11 de abril de 2016

Capítulo V - O Cavaleiro Branco

— Estou gelado até os ossos — disse Gimli, batendo os braços e pisando forte. Finalmente o dia chegara. Ao nascer do sol os companheiros comeram o que havia; agora, na luz que aumentava, estavam se preparando para vasculhar o chão mais uma vez em busca de sinais dos hobbits.
— E não se esqueça daquele velho! — disse Gimli. — Eu ficaria mais feliz se visse a pegada de uma bota.
— Por que isso o deixaria feliz? — perguntou Legolas.
— Porque um velho com pés que deixam pegadas não pode ser mais nada além do que aparenta  respondeu o anão.
— Talvez — disse o elfo —, mas uma bota pesada poderia não deixar pegadas aqui: a grama é alta e fofa.
— Isso não enganaria um guardião — disse Gimli. — Uma folha tombada é o suficiente para que Aragorn possa ler. Mas não acho que ele vai descobrir qualquer sinal. Foi uma aparição maligna de Saruman o que vimos ontem à noite. Tenho certeza disso, mesmo sob a luz do dia. Os olhos dele estão nos procurando lá de Fangorn, até mesmo agora, talvez.
— É bem provável — disse Aragorn —, mas não tenho certeza. Estou pensando nos cavalos. Ontem você disse, Gimli, que eles tinham sido afugentados. Mas eu não achei que foi isso que aconteceu. Você os ouviu, Legolas? Pareciam animais apavorados?
— Não — disse Legolas. — Eu os ouvi claramente. Se não fosse pela escuridão e por nosso próprio medo, eu acharia que eram animais eufóricos com uma alegria repentina. Falaram como falam os cavalos que encontram um amigo do qual sentem falta há muito tempo.
— Eu também achei isso — disse Aragorn — mas não consigo decifrar o enigma, a não ser que eles retornem. Venham! A luz está aumentando rápido. Vamos olhar primeiro e adivinhar depois! Devemos começar por aqui, perto de nosso próprio acampamento, procurando cuidadosamente por tudo, e vasculhando a colina na direção da floresta. Encontrar os hobbits é nossa missão, não importa o que pensemos sobre o visitante da noite passada. Se eles por algum acaso escaparam, então devem ter se escondido nas árvores, caso contrário teriam sido vistos. Se não encontrarmos nada desde este ponto até as bordas da floresta, então vamos fazer uma última busca no campo de batalha, por entre as cinzas. Mas lá há pouca esperança: os Cavaleiros de Rohan fizeram muito bem o seu trabalho.
Por algum tempo os companheiros se arrastaram, tateando o chão. A árvore se erguia lamentosa sobre eles, com suas folhas secas agora caídas, farfalhando ao frio Vento Leste. Aragorn se afastou lentamente. Chegou até as cinzas da fogueira dos cavaleiros, perto da margem do rio, e então começou a refazer o caminho de volta, na direção do montículo onde fora travada a batalha. De repente se agachou, baixando o rosto ao chão, quase até tocar a grama. Depois chamou os outros. Eles vieram correndo.
— Finalmente aqui encontramos notícias! — disse Aragorn. Ergueu uma folha quebrada para que os outros vissem, uma grande folha de tonalidade dourada, agora murchando e ficando marrom. — Aqui está uma folha de mallorn de Lórien, e há pequenas migalhas nela, e mais algumas na grama. E vejam! Há alguns pedaços de corda cortada aqui perto!
— E aqui está a faca que a cortou! — disse Gimli. Abaixou-se e arrancou de uma touceira uma pequena lâmina dentada, que fora parar ali ao ser pesadamente pisada. O punho de onde tinha sido quebrada estava ao lado. — É uma arma de orc — disse ele, segurando-a com cuidado e olhando com nojo para o punho entalhado: fora moldado na forma de uma horrível cabeça, com olhos vesgos e boca torta.
— Bem, este é o enigma mais estranho que já encontramos! — exclamou Legolas. — Um prisioneiro amarrado escapa tanto dos orcs como dos cavaleiros que estão em volta, Depois para, ainda no espaço descoberto, e corta suas amarras com uma faca de orc. Mas como e por quê? Pois, se as pernas estavam atadas, como conseguiu andar? Se os braços estavam amarrados, como cortou as cordas? E se nenhum dos dois estava amarrado por que então ele usou a faca? Satisfeito com a própria habilidade, sentou-se e comeu tranquilamente um pouco de pão-de-viagem! Isso pelo menos é suficiente para mostrar que ele era um hobbit, sem contar com a folha de mallorn. Depois disso, suponho, transformou seus braços em asas e fugiu voando por entre as árvores. Seria fácil encontrá-lo: só precisamos de asas para nós também!
— Com certeza houve feitiçaria aqui — disse Gimli. — O que o velho estava fazendo? O que você tem a dizer, Aragorn, sobre a interpretação de Legolas? Pode melhorá-la?
— Talvez eu pudesse — disse Aragorn, sorrindo. — Há uns outros sinais por aqui que vocês não consideraram. Concordo que o prisioneiro era um hobbit e que devia estar ou com os pés ou com as mãos livres, antes de chegar aqui. Acho que eram as mãos, porque o enigma fica então mais fácil, e também porque, conforme estou interpretando os sinais, ele foi carregado até aqui por um orc. Correu sangue ali, a alguns passos adiante, sangue de orc. Há pegadas fundas de cascos rodeando todo este ponto, e sinais de que uma coisa pesada foi arrastada. O orc foi morto por cavaleiros, e depois seu corpo foi puxado até a fogueira. Mas o hobbit não foi visto: ele não estava “no espaço aberto”, pois era noite e ele ainda tinha sua capa élfica, Estava exausto e faminto, e não é de admirar que, quando cortou suas amarras com a faca do inimigo, tenha descansado e comido um pouco antes de se arrastar para longe. Mas é um consolo saber que ele tinha um pouco de lembas no bolso, mesmo que tenha fugido sem equipamentos ou mochilas, e isso talvez seja bem ao estilo dos hobbits. Digo ele, embora tenha esperanças e suponha que Merry e Pippin estiveram aqui juntos. Entretanto, não há nada que nos dê certeza disso.
— E como você supõe que um de nossos amigos conseguiu livrar uma das mãos? — perguntou Gimli.
— Não sei como isso aconteceu — respondeu Aragorn. — E também não sei por que um orc os estava carregando para longe. Não para ajudá-los a escapar, disso podemos ter certeza. Não, mas agora começo a entender uma coisa que me tem intrigado desde o começo: por que, quando Boromir caiu, os orcs ficaram satisfeitos em capturar Merry e Pippin? Não procuraram pelo resto de nosso grupo, nem atacaram nosso acampamento; em vez disso, foram a toda velocidade na direção de Isengard. Será que supunham ter capturado o Portador do Anel e seu fiel companheiro? Acho que não. Seus mestres não dariam ordens tão claras aos orcs, mesmo que soubessem de tanta coisa; não falariam abertamente sobre o Anel com eles: os orcs não são servidores confiáveis. Mas acho que receberam ordens de capturar hobbits, vivos e a qualquer custo. Foi feita uma tentativa de fuga com os preciosos prisioneiros antes da batalha. Talvez traição, muito provável num povo assim; algum orc grande e corajoso poderia estar tentando escapar sozinho levando o premio, com fins próprios. Aí está minha história. Outras podem ser criadas. Mas podemos contar com isto de qualquer forma: pelo menos um de nossos amigos escapou. Nossa tarefa é procurá-lo e tentar ajudá-lo antes de retornarmos a Rohan. Não devemos nos intimidar com Fangorn, uma vez que a necessidade o levou para aquele lugar escuro.
— Não sei o que me intimida mais: Fangorn, ou pensar na longa estrada até Rohan a pé — disse Gimli.
— Vamos para a Floresta — disse Aragorn.


Não demorou muito para que Aragorn encontrasse pistas recentes. Num Ponto, perto da margem do Entágua, encontrou pegada s: pegadas de hobbit, mas leves demais para que se pudesse tirar muitas conclusões a partir delas. Depois, sob a copa de uma grande árvore, bem na orla da floresta, mais pegadas foram descobertas. A terra era seca e nua, e não revelou muita coisa.
— Pelo menos um hobbit parou aqui por um tempo e olhou para trás; e depois foi em direção à floresta  disse Aragorn.
— Então devemos entrar nela também — disse Gimli. — Mas não gosto do jeito desta Fangorn, e fomos advertidos em relação a ela. Gostaria que a busca nos tivesse conduzido a algum outro lugar!
— Não sinto maldade na floresta, não importa o que as histórias digam — disse Legolas. Parou à beira da floresta, inclinando-se para frente, como se tentasse escutar alguma coisa, e espiando com olhos bem abertos dentro das sombras. — Não, a floresta não é má; ou, se houver algum mal nela, está bem longe. Só percebo ecos quase inaudíveis de lugares escuros, onde os corações das árvores são negros. Não há malícia perto de nós; mas há vigilância, e ódio.
— Bem, a floresta não tem motivos para sentir ódio de mim — disse Gimli. — Não lhe fiz mal nenhum.
— Concordo com isso — disse Legolas. — Mas, mesmo assim, ela sofreu danos. Há alguma coisa acontecendo aqui dentro, ou prestes a acontecer. Vocês não sentem a tensão? É até difícil respirar.
— Sinto o ar abafado — disse o anão. — Esta floresta é mais leve que a Floresta das Trevas, mas é mofada e deprimente.
— É velha, muito velha — disse o elfo. — Tão velha que quase me sinto jovem outra vez, como não me sinto desde que viajei com vocês, crianças. E velha e carregada de lembranças. Eu poderia me sentir feliz aqui, se tivesse vindo em dias de paz.
— Arrisco dizer que sim — retrucou Gimli. — Você é um elfo da Floresta, de qualquer forma, embora os elfos de qualquer tipo sejam pessoas esquisitas. Mas você me consola. Por onde for, irei também. Mas mantenha seu arco a postos, e eu vou deixar meu machado solto no cinto. Não para usá-lo nas árvores — acrescentou ele depressa, erguendo os olhos para a árvore sob a qual estavam. — Não quero encontrar aquele velho inesperadamente sem ter um argumento à mão, isso é tudo. Vamos!


Com isso os três caçadores mergulharam na floresta de Fangorn. Legolas e Gimli deixaram que Aragorn procurasse as pistas. Havia pouco para se ver. O solo da floresta estava seco e coberto por uma camada de folhas; mas, supondo que os fugitivos ficariam perto da água, ele sempre retornava às margens do rio. Foi assim que chegou ao lugar onde Merry e Pippin tinham bebido água e molhado os pés. Ali, perfeitamente claras para quem quisesse ver, estavam as pegadas de dois hobbits, um deles um pouco menor que o outro.
— Esta notícia é boa — disse Aragorn. — Mas as marcas já têm dois dias. E parece que neste ponto os hobbits abandonaram as margens.
— Então, que faremos agora? — disse Gimli. — Não podemos procurá-los através de toda a floresta. Viemos com poucos suprimentos. Se não os encontrarmos logo, não poderemos ser de nenhuma utilidade, a não ser sentando ao lado deles e demonstrando nossa amizade, passando fome juntos.
— Se isso for realmente tudo o que pudermos fazer, então devemos fazê-lo — disse Aragorn. — Vamos em frente.


Finalmente chegaram à extremidade abrupta da colina íngreme de Barbárvore, e olharam para a parede rochosa com degraus grosseiros, que conduziam ao alto patamar. Raios de sol perfuravam as nuvens apressadas, e a floresta agora parecia menos cinzenta e desolada.
— Vamos subir e olhar em volta! — disse Legolas. — Ainda sinto a respiração difícil. Gostaria de experimentar um ar mais livre por uns momentos.
Os companheiros escalaram a encosta. Aragorn veio por último, avançando devagar: estava examinando os degraus e saliências minuciosamente.
— Tenho quase certeza de que os hobbits estiveram aqui em cima — disse ele. — Mas há outras marcas, marcas muito estranhas que eu não entendo. Fico imaginando se deste patamar conseguiremos ver alguma coisa que nos ajude a adivinhar para onde eles foram depois.
Levantou-se e olhou em volta, mas não viu nada que o ajudasse. O patamar voltava-se para o leste e para o sul; mas a vista só estava aberta na direção do leste. Ali ele conseguiu ver as cabeças das árvores descendo em fileiras em direção à planície da qual eles tinham vindo.
— Demos uma grande volta — disse Legolas. — Poderíamos ter chegado aqui a salvo e juntos, se tivéssemos abandonado o Grande Rio no segundo ou terceiro dia, e virado para o oeste. Poucos conseguem enxergar para onde sua estrada os conduzirá antes de chegarem ao final dela.
— Mas nós não queríamos vir para Fangorn — disse Gimli.
— Mas aqui estamos nós, perfeitamente presos na teia — disse Legolas. — Olhe!
— Olhar o quê? — perguntou Gimli.
— Ali, nas árvores.
— Onde? Não tenho olhos de elfo.
— Psssiu! Fale mais baixo! Olhe! — disse Legolas apontando. — Lá embaixo, na floresta, no caminho por onde viemos. É ele, Você não está vendo, passando de árvore em árvore?
— Estou vendo, agora estou vendo! — sussurrou Gimli. — Olhe, Aragorn! Eu não o avisei? Ali está o velho. Todo coberto de farrapos cinzentos: é por isso que não consegui vê-lo antes.
Aragorn olhou e viu uma figura curvada, movimentando-se devagar. Não estava longe. Parecia um velho mendigo, caminhando fatigado, apoiando-se num cajado rude. A cabeça estava curvada, e ele não olhava na direção deles. Em outras terras, teriam-no cumprimentado com palavras gentis, mas naquele momento ficaram em silêncio, cada um sentindo uma estranha expectativa: algo que trazia um poder oculto — ou ameaça — se aproximava.
Gimli observou com os olhos arregalados por um tempo, conforme a figura se avizinhava passo a passo. Então, de repente, não conseguindo mais se conter, falou numa explosão: — Seu arco, Legolas! Apronte-o! Fique preparado! É Saruman. Não deixe que ele fale, ou lance um feitiço sobre nós! Atire primeiro!
Legolas pegou o arco e o preparou, lentamente, como se outra vontade se opusesse à dele. Segurava uma flecha na mão sem firmeza, sem encaixá-la na corda. Aragorn ficou quieto, seu rosto vigilante e atento.
— O que está esperando? Qual é o problema com você? — disse Gimli num sussurro chiado.
— Legolas está certo — disse Aragorn baixinho, — Não podemos atirar num velho desse modo, traiçoeiramente e sem desafio, qualquer que seja o medo ou a dúvida que tenhamos. Olhem e esperem!
Nesse momento, o velho apertou o passo e chegou com uma rapidez surpreendente ao pé da muralha rochosa. Então, de repente, ergueu os olhos, enquanto os três continuavam imóveis, olhando para baixo. Não se ouvia nenhum som.
Os companheiros não conseguiam ver seu rosto: ele estava usando um capuz, e sobre o capuz havia um chapéu de aba larga, de modo que todo o rosto estava encoberto, exceto a extremidade da barba grisalha. Mesmo assim, Aragorn teve a impressão de ver de relance o brilho de olhos perspicazes, emitido daquele rosto encapuzado.
Finalmente o velho quebrou o silêncio. — Bem-vindos, meus amigos disse ele numa voz suave. — Desejo-lhes falar. Vocês vão descer ou devo subir? — Sem esperar uma resposta, começou a escalar.
— Agora! — disse Gimli. — Detenha-o, Legolas!
— Eu não disse que desejava lhes falar? — disse o velho. — Abaixe esse arco, Mestre Elfo!
O arco e a flecha caíram das mãos de Legolas, e os braços ficaram paralisados ao longo do corpo.
— E você, Mestre Anão, por favor, tire a mão do cabo de seu machado, até que eu chegue aí! Não vai precisar desses argumentos.
Gimli fez um movimento e depois ficou petrificado, olhando, enquanto o velho subia os rudes degraus com a leveza de um cabrito. Todo o cansaço parecia tê-lo abandonado. Conforme pisou no patamar houve um brilho, rápido demais para se ter certeza, um breve vislumbre de branco, como se alguma vestimenta, ocultada pelos farrapos cinzentos, tivesse sido revelada por um instante. Podia-se ouvir a respiração de Gimli como um chiado ruidoso quebrando o silêncio.


— Bem-vindos, repito! — disse o velho, andando em direção a eles. Quando estava a alguns passos de distância, parou, inclinando-se sobre o cajado, com a cabeça para frente, espiando-os de seu capuz. — E todos vestidos à moda dos elfos. Não há dúvida de que por trás de tudo isso há uma história digna de ser ouvida. Essas coisas não são vistas com frequência por aqui.
— Você fala como alguém que conhece bem Fangorn — disse Aragorn. — isso é verdade?
— Não muito bem — disse o velho. — Isso seria estudo para muitas vidas. Mas venho aqui de vez em quando.
— Podemos saber seu nome, e depois ouvir o que tem a nos dizer? — Disse Aragorn. — A manhã está passando, e temos uma missão que não pode esperar.
— Quanto ao que eu desejava dizer, já o disse, E vocês, que andam fazendo, e que história podem me contar sobre vocês? Quanto ao meu nome! — Ele interrompeu, dando uma risada longa e suave. Aragorn sentiu um tremor percorrer-lhe o corpo ao ouvir o som daquele riso, um arrepio frio e estranho; mas não foi medo ou terror o que sentiu: era mais como um golpe repentino de ar fresco, ou uma rajada de chuva fria despertando alguém de um sono intranquilo.
— Meu nome! — disse o velho outra vez. — Ainda não adivinharam? Já o ouviram antes, eu acho. Sim, já o ouviram antes. Mas vamos agora, qual é sua história?
Os três companheiros ficaram em silêncio e não deram resposta.
— Existem pessoas que começariam a duvidar se sua missão merece ser contada — disse o velho. — Felizmente sei algo sobre ela. Estão seguindo as pegadas de dois jovens hobbits, suponho. Sim, hobbits. Não me olhem assim, como se nunca tivessem ouvido essa estranha palavra antes. Vocês já ouviram, e eu também. Bem, eles subiram aqui anteontem, e encontraram alguém que não esperavam. Isso os consola? E agora gostariam de saber para onde foram levados? Bem, bem, talvez eu possa lhes dar alguma notícia sobre isso. Mas por que estamos de pé? Sua missão, pelo que vejo, não é mais tão urgente quanto pensavam. Vamos nos sentar e ficar mais à vontade.
O velho se virou e foi na direção de um monte de pedras e rochas caídas ao pé do penhasco. Imediatamente, como se um feitiço tivesse sido removido, os outros relaxaram e se mexeram. As mãos de Gimli foram direto para o cabo do machado. Aragorn sacou a espada. Legolas pegou o arco.
O velho não tomou conhecimento disso, mas se agachou e sentou-se sobre uma pedra baixa e plana. Então sua grande capa se abriu e eles viram, com certeza, que por baixo dela ele estava vestido de branco.
— Saruman! — gritou Gimli, saltando na direção dele com o machado em punho. — Fale! Diga-nos onde escondeu nossos amigos! Que fez com eles? Fale, ou farei um estrago em seu chapéu que será difícil de consertar, mesmo para um mago.
O velho foi rápido demais para ele. Saltou de pé e pulou para o topo de uma grande rocha. Ali ficou, subitamente imponente, erguendo-se diante deles. O capuz e os farrapos cinzentos caíram para trás. As vestes brancas brilharam. Levantou o cajado, e o machado de Gimli saltou de seu punho e caiu com um ruído no solo. A espada de Aragorn, imóvel em sua mão paralisada, brilhava com um fogo repentino. Legolas soltou um grito e atirou uma flecha no ar: ela sumiu num clarão de fogo.
— Mithrandir! — gritou ele. — Mithrandir!
— Bem-vindo, digo a você outra vez, Legolas! — disse o velho.
Todos olharam para ele. Os cabelos eram brancos como a neve ao sol, e brilhante era sua veste branca; os olhos sob as sobrancelhas grossas eram reluzentes, agudos como os raios do sol; havia poder em suas mãos. Em meio à surpresa, à alegria e ao medo, eles ficaram parados, sem saber o que dizer.
Finalmente Aragorn se mexeu. — Gandalf! — disse ele. — Além de todas as esperanças você retorna em nossa necessidade! Que véu cobria minha visão? Gandalf! — Gimli não disse nada, mas caiu de joelhos e cobriu os olhos.
— Gandalf! — repetiu o velho, como se recuperasse de uma lembrança antiga um nome há muito em desuso. — Sim, esse era o nome. Eu era Gandalf.
Desceu da rocha e, apanhando a capa cinzenta, cobriu-se com ela: parecia que o sol estivera brilhando, e que agora se encobria de nuvens outra vez.
— Sim, podem ainda me chamar de Gandalf — disse ele, e a voz era a de seu velho amigo, companheiro e guia. — Levante-se, meu bom Gimli! Você não tem culpa, e não me fez mal algum. Na verdade, meus amigos, nenhum de vocês tem armas que possam me ferir. Alegrem-se! Encontramo-nos de novo! Na virada da maré. A grande tempestade se aproxima, mas a maré virou.
Colocou a mão sobre a cabeça de Gimli, e o anão ergueu os olhos e riu de repente. — Gandalf! — disse ele. — Mas você está todo de branco!
— Sim, sou branco agora — disse Gandalf. — Na verdade, eu sou Saruman, quase poderíamos dizer, Saruman como ele deveria ter sido. Mas vamos agora, falem-me sobre vocês! Atravessei o fogo e águas profundas desde que nos separamos. Esqueci muita coisa que julgava saber, e aprendi de novo muita coisa que havia esquecido. Posso ver muitas coisas à distância, mas muitas coisas que estão próximas eu não consigo ver. Falem-me sobre vocês!


— O que deseja saber? — perguntou Aragorn. — Tudo o que aconteceu desde que nos separamos na ponte seria uma história longa. Você não poderia primeiro nos dar notícias dos hobbits? Você os encontrou, e eles estão a salvo?
— Não, não os encontrei — disse Gandalf — Havia uma escuridão sobre os vales dos Emyn Muil, e eu não sabia que estavam aprisionados, até que a águia me contou.
— A águia! — disse Legolas. — Eu vi uma águia voando bem alto: a última vez foi há três dias, sobre os Emyn Muil.
— Sim — disse Gandalf —, era Gwaihir, o Senhor dos Ventos, que me resgatou de Orthanc. Enviei-o na minha frente para vigiar o Rio e conseguir notícias. Ele tem uma visão apurada, mas seus olhos não conseguem enxergar tudo o que se passa sob as colinas e árvores. Algumas coisas ele viu, e outras eu mesmo vi. O Anel agora está fora do alcance de minha ajuda, ou da ajuda de qualquer um da Comitiva que partiu de Valfenda. Quase foi revelado ao Inimigo, mas escapou. Tive alguma parte nisso: pois sentei-me num lugar alto, e lutei contra a Torre Escura e a Sombra passou. Depois fiquei cansado, muito cansado; e caminhei por muito tempo, envolvido em pensamentos escuros.
— Então você sabe sobre Frodo! — disse Gimli. — Como estão as coisas com ele?
— Não sei dizer. Foi salvo de um grande perigo, mas muitos ainda o esperam. Resolveu ir sozinho a Mordor, e partiu: isso é tudo que posso dizer.
— Não sozinho — disse Legolas. — Achamos que Sam foi com ele.
— Ele foi? — disse Gandalf, e seus olhos brilharam e o rosto sorriu. — Foi mesmo? Isso é novidade para mim, mas não me surpreende. Bom! Muito bom! Tiram-me um peso do coração. Precisam me dizer mais. Agora sentem-se ao meu lado e contem a história de sua jornada.


Os companheiros sentaram-se no chão aos pés dele, e Aragorn continuou a história. Por um longo período Gandalf não disse nada, e não fez perguntas. Suas mãos estavam estendidas sobre os joelhos, e os olhos fechados. Finalmente, quando Aragorn falou sobre a morte de Boromir e de sua última viagem pelo Grande Rio, o velho suspirou.
— Você não disse tudo o que sabe ou supõe, Aragorn, meu amigo — disse ele suavemente. — Pobre Boromir! Não pude ver o que aconteceu com ele. Foi uma prova dura para um homem assim: um guerreiro, um senhor de homens. Galadriel me disse que ele estava em perigo. Mas escapou no final. Fico feliz. Não foi em vão que os jovens hobbits vieram conosco, mesmo que tenha sido apenas para o bem de Boromir. Mas esse não é o único papel deles. Foram trazidos a Fangorn, e a chegada deles foi como a queda de pequenas pedras que iniciam uma avalanche nas montanhas. Neste momento em que estamos conversando, ouço os primeiros estrondos. Será melhor para Saruman não ser pego fora de casa quando a represa explodir.
— Em uma coisa você continua o mesmo, caro amigo — disse Aragorn Você ainda fala por meio de enigmas.
— O quê? Em enigmas? — disse Gandalf — Pois estava falando comigo mesmo em voz alta. Um hábito dos velhos: escolhem falar às pessoas mais sábias, as longas explicações que os jovens necessitam são cansativas. — Riu, mas o som do riso agora parecia quente e agradável, como um raio de sol.
— Não sou mais jovem, mesmo para os homens das Antigas Casas — disse Aragorn. — Você não poderia me abrir sua mente com mais clareza?
— Que devo então dizer? — disse Gandalf, depois parou um tempo, pensando. — Este é um resumo das coisas como as vejo agora, se você quiser saber um pouco do que estou pensando, com a maior clareza possível. O Inimigo, é claro, já sabe há muito tempo que o Anel está viajando, e que seu portador é um hobbit. Sabe o número dos integrantes de nossa Comitiva, que partiu de Valfenda, e que tipo de pessoas somos. Mas ainda não percebe nosso propósito claramente. Supõe que todos nós estávamos indo para Minas Tirith, pois isso é o que ele próprio faria se estivesse em nosso lugar. E de acordo com a sua sabedoria isso seria um golpe forte contra seu poder. Na verdade, está sentindo um grande medo, sem saber que pessoa poderosa poderia de repente aparecer, controlando o Anel e ameaçando-o com a guerra, tentando destruí-lo e tomar seu lugar. Que poderíamos desejar destruí-lo e não colocar ninguém em seu lugar é um pensamento que não lhe ocorre. Que possamos tentar destruir o próprio Anel é algo que não entrou nem em seus sonhos mais escuros. Nisso, sem dúvida, vocês verão nossa boa sorte e nossa esperança. Por ter imaginado a guerra, deflagrou a guerra, acreditando que não tinha mais tempo a perder; pois aquele que dá o primeiro golpe, se o golpe tiver força suficiente, pode não precisar dar mais golpes. Assim, as forças que vem preparando há muito tempo, ele as colocou em ação antes do que pretendia. Sábio tolo. Pois se tivesse usado todo seu poder para guardar Mordor, de modo que ninguém conseguisse entrar, e colocado toda a sua astúcia na procura do Anel, então realmente não haveria mais esperanças: nem o Anel nem o portador poderiam tê-lo iludido por muito tempo. Mas agora olha mais para longe do que para as vizinhanças de seu lar; e principalmente olha na direção de Minas Tirith. Logo sua força cairá sobre aquela cidade como uma tempestade.
— Pois ele já sabe que os mensageiros que enviou para perseguir a Comitiva falharam de novo. Não encontraram o Anel. Nem trouxeram qualquer hobbit como refém. Se tivessem feito isso, teria sido um golpe forte para nós, que poderia ser fatal. Mas não vamos escurecer nossos corações imaginando o julgamento de sua gentil lealdade na Torre Escura. Pois o Inimigo falhou — por enquanto. Graças a Saruman.
— Então Saruman não é um traidor?
— Na verdade é — disse Gandalf — Duplamente, E isso não é estranho? Nada que suportamos recentemente parece tão lamentável quanto a traição de Isengard. Mesmo considerando-se o padrão de um senhor e um capitão, Saruman se tomou muito forte. Ameaça os homens de Rohan e retira o apoio que eles receberiam de Minas Tirith, exatamente no momento em que o golpe principal se aproxima, vindo do leste. Apesar disso, uma arma traiçoeira é sempre perigosa para quem a empunha. Saruman também desejava apossar-se do Anel, para uso próprio, ou pelo menos capturar alguns hobbits para seus propósitos malignos. Então, agindo em conjunto, nossos inimigos só conseguiram trazer Merry e Pippin numa velocidade espantosa, e no momento certo, até Fangorn, para onde eles nunca teriam vindo de outra forma!
— Além disso, encheram-se de dúvidas novas que atrapalham seus planos. Nenhuma notícia da batalha chegará a Mordor, graças aos Cavaleiros de Rohan; mas o Senhor do Escuro sabe que dois hobbits foram captura dos nos Emyn Muil e levados para Isengard contra a vontade de seus próprios servidores. Agora ele teme Isengard e também Minas Tirith. Se Minas Tirith cair, isso será ruim para Saruman.
— É uma pena que nossos amigos estejam no meio dessa luta — disse Gimli. — Se nenhuma terra ficasse entre Isengard e Mordor, eles poderiam lutar enquanto nós ficaríamos observando e esperando.
— O vencedor emergiria mais forte que qualquer um dos dois, e livre de dúvidas — disse Gandalf. — Mas Isengard não pode lutar contra Mordor, a não ser que Saruman obtenha o Anel primeiro. E isso ele não conseguirá nunca. Ainda não sabe do perigo que corre. Há muita coisa que ele não sabe. Estava tão ávido por colocar as mãos em sua presa que não conseguiu ficar esperando em casa, e saiu para encontrar e espionar seus mensageiros. Mas chegou tarde demais, desta vez; a batalha já estava terminada e ele não podia mais ajudar em nada quando chegou a estas partes. Não ficou aqui por muito tempo. Olhando dentro da mente dele eu vejo suas dúvidas. Ele fica desorientado em florestas. Acha que os cavaleiros mataram e queimaram todos sobre o campo de batalha, mas não sabe se os orcs estavam ou não trazendo algum prisioneiro. E não sabe da discussão entre seus servidores e os orcs de Mordor; e também não sabe do Mensageiro Alado.
— O Mensageiro Alado! — gritou Legolas. — Atirei nele com o arco de Galadriel sobre o Sarn Gebir, e derrubei-o dos céus. Ele nos encheu de medo. Que novo terror é esse?
— Um terror que você não pode abater com flechas — disse Gandalf. Você apenas abateu a montaria dele. Foi um bom feito; mas logo o Cavaleiro conseguiu outro cavalo. Pois ele era um Nazgûl, um dos Nove, que agora têm montarias aladas. Logo seu terror cobrirá de sombras os últimos exércitos de nossos amigos, barrando o sol. Mas ainda não lhes foi permitido atravessar o Rio, e Saruman não conhece essa nova forma na qual os Espectros do Anel se apresentam. Tem o pensamento constantemente voltado para o Anel. O Anel estava presente na batalha? Foi encontrado? E se Théoden, Senhor da Terra dos Cavaleiros, se aproximasse e soubesse do poder desse Anel? É esse o perigo que Saruman enxerga, e ele fugiu de volta para Isengard para redobrar ou triplicar a força de seu a taque em Rohan. E durante todo o tempo há um outro perigo, muito próximo, que ele não enxerga, ocupado que está com seus pensamentos inflamados. Esqueceu Barbárvore.
— Agora você está falando para si mesmo outra vez — disse Aragorn com um sorriso. — Não conheço Barbárvore. E adivinhei parte da dupla traição de Saruman; apesar disso, não vejo de que modo a chegada de dois hobbits a Fangorn pode ter tido alguma serventia, exceto para nos proporcionar uma busca longa e infrutífera.
— Espere um minuto! — gritou Gimli. — Há uma outra coisa que eu gostaria de saber primeiro. Foi você, Gandalf, ou Saruman, que vimos noite passada?
— Certamente vocês não me viram — respondeu Gandalf —, portanto devo supor que viram Saruman. Evidentemente somos agora tão parecidos que seu desejo de fazer um estrago irreversível no meu chapéu deve ser perdoado.
— Bom, bom! — disse Gimli. — Fico feliz em saber que não era você.
Gandalf riu de novo. — Sim, meu bom anão — disse ele. — É bom não ser confundido em todos os pontos. Sei disso muito bem! Mas, é claro, nunca os culpei pelo modo como me receberam. Como poderia, se frequentemente aconselhei meus amigos a suspeitarem até de suas próprias sombras, quando estivessem lidando com o Inimigo? Bendito seja, Gimli, filho de Glóin! Talvez você nos veja juntos um dia e então poderá julgar a diferença.
— Mas os hobbits! — interrompeu Legolas. — Viemos de longe à procura deles, e parece que você sabe onde eles estão. Onde estão agora?
— Com Barbárvore e os ents — disse Gandalf.
— Os ents! — exclamou Aragorn. — Então há verdade nas velhas lendas sobre os moradores das florestas profundas e os pastores gigantes das árvores? Ainda existem ents no mundo? Achei que fossem apenas uma lembrança de dias antigos, se de fato eram mesmo algo mais que uma lenda de Rohan.
— Uma lenda de Rohan! — gritou Legolas. — Não, todos os elfos das Terras Ermas já cantaram canções sobre os velhos onodrim e sua longa tristeza. Mas mesmo entre nós eles são apenas uma lembrança. Se eu encontrasse um deles ainda caminhando por este mundo, então poderia me sentir jovem outra vez! Mas Barbárvore: isso é apenas uma tradução de Fangorn para a Língua Geral; mas você parece estar falando de uma pessoa. Quem é esse Barbárvore?
— Ali, agora estão fazendo perguntas demais — disse Gandalf. — O pouco que sei de sua longa e lenta história daria uma narrativa para a qual não ternos tempo agora. Barbárvore é Fangorn, o guardião da floresta; é o mais velho dos ents, o ser mais velho que ainda caminha sob o sol, nesta Terra Média. Realmente espero, Legolas, que você ainda possa encontrá-lo. Merry e Pippin tiveram sorte: encontraram-no aqui, neste ponto onde estamos sentados. Pois ele veio aqui há dois dias e os levou para sua moradia lá longe, perto das raízes das montanhas. Frequentemente vem aqui, principalmente quando tem a mente inquieta, e quando os rumores do mundo lá fora o preocupam. Vi-o há quatro dias andando a largas passadas por entre as árvores, e acho que ele me viu, pois parou; mas eu não disse nada, porque estava concentrado em meus pensamentos, e cansado depois de minha luta contra o Olho de Mordor; ele também não falou, nem chamou meu nome.
— Talvez também tenha achado que você era Saruman — disse Gimli. — Mas você fala dele como se fosse um amigo. Pensei que Fangorn fosse perigoso.
— Perigoso! — exclamou Gandalf. — Eu também sou, muito perigoso: mais perigoso que qualquer outro ser que jamais encontrarão, a não ser que sejam levados vivos diante do trono do Senhor do Escuro. E Aragorn é perigoso, e Legolas é perigoso. Você está rodeado de perigos, Gimli, filho de Glóin; pois você mesmo é perigoso, à sua maneira. Certamente a floresta de Fangorn é perigosa — não menos perigosa para aqueles que são rápidos demais com seus machados; e o próprio Fangorn, ele também é perigoso, no entanto é gentil e sábio. Mas agora sua ira lenta e longa está transbordando, e toda a floresta está cheia dela. A vinda dos hobbits com as notícias que trouxeram foi a gota d’água: logo estará correndo como uma enchente; mas sua maré está voltada contra Saruman e os machados de Isengard. Algo que não acontece desde os Dias Antigos está para acontecer: os ents vão despertar e descobrir que são fortes.
— Que irão fazer? — perguntou Legolas atônito.
— Não sei — disse Gandalf. — Não acho que eles mesmos saibam. Fico imaginando. — Ficou em silêncio, com a cabeça curvada, perdido em pensamentos.


Os outros olharam para ele. Um raio de sol, através de nuvens fugitivas, bateu em suas mãos, que agora estavam caídas sobre seu colo, com as palmas voltadas para cima: pareciam estar cheias de luz como um copo cheio de água. Finalmente ergueu os olhos e olhou direto para o sol.
— A manhã está terminando — disse ele. — Logo devemos partir.
— Vamos encontrar nossos amigos e Barbárvore? — perguntou Aragorn.
— Não — disse Gandalf — Não é essa a estrada que devem pegar. Pronunciei palavras de esperança. Mas apenas de esperança. Esperança não é vitória. A guerra está sobre nós e todos os nossos amigos, uma guerra na qual apenas a utilização do Anel poderia nos dar certeza de vitória. Enche-me de grande tristeza e medo: pois muita coisa será destruída, e tudo pode ser perdido. Sou Gandalf, Gandalf, o Branco, mas o Negro ainda é mais poderoso.
Levantou-se e olhou em direção ao leste, protegendo os olhos, como se enxergasse coisas muito distantes que nenhum deles podia ver. Depois balançou a cabeça. — Não — disse ele numa voz suave —, o Anel está além de nosso alcance. Alegremo-nos pelo menos com isso. Não podemos mais ser tentados a usá-lo. Devemos descer e enfrentar um perigo quase desesperador, mas aquele perigo mortal foi removido.
Virou-se. — Venha, Aragorn, filho de Arathorn! — disse ele. — Não se arrependa de sua escolha no vale das Emyn Muil, nem considere que esta busca foi em vão, Em meio a muitas dúvidas, você escolheu a trilha certa: a escolha foi justa, e foi recompensada. Pois assim nos encontramos em tempo, e se fosse de outro modo poderíamos ter nos encontrado tarde demais. Mas a busca de seus companheiros terminou. Sua próxima jornada está marcada pela palavra que deu. Deve ir a Edoras e procurar Théoden em seu palácio. Precisam de você. A luz de Andúril deve agora ser revelada na batalha pela qual ela esperou por tanto tempo. Há guerra em Rohan, é um mal maior: as coisas não vão bem para Théoden.
— Então não vamos ver os alegres hobbits de novo? — perguntou Legolas.
— Eu não disse isso — disse Gandalf — Quem pode saber? Tenha paciência. Vá aonde deve ir, e tenha esperança! Para Edoras! Eu também vou para lá!
— É uma estrada longa a ser trilhada por um homem, velho ou jovem — disse Aragorn. — Receio que a batalha esteja terminada antes de chegarmos lá.
— Veremos, veremos — disse Gandalf. — Vocês me acompanham agora?
— Sim, partiremos juntos — disse Aragorn. — Mas não duvido que você chegue lá antes de mim, se quiser. — Levantou-se e olhou Gandalf longamente. Os outros observavam em silêncio, enquanto os dois olhavam um para o outro. A figura cinzenta do Homem, Aragorn, filho de Arathorn, era alta, firme como uma rocha, a mão sobre o punho de sua espada; parecia que um rei tinha surgido das névoas do mar e pisado sobre as praias de homens menores. Diante dele se curvava a velha figura, branca, agora brilhando como se alguma luz a iluminasse de dentro, inclinada, sobrecarregada pelos anos, mas detentora de um poder acima da força dos reis.
— Não falo a verdade, Gandalf — disse Aragorn finalmente —, quando digo que você poderia ir a qualquer lugar que quisesse mais rápido que eu? E também digo isto: você é nosso capitão e nossa insígnia. O Senhor do Escuro tem Nove. Mas nós temos Um, mais poderoso que eles: o Cavaleiro Branco. Passou pelo fogo e pelo abismo, e eles devem temê-lo. Iremos aonde nos levar.


— Sim, juntos seguiremos você — disse Legolas. — Mas primeiro, Gandalf, aliviaria meu coração ouvir o que lhe aconteceu em Moria. Não vai nos contar? Não pode ficar nem mesmo para dizer aos seus amigos como se libertou?
— Já fiquei tempo demais — respondeu Gandalf — O tempo é curto. Mas se houvesse um ano para conversar não seria o suficiente para contar-lhes tudo.
— Então nos conte o que desejar, e o que o tempo permitir! — disse Gimli. — Vamos, Gandalf, conte-nos como se saiu com o Balrog!
— Não mencione esse nome! — disse Gandalf, e por um instante pareceu que uma nuvem de dor passava sobre seu rosto, e ele ficou sentado, com uma aparência mais velha que a morte. — Por muito tempo caí — disse ele finalmente, devagar, como se tentasse recordar com dificuldade. — Caí por muito tempo, e ele caiu comigo. O fogo dele me envolvia. Eu estava me queimando. Então mergulhamos em águas profundas e tudo ficou escuro. A água era fria como a maré da morte: quase congelou meu coração.
— Profundo é o abismo atravessado pela Ponte de Durin, e ninguém nunca o mediu — disse Gimli.
— Mas ele tem um fundo, além da luz e do conhecimento — disse Gandalf — Cheguei lá finalmente, às mais remotas fundações de pedra. Ele ainda estava comigo. Seu fogo estava extinto, mas agora ele era um ser de lodo, mais forte que uma serpente estranguladora.
— Lutamos muito abaixo da terra vivente, onde não se conta o tempo. Ele sempre me agarrava e eu sempre o derrubava, até que finalmente ele fugiu para dentro de túneis escuros. Estes não foram feitos pelo povo de Durin, Gimli, filho de Glóin. Muito, muito abaixo das escavações dos anões, o mundo é corroído por seres sem nome. Nem mesmo Sauron os conhece. São mais velhos que ele. Agora, eu andei por lá, mas não farei nenhum relato para escurecer a luz do dia. Naquele desespero, meu inimigo era minha única esperança, e eu o segui, agarrando-me aos seus calcanhares. Assim ele me trouxe de volta, finalmente, aos caminhos secretos de Khazad-dûm: ele os conhecia muito bem. Fomos subindo sempre, até chegarmos à Escada Interminável.
— Ela está perdida há muito tempo — disse Gimli. — Muitos disseram que nunca foi construída, a não ser nas lendas, mas outros diziam que havia sido destruída.
— Foi feita, e não foi destruída — disse Gandalf — Da última masmorra ao pico mais alto ela subia, ascendendo numa espiral ininterrupta de muitos milhares de degraus, até finalmente atingir a Torre de Durin, entalhada na rocha viva de Zirakzigil, o pináculo do Pico de Prata.
— Ali, no Celebdil, havia uma janela solitária sobre a neve, e diante dela se deitava um espaço estreito, um ninho vertiginoso sobre as névoas do mundo. Lá o sol brilhava violentamente, mas tudo embaixo estava envolvido por nuvens. Ele saltou para fora, e no momento em que eu o alcançava explodiu em chamas novas. Ninguém estava lá para ver, ou talvez em eras posteriores alguém ainda cantasse sobre a Batalha do Pico. — De repente Gandalf riu. — Mas o que diriam nas canções? Aqueles que olharam para cima de um ponto distante pensaram que a montanha estava coberta pela tempestade. Ouviram trovões; e relâmpagos, diziam eles, atingiam Celebdil e ricocheteavam em línguas de fogo. Isso não é o bastante? Uma grande fumaça se ergueu à nossa volta. O gelo caiu como chuva. Joguei o inimigo para baixo, e ele caiu e quebrou a encosta da montanha no ponto em que a atingiu ao ser destruído. Depois a escuridão me dominou, e eu me perdi do pensamento e do tempo, e vaguei muito por estradas que não vou contar.
— Estava nu quando fui enviado de volta — por um tempo curto, até que minha tarefa estivesse cumprida. E nu jazi sobre o topo da montanha. A torre atrás dela estava desfeita em poeira, a janela já não existia mais; a escada arruinada estava obstruída por rochas quebradas e queimadas. Eu estava sozinho, esquecido, sem possibilidades de escapar, sobre o duro chifre do mundo. Fiquei ali deitado, olhando para cima, enquanto as estrelas rodavam, e cada dia era longo como uma era na vida da terra. Chegavam aos meus ouvidos os rumores longínquos de todas as terras: o nascimento e a morte, o canto e o choro, e o gemido lento e eterno da rocha sobrecarregada. Então, finalmente, Gwaihir, o Senhor do Vento, me encontrou novamente, e me carregou para longe.
— “Meu destino é sempre ser uma carga para você, amigo das horas difíceis”, disse eu.
— “Você foi uma carga”, respondeu ele, “mas não é agora. Está leve como a pluma de um cisne em minhas garras. O sol brilha através de seu corpo. Na realidade, acho que não precisa mais de mim: se o deixasse cair, você flutuaria no vento.”.
— “Não me deixe cair!”, disse eu ofegante, pois sentia vida em mim outra vez. “Leve-me a Lothlórien!”
— “Foram exatamente essas as ordens da Senhora Galadriel, que me enviou para procurá-lo”, respondeu ele.
— Foi assim que cheguei a Caras Galadhon e soube que vocês tinham partido havia pouco. Permaneci lá, no tempo sem idade daquela terra onde os dias trazem cura e não ruína. Encontrei a cura, e fui vestido de branco. Dei conselhos e recebi conselhos. De lá vim por estradas estranhas, e trago mensagens a alguns de vocês. Para Aragorn, trago esta:

Onde estão os Dúnedain, Elessar. Elessar?
Por que agrada a teu povo vagar?
Vão dentro em breve os Perdidos surgir.
E os Cinzentos do Norte hão de vir.
Mas negro é o caminho a ti destinado:
Há Mortos à espreita na senda do Mar

Para Legolas ela enviou este recado:

Legolas Verdefolha, o bosque é teu lar!
Alegre viveste. Cuidado com o Mar!
Se na praia gaivotas gritarem por ti,
Descanso jamais acharás por aqui.
Gandalf ficou em silêncio e fechou os olhos.
— Então ela não me mandou nenhum recado? — disse Gimli abaixando a cabeça.
— Escuras são as suas palavras — disse Legolas — e pouco significam para aqueles que as recebem.
— Isso não é consolo — disse Gimli.
— E daí? — disse Legolas. — Você queria que ela lhe falasse abertamente sobre sua morte?
— Sim, se não tivesse mais nada a dizer.
— O que é isso? — disse Gandalf, abrindo os olhos.  Sim, acho que posso adivinhar o significado das palavras dela. Desculpe-me, Gimli! Eu estava pensando nas mensagens mais uma vez. Mas ela realmente lhe enviou algumas palavras, que não são nem escuras nem tristes.
— “Para Gimli, filho de Glóin”, disse ela, “envie os cumprimentos de sua Senhora. Por onde fores, Portador da Mecha, meu pensamento te acompanhará. Mas tenha o cuidado de golpear com teu machado a árvore certa!”.
— Em boa hora você retorna a nós, Gandalf — gritou o anão, fazendo cabriolagens enquanto cantava alto na estranha língua dos anões. — Venham! Venham! — gritou ele, brandindo o machado. — Agora que a cabeça de Gandalf é sagrada, vamos achar uma outra que seja justo partir.
— Não é preciso procurar muito longe — disse Gandalf, levantando-se. Venham! Gastamos todo o tempo que é permitido para um encontro de amigos que estavam separados. Agora precisamos nos apressar.


Embrulhou-se outra vez em sua velha capa surrada, e foi na frente. Seguindo-o, eles desceram rapidamente do alto patamar e foram de volta para a floresta, descendo a margem do Entágua. Não falaram mais nada, até pisarem outra vez na grama além das bordas de Fangorn. Não havia nenhum sinal de seus cavalos.
— Eles não retornaram — disse Legolas. — Será uma caminhada cansativa!
— Eu não vou caminhar. O tempo urge — disse Gandalf. Depois, levantando a cabeça, deu um longo assobio. Foi tão claro e penetrante que os outros ficaram chocados por ouvirem um som assim saindo daqueles velhos lábios barbados. Assobiou três vezes, então, fraco e distante, eles tiveram a impressão de escutar o relincho de um cavalo vindo das planícies, trazido pelo Vento Leste. Esperaram, curiosos. Logo chegou até eles o som de cascos, primeiro pouco mais que um tremor do chão, perceptível apenas para Aragorn, que estava deitado sobre a grama; depois, cada vez mais alto e claro, até tornar-se uma batida rápida.
— Há mais de um cavalo vindo para cá — disse Aragorn.
— Certamente — disse Gandalf. — Somos carga demais para um só.
— Há três cavalos — disse Legolas, olhando por sobre a planície. — Vejam como correm. É Hasufel, e ali está meu amigo Arod ao lado dele! Mas há um outro que vem na frente: um cavalo muito grande. Não vi nenhum assim antes.
— Nem vai ver outra vez — disse Gandalf — Aquele é Scadufax. É o chefe dos Mearas, senhores dos cavalos, e nem mesmo Théoden, Rei de Rohan, jamais viu um melhor. Ele não brilha como prata, e não corre com a suavidade de um rio veloz? Ele veio ao meu encontro: o cavalo do Cavaleiro Branco. Vamos à batalha juntos.
No momento em que o velho mago falava, o grande cavalo veio avançando pela encosta, na direção deles: seu pelo brilhava e a crina flutuava ao vento. Os outros dois o seguiam, agora bem atrás. Assim que Scadufax viu Gandalf, apertou o passo e relinchou alto; depois, trotando suavemente, aproximou-se, abaixou a cabeça altiva e aninhou as grandes narinas no pescoço do velho. Gandalf o acariciou.
— É uma longa estrada desde Valfenda, meu amigo — disse ele. — Mas você é sábio e rápido e chega quando é necessário. Agora vamos cavalgar muito juntos, e nunca mais nos separaremos neste mundo!
Logo os outros cavalos vieram subindo e ficaram por perto, quietos como se esperassem ordens.
— Vamos imediatamente para Meduseld, o palácio de seu mestre, Théoden — disse Gandalf, dirigindo-se a eles com gravidade, Os animais abaixaram as cabeças. — O tempo está passando; então, com sua permissão, meus amigos, vamos montar. Imploramos que usem toda a velocidade que puderem. Hasufel levará Aragorn, e Arod levará Legolas. Vou colocar Gimli na minha frente, e com sua permissão, Scadufax levará nós dois, Agora só vamos esperar que vocês bebam um pouco de água.
— Agora entendo uma parte do enigma da noite passada — disse Legolas enquanto pulava com leveza sobre o lombo de Arod. — Quer tenham ou não sentido medo num primeiro momento, os cavalos encontraram Scadufax, seu líder, e o receberam com alegria. Você sabia que ele estava por perto, Gandalf?
— Sim, eu sabia — disse o mago. — Coloquei meu pensamento nele, pedindo que se apressasse; pois ontem ele estava distante, no sul desta região. Rapidamente poderá me levar de volta!


Agora Gandalf falava com Scadufax, e o cavalo partiu num passo veloz, mas que os outros ainda podiam acompanhar. Depois de um tempo voltou-se de repente, e escolhendo um lugar onde as margens eram mais baixas entrou no rio, e então foi para o sul, passando por uma região plana, aberta e ampla. O vento ia como grandes ondas através das intermináveis ilhas de relva. Não havia sinal de estrada ou trilha, mas Scadufax não se perdia nem titubeava.
— Ele está fazendo um caminho direto até o palácio de Théoden, sob as encostas das Montanhas Brancas — disse Gandalf — Assim será mais rápido. O solo é mais firme no Estemnete, onde fica a trilha principal que vai para o Norte, através do rio, mas Scadufax sabe o caminho através de cada charco e concavidade.
Por muitas horas, continuaram cavalgando através dos prados e regiões ribeirinhas. Quase sempre a relva era tão alta que atingia os joelhos dos cavaleiros, e os cavalos pareciam estar nadando num mar verde-acinzentado. Passaram por varias poças escondidas, e amplos acres de juncais que ondulavam sobre pântanos úmidos e traiçoeiros; mas Scadufax sempre achava o caminho, e os outros cavalos seguiam sua trilha. Lentamente o sol ia descendo o céu, em direção ao oeste. Olhando por sobre a grande planície, ao longe os cavaleiros o viram por um momento como um fogo vermelho afundando na relva. Embaixo, no horizonte, as saliências das montanhas brilhavam vermelhas dos dois lados. Uma fumaça parecia subir e escurecer o disco do sol até atingir a tonalidade do sangue, como se tivesse incendiado a relva ao passar para baixo da superfície da terra.
— Ali fica o Desfiladeiro de Rohan — disse Gandalf. — Agora está quase a oeste de onde estamos. Ali fica Isengard.
— Vejo uma grande fumaça — disse Legolas. — Que pode ser aquilo?

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