17 de abril de 2016

Capítulo VI: De Fëanor e da libertação de Melkor

Agora as Três Famílias dos eldar estavam finalmente reunidas em Valinor, e Melkor estava acorrentado. Esse foi o Apogeu do Reino Abençoado, a plenitude de sua glória e bemaventurança, longo na contagem dos anos, mas muito breve na memória. Naquele tempo, os eldar atingiram a maturidade de corpo e mente; e os noldor progrediram sempre em conhecimentos e habilidades; e os longos anos foram preenchidos com seus trabalhos prazerosos, nos quais inventaram muitas coisas belas e maravilhosas. Aconteceu então que os noldor foram os primeiros a quem ocorreu a ideia das letras, e Rúmil de Tirion foi o nome do estudioso que conseguiu adequar sinais ao registro da fala e da música, alguns para serem gravados em metal ou em pedra, outros para serem desenhados com pincel ou pena.
Naquela época, nasceu em Eldamar, na Casa do Rei em Tirion, no cume de Túna, o filho mais velho de Finwë, e o mais amado. Curunfinwë era seu nome, mas por sua mãe ele foi chamado de Fëanor, Espírito de Fogo; e assim é lembrado em todas as histórias dos noldor.
Míriel era o nome da sua mãe, que era chamada Serindë, por sua extraordinária competência no tear e no bordado; pois suas mãos eram mais adequadas à delicadeza do que quaisquer outras entre os noldor. O amor de Finwë e Míriel era imenso e cheio de alegria, pois começara no Reino Abençoado nos Dias de Bem-aventurança. Entretanto, ao dar à luz seu filho, Míriel foi consumida em corpo e em espírito; e, depois do nascimento da criança, ela ansiava por se livrar do esforço de viver E, quando deu nome ao filho, disse ela a Finwë — Nunca mais terei filhos; pois as forças que teriam nutrido a vida de muitos foram todas para Fëanor.
Finwë entristeceu-se, então, pois os noldor eram jovens, e ele desejava trazer muitos filhos à bem-aventurança de Aman. Disse ele: — Sem dúvida, existe cura em Aman. Aqui toda a exaustão pode encontrar alívio. — Porém, como Míriel continuasse definhando, Finwë procurou aconselhar-se com Manwë, e Manwë a entregou aos cuidados de Irmo, em Lórien. Em sua despedida (por um curto período, pensava ele), Finwë estava tnste, porque parecia uma infelicidade que a mãe se afastasse e perdesse no, mínimo o início da infância do filho.
— É mesmo uma infelicidade — disse Míriel —, e eu choraria, se não estivesse tão exausta. Mas não me culpe por isso, nem por nada que possa acontecer.
Ela foi então para os jardins de Lórien, onde se deitou para dormir. No entanto, embora parecesse estar dormindo, seu espírito de fato abandonou o corpo e passou em silêncio para os palácios de Mandos. As criadas de Estë cuidavam do corpo de Míriel, e ele manteve seu viço, mas ela não voltou. Finwë vivia, portanto, desolado. Ia com frequência aos jardins de Lórien e, sentado à sombra dos salgueiros prateados ao lado do corpo da esposa, ele a chamava por seus nomes. Mas sem nenhum resultado. E somente ele em todo o Reino Abençoado era privado de alegria. Depois de algum tempo, ele deixou de ir a Lórien.
A partir daí, todo o seu amor ele dedicava ao filho. E Fëanor crescia rapidamente, como se houvesse dentro dele um fogo secreto aceso. Era alto, belo de rosto e dominador; seus olhos tinham um brilho penetrante, e seus cabelos eram negros e lustrosos. Para atingir seus objetivos, era ávido e obstinado. Poucos chegaram a conseguir mudar sua atitude por meio de conselhos, ninguém pela força. De todos os noldor, daquela época ou de épocas posteriores, tomou-se ele o de raciocínio mais sutil e de mãos mais habilidosas. Na juventude, aperfeiçoando a obra de Rúmil, Fëanor criou as letras que levam seu nome, e que os eldar usam desde então; e foi ele o primeiro dos noldor a descobrir como fazer, com técnica, pedras preciosas maiores e mais brilhantes do que as da Terra. As primeiras pedras que Fëanor criou eram brancas e sem cor, mas, quando expostas à luz das estrelas, brilhavam com raios azuis e prateados mais luminosos do que Helluin. E outros cristais ele também fez, com os quais era possível enxergar coisas distantes, em tamanho pequeno mas com nitidez, como se fosse com os olhos das águias de Manwë. Raramente descansavam as mãos e a mente de Fëanor.
Enquanto ainda era muito jovem, Fëanor desposou Nerdanel, a filha de um grande ferreiro chamado Mahtan, que entre os noldor era o mais querido de Aulë. E, com Mahtan, Fëanor muito aprendeu sobre a criação de objetos de metal e de pedra. Nerdanel também tinha firmeza e determinação, mas era mais paciente do que Fëanor, procurando compreender as mentes, em vez de domina-las; e a princípio ela o refreava quando o temperamento do marido se incendiava. Mas os atos posteriores do marido a entristeceram; e os dois se desentenderam.
Sete filhos deu ela a Fëanor. Sua disposição ela transmitiu em parte a alguns deles, mas não a todos.
Ora, ocorreu que Finwë tomou como segunda esposa Indis, a Loura. Era ela uma vany a, parente próxima de Ingwë, o Rei Supremo, alta e de cabelos dourados, e sob todos os aspectos diferente de Míriel. Finwë muito a amou e voltou a se alegrar. Porém, a lembrança de Míriel não abandonou a casa de Finwë, nem seu coração; e, de todos os que ele amava, Fëanor ocupava a maior parte de seu pensamento.
O casamento do pai não agradou a Fëanor; e ele não sentia grande amor nem por Indis, nem por Fingolfin e Finarfin, os filhos dela. Fëanor vivia separado deles, em viagens de exploração pela terra de Aman ou ocupando-se com o conhecimento e os ofícios que adorava. Nos tristes acontecimentos que mais tarde vieram a ocorrer, e nos quais Fëanor assumiu a posição de líder, muitos perceberam o resultado dessa cisão dentro da Casa de Finwë, considerando que, se Finwë tivesse suportado sua perda e se contentado em ser pai de seu poderoso filho, os caminhos de Fëanor teriam sido diferentes, e um grande mal poderia ter sido evitado. Pois a dor e a discórdia na Casa de Finwë estão gravadas na memória dos elfos noldorin. Contudo, os filhos de Indis foram notáveis e gloriosos, bem como os filhos deles; e, se eles não tivessem nascido, a história dos eldar teria empobrecido.
Ora, mesmo enquanto Fëanor e os artífices dos noldor trabalhavam com prazer, sem prever nenhum fim para suas atividades, e enquanto os filhos de Indis atingiam sua plena maturidade, o Apogeu de Valinor se aproximava do fim. Pois ocorreu que Melkor, como os Valar haviam determinado, completou sua pena de cativeiro, tendo permanecido três eras no cárcere de Mandos, totalmente só. Por fim, como Manwë havia prometido, ele foi conduzido novamente diante dos tronos dos Valar. Contemplou então sua glória e sua bem-aventurança; e a inveja encheu seu coração. Viu os Filhos de Ilúvatar sentados aos pés dos Poderosos, e o ódio o dominou. Observou a abundância de pedras preciosas, e as cobiçou. Ocultou, porém, seus pensamentos e adiou sua vingança.
Diante dos portões de Valmar, Melkor humilhou-se aos pés de Manwë e suplicou seu perdão, jurando que, se pudesse ser equiparado mesmo ao mais ínfimo dos seres livres de Valinor, ajudaria os Valar em todas as suas obras e, principalmente, na cura dos muitos danos que causara ao mundo. E Nienna auxiliou em sua súplica; mas Mandos não se pronunciou.
Concedeu-lhe então Manwë o perdão; mas os Valar ainda não se dispunham a deixá-la partir para fora do alcance de sua visão e de sua vigilância; e ele foi obrigado a perma necer dentro dos portões de Valmar. Entretanto, eram aparentemente justos todos os atos e palavras de Melkor naquela época; e tanto os Valar quanto os eldar se beneficiavam de sua ajuda e de seus conselhos, se os procurassem. Portanto, dentro de pouco tempo, ele recebeu permissão para andar livremente pelo território; e a Manwë pareceu que o mal de Melkor estava curado. Pois Manwë era isento de maldade e não conseguia compreendê-la; e sabia que no início, no pensamento de Ilúvatar, Melkor havia sido igual a ele; e Manwë não chegava a enxergar as profundezas do coração de Melkor e não percebia que o amor o abandonara para sempre.
Ulmo, porém, não se iludiu. E Tulkas cerrava os punhos sempre que via passar Melkor, seu inimigo. Pois se Tulkas é lento para chegar à ira, também é lento para esquecer. Seguiram os dois, no entanto, a decisão de Manwë; pois aqueles que defendem a autoridade contra a rebelião não devem eles próprios se rebelar.
Ora, em seu coração, Melkor odiava acima de tudo os eldar, tanto por serem belos e alegres quanto por ver neles a razão para o ataque dos Valar e sua própria derrocada. Por esse motivo, mais ainda simulava amor por eles, procurando sua amizade e lhes oferecendo seu conhecimento e seus serviços em qualquer grande obra que quisessem empreender. Os vany ar na realidade ainda o mantinham sob suspeita, pois moravam à luz das Árvores e se sentiam satisfeitos; e aos teleri, ele não dava atenção, considerando-os desprezíveis, instrumentos fracos demais para suas intenções. Já os noldor se encantavam com o conhecimento oculto que ele lhes poderia revelar. E alguns deram ouvidos a palavras que teria sido melhor nunca terem escutado. Melkor de fato declarou mais tarde que Fëanor havia aprendido grandes artes com ele em segredo, e que havia sido instruído por ele em suas maiores obras; mas Melkor mentia, em sua cobiça e inveja, pois nenhum dos eldalië jamais odiou Melkor mais do que Fëanor, filho de Finwë, que primeiro lhe deu o nome de Morgoth. E, embora tivesse se enredado nas tramas  da perversidade de Melkor contra os Valar, Fëanor jamais conversou com ele nem aceitou seus conselhos Pois Fëanor era movido pelo fogo de seu próprio coração, apenas; trabalhando sempre com rapidez e em solidão; e não pedia ajuda nem procurava a opinião de ninguém que habitasse Aman, fosse grande, fosse pequeno, à única e breve exceção de Nerdanel, a Sábia, sua esposa.

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