17 de abril de 2016

Capítulo V: De Eldamar e dos Príncipes dos Eldalië

Com o tempo, as hostes de vany ar e de noldor chegaram ao ponto extremo oeste das praias das Terras de Cá. Ao norte, esse litoral, nos tempos antigos posteriores à Batalha dos Poderes, fazia uma curva para o oeste, até que, na região do extremo norte de Arda, somente um mar estreito dividia Aman, onde Valinor havia sido construída, das Terras de Cá; mas esse mar estreito era cheio de um gelo que atritava pela violência do congelamento de Melkor. Por esse motivo, Oromë não conduziu as multidões dos eldalië para o extremo norte, mas as trouxe para as belas terras próximas ao Rio Sirion, que mais tarde receberam o nome de Beleriand; e dessas praias, de onde pela primeira vez os eldar, com medo e admiração, contemplaram o Mar, estendia-se um oceano, largo, escuro e profundo, entre elas e as Montanhas de Aman.
Ora, Ulmo, de acordo com a decisão dos Valar, chegou ao litoral da Terra Média e falou com os eldar que ali esperavam, com os olhos fixos nas ondas escuras; e, graças às suas palavras e à música que criou para eles com suas trompas de concha, seu medo do mar foi transformado em desejo. E, por esse motivo, Ulmo arrancou uma ilha que há muito estava isolada no meio do mar, distante dos dois litorais, desde a época das turbulências da queda de Illuin; e, com o auxílio de seus servos, ele a moveu, como se fosse uma embarcação imponente, e a ancorou na Baía de Balar, na qual o Sirion desaguava E então os vany ar e os noldor embarcaram nessa ilha e foram arrastados oceano afora, chegando afinal às longas praias aos pés das Montanhas de Aman; entraram em Valinor e foram acolhidos em sua bem-aventurança. No entanto, o cabo oriental da ilha, que estava profundamente enraizado nos baixios ao largo das Fozes do Sirion, separou-se e ficou para trás; e diz-se que ele se tornou a Ilha de Balar, à qual posteriormente Ossë costumava vir.
Já os teleri estavam ainda na Terra Média, pois habitavam o leste de Beleriand, longe do mar, e só ouviram o chamado de Ulmo quando já era tarde demais. Muitos continuavam a procurar por Elwë, seu senhor, pois sem ele não se dispunham a seguir viagem. Entretanto, quando souberam que Ingwë, Finwë e seus povos haviam partido, muitos dos teleri se apressaram a chegar ao litoral de Beleriand e ali ficaram, daí em diante, próximos às Fozes do Sirion, saudosos dos amigos que haviam partido. E escolheram Olwë, irmão de Elwë, para ser seu rei.
Muito tempo ficaram eles nas costas do mar ocidental, e Ossë e Uinen vinham a eles e os tratavam com amizade. E Ossë os instruía, sentado numa rocha perto da praia; e com ele eles aprenderam todos os tipos de histórias e de canções do mar. Foi assim que os teleri, que desde o início amavam a água e eram os melhores cantares de todos os elfos, mais tarde se apaixonaram pelos mares, e suas canções eram cheias dos sons das ondas batendo na praia.
Passados muitos anos, Ulmo deu ouvidos às súplicas dos noldor e de Finwë, seu rei, que se lamentavam pela longa separação dos teleri e lhe imploravam que os trouxesse a Aman, se eles quisessem vir. E a maioria deles revelou então estar realmente disposta a partir; mas foi enorme a dor de Ossë quando Ulmo voltou às costas de Beleriand para levá-los embora para Valinor.
Pois se interessava pelos litorais da Terra Média e pelas costas das Terras de Cá, e ele ficou descontente porque as vozes dos teleri não seriam mais ouvidas em seu território. Alguns ele convenceu a ficar; e esses foram os falathrim, os elfos-das-falas que em tempos posteriores habitaram os portos de Brithombar e Eglarest, os primeiros marinheiros da Terra Média e os primeiros a fabricar embarcações. Círdan, o Armador, era seu senhor Os parentes e amigos de Elwë Singollo também permaneceram nas Terras de Cá, ainda a procura-lo, embora tivessem preferido partir para Valinor e a Luz das Árvores, se Ulmo e Olwë estivessem dispostos a esperar. Olwë, porém, queria ir embora e afinal a grande maioria grande maioria dos teleri embarcou na ilha, e Ulmo os levou. Nessa ocasião, ficaram para trás os amigos de Elwë; e eles se denominaram o povo abandonado. Habitavarn os bosques e as colinas de Belriand, em vez de morar junto ao mar, que os enchia de tristeza; mas o desejo de chegar a Aman permanecia em seus corações.
Mas quando despertou de seu longo sono, Elwë saiu de Nan Elmoth com Melian, e os dois dali em diante habitaram os bosques no centro do território. Por maior que fosse seu desejo de ver mais uma vez a luz das Árvores, Elwë enxergava no rosto de Melian a luz de Aman como num espelho sem mácula, e com aquela luz se contentava. Seu povo reuniu-se ao seu redor em júbilo, cheio de admiração; pois se ele havia sido belo e majestoso, agora parecia um senhor Maia, o cabelo como prata acinzentada, mais alto do que todos os Filhos de Ilúvatar; e o aguardava um destino majestoso.
Ora, Ossë acompanhou as hostes de Olwë e, quando chegaram à Baía de Eldamar (que é Casadelfos), ele as chamou. Todos reconheceram sua voz e imploraram a Ulmo que suspendesse a viagem. E Ulmo concedeu-lhes esse pedido, e em obediência a ele Ossë fixou a ilha e a prendeu ao fundo do mar. Ulmo concordou com isso prontamente, pois compreendia os corações dos teleri e no conselho dos Valar havia falado contra a convocação, por acreditar ser  melhor que os quendi permanecessem na Terra Média.Os Valar não gostaram muito de saber o que ele havia feito: e Finwë se entristeceu quando os telèri não chegaram, ainda mais quando soube que Elwë fora abandonado e que não o veria novamente a não ser nos palácios de Mandos. No entanto, a ilha não voltou a ser movida e ficou ali parada, sozinha, na Baía de Eldamar; e foi chamada de Tol Eressëa, a Ilha Solitária. Ali os teleri permaneceram como queriam, sob as estrelas dos céus, mas podendo ver Aman e a costa imortal. E, desse longo isolamento na Ilha Solitária, resultou que seu idioma se afastou daquele dos vany ar e dos noldor.
A esses, os Valar haviam proporcionado uma terra e um local de moradia. Mesmo em meio às flores radiantes dos jardins iluminados pelas Árvores de Valinor, eles às vezes ainda sentiam falta das estrelas. E assim foi feita uma fenda nas grandes muralhas das Pelóri, e ali, num vale profundo que corria até o mar, os eldar ergueram uma colina alta e verdejante. Túna, chamavase ela. Do ocidente, a luz das Árvores a iluminava; e sua sombra sempre era projetada para o leste. E, para o leste, ela dava para a Baía de Casadelfos, para a Ilha Solitária e  para os Mares Sombrios. E então, através da Calaciry a, a Passagem da Luz, jorrava o esplendor do Reino Abençoado, aquecendo as ondas escuras com tons de prata e ouro e tocando a Ilha Solitária, o que tomou sua costa oeste verde e bela. Ali surgiram as primeiras flores que existiram a leste das Montanhas de Aman.
No topo de Túna, foram construídos a cidade dos elfos, as brancas muralhas e os terraços de Tirion; e a mais alta das turres dessa cidade era a Torre de Ingwë, Mindon Eldaliéva, cuja lamparina de prata brilhava longe, em meio às névoas do mar. Poucos foram os navios de homens mortais que viram seu facho estreito. Em Tirion, no alto de Túna, os vany ar e os noldor viveram muito tempo como companheiros. E como, de tudo o que havia em Valinor, o que eles mais amassem era a Árvore Branca, Yavanna fez para eles uma árvore semelhante a uma imagem menor de Telperion, com a diferença de que ela não emitia luz de seu próprio ser; Galathilion, foi ela chamada no idioma sindarin. Essa árvore foi plantada nos pátios abaixo da Mindon e ali floresceu; e suas mudas eram muitas em Eldamar. Dessas, uma foi mais tarde plantada em Tol Eressëa e ali vicejou, sendo chamada de Celeborn. Depois, com o transcorrer do tempo, como está relatado em outro trecho, surgiu Nimloth, a Árvore Branca de Númenor.
Manwë e Varda gostavam mais dos vany ar, os belos-elfos; mas os noldor tinham a preferência de Aulë, e ele e seu povo costumavam andar entre eles. Enormes tornaram-se seu conhecimento e sua habilidade. Entretanto, ainda maior era sua sede de conhecimento; e, sob muitos aspectos, logo ultrapassaram seus mestres. Eram criativos na fala, pois tinham um amor imenso pelas palavras e sempre procuravam descobrir nomes mais adequados para todas as coisas que conheciam ou imaginavam. E aconteceu que os pedreiros da casa de Finwë, trabalhando nas montanhas em busca de pedra (pois adoravam construir altas torres), descobriram pela primeira vez as pedras preciosas e as apresentaram em miríades incontáveis.
E inventaram ferramentas para cortar e lapidar as pedras, esculpindo-as em muitas formas. Eles não as guardavam como tesouros, mas as davam livremente e, com seu trabalho, enriqueceram toda Valinor.
Mais tarde, os noldor voltaram a Terra Média, e este relato fala principalmente de seus feitos.
Por isso, os nomes: e o parentesco dos príncipes podem ser aqui descritos na forma que esses nomes assumiram no idioma dos elfos de Beleriànd.
Finwë era Rei dos noldor Os filhos de Finwë eram Fëanor, e Fingolfin e Finarfin. Mas a mãe de Fëanor era Míriel Serindë, enquanto a mãe de Fingolfin e Finarfin era Indis dos vany ar.
Fëanor era o mais hábil tanto na palavra quanto no trabalho manual. Era mais instruído que seus irmãos. Seu espírito ardia como uma chama. Fingolfin era o mais forte, o mais firme e o mais valente. Finarfin era o mais belo e o de coração mais prudente. E, mais tarde, ele foi amigo dos filhos de Olwë, senhor dos teleri, e se casou com Eärwen, a donzela-cisne de Alqualondë, filha de Olwë.
Os sete filhos de Fëanor eram Maedhros, o alto; Maglor, o cantor maravilhoso, cuja voz podia ser ouvida ao longe, fosse na terra, fosse no mar; Celegorm, o louro, e Caranthir, o moreno; Curufin, o habilidoso, que herdou grande parte do talento do pai para os trabalhos manuais; e os mais novos, Amrod e Amras, que eram gêmeos, semelhantes de rosto e de temperamento.
Em épocas posteriores, foram grandes caçadores nos bosques da Terra Média; e caçador foi também Celegorm, que em Valinor era amigo de Oromë e muitas vezes acompanhava o chamado do Vala.
Os filhos de Fingolfin eram Fingon, que mais tarde foi Rei dos noldor no norte do mundo, e Turgon, senhor de Gondolin.
Sua irmã era Aredhel, a Branca. Ela era mais jovem nos anos dos eldar do que seus irmãos; e, quando atingiu sua plena estatura e beleza, era alta e forte e adorava cavalgar e caçar nas florestas. Ali, esteve muitas vezes na companhia dos filhos de Fëanor, seus parentes; mas a ninguém entregou seu coração. Ar-Feiniel, era ela chamada, a Dama Branca dos Noldor, pois era clara, embora seus cabelos fossem escuros, e nunca se trajava de outra forma a não ser de branco e prata.
Os filhos de Finarfin eram Finrod, o Fiel (que mais tarde foi chamado de Felagund, Senhor das Cavernas), Orodreth, Angrod e Aegnor, Esses quatro eram tão amigos dos filhos de Fingolfin como se fossem irmãos. Uma irmã tinham eles, Galadriel, a mais bela de todos os da Casa de Finwë. Seu cabelo tinha reflexos de ouro como se tivesse captado numa rede o esplendor de Laurelin.
Aqui é preciso que se diga como os teleri chegaram afinal à terra de Aman. Durante um longo período, eles permaneceram em Tol Eressëa; mas aos poucos seus corações foram mudando, sendo atraídos pela luz que se espalhava pelo mar até a Ilha Solitária. Estavam num dilema entre o amor pela música das ondas sobre as praias e o desejo de voltar a ver seus familiares e contemplar o esplendor de Valinor; mas, no final, o desejo de luz foi mais forte. Assim, submetendo-se ao desejo dos Valar, Ulmo enviou-lhes Ossë, seu amigo, e ele, embora triste, lhes ensinou a arte da fabricação de barcos. E, quando seus barcos estavam prontos, ele lhes trouxe como presente de despedida muitos cisnes de asas fortes. Os cisnes, então, puxaram os alvos barcos dos teleri pelo mar calmo; e assim, finalmente e por último, chegaram  eles a Aman e às costas de Eldamar.
Ali ficaram. E, se quisessem, podiam ver a luz das Árvores e caminhar pelas ruas douradas de Valmar e pelas escadas de cristal de Tirion sobre Túna, a colina verde; mas principalmente velejavam em seus barcos velozes nas águas da Baía de Casadelfos, ou andavam junto às ondas na praia, com o cabelo cintilando à luz que vinha do outro lado da colina. Muitas pedras preciosas deram-lhes os noldor: opalas, diamantes e cristais claros, que eles espalharam pelas praias e pelos lagos. Maravilhosas eram as praias de Elendë naquela época. E muitas pérolas eles ganharam por si mesmos do mar; e seus palácios eram de pérolas, e de pérolas eram as mansões de Olwë em Alqualondë, o Porto dos Cisnes, iluminado por muitas lamparinas. Pois aquela era sua cidade, e o porto de seus barcos; e estes eram feitos na forma de cisnes, com bicos de ouro e olhos de ouro e azeviche. A entrada para aquele porto era um arco de rocha viva esculpida pelo mar; e ela ficava nos limites de Eldamar, ao norte da Calaciry a, onde a luz das estrelas era forte e clara.
Com a passagem das eras, os vany ar começaram a amar a terra dos Valar e a luz plena das Árvores; abandonaram a cidade de Tirion sobre Túna e a partir daí passaram a morar na montanha de Manwë ou nas planícies e bosques de Valinor, afastando-se dos noldor. Mas a lembrança da Terra Média à luz das estrelas permanecia nos corações dos noldor, e eles ficaram na Calaciry a e nas colinas e nos vales ao alcance do som do mar ocidental. E, embora muitos deles costumassem passear pela terra dos Valar, fazendo longas viagens em busca dos  segredos da terra, da água e de todos os seres vivos, ainda assim os povos de Túna e de Alqualondë se aproximaram naquela época. Finwë era rei em Tirion, e Olwë, em Alqualondë; mas Ingwë sempre foi considerado o Rei Supremo de todos os elfos. A partir daí, ele viveu aos pés de Manwë na Taniquetil.
Fëanor e seus filhos raramente moravam num único lugar por muito tempo, mas viajavam com liberdade, dentro dos limites de Valinor, chegando mesmo às fronteiras das Trevas e às margens frias do Mar de Fora, em busca do desconhecido. Costumavam hospedar-se no palácio de Aulë; mas Celegorm preferia ir para a casa de Oromë, e ali adquiriu grande conhecimento sobre aves e outros animais e aprendeu todas as suas línguas. Pois todos os seres vivos que existem ou existiram no Reino de Arda, à exceção das criaturas perversas e cruéis de Melkor, viviam então na terra de Aman; e ali havia também muitas outras criaturas que não foram vistas na Terramédia, e talvez nunca voltem a sê-la, já que a configuração do mundo mudou.

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