11 de abril de 2016

Capítulo IX - A Toca de Laracna

Podia realmente ser dia agora, como dizia Golum, mas os hobbits quase não notavam diferença alguma, a não ser talvez pelo céu, que estava um pouco menos escuro, parecendo um grande teto de fumaça, enquanto em vez da escuridão da noite profunda, que ainda perdurava em fendas e buracos, uma sombra cinzenta e indistinta cobria o mundo rochoso ao redor deles. Foram adiante, Golum na frente e os hobbits agora lado a lado, subindo o longo desfiladeiro entre pilares e colunas de rocha dilacerada e gasta, que se erguiam como imensas estátuas disformes dos dois lados. Não se ouvia som algum.
Um pouco à frente, talvez uma milha ou mais, havia uma grande muralha, uma última massa de rocha que se arremessava para o alto.
Cada vez mais escura assomava, elevando-se gradativamente conforme iam se aproximando, até subir muito além das cabeças deles, barrando a visão de tudo o que ficava além. Uma sombra profunda jazia aos seus pés. Sam farejou o ar.
— Ugh! Aquele cheiro! — disse ele. — Está ficando cada vez mais forte.
De repente estavam sob a sombra, e ali no meio dela viram a abertura de uma caverna.
— A entrada é por ali — disse Golum baixinho. — Esta é a entrada do túnel.
Não disse o nome: Torech Ungol, Toca de Laracna. Dele vinha um fedor, não o cheiro repugnante de podridão dos prados de Morgul, mas um odor nauseabundo, como se uma imundície inominável estivesse empilhada e guardada na escuridão lá dentro.
— É o único caminho, Sméagol? — perguntou Frodo.
— É, sim — respondeu ele. — Sim, devemos ir por aqui agora.
— Você está querendo dizer que já atravessou este buraco? — disse Sam. — Arre! Mas talvez você não se incomode com cheiros ruins.
Os olhos de Golum cintilaram.
— Ele não sabe com o que nós se incomoda, não é, precioso? Não, ele não sabe. Mas Sméagol pode aturar coisas. Sim, ele atravessou. É sim, atravessou exatamente por ali. É o único caminho.
— E o que produz esse cheiro, eu gostaria de saber — disse Sam. — Parece... bem, não gostaria de dizer. Algum buraco abominável de orcs, eu garanto, com uns cem anos da sujeira deles lá dentro.
 Bem  disse Frodo.  Com ou sem orcs, se for o único caminho, devemos tomá-lo.
Respiraram fundo e entraram. Alguns passos e já estavam num a escuridão total e impenetrável. Só nos corredores sem luz de Moria Frodo e Sam não tinham visto escuridão semelhante, e se possível aqui ela era mais profunda e mais densa. Lá havia ares circulando, e ecos, e uma sensação de espaço. Onde estavam agora o ar era parado, estagnado, pesado, e o silêncio era total.
Caminhavam por assim dizer num vapor negro, composto da própria escuridão em si mesma que, quando era inalada, trazia cegueira não apenas para os olhos, mas também para a mente, de modo que até a lembrança de cores e formas e de qualquer luz se apagavam do pensamento.
A noite sempre existira, e sempre existiria, e a noite era tudo.
Mas por um tempo eles ainda conservaram o tato, e na verdade a sensibilidade de seus pés e mãos pareceu a princípio se aguçar quase dolorosamente. As paredes eram, para a surpresa deles, lisas; o chão, com a exceção de um ou outro degrau que surgia de vez em quando, era reto e regular, sempre subindo com a mesma inclinação acentuada. O túnel era alto e amplo, tão amplo que, embora os hobbits caminhassem lado a lado, apenas tocando as paredes laterais com os braços abertos, estavam separados, isolados na escuridão. Golum tinha entrado primeiro, e parecia estar apenas alguns passos à frente. Enquanto ainda conseguiam dar atenção a coisas desse tipo, os hobbits ouviam sua respiração chiada e ofegante bem na frente deles. Mas depois de um tempo seus sentidos ficaram menos aguçados, o tato e a audição pareciam estar adormecendo, e eles continuavam, tateando, caminhando, sempre em frente, principalmente pela força de vontade com a qual tinham entrado, vontade de atravessar e desejo de chegar finalmente ao alto portão que ficava mais além. Ainda não tinham avançado muito, talvez, mas a noção de tempo e distância logo havia desaparecido de sua mente; Sam, à direita, tateando a parede, percebeu a presença de uma abertura lateral: por um momento detectou um sopro fraco de algum ar menos pesado, que logo ficou para trás.
— Há mais de um corredor aqui — sussurrou ele com um esforço: parecia difícil fazer com que sua respiração produzisse algum ruído. — É o lugar mais parecido com moradias de orcs que poderia existir!
Depois disso, primeiro ele à direita, e depois Frodo à esquerda, passaram por três ou quatro dessas aberturas, algumas mais largas, outras menores; mas por enquanto não havia dúvidas quanto ao caminho principal, pois era reto, e não fazia curvas, e ainda continuava subindo sempre. Mas qual seria seu comprimento, e quanto mais daquilo teriam de aturar, ou conseguiriam aturar? O ar ficava cada vez mais irrespirável conforme subiam, e agora eles tinham frequentemente a sensação de estarem, naquela escuridão cega, experimentando alguma resistência mais espessa que o ar pestilento. Enquanto se lançavam à frente, sentiam coisas roçarem contra suas cabeças, ou suas mãos, longos tentáculos, ou plantas penduradas talvez: não conseguiam saber o que eram. E o fedor ainda aumentava. Aumentou até quase ficarem com a impressão de que o olfato era o único sentido que lhes restava, e isso para o tormento deles. Uma hora, duas horas, três horas: quantas se tinham passado naquele buraco sem luz? Horas, dias, talvez semanas.
Sam se afastou da lateral do túnel e se achegou na direção de Frodo, e as mãos deles se encontraram e se apertaram, e desse modo, juntos, eles continuaram sempre em frente. Finalmente Frodo, tateando ao longo da parede à esquerda, descobriu de repente uma lacuna. Quase caiu de lado, dentro do vazio. Ali havia alguma abertura na rocha muito maior do que qualquer outra pela qual tinham passado; e dela vinha um cheiro tão nauseabundo, e uma sensação tão intensa de maldade à espreita, que Frodo cambaleou.
Naquele momento 8am também perdeu o equilíbrio e caiu para a frente.
Lutando ao mesmo tempo contra a ânsia de vômito e o medo, Frodo agarrou a mão de Sam.
— Levante-se! — disse ele numa respiração rouca e surda. — Tudo vem daqui, o fedor e o perigo. Vamos embora! Rápido!
Reunindo a força e a resolução que lhe restavam, colocou Sam de pé, e forçou as próprias pernas a se moverem. Sam tropeçava ao lado dele.
Um passo, dois passos, três passos — finalmente seis passos. Talvez tivessem passado a terrível abertura invisível, mas, fosse ou não por isso, de repente os movimentos ficaram mais fáceis, como se alguma vontade má os tivesse libertado por um tempo.
Avançaram com muito esforço, ainda de mãos dadas.
Mas quase imediatamente encontraram uma nova dificuldade. O túnel se bifurcava, ou assim parecia, e no escuro não conseguiam saber qual era o caminho mais largo, ou qual deles ficava mais próximo do caminho direto. Qual deveriam tomar, o da direita ou o da esquerda? Não sabiam de nada que pudesse guiá-los, e no entanto uma escolha errada certamente seria fatal.
— Por qual caminho Golum foi? — perguntou Sam ofegante. — E por que não esperou?
— Sméagol! — disse Frodo, tentando chamá-lo. — Sméagol! — mas sua voz era um grasnido, e o nome morreu quase no mesmo momento em que deixou seus lábios. Não houve resposta, nem um eco, nem mesmo um tremor no ar.
— Acho que desta vez ele realmente se foi — murmurou Sam. — Acho que sua intenção era nos trazer exatamente para este lugar. Golum! Se algum dia conseguir colocar-lhe as mãos em cima, ele vai se arrepender disso.
De repente, tateando e apalpando no escuro, perceberam que a abertura à esquerda estava bloqueada: ou não tinha saída, ou alguma grande pedra caíra na passagem.
— Este não pode ser o caminho — sussurrou Frodo.
— Certo ou errado, devemos tomar o outro.
— E logo! — ofegou Sam. — Há alguma coisa pior que Golum por aqui. Posso sentir algo nos observando.
Não tinham avançado mais que alguns metros quando ouviram um som que se aproximava por trás, assustador e horrível no silêncio pesado, abafado, um som gorgolejante, borbulhante, e um chiado longo e venenoso.
Viraram-se, mas não conseguiram ver nada. Ficaram parados como pedras, observando, esperando, sem saber o que.
— É uma armadilha! — disse Sam, colocando a mão sobre o punho de sua espada; e no momento em que fez isso, pensou na escuridão do túmulo de onde ela vinha.
“Gostaria que o velho Tom estivesse por perto agora!”, pensou ele.
Depois, parado, com a escuridão ao redor e um negrume de desespero e raiva em seu coração, teve a impressão de ver uma luz: uma luz em sua mente, quase insuportavelmente clara no início, como um raio de sol para os olhos de alguém há muito tempo escondido numa caverna sem janelas. Depois a luz ficou colorida. Verde, dourada, prateada, branca. Distante, como se estivesse num pequeno quadro desenhado por dedos élficos, Sam viu a Senhora Galadriel, em pé sobre a relva de Lórien, e havia presentes nas mãos dela. E para você, portador do Anel, ele a ouviu dizer, numa voz remota mas clara, para você eu preparei isto.
O chiado borbulhante se aproximou e ouviu-se um rangido, como se uma grande criatura com muitas juntas estivesse se movendo deliberadamente devagar no escuro. Um cheiro pestilento a precedia.
— Mestre, mestre! — gritou Sam, o tom vivo e insistente voltando à sua voz — o presente da Senhora! A estrela de cristal! Uma luz para o senhor em lugares escuros, foi o que ela disse que seria. A estrela de cristal!
— A estrela de cristal? — murmurou Frodo, como alguém que responde enquanto dorme, quase sem entender. — Oh, sim! Por que a esqueci? Uma luz para quando todas as outras luzes se apagarem! Realmente agora só a luz pode nos ajudar.
Lentamente aproximou a mão do peito, e devagar ergueu o Frasco de Galadriel. Por um momento ele tremeluziu, fraco como uma estrela que sobe, lutando contra as pesadas névoas caindo sobre a terra, e então, à medida que seu poder crescia e aumentava a esperança no coração de Frodo, começou a queimar e se acendeu numa chama de prata, um coração diminuto de luz ofuscante, como se o próprio Eãrendil tivesse descido dos altos caminhos do pôr-do-sol com a última Silmaril em sua fronte.
A escuridão se afastou do Frasco até que a luz pareceu brilhar no centro de um globo de cristal tênue, e a mão que o segurava coruscava com um fogo branco.
Frodo fitou assombrado aquele presente maravilhoso que havia carregado por tanto tempo, sem imaginar todo o seu valor e potência. Raras vezes se lembrara dele na estrada, até que chegaram ao Vale Morgul, e nunca o usara por medo de sua luz reveladora.
— Aiy a Eãrendil Elenion Ancalima! — gritou ele, sem saber o que tinha dito, pois parecia que outra voz falara através da sua, límpida, não molestada pelo ar pestilento da caverna.
Mas há outros poderes na Terra Média, forças da noite, que são antigas e poderosas. E aquela que andava na escuridão ouvira os elfos gritando aquele grito antigamente, nas profundezas do tempo, e não dera importância a ele, que também não a amedrontava agora. No momento em que Frodo falou, sentiu uma grande força maligna pesar sobre si, e um olhar mortal examinando a sua pessoa. Não muito distante no túnel, entre eles e a abertura onde tinham cambaleado e tropeçado, ele percebeu olhos ficando cada vez mais visíveis, dois grandes aglomerados de olhos com muitas janelas — a ameaça que se aproximava finalmente se desmascarou. A radiação da estrela de cristal se partiu naqueles milhares de facetas e foi lançada de volta, mas atrás do clarão um fogo pálido e mortal começou a brilhar fixo lá dentro, uma chama acesa em alguma escura caverna de pensamento maligno. Eram olhos monstruosos e abomináveis, bestiais e ao mesmo tempo cheios de propósito e de um prazer horrendo, exultando sobre suas vítimas, presas e sem qualquer esperança de escaparem.
Frodo e Sam, tomados de terror, começaram a recuar devagar, a própria vista presa do olhar terrível daqueles maléficos olhos; mas, conforme recuavam, os olhos avançavam. A mão de Frodo vacilou e lentamente o Frasco foi descendo.
Então, de repente, libertados do fascínio que os prendia a fim de que pudessem correr um pouco em pânico inútil, para o divertimento dos olhos, os dois se viraram e correram juntos; mas no momento em que arrancaram, Frodo se virou e viu aterrorizado que imediatamente os olhos começaram a persegui-los aos saltos. O odor de morte era como uma nuvem ao seu redor.
— Pare! Pare! — gritou ele desesperado. — Não adianta correr.
Lentamente os olhos se aproximaram.
— Galadriel! — chamou ele, e criando coragem ergueu o Frasco mais uma vez.
Os olhos pararam. Por um momento a expressão neles se abrandou, como se alguma sombra de dúvida os afligisse. Então o coração de Frodo ferveu dentro dele, e, sem pensar no que estava fazendo, se era loucura ou desespero ou coragem, ele pegou o Frasco com a mão esquerda, e com a direita puxou sua espada. Ferroada reluziu, e a afiada lâmina élfica faiscou na luz prateada, mas nas bordas adejava um fogo azul. Então, erguendo a estrela e brandindo a espada, Frodo, hobbit do Condado, deu passos firmes em direção aos olhos.
Os olhos vacilaram. Iam-se enchendo de dúvidas conforme a luz se aproximava. Um a um foram escurecendo, e devagar recuaram. Nenhum clarão tão mortal jamais os afligira antes. Do sol, da lua e das estrelas eles tinham estado a salvo no subterrâneo, mas agora uma estrela penetrara o próprio coração da terra. A luz ainda se aproximava, e os olhos começavam a enfraquecer.
Um a um todos se apagaram; viraram-se e um grande corpo, além do alcance da luz, içou sua enorme sombra no espaço escuro. Desapareceram.
— Mestre, mestre! — gritou Sam. Estava logo atrás, com sua espada em punho e preparada. — Estrelas e glória! Mas os elfos fariam uma canção sobre isso, se viessem a saber o que aconteceu aqui! E que eu possa viver para contar-lhes e escutá-los cantar. Mas não avance mais, mestre. Não desça naquele fosso. Agora é nossa única oportunidade. Vamos sair deste buraco imundo!
E assim viraram-se mais uma vez, primeiro andando, depois correndo; pois conforme avançavam o chão da caverna começou a subir vertiginosamente, e a cada passo eles ficavam mais acima dos fedores da toca invisível, e a força retomou aos corações e às pernas. Mas ainda o ódio da Vigia espreitava atrás deles, cego talvez por um período, mas não derrotado, ainda determinado a matar. E agora um sopro de ar veio ao encontro deles, frio e leve. A abertura, o fim do túnel, finalmente estava ali. Ofegantes, ansiando por um lugar descoberto, os hobbits se jogaram para a frente; então, surpresos, cambalearam e caíram para trás. A saída estava bloqueada por algum tipo de barreira, que não era feita de pedra: parecia macia e um pouco elástica, e ao mesmo tempo forte e impenetrável; o ar passava por ela, mas não se via qualquer sinal de luz. Mais uma vez avançaram e foram arremessados para trás. Erguendo o Frasco, Frodo olhou e viu à sua frente algo cinzento que a radiação da estrela de cristal não atravessava e não iluminava, como se fosse uma sombra que, não sendo projetada por luz alguma, nenhuma luz podia dissipar.
Cruzando a extensão horizontal e vertical do túnel, uma grande teia fora tecida, metodicamente como a teia de uma enorme aranha, mas com uma textura mais densa e muito maior, e cada fio era grosso como uma corda.
Sam riu de modo sinistro.
— Teias de aranha! — disse ele. — Isso é tudo? Mas que aranha! Vamos a elas, acabemos com elas!
Num acesso de fúria, golpeou as teias com sua espada, mas o fio atingido não se quebrou. Cedeu um pouco e depois saltou de volta como a corda esticada de um arco, desviando a lâmina e empurrando para o alto tanto a espada quanto o braço. Três vezes Sam golpeou com toda a sua força, e finalmente uma única entre as inúmeras cordas se partiu e se torceu, enrolando-se e chicoteando o ar.
Uma extremidade açoitou a mão de Sam, que gritou de dor, recuando e levando a mão à boca.
— Vai levar dias até que consigamos abrir caminho desse jeito — disse ele. — Que devemos fazer? Aqueles olhos retornaram?
— Não que eu tenha visto — disse Frodo. — Mas ainda sinto que estão me observando, ou pensando em mim: fazendo algum outro plano, talvez. Se essa luz diminuísse, ou se falhasse, logo eles voltariam.
— Sem saída, no fim! — disse Sam num tom amargo, com o ódio subindo de novo acima do cansaço e do desespero. — Moscas numa teia. Que a praga de Faramir pegue aquele Golum, e pegue depressa!
— Isso não nos ajudaria em nada — disse Frodo. — Venha! Vamos ver o que Ferroada pode fazer. É uma lâmina élfica. Havia teias de horror nos abismos escuros de Beleriand onde foi forjada. Mas você deve ser o vigia e afastar os olhos. Aqui, pegue a estrela de cristal. Não tenha medo. Segure bem alto e fique atento!
Então Frodo se aproximou da grande teia cinzenta, e a atacou com um grande golpe de espada, forçando a borda afiada através de uma rede de cordas firmemente tecida, e imediatamente saltou para trás. Com seu brilho azulado a lâmina cortou os fios como uma foice corta a grama, e eles recuaram e se retorceram, e depois ficaram soltos. Um grande rasgo fora feito.
Golpe a golpe foi trabalhando, até que finalmente toda a teia ao seu alcance estava despedaçada, e a parte superior ficou esvoaçando e balançando no vento que entrava. A armadilha estava desfeita.
— Venha! — gritou Frodo. — Vamos! Vamos!
De súbito sua mente se encheu de uma alegria alucinada por terem conseguido escapar exatamente na beira do desespero. A cabeça do hobbit girava como se estivesse sob o efeito de um vinho possante. Deu um salto, e gritou conforme saltava.
Aquele lugar escuro parecia claro para seus olhos, que tinham passado pelo fosso da noite. A grande concentração de fumaça tinha subido e ficado mais tênue, e as últimas horas de um dia sombrio estavam terminando; o brilho vermelho de Mordor tinha se extinguido numa escuridão melancólica. Mas Frodo tinha a impressão de estar olhando para uma manhã de súbita esperança. Tinha quase atingido o topo da muralha. Só tinha de subir mais um pouco. A Fenda, Cirith Ungol, estava diante dele, um desfiladeiro escuro na cordilheira negra, e os chifres de pedra escurecendo no céu dos dois lados. Uma pequena corrida, uma corrida de curta distância, e ele teria atravessado!
— A passagem, Sam — gritou ele, sem dar atenção ao tom agudo de sua voz, que, liberta dos ares sufocantes do túnel, agora ecoava alta e forte. — A passagem! Corra, corra, e conseguiremos passar – passar antes que alguém possa nos impedir!
Sam veio atrás com a maior velocidade que conseguiu imprimir às suas pernas; mas mesmo estando alegre por estar livre, sentia-se inquieto, e, enquanto corria, repetidas vezes olhava para trás, na direção do arco escuro do túnel, temendo ver olhos, ou algum vulto além de sua imaginação, saltarem em perseguição.


Sam e seu mestre sabiam muito pouco sobre a astúcia de Laracna. Ela tinha muitas saídas de sua toca. Ali morara por muitas eras um ser mau na forma de uma aranha, semelhante àqueles que tinham outrora vivido na Terra dos elfos no oeste, que jaz agora sob o Mar, semelhante àqueles contra os quais Beren lutara nas Montanhas de Terror em Doriath, e assim encontrou Lúthien sobre a verde relva em meio às cicutas sob o luar, há muito tempo. Como Laracna chegara ali, fugindo da ruína, ninguém sabe, pois dos Anos Escuros poucas histórias restaram. Mas ela ainda estava lá, ela que chegara antes de Sauron, e antes da primeira pedra de Baraddûr; nunca servira a ninguém a não ser a si própria, bebendo o sangue de elfos e homens, intumescida e gorda, remoendo sem cessar seus banquetes, tecendo teias de sombra; pois todos os seres vivos eram sua comida, e seu vômito a escuridão. Por toda a volta suas crias menores, bastardos dos companheiros miseráveis, seus próprios filhos que ela matava, espalharam-se de vale em vale, das Ephel Dúath até as colinas do leste, até Doí Guldur e as fortalezas da Floresta das Trevas. Mas nenhuma se comparava a ela, Laracna, a Grande, última filha de Ungoliant a importunar o mundo infeliz.
Golum, anos antes, já a vira, Sméagol que penetrava todos os buracos escuros, e em dias passados se curvara diante dela em adoração, e a escuridão de sua vontade maligna o acompanhara através de todos os caminhos de sua fadiga, isolando-o da luz e do arrependimento. E ele lhe prometera trazer comida.
Mas a ganância dela não era a dele. Ela pouco sabia e não se preocupava com torres ou anéis ou qualquer coisa criada por mentes ou mãos, ela que só desejava a morte para todos os outros, mentes e corpos, e para si mesma uma fartação de vida, solitária, inchada até que as montanhas não mais conseguissem abrigá-la, até que a escuridão não a pudesse conter. Mas esse desejo estava muito distante, e havia muito tempo ela estava faminta, espreitando no seu covil, enquanto o poder de Sauron crescia, e a luz e os seres vivos abandonavam suas fronteiras, e a cidade no vale ficou morta, e nenhum elfo ou homem se aproximava, apenas os infelizes orcs. Comida ruim e arisca. Mas ela precisava comer, e, por mais que se empenhassem em cavar novos caminhos sinuosos que vinham da passagem e de sua torre, ela sempre achava um modo de enganá-los.
Mas ela desejava carne mais tenra. E Golum lhe trouxera.
— Veremos, veremos — ele sempre dizia a si mesmo, quando a disposição maligna o atacava, quando andava nas estradas perigosas que vinham das Emyn Muil para o vale Morgul — vamos ver. Pode muito bem ser, sim, pode muito bem ser que, quando Ela jogar fora os ossos e as vestes vazias, nós possamos encontrá-lo, e vamos pegá-lo, o Precioso, uma recompensa para o pobre Sméagol, que traz comida boazinha. E vamos salvar o Precioso, como prometemos. É sim. E, quando o tivermos a salvo, então Ela vai ficar sabendo, é sim, e então vamos dar-lhe o troco, meu precioso. Então vamos dar o troco a todo o mundo!
Assim pensava num canto escondido de sua mente, que ele ainda tinha esperança de esconder dela, mesmo quando viera até ela de novo e lhe fizera uma grande reverência, enquanto seus companheiros dormiam. Quanto a Sauron, ele sabia onde ela estava entocada. Prezava a ideia de tê-la morando lá, faminta mas não diminuída em malícia, uma sentinela mais eficiente daquela passagem antiga para suas terras que qualquer outra que seu talento poderia ter criado. E os orcs eram escravos úteis, mas ele os tinha em abundância. Se de vez em quando Laracna capturasse algum para amenizar seu apetite, era bem-vinda: Sauron podia dispor deles. E algumas vezes, como um homem pode jogar uma guloseima para sua gata (chama-a de minha gata, mas ela não é dele), Sauron costumava enviar-lhe prisioneiros para os quais não tinha melhores usos: ordenava que fossem conduzidos até a toca, e que lhe fossem trazidos relatórios das brincadeiras que ela aprontava.
Assim viviam ambos, deliciando-se com as próprias tramoias, sem temer ataque ou ira ou o fim de suas maldades. Nunca jamais qualquer mosca escapara das teias de Laracna, e sua fome e sua ira estavam agora maiores do que nunca.
Mas o pobre Sam nada sabia desse mal preparado para eles, a não ser por um medo que crescia dentro dele, uma ameaça que não conseguia ver, e que se transformou num peso tão grande que ele tinha dificuldades para correr, e seus pés pareciam de chumbo. O terror estava ao seu redor, e havia inimigos diante dele na passagem, e seu mestre estava numa disposição desvairada, correndo descuidadamente na direção deles. Desviando os olhos da sombra atrás, e da profunda escuridão abaixo do penhasco à esquerda, Sam olhou para a frente, e viu duas coisas que aumentaram seu desânimo. Viu que a espada que Frodo ainda segurava nas mãos estava emitindo uma chama azul, e viu que, embora o céu atrás dele agora estivesse escuro, ainda a janela na torre emanava um brilho vermelho.
— Orcs! — murmurou ele. — Nunca vamos conseguir deste jeito. Há orcs à solta, e coisas piores que orcs.
Então, voltando rapidamente ao seu antigo hábito de agir em segredo, fechou a mão em volta do precioso Frasco, que ainda carregava. Por um momento sua mão brilhou com seu próprio sangue vivo, e então ele colocou a luz reveladora num bolso junto ao peito e cobriu-se com a capa élfica. Tentava agora apressar o passo. Seu mestre estava se distanciando dele; já estava uns vinte passos adiante, deslizando como uma sombra; logo se perderia de vista naquele mundo cinzento.
Sam mal tinha escondido a luz da estrela de cristal quando ela veio. Um pouco à frente e à esquerda ele a viu, saindo de um buraco negro de sombra sob o penhasco, a forma mais odiosa que ele jamais vira, horrível além do horror de um pesadelo. Era muito semelhante a uma aranha, mas maior que as grandes feras caçadoras, e mais terrível que elas por causa do propósito maligno em seus olhos sem remorso. Os mesmos olhos que ele pensava estarem derrotados e vencidos acendiam-se outra vez numa luz cruel, agrupados em sua cabeça protuberante. Tinha grandes chifres, e atrás de seu curto pescoço em forma de haste estava um enorme corpo inchado, um vasto saco intumescido, balançando e caído por entre as pernas o tronco era preto, manchado com marcas lívidas, mas a barriga embaixo era clara e luminosa, exalando um cheiro ruim. As pernas eram curvas, com grandes juntas nodosas bem acima de suas costas, e tinha pelos espetados como espinhos de aço, e na extremidade de cada perna havia uma garra. Assim que, apertando o corpo mole e pesado e dobrando as pernas, ela saiu pela abertura superior de sua toca, moveu-se a uma terrível velocidade, ora correndo sobre suas pernas rangentes, ora dando um salto repentino. Estava entre Sam e seu mestre. Ou não estava enxergando Sam ou o evitava naquele momento por ser ele o portador da luz, e fixava toda a sua atenção em uma presa, em Frodo, privado de seu Frasco, correndo descuidadamente pela trilha, inconsciente ainda do perigo que o ameaçava. Ele corria rápido, mas Laracna era mais rápida; em alguns saltos poderia capturá-lo.
Sam respirou fundo e reuniu todo o fôlego que lhe restava para gritar.
— Cuidado atrás! — berrou ele. — Cuidado, mestre! Eu... — mas de repente seu grito foi emudecido.
Uma longa mão pegajosa cobriu-lhe a boca e uma outra o pegou pelo pescoço, enquanto alguma coisa se enrolava em torno de sua perna. Pego de surpresa, ele tombou para trás e caiu nos braços de quem o atacara.
— Pegamos ele! — chiou Golum ao seu ouvido. — Finalmente, meu precioso, nós pegamos ele, é sim, o hobbit malvado. Nós fica com este. Ela fica com o outro. E sim, Laracna vai pegar ele, não Sméagol: ele prometeu; não vai machucar o Mestre de jeito nenhum. Mas ele pegou você, seu nojento, malvado, hobbitzinho ssafado!
Golum cuspiu no pescoço de Sam.
A fúria diante da traição e o desespero em ser detido quando seu mestre corria um perigo mortal deram a Sam uma repentina violência e uma força que estava além de qualquer coisa que Golum tinha esperado daquele hobbit que considerava parvo e estúpido. Nem mesmo o próprio Golum poderia ter-se virado com maior rapidez ou força. A mão que cobria a boca de Sam escorregou, e Sam se abaixou e se jogou para a frente de novo, tentando se livrar da outra mão que lhe agarrava o pescoço. A mão direita ainda segurava a espada, e no braço esquerdo, pendurado pela correia, estava o cajado de Faramir.
Desesperadamente tentou se virar e apunhalar o inimigo. Mas Golum foi rápido demais. Arremessou seu comprido braço direito, e agarrou o pulso de Sam: os dedos eram como um torno; lenta e inexoravelmente ele puxou a mão para baixo e para a frente, até que com um grito de dor Sam soltou a espada, que caiu no chão; e todo o tempo a outra mão de Golum estava apertando o pescoço de Sam.
Então Sam tentou seu último truque. Com toda a força desvencilhou-se e firmou bem os pés; então, de repente, dobrou as pernas contra o chão e com toda a força que tinha jogou-se para trás.
Sem esperar nem mesmo esse simples truque de Sam, Golum desequilibrou-se e foi ao chão com Sam em cima dele, recebendo o peso do robusto hobbit em seu estômago. Soltou um chiado agudo, e por um segundo a mão soltou a garganta de Sam; mas seus dedos ainda agarravam a mão da espada. Sam se jogou para a frente e para o lado e ficou de pé, e então rapidamente rodopiou à direita, em torno do pulso que Golum segurava. Pegando o cajado com a mão esquerda, Sam o ergueu e o fez descer assobiando e estalando sobre o braço esticado de Golum, logo abaixo do cotovelo.
Com um grito Golum soltou o braço de Sam, que então fez seu serviço; sem perder tempo mudando o cajado da mão esquerda para a direita, deu um outro golpe forte. Rápido como uma cobra, Golum deslizou para o lado, e o golpe destinado à cabeça atingiu-o nas costas. O cajado rachou e se partiu.
Isso foi o suficiente para ele. Agarrar por trás era um velho jogo seu, no qual ele raramente falhava. Mas dessa vez, iludido pelo ódio, cometera o erro de falar e se gabar antes de ter as duas mãos sobre o pescoço de sua vítima. Tudo dera errado com seu belo plano, desde que aquela luz horrível tinha tão inesperadamente aparecido na escuridão. Agora estava cara a cara com um inimigo furioso, quase do seu tamanho.
Essa luta não era para ele. Sam pegou a espada do chão e a ergueu. Golum soltou um grito agudo, pulou para o lado e, ficando de quatro, fugiu num grande pulo, como uma rã. Antes que Sam pudesse agarrá-lo, já estava longe, correndo numa velocidade assustadora na direção do túnel.
Com a espada na mão, Sam correu atrás dele. Naquele momento se esquecera de tudo a não ser da louca fúria em sua mente e do desejo de matar Golum.
Mas, antes que pudesse alcançá-lo, Golum se fora. Então, quando o buraco escuro apareceu-lhe à frente e o fedor veio em sua direção, como o explodir de um trovão o pensamento de Frodo e do monstro abateu-se sobre a mente de Sam.
Deu um giro e correu alucinadamente pela trilha, chamando e chamando o nome de seu mestre. Era tarde demais. Até ali, o plano de Golum dera certo.

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