24 de abril de 2016

Capítulo IX - Os Portos Cinzentos

Certamente a limpeza exigiu um bocado de trabalho, mas levou menos tempo do que Sam receara. No dia após a Batalha, Frodo cavalgou até Grã Cava e libertou os prisioneiros dos Tocadeados. Um dos primeiros que encontraram foi o pobre Fredegar Bolger, que de gorducho não tinha mais nada. Fora levado para lá quando os rufiões expulsaram um grupo de rebeldes, que ele liderava, de seus esconderijos lá em cima nas Tocas dos Texugos, perto das colinas de Scary.
— Afinal de contas, teria sido melhor para você se nos tivesse acompanhado, pobre Fredegar! — disse Pippin, no momento em que o carregaram para fora, pois Fatty estava fraco demais para caminhar.
Ele abriu um olho e cavalheirescamente tentou sorrir.
— Quem é esse jovem gigante com esse vozeirão? — sussurrou ele. — Não pode ser o pequeno Pippin! Que tamanho de chapéu você usa agora?
Depois encontraram Lobélia. Pobrezinha, estava muito envelhecida e magra quando a resgataram de uma cela estreita e escura. Ela insistiu em sair mancando sem a ajuda de ninguém; teve uma recepção tão calorosa, e as pessoas tanto aplaudiram e gritaram quando ela apareceu, apoiada no braço de Frodo, porém sem deixar cair a sombrinha, que ela ficou muito emocionada, e foi embora aos prantos. Nunca antes fora uma pessoa querida. Mas ficou arrasada com a notícia do assassinato de Lotho, e recusou-se a voltar para Bolsão. Devolveu a propriedade a Frodo, e foi viver com os seus parentes, os Justa-correias de Tocadura. Na primavera seguinte, quando a pobre criatura morreu — afinal de contas, já contava com mais de cem anos — Frodo ficou surpreso e muito comovido: ela deixara todo o restante do dinheiro dela e de Lotho para que ele o usasse ajudando os hobbits que ficaram desabrigados devido às adversidades.
Assim terminou a rixa.
O velho Will Pealvo ficou mais tempo nos Tocadeados que qualquer tira, e, embora talvez tenha sido menos maltratado do que alguns, precisou de uma superalimentação antes que parecesse prefeito de novo. Por esse motivo Frodo concordou em ficar como seu Substituto, até que o Sr. Pealvo estivesse em forma outra vez. A única coisa que Frodo fez como Prefeito Substituto foi reduzir os Condestáveis à sua função e número adequado. A tarefa de caçar os últimos remanescentes dos rufiões ficou a cargo de Merry e Pippin, que logo a concluíram. As gangues do sul, depois de ouvirem a notícia da Batalha de Beirágua, fugiram dali e ofereceram pouca resistência ao Thain. Antes do fim do ano os poucos sobreviventes foram confinados na floresta, e os que se renderam foram levados para além da fronteira.
Enquanto isso, o trabalho de reconstrução prosseguia a passos largos, e Sam ficou muito ocupado. Os hobbits sabem trabalhar como abelhas quando precisam e têm vontade. Agora havia milhares de mãos dispostas de todas as idades, desde as pequenas e ágeis dos meninos e meninas hobbits, até as calejadas dos velhos e velhas. Às vésperas do Jule já não restava de pé um só tijolo das novas casas dos Condestáveis, ou de qualquer prédio que os “Homens de Charcote” tivessem construído; mas os tijolos foram usados para consertar muitas tocas velhas, para deixá-las mais secas e aconchegantes.
Encontraram-se grandes estoques de mercadorias, comida e cerveja, que haviam sido escondidos pelos rufiões em barracões, celeiros e tocas abandonadas, e especialmente nos túneis em Grã Cava, e nas velhas minas em Scary; assim, aquele Jule foi bem mais alegre do que qualquer um pudera esperar.
Uma das primeiras tarefas na Vila dos Hobbits, antes mesmo da remoção do novo moinho, foi a limpeza da Colina e de Bolsão, além da restauração da rua do Bolsinho. A frente do novo poço de areia foi toda nivelada e transformada num grande jardim cercado, e novas escavações foram abertas na face sul, avançando para dentro da Colina; foram revestidas com tijolos. O Feitor voltou à Toca Número Três, e dizia frequentemente, sem se importar com quem estivesse ouvindo:
— Vento ruim é aquele que não sopra a favor de ninguém, como eu sempre digo. E Bem está o que acaba Melhor!
Houve alguma discussão a respeito do nome que se devia dar à nova rua. Pensou-se em Jardins da Batalha e em Smials Melhores. Mas depois de um tempo, ao modo sensato dos hobbits, escolheu-se simplesmente rua Nova. Chamá-la de Passagem do Charcote foi apenas uma piada das pessoas de Beirágua.
As árvores representaram a pior perda e o maior prejuízo, pois por uma ordem de Charcote foram derrubadas a torto e a direito por todos os cantos do Condado; Sam lamentava isso mais que qualquer outra coisa. Em primeiro lugar, essa ferida demoraria a cicatrizar, e apenas seus bisnetos, pensava ele, veriam o Condado como deveria ser de repente, num belo dia, pois ele estivera por demais ocupado durante semanas para poder pensar em suas aventuras, Sam se lembrou do presente de Galadriel.
Trouxe a caixa e a mostrou para os outros Viajantes (pois assim eles eram chamados agora por todo o mundo), e pediu o seu conselho.
— Fiquei pensando quando você se lembraria dela — disse Frodo. — Abra a caixa!
Estava cheia de uma terra cinzenta, fina e macia, e no meio havia uma semente, como uma pequena castanha com casca prateada.
— O que eu faço com isto? — perguntou Sam.
— Jogue para o alto num dia de brisa e deixe que ela faça seu próprio trabalho — disse Pippin.
— Que trabalho? — disse Sam.
— Escolha um lugar como viveiro, e veja o que acontece com as plantas lá dentro — disse Merry.
— Mas tenho certeza de que a Senhora não gostaria que eu guardasse a semente só para o meu jardim, depois que tanta gente sofreu — disse Sam.
— Use toda a habilidade e todo o conhecimento que tem, Sam — disse Frodo — e use o presente para facilitar seu trabalho e melhorá-lo. E use-o com parcimônia. Não há muito aqui, e eu acho que cada grão tem o seu valor.
Assim Sam plantou mudas em todos os lugares onde árvores especialmente belas ou amadas haviam sido destruídas, e colocou um grão da preciosa terra no chão, junto à raiz de cada uma delas. Percorreu todo o Condado em seu trabalho, mas deu atenção especial à Vila dos Hobbits e a Beirágua e ninguém o culpou por isso. No fim, descobriu que ainda lhe sobrara um pouco da terra; então foi até a Pedra das Três Quartas, que fica praticamente no centro do Condado, e a jogou no ar com suas bênçãos. A pequena castanha prateada ele plantou no Campo da Festa, no local da antiga árvore, e ficou imaginando o que nasceria dela. Durante todo o inverno, foi o mais paciente possível, e tentava conter o impulso constante de dar uma volta para ver se alguma coisa estava acontecendo.
A primavera superou suas mais absurdas esperanças. As árvores começaram a brotar e a crescer, como se o tempo estivesse com pressa e quisesse que um ano valesse por vinte. No Campo da Festa uma bela e jovem mudinha apareceu: tinha o tronco prateado e folhas compridas, e em abril explodiu em ouro. Era de fato um mallorn, e a maravilha da vizinhança. Nos anos seguintes, à medida que foi crescendo em graça e beleza, ficou conhecido em toda parte, e vinha gente de lugares distantes para vê-lo: o único mallorn a oeste das Montanhas e a leste do Mar, e um dos mais bonitos do mundo.
Tudo somado, o ano de 1420 no Condado foi maravilhoso. Não apenas por um sol deslumbrante e uma chuva deliciosa, em períodos adequados e na medida perfeita; parecia haver algo mais: um ar de pujança e crescimento, e um brilho de beleza superior àquele dos verões mortais que reluzem e passam sobre esta Terra Média. Todas as crianças nascidas ou concebidas naquele ano, e houve muitas, eram lindas e fortes, e a maioria delas tinha belos cabelos dourados que antes eram raros entre os hobbits. Havia uma tal abundância de frutas que os pequenos hobbits quase se banhavam em morangos com creme; e mais tarde eles se sentavam nos prados sob as ameixeiras e comiam até fazerem pilhas de caroços que pareciam pequenas pirâmides, ou os crânios amontoados por um conquistador; depois as crianças partiam para outras aventuras. E ninguém ficava doente, e todo mundo estava feliz, exceto os que tinham de aparar a grama.
Na Quarta Sul as vinhas ficaram carregadas, e a produção de “fumo” foi assombrosa; e por todo canto havia tanto trigo que na Colheita todos os celeiros ficaram abarrotados. A cevada da Quarta Norte foi tão boa que a cerveja produzida com o malte de 1420 foi lembrada por muito tempo, e ficou proverbial. De fato, uma geração mais tarde, nalguma estalagem ainda se podia observar algum velho que, depois de uma boa e merecida cerveja, colocava a caneca na mesa e dizia com um suspiro: “Ah! Essa foi como uma 1420!”
No início, Sam ficou na casa dos Villas com Frodo, mas, quando a rua Nova ficou pronta, foi morar com o Feitor. Além de todos os seus outros trabalhos, ele estava ocupado na supervisão da limpeza e reforma de Bolsão; mas ele sempre viajava pelo Condado para acompanhar o trabalho nas florestas. Por isso, ele não estava em casa em março, e não ficou sabendo que Frodo adoeceu. No dia treze daquele mês o Fazendeiro Villa encontrou Frodo de cama; agarrava uma pedra branca pendurada em uma corrente em seu pescoço, e parecia estar numa espécie de sonho.
— Foi-se para sempre — dizia ele — e agora tudo está escuro e vazio.
Mas o acesso passou e, quando Sam voltou no dia vinte e cinco, Frodo estava recuperado, e não disse nada sobre o que lhe acontecera.
Enquanto isso Bolsão ficou em ordem, e Merry e Pippin vieram de Cricôncavo trazendo toda a mobília e os equipamentos antigos, de forma que a velha toca logo ficou com a aparência que sempre tivera.
Quando tudo estava pronto, Frodo disse:
— Quando é que você vai se mudar para cá e morar comigo, Sam?
Sam parecia um pouco desconcertado.
— Não precisa vir já, se não quiser — disse Frodo. — Mas você sabe que o Feitor mora aqui perto, e será muito bem cuidado pela Viúva Rumble.
— Não é isso, Sr. Frodo — disse Sam, corando muito.
— Bem, o que é então?
— É Rosinha, Rosa Villa — disse Sam. — Parece que em nada lhe agradava a minha viagem para o exterior, pobre menina; mas, como eu não havia dito nada sobre isso, ela não pôde se manifestar. E eu não comentei porque primeiro precisava fazer o trabalho. Mas agora comentei, e ela diz: “Bem, você desperdiçou um ano, então por que esperar mais?” “Desperdicei?”, digo eu. “Não chamaria isso de desperdiçar.” Mas, mesmo assim, entendo o que ela quer dizer; sinto-me dividido ao meio, como se diz.
— Entendo — disse Frodo — você quer se casar, e ao mesmo tempo quer viver comigo em Bolsão? Mas, meu querido Sam, isso é fácil! Case-se o mais depressa possível, e então mude para cá com Rosinha. Há lugar suficiente em Bolsão para a maior família que você possa desejar.
E assim ficou acertado. Sam Gamgi casou-se com Rosa Villa na primavera de 1420 (que ficou famosa por seus casamentos), e os dois vieram morar em Bolsão.
E, se Sam se julgava uma pessoa de sorte, Frodo sabia que tinha mais sorte ainda, pois não havia um hobbit no Condado que fosse tratado com tanto cuidado. Quando os trabalhos de reforma estavam todos planejados e em andamento, ele se retirou para uma vida tranquila, escrevendo muito e examinando todas as suas anotações. Demitiu-se do cargo de prefeito Substituto durante a Feira Livre do Solstício de Verão, e o bom e velho Will Pealvo continuou presidindo Banquetes por mais sete anos.
Merry e Pippin viveram juntos por algum tempo em Cricôncavo, e havia muito vaivém entre a Terra dos Buques e Bolsão. Os dois jovens Viajantes faziam grande figura no Condado com suas canções e histórias e seus atavios refinados e suas festas maravilhosas. As pessoas diziam que eram “nobres”, dando à palavra um significado totalmente positivo, pois alegrava a todos os corações vê-los passar cavalgando, com suas malhas metálicas brilhantes e seus escudos esplêndidos, rindo e cantando canções de lugares distantes; e, se agora eram grandes e magníficos, nos outros pontos não haviam mudado nada, exceto pelo fato de que falavam mais bonito e estavam mais joviais e alegres do que nunca.
Frodo e Sam, entretanto, voltaram às suas roupas habituais, mas quando era necessário ambos usavam longas capas cinzentas de tecido fino, presas ao pescoço com belos broches; e o Sr. Frodo sempre usava uma joia branca numa corrente, que frequentemente tocava com os dedos.
Agora todas as coisas corriam bem, com esperança de sempre melhorarem; Sam estava tão ocupado e satisfeito como um hobbit poderia desejar. Para ele, nada estragou aquele ano, a não ser uma vaga preocupação com seu mestre. Frodo foi se retirando em silêncio de todas as atividades do Condado, e Sam sofria ao ver como ele era pouco homenageado em sua própria terra. Poucas pessoas sabiam ou se interessavam em saber sobre seus feitos e aventuras — a admiração delas recaia quase exclusivamente sobre o Sr. Meriadoc e o Sr. Peregrin e (sem que Sam o soubesse) sobre ele mesmo. Além disso, no outono, apareceu uma sombra de problemas antigos.
Numa noite Sam saiu do estúdio e encontrou seu mestre com uma aparência bastante estranha. Estava muito pálido, e seus olhos pareciam ver coisas distantes.
— Qual é o problema, Sr. Frodo? — perguntou Sam.
— Estou ferido — respondeu ele — estou ferido; isso nunca vai sarar.
Mas então ele se levantou e o mal-estar passou, e no outro dia ele estava normal de novo. Foi só depois que Sam se lembrou da data de seis de outubro. Dois anos antes, naquele dia, estava escuro no vale sob o Topo do Vento.
O tempo passou, e veio 1421. Frodo adoeceu outra vez em março, mas com um grande esforço escondeu a doença, pois Sam tinha outras coisas em que pensar. O primeiro filho de Sam e Rosinha nasceu no dia vinte e cinco de março, uma data que chamou a atenção de Sara.
— Bem, Sr. Frodo — disse ele. — Estou num dilema. Rosa e eu tínhamos resolvido dar à criança o nome de Frodo, com a sua permissão; mas não nasceu um menino, nasceu uma menina. Mas é a menina mais bonita que alguém poderia esperar, mais parecida com Rosa do que comigo, ainda bem. Então não sabemos o que fazer.
— Bem, Sam — disse Frodo. — O que há de errado com os velhos costumes? Escolha um nome de flor como Rosa. Metade das meninas do Condado têm esse tipo de nome, e o que poderia ser melhor?
— Acho que o senhor tem razão, Sr. Frodo — disse Sam. — Ouvi alguns nomes bonitos em minhas viagens, mas acho que eles são meio grandes demais para o dia-a-dia, como se diz. O Feitor me disse: “Escolha um nome pequeno, para não precisar diminuí-lo antes de usá-lo.” Mas, se é para ser um nome de flor, não me incomodo com o tamanho: deve ser uma flor bonita porque, o senhor entende, eu acho que ela é muito bonita, e vai ficar ainda mais bonita.
Frodo pensou um instante.
— Bem, Sam, que tal Elanor, a estrela-do-sol, você se lembra da florzinha no gramado de Lothlórien?
— O senhor está certo de novo, Sr. Frodo! — disse Sam deliciado. — Era isso o que eu queria.
A pequena Elanor estava com quase seis meses, e 1421 já atingira o outono, quando Frodo pediu que Sam fosse ao seu estúdio.
— Na quinta-feira será o Aniversário de Bilbo, Sam — disse ele. — E ele vai ultrapassar o Velho Túk. Vai completar cento e trinta e um anos!
— É isso mesmo! — disse Sam. — Ele é um prodígio!
— Bem, Sam — disse Frodo. — Quero que você fale com a Rosa e veja se ela pode dispensá-lo, para que eu e você possamos sair juntos. Você não pode se ausentar por muito tempo agora, é claro — disse ele um pouco ansioso.
— Bem, acho que não, Sr. Frodo.
— Claro que não. Mas não se preocupe. Você pode me acompanhar no começo da viagem. Diga a Rosa que você não vai ficar fora muito tempo. Não mais que quinze dias, e que voltará são e salvo.
— Gostaria de poder acompanhá-lo até Valfenda, Sr. Frodo, e ver o Sr. Bilbo — disse Sam. — E apesar disso o único lugar onde realmente quero estar é aqui. Estou dividido em dois.
— Pobre Sam! Receio que é assim que vai se sentir — disse Frodo. — Mas vai se curar. Você nasceu para ser sólido e inteiro, e será.
Nos dois dias seguintes Frodo examinou seus papéis e seus escritos com Sam, e entregou-lhe as chaves. Havia um grande livro com capa de couro vermelha e lisa; suas páginas grandes estavam agora quase totalmente preenchidas. No início, havia várias folhas cobertas com a caligrafia fina e trêmula de Bilbo; mas a maioria estava escrita com a letra firme e corrida de Frodo. Estava dividido em capítulos, mas o Capítulo Oitenta estava inacabado, e depois dele havia algumas folhas em branco. A página de rosto trazia vários títulos, riscados um após o outro, assim:
Meu Diário. Minha Viagem Inesperada. Lá e de Volta Outra Vez. E o Que Aconteceu Depois. Aventuras de Cinco Hobbits. A História do Grande Anel, compilada por Bilbo Bolseiro a partir de suas próprias observações e dos relatos de seus amigos. O que fizemos na Guerra do Anel.
Aqui terminava a letra de Bilbo e Frodo havia escrito:

A QUEDA
DO
SENHOR DOS ANÉIS
E O
RETORNO DO REI

(segundo as Pessoas Pequenas; contendo as memórias de Bilbo
e Frodo do Condado, suplementadas pelos relatos de
seus amigos e pelos ensinamentos dos Sábios)
Juntamente com excertos de Livros da Tradição
traduzidos por Bilbo em Valfenda.

— Ora, ora, o senhor praticamente terminou o livro, Sr. Frodo! — exclamou Sam. — Bem, o senhor trabalhou com afinco, devo dizer.
— Eu quase terminei, Sam — disse Frodo. — As últimas páginas são para você.


No dia vinte e um de setembro eles partiram juntos, Frodo no pônei que o trouxera desde Minas Tirith, e que agora se chamava Passolargo, e Sam em seu adorado Bill. Era uma manhã bela e dourada, e Sam não perguntou para onde iam: achava que podia adivinhar.
Pegaram a Estrada de Tronco através das colinas e foram na direção da Ponta do Bosque, e deixaram que os pôneis avançassem tranquilos. Acamparam nas Colinas Verdes, e no dia vinte e dois de setembro desceram suavemente até o início das árvores, enquanto a tarde terminava.
— Ora, ora, aquela não é exatamente a árvore atrás da qual o senhor se escondeu quando o Cavaleiro Negro apareceu pela primeira vez, Sr. Frodo? — disse Sam apontando para a esquerda. — Agora parece um sonho!
Já anoitecera e as estrelas estavam faiscando no céu do leste quando eles passaram pelo carvalho apodrecido, viraram-se e desceram a colina entre os arbustos de aveleiras.
Sam estava quieto, perdido em recordações. De repente percebeu que Frodo estava cantando baixinho consigo mesmo, cantando a velha canção de caminhar, mas a letra não era a mesma.

Talvez me espere noutra esquina
Porta secreta ou nova sina;
Embora sempre vão passando
Virá enfim o dia quando
Sendas secretas seguirei
Sem sol, sem lua eu partirei.

E como que em resposta, lá debaixo, subindo a estrada que vinha do vale, vozes cantaram:

A! Elbereth Gilthoniel! silivren penna minel
o menel aglar elenath, Gilthoniel, A! Elbereth!
Lembramos sim nós que moramos,
Aqui distantes, na floresta, Que brilho ao
Mar a Estrela empresta.

Frodo e Sam pararam e sentaram-se em silêncio na sombra fresca, até que viram uma luz fraca no momento em que os viajantes vieram na direção deles, estava Gildor e muitos outros belos elfos; para a surpresa de Sam, também vinham a cavalo Elrond e Galadriel. Elrond estava com um manto cinza e tinha uma estrela sobre a testa; trazia na mão uma harpa de prata e no dedo um anel de ouro com uma grande pedra azul, Vilya, o mais poderoso dos Três. Mas Galadriel montava um palafrém branco e vinha toda vestida de um branco reluzente, como as nuvens em torno da lua; pois parecia que ela mesma emanava uma luz suave. Em seu dedo estava Nenya, o anel feito de mithril, que exibia uma única pedra branca faiscante como uma gélida estrela.
Avançando lentamente logo atrás, num pequeno pônei cinzento, cabeceando de sono ao que parecia, vinha Bilbo em pessoa.
Elrond os saudou com graça e gravidade, e Galadriel sorriu para eles.
— Bem, Mestre Samwise — disse ela. — Ouvi dizer e vejo agora que você usou bem o meu presente. Agora mais que nunca o Condado será abençoado e amado.
Sam se curvou, sem saber o que dizer. Esquecera-se de como a Senhora era bela.
Então Bilbo acordou e abriu os olhos.
— Olá, Frodo! disse ele. — Bem, hoje ultrapassei o Velho Túk. Então fica tudo certo. E agora acho que estou pronto para fazer uma outra viagem. Você vem?
— Sim, eu vou — disse Frodo. — Os Portadores dos Anéis devem ir juntos.
— Aonde o senhor vai, Mestre? — exclamou Sam, embora finalmente percebesse o que estava se passando.
— Para os Portos, Sam — disse Frodo.
— E eu não posso ir.
— Não, Sam. Pelo menos não por enquanto, não além dos Portos. Embora você também tenha sido um Portador do Anel, mesmo que por pouco tempo. O seu tempo pode chegar. Não fique muito triste, Sam. Você não pode sempre ficar dividido em dois. Terá de ser um e inteiro, por muitos anos. Ainda tem muito para desfrutar, para ser e para fazer.
— Mas — disse Sam, com as lágrimas brotando em seus olhos — achei que o senhor também ia desfrutar o Condado, por muitos e muitos anos, depois de tudo o que fez.
— Eu também já pensei desse modo. Mas meu ferimento foi muito profundo, Sam. Tentei salvar o Condado, e ele foi salvo, mas não para mim. Muitas vezes precisa ser assim, Sam, quando as coisas correm perigo: alguém tem de desistir delas, perdê-las, para que outros possam tê-las. Mas você é meu herdeiro: tudo o que tive e poderia ter tido lhe deixo. E também você tem Rosa e Elanor; e o menino Frodo virá, e a menina Rosinha; e Merry, Cachinhos Dourados e Pippin, e talvez ainda outros mais que eu não consigo ver. Suas mãos e suas atenções serão necessárias em todo lugar. Você será o Prefeito, é claro, enquanto quiser ser, e o jardineiro mais famoso da história; e você lerá coisas no Livro Vermelho, e manterá viva a memória da era que se passou; assim as pessoas se lembrarão do Grande Perigo e amarão mais ainda sua terra querida. E isso o manterá tão ocupado e feliz quanto alguém pode estar, enquanto prosseguir a sua parte da História. Venha agora, cavalgue comigo!
Então Elrond e Galadriel foram-se cavalgando, pois a Terceira Era estava terminada, e os Dias dos Anéis eram passados, chegando o fim da história e das canções daquele tempo. Com eles foram muitos elfos da Alta Linhagem que não queriam mais permanecer na Terra Média; entre eles, cheios de uma tristeza que apesar disso era abençoada e sem amargura, foram Sam, Frodo e Bilbo, com os elfos felizes em prestar-lhes homenagem.
Embora tenham cavalgado através do território do Condado durante toda a noite, ninguém os viu passar, a não ser as criaturas selvagens, ou algum andarilho aqui ou acolá, que viu um brilho rápido sob as árvores, ou uma luz e uma sombra correndo pela grama à medida que a lua rumava para o oeste. E quando tinham deixado o Condado, contornando a borda sul das Colinas Brancas, chegaram às Colinas Distantes, e às Torres, e contemplaram o Mar ao longe; e assim finalmente desceram até Mithlond, para os Portos Cinzentos, no longo estuário de Lún.
Quando chegaram aos portões, Cirdan, o Armador, aproximou-se para cumprimentá-los. Era muito alto e tinha uma barba muito comprida, os cabelos grisalhos e um rosto velho, a não ser pelos olhos que eram brilhantes como as estrelas; olhou para eles e fez uma reverência, dizendo depois:
— Já está tudo pronto.
Então Cirdan os conduziu até os portos, e lá havia um navio branco ancorado; no cais, ao lado de um grande cavalo cinzento, via-se um vulto vestido todo de branco à espera deles. No momento em que o vulto se virou e veio ao encontro da comitiva, Frodo viu que Gandalf agora usava abertamente em sua mão o Terceiro Anel, Narya, o Grande, que ostentava uma pedra rubra como o fogo. Então aqueles que estavam de partida se alegraram, pois souberam que Gandalf também embarcaria no navio junto com eles.
Mas Sam agora tinha o coração triste, e a impressão de que, se a despedida seria amarga, mais amargo ainda seria o retorno solitário pela longa estrada de volta para casa.
Mas no momento em que estavam lá, os elfos já embarcando, e tudo preparado para a partida, surgiram cavalgando numa grande velocidade Merry e Pippin.
E em meio às lágrimas Pippin riu.
— Você já tentou escapar de nós uma vez e fracassou, Frodo — disse ele.
— Desta vez você quase conseguiu, mas fracassou de novo. Mas agora não foi Sam quem deu com a língua nos dentes, mas o próprio Gandalf.
— É sim — disse Gandalf — pois será melhor cavalgar para casa com dois amigos do que sozinho. Bem, aqui finalmente, caros amigos, nas praias do Mar, chega o fim de nossa sociedade na Terra Média. Vão em paz! Não pedirei que não chorem, pois nem todas as lágrimas são um mal.
Então Frodo beijou Merry e Pippin, e por último Sam; depois embarcou; as velas foram içadas, o vento soprou e lentamente o navio se afastou ao longo do estuário comprido e cinzento; e a luz do frasco de Galadriel que Frodo carregava faiscou e se perdeu. E o navio avançou para o Alto Mar e prosseguiu para o oeste, até que por fim, numa noite de chuva, Frodo sentiu uma doce fragrância no ar e ouviu o som de um canto chegando pela água. E então teve a mesma impressão que tivera no sonho na casa de Bombadil; a cortina cinzenta de chuva se transformou num cristal prateado e se afastou, e Frodo avistou praias brancas e atrás delas uma terra vasta e verde sob o sol que subia depressa.
Mas para Sam, que permanecera no Porto, a noite se aprofundou na escuridão; e enquanto contemplava o mar cinzento ele via apenas uma sombra sobre as águas, que logo se perdeu no oeste. Sam continuou ali ainda um bom tempo, ouvindo apenas o suspiro e o murmúrio das ondas nas praias da Terra Média, e o som delas penetrava fundo em seu coração. Ao lado dele estavam Merry e Pippin, em silêncio.
Por fim os três companheiros se voltaram, e sem olhar para trás mais nem uma vez sequer foram lentamente em direção de casa; não trocaram palavra até chegarem de volta ao Condado, mas cada um sentia um grande consolo na companhia dos amigos, naquela longa estrada cinzenta.
Finalmente atravessaram as colinas e pegaram a Estrada Leste, e depois Merry e Pippin se dirigiram para a Terra dos Buques, e já estavam de novo cantando quando se despediram. Mas Sam tomou o caminho de Beirágua, e assim subiu outra vez a Colina, quando o dia terminava mais uma vez. E ele prosseguiu, e havia uma luz amarela, e fogo lá dentro; a refeição da noite estava pronta, como ele esperava. Rosa o recebeu, levou-o até a sua cadeira, colocando a pequena Elanor no colo do pai.
Sam respirou fundo.
— É, aqui estou de volta — disse ele.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!