24 de abril de 2016

Capítulo V - O Regente e o Rei

Sobre a cidade de Gondor pairava dúvida e grande medo. O bom tempo e o sol claro haviam parecido apenas um arremedo aos olhos de homens cujos dias continham poucas esperanças, e que esperavam a cada manhã notícias de destruição. O senhor daquele povo estava morto e queimado, morto jazia o Rei de Rohan em sua Cidadela, e o novo rei, que chegara até eles durante a noite, partira outra vez para uma guerra contra forças por demais escuras e terríveis para que qualquer poder ou coragem pudessem vencê-las. E nenhuma noticia chegava. Depois que o exército partiu do Vale Morgul e tomou a estrada que conduzia ao norte, sob a sombra das montanhas, nenhum mensageiro retornara, nem tampouco houvera qualquer boato sobre o que estava se passando no leste.
Apenas dois dias após a partida dos Capitães, a Senhora Éowyn ordenou às aias que a assistiam que trouxessem suas roupas, e não se mostrou disposta a que a contradissessem: levantou-se da cama. E, quando a tinham vestido e colocado seu braço numa tipoía de linho, ela se dirigiu ao Diretor das Casas de Cura.
— Senhor — disse ela —, estou muito ansiosa, e não posso ficar mais tempo nesse repouso indolente.
— Senhora — respondeu ele — ainda não está curada, e foi-me ordenado que lhe dispensasse cuidados especiais. Deveria repousar em sua cama por mais sete dias, ou pelo menos foi o que me recomendaram. Peço que retorne.
— Estou curada — disse ela —, pelo menos meu corpo está, a não ser apenas por meu braço esquerdo, e este está repousando. Mas vou adoecer de novo, se não houver nada que eu possa fazer. Não há noticias da guerra? As aias não me dizem nada.
— Não há notícias — disse o Diretor —, exceto a de que os Senhores cavalgaram para o Vale Morgul, e os homens dizem que o novo capitão que veio do norte os lidera. Ele é um grande senhor, e um curador; e a mim me parece estranho que uma mão que cura deva também brandir uma espada. Não é o que acontece em Gondor atualmente, embora outrora tenha sido assim, se as velhas histórias são verdadeiras. Mas por longos anos nós, os curadores, só estamos procurando remendar os rasgos feitos pelos espadachins. Apesar disso, ainda teríamos muito a fazer sem eles: o mundo já está cheio de feridas e infortúnios mesmo sem guerras para multiplicá-los.
— Só é necessário um inimigo para preparar uma guerra, e não dois, Mestre Diretor — respondeu Éowyn — e aqueles que não têm espadas ainda podem morrer por meio delas. O senhor gostaria que o povo de Gondor ficasse apenas ajuntando ervas, quando o Senhor do Escuro ajunta exércitos? E não é sempre bom estar com o corpo curado. Nem é sempre mau morrer em combate, mesmo com um sofrimento amargo. Se me fosse permitido, nesta hora escura eu teria escolhido a segunda opção.
O Diretor olhou para ela. Era altiva, os olhos brilhavam no rosto branco, sua mão crispou-se no momento em que se virou e olhou pela janela que se abria para o leste. Ele suspirou e balançou a cabeça. Depois de uma pausa, ela se virou para ele outra vez.
— Não há nada a fazer? — disse ela. — Quem está no comando desta Cidade?
— Não sei bem ao certo — respondeu ele. — Essas coisas não são responsabilidade minha. Há um marechal comandando os Cavaleiros de Rohan, e o Senhor Húrin, pelo que ouvi dizer, lidera os homens de Gondor. Mas o Senhor Faramir é por direito o Regente da Cidade.
— Onde posso encontrá-lo?
— Nesta casa, senhora. Ele foi seriamente ferido, mas agora já está a caminho da recuperação. Mas eu não sei...
— Pode me levar até ele? Então saberá.
O Senhor Faramir caminhava solitário no jardim das Casas de Cura; o sol o aquecia, e ele sentia a vida correr renovada em suas veias; mas seu coração estava pesaroso, e ele olhava por sobre as muralhas na direção do leste. Ao chegar, o Diretor pronunciou seu nome, e ele se virou e viu a Senhora Éowyn de Rohan; ficou penalizado, pois viu que ela estava ferida, e seus olhos argutos perceberam a tristeza e a aflição que ela sentia.
— Meu senhor — disse o Diretor — aqui está a Senhora Éowyn de Rohan. Ela cavalgou ao lado do rei e foi seriamente ferida, e agora está sob minha guarda. Mas ela não está satisfeita, e deseja falar com o Regente da Cidade.
— Não o entenda mal, senhor — disse Éowyn. — Não é a falta de cuidados que me entristece. Nenhuma casa poderia ser melhor para aqueles que desejam se curar. Mas não posso ficar indolente, ociosa, aprisionada. Na batalha, corri na direção da morte. Mas não morri, e a batalha ainda perdura.
A um aceno de Faramir, o Diretor fez uma reverência e saiu.
— O que gostaria que eu fizesse, senhora? — perguntou Faramir. — Também eu sou um prisioneiro dos curadores.
Olhou para ela, e, sendo um homem profundamente suscetível à pena, teve a impressão de que a beleza de Éowyn, combinada com a tristeza que ela sentia, poderiam partir-lhe o coração. E ela, olhando para ele, viu a grave ternura em seus olhos, e mesmo assim soube, pois fora criada entre homens guerreiros, que ali estava alguém a quem nenhum Cavaleiro de Rohan poderia superar em batalha.
— O que deseja? — disse ele outra vez. — Farei o que estiver ao meu alcance.
— Gostaria que ordenasse a esse Diretor que me desse permissão para partir — disse ela; mas, embora suas palavras ainda fossem cheias de orgulho, seu coração vacilou, e pela primeira vez ela duvidou de si mesma. Pensou que aquele homem, ao mesmo tempo austero e gentil, poderia considerá-la apenas geniosa, como uma criança que não tem a firmeza mental para executar uma tarefa enfadonha até o fim.
— Eu mesmo estou sob a guarda do Diretor — respondeu Faramir. — E também ainda não assumi minha função na Cidade. Mas, se já tivesse feito isso, ainda assim ouviria o conselho dele, e não o desautorizaria em assuntos de sua alçada, a não ser em caso de extrema necessidade.
— Mas não desejo ser curada — disse ela. — Desejo cavalgar para a guerra como meu irmão Éomer ou, melhor ainda, como o Rei Théoden, pois ele morreu, alcançando tanto a honra como a paz.
— É tarde demais, senhora, para seguir os Capitães, mesmo que lhe restassem forças — disse Faramir. — Mas a morte em batalha pode ainda nos atingir a todos, quer a desejemos ou não. Estará mais bem preparada para enfrentá-la à sua própria maneira, se fizer como o Diretor ordenou enquanto ainda há tempo. A senhora e eu, ambos devemos suportar com paciência as horas de espera.
Éowyn não respondeu, mas observando-a Faramir teve a impressão de que algo nela amoleceu, como se uma forte geada estivesse cedendo ao primeiro leve presságio de primavera. Uma lágrima surgiu em seus olhos e caiu-lhe pelas faces como uma gota cintilante de chuva. Sua cabeça altiva abaixou-se um pouco.
Então, num tom suave, como se estivesse mais falando consigo própria do que com ele, ela disse:
— Mas os curadores querem que eu fique de repouso por mais sete dias. E minha janela não dá para o leste. — Sua voz agora era a de uma donzela jovem e triste.
Faramir sorriu, embora seu coração estivesse cheio de pena.
— Sua janela não dá para o leste? — disse ele. — Isso pode ser solucionado. Nesse ponto darei ordens ao Diretor. Se ficar nesta casa sob nossos cuidados, senhora, e guardar seu repouso, então poderá caminhar neste jardim ao sol quando bem quiser; e poderá olhar para o leste, para onde todas as nossas esperanças se dirigiram. E aqui poderá me encontrar, caminhando e esperando, e também olhando para o leste. Suavizaria minha preocupação, se estivesse disposta a conversar comigo, ou às vezes caminhasse em minha companhia.
Então ela levantou a cabeça e olhou nos olhos dele de novo; um rubor tingiu-lhe o rosto pálido.
 — Como eu poderia suavizar sua preocupação, meu senhor? — disse ela. — Eu não desejo conversar com homens vivos.
— Aceitaria uma resposta direta? — disse ele.
— Sim.
— Então, Éowyn de Rohan, digo-lhe que é linda. Nos vales de nossas colinas há flores belas e cintilantes, e donzelas ainda mais bonitas; mas até agora não vi em Gondor flores ou mulheres tão encantadoras, nem tão cheias de tristeza. Pode ser que restem apenas alguns dias antes que a escuridão caia sobre nosso mundo, e quando chegar espero enfrentá-la com firmeza; mas aliviaria meu coração se, enquanto o sol ainda brilha, eu ainda pudesse vê-la. Pois nós dois passamos sob as asas da Sombra, e a mesma mão nos trouxe de volta.
— Não eu, infelizmente, senhor — disse ela. — A Sombra ainda paira sobre mim. Não me olhe em busca de cura! Sou uma escudeira e minhas mãos não são delicadas. Mas pelo menos lhe agradeço por isso, por não precisar ficar em meu quarto. Vou caminhar ao ar livre pela graça do Regente da Cidade. — Então ela lhe fez um gesto cortês e voltou para a casa.
Mas Faramir, por um longo tempo, caminhou sozinho no jardim, e seu olhar agora se voltava mais para a casa que para as muralhas ao leste.


Quando retornou ao seu quarto, mandou chamar o Diretor, e ouviu tudo o que este pôde lhe contar sobre a Senhora de Rohan.
— Não duvido, senhor — disse o Diretor —, de que teria mais informações se procurasse o Pequeno que está conosco; pois ele esteve cavalgando junto com o rei, e ao final com a Senhora, pelo que dizem.
E assim Merry foi enviado a Faramir, e enquanto o dia durou eles conversaram longamente, e Faramir soube de muita coisa, mais até do que Merry colocou em palavras; agora ele julgava entender algo da tristeza e da inquietação de Éowyn de Rohan. E no belo início de noite Faramir e Merry caminharam no jardim, mas ela não veio.
Mas pela manhã, quando Faramir veio das Casas, ele a viu sobre as muralhas, vestida toda de branco, reluzindo ao sol. E ele a chamou, e ela desceu, e os dois ficaram caminhando na relva ou sentados juntos sob uma árvore verde, por vezes em silêncio, por vezes conversando. E a cada dia que se seguiu fizeram a mesma coisa. E o Diretor, olhando de sua janela, alegrou-se em seu coração, pois era um curador, e sua preocupação ficou menos pesada; e era certo que, por mais pesado que fossem o temor e os maus presságios nos corações dos homens naqueles dias, mesmo assim esses dois pacientes sob seus cuidados prosperavam e cresciam em força a cada dia.
Assim chegou o quinto dia desde que a Senhora Éowyn encontrou-se com Faramir pela primeira vez; e os dois estavam juntos mais uma vez, olhando por sobre as muralhas da Cidade. Ainda nenhuma notícia chegara, e todos os corações estavam anuviados. Os dias também já não eram claros. Estava frio. Um vento que se erguera durante a noite soprava agora do norte, cortante, e aumentava cada vez mais; mas as terras ao redor pareciam cinzentas e desoladas.
Trajavam roupas quentes e capas pesadas, e sobre tudo a Senhora Éowyn vestia um grande manto azul, da cor profunda de uma noite de verão, adomado com estrelas prateadas na barra e no pescoço. Faramir mandara buscar esse manto para agasalhá-la; achou que ela parecia bela e verdadeiramente majestosa ao lado dele. O manto fora confeccionado para a sua mãe, Finduilas de Amroth, que morrera precocemente, e era para ele apenas uma lembrança de encanto em dias distantes e de sua primeira tristeza: e esse manto lhe parecia uma roupa adequada à beleza e à tristeza de Éowyn.
Mas agora ela tremia sob o manto estrelado, e olhava para o norte, através das terras cinzentas que a rodeavam, dentro do olho do vento frio onde, distante, o céu estava firme e claro.
— O que está procurando, Éowyn? — perguntou Faramir.
— O Portão Negro não fica naquela direção? — disse ela. — E ele não deve ter agora chegado lá? Já faz sete dias que partiu.
— Sete dias — disse Faramir. — Mas não me leve a mal, se eu lhe disser: esses dias me trouxeram ao mesmo tempo uma alegria e um sofrimento que jamais pensei conhecer. Alegria em vê-la; mas sofrimento, porque agora o medo e a dúvida destes tempos malignos realmente ficaram muito escuros. Éowyn, agora eu não gostaria que este mundo acabasse, ou que eu perdesse tão depressa o que encontrei.
— Perder o que encontrou, senhor? — respondeu ela; mas olhou para ele com um ar grave, e seus olhos eram doces. — Não consigo pensar no que tenha encontrado nestes dias que pudesse perder. Mas venha, meu amigo, não vamos falar nisso! Não vamos falar nada! Estou à beira de um abismo maligno, e está totalmente escuro diante de meus pés,mas se há alguma luz atrás de mim não posso dizer. Pois ainda não posso me virar. Aguardo algum golpe do destino.
— Sim, nós dois aguardamos o golpe do destino — disse Faramir. E não disseram mais nada, e tiveram a impressão, ali sobre a muralha onde estavam, de que o vento cessou, e a luz diminuiu e o sol foi ofuscado, e todos os sons na Cidade ou nas regiões ao redor silenciaram: nem vento, nem voz, nem canto de pássaro, nem farfalhar de folhas, nem sequer a própria respiração de ambos podia-se ouvir; a própria batida de seus corações cessou. O tempo parou.
E, enquanto ficaram assim, suas mãos se encontraram e se entrelaçaram, sem que eles se dessem conta disso. Continuavam à espera sem saber do quê. Então, de repente, tiveram a impressão de que, acima das cordilheiras das distantes montanhas, uma outra vasta montanha de escuridão se ergueu, assomando como uma onda que engoliria o mundo, e em volta dela faiscavam relâmpagos; então um tremor percorreu a terra, e eles sentiram as muralhas da Cidade estremecendo. Um som como um suspiro subiu de todas as terras ao redor, e de repente seus corações começaram de novo a bater.
— Isso me faz lembrar de Númenor — disse Faramir, surpreso ao ouvir o som da própria voz.
— De Númenor? — perguntou Éowyn.
— Sim — disse Faramir —, da terra do Ponente que soçobrou e da grande onda escura subindo acima das terras verdes e cobrindo as colinas, e avançando, uma escuridão inescapável. Eu sempre sonho com isso.
— Então você acha que a Escuridão está chegando? — disse Éowyn. — A Escuridão Inescapável? — E de repente ela se aproximou mais dele.
— Não — disse Faramir, olhando no rosto dela. — Foi apenas uma imagem em minha cabeça. Não sei o que está acontecendo. A razão de minha mente consciente me diz que um grande mal aconteceu e que estamos no fim dos dias. Mas meu coração diz o contrário, e todos os meus membros estão leves, e uma esperança e uma alegria que nenhuma razão pode negar se apoderam de mim. Éowyn, Éowyn, Senhora Branca de Rohan, nesta hora não acredito que qualquer escuridão possa perdurar! — Abaixou-se e beijou-lhe a testa.
E assim ficaram sobre as muralhas da Cidade de Gondor, e um vento forte subiu e soprou, e seus cabelos, negros e dourados, esvoaçaram e se misturaram no ar. E a Sombra partiu, e o sol foi descoberto, e a luz jorrou; e as águas do Anduin brilharam como prata, e em todas as casas da Cidade homens cantavam devido à alegria que lhes inundava os corações, vinda de uma fonte que eles não conheciam.
E, antes que o sol tivesse descido do meio-dia, do leste chegou voando uma grande Águia, trazendo notícias dos Senhores do Oeste que superavam qualquer esperança, exclamando:

Cantai, ó povo da Torre de Arnor,
que o Reino de Sauron para sempre acabou,
e a Torre Escura enfim ruiu.
Cantai e jubilai, ó povo da Torre da Guarda,
que vossa vigília não foi em vão,
e o Portão Negro foi quebrado,
e vosso Rei já pôde passar em marcha triunfal.
Cantai e alegrai-vos, vós todos, filhos do oeste,
que vosso Rei há de voltar outra vez,
e ele habitará entre vós todos os dias de vossa vida.
E a Árvore que havia secado renovada será,
e será plantada nos lugares altos,
e a Cidade será abençoada.
Cantai todos, ó povo!

E o povo cantou em todos os caminhos da Cidade.


Os dias que se seguiram foram dourados, e a primavera e o verão festejaram juntos nos campos de Gondor. E agora chegavam noticias, trazidas de Cair Andros por velozes cavaleiros, sobre tudo o que se passara, e a Cidade se preparava para a chegada do Rei.
Merry foi convocado e partiu com as carroças que levaram suprimentos até Osgiliath, prosseguindo de lá para Cair Andros de navio; mas Faramir não foi, pois agora, estando recuperado, reassumira sua função e a Regência, embora por pouco tempo, e seu dever era preparar tudo para alguém que iria substituí-lo.
E Éowyn não foi, embora seu irmão lhe tivesse enviado um recado, pedindo que ela fosse até o campo de Cormallen. E Faramir se surpreendeu com isso, mas a via raras vezes, ocupado com muitos assuntos; ela ainda estava nas Casas de Cura, e caminhava sozinha no jardim, e seu rosto empalidecera de novo, e parecia que em toda a Cidade ela era a única pessoa triste e doente. O Diretor das Casas ficou preocupado, e falou com Faramir.
Então Faramir foi procurá-la, e mais uma vez os dois ficaram sobre as muralhas juntos, e ele lhe disse:
— Éowyn, por que você continua aqui, e não vai aos festejos em Cormallen além de Cair Andros, onde seu irmão a aguarda?
E ela disse:
— Você não sabe?
Mas ele respondeu:
— Pode haver dois motivos, mas qual é o verdadeiro eu não sei.
E ela disse:
— Não quero brincar com enigmas. Fale mais claramente!
— Então, se é esse o seu desejo, senhora — disse ele —: você não vai porque apenas seu irmão a chamou, e contemplar o Senhor Aragorn, herdeiro de Elendil, em seu triunfo não lhe traria felicidade alguma. Ou então porque eu não vou, e você deseja ficar perto de mim. E talvez seja por esses dois motivos, e você não está conseguindo escolher entre eles. Éowyn, você não me ama, ou não deseja me amar?
— Desejava ser amada por outro — respondeu ela. — Mas não quero a comiseração de nenhum.
— Isso eu sei — disse ele. — Você desejava ter o amor do Senhor Aragorn. Porque ele era nobre e pujante, e você queria ter renome e glória e ser elevada bem acima das coisas mesquinhas que se arrastam sobre a terra. E, como um grande capitão pode parecer admirável para um jovem soldado, assim ele lhe pareceu. Pois é o que ele é, um senhor entre homens, o maior que existe atualmente. Mas, quando lhe ofereceu apenas compreensão e pena, então você não desejou mais nada, exceto uma morte corajosa em batalha. Olhe para mim, Éowyn! — E Éowyn olhou para Faramir firme e longamente; Faramir disse: — Não despreze a comiseração oferecida por um coração gentil, Éowyn! Mas eu não lhe ofereço minha comiseração. Pois você é uma senhora nobre e valorosa, e obteve um renome que não deverá ser esquecido; e você é uma senhora bela, considero eu, e sua beleza está acima até do que a língua dos elfos pode descrever. E eu a amo. Já senti pena de sua tristeza. Mas agora, mesmo que você não sentisse tristeza alguma, nem medo, e não lhe faltasse nada; fosse você a bem-aventurada Rainha de Gondor, ainda assim eu a amaria. Éowyn, você não me ama?
Naquele momento o coração de Éowyn mudou, ou então finalmente ela percebeu a mudança. E de repente seu inverno passou e o sol brilhou para ela.
— Estou em Minas Anor, a Torre do Sol — disse ela —; e eis que a Sombra partiu! Não serei mais uma escudeira, nem competirei com os grandes Cavaleiros, e deixarei de me regozijar apenas com canções de matança. Serei uma curadora, e amarei todas as coisas que crescem e não são estéreis. — Outra vez olhou para Faramir. — Não desejo mais ser uma rainha — disse ela.
Então Faramir sorriu com alegria.
— Assim está bem — disse ele —; pois eu não sou um rei. E mesmo assim me casarei com a Senhora Branca de Rohan, se ela assim o desejar. E, se ela quiser, então atravessaremos o Rio e em dias mais felizes iremos morar na bela Ithilien, e lá faremos um jardim. Todas as coisas crescerão ali com alegria, se a Senhora Branca vier.
— Então devo deixar meu próprio povo, homem de Gondor? — disse ela. — E você gostaria que seu povo orgulhoso dissesse a seu respeito: “Lá vai um senhor que domou uma intrépida escudeira do norte! Não havia uma mulher da raça de Númenor para ele escolher?”
— Gostaria — disse Faramir. E tomando-a nos braços beijou-a sob o céu ensolarado, sem se preocupar se estavam sobre a muralha, num ponto alto, à vista de muitas pessoas.
E realmente muitos viram os dois e a luz que brilhava ao redor deles quando desceram das muralhas e foram de mãos dadas até as Casas de Cura.
E ao Diretor das Casas Faramir disse:
— Aqui está a Senhora Éowyn de Rohan, e agora ela está curada.
E o Diretor disse:
— Então eu a dispenso de meus cuidados e digo-lhe adeus, desejando-lhe que jamais volte a ter qualquer doença ou sofrimento. Recomendo-a aos cuidados do Regente da Cidade, até que seu irmão retorne.
Mas Éowyn disse:
— Apesar de agora eu ter permissão para partir, gostaria de ficar. Pois esta Casa se tornou para mim a mais feliz de todas as moradias.
E lá permaneceu até a chegada do Rei Éomer.


Agora todas as coisas estavam prontas na Cidade, e havia um grande afluxo de pessoas, pois as notícias tinham se espalhado por todos os cantos de Gondor, de Min-Rimmon até Pinnath Gelin e as distantes costas marítimas; todos os que puderam se apressaram em direção à Cidade. E a Cidade se encheu de novo de mulheres e lindas crianças que retornaram para seus lares carregadas de flores; e de Doí Amroth vieram os melhores harpistas de toda a região, e havia também tocadores de violas, de flautas e de cornetas de prata, e cantores de voz límpida vieram dos vales de Lebennin.
Por fim chegou o dia em que das muralhas podiam-se ver os pavilhões montados no campo, e durante toda a noite as luzes arderam, enquanto os homens aguardavam a aurora. E quando o sol surgiu na manhã clara sobre as montanhas do leste, nas quais não pairava mais sombra alguma, todos os sinos repicaram, e as bandeiras se abriram tremulando ao vento; sobre a Torre Branca da Cidadela o estandarte dos Regentes, prata brilhante como neve ao sol, não trazendo emblema ou insígnia, foi hasteado sobre Gondor pela última vez.
Agora os Capitães do Oeste conduziam seu exército em direção à Cidade, e o povo os via avançar fileira após fileira, faiscando e reluzindo ao nascer do sol, ondulando como prata. E assim eles chegaram diante do Pórtico e pararam a duzentos metros das muralhas.
Até aquele momento, os portões ainda não haviam sido reconstruídos, e uma estacada fora construída atravessando a entrada da Cidade, e lá estavam homens armados vestindo prata e negro, erguendo longas espadas. À frente da estacada estavam o Regente Faramir e Húrin, o Guardião das Chaves, juntamente com outros capitães de Gondor; a Senhora Éowyn de Rohan com o Marechal Ellhelm e muitos de seus cavaleiros; e dos dois lados do Portão havia uma grande multidão de gente bonita vestida de muitas cores e levando guirlandas de flores.
Havia agora um amplo espaço diante das muralhas de Minas Tirith rodeado pelos soldados e cavaleiros de Gondor e de Rohan, como também por todo o povo da Cidade e de todas as partes da região. Um silêncio caiu sobre todos quando do exército avançaram os dúnedain em prata e cinza; e à frente veio, caminhando devagar, o Senhor Aragorn.
Estava vestindo uma malha metálica preta com um cinto prateado, e usava um longo manto completamente branco, preso ao pescoço por uma joia verde que brilhava ao longe; mas em sua cabeça não havia nada, exceto uma estrela sobre a testa, presa por um fino filete de prata. Com ele vinham Éomer de Rohan, o Príncipe Imrahil e Gandalf, todo vestido de branco, além de quatro pequenas figuras que a muitos causaram surpresa.
— Não, prima! Eles não são meninos — disse Ioreth à sua parente de Imloth Melui, que estava ao seu lado. — Aqueles são Periain, vindos da distante terra dos Pequenos, onde são príncipes de grande renome, pelo que se conta. Eu sei, pois cuidei de um deles nas Casas. São pequenos, mas valorosos. Veja bem, prima, um deles foi para a Terra Negra acompanhado apenas de seu escudeiro, e lutou sozinho contra o Senhor do Escuro, e arcou fogo à Torre dele, acredite se puder. Pelo menos é isso o que se conta na Cidade. Deve ser o que caminha com o nosso Pedra Élfica. São amigos íntimos, ouvi dizer. Agora, ele é um prodígio, o Senhor Pedra Élfica: não muito gentil em sua fala, note bem, mas tem um coração de ouro, como se diz por aí; e ele tem as mãos que curam. “As mãos do rei são as mãos de um curador”, disse eu; e foi assim que se descobriu tudo. E Mithrandir me disse: “Ioreth, os homens se lembrarão por muito tempo de suas palavras”, e...
Mas Ioreth não pôde continuar instruindo sua parente do interior, pois uma única trombeta soou, e fez-se silêncio profundo. Então vieram do Portão Faramir e Húrin das Chaves, desacompanhados de outros, exceto por quatro homens que caminhavam atrás deles usando altos elmos e vestindo a armadura da Cidadela, carregando um grande cofre negro de lebethron, adornado de prata.
Faramir foi ao encontro de Aragorn no meio de todos ali reunidos, e ajoelhou-se, dizendo:
— O último Regente de Gondor pede permissão para entregar seu ofício.
 E estendeu um bastão branco; mas Aragorn o tomou e o devolveu, dizendo:
— Tal ofício não está terminado, e deverá ser teu e de teus herdeiros enquanto durar minha linhagem. Desempenha agora o teu ofício!
Então Faramir levantou-se e falou numa voz límpida:
— Homens de Gondor, ouçam agora o Regente deste Reino! Vejam! Finalmente chegou alguém para reivindicar o trono. Aqui está Aragorn, filho de Arathorn, chefe dos dúnedain de Anor, Capitão do Exército do Oeste, portador da Estrela do Norte, possuidor da Espada Reforjada, vitorioso em batalha, cujas mãos trazem a cura, o Pedra Élfica, Elessar da linhagem de Valandil, filho de Isildur, filho de Elendil de Númenor. Deve ele ser rei e entrar na Cidade para ali morar?
E todo o exército e todo o povo gritaram sim a uma só voz.
E Ioreth disse à sua parente:
— Isso é apenas uma cerimônia de nossa Cidade, prima; pois ele já entrou, como eu estava lhe dizendo, e ele me disse... — então mais uma vez ela foi obrigada a se calar, pois Faramir falou outra vez.
— Homens de Gondor, os mestres na tradição dizem que, conforme o costume antigo, o rei deveria receber a coroa de seu pai antes que este morresse; e, se isso não fosse possível, então ele deveria ir sozinho e tomá-la das mãos de seu pai no túmulo onde foi depositado. Mas uma vez que as coisas devem ser feitas agora de modo diferente, usando a autoridade do Regente, eu hoje trouxe até aqui de Rath Dinen a coroa de Earnur, o último rei, cujos dias transcorreram no tempo de nossos remotos antepassados.
Então os guardas deram um passo à frente, e Faramir abriu o cofre, e ergueu uma coroa antiga. Tinha o formato dos elmos dos Guardas da Cidadela, mas era mais alta, e toda branca, e as asas dos dois lados eram feitas de pérolas e prata, a semelhança de asas de uma ave marítima, pois era o emblema dos reis que vieram pelo Mar; no aro da coroa reluziam sete pedras, e na ponta uma única joia, cuja luz subia como uma chama.
Então Aragorn pegou a coroa e a ergueu, dizendo:
— Et Lârelio Endorenna utúlien. Sinome maruvan ar HiLdinyar tenn Ambar-metta!
E essas foram as palavras que Elendil disse quando chegou do Mar nas asas do vento: “Do Grande Mar vim para a Terra Média. Neste lugar vou morar, e também meus herdeiros, até o fim do mundo.”
Então, para a surpresa de muitos, Aragorn não colocou a coroa sobre a própria cabeça, mas devolveu-a a Faramir, dizendo:
— Pelo trabalho e pelo valor de muitos tomo posse do que é meu por herança. Em sinal disto gostaria que o Portador do Anel trouxesse a coroa até mim, e que Mithrandir a colocasse sobre minha cabeça, se assim desejar; pois foi ele o promotor de tudo o que foi realizado, e esta vitória lhe pertence.
Então Frodo veio à frente e tomou a coroa de Faramir e levou-a para Gandalf; Aragorn ajoelhou-se, e Gandalf colocou-lhe a coroa Branca sobre a cabeça, dizendo:
— Agora chegaram os dias do Rei, e que sejam bem-aventurados enquanto perdurarem os tronos dos Valar!
Mas quando Aragorn se levantou todos os que estavam presentes o contemplaram em silêncio, pois tiveram a impressão de que ele lhes estava sendo revelado pela primeira vez. Alto como os antigos reis dos mares, ele se ergueu acima de todos os que estavam perto; parecia velho em dias, mas na flor da virilidade; e a sabedoria ornava-lhe a fronte, e havia força e cura em suas mãos, e uma aura de luz o envolvia.
— Eis o rei!
E nesse momento todas as trombetas soaram, o Rei Elessar avançou chegando até a barreira, e Húrin das Chaves a afastou; em meio à música de harpas, violas e flautas, e do canto de vozes límpidas, o Rei passou pelas ruas cobertas de flores, chegando à Cidadela, e a adentrou; a bandeira da Árvore e das Estrelas foi desfraldada sobre o torreão mais alto, e iniciou-se o reinado do rei Elessar, do qual falaram muitas canções.


Em seu tempo a Cidade ficou mais bonita do que jamais fora, até mesmo mais do que nos dias de suas primeiras glórias; e encheu-se de árvores e fontes, e seus portões eram confeccionados em mithril e aço, e suas ruas eram pavimentadas de mármore branco, e o Povo da Montanha trabalhava nela, e o Povo da Floresta alegrava-se em visitá-la; tudo foi sanado e melhorado, e as casas se encheram de homens e mulheres e do riso das crianças; nenhuma janela ficou fechada e nenhum pátio vazio; e após o término da Terceira Era do mundo, entrando na nova era, a Cidade ainda preservava a lembrança e a glória dos anos passados.
Nos dias seguintes à sua coroação, o Rei sentou-se em seu trono no Palácio dos Reis e pronunciou seus julgamentos. Embaixadas vieram de muitas terras e povos, do leste e do sul e das fronteiras da Floresta das Trevas, e da Terra Parda no oeste. E o rei perdoou os orientais que se haviam rendido e os mandou embora em liberdade, e fez as pazes com o povo de Harad; os escravos de Mordor ele libertou, dando-lhes todas as terras ao redor do Lago Núrnen, para que lhes pertencessem. E foram trazidas à sua presença muitas pessoas, para que recebessem seu elogio e recompensa por seu valor; por último o capitão da Guarda lhe trouxe Beregond, para que fosse julgado.
E o Rei disse a ele:
— Beregond, através de sua espada o sangue se espalhou nos Fanos, onde isso não é permitido. Além disso, você abandonou seu posto sem a permissão do Senhor ou do Capitão. Por essas coisas, antigamente, a pena era a morte. Portanto agora vou pronunciar sua sentença.
“Toda a pena fica remitida devido ao seu valor em batalha, e mais ainda porque tudo o que fez foi por amor ao Senhor Faramir. Não obstante, você deve deixar a Guarda da Cidadela, e deve sair da Cidade de Minas Tirith.
Então o sangue sumiu do rosto de Beregond, que recebeu um golpe no coração e baixou a cabeça. Mas o Rei disse:
— Deve ser assim, pois você foi designado para a Companhia Branca, a Guarda de Faramir, Príncipe de Ithilien, e você será capitão dele e irá viver em Emyn Arnen com honra e paz, no serviço daquele por quem você arriscou tudo, para salvá-lo da morte.
E então Beregond, percebendo a justiça e a clemência do Rei, ficou feliz, e ajoelhando-se beijou-lhe a mão, e partiu alegre e satisfeito. E Aragorn deu a Faramir Ithilien, para que fosse seu principado, e pediu que ele morasse nas colinas de Emyn Arnen, à vista da Cidade.
— Pois — disse ele — Minas Ithil, no Vale Morgul, deverá ser completamente destruída, e, embora em tempos vindouros ela possa ser purificada, nenhum homem deverá morar lá antes que se passem muitos e longos anos.
E por último Aragorn cumprimentou Éomer de Rohan, e os dois se abraçaram e Aragorn disse:
— Entre nós não pode haver palavras de dar ou receber, nem de recompensa, pois somos irmãos. Foi uma hora feliz aquela na qual Eorl veio cavalgando do norte, e nunca uma aliança de povos foi mais abençoada, de modo que nenhum dos dois nunca faltou ao outro, e nem faltará. Agora, como você sabe, deitamos Théoden, o Renomado, num túmulo nos Fanos, e lá ele deverá jazer para sempre entre os Reis de Gondor, se esse for o seu desejo. Ou, se você quiser, iremos a Rohan e o levaremos de volta, para que descanse com seu próprio povo.
E Éomer respondeu:
— Desde o dia em que você surgiu diante de mim da verde relva das colinas afeiçoei-me a você, e essa afeição nunca irá se extinguir. Mas agora preciso partir por um tempo para o meu próprio reino, onde há muito a sanar e pôr em ordem. Mas, quanto ao Tombado, quando tudo estiver resolvido, retornaremos para buscá-lo; mas deixemos que durma aqui por um tempo.
E Éowyn disse a Faramir:
— Agora devo ir para minha própria terra, para contemplá-la mais uma vez, e ajudar meu irmão em seu trabalho; mas, quando aquele a quem amei tanto tempo como a um pai for depositado em seu descanso final, retornarei.


Assim se passaram os dias alegres, e no oitavo dia de maio os Cavaleiros de Rohan aprontaram-se e partiram cavalgando pela Estrada Norte, e com eles foram os Filhos de Elrond. Ao longo de toda a estrada se enfileiravam pessoas para homenageá-los e aplaudi-los, desde o Portão da Cidade até os Campos do Pelennor. Então, todos os outros que moravam longe voltaram para seus lares cheios de alegria; mas na Cidade trabalharam muitos voluntários de mãos dispostas, reconstruindo e renovando e removendo todas as cicatrizes da guerra e a lembrança da escuridão.
Os hobbits ainda permaneceram em Minas Tirith, com Legolas e Gimli, pois Aragorn relutava diante da ideia da dissolução da sociedade.
— Por fim todas essas coisas devem terminar — dizia ele —, mas eu gostaria que vocês esperassem um pouco mais: pois o fim dos feitos dos quais vocês participaram ainda não chegou. Aproxima-se um dia pelo qual esperei durante todos os anos de minha maioridade, e quando chegar eu gostaria de ter meus amigos por perto. — Mas sobre tal dia ele não estava disposto a dizer mais nada.
Durante esse tempo, os Companheiros do Anel moraram juntos numa bela casa com Gandalf, e eles iam e vinham com toda a liberdade. E Frodo disse a Gandalf:
— Você sabe que dia é esse sobre o qual Aragorn fala? Pois estamos felizes aqui, e não quero partir; mas os dias estão passando, e Bilbo está à espera, e o Condado é o meu lar.
— Quanto a Bilbo — disse Gandalf — ele está aguardando o mesmo dia, e sabe o que o prende aqui. Quanto à passagem dos dias, estamos apenas em maio, e o alto verão ainda nem chegou, e, embora todas as coisas possam parecer mudadas, como se uma era do mundo tivesse passado, ainda assim para as árvores e a relva faz menos de um ano que você partiu.
— Pippin — disse Frodo — você não tinha dito que Gandalf estava menos reservado que antigamente? Quando você disse isso, ele estava cansado devido aos seus trabalhos, eu acho. Agora está voltando à antiga forma.
E Gandalf disse:
— Muitas pessoas gostam de saber de antemão o que vai ser servido à mesa, mas aqueles que trabalharam preparando o banquete gostam de manter o segredo, pois a surpresa faz com que os elogios soem mais alto. E o próprio Aragorn aguarda um sinal.
Chegou um dia em que Gandalf desapareceu, e os Companheiros ficaram se perguntando o que estaria acontecendo. Mas Gandalf levou Aragorn para fora da Cidade durante a noite, e o conduziu até os pés da encosta sul do Monte Mindolluin, e lá os dois encontraram uma trilha feita em eras passadas, e que poucos agora ousavam pisar. Pois ela conduzia montanha acima, para um local alto e sagrado aonde apenas os antigos reis costumavam ir. E eles subiram por caminhos íngremes, até chegarem a um campo elevado, perto da neve que cobria os picos, que se debruçava sobre o precipício ao fundo da Cidade. Postados lá eles observaram as terras, pois a manhã chegara; e eles viram as torres da Cidade bem abaixo deles como lápis brancos tocados pela luz do sol, e todo o Vale do Anduin era como um jardim, e uma névoa dourada velava as Montanhas da Sombra. De um lado, a visão atingia as cinzentas Emyn Muil, e o brilho de Rauros era como uma estrela a faiscar na distância; do outro lado viram o Rio como uma fita estendida até Pelargir, e mais além havia a luz na borda do céu que evocava o Mar. E Gandalf disse:
— Este é o seu reino, e o coração do reino maior que haverá. A Terceira Era do mundo está terminada, e a nova era começou; é sua tarefa ordenar o início e preservar o que pode ser preservado. Pois, embora muito tenha sido salvo, muita coisa deve agora morrer, e o poder dos Três Anéis também terminou. E todas as terras que você está vendo, e aquelas que ficam em torno delas, deverão ser moradias de homens. Chegou o tempo do Domínio dos Homens, e a Gente Antiga deverá desaparecer ou partir.
— Sei muito bem disso, caro amigo — disse Aragorn —, mas ainda gostaria de contar com seus conselhos.
— Não por muito tempo agora — disse Gandalf. — A Terceira Era foi a minha. Eu era o Inimigo de Sauron e meu trabalho está terminado. Partirei em breve. E o fardo deverá ser carregado por você e pelo seu povo.
— Mas eu morrerei — disse Aragorn. — Pois sou um homem mortal, e, embora seja o que sou e da raça pura do oeste, devendo ter uma vida mais longa que os outros homens, ela vai durar pouco tempo; e, depois que aqueles que agora estão nos ventres das mulheres nascerem e estiverem velhos, eu também ficarei velho. E quem então deverá governar Gondor e aqueles que consideram esta Cidade a sua rainha, se meu desejo não for satisfeito? A Árvore no Pátio da Fonte ainda está seca e estéril. Quando terei um sinal de que um dia será de outro modo?
— Desvie seu rosto do mundo verde, e olhe para onde tudo parece desolado e frio! — disse Gandalf.
Então Aragorn se virou, e havia uma ladeira de pedra atrás dele, que descia da orla da neve; e, quando olhou, percebeu que ali, solitária, em meio à desolação, estava uma coisa viva. E ele subiu até ela, e viu que exatamente da orla da neve nascia uma muda de árvore que não ultrapassava noventa centímetros em altura. Já exibia jovens folhas longas e belas, escuras na face superior e prateadas por baixo, e sobre sua esbelta copa carregava um pequeno cacho de flores, cujas pétalas brancas brilhavam como a neve iluminada pelo sol.
Então Aragorn exclamou:
— Yé! utúvienyes! Encontrei-a! Veja! Aqui está uma
descendente da Mais Velha das Árvores. Mas como veio parar aqui? Pois ela mesma não tem mais de sete anos de idade.
E Gandalf, aproximando-se, olhou para a pequena árvore e disse:
— Realmente, esta é uma muda da linhagem de Nimloth, a bela, e esta foi uma semente de Galathilion, que nasceu do fruto de Telperion dos muitos nomes, a Mais Velha das Árvores. Quem poderá dizer como ela veio parar aqui na hora marcada? Mas este é um antigo local sagrado, e, antes que os reis caíssem ou a Árvore secasse no pátio, um fruto deve ter sido plantado aqui. Pois comenta-se que, embora o fruto da Árvore raramente fique maduro, mesmo assim a vida que existe dentro dele pode dormir através de muitos e muitos anos, e ninguém pode predizer o tempo em que despertará. Lembre-se disso. Pois, se algum dia um fruto amadurecer, ele deve ser plantado, para evitar que a linhagem desapareça do mundo. Aqui ele foi colocado, escondido nas montanhas, da mesma forma que a raça de Elendil ficou escondida nos ermos do norte. E apesar disso a linhagem de Nimloth é muito mais antiga do que a sua, Rei Elessar.
Aragorn encostou delicadamente sua mão à muda de árvore e aí percebeu, surpreso, que ela se prendia muito de leve à terra; retirou-a sem feri-la, e levou-a de volta à Cidadela. Então a árvore seca foi arrancada, mas com reverência; não a queimaram, mas a deitaram para que descansasse no silêncio de Rath Dinen. E Aragorn plantou a nova árvore no pátio perto da fonte, e ela começou a crescer rápida e alegremente; e, quando chegou o mês de junho, ficou carregada de flores.
— O sinal foi dado — disse Aragorn — e o dia não está distante.
E ele colocou vigias sobre as muralhas.


Era o dia anterior ao Solstício de Verão quando chegaram à Cidade mensageiros de Amon Din, dizendo que havia uma comitiva de belas pessoas que vinham cavalgando do norte, e que se aproximavam agora das muralhas do Pelennor. E o rei disse:
— Finalmente chegaram. Que toda a Cidade se prepare!
Exatamente na Véspera do Solstício de Verão, quando o céu estava da cor da safira e estrelas brancas se abriam no leste, enquanto o oeste ainda estava dourado e o ar era fresco e fragrante os cavaleiros desceram a Estrada Norte até os Portões de Minas Tirith.
Na frente cavalgavam Elrohir e Elladan com a bandeira de prata, e depois vinham Glorfindel e Erestor e todos os membros da Casa de Valfenda, e depois deles a Senhora Galadriel e Celeborn, Senhor de Lothlórien, montando cavalos brancos e com eles muita gente bonita de sua terra, usando mantos cinzentos e pedras brancas nos cabelos; por último vinha Mestre Elrond, poderoso entre elfos e homens, carregando o cetro de Annúminas, e ao seu lado, montando um palafrem cinzento, vinha Arwen, sua filha, Estrela Vespertina de seu povo.
E Frodo, quando a viu chegar brilhando à noitinha, com estrelas na testa e uma doce fragrância a envolvê-la, foi tocado por um profundo sentimento de admiração, e disse a Gandalf:
— Finalmente entendo por que esperamos! Este é o término. Agora não só os dias serão amados, mas as noites também serão belas e bem-aventuradas e todo o medo que existe nelas se extinguirá.
Então o Rei deu boas-vindas aos convidados, que apearam das montarias; Elrond entregou o cetro, e colocou a mão da filha na mão do Rei, e juntos eles subiram para a Cidade Alta, e todas as estrelas floriram no céu. E Aragorn, o rei Elessar, casou-se com Arwen Undómiel na Cidade dos Reis no dia do Solstício de Verão, e cumpriu-se a história de seus árduos trabalhos e de sua longa espera.

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