11 de abril de 2016

Capítulo V - A janela sobre o oeste

Com a impressão de ter cochilado apenas alguns minutos, Sam acordou e viu que já era fim de tarde e Faramir tinha voltado. Trouxera muitos homens consigo; na verdade, todos os sobreviventes da emboscada estavam agora reunidos na encosta ali perto, cerca de duzentos a trezentos combatentes. Estavam sentados num amplo semicírculo, Faramir no centro e Frodo em pé diante dele. A situação era estranhamente semelhante ao julgamento de um prisioneiro. Sem que ninguém se desse conta dele, Sam saiu da samambaia e se posicionou atrás das fileiras de homens, de onde podia ver e ouvir tudo o que estava acontecendo.
Observava e escutava tudo com atenção, pronto para correr em auxilio de seu mestre, caso fosse necessário. Estava enxergando o rosto de Faramir, agora sem a máscara: era austero e dominador, e uma sagacidade aguda se escondia atrás de seu olhar penetrante. Havia dúvida nos olhos, que mantinha fixos em Frodo.
Logo Sam descobriu que o Capitão não estava satisfeito em vários pontos com o que Frodo dissera sobre si mesmo: qual era sua função na Comitiva que partira de Valfenda; por que ele havia abandonado Boromir e aonde estava indo agora.
Em especial, mencionou várias vezes a Ruína de Isildur. Estava claro para Faramir que Frodo escondera algum assunto de grande importância.
— Mas era com a chegada do Pequeno que a Ruína de Isildur despertaria, ou pelo menos é o que se pode interpretar daquelas palavras — insistiu ele. — Então, se você é realmente o Pequeno que foi mencionado, não há dúvida de que levou essa coisa, o que quer que seja ela, para o Conselho do qual está falando, e de que lá Boromir a viu. Você nega o que estou dizendo?
Frodo não respondeu.
— Então! — disse Faramir. — Quero que você me diga mais sobre isso; pois o que diz respeito a Boromir diz respeito a mim. Uma flecha de orc matou Isildur, pelo que contam as velhas histórias. Mas flechas de orcs são muito comuns, e Boromir de Condor, ao deparar com uma, não consideraria isso como um sinal do Destino. Essa coisa estava em seu poder? Está oculta, você diz; mas não seria porque você mesmo faz a opção de ocultá-la?
— Não, não é uma opção minha — respondeu Frodo. — Não pertence a mim. Não pertence a nenhum mortal, grande ou pequeno; mas se houver alguém para reivindicá-la, essa pessoa será Aragorn, filho de Arathorn, que eu mencionei, o líder da nossa Comitiva de Moria até Rauros.
— Por que ele, e não Boromir, príncipe da Cidade que os filhos de Elendil fundaram?
— Porque Aragorn é descendente em linhagem direta de Isildur, o próprio filho de Elendil. E a espada em seu poder é a espada de Elendil.
Um murmúrio de assombro percorreu todo o semi-círculo formado pelos homens. Alguns gritaram:
— A espada de Elendil! A espada de Elendil vem a Minas Tirith! Alvíssaras!
Mas o rosto de Faramir permanecia impassível.
— Talvez! — disse ele. — Mas uma reivindicação tão importante precisa ser verificada, e provas concretas serão requeridas, caso esse Aragorn chegue a Minas Tirith. Ele não havia chegado, nem qualquer outro membro de sua Comitiva, quando parti seis dias atrás.
— Boromir concordou com a reivindicação — disse Frodo. — Na verdade, se Boromir estivesse aqui, responderia todas as suas perguntas. E uma vez que ele já estava em Rauros havia muitos dias e pretendia ir direto de lá para a sua cidade, quando você retornar poderá ter todas as respostas lá. Ele conhecia minha função na Comitiva, e todos os outros também, pois ela me foi designada pelo próprio Elrond de Imíadris, diante de todo o Conselho. Eu vim a esta terra com essa missão, que não cabe a mim revelar a qualquer pessoa que não faça parte da Comitiva. Apesar disso, seria melhor que aqueles que dizem se opor ao Inimigo não a dificultassem.
O tom de Frodo era altivo, independentemente do que se passava dentro dele, e Sam aprovou suas palavras; mas Faramir não parecia satisfeito.
— Muito bem! — disse ele. — Você me pede que eu cuide de meus próprios assuntos, e que retorne para casa, deixando-o em paz. Boromir contará tudo, quando chegar. Quando chegar, você diz! Você era amigo de Boromir?
Em sua mente, Frodo relembrou com perfeita nitidez a cena do ataque de Boromir, e por um momento hesitou. A expressão dos olhos atentos de Faramir ficou mais dura.
— Boromir era um valoroso membro de nossa Comitiva — disse Frodo finalmente. — Sim, de minha parte, eu era amigo dele.
O rosto de Faramir se abriu num sorriso sinistro.
— Então você lamentaria se soubesse que Boromir está morto?
— Lamentaria realmente — disse Frodo. Então, captando o olhar de Faramir, ele vacilou.
— Morto? — disse ele. — Está querendo dizer que ele está morto, e que você já sabia disso? Esteve tentando me prender numa armadilha de palavras, jogando comigo? Ou está tentando me enganar com uma mentira?
— Eu não enganaria nem mesmo um orc com uma mentira — disse Faramir. — Como foi então que ele morreu, e como você soube disso, já que está dizendo que nenhum membro da Comitiva havia chegado à cidade até a sua partida?
— Quanto ao modo como morreu, eu tinha esperança de que seu amigo e companheiro me contasse como foi.
— Mas ele estava vivo e forte quando nos separamos. E pelo que sei, ainda está. Embora certamente haja muitos perigos no mundo.
— De fato, há muitos — disse Faramir —, e a traição não é o menor deles.
Sam estava ficando cada vez mais impaciente e furioso com toda a conversa. Aquelas últimas palavras excederam o que conseguia suportar, e, avançando subitamente para o meio do circulo, colocou-se ao lado de seu mestre.
— Perdoe-me, Sr. Frodo — disse ele —, mas isso já foi longe demais. Ele não tem o direito de falar com o senhor dessa maneira. Não depois de tudo o que o senhor passou, tanto para o bem dele e de todos esses grandes homens, quanto para o de qualquer pessoa. Olhe aqui, Capitão! — disse ele, plantando-se bem à frente de Faramir, com as mãos na cintura, como se estivesse se dirigindo a um jovem hobbit que lhe respondesse num tom que Sam chamava de “topetudo” quando questionado em relação a alguma visita ao pomar. Houve alguns murmúrios, e também risos nos rostos dos homens que assistiam: a cena de seu Capitão, sentado no chão, cara a cara com um jovem hobbit de pernas bem abertas, fervendo de raiva, era algo totalmente novo para eles. — Olhe aqui! — disse ele. — Aonde está querendo chegar? Vamos ao ponto antes de todos os orcs de Mordor nos atacarem! Se o senhor pensa que meu mestre matou esse Boromir e depois fugiu, o senhor está louco; mas diga claramente, e termine com isso de uma vez por todas! E então nos permita saber o que pretende fazer sobre o assunto. Mas é uma pena que pessoas que ficam falando em lutar contra o Inimigo não sejam capazes de deixar que outros façam a sua parte à sua própria maneira, e sem interferências. Ele ficaria muito satisfeito, se pudesse vê-lo agora. Iria pensar que conseguiu um novo amigo, sem dúvida.
— Calma! — disse Faramir sem raiva. — Não fale antes de seu mestre, cuja inteligência é maior que a sua. E eu não preciso que ninguém me advirta sobre o perigo que corremos. Mesmo assim, disponho de um curto espaço de tempo para julgar com justiça uma questão difícil. Se eu fosse tão apressado quanto você, provavelmente já os teria matado há muito tempo. Pois recebi ordens de matar qualquer um que entrasse nesta terra sem a permissão do Senhor de Gondor. Mas não mato homens nem animais sem necessidade, e não me sinto feliz em fazê-lo mesmo quando é necessário. E também não estou falando em vão. Então sossegue. Sente-se ao lado de seu mestre, e fique quieto!
Sam se sentou furioso e com o rosto vermelho. Faramir voltou-se para Frodo outra vez.
— Você perguntou como eu sei que o filho de Denethor está morto. As notícias de morte têm muitas asas. Com frequência a noite traz notícias para parentes próximos, como diz o ditado. Boromir era meu irmão.
Uma sombra de tristeza cobriu-lhe o rosto.
— Você se lembra de alguma coisa característica que o Sr. Boromir carregava junto aos seus pertences?
Frodo pensou por um momento, temendo uma nova armadilha, e perguntando-se como esse debate terminaria. Mal conseguira salvar o Anel da ambiciosa mão de Boromir; como se sairia agora em meio a tantos homens, fortes guerreiros, ele não sabia. Apesar disso, sentia em seu coração que Faramir, embora fosse muito semelhante ao irmão na aparência, era um homem menos arrogante, ao mesmo tempo mais austero e mais sábio.
— Recordo-me de que Boromir levava uma corneta — disse Frodo finalmente.
— Recorda-se bem, e como uma pessoa que esteve realmente com ele — disse Faramir. — Então talvez consiga ver com os olhos de sua mente: uma grande corneta, feita do chifre do boi selvagem do leste, adornada de prata, e com inscrições em caracteres antigos. Essa corneta os primogênitos de nossa casa carregaram por várias gerações; e afirma-se que se ela fosse tocada num momento de necessidade em qualquer lugar dentro das fronteiras de Gondor, como era o reinado antigamente, sua voz não passaria despercebida.
“Cinco dias antes de minha partida nesta jornada, há onze dias, por volta desta hora, ouvi o soar daquela corneta: parecia vir do norte, mas chegava fraco, como se fosse um eco na mente. Achamos que era um mau presságio, meu pai e eu, pois não tivéramos notícias de Boromir desde sua partida, e nenhuma sentinela em nossas fronteiras o tinha visto passar. E três noites depois uma outra coisa, ainda mais estranha, me aconteceu.
“Estava sentado à noite à beira do Anduin, na escuridão cinzenta sob uma pálida lua nova, observando a correnteza sempre em movimento, e ouvindo o farfalhar dos juncos tristonhos. Temos sempre o costume de vigiar as margens perto de Osgiliath, que nossos inimigos agora em parte detém, e através das quais enviam expedições para saquear nossas terras. Mas naquele dia o mundo todo adormeceu à meia-noite. Então eu vi, ou tive a impressão de ter visto, um barco flutuando na água, emitindo um vago brilho cinzento, um pequeno barco de formato esquisito com uma proa alta, e não havia ninguém para remar ou conduzi-lo.
“Fui tomado de espanto, pois uma luz pálida o envolvia. Mas levantei-me e me dirigi à margem, e comecei a caminhar para dentro da correnteza, pois me sentia atraído por ele. Então o barco se virou na minha direção, diminuindo de velocidade e flutuando lentamente até chegar ao alcance de minha mão, mas eu não ousei tocá-lo. Calava fundo, como se carregasse um grande peso, e conforme passou sob meu olhar tive a impressão de que estava quase totalmente repleto de água limpa, da qual emanava a luz; no seio da água, um guerreiro jazia dormindo.
“Havia uma espada quebrada sobre seu joelho. Vi muitos ferimentos em seu corpo. Era Boromir, meu irmão, morto. Reconheci seus indumentos, sua espada, seu amado rosto. De uma coisa apenas senti falta: a corneta. Uma coisa apenas não reconheci: um belo cinto, que parecia ser feito de folhas de ouro, cingindo-lhe a cintura. Boromir!, gritei eu. Onde está tua corneta? Aonde vais tu, ó Boromir? Mas ele se fora, O barco voltou a acompanhar a correnteza e desapareceu tremeluzindo noite adentro. Foi como um sonho, mas não foi um sonho, pois não houve despertar. E não tenho dúvidas de que ele está morto e passou descendo o Rio em direção ao Mar.
— Lamento! — disse Frodo. — Esse era realmente Boromir como o conheci. Pois o cinto de ouro lhe foi dado em Lothlórien, pela Sra. Galadriel. Foi ela quem nos vestiu assim, de cinza élfico. Este broche é da mesma lavra. — Tocou a folha verde e prateada que lhe prendia a capa ao pescoço.
Faramir a examinou de perto.
— É linda — disse ele. — Sim, é da mesma lavra. Então vocês passaram pela Terra de Lórien? Antigamente se chamava Laurelindórenan, mas já faz tempo que está além do conhecimento dos homens — acrescentou ele baixinho, observando Frodo com uma nova admiração em seus olhos. — Começo a entender muitas coisas que achava estranhas em você. Não vai nos contar mais coisas? Pois é triste pensar que Boromir tenha morrido às vistas de sua terra natal.
— Não posso contar nada além do que já contei — respondeu Frodo. — Embora sua história me traga muitos presságios. Acho que foi uma visão que você teve, nada além disso; alguma sombra de má fortuna que aconteceu ou vai acontecer. A não ser que seja na verdade algum truque mentiroso do Inimigo. Vi rostos de belos guerreiros de antigamente jazendo adormecidos no fundo das poças dos Pântanos Mortos, ou pelo menos era isso que suas artes malignas faziam parecer.
— Não, não foi uma visão — disse Faramir. — Pois os trabalhos dele enchem o coração de ódio; mas meu coração se encheu de tristeza e pena.
— Mas como uma coisa dessas poderia ter realmente acontecido? — perguntou Frodo.
— Nenhum barco poderia ter sido carregado do Tol Brandir através das colinas rochosas; e Boromir tinha o propósito de ir para casa através do Entágua e dos campos de Rohan. E como poderia qualquer embarcação navegar nas espumas das grandes cachoeiras e não afundar nos lagos borbulhantes, mesmo estando cheia de água?
— Não sei — disse Faramir. — Mas de onde veio esse barco?
— De Lórien — disse Frodo. — Descemos o Anduin em três barcos, até chegarmos às Cachoeiras. Eles também foram feitos pelos elfos.
— Vocês atravessaram a Terra Oculta — disse Faramir —, mas parece que entendem muito pouco do poder dela. Se homens têm contato com a Senhora da Magia que mora na Floresta Dourada, então podem esperar que coisas estranhas aconteçam. Pois é perigoso para os mortais sair do mundo deste sol, e poucos antigamente conseguiram sair de lá incólumes, pelo que se diz. Boromir ó Boromir! — gritou ele. — O que lhe disse ela, a Senhora que não morre? O que foi que ela viu? O que terá despertado em seu coração? Por que foi você para Laurelindórenan, e não seguiu sua própria estrada, cavalgando para casa nos cavalos de Rohan pela manhã?
Então, voltando-se para Frodo, falou mais uma vez em voz baixa.
— Essas perguntas acho que você poderia responder, Frodo, filho de Drogo. Mas talvez não aqui nem agora. Mas para evitar que você continue achando que o que lhe contei foi uma visão, vou acrescentar isto: a corneta de Boromir finalmente retornou, na realidade, e não em sonho. A corneta chegou mas estava partida em duas, como se tivesse sido golpeada por um machado ou uma espada. Os pedaços chegaram à praia separadamente: um foi encontrado em meio aos juncos onde ficam as sentinelas de Gondor, ao norte, sob as cachoeiras que alimentam o Entágua; o outro foi encontrado rodopiando na correnteza, por uma pessoa que por algum motivo fora ao rio. Acasos estranhos, mas a verdade virá à tona, como se diz.
“E agora a corneta do primogênito jaz em dois pedaços sobre o colo de Denethor, que está sentado em sua alta cadeira, aguardando notícias. Você não sabe me dizer nada sobre a corneta partida?
— Não, eu não sabia disso — disse Frodo. — Mas o dia em que você a ouviu soando, se seus cálculos estão certos, foi o dia em que nos separamos, quando eu e meu servidor abandonamos a Comitiva. E agora sua história me enche de temor. Pois, se Boromir estava em perigo e foi morto, receio que todos os meus companheiros tenham perecido também. E eram meus parentes e meus amigos. Você não está disposto a ignorar sua dúvida a meu respeito e me deixar partir? Estou cansado, cheio de tristeza e com medo. Mas tenho um feito a cumprir, ou tentar, antes que eu também seja morto. E ainda precisarei me apressar mais, se dois Pequenos são tudo o que sobrou de nossa sociedade. Volte, Faramir, valoroso Capitão de Gondor, e defenda sua cidade enquanto puder, e deixe-me ir para onde meu destino me conduz.
— Para mim não há consolo em nossa conversa — disse Faramir — mas certamente você extrai dela mais pavor do que é necessário. A não ser que a própria gente de Lórien tenha vindo até ele, quem ataviou Boromir como se fosse para um funeral? Não os orcs, e nem os servidores do Inominável. Alguém de sua Comitiva, suponho eu, ainda vive.
“Mas o que quer que tenha acontecido na Fronteira Norte, de você, Frodo, não duvido mais. Se os dias difíceis me fizeram um juiz de palavras e rostos, então posso fazer uma suposição sobre os Pequenos! Embora nesse ponto — ele sorriu — haja algo estranho em você, Frodo, um ar élfico, talvez. Mas há mais coisas em nossas palavras do que eu a princípio imaginara. Eu deveria levá-lo agora para Minas Tirith, para responder lá a Denethor, e terei de pagar com a vida, se neste momento escolher um caminho que acabe se mostrando ruim para minha cidade. Por isso, não vou decidir apressadamente o que deve ser feito. Mesmo assim, devemos sair daqui sem mais demora.
Levantou-se e deu algumas ordens. Imediatamente, os homens que estavam reunidos à sua volta se separaram em pequenos grupos, e foram em várias direções, desaparecendo rapidamente nas sombras das rochas e árvores. Logo apenas Mablung e Damrod permaneciam.
— E vocês, Frodo e Samwise, virão comigo e meus guardas — disse Faramir. — Não podem ir pela estrada em direção ao sul, se este era o seu propósito. Aquela região será mais perigosa por alguns dias, e depois desse tumulto ainda mais vigiada do que antes. E não poderão, de qualquer forma, avançar muito hoje, pois estão cansados. Nós também estamos. Estamos indo para um de nossos esconderijos, a menos de dez milhas daqui. Os orcs e os espiões do Inimigo ainda não o encontraram, e, se o encontrassem, poderíamos defendê-lo por muito tempo, mesmo contra muitos inimigos. Lá poderemos nos deitar e descansar um pouco, e vocês também. Pela manhã decidirei qual é a melhor coisa a fazer. Para mim e para vocês.
A Frodo nada restava a não ser ceder àquele pedido, ou ordem. Em qualquer caso, parecia uma decisão sábia naquele momento, uma vez que a emboscada dos homens de Gondor transformara uma viagem através de Ithilien numa aventura mais perigosa do que nunca. Partiram imediatamente: Mablung e Damrod um pouco à frente, e Faramir, Frodo e Sam atrás. Contornando o lado mais próximo do lago onde os hobbits tinham se banhado, atingiram a margem oposta, subiram um longo barranco, e penetraram nas florestas de sombras verdes, que avançavam sempre descendo para o oeste. Enquanto caminhavam, o mais rápido que os hobbits conseguiam, iam conversando em voz baixa.
— Interrompi nossa conversa — disse Faramir — não só porque o tempo urgia, como bem disse o Mestre Samwise, mas também porque estávamos nos aproximando de assuntos que não deviam ser discutidos abertamente diante de muitos homens. Foi por esse motivo que preferi discutir o assunto de meu irmão, e deixei de lado a Ruína de Isildur. Você não foi totalmente franco comigo, Frodo.
— Não contei nenhuma mentira, e disse todas as verdades que podia — disse Frodo.
— Não o culpo — disse Faramir. — Você falou com habilidade numa posição difícil, e de maneira sábia, ao que me pareceu. Mas eu percebi ou supus mais do que disseram suas palavras. Você não era amigo de Boromir, ou pelo menos vocês não se separaram como amigos. Você, e Mestre Samwise também, suponho eu, têm alguma mágoa. Eu o amava muito, e de bom grado vingaria sua morte; apesar disso, conhecia-o bem. A Ruína de Isildur – arriscaria dizer que a Ruína de Isildur estava entre vocês e era causa de contenda em sua Comitiva. Está claro que é algum tipo de legado, e essas coisas não trazem paz entre aliados, não se as histórias antigas podem ensinar alguma coisa. Não estou quase atingindo o alvo?
— Quase — disse Frodo. — Mas não exatamente o centro. Não houve contenda em nossa Comitiva, embora tenha havido dúvida: dúvida sobre que caminho deveríamos tomar além das Emyn Muil. Mas, seja como for, as histórias antigas também nos ensinam o perigo de palavras precipitadas em se tratando de coisas como legados.
— Então é como eu pensava: seu problema era apenas com Boromir: ele queria que essa coisa fosse trazida a Minas Tirith. Ai de mim! É crueldade do destino que você, a última pessoa que o viu, tenha seus lábios selados, e esconda de mim o que mais quero saber: o que se passava no coração e no pensamento dele em suas últimas horas. Tendo ou não errado, disto tenho certeza: ele morreu com dignidade, realizando algo de bom. Seu rosto estava ainda mais belo do que em vida.
“Mas, Frodo, a principio eu o pressionei muito com perguntas sobre a Ruína de Isildur. Perdoe-me! Foi uma insensatez, naquela hora e lugar. Não tive tempo para pensar. Tínhamos tido uma luta difícil, e havia coisas demais em minha cabeça. Mas no próprio momento em que lhe falava, eu me aproximei do alvo, e então deliberadamente desviei o tiro. Pois você deve saber que muitas coisas ainda se preservam da antiga tradição dos Governantes da cidade, e são mantidas em segredo. Nós da minha casa não somos da linhagem de Elendil, embora o sangue de Númenor corra em nossas veias. Sabemos que nossa linhagem remonta a Mardíl, o bom regente, que governou no lugar do rei quando este foi para a guerra. E este era o Rei Eãmur, o último da linhagem de Anárion, que não tinha filhos e jamais retornou. E os regentes têm governado a cidade desde esse dia, embora isso tenha acontecido há muitas gerações de homens. E disso eu me lembro a respeito de Boromir, quando ele era um menino e nós dois juntos aprendíamos a história de nossos antepassados e de nossa cidade: ele era um eterno insatisfeito com o fato de nosso pai não ser rei. “Quanto tempo leva para que um regente se torne um rei, se o rei não retornar?”, perguntava ele. “Alguns anos, talvez, em outros lugares de menor realeza”, meu pai respondia. “Em Gondor dez mil anos não seriam suficientes.” Ai de mim! Pobre Boromir. Isso não lhe diz algo sobre ele?
— Realmente — disse Frodo. — Mas ele sempre tratou Aragorn com respeito.
— Não duvido disso — disse Faramir. — Se ele concordava com a reivindicação de Aragorn, como você diz, provavelmente o reverenciaria muito. Mas o momento crucial ainda não chegara. Eles ainda não tinham chegado a Minas Tirith, nem se tornado rivais nas guerras locais.
“Mas estou me desviando do assunto. Nós, da casa de Denethor, sabemos muito da antiga tradição, transmitida de pai para filho, e além disso preservamos muita coisa em nossos tesouros: livros e cadernos escritos em pergaminhos envelhecidos, sim, e na pedra, e em folhas de prata e ouro, em vários caracteres diferentes. Alguns ninguém consegue decifrar, e, quanto ao resto, poucos agora os manuseiam. Posso ler alguma coisa neles, pois fui ensinado. Foram esses registros que trouxeram o Peregrino Cinzento até nós. Vi-o pela primeira vez quando era criança, e ele esteve em nossa cidade duas ou três vezes depois disso.
— O Peregrino Cinzento? — perguntou Frodo. — Ele tinha um nome?
— Nós o chamávamos de Mithrandir, à maneira dos elfos — disse Faramir — e ele ficava satisfeito. Tenho muitos nomes em diferentes lugares, dizia ele. Mithrandir entre os elfos, Tharkún para os anões; eu era Olórin em minha juventude no Ocidente que está esquecido; no sul, Incánus, no norte Gandalf para o leste eu nunca vou.
— Gandalf! — disse Frodo. — Pensei que fosse ele, Gandalf, o Cinzento, o mais querido dos conselheiros, Líder de nossa Comitiva. Nós o perdemos em Moria.
— Perderam Mithrandir! — disse Faramir. — Parece que um destino mau perseguia sua sociedade. Realmente é difícil acreditar que alguém possuidor de tanta sabedoria e poder – pois fez coisas maravilhosas entre nós – possa ter perecido, e desse modo o mundo tenha perdido tanta sabedoria. Você tem certeza disso, de que ele não os deixou apenas, partindo quando julgou necessário?
— Infelizmente sim — disse Frodo. — Eu o vi cair no abismo.
— Percebo que há uma grande história de terror nisso — disse Faramir — que talvez você possa me contar à noite. Esse Mithrandir era mais que um mestre das tradições, percebo agora: um grande promotor dos feitos de nossa época. Se tivesse estado entre nós para que pudéssemos consultá-lo sobre as palavras duras de nosso sonho, poderia tê-las esclarecido sem a necessidade de um mensageiro. Mas talvez não tivesse feito isso, e a viagem de Boromir já estivesse marcada pelo destino. Mithrandir nunca nos falava sobre o que ainda iria acontecer, e nunca revelou seus propósitos. Conseguiu a permissão de Denethor, não sei como, para examinar os segredos de nossos tesouros, e eu aprendi um pouco com ele, quando estava disposto a ensinar (e isso era raro). Sempre procurava e nos perguntava acima de tudo sobre a Grande Batalha que foi travada em Dagorlad nos primórdios de Gondor, na qual Aquele que não nomeamos foi derrotado. Era ávido por saber histórias sobre Isildur, embora dele tivéssemos pouco para contar, pois nunca soubemos nada de concreto sobre seu fim.
Nesse ponto, a voz de Faramir reduziu-se a um sussurro.
— Mas isso eu aprendi, ou adivinhei, e desde então guardei em segredo em meu coração: que Isildur tomou alguma coisa da mão do Inominado, antes de partir de Gondor, para nunca mais ser visto entre os homens mortais. Eu achava que aqui estava a resposta para a indagação de Mithrandir. Mas na época parecia um problema que dizia respeito apenas aos que procuravam os ensinamentos antigos. E também eu não achei, quando as palavras enigmáticas de nosso sonho foram discutidas entre nós, que a Ruína de Isildur fosse essa mesma coisa. Pois Isildur foi vítima de uma emboscada e morto por flechas de orcs, de acordo com a única lenda que conhecemos, e Mithrandir nunca me contou mais sobre isso.
“O que é na verdade essa coisa não posso adivinhar, mas deve ser algum legado de poder e perigo. Talvez uma arma mortal, feita pelo Senhor do Escuro. Se fosse uma coisa que trouxesse vantagem na batalha, posso muito bem crer que Boromir, o altivo e destemido, frequentemente impetuoso, sempre ansioso pela vitória de Minas Tirith (que traria também sua grande glória), possa ter desejado essa coisa e ter sido atraído por ela. Lamento que tenha ido em tal missão! Eu teria sido escolhido por meu pai e pelos anciões, mas ele se ofereceu, por ser o mais velho e o mais corajoso (ambas as coisas verdadeiras), e ninguém conseguiria detê-lo.
“Mas não tema mais nada! Eu não tomaria essa coisa, nem que a encontrasse na estrada. Nem que Minas Tirith estivesse sendo destruída e apenas eu pudesse salvá-la desse modo, usando a arma do Senhor do Escuro para o bem dela e para minha glória. Não. Não anseio por tais triunfos, Frodo, filho de Drogo.
— O Conselho também não — disse Frodo. — Nem eu. Eu preferiria não ter nada a ver com tais assuntos.
— Quanto a mim — disse Faramir — gostaria de ver a Árvore Branca outra vez em flor nos pátios dos reis, e a Coroa de Prata retornar, e Minas Tirith em paz: Minas Anor de novo como era antigamente, cheia de luz, altiva e bela, bonita como uma rainha entre outras rainhas: não uma senhora de muitos escravos, não, nem sequer uma senhora gentil de escravos voluntários. A guerra deve acontecer, enquanto estivermos defendendo nossas vidas contra um destruidor que poderia devorar tudo; mas não amo a espada brilhante por sua agudeza, nem a flecha por sua rapidez, nem o guerreiro por sua glória. Só amo aquilo que eles defendem: a cidade dos homens de Númenor, e gostaria que ela fosse amada por seu passado, sua tradição, sua beleza e sua sabedoria presente. Não que ela fosse temida, a não ser da maneira que os homens temem a dignidade de um homem velho e sábio.
“Por isso, não tenha medo de mim! Não peço que me conte mais nada. Não peço nem que me diga se agora eu estou chegando mais perto do alvo. Mas se estiver disposto a confiar em mim, é possível que eu possa aconselhá-lo em sua demanda atual, qualquer que seja ela – talvez até mesmo ajudá-lo.
Frodo não respondeu. Quase cedeu ao desejo de ser aconselhado, e ajudado, de contar àquele jovem digno, cujas palavras pareciam tão belas e sábias, tudo o que passava por sua cabeça. Mas alguma coisa o impediu. Tinha o coração tomado de medo e tristeza: se ele e Sam realmente fossem, como parecia provável, tudo o que sobrara dos Nove Andantes, então ele era o único que sabia do segredo de sua missão. Mais valia uma desconfiança imerecida do que palavras incautas. E a lembrança de Boromir, da terrível mudança que a atração pelo Anel causara nele, estava muito presente em sua memória, quando olhava para Faramir e ouvia sua voz: os dois eram diferentes, mas ao mesmo tempo muito parecidos.
Continuaram caminhando em silêncio, passando como sombras cinzentas e verdes sob as velhas árvores, os pés não fazendo ruído algum; sobre eles muitos pássaros cantavam, e o sol reluzia sobre o teto polido de folhas escuras das florestas perenes de Ithilien. Sam não participara da conversa, embora tivesse escutado tudo, ao mesmo tempo em que estivera prestando atenção, com seus sensíveis ouvidos de hobbit, a todos os ruídos suaves da floresta ao redor deles.
Notou uma coisa: em toda a conversa, o nome de Golum não fora mencionado uma só vez. Estava feliz por isso, embora achasse que seria um exagero esperar que jamais ouviria aquele nome de novo. Logo percebeu também que, embora estivessem caminhando sozinhos, havia muitos homens por perto: não apenas Damrod e Mablung, entrando e saindo das sombras à frente, mas outros, dos dois lados, todos trilhando seu caminho secreto na direção de algum lugar indicado.
Uma vez, olhando de repente para trás, como se alguma comichão na pele o avisasse de que estava sendo observado, teve a impressão de captar de relance um pequeno vulto escuro se escondendo atrás de um tronco de árvore. Abriu a boca para falar e a fechou em seguida.
— Não tenho certeza — disse para si mesmo — e por que motivo deveria lembrá-los do velho vilão, se eles preferem esquecê-lo? Eu gostaria de conseguir fazer o mesmo!
Assim foram caminhando, até que as florestas ficaram menos densas e o terreno começou a descer mais abruptamente. Então desviaram outra vez, à direita, e chegaram logo a um pequeno rio numa garganta estreita: era o mesmo riacho que descia do lago redondo mais acima, já agora uma correnteza veloz, saltando sobre muitas pedras num leito profundo, coberto por azevinheiros e buxos.
Olhando ao oeste podiam ver, mais abaixo e numa névoa de luz, planícies e amplas campinas, e, tremeluzindo distantes ao sol que se punha, as águas caudalosas do Anduin.
— Aqui, infelizmente, terei de tratá-lo com descortesia — disse Faramir. — Espero que perdoe esse gesto, partindo de uma pessoa que até agora tem dado suas ordens movida pela cortesia , e evitando que vocês fossem mortos ou presos. Mas não é permitido a nenhum forasteiro, nem mesmo a alguém de Rohan que lute ao nosso lado, ver a trilha pela qual agora iremos com os olhos abertos. Devo vendar seus olhos.
— Como quiser — disse Frodo. — Até os elfos se comportam dessa maneira quando há necessidade, e de olhos vendados nós atravessamos as fronteiras da bela Lothlórien. Gimli, o anão, levou isso a mal, mas os hobbits suportaram bem.
— Não é por um lugar tão belo que deverei conduzi-los — disse Faramir. — Mas fico satisfeito em saber que vocês aceitam a imposição voluntariamente, e não à força.
Chamou em voz baixa e imediatamente Mablung e Damrod surgiram das árvores e vieram na direção deles.
— Vendem os olhos destes hóspedes — disse Faramir. — De modo seguro, mas sem incomodá-los. Não amarrem suas mãos. Eles darão sua palavra de que não tentarão olhar. Poderia confiar que eles fechassem os olhos por sua própria conta, mas os olhos podem se abrir, se os pés tropeçarem. Conduzam-nos e cuidem para que não vacilem.
Com cachecóis verdes os dois guardas vendaram os olhos dos hobbits, e puxaram-lhes os capuzes quase até a boca; então rapidamente tomaram cada um pela mão e continuaram em seu caminho. Tudo o que Frodo e Sam souberam dessa última milha da estrada depreenderam adivinhando no escuro. Um pouco depois perceberam que estavam numa trilha que descia abruptamente; logo ficou tão estreita que eles precisaram ir em fila indiana, roçando os corpos em muralhas rochosas de ambos os lados; os guardas vinham atrás e os guiavam, com mãos firmes sobre os seus ombros.
Em alguns momentos passavam por lugares difíceis e eram carregados por um trecho, e depois recolocados no chão. Todo o tempo o ruído de água correndo os acompanhava do lado direito, e ia ficando mais próximo e mais alto. Finalmente pararam.
Rapidamente Mablung e Damrod fizeram-nos girar várias vezes, e eles perderam todo o senso de direção. Subiram por um trecho: parecia frio e o ruído da água ficara fraco. Depois foram carregados e levados para baixo, descendo muitos degraus, e fazendo uma curva em cotovelo. De repente ouviram a água outra vez, agora produzindo um ruído alto, correndo e espirrando. Parecia estar por toda a volta deles, sentiam uma chuva fina nas mãos e faces. Finalmente foram colocados de volta no chão.
Por um momento ficaram ali parados, sentindo um pouco de medo, com os olhos vendados, sem saber onde estavam; ninguém falou nada.
Então veio por trás a voz de Faramir, bem próxima.
— Deixem-nos ver! — disse ele.
Os cachecóis foram removidos e os capuzes puxados para trás; os hobbits piscaram e ficaram boquiabertos.
Estavam sobre um chão molhado de pedra polida, que era a soleira, por assim dizer, de um tosco portão de pedra, que se abria escuro atrás deles. Mas à frente caia um fino véu de água, tão próximo que Frodo poderia tê-lo alcançado se esticasse o braço.
Dava para o oeste. Os raios horizontais do sol que se punha atrás batiam nele e a luz vermelha se partia em muitos raios bruxuleantes de cores iridescentes. Era como se estivessem à janela de alguma torre élfica, cuja cortina fosse feita com cordões de ouro e prata, rubis, safiras e ametistas, tudo ardendo num fogo que não consumia.
— Ao menos tivemos a sorte de chegar à hora certa de recompensá-los por sua paciência — disse Faramir. — Esta é a Janela do Pôr-do-Sol, Henneth Annún, a mais bela de todas as cachoeiras de Ithilien, terra de muitas fontes. Poucos forasteiros tiveram oportunidade de vê-la. Mas não há um salão real por trás que lhe esteja à altura. Entrem agora e vejam!
No momento em que falava, o sol se pôs, e o fogo mergulhou no fluxo das águas. Eles se viraram e passaram por um arco baixo e austero.
Imediatamente se viram num cômodo de pedra, largo e tosco, com um teto irregular e inclinado. Algumas tochas estavam acesas e lançavam uma luz fraca nas paredes tremeluzentes. Muitos homens já estavam lá. Outros ainda vinham chegando em grupos de dois ou três através de uma porta lateral estreita e escura. Quando seus olhos começaram a se acostumar à escuridão, os hobbits viram que a caverna era maior do que tinham suposto e estava repleta com um bom estoque de armas e mantimentos.
— Bem, este é nosso refugio — disse Faramir. — Não é um lugar muito confortável, mas aqui vocês poderão passar a noite em paz. Pelo menos é seco, e há comida, embora não tenhamos fogo. Houve um tempo em que a água passava através desta caverna e saia pelo arco, mas esse curso foi alterado mais acima da garganta, por trabalhadores de antigamente, e a correnteza foi desviada para uma queda de altura duas vezes maior por sobre as pedras lá em cima. Depois todos os caminhos que conduziam a esta gruta foram obstruídos para evitar a entrada de água ou qualquer outra coisa, todos menos um. Agora só há duas saídas: a passagem mais além, pela qual vocês entraram com os olhos vendados, e através da Cortina da Janela, entrando numa bacia profunda cheia de facas de pedra. Agora descansem um pouco, até a hora da refeição noturna.
Os hobbits foram levados até um canto, onde lhes foi oferecida uma cama baixa para deitarem, se quisessem. Enquanto isso os homens se ocupavam pela caverna, em silêncio e numa pressa ordenada. Tábuas leves foram retiradas das paredes e colocadas sobre cavaletes e guarnecidas com material de cozinha. Quase tudo era simples e sem adornos, mas bem-feito e bonito: travessas redondas, tigelas e pratos de barro vitrificado marrom ou de buxo torneado, polido e limpo. Aqui e ali se via uma taça ou bacia de bronze polido; um cálice liso de prata foi colocado no lugar do Capitão, no meio da mesa no fundo da caverna.
Faramir caminhava entre os homens, interrogando cada um conforme entravam, numa voz baixa. Alguns haviam retornado da perseguição aos sulistas, outros, deixados para trás como vigias perto da estrada, entraram por último. Todos os sulistas haviam sido destruídos, exceto o grande múmak: o que lhe acontecera ninguém sabia dizer. Do inimigo nenhum movimento se via, nem sequer um espião-orc.
— Você não viu nem ouviu nada, Anborn? — perguntou Faramir ao último que chegou.
— Bem, senhor, não — disse o homem. — Pelo menos nenhum orc. Mas eu vi, ou tive a impressão de ter visto, uma coisa meio estranha. Já tinha quase anoitecido, naquela hora em que os olhos fazem as coisas ficarem maiores do que são. Por isso, talvez não tenha sido nada além de um esquilo. — Ao ouvir isso, Sam ficou de orelha em pé. — Mas, se for esse o caso, era um esquilo preto, e não vi nenhum rabo. Era como uma sombra no chão, e se escondeu atrás de um tronco de árvore quando me aproximei, e subiu nela com a mesma velocidade de um esquilo. O senhor não permite que matemos animais selvagens sem motivo, e me pareceu que aquilo não passava de um animal selvagem, por isso não tentei atirar nenhuma flecha. De qualquer forma, estava escuro demais para um tiro certeiro e a criatura entrou na escuridão das folhas num piscar de olhos. Mas fiquei lá um tempo, pois ela parecia estranha, e depois corri de volta. Tive a impressão de ouvir o bicho chiar para mim de cima da árvore conforme me virei. Talvez um grande esquilo. Pode ser que, sob a sombra do Inominado, alguns animais da Floresta das Trevas estejam fugindo para as nossas florestas. Comenta-se que lá eles têm esquilos pretos.
— Talvez — disse Faramir. — Mas, se for verdade, isso será um mau presságio. Não queremos os fugitivos da Floresta das Trevas em Ithilien.
Sam imaginou que ele tinha lançado um olhar rápido em direção aos hobbits enquanto falava; mas Sam não disse nada. Por um tempo ele e Frodo ficaram deitados observando a luz das tochas, e os homens andando de um lado para o outro e conversando aos sussurros. Então, de repente, Frodo adormeceu.
Sam discutia consigo mesmo, ponderando prós e contras. “Ele pode estar sendo sincero”, pensou ele, “e também pode não estar. Palavras belas podem ocultar um coração maligno.” Sam bocejou. “Poderia dormir uma semana inteira, e isso me faria bem. E o que posso fazer, se ficar acordado, só eu sozinho, com todos esses homens grandes ao redor? Nada, Sam Gamgi; mas mesmo assim você tem de ficar acordado.” E de alguma forma conseguiu. A luz desapareceu na porta da caverna, e o grande véu de água que caía ficou escuro e se perdeu na sombra que sobreveio. O som da água continuava, nunca mudando de tom, de manhã, de tarde ou de noite. Sam passou os dedos nos olhos.
Agora mais tochas estavam sendo acesas. Um barril de vinho foi perfurado. Barricas com mantimentos estavam sendo abertas. Homens traziam água da cachoeira. Alguns lavavam as mãos em bacias. Uma grande vasilha de cobre e uma toalha branca foram trazidas para Faramir, e ele se lavou.
— Acorde nossos convidados — disse ele — e leve-lhes água. Está na hora de comer.
Frodo se sentou, bocejou e espreguiçou-se. Sam, não habituado a ser servido, olhou meio surpreso para o homem alto que se curvou, segurando uma bacia de água diante dele.
— Coloque-a no chão, mestre, por favor! — disse ele. — Fica mais fácil para você e para mim. — Então, para a surpresa de todos, mergulhou a cabeça na água fria e lavou o pescoço e as orelhas.
— É costume em sua terra lavar a cabeça antes da ceia? — perguntou o homem que estava servindo os hobbits.
— Não, antes do desjejum — disse Sam. — Mas se você dormiu pouco, a água fria no pescoço é como chuva sobre um pé de alface murcho. Pronto! Agora posso ficar acordado o suficiente para conseguir comer alguma coisa.
Conduziram-nos para os assentos ao lado de Faramir: barris cobertos com peles e suficientemente mais altos que os bancos dos homens, para a conveniência dos hobbits. Antes de comer, Faramir e todos os seus homens se viraram e olharam para o oeste, num momento de silêncio. Faramir fez um sinal para Frodo e Sam de que eles deveriam proceder da mesma forma.
— Fazemos sempre assim — disse ele, quando se sentaram — olhamos na direção de Númenor que era, e mais além na direção de Casadelfos que é, e para aquela que fica além de Casadelfos e sempre será. Vocês não têm esse costume às refeições?
— Não — disse Frodo, sentindo-se estranhamente rústico e inculto. — Mas se somos convidados, fazemos uma reverência diante de nosso anfitrião, e depois de termos comido nos levantamos e lhe agradecemos.
— Isso nós também fazemos — disse Faramir.
Depois de terem viajado e acampado por tanto tempo, depois de dias passados em regiões desertas e solitárias, a refeição noturna pareceu um banquete para os hobbits: beber um vinho clarete, fresco e perfumado, comer pão com manteiga, e carnes salgadas, e frutas secas, e um bom queijo vermelho, com as mãos limpas e com facas e pratos limpos. Nem Frodo nem Sam recusaram nada do que lhes foi oferecido, nem uma segunda, e na verdade nem uma terceira porção. O vinho correu em suas veias e pernas cansadas, e eles se sentiram alegres e com os corações leves, como não se sentiam desde que partiram da terra de Lórien. Quando tudo estava terminado, Faramir os levou a um cômodo na parte de trás da caverna, parcialmente protegido por cortinas; uma cadeira e dois bancos foram levados para lá. Uma pequena lamparina de barro queimava num nicho.
— Pode ser que logo desejem dormir — disse ele —, especialmente o bom Samwise, que não conseguiu pregar os olhos antes de comer – talvez por medo de cegar a lâmina de uma nobre fome, ou por medo de mim, isso eu não sei. Mas não é bom dormir logo depois de uma refeição, e pior ainda se a refeição foi precedida de um período de abstinência. Vamos conversar um pouco. Em sua viagem desde Valfenda deve ter havido muitas coisas para contar. E vocês, também, talvez desejassem aprender alguma coisa sobre nós e sobre as terras onde estão agora. Contem-me sobre Boromir, meu irmão, e sobre o nobre Mithrandir, e sobre o belo povo de Lothlórien.
Frodo deixara de se sentir sonolento, e estava disposto a conversar. Mas, embora a comida e o vinho o tivessem deixado relaxado, ele não perdera de todo a sua cautela. Sam sorria e cantarolava para si mesmo, mas quando Frodo falou, ficou imediatamente satisfeito em escutar, arriscando-se apenas algumas vezes a fazer uma exclamação para indicar que estava de acordo. Frodo contou muitas histórias, mas sempre desviava do assunto da demanda da Comitiva, e do Anel, alongando-se mais na função valorosa desempenhada por Boromir em todas as suas aventuras, com os lobos no ermo, na neve sob Caradhras, e nas Minas de Moria, onde Gandalf caíra. Faramir ficou muito comovido com a história da fuga na ponte.
— Boromir deve ter ficado constrangido ao fugir dos orcs — disse ele —, ou até mesmo da coisa má que você mencionou, o balrog – mesmo que tenha sido o último a sair de lá.
— Ele foi o último — disse Frodo —, mas Aragorn se viu forçado a nos conduzir. Só ele sabia o caminho depois da queda de Gandalf. Mas, se não houvesse nós, pessoas menores, para cuidarem, acho que nem ele nem Boromir teriam fugido.
— Talvez tivesse sido melhor se Boromir caísse lá com Mithrandir — disse Faramir —, não indo ao encontro do destino que o aguardava sobre as cachoeiras de Rauros.
— Talvez. Mas agora me conte sobre suas aventuras — disse Frodo, colocando o assunto de lado mais uma vez. — Eu gostaria de saber mais sobre Minas Ithil e Osgiliath, e sobre Minas Tirith, a que resiste por tanto tempo. Que esperança vocês alimentam em relação à sua cidade nessa longa guerra?
— Que esperança alimentamos? — disse Faramir. — Faz tempo que já não temos esperança alguma. A espada de Elendil, se realmente retornar, talvez possa renová-la, mas não acho que conseguirá mais do que postergar o dia fatal, a não ser que outra ajuda inesperada chegue, dos elfos ou homens. Pois o Inimigo cresce e nós diminuímos. Somos um povo em extinção, um outono sem primavera.
“Os homens de Númenor se estabeleceram por toda a volta das praias e regiões próximas ao mar das Grandes Terras, mas a maior parte deles se entregou ao mal e à loucura. Muitos se enamoraram da Escuridão e das artes negras; outros se entregaram inteiramente ao ócio e ao prazer, e outros ainda lutaram entre si até que, enfraquecidos, foram conquistados pelos homens selvagens.
“Não se afirma que alguma vez artes malignas tenham sido praticadas em Gondor, ou que o Inominável tenha sido evocado com deferência por lá; a antiga sabedoria e beleza trazidas do oeste permaneceram por muito tempo no reino dos filhos de Elendil, o Belo, e ainda perduram. Mesmo assim, foi Gondor que provocou sua própria ruína, caindo passo a passo no desvario, e achando que o Inimigo estava adormecido, aquele que na verdade estava apenas banido, e não destruído.
— A morte esteve sempre presente, pois os numenorianos ainda estavam (como sempre estiveram em seu reino antigo, e foi por isso que o perderam) com fome de vida eterna e imutável. Reis construíam túmulos mais esplêndidos que as casas dos viventes, e consideravam velhos nomes nas listas de seus ancestrais mais caros do que os nomes de filhos. Senhores sem filhos sentavam-se em salões antigos e ficavam meditando sobre heráldica; em câmaras secretas homens mirrados preparavam fortes elixires, ou nas altas e frias torres faziam perguntas às estrelas. E o último rei da linhagem de Anárion não tinha herdeiros.
“Mas os regentes eram mais sábios e mais afortunados. Mais sábios, porque recrutaram a força de nosso povo entre a gente vigorosa da costa marítima, e entre os fortes montanheses das Ered Nimrais. E fizeram uma trégua com os povos altivos do norte, que nos tinham frequentemente assaltado, homens violentos, mas nossos parentes distantes, diferentes dos selvagens orientais e dos cruéis haradrim.
“Então aconteceu que nos dias de Cirion, o Décimo Segundo Regente (e meu pai é o vigésimo sexto), eles cavalgaram em nossa ajuda e no grande Campo de Celebrant destruíram nossos inimigos, que nos tinham tomado as províncias do norte. Esses são os rohirrim, como os chamamos, senhores dos cavalos, e cedemos a eles os campos de Calenardhon, que desde então se chamam Rohan, pois aquela província sempre fora esparsamente habitada. E tornaram-se nossos aliados, e sempre se mostraram sinceros para conosco, ajudando-nos na necessidade, e guardando nossas fronteiras do norte e o Desfiladeiro de Rohan.
“De nossa tradição e maneiras aprenderam o que lhes agradou, e seus senhores falam nossa língua quando necessário; mas na maioria dos casos mantêm as maneiras de seus antepassados e suas próprias lembranças, e conversam entre si na sua língua do norte. E nós os amamos: homens altos e belas mulheres, valorosos na mesma medida, de cabelos dourados, olhos claros, e muita força; fazem-nos lembrar da juventude dos homens, como eram nos Dias Antigos. Na verdade, os nossos mestres na tradição afirmam que é antiga essa afinidade com eles, que descendem das mesmas Três Casas dos homens, que eram os numenorianos em seu princípio; talvez não de Hador – o dos Cabelos Dourados, o Amigo-dos-elfos, mas de algum dentre seus filhos e sua gente que não atravessaram o Mar rumo ao oeste, recusando o chamado.
“Pois assim consideramos os homens em nossa tradição, chamando-os de Altos, ou homens do oeste, que eram os numenorianos; e os Povos Médios, homens do Crepúsculo, que são os rohirrim e seus parentes que ainda moram no norte, e os bárbaros, os homens da Escuridão.
“Mas agora, se os rohirrim ficaram em alguns aspectos mais semelhantes a nós, realçando artes e boas maneiras, nós também ficamos mais parecidos com eles, e mal podemos reivindicar o título de Altos. Nós nos tornamos Homens Médios, do crepúsculo, mas com a memória de outra realidade. Pois agora, como os rohirrim, amamos a guerra e a coragem como coisas boas em si mesmas, como um esporte e uma finalidade; e, embora ainda consideremos que um guerreiro deve ter mais habilidades e conhecimentos além do oficio das armas e da morte, estimamos um guerreiro, não obstante, acima dos homens de outros ofícios. Essa é a necessidade de nossos dias. Até Boromir, meu irmão, era assim: um homem de bravura, e por esse motivo era considerado o melhor homem de Gondor. E realmente era muito valoroso: nenhum herdeiro de Minas Tirith foi por tanto tempo tão dedicado em seu trabalho, tão entusiasta na batalha, nem tocou nota mais poderosa na Grande Corneta.
Faramir suspirou e ficou em silêncio por um tempo.
— Em todas as suas histórias, senhor, o senhor não fala muito sobre os elfos — disse Sam, criando coragem de repente. Tinha notado que Faramir parecia se referir aos elfos com reverência, e isso, mais até que sua cortesia, seu vinho ou sua comida, tinha angariado o respeito de Sam e apaziguado suas suspeitas.
— De fato, mestre Samwise — disse Faramir —, pois não sei muita coisa sobre a tradição dos elfos. Mas aí você toca em outro ponto no qual mudamos, decaindo de Númenor para a Terra Média. Pois como deve saber, se Mithrandir foi seu companheiro e se conversaram com Elrond, os edain, Pais dos numenorianos, lutaram ao lado dos elfos nas primeiras guerras, e foram recompensados pela dádiva do reino no meio do Mar, à vista de Casadelfos. Mas na Terra Média homens e elfos se tornaram estranhos nos dias de treva, devido às artes do Inimigo, e pelas lentas mudanças do tempo durante as quais cada espécie avançou mais em duas estradas divididas. Nós, os homens de Gondor, estamos ficando como outros homens, como os homens de Rohan, pois mesmo eles, que são adversários do Senhor do Escuro, evitam os elfos e falam da Floresta Dourada com receio.
“Apesar disso, ainda há entre nós alguns que têm relacionamento com os elfos quando precisam, e vez por outra alguém vai em segredo até Lórien, e quase nunca retorna. Não eu. Pois considero perigoso para homens mortais nos dias de hoje irem voluntariamente procurar o Povo Antigo. Apesar disso invejo vocês, que conversaram com a Senhora Branca.
— A Senhora de Lórien! Galadriel! — exclamou Sam. — O senhor deveria vê-la, realmente deveria, senhor. Sou apenas um hobbit, e trabalho como jardineiro em casa, senhor, se o senhor me entende, e não sou muito bom em poesia – não para compor poesia: algumas rimas cômicas, talvez, mas não poesia de verdade – por isso não posso expressar meus sentimentos. Precisariam ser cantados. Seria necessário Passolargo, quer dizer, Aragorn, ou o velho Sr. Bilbo, para isso. Mas eu gostaria de poder fazer uma canção sobre ela. Ela é bonita, senhor! Adorável! Algumas vezes como uma grande árvore florida, outras vezes como um narciso silvestre, esbelta e bela. Dura como os diamantes, suave como o luar. Quente como a luz do sol, fresca como o gelo sob as estrelas. Altiva e distante como uma montanha de neve, e alegre como qualquer donzela que já vi, com margaridas no cabelo durante a primavera. Mas estou dizendo um monte de besteiras, e fugindo do que queria falar.
— Então ela deve ser realmente adorável — disse Faramir. — Perigosamente bela.
— Não sei se é perigosa — disse Sam. — Parece-me que as pessoas levam consigo seus perigos quando vão para Lórien, e os descobrem lá porque os levaram. Mas talvez o senhor a pudesse chamar de perigosa, porque ela é tão forte em si mesma. O senhor poderia se despedaçar contra ela, como um navio contra uma pedra; ou poderia se afogar, como um hobbit num rio. Mas nem a pedra nem o rio devem ser responsabilizados. Agora, Boro... — Sam parou e ficou com o rosto vermelho.
— Sim? Agora, Boromir, você estava dizendo? — disse Faramir. — O que ia dizer? Ele levou esse perigo consigo?
— Sim, senhor, com as suas desculpas, e seu irmão era um homem bom, se me permite dizer. Mas o senhor sempre esteve no rastro certo. Eu observei Boromir e o escutei, de Valfenda, por toda a estrada – tomando conta de meu mestre, se o senhor me entende, e não desejando qualquer mal a Boromir – e minha opinião é que em Lórien ele pela primeira vez viu claramente o que eu adivinhei antes: o que queria. Desde a primeira vez que o viu, ele quis o Anel do Inimigo.
— Sam! — gritou Frodo horrorizado. Ficara mergulhado nos próprios pensamentos por um tempo, e saiu deles repentinamente e tarde demais.
— Salve-me! — disse Sam ficando com o rosto lívido, e em seguida completamente vermelho. — Lá vou eu de novo! Toda vez que você abre essa sua boca enorme, você atola seu pé, o Feitor costumava me dizer. E com toda razão. E essa agora, e essa agora! Agora, olhe aqui, senhor! — voltou-se ele, dirigindo-se a Faramir com toda a coragem que conseguiu reunir. — Não vá tirar vantagem de meu mestre porque o servidor dele não passa de um tolo. O senhor falou bonito o tempo todo. Mas beleza que vale é beleza que faz, como se diz. Agora o senhor tem uma chance para mostrar seu valor.
— É o que parece — disse Faramir, devagar e muito baixo, com um sorriso estranho. — Então esta é a resposta a todos os enigmas! O Um Anel que se acreditava desaparecido do mundo, E Boromir tentou tomá-lo à força? E você escapou? E correu todo o caminho até mim! E aqui, nesta região deserta, tenho vocês: dois pequenos, e um exército de homens às minhas ordens, e o Anel dos Anéis. Um belo lance de sorte! Uma chance para Faramir, Capitão de Gondor, mostrar seu valor! Ha! — Ficou de pé, muito altivo e grave, os olhos cinzentos faiscando. Frodo e Sam saltaram de seus bancos e ficaram lado a lado, com as costas contra a parede, procurando com as mãos os punhos das espadas.
Fez-se silêncio.
Todos os homens na caverna pararam de conversar e olharam para eles, surpresos. Mas Faramir sentou-se outra vez na cadeira e começou a rir baixinho, e de repente assumiu outra vez a expressão grave.
— Que infelicidade para Boromir! Foi uma provação grande demais! — disse ele. — Que capacidade vocês tiveram de aumentar minha tristeza, vocês dois, viajantes de uma terra estranha, carregando o perigo dos homens! Mas vocês fazem pior juízo dos homens do que eu faço dos pequenos. Somos sinceros, nós, homens de Gondor. Raramente nos vangloriamos, e então confirmamos nossas palavras, ou morremos na tentativa. Nem que o encontrasse na estrada, o tomaria, disse eu. Mesmo que fosse um homem que desejasse esse objeto, e mesmo que não soubesse direito de que se tratava quando falei, ainda honraria minhas palavras como um juramento, e me pautaria por elas.
“Mas não sou esse homem. Ou pelo menos sou sábio o suficiente para saber que há alguns perigos dos quais os homens devem fugir. Sentem-se tranquilos! E console-se, Samwise. Se tiver a impressão de ter tropeçado, considere que isto estava fadado a acontecer. Seu coração é perspicaz além de fiel, e enxergou com mais clareza que seus olhos. Pode parecer estranho, mas não houve risco em declarar isso a mim. Pode até ajudar o mestre que você ama. Será para o bem dele, se estiver ao meu alcance. Por isso, console-se. Mas nem mesmo mencione essa coisa em voz alta de novo. Uma vez é o suficiente.
Os hobbits voltaram aos seus lugares e se sentaram bem quietos.
Os homens retomaram à bebida e à conversa, percebendo que seu capitão tinha feito alguma brincadeira com seus pequenos convidados, e que tudo terminara.
— Bem, Frodo, finalmente nos entendemos — disse Faramir. — Se você assumiu essa missão involuntariamente, a pedido de outros, então merece minha compaixão e respeito. E admiro você: mantê-lo escondido e não usá-lo. Vocês são um povo novo, e um mundo novo para mim. Todo o seu povo é assim? Sua terra deve ser um reino de paz e felicidade, e lá os jardineiros devem ser muito respeitados.
— Nem tudo está bem por lá — disse Frodo —, mas certamente os jardineiros são respeitados.
— Mas as pessoas lá devem se cansar, mesmo nos próprios jardins, como acontece com todos os seres sob o sol deste mundo. E vocês estão longe de casa e exaustos. Chega por hoje. Durmam, vocês dois – em paz, se puderem. Nada temam! Não desejo vê-lo, ou tocá-lo, ou saber mais sobre ele do que já sei (e que já é suficiente), para que o perigo fortuito não me desvie de meu caminho, e eu tenha pior resultado nesse teste do que Frodo, filho de Drogo. Vão agora e descansem – mas primeiro me digam só uma coisa, se quiserem. Aonde desejam ir, e com que finalidade. Pois preciso vigiar e esperar, e pensar. O tempo passa. Pela manhã deveremos cada um ir depressa pelos caminhos a nós designados.
Frodo se viu tremendo, quando o primeiro choque do medo passou.
Agora um grande cansaço tomava conta de seu corpo, envolvendo-o como uma nuvem. Não conseguia mais dissimular ou resistir.
— Eu pretendia achar um caminho para entrar em Mordor — disse ele numa voz baixa. — Estava indo para Gorgoroth. Preciso achar a Montanha de Fogo e jogar a coisa no abismo da Perdição. Gandalf me disse que fizesse isso. Não acho que conseguirei chegar lá.
Faramir o observou por um momento, num assombro grave. Então de repente apanhou o hobbit que se desequilibrava, e, erguendo-o suavemente, carregou-o para a cama, deitou-o ali e o cobriu bem agasalhado.
Imediatamente, Frodo caiu num sono profundo.
Uma outra cama foi colocada ao lado para seu servidor. Sam hesitou um momento, e depois fez uma grande reverência.
— Boa noite, Capitão, meu senhor — disse ele. — Arriscou-se, senhor!
— Arrisquei-me? — disse Faramir.
— Sim, senhor, e demonstrou seu valor: o maior de todos.
Faramir sorriu.
— Um servidor esperto, o Mestre Samwise. Mas não é nada disso: o elogio que vem daquele que merece o elogio está acima de todas as recompensas. Mesmo assim, esse elogio nada significa. Eu não tinha vontade ou desejo de fazer nada diferente do que fiz.
— Muito bem, senhor — disse Sam. — O senhor disse que meu mestre tinha um ar élfico; e isso foi bom e verdadeiro. Mas posso dizer isto: o senhor tem um ar também, senhor, que me faz lembrar de, de... bem, de Gandalf, dos magos.
— Talvez — disse Faramir. — Talvez você tenha a capacidade de discernir à distância o ar de Númenor. Boa noite!

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