2 de abril de 2016

Capítulo V - A ponte de Khazad-dûm

A comitiva do Anel parou diante do túmulo de Balin, em silêncio. Frodo pensou em Bilbo, em sua longa amizade com o anão, e na visita de Balin ao Condado há muito tempo. Naquele salão empoeirado nas montanhas, essas coisas pareciam ter sido há mil anos, e do outro lado do mundo.
Finalmente se mexeram e olharam para cima, começando a procurar alguma coisa que desse pistas do destino de Balin, ou mostrasse o que acontecera ao seu povo. Havia uma outra porta menor do outro lado do salão, embaixo de uma passagem de ar. Perto das duas portas viam-se agora muitos ossos, entre os quais havia espadas quebradas e martelos sem cabo, além de cimos e escudos partidos. Algumas das espadas eram tortas: cimitarras de orcs com lâminas enegrecidas.
Havia várias reentrâncias cortadas na rocha das paredes, e nelas estavam grandes arcas de madeira com braçadeiras de ferro. Todas tinham sido quebradas e saqueadas, mas ao lado da tampa despedaçada de uma das arcas estavam os restos de um livro. Tinha sido perfurado e rasgado, e parcialmente queimado, e estava tão manchado com marcas negras e outras semelhantes a sangue envelhecido, que pouca coisa podia ser lida. Gandalf o ergueu com cuidado, mas as folhas estalaram e se partiram quando o mago o colocou sobre a laje. Estudou o livro por um tempo sem dizer nada. Parados ao lado dele, Frodo e Gimlo puderam ver, enquanto Gandalf virava cuidadosamente as folhas, que o livro tinha sido escrito por várias mãos diferentes, em runas, tanto de Moria quanto de Valle, e alguns trechos com inscrições élficas.
Finalmente, Gandalf desviou os olhos do livro.
— Parece ser um registro do destino do povo de Balin — disse ele. — Acho que o livro começava com a chegada deles ao Vale do Riacho Escuro, cerca de trinta anos atrás: as páginas parecem ter números referentes às datas de sua chegada. A primeira Página está marcada com um-três, o que mostra que devem faltar pelo menos duas no início. Escutem isto!
Expulsamos os orcs do grande portão e do posto de... eu acho; a próxima palavra está borrada e queimada: provavelmente guarda, matamos vários deles à luz – eu acho – do sol no vale. Flói foi morto por uma flecha. Ele matou o grande. Depois há um borrão seguido de Flói sob a relva perto do Lago-espelho. As próximas duas linhas estão ilegíveis. Depois vem Tomamos o vigésimo primeiro salão da extremidade Norte para morar. Há...não consigo ler o quê. Uma passagem de ar é mencionada. Depois Balin fixou seu assento na Câmara de Mazarbul.
— A Câmara dos Registros — disse Gimli. — Acho que é onde estamos agora.
— Bem, não consigo mais ler por um bom trecho — disse Gandalf — com a exceção de ouro, e Machado de Durin e alguma coisa elmo. Depois Balin e agora Senhor de Moria. Com isso, o capítulo parece terminar. Depois de algumas estrelas, outra caligrafia começa, e posso ler encontramos prata verdadeira, e depois as palavras bem forjada, e depois uma outra coisa. Consegui! Mithril, e as últimas duas linhas são Óin procurar os arsenais superiores da Terceira Profundidade, alguma coisa ir para o Leste, um borrão, para o portão de Azevim.
Gandalf parou e virou algumas páginas.
— Há muitas páginas desse tipo, escritas com pressa e muito danificadas — disse ele — mas mal posso lê-las nesta luz. Agora deve haver algumas páginas faltando, pois elas começam a ser numeradas com cinco, o quinto ano da colônia, eu suponho. Deixe-me ver! Não, estão muito danificadas e manchadas; não consigo lê-las. Podemos conseguir mais à luz do sol. Esperem! Tem alguma coisa aqui: letras grandes, usando uma letra élfica.
— Poderia ser a letra de Ori — disse Gimli, olhando por sobre o braço do mago. — Ele sabia escrever bem e rápido, e frequentemente usava as letras élficas.
— Receio que tinha más notícias para reportar com sua letra bonita — disse Gandalf. — A primeira palavra legível é tristeza, mas o resto da linha foi perdido, a não ser que termine em tem. Sim, deve ser ontem, seguido de dia dez de novembro Balin, Senhor de Moria, pereceu no Vale do Riacho Escuro. Foi sozinho olhar o Lago-espelho. Um orc atirou nele de trás de uma pedra. Matamos o orc, mas muitos outros... do Leste subindo o Veio de Prata. O resto da página está tão borrado que não consigo ler quase nada, mas acho que está escrito bloqueamos nossos portões, e depois impedi-los de entrar por muito tempo se, e depois talvez horrível e sofrer. Pobre Balin! Ao que parece, não desfrutou do título que conquistou por mais de cinco anos. Fico imaginando o que aconteceu depois, mas não há tempo para decifrar as últimas páginas agora. Aqui está a última de todas.
Ele parou e suspirou.
— É uma leitura triste — disse ele. — Receio que o fim deles tenha sido cruel. Escutem! Não podemos sair. Não podemos sair Eles tomaram a Ponte e o segundo salão. Frár e Lóni e Náli sucumbiram ali. Depois há mais quatro linhas ilegíveis, e eu só consigo entender, foi há cinco dias. As últimas linhas são o lago está na altura da muralha no Portão Oeste. O Vigia na Água levou Óin. Não podemos sair, e depois tambores, tambores nas profundezas. Pergunto-me o que isso significa. A última coisa escrita está numa carreira de garranchos em caracteres élficos: eles estão chegando. Não há mais nada. — Gandalf parou e ficou pensando em silêncio.
Um súbito medo e horror daquele quarto tomou conta da Comitiva.
— Não podemos sair — murmurou Gimli. — Foi bom para nós que o lago tivesse abaixado um pouco, e que o Vigia estivesse dormindo na ponta Sul.
Gandalf levantou a cabeça e olhou em volta.
— Parece que eles tentaram resistir pela última vez junto às duas portas — disse ele. — Mas restavam poucos naquela. Assim terminou a tentativa de reconquistar Moria! Foi um ato corajoso, mas tolo. A hora ainda não chegou. Agora, receio que devamos dizer adeus a Balin, filho de Fundin. Aqui ele deve permanecer, nos salões de seus antepassados. Vamos levar este livro, o Livro de Mazarbul, e examiná-lo com mais atenção depois. É melhor você guardá-lo, Gimli, e levá-lo de volta a Dáin, se tiver uma oportunidade. Vai interessá-lo mas também vai entristecê-lo muito. Vamos embora! A manhã está passando.
— Em que direção iremos? — perguntou Boromir.
— De volta ao salão — respondeu Gandalf. — Mas nossa visita a esta sala não foi em vão. Agora sei onde estamos. Esta deve ser, como disse Gimli, a Câmara de Mazarbul, e o salão deve ser o vigésimo primeiro do lado Norte. Portanto devemos sair pelo arco Leste do salão, e nos dirigir para a direita e para o Sul, e descer. O Vigésimo Primeiro Salão deve ser no Sétimo Pavimento, que fica seis acima do pavimento dos Portões. Venham agora! De volta para o salão!
Gandalf mal tinha dito essas palavras, quando chegou a eles um enorme barulho: um estrondoso Bum que parecia vir das profundezas, fazendo tremer a rocha aos pés deles. Correram em direção à porta assustados. Dum, dum, retumbou o barulho outra vez, como se mãos gigantescas estivessem transformando as próprias cavernas de Moria num enorme tambor. Então veio uma rajada reverberando: uma grande corneta soou no salão, e em resposta ouviram-se cornetas e gritos dissonantes vindos de algum ponto distante. Ouviu-se o tropel apressado de muitos pés.
— Eles estão vindo! — gritou Legolas.
— Não podemos sair — disse Gimli.
— Presos! — disse Gandalf. — Por que demorei? Aqui estamos, presos, exatamente como eles foram antes. Mas eu não estava aqui daquela vez. Vamos ver o que...
Dum, dum, vinha a batida dos tambores, estremecendo as paredes.
— Batam as portas e coloquem calços! — gritou Aragorn. — E segurem suas mochilas o máximo que conseguirem: ainda podemos ter uma chance de escapar.
— Não! — disse Gandalf. — Não devemos ficar trancados aqui dentro. Mantenham a porta Leste entreaberta! Iremos por ali, se houver uma possibilidade.
Um outro chamado estridente de corneta e guinchos agudos soou. Pés se aproximavam pelo corredor. Ouviu-se um tinido e um tropel no momento em que a Comitiva desembainhava as espadas. Glamdring emanou um brilho claro, e o gume de Ferroada faiscou. Boromir empurrou a porta Oeste com os ombros.
— Espere um momento. Não feche ainda — disse Gandalf, pulando para o lado de Boromir, e aprumando-se ao máximo. — Quem vem aqui para perturbar o descanso de Balin, Senhor de Moria? — gritou ele com uma voz cheia.
Houve uma torrente de gargalhadas roucas, semelhante a pedras caindo num poço; em meio ao clamor, uma voz grave se ergueu em comando. Dum, blim, dum, faziam os tambores nas profundezas.
Num movimento rápido, Gandalf avançou para a fresta da porta aberta, colocando à frente seu cajado. Fez-se um clarão ofuscante, que iluminou a sala e o corredor.
Por um instante, o mago olhou para fora. Flechas zuniram e assobiaram pelo corredor, e ele pulou para trás.
— Orcs, Muitos deles — disse ele. — E alguns são grandes e perigosos: Uruks negros de Mordor. Por enquanto estão parados, mas tem alguma outra coisa lá. Acho que é um grande troll das cavernas, ou mais de um. Não há esperança de escaparmos por ali.
— E não haverá esperança de nada, se eles vierem pela outra porta também — disse Boromir.
— Não se ouve nada deste lado ainda — disse Aragorn, que estava parado próximo à porta Leste, escutando. — A passagem deste lado desce direto por uma escada: é certeza que não conduz de volta ao salão. Mas não é bom fugir cegamente por aqui, com o inimigo bem atrás. Não podemos bloquear a porta. Não há mais chave, a fechadura está quebrada e a porta se abre para dentro. Temos de fazer alguma coisa para atrasar os orcs primeiro. Vamos fazer com que sintam medo da Câmara de Mazarbul! — disse ele com austeridade, tocando o gume de sua espada, Andúril.
Ouviram-se passos pesados no corredor. Boromir se jogou contra a porta e a fechou com o peso de seu corpo; então calçou-a com lâminas de espadas quebradas e lascas de madeira. A Comitiva recuou para o outro lado da câmara. Mas ainda não tinham a possibilidade de fugir. Um golpe fez tremer a porta que lentamente começou a se abrir, rangendo e forçando os calços. Um braço e um ombro enormes, de pele escura coberta de escamas esverdeadas, lançaram-se através da fresta que se alargava. Depois um pé grande, chato e sem dedos forçou a parte de baixo, abrindo-a. Havia um silêncio mortal do lado de fora.
Boromir pulou para frente e golpeou o braço com toda a força, mas a espada rangeu, resvalou e caiu de sua mão trêmula. A lâmina estava quebrada. De repente, e para sua própria surpresa, Frodo sentiu uma ira feroz se acender em seu coração.
— O Condado! — gritou ele e, avançando num salto para o lado de Boromir, abaixou-se e apunhalou com Ferroada o pé asqueroso. Ouviu-se um urro, e o pé recuou de sopetão, quase arrancando Ferroada do braço de Frodo. Gotas negras pingaram da lâmina, e caíram no chão fumegando.
Boromir arremessou-se contra a porta, fechando-a de novo.
— Um para o Condado! — gritou Aragorn. — A mordida do hobbit vai fundo! Você tem uma boa lâmina, Frodo, filho de Drogo!
Ouviu-se uma pancada na porta, seguida de pancadas e mais pancadas.
Aríetes e martelos batiam contra ela. A porta se partiu e foi recuando e a fresta ficou subitamente larga. Flechas entraram assobiando, mas atingiram a parede Norte, caindo no chão sem ferir ninguém. Um clangor de corneta ecoou e ouviu-se um tropel de passos, e orcs, um após o outro, pularam para dentro da câmara.
Quantos eram, a Comitiva não pôde contar. A luta foi violenta, mas os orcs se assustaram perante a ferocidade da defesa. Legolas atingiu dois na garganta.
Gimli cortou as pernas de um outro que tinha subido no túmulo de Balin.
Boromir e Aragorn mataram vários. Quando trinta tinham caído, o restante deles fugiu tremendo, deixando os defensores ilesos, com a exceção de Sam, que tinha um corte na cabeça. Uma esquiva rápida o salvara, e ele tinha derrubado seu orc: um golpe vigoroso com sua espada do Túmulo. Queimava em seus olhos castanhos um fogo que teria feito Ted Ruivão recuar, se ele tivesse visto.
— Chegou a hora! — gritou Gandalf. — Vamos, antes que o troll retorne!
Mas no momento em que se retiravam, antes que Pippin e Merry tivessem alcançado a escada do lado de fora, um enorme líder dos orcs, quase da altura de um humano, vestido da cabeça aos pés numa malha metálica preta, pulou para dentro da câmara; atrás dele seus seguidores se amontoavam na entrada. O rosto largo e chato era escuro, os olhos como carvão, e a língua era vermelha; brandia uma grande lança. Com um golpe de seu enorme escudo de couro, afastou a espada de Boromir e o empurrou para trás, derrubando-o no chão. Abaixando-se para se defender de um golpe de Aragorn, e com a rapidez de uma serpente em seu bote, ele atacou a Comitiva e investiu com a lança na direção de Frodo.
O golpe o atingiu no flanco direito, e Frodo foi jogado contra a parede, ficando espetado pela lança. Sam, com um grito, golpeou a haste da lança, que se quebrou. Mas justo no momento em que o orc soltou a lança e desembainhou sua cimitarra, Andúril atingiu seu elmo. Fez-se um clarão como fogo, e o elmo se abriu em dois.
O orc caiu com a cabeça partida. Seus seguidores fugiram uivando, quando Boromir e Aragorn pularam para cima deles.
Dum, dum, continuavam os tambores nas profundezas. A voz poderosa fez-se ouvir outra vez, num estrondo.
— Agora! — gritou Gandalf. — Esta é a última chance. Corram!
Aragorn levantou Frodo, que estava caído perto da parede, e dirigiu-se para a escada, empurrando Merry e Pippin na frente dele. Os outros o seguiram, mas Gimli teve de ser arrastado por Legolas: apesar do perigo, ele insistia em ficar perto do túmulo de Balin, com a cabeça abaixada. Boromir puxou a porta, cujos gonzos rangeram: tinha grandes argolas de ferro dos dois lados, mas não se podia trancá-la.
— Eu estou bem — disse Frodo. — Posso andar. Ponha-me no chão!
Aragorn quase o deixou cair de tão surpreso.
— Pensei que estivesse morto! — gritou ele.
— Ainda não! — disse Gandalf — Mas não há tempo para indagações. Saiam, vocês todos, desçam a escada! Esperem-me alguns minutos lá embaixo, mas se eu não aparecer logo, continuem! Apressem-se e escolham o caminho que conduz à direita e para baixo.
— Não podemos abandoná-lo aqui, segurando a porta sozinho! — disse Aragorn.
— Faça o que estou dizendo — disse Gandalf, furioso. — As espadas não servem para mais nada aqui. Vá!
A escada não era iluminada por nenhuma passagem de ar, e estava completamente escura. Desceram aos tropeços um longo lance de degraus, e depois olharam para trás; mas não conseguiam enxergar nada, a não ser pelo brilho apagado do cajado do mago na parte de cima. Parecia que ele ainda estava parado, guardando a porta fechada.
Frodo respirou fundo e se apoiou em Sam, que passou os braços em volta dele. Ficaram ali, olhando para a escada na escuridão. Frodo tinha a impressão de estar escutando a voz do mago lá em cima, murmurando palavras que desciam pelo teto inclinado com um eco sussurrante. Não podia entender o que estava sendo dito. As paredes pareciam estar tremendo. De quando em quando, as batidas dos tambores pulsavam num estrondo: dum, dum.
De repente, no topo da escada viu-se um clarão de luz branca. Depois ouviu-se um estrondo e um baque surdo. As batidas dos tambores irromperam alucinadas: dum-biun, du-dum, e depois pararam. Gandalf desceu correndo os degraus e caiu no chão, no meio da Comitiva.
— Muito bem, acabou! — disse o mago, esforçando-se para ficar de pé. — Fiz tudo o que podia. Mas encontrei um inimigo à minha altura, e quase fui destruído. Mas não fiquem aqui! Vão andando! Vão andando! Onde está você, Gimli? Venha na frente comigo! Fiquem logo atrás, vocês todos!
Foram tropeçando atrás dele, imaginando o que teria acontecido. Dum, dum, começaram de novo os tambores: agora soavam abafados e distantes, mas vinham na direção deles. Não havia outro som de perseguição, nem o pisar de pés, nem qualquer tipo de voz. Gandalf não fez curvas, para a direita ou para a esquerda, pois o caminho parecia conduzir na direção que ele desejava. De quando em quando, desciam por um lance de degraus, cinquenta ou mais, atingindo um nível inferior. Naquela hora esse era o maior perigo, pois, na escuridão não conseguiam ver uma descida, até atingi-la e pisar no vazio. Gandalf tateava o chão com seu cajado como um cego.
Ao final de uma hora, tinham avançado uma milha, ou talvez um pouco mais, e tinham descido muitos lances de degraus. Quase começaram a ter esperanças de escapar.
Ao pé da sétima escada, Gandalf parou.
— Está ficando quente! — disse ele, ofegante. — Devemos ter chegado no mínimo ao nível dos Portões. Acho que logo devemos procurar uma passagem para o lado esquerdo, que nos leve para o Leste. Espero que não esteja longe. Estou muito cansado. Preciso descansar aqui um pouco, mesmo que todos os orcs existentes no mundo estejam atrás de nós.
Gimli pegou-o pelo braço, ajudando-o a se sentar num degrau.
— O que aconteceu lá em cima junto à porta? — perguntou ele. — Encontrou aquele que bate os tambores?
— Não sei — respondeu Gandalf. — Mas de repente me vi enfrentando algo que nunca tinha visto. Não pude pensar em mais nada a não ser lançar um encantamento para fechar a porta. Conheço muitos, mas para fazer esse tipo de coisa direito, é preciso tempo, e mesmo assim a porta pode ser arrombada.
“Enquanto fiquei ali, pude ouvir vozes de orcs do outro lado: pensei que a qualquer momento eles forçariam a porta e a abririam. Não pude ouvir o que diziam; pareciam estar conversando na sua língua horrenda. Tudo o que entendi foi ghâsh, que significa ‘fogo’. Nesse momento, alguma coisa entrou na câmara – senti quando atravessava a porta, e os próprios orcs ficaram amedrontados e quietos. A coisa pegou a argola de ferro, e então sentiu meu encanto e minha presença. O que era não posso adivinhar, mas nunca senti desafio tão grande. O contra-encanto foi terrível. Quase me destruiu. Por um instante, a porta fugiu ao meu controle e começou a abrir! Tive de pronunciar uma palavra de comando. Isso foi pressão demasiada. A porta se partiu em pedaços. Alguma coisa escura como uma nuvem estava bloqueando toda a luz que vinha de dentro, e eu fui jogado para trás, e caí escada abaixo. Todas as paredes desmoronaram, e acho que o teto também.
“Receio que Balin esteja enterrado bem fundo, e talvez alguma outra coisa esteja enterrada lá também. Não sei dizer. Mas pelo menos a passagem atrás de nós foi completamente bloqueada. Ah! Nunca me senti tão exausto, mas já está passando. E você, Frodo? Não tive tempo de dizer isso, mas nunca fiquei tão feliz na vida como no momento em que ouvi sua voz. Receava que fosse um hobbit corajoso, mas morto, que Aragorn estava carregando.
— E eu? — disse Frodo. — Estou vivo, e inteiro, eu acho. Estou machucado e sentindo dores, mas é suportável.
— Bem — disse Aragorn — só posso dizer que os hobbits são feitos de uma matéria tão resistente como nunca vi igual. Se eu soubesse, teria falado com mais delicadeza na estalagem de Bri! Aquela lança poderia atravessar o corpo de um javali.
— Bem, fico feliz em dizer que não atravessou meu corpo — disse Frodo — embora esteja me sentindo como se tivesse ficado preso entre uma bigorna e um martelo. — Não disse mais nada. Sentia dores quando respirava.
— Você saiu ao Bilbo — disse Gandalf. — Existe mais em você do que os olhos podem ver, como eu disse a ele há muito tempo.
Frodo ficou imaginando se a observação significava alguma outra coisa além do que foi dito.
Agora continuavam de novo. Logo Gimli falou. Seus olhos enxergavam bem na escuridão.
— Eu acho — disse ele — que há uma luz ali adiante. Mas não é a luz do dia. É vermelha. Que poderia ser?
— Ghâsh! — murmurou Gandalf — Imagino se é isso que eles estavam dizendo: que os andares inferiores estão em chamas? Mesmo assim, só nos resta ir em frente.
Logo não havia mais dúvidas quanto à luz, e todos podiam vê-la. Estava faiscando e brilhava nas paredes da passagem diante deles. Agora podiam enxergar o caminho: à frente, a estrada descia com grande inclinação, e a alguma distância estava um arco baixo; através dele, vinha a luz brilhante.
O ar ficou muito quente.
Quando chegaram ao arco, Gandalf o atravessou, fazendo um sinal para que os outros esperassem. Enquanto ficou ali parado além da abertura, eles viram seu rosto iluminado por uma luz vermelha. Recuou rapidamente.
— Existe algum tipo de maldade nova aqui — disse ele — feita para nos receber, sem dúvida. Mas sei onde estamos: atingimos a Primeira Profundeza, o nível imediatamente abaixo dos Portões. Este é o Segundo Salão de Moria, e os Portões estão perto: ali, na saída Leste, à esquerda, a menos de um quarto de milha. Do outro lado da Ponte, subindo uma escada larga, indo por uma estrada ampla através do Primeiro Salão, e para fora! Mas venham olhar!
Espiaram para fora. Diante deles, estava um outro salão cavernoso. Era mais alto e bem mais comprido que aquele no qual tinham dormido. Estavam perto do canto Leste: no lado Oeste, o salão avançava mergulhando na escuridão. No centro se erguia uma fila dupla de pilares. Estavam esculpidos como copas de árvores enormes, e os ramos sustentavam o teto, terminando num trançado de ramificações menores. Os troncos eram lisos e pretos, mas um brilho vermelho se espelhava nas suas laterais. Na direção oposta, no chão, ao pé de dois grandes pilares, uma enorme fissura se abrira. Dela emanava uma luz vermelha e violenta, e de vez em quando chamas lambiam a borda e se enrolavam nas bases das colunas. Mechas de fumaça preta pairavam no ar quente.
— Se tivéssemos vindo dos salões superiores pelo caminho principal, teríamos ficado presos aqui — disse Gandalf. — Agora vamos esperar que o fogo fique entre nós e o inimigo. Venham! Não há tempo a perder.
No momento em que o mago falava, escutaram de novo as batidas de tambores que os perseguiam: Dum, dum, dum. Do outro lado, além das sombras no lado Oeste do salão, vieram gritos e toques de cornetas. Dum, dum: os pilares pareciam vibrar e as chamas tremiam.
— Agora, para a última corrida! — disse Gandalf. — Se o sol estiver brilhando lá fora, ainda poderemos escapar. Sigam-me!
Virou à esquerda e se apressou através do chão liso do salão. A distância era maior do que parecera. Enquanto corriam, escutaram a batida e o eco de muitos pés vindo atrás deles. Ouviu-se um grito agudo: tinham sido vistos. Seguiu-se um tinido e peças de aço batendo. Uma flecha assobiou sobre a cabeça de Frodo.
Boromir riu.
— Eles não esperavam por isso — disse ele. — O fogo cortou-lhes o caminho. Estamos no lado errado!
— Olhem para a frente — gritou Gandalf — A Ponte está perto. É perigosa e estreita.
De repente, Frodo viu adiante um abismo escuro. No fim do salão, o chão desaparecia e caía numa profundidade desconhecida. A porta externa só podia ser atingida por uma estreita ponte de pedra, sem parapeito ou qualquer proteção, que cruzava o abismo num arco de quinze metros. Era uma antiga defesa dos anões contra qualquer inimigo que pudesse tomar o Primeiro Salão e as passagens externas. Só poderiam atravessá-la em fila indiana. Gandalf parou na ponta, e os outros vieram atrás, todos juntos.
— Vá na frente, Gimli — disse ele. — Depois Pippin e Merry. Sempre em frente, e subindo a escada que fica depois da porta.
Flechas caíam em meio ao grupo. Uma atingiu Frodo e, encontrando resistência, ricocheteou no ar. Uma outra perfurou o chapéu de Gandalf e ficou ali, como uma pena preta. Frodo olhou para trás. Além do fogo, viu um enxame de figuras negras: parecia haver centenas de orcs. Brandiam lanças e cimitarras que brilhavam vermelhas como sangue à luz do fogo. Dum, dum, batiam os tambores, cujo som ia ficando cada vez mais alto, dum, dum.
Legolas se virou e preparou uma flecha, embora a distância fosse grande demais para seu pequeno arco. Puxou a corda do arco, mas sua mão caiu, e a flecha escorregou para o solo. Ele deu um grito de desespero e medo. Dois grandes trolls apareceram. Traziam grandes lajes que jogaram no chão para servir de passarela por cima do fogo. Mas não foram os trolls que encheram o elfo de medo. A multidão de orcs se abriu, e se amontoou do lado, como se eles próprios estivessem com medo. Alguma coisa vinha atrás. Não se podia ver o que fosse: era como uma grande sombra, no meio da qual havia uma forma escura, talvez humanoide, mas maior; poder e terror pareciam estar nela e ao seu redor.
A figura veio para a extremidade do fogo e a luz se apagou, como se uma nuvem tivesse coberto tudo. Então, com um movimento rápido, pulou por sobre a fissura. As chamas bramiram para saudá-la, e se ergueram à sua volta; uma nuvem negra rodopiou subindo no ar. A cabeleira esvoaçante se incendiou, fulgurando.
Na mão direita carregava uma espada como uma língua de fogo cortante; na mão esquerda trazia um chicote de muitas correias.
— Ai! Ai! — gemeu Legolas. — Um balrog! Um balrog vem vindo!
Gimli olhou com os olhos esbugalhados. — A Ruína de Durin — gritou ele, deixando cair o machado e cobrindo o rosto.
— Um balrog! — murmurou Gandalf. — Agora eu entendo. — Perdeu o equilíbrio e se apoiou no cajado. — Que má sorte! E eu já estou exausto!
A figura escura, envolvida em fogo, corria em direção a eles. Os orcs gritavam e avançavam para a passarela de pedra. Então Boromir levantou sua corneta e a tocou.
Forte o desafio soou e retumbou, como o grito de muitas gargantas sob o teto cavernoso. Por um momento os orcs estremeceram e a figura de fogo parou. Então os ecos se extinguiram de repente como uma chama apagada por um vendaval, e o inimigo avançou outra vez.
— Para a ponte! — gritou Gandalf, recobrando as forças. — Fujam! Este é um inimigo além das forças de qualquer um de vocês. Preciso proteger o caminho estreito. Fujam!
Aragom e Boromir não obedeceram ao comando, e ainda ficaram onde estavam, lado a lado, atrás de Gandalf na extremidade oposta da ponte. Os outros pararam bem na passagem na ponta do salão e se viraram, incapazes de deixar seu líder sozinho, enfrentando o inimigo.
O balrog alcançou a ponte. Gandalf parou no meio do arco, apoiando-se no cajado com a mão esquerda, mas na outra mão brilhava Glamdring, fria e branca. O inimigo parou outra vez, enfrentando-o, e a sombra à sua volta se espalhou como duas grandes asas. Levantou o chicote, e as correias zuniram e estalaram.
Saía fogo de suas narinas. Mas Gandalf ficou firme.
— Você não pode passar — disse ele. Os orcs estavam quietos, e fez-se um silêncio mortal. — Sou um servidor do Fogo Secreto, que controla a chama de Anor. Você não pode passar. O fogo negro não vai lhe ajudar em nada, chama de Udún. Volte para a Sombra! Não pode passar.
O balrog não fez sinal de resposta. O fogo nele pareceu se extinguir, mas a escuridão aumentou. Avançou devagar para a ponte, e de repente saltou a uma enorme altura, e suas asas se abriram de parede a parede, mas ainda se podia ver Gandalf, brilhando na escuridão; parecia pequeno, e totalmente sozinho: uma figura cinzenta e curvada, como uma árvore encolhida perante o início de uma tempestade.
Saindo da sombra, uma espada vermelha surgiu, em chamas. Glamdring emanou um brilho branco em resposta.
Houve um estrondo e um golpe de fogo branco. O balrog caiu para trás e sua espada voou, partindo-se em muitos pedaços que se derreteram.
O mago se desequilibrou na ponte, deu um passo para trás e mais uma vez ficou parado.
— Você não pode passar! — disse ele.
Num salto, o balrog avançou para cima da ponte. O chicote zunia e chiava.
— Ele não pode ficar sozinho! — gritou Aragorn de repente, correndo de volta ao longo da ponte. — Elendil! — gritou ele. — Estou com você, Gandalf!
— Gondor! — gritou Boromir, correndo atrás dele.
Nesse momento, Gandalf levantou o cajado e, gritando bem alto, golpeou a ponte.
O cajado se partiu e caiu de sua mão. Um lençol de chamas brancas se ergueu. A ponte estalou. Bem aos pés do balrog se quebrou, e a pedra sobre a qual estava caiu dentro do abismo, enquanto o restante permaneceu, oscilando, como uma língua de pedra estendida no vazio.
Com um grito horrendo, o balrog caiu para frente, e sua sombra mergulhou na escuridão, desaparecendo. Mas no momento em que caía, brandiu o chicote e as correias bateram e se enrolaram em volta dos joelhos do mago, arrastando-o para a borda. Ele perdeu o equilíbrio e caiu, agarrando-se em vão à pedra, e escorregou para dentro do abismo.
— Fujam, seus tolos! — gritou ele, e desapareceu.
As chamas se apagaram, uma escuridão vazia dominou o ambiente. A Comitiva ficou presa ao solo, horrorizada, olhando para o buraco. No momento em que Aragorn e Boromir voltavam correndo, o resto da ponte se partiu e caiu. Com um grito, Aragorn os despertou.
— Venham! Vou conduzi-los agora! — chamou ele. — Devemos obedecer à última ordem dele. Sigam-me!
Avançaram alucinadamente, subindo aos tropeços a escada atrás da porta.
Aragorn na frente, Boromír atrás de todos. No topo ficava uma passagem ampla e que produzia ecos. Por ela fugiram. Frodo escutou Sam chorando ao seu lado, e então percebeu que ele próprio estava chorando enquanto corria. Dum, dum, dum, os tambores batiam atrás, lamentosos agora, e lentos; dum!
Continuaram correndo. A luz aumentava diante deles; grandes fendas se abriam no teto, Correram mais rápido. Passaram para dentro de um salão, claro com a luz do dia, que entrava pelas altas janelas no lado Leste. Atravessaram-no correndo. Passaram pelas portas enormes e quebradas, e de repente se abriram diante deles os Grandes Portões, um arco de luz fulgurante.
Havia uma guarda de orcs agachada nas sombras atrás dos grandes postos de vigia, que se erguiam dos dois lados, mas os portões estavam arrebentados e destroçados.
Aragorn derrubou ao chão o capitão deles, que estava em seu caminho, e o resto fugiu de medo de sua ira. A Comitiva passou pelos orcs correndo, e não deu atenção a eles. Correram para fora dos Portões e desceram os grandes degraus, amplos e desgastados pelo tempo, o limiar de Moria.
Assim, finalmente, depois de perdidas todas as esperanças, viram o céu aberto e sentiram o vento batendo em seus rostos.
Não pararam até alcançarem uma boa distância das muralhas. O Vale do Riacho Escuro se estendia ao redor. A sombra das Montanhas Sombrias se projetava sobre ele, mas ao Leste havia uma luz dourada sobre a terra. Não passava uma hora do meio-dia.
O sol brilhava; as nuvens estavam altas e brancas.
Olharam para trás. A boca do arco dos Portões bocejava sobre a sombra da montanha. As batidas dos tambores retumbavam, fracas e distantes sob a terra: dum. Uma fumaça fina e preta subia no céu. Não se via mais nada; o vale ao redor estava vazio. Dum. Finalmente, a tristeza tomou conta deles, que choraram por muito tempo: alguns em pé e quietos, alguns atirados ao chão. Dum, dum, as batidas dos tambores foram ficando mais fracas, até que não se ouviu mais nada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!