles. Passando pela abertura, descobriram que tinham, através de uma fissura, descido uma ladeira alta e íngreme, quase um penhasco. Na base dela se estendia uma ampla área coberta por gramíneas e juncos, e ao longe podia-se ver outra ladeira, quase tão íngreme quanto a primeira. Uma tarde dourada de sol tardio se deitava morna e sonolenta sobre a terra escondida entre as duas ladeiras. Bem no meio, um rio de águas escuras descrevia curvas lentas, ladeado por salgueiros antigos, coberto por um arco de ramos de salgueiro, bloqueado por salgueiros caídos e salpicado de milhares de folhas de salgueiro amarelecidas.
O ar estava cheio delas, caindo amarelecidas de seus galhos; de fato havia uma brisa morna e suave soprando de leve no vale, e os juncos farfalhavam, e os ramos de salgueiro estalavam.
— Bem, agora pelo menos tenho uma noção de onde estamos! — disse Merry — Viemos em direção quase oposta ao que pretendíamos. Este é o rio Voltavime! Vou avançar um pouco e explorar o lugar.
Passou à frente, entrando na região iluminada pelo sol, e desapareceu dentro do mato alto. Depois de um tempo reapareceu, e disse que o solo era razoavelmente sólido entre o pé do penhasco e o rio; alguns trechos eram cobertos por turfa firme até a beira da água.
— Além disso — disse ele — parece existir algo parecido com uma trilha sinuosa ao longo deste lado do rio. Se virarmos à esquerda e seguirmos por ela, podemos acabar chegando ao lado leste da Floresta.
— Acho que sim! — disse Pippin. — Quer dizer, se a trilha continuar até lá, e não nos levar simplesmente para um brejo sem saída. Quem você acha que fez essa trilha, e por quê? Tenho certeza de que não foi para nos ajudar. Estou ficando muito desconfiado desta Floresta e de tudo dentro dela, e começo a acreditar em todas as histórias que contam. E você tem alguma ideia da distância que teremos de percorrer rumo ao leste?
— Nenhuma — disse Merry. — Não sei nem em que altura do Voltavime estamos, e quem viria aqui com frequência suficiente para fazer uma trilha. Mas não consigo pensar em outra saída.
Não havendo mais nada a fazer, seguiram em fila, Merry indo na frente pela trilha há pouco descoberta. Por toda a volta os juncos e o mato eram altos e exuberantes, em alguns trechos subindo muito acima de suas cabeças; mas, uma vez encontrada a trilha, foi fácil seguir por ela, pois fazia curvas e dava voltas como se escolhesse o solo mais seguro por entre os brejos e poças. Aqui e ali passava sobre outros córregos, que desciam dos pontos mais altos da mata através de sulcos, para desaguar no Voltavime. Nesses trechos, troncos de árvores ou feixes de lenha tinham sido cuidadosamente colocados para possibilitar a passagem.
Agora os hobbits começavam a sentir muito calor. Exércitos de moscas de todos os tipos zumbiam-lhes nas orelhas, e o sol da tarde queimava suas costas. Finalmente chegaram a uma tênue sombra, projetada por ramos longos e cinzentos que chegavam até a trilha. Cada passo que davam era mais difícil que o anterior. Parecia que uma moleza brotava do solo e subia-lhes pelas pernas, e também caía mansa pelo ar sobre suas cabeças e olhos.
Frodo sentiu o queixo caindo e a cabeça pendendo. Logo à frente, Pippin caiu de joelhos. Frodo parou.
— Não adianta — ele ouviu Merry dizendo. — Não consigo dar mais um passo sem descansar. Preciso dormir. Está fresco embaixo dos salgueiros. Menos moscas!
Frodo não gostou do modo como soava a voz de Merry.
— Vamos! — gritou ele. — Não podemos descansar ainda. Temos primeiro de sair desta Floresta.
Mas os outros estavam meio inconscientes e não prestaram atenção. Bem ao seu lado Sam parou, bocejando e piscando, quase sem dar conta de si.
De repente o próprio Frodo sentiu que o sono lhe tomava conta do corpo. A cabeça rodava. Agora parecia não haver ruído algum no ar. As moscas tinham parado de zumbir.
Apenas um som baixinho, no limite da audição, um farfalhar suave como de uma canção meio sussurrada, parecia agitar os galhos acima. Frodo levantou os olhos pesados e viu um grande salgueiro, velho e esbranquiçado, a se debruçar sobre ele. Parecia enorme, os galhos esticados para cima, erguendo-se como braços com muitas mãos de dedos longos, o tronco nodoso e retorcido se abrindo em largas fendas que estalavam baixinho quando os galhos se moviam. As folhas agitadas contra o céu brilhante lhe ofuscaram a visão, e ele tombou para frente, ficando deitado e imóvel sobre o mato, no mesmo lugar onde tinha caído.
Merry e Pippin se arrastaram um pouco mais para frente, deitando com as costas apoiadas no tronco do salgueiro. Atrás deles as grandes fendas se abriram, como que para recebê-los, enquanto a árvore balançava e estalava. Olharam para cima, para as folhas amarelas e cinzentas, que se moviam suavemente contra a luz e cantavam.
Fecharam os olhos, e então pareceu-lhes que quase podiam escutar palavras, palavras apaziguadoras, dizendo algo sobre água e sono. Cederam ao encanto e caíram em sono profundo ao pé do grande salgueiro esbranquiçado.
Frodo ficou por uns momentos deitado, lutando contra o sono que o dominava; então, com um enorme esforço, ficou em pé novamente. Sentia um implacável desejo de água fresca.
— Espere aqui, Sam — gaguejou ele. — Lavar os pés um pouquinho.
Quase sonâmbulo, foi cambaleando até o lado da árvore que dava para o rio, onde grandes raízes arcadas cresciam dentro da água, como pequenos dragões encaroçados esticando o corpo para beber água. Sentou-se sobre uma dessas e começou a bater os pés quentes na água fresca e escura; ali mesmo adormeceu de repente, com as costas apoiadas na árvore.
Sam sentou-se e coçou a cabeça, a boca se abrindo num bocejo como uma caverna. Estava preocupado. A tarde avançava e essa sonolência não parecia normal.
— Existe mais por trás disto do que apenas sol e ar quente — murmurou ele para si mesmo. — Não gosto desta árvore grande. Não confio nela. Ainda por cima cantando coisas sobre sono! Isso não pode estar certo!
Pôs-se de pé e foi cambaleando ver o que tinha acontecido com os pôneis. Descobriu que dois deles tinham avançado uma boa distância pela trilha.  Estava trazendo-os de volta para junto dos outros quando ouviu dois ruídos; um alto, e outro baixo, mas muito claro.
O primeiro foi o som de algo pesado caindo na água; o outro era um barulho parecido com o que um trinco faz quando se tranca uma porta com cuidado.
Voltou correndo à margem. Frodo estava na água, perto da beira, e uma grande raiz da árvore parecia estar por cima dele, impulsionando-o para baixo, mas ele não lutava contra isso. Sam agarrou-o pelo casaco, arrastando-o para longe do alcance da raiz; depois, com dificuldade, trouxe-o até a margem. Frodo acordou quase imediatamente, tossindo e engasgado.
— Sabe de uma coisa, Sam — disse ele finalmente. — Esta árvore abominável me atirou na água! Eu senti! Aquela raiz grande virou e simplesmente me derrubou na água!
— O senhor estava sonhando, eu acho, Sr. Frodo — disse Sam. — Não devia ter sentado num lugar desses, se estava com tanto sono.
— E os outros? — perguntou Frodo. — Fico pensando que tipo de sonhos estarão tendo.
Os dois deram a volta, chegando ao outro lado da árvore, e então Sam entendeu o clique que tinha escutado. Pippin desaparecera. A fenda da árvore perto da qual se deitara tinha se fechado, de modo que não se via mais nem sinal dela.
Merry estava preso: uma outra fenda tinha se fechado na altura da sua cintura, deixando as pernas de fora, mas o resto do corpo estava dentro de uma abertura escura, cujas bordas o prensavam como uma pinça.
Primeiro, Frodo e Sam bateram no tronco da árvore onde Pippin tinha deitado. Depois tentaram com todas as forças abrir a mandíbula da fenda que prendia o pobre Merry.
Nada disso adiantou.
— Que coisa horrível! — gritou Frodo desesperado. — Por que fomos entrar nesta Floresta terrível? Queria que tivéssemos voltado para Cricôncavo!
Chutou a árvore com toda a força, sem se importar com os próprios pés. Um tremor quase imperceptível percorreu toda a árvore, do caule até os galhos; as folhas farfalharam e sussurraram, mas agora produzindo um som que parecia uma risada distante e fraca.
— Suponho que não temos um machado na bagagem, Sr. Frodo? — perguntou Sam.
— Eu trouxe uma pequena machadinha para cortar lenha — disse Frodo. — Não ajudaria muito.
— Espere um pouco! — gritou Sam, agitado por uma ideia sugerida pela palavra lenha”. — Podemos fazer alguma coisa com fogo!
— Sim, podemos — disse Frodo cheio de dúvidas. — Mas também podemos assar Pippin vivo lá dentro.
— Para começar, podemos tentar ferir ou amedrontar esta árvore — disse Sam, furioso. — Se isto não os libertar, eu derrubo a árvore, nem que seja a dentadas.
Correu até os pôneis e logo depois voltou com duas caixas de pederneiras e uma machadinha.
Rapidamente juntaram capim e folhas secas, e pedaços de casca de árvore; fizeram uma pilha de gravetos e galhos cortados. Amontoaram tudo contra o tronco, no lado da árvore oposto àquele onde estavam os prisioneiros. Logo que Sam lançou uma faísca, o capim seco começou a queimar, e uma lufada de chamas e fumaça subiu. Os gravetos estalavam. Pequenas línguas de fogo lambiam a casca sulcada da velha árvore, chamuscando-a. Um tremor percorreu todo o salgueiro. As folhas pareciam sibilar sobre as cabeças deles com um ruído de dor e raiva. Um berro agudo veio de Merry, e de dentro da árvore escutaram Pippin dar um grito abafado.
— Apague isso! Apague! — gritou Merry. — Ele vai me partir em dois se você não apagar. Ele está dizendo!
— Quem? O quê? — berrou Frodo, dando a volta rápido até o outro lado da árvore.
— Apague isso! Apague o fogo! — implorou Merry,
Os galhos do salgueiro começaram a balançar violentamente. Um ruído como o do vento começou a subir e a se espalhar pelos galhos de todas as outras árvores em volta, como se tivessem derrubado uma pedra no sono quieto do vale, provocando ondas de fúria que se alastravam por toda a Floresta. Sam começou a chutar a pequena fogueira e a pisar nas faíscas. Mas Frodo, sem ter uma ideia clara do motivo pelo qual fazia isto, ou do que esperava conseguir, correu ao longo da trilha gritando “Socorro! Socorro! Socorro!” Tinha a impressão de mal poder ouvir o som agudo da própria voz, carregada para longe pelo vento do salgueiro e sufocada pelo clamor das folhas, assim que as palavras saíam de sua boca. Sentiu-se desesperado: perdido e estúpido.
De repente parou. Ouviu uma resposta, ou pelo menos pensou ter ouvido – parecia que vinha de trás, da parte baixa da trilha, dentro da Floresta.
Voltou-se e escutou, e logo não teve mais dúvidas: alguém entoava uma canção – uma voz grave e alegre cantava, despreocupada e alegre, mas as palavras não faziam sentido:

Ei boneca! Feliz neneca!
Dingue-dongue dilo!
Dingue-clongue! Não delongue!
Largue logo aquilo! Tom Bom, jovial
Tom, Tom Bombadillo.

Meio esperançosos e meio amedrontados por algum possível novo perigo, Frodo e Sam ficaram paralisados. De repente, saindo de uma longa cadeia de palavras sem sentido (ou pelo menos assim parecia), a voz ficou mais alta e clara, explodindo nesta canção:

Vem, linda boneca! Bela neneca!
Querida minha! Leve é o vento e leve é a pluma da andorinha.
Lá embaixo sob a Montanha, ao sol brilhando,
À luz da lua, na soleira já esperando,
Minha linda senhora está,
filha da mulher do Rio,
Mais clara do que a água, esbelta qual ramo esguio.
O velho Tom Bombadil, nenúfares carregando,
Salta de volta pra casa. Podes ouvi-lo cantando?
Vem, linda boneca, bela neneca! Feliz e bela,
Fruta d’Ouro, Fruta d’Ouro, linda amora amarela!
Pobre e velho salgueiro, esconde tuas raízes!
Tom tem pressa agora. Há noites e dias felizes.
Tom de volta de novo, nenúfares carregando.
Vem, linda boneca, bela neneca!
Podes ouvir-me cantando?

Frodo e Sam pareciam enfeitiçados. O vento foi abrandando. As folhas não se agitavam mais nos galhos paralisados. Houve nova explosão de música, e então, de repente, saltando e dançando pela trilha, apareceu por cima dos juncos um velho chapéu gasto, de copa alta e com uma pena azul comprida presa à fita. Com mais um salto e um pulo, apareceu um homem, ou pelo menos assim parecia. De qualquer modo, era grande e pesado demais para ser um hobbit, embora não alto o suficiente para ser uma pessoa grande; mas o barulho que fazia era digno de uma delas, pisando forte com grandes botas amarelas que lhe cobriam as pernas grossas, e avançando pelo capinzal e por entre os juncos como uma vaca que desce para beber água. Vestia um casaco azul e tinha uma longa barba castanha; os olhos eram claros e azuis, o rosto vermelho como uma maçã madura, mas que se franzia em inúmeras rugas provocadas pela sua risada. Trazia nas mãos uma enorme folha, à guisa de bandeja, que sustentava um pequeno ramalhete de nenúfares brancos.
— Socorro! — gritaram Frodo e Sam, correndo em direção a ele com os braços estendidos.
— Ooh! Ooh! Quietos aí! — gritou o velho, levantando uma mão, ao que eles pararam imediatamente, como se tivessem sido paralisados. — Agora, meus pequenos camaradas, aonde vão assim, bufando como foles? Qual é o problema aqui? Sabem quem eu sou? Meu nome é Tom Bombadil. Contem-me seu problema! Tom está com pressa. Não amassem meus nenúfares!
— Meus amigos estão presos no salgueiro — gritou Frodo, quase sem fôlego.
— O Sr. Merry está sendo esmagado numa fenda — berrou Sam.
— O quê? — gritou Tom Bombadil, dando um salto no ar. — O Velho Salgueiro-homem? Nada pior que isso? Podemos resolver isso logo. Conheço a melodia para ele. Velho Salgueiro-homem cinzento! Vou congelar a seiva dele, se não se comportar. Vou cantar até que as raízes saiam do solo. Vou cantar para levantar um vento que leva embora folha e ramo. Este Velho Salgueiro-homem!
Aninhando cuidadosamente os nenúfares no chão, correu até a árvore. Ali viu os pés de Merry ainda de fora – o resto já tinha sido tragado pela árvore. Tom colocou a boca perto da fenda e começou a cantar dentro dela em voz baixa. Os hobbits não conseguiam entender as palavras, mas ficou evidente que Merry estava acordando.
Suas pernas começaram a chutar. Tom pulou para trás, e quebrando um galho que pendia começou a golpear a árvore com ele.
— Deixe-os sair, Velho Salgueiro-homem! — disse ele. — O que está pensando? Não deveria estar acordado. Coma terra! Cave fundo! Beba água! Vá dormir! Bombadil está falando!
Então agarrou os pés de Merry e o puxou da fenda que se abriu de repente.
Houve um estalo violento e a outra fenda se abriu, e dela Pippin pulou, como se tivesse sido chutado. Então, com um estalido ruidoso, as duas fendas se fecharam novamente. A árvore tremeu desde a raiz até a copa, depois do que fez-se absoluto silêncio.
— Obrigado! — disseram os hobbits, um após o outro.
Tom Bombadil desatou a rir.
— Bem, meus pequenos camaradas! — disse ele, abaixando-se para poder enxergar melhor os rostos deles. — Vocês vêm para casa comigo! A mesa está posta com creme amarelo, favos de mel e pão branco com manteiga. Fruta d’Ouro está esperando. Teremos tempo para perguntas enquanto comermos. Sigam-me o mais rápido que conseguirem!
Com isso apanhou os nenúfares, e então com um aceno de mão foi pulando e dançando pela trilha em direção ao leste, ainda cantando alto uma canção que não fazia sentido.
Surpresos e aliviados demais para poderem conversar, os hobbits o seguiram o mais rápido que puderam. Mas isso não era rápido o suficiente.
Tom logo desapareceu na frente deles, e o som de sua música ficou mais fraco e distante. De repente sua voz voltou, flutuando num alto:

Olá! Saltando, meus amiguinhos, vamos o Rio vencer!
Tom chegará na frente, e velas irá acender.
A oeste desce o sol: logo a treva cairá,
Quando a noite se abater, então a porta se abrirá,
Nas janelas vai brilhar da luz o bruxuleio.
Não temer o negro amieiro! Não ouvir o velho salgueiro!
Não temer ramo ou raiz. Tom lá estará na certa. Salve,
feliz neneca! Esperemos de porta aberta!

Depois disso os hobbits não ouviram mais nada. Quase imediatamente, o sol começou a afundar nas árvores atrás deles. Pensaram na luz oblíqua da noite brilhando no rio Brandevin, e nas janelas de Buqueburgo começando a se iluminar com centenas de lamparinas. Sombras enormes cruzaram o caminho; troncos e galhos de árvores pendiam escuros e ameaçadores sobre a trilha. Uma névoa branca começou a subir em espirais na superfície do rio, espalhando-se pelas raízes das árvores sobre as margens.
Do solo bem debaixo de seus pés, um vapor sombrio subia e se misturava no crepúsculo que caía rapidamente.
Ficou difícil seguir a trilha, pois estavam muito cansados. Sentiam as pernas como chumbo. Ruídos estranhos e furtivos percorriam os arbustos e juncos dos dois lados; se olhavam para o céu claro, viam rostos retorcidos e deformados, que projetavam sombras escuras contra o crepúsculo, olhando de soslaio para eles, dos altos barrancos e das bordas da floresta.
Eles começaram a sentir que toda aquela terra era irreal, e que estavam caminhando num sonho agourento, do qual nunca acordavam.
No momento em que perceberam que os pés não poderiam mais seguir adiante, notaram que o solo subia suavemente. A água começou a murmurar. No escuro, enxergaram um reluzir branco de espuma, no ponto onde o rio corria sobre uma pequena cascata. Então, de repente, as árvores acabaram e a névoa ficou para trás. Saíram da Floresta, encontrando um grande espaço gramado à sua frente. O rio, agora pequeno e rápido, descia num salto alegre para recebê-los, brilhando aqui e ali com o reflexo das estrelas, que já iluminavam o céu.
A grama sob seus pés era macia e curta, como se tivesse sido podada. Os limites da Floresta atrás deles estavam desbastados e aparados como uma cerca-viva. A trilha agora se estendia plana à frente, bem cuidada e ladeada por pedras. Ia fazendo curvas até o topo de um rochedo coberto de grama, agora pintado de cinza pela luz das estrelas; e lá adiante, ainda acima, no topo de um outro barranco, viram as luzes de uma casa piscando. A trilha desceu mais uma vez, e subiu de novo, ao longo de uma encosta suave coberta de turfa, em direção às luzes. De repente, um largo facho de luz amarela fluiu brilhante de dentro de uma porta que se abria. Ali, à sua frente, estava a casa de Tom Bombadil, acima, abaixo, sob a colina.
Atrás da casa havia uma saliência íngreme do solo, cinzenta e nua, e além dela as formas escuras das Colinas dos Túmulos sumiam a leste dentro da noite.
Todos correram naquela direção, hobbits e pôneis. Metade do cansaço e metade do medo já tinham ficado para trás.

Vem, feliz neneca! Rolava a canção para saudá-los.
Vem, feliz neneca! Vamos dançando, queridos!
Hobbits e pôneis todos! Somos por festa caídos.
Agora a alegria começa! Vamos juntos cantar!

Então uma outra voz limpa, jovem e velha como a primavera, como a canção da água que flui alegre noite adentro, vinda de uma clara manhã nas colinas, veio descendo sobre eles como uma chuva de prata:

Entoe-se agora a canção! Vamos juntos cantar
O sol e a estrela, a lua e a neblina, a chuva e nuvem no ar,
A luz sobre o botão, sobre a pluma o orvalho,
O vento no campo aberto, a flor no arbusto vário,
À sombra do lado o junco, nemfares sobre o Rio:
A bela Filha das Águas e o velho Tom Bombadil.

E com essa canção os hobbits pisaram na soleira da porta, e foram então cobertos por uma luz dourada.

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