2 de abril de 2016

Capítulo V - Conspiração desmascarada

— Agora é melhor irmos para casa também — disse Merry. — Essa história está meio esquisita, mas vai ter de esperar até chegarmos lá.
Desceram a alameda da balsa, que era reta e bem-cuidada, ladeada por grandes pedras caiadas. Cerca de cem metros dali, ficava a margem do rio, onde havia um largo ancoradouro de madeira. Uma balsa grande e rasa estava atracada. Os tocos em que eram amarradas as embarcações, próximos à beira da água, brilhavam na luz de duas lamparinas suspensas em postes altos. Atrás deles a neblina, subindo do solo plano, já cobria as cercas-vivas; mas a água à frente era escura, com apenas alguns chumaços de névoa que se enrolavam como vapor por entre os juncos na margem. Parecia haver menos neblina no outro lado.
Merry conduziu o pônei até a balsa por um passadiço, e os outros o seguiram. Então, Merry empurrou a balsa com uma vara comprida, afastando-a vagarosamente do ancoradouro.
O Brandevin fluía lento e largo diante deles. A margem oposta era íngreme, e por ela subia uma trilha sinuosa que começava no outro ancoradouro. Ali havia luzes piscando. Atrás se erguia a Colina Buque, onde brilhavam muitas janelas redondas, verdes e amarelas, por entre tufos perdidos de neblina. Eram as janelas da Sede do Brandevin, antiga residência dos Brandebuques.
Muito tempo atrás, Gorbendad Velhobuque, chefe da família Velhobuque, uma das pessoas mais velhas do Pântano e mesmo do Condado, tinha atravessado o rio, que era a fronteira original do lado leste. Ele construiu (e escavou) a Sede do Brandevin, mudando seu nome para Brandebuque, e por ali ficou, vindo a se tornar senhor do que era virtualmente um país independente. A família cresceu mais e mais, e depois de sua época continuou crescendo, e a Sede do Brandevin passou a ocupar toda a parte baixa da colina, com três grandes portas de entrada, muitas portas laterais e cerca de cem janelas. Os Brandebuques, e sua numerosa prole, começaram a fazer tocas, e mais tarde casas, por todo o lugar. Esta foi a origem da Terra dos Buques, uma faixa densamente habitada entre o rio e a Floresta Velha, um tipo de colônia do Condado. Sua aldeia principal era Buqueburgo, que se amontoava nas encostas e ladeiras atrás da Sede do Brandevin.
O povo do Pântano tinha boas relações com os moradores da Terra dos Buques, e a autoridade do Senhor da Sede (como era chamado o chefe da família Brandebuque) ainda era reconhecida pelos fazendeiros da região entre Tronco e Juncal. Mas a maioria das pessoas do velho Condado achava os moradores da Terra dos Buques peculiares, meio estrangeiros, por assim dizer. Embora, na realidade, eles não fossem muito diferentes dos outros hobbits das quatro Quartas. A não ser por uma coisa: gostavam de barcos e alguns sabiam nadar.
Originalmente, essa terra não era protegida do lado leste, mas ali providenciaram uma cerca-viva: a Sebe Alta. Plantada há muitas gerações, estava agora alta e espessa, pois era constantemente cuidada. Estendia-se desde a Ponte do Brandevin, descrevendo um grande arco que se afastava do rio, até Fim-da-Sebe (onde corria o Voltavime vindo da floresta para desaguar no Brandevin): eram cerca de vinte milhas de ponta a ponta. Mas é claro que a proteção não era completa. A floresta se aproximava da cerca em muitos pontos. Os moradores da Terra dos Buques mantinham as portas trancadas depois de escurecer, e isso também não era comum no Condado.
A balsa ia lentamente através da água. O porto da Terra dos Buques se aproximou, Sam era o único do grupo que nunca tinha estado do outro lado do rio. Foi tomado por um sentimento estranho, ao observar a corrente que borbulhava ao passar: sua vida antiga lá atrás, envolta pela neblina; à sua frente, sombrias aventuras. Coçou a cabeça, e por um momento desejou que o Sr. Frodo pudesse ter continuado a viver tranquilamente em Bolsão.
Os quatro hobbits desceram da balsa. Merry estava amarrando a balsa, e Pippin já ia conduzindo o pônei pela trilha, quando Sam (que tinha ficado olhando para trás, como a dizer adeus ao Condado) disse num suspiro rouco:
— Olhe para trás, Sr. Frodo! Vê alguma coisa?
No ancoradouro distante, sob as luzes longínquas, conseguiam apenas adivinhar uma figura: parecia um escuro fardo preto que tinha ficado para trás. Mas quando olharam melhor, parecia que a figura se movia de um lado para o outro, como se examinasse no chão. Depois foi se arrastando, se agachando de volta para a escuridão além das lamparinas.
— Que raios pode ser aquilo? — exclamou Merry.
— Alguma coisa que está nos seguindo — disse Frodo. — Mas não pergunte mais nada agora! Vamos sair daqui imediatamente!
Apressaram-se pela trilha até o topo da margem, mas quando olharam para trás novamente, o outro ancoradouro estava coberto pela neblina, e não se podia ver nada.
— Ainda bem que vocês não mantêm barcos na margem oeste! — disse Frodo. — Cavalos conseguem atravessar este rio?
— Poderiam avançar umas vinte milhas ao norte, até a Ponte do Brandevín – ou poderiam nadar — respondeu Merry. — Embora eu nunca tenha ouvido falar de cavalos cruzando este rio a nado. Mas o que os cavalos têm a ver com isso?
— Depois eu lhe conto, Vamos entrar em casa e assim poderemos conversar.
— Tudo bem! Você e Pippin sabem o caminho; então vou com o pônei na frente, dizer a Fatty Bolger que vocês estão chegando. Vamos preparar a ceia e as outras coisas.
— Já ceamos mais cedo, com o Sr. Magote — disse Frodo. — Mas poderíamos cear de novo.
— Então, vamos lá! Me dê essa cesta! — disse Merry, cavalgando para dentro da escuridão.
O Brandevin ficava a uma certa distância da nova casa de Frodo em Cricôncavo. Passaram pela Colina Buque e a Sede do Brandevin à sua esquerda, e nos arrabaldes de Buqueburgo pegaram a estrada principal da Terra dos Buques que ia da Ponte em direção ao Sul. Depois de caminharem meia milha nessa estrada rumo ao norte, encontraram uma alameda que se abria à direita. Seguiram por ela algumas milhas, subindo e descendo em direção ao campo.
Finalmente depararam com uma cerca-viva e um portão estreito. Na escuridão, não se via nada da casa, que ficava afastada da alameda, no meio de um amplo círculo coberto de grama e circundado por uma faixa de árvores baixas no interior da cerca externa. Frodo tinha escolhido esse lugar por que ficava num ponto do campo onde não passava muita gente, e não havia outras habitações por perto, podia-se entrar e sair sem ser notado. A casa tinha sido construída muito tempo atrás pelos Brandebuques, para o uso de convidados, ou de membros da família que desejassem escapar da vida agitada da Sede do Brandevin por uns tempos. Era antiga e com jeito de casa de campo, o mais parecida possível com uma toca hobbit: comprida e baixa, sem pavimentos superiores; e tinha um telhado de turfa, janelas redondas e uma grande porta, também redonda.
Andando pelo caminho verde que conduzia do portão até a casa, não se podia ver nenhuma luz; as janelas estavam escuras e fechadas. Frodo bateu na porta e Fatty Bolger abriu. Uma luz amistosa projetou-se para fora. Entraram rápido e se trancaram por dentro junto com a luz. Estavam agora numa sala ampla, com portas dos dois lados; à frente, um corredor conduzia ao centro da casa.
— Bem, o que acha? — perguntou Merry, vindo pelo corredor. — Nesse curto espaço de tempo, fizemos o possível para que a casa parecesse um lar. Afinal de contas, Fatty e eu só chegamos aqui com a última carroça de bagagem ontem.
Frodo olhou em volta. A aparência era de um lar. Muitas de suas coisas favoritas – ou das coisas favoritas de Bilbo (que nesse novo ambiente faziam lembrar muito dele) – estavam arrumadas do modo mais semelhante possível à sua antiga disposição em Bolsão. Era um lugar agradável, confortável, acolhedor; e Frodo se viu desejando que realmente estivesse chegando para se acomodar num retiro tranquilo. Parecia-lhe injusto fazer com que os amigos tivessem todo esse trabalho; e ele começou de novo a imaginar como poderia dizer que devia partir tão breve, na verdade, imediatamente. Mas isso teria de ser feito naquela mesma noite, antes de irem dormir.
— Está encantador! — disse ele com esforço. — Mal percebo que me mudei.
Os viajantes penduraram suas capas, e empilharam as mochilas no chão.
Merry os conduziu pelo corredor e escancarou a última porta. A luz do fogo, e uma onda de vapor, vinham lá de dentro.
— Um banho! — gritou Pippin. — Ó magnífico Meriadoc!
— Em que ordem vamos tomar banho? — perguntou Frodo. — Mais velhos primeiro, ou mais rápidos primeiro? De qualquer modo, você vai ficar por último, Mestre Peregrin.
— Deixem que eu arranjo as coisas de um modo melhor! — disse Merry.
— Não podemos começar a vida aqui em Cricôncavo com uma discussão sobre banhos. Naquela sala, há três banheiras e um caldeirão cheio de água fervendo. Também há toalhas, tapetes e sabão. Entrem e sejam rápidos!
Merry e Fatty entraram na cozinha do outro lado do corredor, e se ocuparam com os preparativos finais para a ceia. Pedaços de canções concorrentes vinham do banheiro, misturados com o ruído dos hobbits espirrando água para todo lado. De repente a voz de Pippin ficou mais alta que as outras, cantando uma das canções de banho favoritas de Bilbo.

Cantemos o banho do fim do dia que da sujeira nos alivia!
Tonto é quem cantar não tente.
Ah! Coisa nobre é Água Quente.
Doce é o som da chuva que cai,
e do riacho que saltando vai;
melhor que chuva ou riacho ondulante é
Água Quente e vaporizante.
Água, fria podemos mandar
goela abaixo e nos alegrar,
melhor é cerveja no copo da gente e lombo abaixo
Água bem quente.
Bela é a Água do alto a saltar
em fonte limpa suspensa no ar,
mas nunca, fonte, tão doce és como
Água Quente debaixo dos pés.

Um grito de oooh! Houve um barulho estrondoso de água espirrando, e como se Frodo estivesse parando um cavalo. A banheira de Pippin mais parecia uma fonte com água jorrando para o alto.
Merry apareceu na porta:
— Que tal uma ceia e cerveja no gogó? — chamou ele.
Frodo saiu, secando o cabelo.
— Tem tanta água no ar que vou terminar isto na cozinha — disse ele.
— Caramba! — disse Merry. O chão de pedra estava uma poça. — Vai ter de passar um esfregão em tudo antes de tocar na comida, Peregrin — disse ele. — Rápido! Ou não esperaremos você.
Cearam na cozinha, numa mesa perto do fogo.
— Suponho que não vão querer repetir de novo? — disse Fredegar, sem muitas esperanças.
— Claro que vamos! — gritou Pippin.
— Os cogumelos são meus! — disse Frodo. — Dados a mim pela Sra. Magote, a rainha das mulheres de fazendeiros. Tire as mãos gulosas daí, que eu sirvo.
Os hobbits têm uma paixão por cogumelos, que ultrapassa mesmo o desejo mais voraz de uma pessoa grande. Um fato que explica em parte as longas expedições do jovem Frodo às renomadas plantações do Pântano, e a ira do injuriado Magote.
Nesta ocasião, havia o suficiente para todos, mesmo dentro dos padrões dos hobbits. Também havia muitas outras coisas, e, quando terminaram, até mesmo Fatty Bolger soltou um suspiro de satisfação. Empurraram a mesa e aproximaram as cadeiras do fogo.
— Arrumamos tudo depois — disse Merry. — Agora, contem-me tudo! Suponho que estiveram metidos em aventuras, o que não foi justo sem minha presença. Quero um relatório completo; e acima de tudo quero saber qual foi o problema com o velho Magote, e por que ele falou comigo daquele jeito. Até parecia que estava com medo, se é que isto é possível.
— Todos nós tivemos medo — disse Pippin, depois de uma pausa, durante a qual Frodo ficou olhando para o fogo, sem dizer nada. — Você também teria, se tivesse Cavaleiros Negros no seu encalço por dois dias.
— E que são eles?
— Figuras negras montando cavalos negros — respondeu Pippin. — Se Frodo não quiser falar, eu lhe conto a história toda desde o começo.
Fez então um relatório completo da viagem, desde que deixaram Vila dos Hobbits. Sam fez vários sinais afirmativos com a cabeça, e soltou exclamações apoiando Pippin. Frodo permanecia em silêncio.
— Eu pensaria que estão inventando tudo isso — disse Merry — se não tivesse visto aquela figura negra no ancoradouro – e ouvido o tom estranho na voz de Magote. O que acha de tudo isso, Frodo?
— O primo Frodo tem estado muito fechado — disse Pippin. — Mas chegou a hora de se abrir. Até agora, não nos foi oferecida nenhuma informação, a não ser a suposição de Magote: de que isso tem a ver com o tesouro do velho Bilbo.
— Aquilo foi só suposição — disse Frodo de repente. — Magote não sabe de nada.
— O velho Magote é um sujeito astuto — disse Merry. — Há muita coisa escondida que aquele rosto redondo não deixa transparecer quando fala. Ouvi dizer que numa época costumava ir à Floresta Velha, e ele tem a reputação de conhecer muitas coisas estranhas. Mas pelo menos, Frodo, você pode nos dizer se a suposição dele é ou não infundada.
— Eu acho — respondeu Frodo devagar — que a suposição tem fundamento, pelo menos até onde chega. Existe uma ligação com as antigas aventuras de Bilbo, e os Cavaleiros estão empreendendo uma busca, ou talvez deva dizer perseguição, tentando pôr as mãos em cima dele, ou de mim. Também acho, se querem saber, que isto não é nenhuma brincadeira; e que não estou a salvo nem aqui e nem em qualquer outro lugar.
Frodo olhou à sua volta, para as janelas e paredes, como receando que de repente tudo desabasse. Os outros olhavam-no em silêncio, também trocando olhares significativos entre si.
— Acho que agora ele vai falar — cochichou Pippin para Merry.
Merry concordou, balançando a cabeça.
— Bem! — disse Frodo finalmente, endireitando-se na cadeira, como se tivesse tomado uma decisão. — Não posso esconder isto por mais tempo. Tenho uma coisa para dizer a todos vocês. Mas não sei por onde começar.
— Acho que posso ajudá-lo — disse Merry calmamente — contando uma parte eu mesmo.
— Que quer dizer? — perguntou Frodo, olhando-o ansiosamente.
— Apenas isto, meu querido e velho Frodo: você está desolado, porque não sabe como dizer adeus. Você pretendia deixar o Condado, é claro. Mas o perigo lhe sobreveio antes do que esperava, e agora está se decidindo a partir imediatamente. E não quer fazê-lo. Sentimos muito por você.
Frodo abriu a boca, e a fechou novamente. Sua cara de surpresa era tão cômica que todos riram.
— Querido e velho Frodo! — disse Pippin. — Você realmente achou que tinha jogado poeira em nossos olhos? Não foi cuidadoso ou esperto o suficiente para isso! É óbvio que vem planejando partir e dizer adeus a tudo e a todos desde abril. Nós o vimos constantemente resmungando: “Será que um dia verei aquele vale novamente?”, e coisas assim. E fingindo que começava a ficar sem dinheiro, e realmente vendendo seu adorado lar, Bolsão, para aqueles Sacola-bolseiros. E todas aquelas conversas secretas com Gandalf.
— Céus! — disse Frodo. — Pensei que tinha sido cuidadoso e esperto. Não sei o que Gandalf diria. Então, todo o Condado está comentando a minha partida?
— Ah, não! — disse Merry. — Não se preocupe com isso. É claro que o segredo não vai durar muito; mas no momento só é conhecido por nós, conspiradores, eu acho. Afinal de contas, deve se lembrar que o conhecemos bem, e sempre estamos com você. Geralmente conseguimos adivinhar o que está pensando. Eu também conhecia Bilbo. Para falar a verdade, tenho ficado de olho em você desde que ele partiu. Achei que iria atrás dele, mais cedo ou mais tarde, e ultimamente temos estado muito ansiosos. Tínhamos pavor que nos pudesse passar a perna, e ir embora de repente sozinho, como ele fez. Desde a primavera, estamos de olhos abertos, e fazendo muitos planos por nossa própria conta. Você não vai escapar tão facilmente!
— Mas preciso ir — disse Frodo. — Isso não pode ser evitado, queridos amigos. É terrível para todos nós, mas não adianta ficarem tentando me impedir. Já que adivinharam tanta coisa, por favor me ajudem, e não me atrasem.
— Você não está entendendo — disse Pippin. — Você precisa ir – portanto nós precisamos ir também. Merry e eu vamos com você. Sam é um sujeito excelente, e pularia dentro da garganta de um dragão para salvá-lo, se não tropeçasse nos próprios pés; mas você precisará de mais de um companheiro nessa aventura perigosa.
— Meus queridos e idolatrados hobbits! — disse Frodo, profundamente emocionado. — Não posso permitir que façam isso. Tomei a decisão há muito tempo, também. Vocês falam de perigos, mas não entendem. Isso não é nenhuma caça ao tesouro, nenhuma viagem de lá-e-de-volta. Estou fugindo de um perigo mortal, em direção a outro perigo mortal.
— Claro que entendemos — disse Merry firmemente. — É por isso que decidimos ir. Sabemos que o Anel não é brincadeira; mas faremos o possível para ajudá-lo contra o Inimigo.
— O Anel! — disse Frodo, agora completamente aturdido.
— Sim, o Anel — disse Merry. — Meu querido e velho hobbit, você não leva em consideração a curiosidade dos amigos. Sei da existência do Anel há muitos anos – desde antes de Bilbo partir, na verdade; mas já que ele obviamente considerava isso um segredo, guardei para mim o que sabia, até que formamos nossa conspiração. É claro que não conhecia Bilbo como conheço você; eu era muito jovem, e também ele era mais cauteloso – mas não o suficiente. Se quiser saber como descobri, eu lhe conto.
— Continue! — disse Frodo baixinho.
— A armadilha foram os Sacola-bolseiros, como já se poderia esperar. Um dia, um ano antes da Festa, eu por acaso estava caminhando pela estrada, quando vi Bílbo mais adiante. De repente, na distância, os S-Bs surgiram, vindo em nossa direção. Bilbo diminuiu o passo, e então de súbito desapareceu. Fiquei tão assustado que não tive capacidade de me esconder de um modo mais usual; mas entrei na cerca-viva e caminhei ao longo do campo, do lado de dentro. Estava espiando a estrada, depois que os S-Bs tinham passado, e olhando direto para Bilbo quando ele reapareceu. Pude ver o reflexo de um objeto de ouro quando ele colocou alguma coisa de volta no bolso da calça. Depois disso, mantive os olhos abertos — continuou Merry. — Na verdade, confesso que espionei. Mas deve admitir que a coisa era muito intrigante, e eu era apenas um adolescente. Devo ser o único no Condado, além de você, Frodo, que já leu o livro secreto do velho camarada.
— Você leu o livro! — gritou Frodo. — Puxa vida! Então nada pode ser guardado a salvo?
— Não perfeitamente a salvo, eu acho — disse Merry. — Mas eu só dei uma olhada rápida, e isso já foi difícil. Ele nunca deixava o livro jogado por aí. Fico imaginando o que foi feito dele. Gostaria de dar mais uma olhada. Você está com ele, Frodo?
— Não, não estava em Bolsão. Bilbo deve tê-lo levado.
— Bem, como ia dizendo — continuou Merry — guardei para mim o que sabia, até esta primavera, quando as coisas ficaram sérias. Então formamos nossa conspiração; e como também estávamos levando isso a sério, e falávamos a sério, não fomos escrupulosos demais. Você é um osso duro de roer, e Gandalf é ainda pior. Mas se quiser conhecer nosso investigador-chefe, posso apresentá-lo.
— Onde está ele? — perguntou Frodo olhando ao redor, como se esperasse que uma figura mascarada e sinistra saísse de dentro do armário.
— Um passo à frente, Sam! — disse Merry, e Sam se levantou com o rosto vermelho até as orelhas. — Aqui está nosso coletor de informações! E ele coletou muitas, posso lhe garantir, antes de ser finalmente pego. Depois do que, posso dizer, pareceu julgar que estava comprometido com sua palavra de honra, e simplesmente ficou mudo.
— Sam! — gritou Frodo, sentindo que a surpresa não poderia ser maior, e não podendo decidir se estava zangado, aliviado, achando graça ou simplesmente fazendo papel de bobo.
— Sim, senhor! — disse Sam. — Peço desculpas, senhor! Mas não quis lhe fazer mal, Sr. Frodo, nem ao Sr. Gandalf, falando nisso. Ele é sensato, veja bem, e quando o senhor disse ir sozinho, ele disse “não! Leve alguém em quem possa confiar”.
— Mas isso não quer dizer que eu possa confiar em qualquer um — disse Frodo.
Sam lançou-lhe um olhar triste.
— Tudo depende do que você deseja — interrompeu Merry. — Pode confiar em nós para ficarmos juntos com você nos bons e maus momentos – até o mais amargo fim. E pode confiar também que guardaremos qualquer um de seus segredos – melhor ainda do que você os guarda para si. Mas não pode confiar que deixaremos que enfrente problemas sozinho, e que vá embora sem dizer uma palavra. Somos seus amigos, Frodo. De qualquer modo, é isto: sabemos a maior parte do que Gandalf lhe disse. Sabemos muito sobre o Anel. Estamos com um medo terrível – mas iremos ao seu lado; seguiremos você como cães.
— E, afinal de contas, senhor — acrescentou Sam — o senhor deveria seguir o conselho dos elfos. Gildor lhe disse que deveria levar pessoas que estivessem dispostas. E nós estamos, isso não se pode negar.
— Eu não nego — disse Frodo olhando para Sam, que agora sorria. — Não nego, mas nunca mais vou acreditar que está dormindo, quer você ronque ou não. Vou dar-lhe um chute forte para ter certeza. Bando de patifes enganadores! — disse ele, virando-se para os outros. — Mas ainda bem que tenho vocês! — disse rindo, levantando-se e acenando os braços. — Desisto. Vou seguir o conselho de Gildor. Se o perigo não fosse tão grande dançaria de alegria. Mas mesmo assim, não consigo evitar a felicidade que sinto; felicidade que há muito não sentia. Temia muito por esta noite.
— Bom! Está combinado! Três brindes para o Capitão Frodo e companhia! — gritaram eles, dançando em volta de Frodo.
Merry e Pippin começaram uma canção, que aparentemente tinham aprontado para a ocasião. Foi feita seguindo o modelo da canção dos anões que lançou Bilbo em sua aventura muito tempo atrás, e ia na mesma melodia:

Adeus vamos dar à casa e ao lar!
Pode chover e pode ventar,
Vamos embora antes da aurora,
Mata e montanha atrás vão ficar.
A Valfenda vamos onde elfos achamos
Em descampados e por entre ramos;
Por trechos desertos seguimos espertos,
O que vem depois nós não divisamos.
Na frente o inimigo, atrás o perigo.
Dormindo ao relento, o céu por abrigo.
Até que por sina a dureza termina,
Finda a jornada, cumprido o castigo.
Vamos embora! Vamos embora!
Vamos partir antes da aurora!

— Muito bem! — disse Frodo. — Mas neste caso há muito o que fazer antes de irmos dormir – sob um teto, pelo menos por hoje.
— Oh! Aquilo era poesia! — disse Pippin. — Você realmente quer partir antes do dia raiar?
— Não sei — respondeu Frodo. — Tenho medo daqueles Cavaleiros Negros, e tenho certeza de que não é seguro ficar num só lugar por muito tempo, principalmente num lugar para onde se sabe que eu estava indo. Também, Gildor me aconselhou a não esperar. Mas eu gostaria muito de ver Gandalf. Pude perceber que até Gildor ficou perturbado quando soube que Gandalf não tinha aparecido. Depende de duas coisas. Em quanto tempo os Cavaleiros conseguiriam chegar a Buqueburgo? E em quanto tempo poderíamos partir? Temos muitos preparativos a fazer.
— A resposta para a segunda pergunta — disse Merry — é que poderíamos partir dentro de uma hora. Já preparei praticamente tudo. Há seis pôneis num estábulo do outro lado do campo; os mantimentos e equipamentos estão todos embalados, com a exceção de roupas extras e da comida perecível.
— Parece que a conspiração foi muito eficiente — disse Frodo. — Mas e os Cavaleiros Negros? Seria seguro esperar Gandalf mais um dia?
— Tudo isso depende do que você acha que os Cavaleiros fariam, se o encontrassem aqui — respondeu Merry. — Eles poderiam já ter chegado até aqui, é claro, se não tivessem parado no Portão Norte, onde a Cerca desce até a margem do rio, exatamente deste lado da Ponte. Os guardas do portão não os deixariam entrar à noite, embora eles pudessem forçar a entrada. Mesmo durante o dia, tentariam mantê-los fora daqui, eu acho, pelo menos até conseguirem enviar uma mensagem para o Senhor da Sede – pois não iriam gostar da aparência dos Cavaleiros, e certamente teriam medo deles. Mas, é claro, a Terra dos Buques não pode resistir a um ataque determinado por longo tempo. E é possível que, de manhã, até mesmo a um Cavaleiro Negro que subisse e perguntasse pelo Sr. Bolseiro fosse permitido entrar. Muita gente sabe que você está vindo morar em Cricôncavo.
Frodo ficou sentado por um tempo, pensando.
— Já me decidi — disse ele finalmente. — Parto amanhã, assim que o dia nascer. Mas não vou pela estrada: seria ainda menos seguro do que esperar aqui. Se for através do Portão Norte, minha partida da Terra dos Buques será imediatamente do conhecimento de todos, em vez de ser um segredo por vários dias no mínimo, como deve acontecer. Além do mais, a Ponte e a Estrada Leste perto da fronteira serão certamente vigiadas, quer algum Cavaleiro entre na Terra dos Buques quer não. Não sabemos quantos são; mas há pelo menos dois, e possivelmente mais. A única coisa a fazer é partir numa direção totalmente inesperada.
— Mas isso só pode significar que o caminho é o da Floresta Velha! — disse Fredegar, horrorizado. — Não pode estar pensando em fazer isso. A Floresta é quase tão perigosa quanto os Cavaleiros Negros.
— Nem tanto — disse Merry. — Parece uma atitude desesperada, mas acho que Frodo tem razão. É o único jeito de partirmos sem sermos seguidos imediatamente. Com sorte, poderemos conseguir uma boa vantagem.
— Mas vocês não vão ter sorte na Floresta Velha — objetou Fredegar. — Ninguém tem sorte ali. Vão se perder. As pessoas não entram lá.
— Entram sim! — disse Merry — Os Brandebuques entram – ocasionalmente, quando lhes dá na telha. Temos uma entrada particular. Frodo entrou uma vez, há muito tempo. Já estive lá várias vezes: geralmente de dia, é claro, quando as árvores estão com sono e bastante tranquilas.
— Bem, faça como achar melhor! — disse Fredegar. — Tenho mais medo da Floresta Velha do que de qualquer outra coisa que conheço: as histórias que contam são um pesadelo; mas meu voto conta pouco, pois não vou nessa viagem. Mesmo assim, fico feliz em pensar que alguém vai ficar para trás, alguém que possa contar a Gandalf o que fizeram, quando ele aparecer, como tenho certeza de que fará logo.
Apesar de gostar muito de Frodo, Fatty Bolger não tinha vontade de deixar o Condado, nem de ver o que havia fora de lá. Sua família era da Quarta Leste, do Vau Budge, nos Campos da Ponte, na verdade. Mas nunca atravessara a Ponte do Brandevin. A tarefa que lhe cabia, segundo o plano original dos conspiradores, era ficar e dar conta dos curiosos, mantendo a farsa de que o Sr. Bolseiro ainda morava em Cricôncavo o máximo possível. Tinha até trazido algumas roupas velhas de Frodo para tornar mais real a encenação. Eles nem imaginavam o perigo que essa encenação acabaria representando.
— Excelente! — disse Frodo, quando entendeu o plano. — De outro modo, não poderíamos deixar qualquer mensagem para Gandalf. É claro que não sei se esses cavaleiros sabem ler ou não, mas não ousaria deixar uma mensagem escrita, pois poderiam entrar e revistar a casa. Mas se Fatty está disposto a ficar na retaguarda, posso ter certeza de que Gandalf saberá por onde fomos, e isso decide o assunto. A primeira coisa a fazer amanhã é entrar na Floresta Velha.
— Bem, então é isso — disse Pippin. — Somando tudo, prefiro nossa tarefa à de Fatty – esperar aqui até que os Cavaleiros Negros cheguem.
— Espere até ter avançado bastante na floresta — disse Fredegar. — Vão desejar estar de volta aqui comigo antes de 24 horas.
— Não adianta ficar discutindo isso — disse Merry. — Ainda temos de arrumar umas coisas e terminar de empacotar tudo antes de dormir. Chamo vocês antes do dia nascer.
Quando finalmente se deitou, Frodo não conseguiu dormir por um tempo. As pernas lhe doíam. Sentia-se feliz em pensar que iriam cavalgando no dia seguinte. Finalmente caiu num sonho vago, no qual parecia estar olhando por uma janela alta sobre um mar escuro de árvores emaranhadas. Lá embaixo, entre as raízes, ouvia-se o som de criaturas se arrastando e farejando. Sabia que mais cedo ou mais tarde sentiriam seu cheiro.
Depois escutou um ruído distante. A princípio, pensou ser um vento forte vindo sobre as folhas da floresta. Então percebeu que não era o vento, mas o som do Mar ao longe; um som que nunca ouvira quando acordado, embora com frequência lhe perturbasse os sonhos. De repente descobriu que estava fora de casa, ao relento. Não havia árvore alguma no fim das contas. Estava numa charneca escura, sentindo no ar um estranho cheiro salgado. Olhando para cima, viu uma torre branca e alta, que se erguia solitária sobre um penhasco. Sentiu um enorme desejo de subir na torre e ver o Mar. Começou a subir com dificuldade: mas de repente um raio cruzou o céu, e houve um barulho de trovão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!