23 de abril de 2016

Capítulo VI - A batalha dos Campos de Pelennor

Mas não era um chefe-orc nem um salteador qualquer quem comandava o ataque contra Gondor. A escuridão se desfazia precocemente, antes da data que seu Mestre havia determinado: a sorte o traíra pelo momento, e o mundo se voltara contra ele; a vitória lhe escapava das mãos no momento em que as estendia para agarrá-la. Mas seu braço era longo. Ainda estava no comando, controlando grandes poderes. Rei, Espectro do Anel, Senhor dos Nazgúl, ele ainda tinha muitas armas. Abandonou o Portão e desapareceu.
O Rei Théoden da Terra dos Cavaleiros atingira a estrada que conduzia do Portão para o Rio, e rumou para a Cidade, agora a menos de uma milha de distância. Diminuiu um pouco a velocidade, espreitando novos inimigos, e seus cavaleiros o alcançaram; Dernhelm estava entre eles. À frente e mais próximos das muralhas os homens de Elfhelm estavam em meio às torres de sítio, apunhalando, matando, empurrando os inimigos para dentro das trincheiras em chamas. A metade norte do Pelennor estava quase toda devastada, e lá se viam acampamentos ardendo; os orcs fugiam na direção do Rio como bandos de animais à frente de caçadores; os rohirrim iam de um lado para o outro como bem queriam. Mas ainda não tinham derrubado o cerco, nem tomado o Portão. Muitos inimigos estavam diante dele, e na metade mais distante da planície ainda havia outras tropas por combater. Ao sul, além da estrada, estava a maior força dos haradrim, e lá os seus cavaleiros se reuniam em torno da bandeira de seu capitão. Ele olhou e na luz que crescia viu a bandeira do rei; percebeu que ela estava muito à frente da batalha e com poucos homens em volta. Então encheu-se de uma ira sanguinária e soltou um grito; exibindo sua bandeira, serpente negra sobre escarlate, partiu contra o cavalo branco e o campo verde com uma grande força de homens; as cimitarras nas mãos dos sulistas pareciam estrelas faiscando.
Então Théoden percebeu a presença do inimigo, e não esperou pelo ataque: gritando para Snawmana, atirou-se ao seu encontro. Grande foi o estrondo do choque entre os dois. Mas ardeu com mais intensidade a fúria branca dos homens do norte que eram mais habilidosos e ferinos com lanças longas. Eram poucos mas abriram caminho em meio aos sulistas como um raio na floresta. Bem ao centro da tropa ia Théoden, filho de Thengel, e sua lança se partiu no momento em que ele derrubou o capitão inimigo.
Sacou então a espada, avançou contra a bandeira, derrubando seu mastro e quem a carregava, e a serpente negra soçobrou. Todos da cavalaria oponente que escaparam da morte viraram-se e fugiram para longe. Mas eis que, subitamente, em meio à glória do rei, seu escudo dourado embaçou-se. A nova manhã apagou-se no céu. A escuridão caiu sobre ele. Os cavalos empinavam-se relinchando. Homens atirados das selas gemiam no chão.
— Sigam-me! Sigam-me! — gritou Théoden. — Levantem-se, eorlingas! Não temam a escuridão!
Mas Snawmana, num terror alucinado, levantou-se sobre as pernas traseiras, lutando com o ar, e então, com um rincho horrível, caiu sobre o próprio lombo: uma lança negra o atingira. O rei ficou debaixo do cavalo.
A grande sombra desceu como uma nuvem. E, para a surpresa de todos, era uma criatura alada: se era um pássaro, então era maior que todos os outros pássaros, e era nu, sem penas ou plumas, e suas enormes asas eram como membranas de couro entre dedos de garras; e seu corpo fedia. Talvez fosse uma criatura de um mundo mais antigo, cuja espécie, sobrevivendo em montanhas esquecidas e frias sob a lua, perdurara além de seus dias, e em ninhos hediondos criara esta última criatura extemporânea, voltada para o mal.
E o Senhor do Escuro a acolhera, alimentando-a com carnes nojentas, até que crescesse além da medida de todos os seres voadores; depois deu-a de presente a seu servidor, para que fosse sua montaria. A criatura veio descendo, descendo, e então, fechando as membranas que lhe cobriam os dedos, soltou um grito crocitante, e pousou sobre o corpo de Snawmana, enterrando nele as garras e abaixando o pescoço longo e nu. Na criatura estava montado um vulto, coberto com um manto negro, enorme e ameaçador. Usava uma coroa de aço, mas entre coroa e capa não havia nada para se ver, exceto apenas o brilho de um olhar mortal: o Senhor dos Nazgúl.
Voltara para o ar, chamando sua montaria antes que a escuridão cedesse, e agora vinha de novo, trazendo a destruição, transformando esperança em desespero, e vitória em morte. Brandia uma enorme maça negra.
Mas Théoden não estava completamente abandonado. Os cavaleiros de sua casa jaziam mortos ao redor dele, ou então, dominados pela loucura de seus cavalos, tinham sido levados para longe. Mas um ainda permanecia lá: Dernhelm, o jovem, fiel acima de qualquer medo; e chorava, pois amara seu rei como a um pai. Durante todo o ataque, Merry cavalgara ileso atrás dele, até a chegada da Sombra; então Windfola, em seu terror, derrubou os dois ao chão, e agora corria alucinado sobre a planície. Merry se arrastava de quatro como um animal que não enxerga, e tamanho terror  dominava que ele se sentia doente e cego.
— Homem do Rei! Homem do Rei! — seu coração gritava. — Você deve ficar ao lado dele. O senhor será como um pai para você, foi isso o que você disse.
Mas sua vontade não respondia, e o corpo tremia. Não ousava abrir os olhos nem olhar para cima. Então, na escuridão de sua mente, teve a impressão de ouvir Dernhelm falando: mas agora sua voz parecia estranha, fazendo-o lembrar de alguma outra voz que já ouvira antes.
— Vá embora, criatura asquerosa, senhor das aves carniceiras! Deixe os mortos em paz!
Uma voz fria respondeu:
— Não te intrometas entre o nazgúl e sua presa! Ou ele te matará na tua hora. Vai levar-te embora para as casas de lamentação, além de toda a escuridão, onde tua carne será devorada, e tua mente murcha será desnudada diante do Olho Sem Pálpebra.
Uma espada tiniu ao ser sacada.
— Faça o que quiser; vou impedi-lo, se conseguir.
— Impedir-me? Tu és tolo. Nenhum homem mortal pode me impedir!
Então Merry ouviu o mais estranho de todos os sons daquela hora. Parecia que Dernhelm estava rindo, e sua voz cristalina era como aço.
— Mas não sou um homem mortal! Você está olhando para uma mulher. Sou Éowyn, filha de Éomund. Você está se interpondo entre mim e meu senhor, que também é meu parente. Suma daqui, se não for imortal! Pois seja vivo ou morto-vivo obscuro, vou golpeá-lo se tocar nele.
A criatura alada gritou contra ela, mas o Espectro do Anel não respondeu e ficou em silêncio, como se tomado por uma dúvida repentina. Por um momento, o coração de Merry foi presa de puro assombro. Abriu os olhos e viu que o negrume subira acima deles. Ali, a alguns passos dele, estava o grande animal, e tudo parecia escuro ao seu redor, e sobre ele assomava o Senhor dos Nazgúl como uma sombra de desespero. Um pouco à esquerda estava aquela que ele chamara de Dernhelm. Mas o elmo de seu segredo lhe caíra da cabeça, e os cabelos claros, libertos de seus laços, reluziam num ouro pálido sobre os ombros. Os olhos cinzentos como o mar eram duros e cruéis, e apesar disso havia lágrimas em suas faces. Segurava uma espada na mão, e erguia o escudo contra o horror dos olhos do inimigo. Era Éowyn, e também Dernhelm. Pois na mente de Merry de repente surgiu, como um clarão, a imagem do rosto que ele vira na cavalgada, partindo do Templo da Colina: o rosto de alguém que vai em busca da morte, sem qualquer esperança.
Seu coração encheu-se de pena, misturada a uma grande surpresa, e de repente a coragem de sua raça, de inflamação lenta, despertou. Cerrou a mão. Ela não deveria morrer, tão bela, tão desesperada! Pelo menos não morreria sozinha, sem ajuda.
O rosto do inimigo não estava voltado para ele, mas mesmo assim o hobbit mal ousava se mexer, aterrorizado com a possibilidade de que aqueles olhos mortais recaíssem sobre ele. Devagar, devagar, começou a se arrastar para o lado; mas o capitão Negro, cheio de dúvidas e de intenções malignas em relação à mulher diante dele, não deu ao hobbit mais atenção do que daria a um verme na lama.
De repente o grande animal bateu suas asas hediondas, e o vento produzido por elas era nojento. Mais uma vez subiu aos ares, e depois se arremessou rápido contra Éowyn, guinchando, atacando com bico e garras.
Mesmo assim ela não recuou: donzela dos rohirrim, filha de reis, esbelta e ao mesmo tempo como uma lâmina de aço, bela mas terrível. Desferiu um golpe rápido, habilidoso e fatal. Cortou fora o pescoço esticado, e a cabeça decepada caiu como uma pedra. Pulou para trás no momento em que a enorme figura caiu destruída, as vastas asas abertas, inerte no chão; e com sua queda a sombra desapareceu. Uma luminosidade caiu ao redor de Éowyn, e seus cabelos reluziram aos raios do sol que nascia.
Da ruína ergueu-se o Cavaleiro Negro, alto e ameaçador, assomando sobre ela. Com um grito de ódio que feria os ouvidos como veneno, desferiu um golpe com sua maça. Partiu-se em pedaços o escudo de Éowyn, e seu braço ficou quebrado; ela cambaleou e caiu de joelhos. Ele pairava sobre ela como uma nuvem, os olhos faiscando; ergueu sua maça para matar.
Mas de repente ele também cambaleou, com um grito lancinante de dor, e seu golpe passou longe, atingindo o chão. A espada de Merry o ferira por trás, rasgando de cima a baixo o manto negro e, passando por baixo da couraça metálica, atravessara o tendão atrás de seu forte joelho.
— Éowyn! Éowyn! — gritava Merry.
Então cambaleando, esforçando-se para se levantar, com suas últimas forças, ela enfiou a espada entre coroa e manto, quando os grandes ombros se curvaram diante dela. A espada se estilhaçou faiscando em mil fragmentos. A coroa rolou para o chão estrepitosamente. Éowyn caiu para a frente, sobre o corpo de seu inimigo. Mas eis que o manto e a couraça estavam vazios. Jaziam agora disformes no chão, rasgados e amontoados; e um grito subiu estremecendo o ar, e foi sumindo num gemido chiado, passando com o vento, feito voz fraca e sem corpo, que morreu e foi engolida, e nunca mais foi ouvida naquela era deste mundo.
E lá estava Meriadoc, o hobbit, em meio aos mortos, piscando como uma coruja à luz do dia, pois as lágrimas turvavam-lhe a vista; e através de uma névoa ele olhou para a bela cabeça de Éowyn, que estava deitada e imóvel; olhou então para o rosto do rei, que caíra em meio à própria glória. Pois Snawmana, em sua agonia, rolara o corpo outra vez para longe dele; apesar disso fora a ruína de seu senhor.
Merry abaixou-se e levantou a mão do rei para beijá-la, e foi tomado de surpresa: Théoden abriu os olhos, que ainda brilhavam, e falou numa voz tranquila, apesar da dificuldade.
— Adeus, Mestre Hobbit! — disse ele. — Meu corpo está destruído. Vou ao encontro de meus antepassados. E mesmo na poderosa companhia deles eu agora não me sentirei envergonhado. Derrubei a serpente negra. Uma manhã cinzenta, um dia alegre, e um ocaso de ouro!
Merry não conseguiu dizer nada, mas chorou mais uma vez.
— Perdoe-me, senhor — disse ele finalmente — se desobedeci à sua ordem, e apesar disso não consegui fazer mais nada a seu serviço do que chorar na sua despedida.
O velho rei sorriu.
— Não chore! Está perdoado. Não se pode repudiar um grande coração. Viva feliz agora, e, quando estiver em paz fumando seu cachimbo, pense em mim! Pois nunca mais poderei me sentar ao seu lado em Meduseld, como prometi, nem escutarei você falando sobre o estudo das ervas. — Fechou os olhos, e Merry curvou-se ao lado dele. De repente o rei falou de novo. — Onde está Éomer? Pois meus olhos escurecem, e eu gostaria de vê-lo antes de partir. Ele deve me suceder como rei. E eu gostaria de mandar uma palavra para Éowyn. Ela, ela não queria que eu a deixasse, e agora não a verei de novo, ela que me é mais querida que uma filha.
— Senhor, senhor — começou Merry, gaguejando. — Ela está... — mas naquele momento houve um grande clamor, e por toda a volta cornetas e trombetas ressoaram.
Merry olhou ao redor: esquecera a guerra e o mundo ao seu lado, e tinha a impressão de que muitas horas haviam-se passado desde que o rei cavalgara em direção à própria morte, embora na verdade fizesse pouco tempo. Mas agora percebia que estavam correndo o perigo de ficarem presos bem no centro da grande batalha que logo começaria.
Novas forças do inimigo subiam depressa pela estrada que vinha do Rio; dos pontos sob as muralhas vinham as legiões de Morgul; dos campos do sul vinham a pé homens de Harad, precedidos por cavaleiros, e atrás deles assomavam os enormes lombos dos múmakil, carregando torres de guerra. Mas ao norte a crista branca de Éomer liderava a grande dianteira dos rohirrim, que ele outra vez reunira e ordenara; da Cidade veio toda a força de homens que lá havia, e o cisne prateado de Dol Amroth vinha na vanguarda, expulsando do Portão o inimigo.
Por um instante o pensamento passou pela mente de Merry: “Onde está Gandalf? Não está aqui? Não poderia ter salvo o Rei e Éowyn?” Mas neste momento Éomer se aproximava depressa, e com ele vinham os cavaleiros sobreviventes, que agora tinham dominado os cavalos. Olharam assombrados a carcaça do animal cruel que jazia ali, e seus cavalos recusaram-se a se aproximar. Mas Éomer saltou da sela, e a tristeza e o desespero desabaram sobre ele quando se acercou do rei e parou ao seu lado em silêncio.
Um dos cavaleiros tomou a bandeira real da mão de Guthláf, o porta-bandeira que jazia morto, e a ergueu. Lentamente Théoden abriu os olhos. Vendo a bandeira, fez um gesto significando que ela deveria ser entregue a Éomer.
— Salve, Rei da Terra dos Cavaleiros! — disse ele. — Cavalgue agora para a vitória! Mande meu adeus a Éowyn!
Assim morreu, sem saber que Éowyn jazia ao seu lado. E aqueles que estavam perto choraram, gritando:
— Rei Théoden! Rei Théoden!
Mas Éomer lhes disse:
— Não chorem demais! Foi um forte quem caiu, foi digno seu fim. Erguida sua tumba, mulheres chorarão. Agora a guerra chama! — Mas ele próprio chorava enquanto falava. — Que os cavaleiros do rei permaneçam aqui — disse ele — e com a devida honra levem o seu corpo, para evitar que a batalha o pisoteie! Sim, e façam o mesmo com todos os homens do rei que aqui jazem.
Olhou para os mortos, relembrando seus nomes. Então, de repente, viu sua irmã Éowyn deitada, e a reconheceu. Parou um momento, como um homem que no meio de um grito é atingido por uma flecha que lhe trespassa o coração; depois seu rosto ficou mortalmente branco, e uma fúria fria cresceu dentro dele, de tal forma que não conseguiu dizer nada por um tempo. Uma sensação de morte o dominou.
— Éowyn, Éowyn! — gritou ele finalmente. — Éowyn, como veio parar aqui? Que loucura ou feitiçaria é esta? Morte, morte, morte! Morte, leva-nos a todos!
Então, sem pensar nem esperar a aproximação dos homens da Cidade, enterrou as esporas no cavalo e voltou direto para a frente do grande exército, tocando uma corneta, e gritando para que começassem o ataque. Por sobre o campo ecoou sua voz cristalina, chamando:
— Morte! Cavalguem, cavalguem para a morte e para a ruína, e para o fim do mundo!
E com isso o exército começou a se mover. Mas os rohirrim não cantavam mais. Morte, gritavam em uma só voz terrível, e, aumentando a velocidade como uma grande onda, sua batalha circundou seu rei caído e avançou rugindo em direção ao sul.
E ainda Meriadoc, o hobbit, estava ali, piscando entre as lágrimas, e ninguém lhe dirigiu a palavra; na realidade, ninguém parecia tê-lo notado. Limpou o rosto e abaixou-se para apanhar o escudo verde que Éowyn lhe dera, e que ele jogara às costas. Então procurou a espada que deixara cair, pois, no momento em que golpeava o inimigo, sentiu o braço adormecer, e agora só conseguia usar o esquerdo. E ora vejam só, lá estava sua espada, mas a lâmina fumegava como um ramo seco que foi jogado no fogo; enquanto assistia, Merry viu a espada se torcendo e encolhendo, até se consumir. Assim desapareceu a espada das Colinas dos Túmulos, trabalho do Ponente. Mas feliz teria ficado se soubesse o destino dela aquele que a Forjou lentamente, há muito tempo no Reino do Norte, quando os dúnedain eram jovens, e o maior de seus inimigos era o terror do reino de Angmar e de seu rei feiticeiro.
Nenhuma outra lâmina, nem que mãos mais poderosas a tivessem brandido teria causado naquele inimigo um ferimento tão terrível, abrindo a carne morta-viva, quebrando o encanto que prendia seus tendões invisíveis à sua vontade.
Homens agora erguiam o rei, e, dispondo capas sobre lanças, improvisaram uma maca para levá-lo até a Cidade; outros levantaram Éowyn devagar e a levaram atrás dele.
Mas não puderam remover do campo, na mesma hora, os homens da casa do rei; sete dos cavaleiros do rei haviam caído ali e entre eles estava Déorwine, seu chefe. Então separaram-nos dos corpos de seus inimigos e da carcaça do animal cruel e fincaram lanças em torno deles. Depois, quando tudo estava terminado, voltaram e fizeram ali uma fogueira, que queimou a carcaça do animal; mas para Snawmana cavaram um túmulo e sobre ele colocaram uma pedra, na qual foi gravado nas línguas de Gondor e da Terra dos Cavaleiros: Servo fiel, mas de seu senhor algoz, filho de Pesperto, Snawmana veloz.
A relva cresceu alta e verde sobre o Túmulo de Snawmana, mas o chão onde a criatura foi queimada sempre permaneceu negro e árido.
Agora, devagar e triste, Merry caminhava ao lado dos homens que levavam os mortos, sem dar mais atenção à batalha. Estava cansado e cheio de sofrimento, e suas pernas tremiam como se ele estivesse com calafrios. Uma grande chuva chegou do Mar, e parecia que todos os seres choravam por Théoden e Éowyn, extinguindo as fogueiras da Cidade com lágrimas cinzentas. Foi através de uma névoa que de repente o hobbit viu a vanguarda dos homens de Gondor se aproximando. Imrahíl, Príncipe de Doí Amroth, dirigiu-se até eles e conteve seu cavalo.
— Que fardo carregam, Homens de Rohan? — gritou ele.
— O Rei Théoden — responderam eles. — Está morto. Mas agora o Rei Éomer cavalga para a batalha: aquele com a crista branca ao vento.
Então o príncipe desceu do cavalo e se ajoelhou ao lado da maca, prestando homenagem ao rei e ao seu grande ataque; e chorou. Levantando-se, olhou então para Éowyn e ficou surpreso.
— Temos aqui uma mulher, com certeza? — disse ele. — Será que até mesmo as mulheres dos rohirrim vieram para a guerra em nosso auxilio?
— Não! Apenas uma — responderam eles. — Esta é a Senhora Éowyn, irmã de Éomer e não sabíamos nada sobre sua vinda até esta hora, o que lamentamos muito.
Então o príncipe, vendo a beleza dela, embora o rosto estivesse pálido e frio, tocou-lhe a mão no momento em que se debruçou para olhar mais de perto.
— Homens de Rohan! — gritou ele. — Não há médicos entre vocês? Ela está ferida, talvez mortalmente, mas acho que ainda vive. — Aproximou o metal polido que protegia seu braço dos lábios frios dela e, para a surpresa de todos, uma pequena névoa se formou nele, quase invisível.
— Agora precisamos de pressa! — disse ele, enviando um homem de volta à Cidade para buscar ajuda. Mas ele, curvando-se diante dos mortos, disse-lhes adeus, e montando de novo cavalgou para a batalha.


A fúria da luta aumentava agora nos campos do Pelennor; e o ruído do entrechoque das armas subia aos céus, acompanhado pelos gritos dos homens e pelo relinchar dos cavalos. Soavam cornetas e trombetas zurravam, e os múmakil urravam ao serem fustigados para a guerra. Sob as muralhas ao sul da Cidade, os homens de Gondor sem montarias agora atacavam as legiões de Morgul que ainda estavam ali reunidas, resistindo. Mas os cavaleiros se dirigiram para o leste, em auxílio de Éomer: Húrin, o Alto, Guardião das Chaves, e o Senhor de Lossarnach; Hirluin das Colinas Verdes; o Príncipe Imrahil, o Belo, com seus cavaleiros em toda a sua volta.
O auxilio aos rohirrim não chegou demasiado cedo; a sorte se voltara contra Éomer, e sua fúria o traíra. A grande ira de seu ataque tinha derrotado inteiramente a dianteira do inimigo, e as grandes cunhas de seus Cavaleiros haviam penetrado fundo nas fileiras dos sulistas, derrubando seus cavaleiros e vitimando os que iam a pé. Mas, onde quer que surgissem os múmakil, por ali os cavalos não passavam, recuando e desviando; os grandes monstros continuavam invictos, e erguiam-se como torres de defesa; os haradrim se agrupavam em volta deles. Se os rohirrim, no início de seu ataque, totalizaram um número três vezes menor que os haradrim sozinhos, logo as coisas pioraram para eles, pois uma nova força despejava-se agora nos campos, vinda de Osgiliath. Haviam sido reunidos lá, para saquear a cidade e violar Gondor, aguardando o chamado de seu Capitão. Ele agora estava destruído, as Gothmog, o tenente de Morgul, os enviara para a luta: orientais com machados, e variags de Khand; sulistas de vermelho e, provenientes do Extremo Harad, homens negros semelhantes a semi-trolls , com olhos brancos e línguas vermelhas. Alguns ainda corriam na retaguarda dos rohirrim, outros se mantinham no oeste, para afastar as forças de Gondor e evitar que elas se juntassem às de Rohan.
Foi exatamente quando o dia começava a se voltar contra Gondor, e sua esperança vacilava, que um novo grito subiu na Cidade, no meio da manhã, com um vento forte soprando, a chuva se dirigindo para o norte e o sol brilhando. Naquele ar claro os vigias das muralhas divisaram ao longe uma nova visão de terror, e perderam as últimas esperanças. Pois o Anduin, a partir da curva do Harlond, corria de maneira que da Cidade os homens conseguiam avistar sua extensão por algumas léguas, e os que enxergavam melhor podiam ver qualquer navio que se aproximasse. Olhando naquela direção, gritavam desesperados; negra contra a água reluzente eles divisaram uma frota trazida pelo vento: dromundas e navios de grande calado com muitos remos, com velas negras enfunadas ao vento.
— Os Corsários de Umbar! — gritavam os homens. — Os Corsários de Umbar! Olhem! Os Corsários de Umbar estão chegando. Então Belfalas foi tomada, e também Ethir e Lebennin. Os Corsários estão nos atacando! É o último golpe do destino!
E alguns, num movimento desordenado, pois não se achava ninguém para comandá-los na Cidade, tocaram os sinos e soaram o alarme; outros tocaram as cornetas sinalizando a retirada.
— De volta para as muralhas! — gritavam eles. — De volta para as muralhas! Voltem para a Cidade antes que todos sejam esmagados! — Mas o vento que impelia os navios carregou para longe todo o seu clamor.


Na verdade, os rohirrim não precisaram de avisos ou alarme.
Podiam ver muito bem por si mesmos os navios negros. Pois agora Éomer estava a menos de uma milha do Harlond, e uma grande tropa de seus primeiros inimigos se postava entre ele e o porto, enquanto novos inimigos vinham avançando num turbilhão pela retaguarda, isolando-o do Príncipe. Agora Éomer olhava para o Rio, e a esperança morreu em seu coração, e chamava de maldito o vento que antes abençoara.
Os exércitos de Mordor, por sua vez, sentiam-se encorajados, e cheios de uma nova gana e fúria avançaram gritando para o ataque. Éomer agora recuperara a austeridade e pensava com clareza.
Mandou tocar as cornetas para reunir sob a sua bandeira todos os homens que pudessem chegar até ali; planejava fazer uma grande parede de escudos no final, e resistir, lutando no chão até que todos caíssem, realizando feitos dignos de canções nos campos do Pelennor, mesmo que não sobrasse nenhum homem no oeste para relembrar o último Rei da Terra dos Cavaleiros. Cavalgou então até um montículo verde e ali fincou sua bandeira, e o Cavalo Branco corria, ondulando ao vento.

Trocando a dúvida, trocando o dúbio pelo dia raiando,
Vim cantando ao sol, espada a brandir
Cheguei ao fim da esperança, o coração partido:
Agora é por raiva, agora é por ruína e um crepúsculo de fogo!

Pronunciou esses versos, porém riu enquanto os dizia. Pois mais uma vez o desejo da batalha corria em suas veias, e ele ainda estava ileso, e era jovem, e era rei: senhor de um povo cruel. E eis que, exatamente no momento em que ria do desespero, olhou de novo para os navios negros, e brandiu a espada desafiando-os.
Então foi tomado de surpresa, e de uma grande alegria; jogou a espada para os ares à luz do sol e exultou ao apanhá-la de novo. Todos os olhos seguiram seu olhar e, de súbito, no navio que vinha à frente, uma grande bandeira se desenrolou, e o vento a exibiu no momento em que o navio virava na direção do Harlond. Ali florescia uma Árvore Branca, representando Gondor; mas havia Sete Estrelas ao redor dela, e em cima uma alta coroa, os símbolos de Elendil, que nenhum senhor portara por anos incontáveis. E as estrelas flamejavam à luz do sol, pois foram feitas com pedras preciosas por Arwen, filha de Elrond; a coroa luzia na manhã, pois era feita de mithril e ouro.
Assim chegou Aragorn, filho de Arathorn, Elessar, herdeiro de Isildur, vindo das Sendas dos Mortos, trazido pelo vento que vinha do Mar até o reino de Gondor, e a alegria dos rohirrim foi uma torrente de riso e um clarão de espadas, e o contentamento e a surpresa da Cidade foi uma música de trombeta e um badalar de sinos. Mas os exércitos de Mordor ficaram atônitos, e lhes parecia um grande feitiço que seus próprios navios estivessem cheios de seus inimigos; foram tomados de um terror negro, percebendo que a maré do destino se voltava contra eles, e seu fim estava próximo.
Os cavaleiros de Doí Amroth cavalgaram para o leste, empurrando o inimigo à sua frente: homens-trolls e variags e orcs que odiavam a luz do sol. Éomer avançou para o sul e os homens fugiram diante dele, ficando presos entre o martelo e a bigorna. Pois agora homens saltavam dos navios para os desembarcadouros do Harlond e avançavam para o norte como uma tempestade. Lá vinham Legolas e Gimli, brandindo seu machado; Halbarad com a bandeira; e Elladan e Elrohir com estrelas na fronte, junto com os dúnedain de mãos inclementes. Guardiões do norte, conduzindo uma grande tropa do valoroso povo de Lebennin e Lamedon e dos feudos do sul. Mas à frente de todos vinha Aragorn, com a Chama do Oeste, Andúril, como um novo fogo aceso, Narsil reforjada, letal como antigamente, e em sua testa brilhava a Estrela de Elendil.
Por fim então Aragorn e Éomer encontraram-se em meio à batalha e debruçaram-se sobre suas espadas e olharam um para o outro e ficaram felizes.
— Assim nos encontramos de novo, embora todos os exércitos de Mordor estivessem entre nós — disse Aragorn. — Não foi o que eu disse, no Forte da Trombeta?
— Foi o que disse — falou Éomer — mas a esperança muitas vezes engana, e eu não sabia que você era um homem com capacidade de ler o futuro. Mas o auxílio que chega sem ser esperado é duplamente abençoado, e nunca um reencontro de amigos foi tão alegre.
Apertaram as mãos.
— Na verdade, nem poderia ser mais oportuno — disse Éomer. — Sua chegada não foi nada precoce, meu amigo. Muitas perdas e tristezas já nos aconteceram.
— Então vamos vingá-las, antes de falarmos nelas! — disse Aragorn, e os dois voltaram juntos para a batalha.


Ainda tiveram uma luta dura e muito trabalho, pois os sulistas eram homens destemidos e obstinados, e cruéis no desespero; os orientais eram fortes e endurecidos pela guerra, e não pediam trégua. Dessa forma, aqui e acolá, perto de celeiros ou casas incendiadas, sobre monte ou barranco, sob muralhas ou nos campos, eles ainda se reuniam e se reagrupavam, lutando até o fim do dia. Então o sol finalmente se pôs atrás do Mindolluin e encheu todo o céu com um grande incêndio, de modo que as montanhas e as colinas ficaram tingidas de sangue; o fogo reluzia no Rio, e a grama do Pelennor jazia rubra ao cair da noite. E naquela hora a grande Batalha do campo de Gondor terminava, e nenhum inimigo vivo foi deixado dentro do circuito da Rammas. Todos foram mortos, exceto aqueles que fugiram para morrer, ou para se afogar na espuma vermelha do Rio.
Poucos conseguiram se dirigir para o leste, para Morgul ou Mordor, e à terra dos haradrim chegou apenas uma história de um lugar longínquo: um rumor da ira e do terror de Gondor.
Aragorn, Éomer e Imrahil cavalgaram de volta na direção do Portão da Cidade; não sentiam alegria nem tristeza, apenas cansaço. Esses três estavam ilesos, tão grandes eram sua sorte e habilidade e o poder de seus braços; na realidade, na hora de sua ira, poucos tiveram a ousadia de resistir a eles ou encará-los. Mas muitos outros estavam feridos, mutilados ou mortos sobre o campo. Forlong fora atingido pelos machados enquanto lutava, sozinho e sem cavalo; Duilin de Morthond e seu irmão foram pisoteados até a morte quando atacavam os múmakil, trazendo seus arqueiros para mais perto, a fim de que atirassem nos olhos dos monstros. Nem Hirluin, o Belo, voltaria para Pinnath Gelin, nem Grimbold para Grimslade; também não retornaria para as Terras do Norte Halbarad, guardião de mãos inclementes.
Não poucos haviam perecido, renomados ou desconhecidos, capitães ou soldados; pois foi uma grande batalha e nenhuma história contou um relato completo dela. Assim, depois de muito tempo, um poeta de Rohan disse em sua canção sobre os Túmulos de Mundburg:

Notamos das trompas o eco nas colinas,
o esplendor das espadas no Reino do Sul.
Corcéis galopavam para Petroterra
Lá caiu Théoden, poderoso Thengling,
ao dourado palácio e verdes pastagens
nos campos do norte sem jamais retornar;
senhor de seu exército.
Harding e Guthláf Dúnhere e Déorwine,
o valente Grimbold,
Herefara e Herubrand, Horn e Fastred,
lutaram e tombaram em terra tão distante:
em tumbas de Mundburgjazem sob o chão
com colegas coligados, os senhores de Gondor.
Nem Hirluin, o Belo, às colinas junto ao mar;
nem Forlong, o Velho, aos seus vales em flor jamais
para Arnach, sua terra natal, retornaram em triunfo;
nem os altos arqueiros, Derufin e Duilin,
ás suas águas escuras, lagos de Morthond
sob a sombra das montanhas.
A morte de manhã e no final do dia levou nobres e pobres.
Há muito agora dormem sob a grama
de Gondor junto ao Grande Rio.
Águas como lágrimas, rebrilhando cor de prata
ou vermelhas borbulhavam roncando em tumulto:
espuma tinta de sangue em chama ao pôr-do-sol;
quais faróis as montanhas queimavam noite adentro;
o orvalho era vermelho em Rammas Echor

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