24 de abril de 2016

Capítulo IX - O último debate

Chegou a manhã após o dia de batalha, uma manhã bela com leves nuvens e o vento se virando para o oeste. Legolas e Gimli saíram logo cedo, e pediram permissão para subirem até a Cidade, pois estavam ansiosos para ver Merry e Pippin.
— É bom saber que ainda estão vivos — disse Gimli —, pois nos custaram muito sofrimento em nossa marcha através de Rohan, e eu não gostaria que todo esse sofrimento fosse desperdiçado.
Juntos, elfo e anão entraram em Minas Tirith, e as pessoas que passavam por eles se assombravam ao verem tais companheiros, pois Legolas tinha no rosto uma beleza que ultrapassava a medida dos homens, e cantava uma canção élfica com voz clara ao caminhar pela manhã; mas Gimli vinha atrás dele andando empertigado, cofiando a barba e fitando tudo ao redor.
— Há um bom trabalho feito em pedra aqui — disse ele, olhando para as muralhas — mas também há trabalhos piores, e as ruas podiam ter sido mais bem planejadas. Quando Aragorn assumir seu posto, vou lhe oferecer o serviço dos artesãos da Montanha, e vamos fazer desta uma cidade de que se possa sentir orgulho.
— Eles precisam de mais jardins — disse Legolas. — As casas não têm vida, e aqui há pouquíssima coisa que cresce e alegra. Se Aragorn assumir seu posto, o povo da Floresta lhe trará pássaros que cantam e árvores que não morrem.
Finalmente chegaram à presença do Príncipe Imrahil; Legolas, olhando para ele, fez uma grande reverência, pois viu que realmente ele tinha nas veias o sangue dos elfos.
— Salve, senhor! — disse ele. — Já faz muito tempo que o povo de Nimrodel deixou as florestas de Lórien, e mesmo assim ainda se pode ver que nem todos partiram do porto de Amroth, navegando para o oeste.
— Assim conta a tradição de minha terra — disse o Príncipe —; mas há anos sem conta não se vê aqui alguém do belo povo. E fico maravilhado em deparar com um deles aqui agora, em meio à tristeza e à guerra. O que procura?
— Sou um dos Nove Companheiros que partiram com Mithrandir de Imíadris — disse Legolas — e com este anão, meu amigo, vim com o Senhor Aragorn. Mas agora desejamos ver nossos amigos, Meriadoc e Peregrin, que estão sob sua proteção, pelo que ouvimos falar.
— Vão encontrá-los nas Casas de Cura, e vou levá-los até lá — disse.
— Basta que peça para alguém nos guiar, senhor— disse Legolas. — Pois Aragorn lhe envia esta mensagem: no momento, ele não deseja entrar outra vez na Cidade. Mas é preciso que os capitães se reúnam imediatamente, e ele pede que o senhor e Éomer de Rohan desçam até suas tendas o mais cedo possível. Mithrandir já está lá.
— Nós iremos — disse Imrahil; despediram-se com palavras corteses.
— Aí está um belo senhor e um grande capitão de homens — disse Legolas. — Se Gondor ainda tem homens assim atualmente, na sua decadência, grande deve ter sido sua glória nos dias de ascensão.
— E sem dúvida o trabalho em pedra que é de boa qualidade é o mais antigo, e foi feito na primeira construção — disse Gimli. — É sempre assim com as coisas que os homens começam; há uma geada na primavera, ou uma praga no verão, e suas promessas fracassam.
— Mas raramente fracassa sua semente — disse Legolas. — Esta fica na poeira e na ruína, para germinar de novo em tempos e lugares inesperados. Os feitos dos homens sobreviverão a nós, Gimli.
— Apesar disso, na minha opinião, no fim não sobra nada além do que “poderia ter sido” — disse o anão.
— Para isso os elfos não têm a resposta — disse Legolas.
Nessa hora o servidor do Príncipe veio e os conduziu até as Casas de Cura; lá viram seus amigos no jardim, e foi um feliz encontro. Por um tempo, caminharam e conversaram, regozijando-se durante um breve lapso de paz e descanso matinal, lá em cima, nos círculos da Cidade batidos pelo vento. Então, quando Merry ficou cansado, foram se sentar sobre a muralha, diante do gramado das Casas de Cura; mais distante ao sul, à frente deles, o Anduin brilhava ao sol, correndo para longe, fora do alcance da visão até mesmo de Legolas, entrando nas amplas planícies e na névoa verde de Lebennin e Ithilien do Sul.
Legolas estava agora em silêncio, enquanto os outros continuavam a conversar. Olhava contra o sol, vendo os brancos pássaros marítimos subindo o Rio.
— Olhem! — gritou ele. — Gaivotas! Estão avançando para a terra. São uma maravilha para os meus olhos, e um distúrbio para meu coração. Nunca as tinha visto em toda a minha vida até chegarmos a Pelargir, e lá as ouvi gritando no ar quando cavalgamos para a batalha dos navios. Então fiquei quieto, esquecendo-me da guerra na Terra Média, pois suas vozes dolentes falavam-me do Mar. O Mar! Ai de mim! Nunca o contemplei ainda. Mas no fundo dos corações de todo o meu povo existe uma saudade do Mar que é perigoso despertar. Ai, as gaivotas! Nunca terei paz outra vez, sob a faia ou sob o olmo.
— Não fale isso! — disse Gimli. — Ainda existem inúmeras coisas para se ver na Terra Média, e grandes trabalhos a fazer. Mas, se todo o belo povo for para os Portos, o mundo será mais monótono para aqueles fadados a ficar.
— Monótono e terrível, realmente! — disse Merry. — Não deve ir para os portos, Legolas. Sempre haverá pessoas, grandes ou pequenas, e até mesmo alguns anões sábios como Gimli, que precisam de você. Pelo menos espero que seja assim. Embora sinta de alguma forma que o pior desta guerra ainda está por vir. Como gostaria que estivesse tudo acabado, e bem acabado!
— Não seja tão melancólico! — exclamou Pippin. — O sol está brilhando, e aqui estamos nós juntos, pelo menos por um ou dois dias. Quero ouvir mais sobre todos vocês. Vamos lá, Gimli! Você e Legolas já mencionaram sua estranha viagem com Passolargo cerca de umas doze vezes esta manhã. Mas não me contaram nada sobre ela.
— O sol pode brilhar aqui — disse Gimli —, mas há lembranças daquela estrada que não quero evocar da escuridão. Se soubesse o que me esperava, acho que por amizade alguma teria caminhado nas Sendas dos Mortos.
— As Sendas dos Mortos? — disse Pippin. — Ouvi Aragorn dizer esse nome, e fiquei pensando o que poderia significar. Não vai nos contar mais um pouco?
— Não de bom grado — disse Gimli. — Pois naquela estrada fui exposto à vergonha: Gimli, filho de Glóin, que se considerara mais corajoso que os homens, e mais resistente sob a terra que qualquer elfo. Mas não me saí nem uma coisa nem outra, e só continuei na estrada por causa da vontade de Aragorn.
— E também pelo amor que sente por ele — disse Legolas. — Pois todos aqueles que vêm a conhecê-lo acabam amando-o à sua própria maneira, até mesmo a donzela fria dos rohirrim. Foi no início da manhã anterior ao dia em que você chegou lá, Merry, que nós partimos do Templo da Colina, e todo o povo estava dominado por tamanho medo que ninguém assistiu à nossa partida, exceto a Senhora Éowyn, que agora está ferida na Casa lá embaixo. Houve tristeza na despedida, e eu fiquei pesaroso ao assistir à cena.
— Ai de mim! Só tinha pensamentos para minha própria pessoa — disse Gimli. — Não! Não vou falar daquela viagem!
Ficou em silêncio, mas Pippin e Merry estavam tão ávidos por noticias que finalmente Legolas disse:
— Vou contar-lhes o suficiente para que fiquem em paz, pois eu não senti o terror, e não temi as sombras dos homens, que considerei frágeis e desprovidas de poder.
Rapidamente o elfo contou sobre a estrada assombrada sob as montanhas, e sobre o obscuro encontro em Erech, e a grande cavalgada que partiu de lá, noventa e três léguas, até Pelargir sobre o Anduin.
— Quatro dias e quatro noites, mais o início de um quinto dia, cavalgamos partindo da Pedra Negra — disse ele. — E eis que na escuridão de Mordor minha esperança aumentou, pois então o exercito de Sauron tem ficado mais forte e mais terrível de se olhar. Alguns eu vi cavalgando, alguns andando a passo largo, mas todos se movendo na mesma grande velocidade. Eram silenciosos, mas tinham um brilho nos olhos. Nas terras altas de Lamedon alcançaram nossos cavalos, espalharam-se à nossa volta e nos teriam ultrapassado, se Aragorn não os tivesse proibido. A uma ordem sua recuaram. “Até mesmo as sombras dos homens são obedientes à vontade dele”, pensei eu. “Elas ainda lhe podem ser úteis!”
“Cavalgamos num dia de luz, e então veio a manhã sem aurora, e ainda continuamos avançando, cruzando Ciril e Ringló; no terceiro dia chegamos a Linhir, sobre a foz do Gilrain. E lá os homens de Lamedon disputavam os vaus com o povo cruel de Umbar e Harad, que tinha subido o rio navegando. Mas tanto os defensores como os inimigos desistiram da batalha e fugiram quando chegamos, gritando que o Rei dos Mortos os estava atacando. Apenas Angbor, Senhor de Lamedon, teve a coragem de nos esperar; Aragorn então pediu que ele reunisse seu povo e nos seguisse, se eles ousassem, depois que o Exército Cinzento tivesse passado. “Em Pelargir o Herdeiro de Isildur precisará de você”, disse ele. Assim atravessamos o Gilrain, fazendo com que os aliados de Mordor fugissem em debandada à nossa frente; depois descansamos um pouco. Mas logo Aragorn levantou-se, dizendo: “Vejam, Minas Tirith já está sendo atacada. Receio que caia antes que cheguemos em seu socorro.” Assim montamos de novo antes que a noite tivesse passado e avançamos sobre a planície de Lebennin com toda a velocidade que nossos cavalos puderam suportar.
Legolas fez uma pausa e suspirou; voltando os olhos para o sul, cantou em voz baixa:

Em prata fluem os rios de Celos até Erui
Nos verdes campos de Lebennin!
Lá a grama cresce alta. Ao vento que vem do mar
Os brancos lírios dançam,
E os sinos dourados balançam de maílos e alflrin
Nos verdes campos de Lebennin,
Ao vento que vem do Mar

— Verdes são aqueles campos nas canções de meu povo; mas naquela hora estavam escuros, vastidões cinzentas no negrume diante de nós. E naquela imensa região, pisoteando sem qualquer cuidado a grama e as flores, caçamos nossos inimigos durante um dia e uma noite, até que a duras penas chegamos finalmente ao Grande Rio. Então pensei comigo mesmo que estávamos próximos do Mar, pois o rio era largo na escuridão, e inúmeros pássaros marítimos gritavam nas margens. Ai, o lamento das gaivotas! A Senhora não tinha me dito para tomar cuidado com elas? E agora não posso esquecê-las.
— De minha parte, não lhes dei atenção — disse Gimli — pois então havíamos finalmente chegado ao momento de travar uma batalha a sério. Lá em peíargir estava a principal frota de Umbar, cinquenta navios grandes e inúmeros outros barcos menores. Muitos daqueles que perseguíramos haviam chegado aos portos na nossa frente, levando consigo o medo; alguns dos navios tinham partido, procurando escapar descendo o Rio ou alcançar a margem oposta, e muitos dos barcos menores estavam em chamas. Mas os haradrim, acossados até a margem, viraram-se contra nós furiosos em seu desespero; riram-se quando nos observaram, pois ainda formavam uma grande armada. Mas Aragorn parou e gritou numa voz forte: “Venham agora! Pela Pedra Negra eu os conclamo!” E de repente o Exército da Sombra, que ficara na retaguarda, no instante supremo avançou como uma onda cinzenta, varrendo tudo o que encontrava pela frente. Ouvi gritos fracos, e toques indistintos de cornetas, e o murmúrio de incontáveis vozes distantes: era como o eco de alguma batalha esquecida dos Anos Escuros de outrora. Espadas pálidas apareceram; mas não sei se as lâminas ainda mordiam, pois os Mortos não precisavam de outra arma além do medo.
“Ninguém lhes ofereceu resistência. Tomaram todos os navios que estavam alinhados para a batalha, e depois passaram sobre as águas para aqueles que estavam ancorados; todos os marinheiros foram dominados por uma loucura de terror e saltaram para a água, exceto os escravos acorrentados aos remos. Avançamos impávidos em meio aos nossos inimigos em fuga, varrendo-os como folhas, até chegarmos à margem. E então Aragorn designou, para cada um dos navios que restavam, um dos dúnedain, que consolaram os cativos que estavam a bordo, ordenando-lhes que afastassem o medo e se considerassem livres.
“Antes do final do dia escuro, não restava ninguém do exército inimigo para nos oferecer resistência; todos estavam afogados, ou então fugindo para o sul na esperança de atingirem suas próprias terras a pé. Achei estranho e surpreendente o fato de que os desígnios de Mordor devessem ser frustrados por tais espectros de medo e escuridão. Com suas próprias armas o inimigo foi derrotado!
— É realmente estranho — disse Legolas. — Naquele momento, olhei para Aragorn e pensei em que grande e terrível Senhor ele poderia ter-se tornado mediante a força de sua vontade, se tivesse tomado o Anel para si. Não é à toa que Mordor o teme. Mas seu espírito é mais nobre que o entendimento de Sauron; pois não é ele um descendente de Lúthien? Essa linhagem nunca se extinguirá, embora os anos possam se alongar além da conta.
— Essas previsões estão além do alcance dos olhos dos anões — disse Gimli. — Mas Aragorn foi realmente poderoso naquele dia. Vejam bem. Toda a frota negra estava em suas mãos, e ele escolheu para si o maior navio, e nele embarcou. Então mandou tocar um grande conjunto de trombetas, tomadas do inimigo, e o Exército de Sombra se retirou para a margem. Ali ficaram em silêncio, quase invisíveis, a não ser por um brilho vermelho nos olhos, que refletiam o clarão dos barcos em chamas. E Aragorn dirigiu-se numa voz alta aos Homens Mortos, dizendo: “Ouçam agora as palavras do Herdeiro de Isildur! O juramento que fizeram está cumprido. Partam então e não voltem a perturbar os vales de novo! Vão e fiquem em paz!” E então o Rei dos Mortos apresentou-se à frente do exército, quebrou sua lança e a jogou no chão. Depois fez uma grande reverência e virou-se; rapidamente todo o exército cinzento se retirou e desapareceu como uma névoa que é varrida por um vento repentino; tive a impressão de ter acordado de um sonho.
“Naquela noite descansamos enquanto outros trabalhavam. Pois havia muitos cativos que foram libertados, e muitos escravos, agora livres, que eram pessoas de Gondor, aprisionadas em ataques; e logo também se formou um grande ajuntamento de homens de Lebennin e do Ethir, e Angbor de Lamedon veio com todos os cavaleiros que pôde reunir. Agora que o medo dos Mortos passara, vinham para nos ajudar e para ver o Herdeiro de Isildur, pois o rumor desse nome se espalhara como fogo na escuridão. E agora chegamos perto do fim da história. Durante a noite e a madrugada muitos navios foram preparados e guarnecidos com homens; pela manhã a frota partiu. Agora parece que tudo aconteceu há muito tempo, e apesar disso foi apenas na manhã do dia anterior a ontem, o sexto desde que partimos do Templo da Colina. Mas ainda assim Aragorn estava tomado pelo receio de que o tempo fosse curto demais. “São quarenta e duas léguas do Pelargir até o cais de Harlond”, dizia ele. “Mesmo assim precisamos chegar ao Harlond amanhã ou teremos falhado completamente.”
“Agora os remos eram empunhados por homens livres, que trabalhavam valentemente; apesar disso, subimos o Grande Rio com lentidão; lutávamos contra a corrente, e, embora ela não seja forte no sul, nós não tínhamos a ajuda do vento. Meu coração teria ficado pesado, apesar de toda a nossa vitória nos portos, se Legolas não tivesse soltado uma risada de repente. ‘Levante essa barba, filho de Durin!’ disse ele. ‘Pois assim diz o ditado: A esperança talvez nasça, quando tudo é desgraça.’
“Mas que esperança enxergava ao longe ele não disse. Quando a noite chegou, só fez aprofundar a escuridão, e nossos corações estavam fervendo, pois na distância ao norte vimos um clarão vermelho sob a nuvem, e Aragorn disse: ‘Minas Tirith está em chamas.’
“Mas à meia-noite a esperança realmente renasceu. Marinheiros do Ethir, olhando para o sul, falaram de uma mudança chegando com um vento forte vindo do Mar. Muito antes de o dia raiar, os navios com mastros içaram as velas, e nossa velocidade aumentou, até que a aurora branqueasse a espuma em nossas proas. E foi assim, vocês sabem, que chegamos na terceira hora da manhã com um belo vento e o sol descoberto, e desfraldamos o grande estandarte na batalha. Foi um grande dia e uma grande hora, não importa o que possa acontecer depois.
— Venha o que vier, grandes feitos não ficam diminuídos em seu valor — disse Legolas. — Foi um grande feito a cavalgada das Sendas dos Mortos, e grande continuará sendo, mesmo que não reste ninguém em Gondor para cantá-lo nos dias que virão.
— E isso pode muito bem acontecer — disse Gimli. — Pois os rostos de Aragorn e Gandalf estão graves. Penso muito em que resoluções estarão tomando nas tendas lá embaixo. De minha parte, como Merry, gostaria que com a nossa vitória a guerra estivesse agora terminada. Mas, no que quer que ainda haja por fazer, espero ter uma parte, pela honra do povo da Montanha Solitária.
— E eu pelo povo da Grande Floresta — disse Legolas — e por amor do Senhor da Árvore Branca.
Então os companheiros se calaram, mas por um tempo ficaram ali sentados naquele lugar alto, cada um ocupado com seus próprios pensamentos, enquanto os Capitães debatiam.


Quando o Príncipe Imrahil despediu-se de Legolas e Gimli, mandou imediatamente chamar Éomer; os dois desceram juntos da Cidade, e foram para as tendas de Aragorn que estavam armadas no campo, não muito longe do local onde o rei Théoden tombara. E ali tomaram decisões, junto com Gandalf, Aragorn e os filhos de Elrond.
— Meus senhores — disse Gandalf — ouçam as palavras que disse o Regente de Gondor antes de morrer: Vocês podem triunfar nos campos do Pelennor por um dia, mas contra o Poder que agora surgiu não há vitória. Não estou pedindo que se desesperem, como fez ele, mas para que ponderem a verdade dessas palavras.
“Pedras-videntes não mentem, e nem mesmo o Senhor de Barad-dûr pode fazê-las mentir. Talvez ele possa, com sua vontade, escolher que coisas serão vistas por mentes mais fracas, ou fazê-las interpretar erroneamente o significado do que veem. Não obstante, não se pode duvidar de que, quando Denethor viu grandes forças reunidas contra ele em Mordor, e mais outras se reunindo, ele viu o que realmente é.
“Nossa força mal conseguiu vencer o primeiro grande assalto. O próximo será maior. Esta guerra não nos oferece esperança final, como Denethor percebeu. A vitória não pode ser conseguida por meio de armas, quer vocês permaneçam aqui e suportem cerco após cerco, quer saiam em marcha para serem derrotados além do Rio. Vocês têm apenas uma escolha entre os males, e a prudência deveria aconselhá-los a reforçarem todas as fortalezas que possuírem, e lá esperarem o ataque; dessa forma, o tempo antes de seu fim poderá ficar um pouco mais longo.
— Então você aconselha que nos retiremos para Minas Tirith ou Doí Amroth ou para o Templo da Colina, e que fiquemos nesses lugares sentados como crianças sobre castelos de areia, quando a maré está subindo? — disse Imrahil.
— Isso não seria nenhum conselho inédito — disse Gandalf. — Não foi isso o que fizeram, ou pouco mais que isso, nos dias de Denethor? Mas não! Eu disse que isso seria prudente. Não aconselho a prudência. Disse que a vitória não poderia ser conquistada por meio de armas. Ainda alimento a esperança na vitória, mas não através de armas. Pois em meio a todas essas estratégias está o Anel de Poder, o alicerce de Barad-dûr, e a esperança de Sauron. Em relação a essa coisa, meus senhores, agora todos vocês sabem o suficiente para o entendimento da nossa situação, e da de Sauron. Se ele a conseguir de volta, a valentia de vocês será inútil, e a vitória dele será rápida e completa: tão completa que ninguém pode prever o fim dela enquanto durar o mundo. Se ela for destruída, então ele cairá, e sua queda será tão grande que ninguém pode prever a possibilidade de que jamais venha a ascender de novo. Pois perderá a melhor parte da força que nasceu junto com ele, e tudo o que foi feito ou começado com esse poder ruirá, e ele ficará mutilado para sempre, transformando-se num simples espírito maligno que se corrói nas sombras, mas que não pode crescer ou tomar forma outra vez. E assim desaparecerá um grande mal deste mundo.
“Outros males existem que poderão vir; pois o próprio Sauron é apenas um servidor ou emissário. Todavia não é nossa função controlar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que pudermos para socorrer os tempos em que estamos inseridos, erradicando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que viverem depois tenham terra limpa para cultivar. Que tempo encontrarão não é nossa função determinar. Agora Sauron sabe de tudo isso, e sabe que essa coisa preciosa que perdeu foi encontrada novamente; mas ainda não sabe onde está, ou pelo menos assim esperamos. E, portanto, agora ele está numa grande dúvida. Pois, se nós encontramos a coisa, há alguns entre nós com força suficiente para controlá-la. Isso ele também sabe. Pois não estou certo, Aragorn, quando suponho que você se mostrou a ele na Pedra de Orthanc?
— Fiz isso antes de partir do Forte da Trombeta — respondeu Aragorn. — Julguei que o tempo chegara, e que a Pedra viera até mim apenas com esse propósito. Fazia então dez dias que o Portador do Anel partira de Rauros para o leste, e eu pensei que o Olho de Sauron deveria ser atraído para fora de sua própria terra. Pouquíssimas vezes ele foi desafiado depois que retornou para sua Torre. No entanto, se eu tivesse previsto a velocidade do contra-ataque, talvez não tivesse ousado me revelar. Sobrou-me pouco tempo para vir em sua ajuda.
— Mas como fica isso? — perguntou Éomer. — Você diz que tudo é inútil se ele tiver o Anel. Por que não deveria ele julgar inútil nos atacar, se nós o tivermos?
— Ele ainda não tem certeza — disse Gandalf — e não construiu seu poder esperando até que seus inimigos estivessem seguros, como fizemos nós. Além disso, nós não poderíamos aprender como controlar todo o poder num único dia. Na verdade, o Anel só pode ser usado por um único mestre, e não por muitos; ele vai aguardar uma hora de discórdia, antes que um dos grandes entre nós se faça senhor e se coloque acima dos outros. Nessa hora o Anel pode ajudá-lo, se ele for rápido.
“Ele está vigiando. Vê muito e muito escuta. Seus nazgúl ainda estão à solta. Passaram sobre este campo antes de o sol nascer, embora poucos dos que estavam cansados ou dormindo se tenham dado conta disso. Ele estuda os sinais: a Espada que lhe roubou o tesouro reforjada; os ventos da fortuna virando a nosso favor, e a inesperada derrota em seu primeiro ataque, a queda de seu grande Capitão.
“Sua dúvida está crescendo, neste exato momento em que estamos falando aqui. Seu Olho está agora perscrutando em nossa direção, praticamente cego para tudo o mais que se move. Assim devemos mantê-lo. Aí está toda a nossa esperança. Este, então, é o meu conselho: não possuímos o Anel. Por sabedoria, ou por uma grande loucura, nós o enviamos para longe para ser destruído, e para evitar que nos destruísse. Sem o Anel, não podemos pela força destruir a força de Sauron. Mas devemos a todo custo manter seu Olho longe do verdadeiro perigo que o ameaça. Não podemos conquistar a vitória por meio das armas, mas por meio das armas podemos dar ao Portador do Anel sua única oportunidade, por mais frágil que seja.
“Como Aragorn começou, assim devemos continuar. Devemos empurrar Sauron para seu último lance. Devemos atrair sobre nós sua força oculta, de modo que esvazie seus domínios. Devemos marchar ao encontro dele imediatamente. Devemos transformar-nos em iscas, embora suas mandíbulas possam se fechar sobre nós. Ele aceitará essa isca, cheio de esperança e avidez, pois em tamanha audácia julgará estar vendo o orgulho do novo Senhor do Anel, e dirá: ‘Isso! Ele estica seu pescoço muito cedo e quer chegar muito longe. Deixarei que avance, e eis que o pegarei numa armadilha da qual não poderá escapar. Ali vou esmagá-lo, e o que me tomou em sua insolência será meu outra vez, para sempre.’
“Devemos caminhar de olhos abertos em direção a essa armadilha, com coragem, mas com pouca esperança para nós mesmos. Pois, meus senhores, pode muito bem acontecer que literalmente tombemos numa batalha negra longe das terras viventes, de modo que mesmo se Barad-dûr for destruída não viveremos para ver uma nova era. Mas considero que esta é nossa tarefa. E isso é melhor do que perecer, de qualquer forma – como certamente acontecerá, se ficarmos aqui parados – e saber na hora de nossa morte que não vai haver uma nova era.
Ficaram em silêncio por um tempo. Finalmente, Aragorn falou.
— Como já comecei, vou continuar. Chegamos agora exatamente à beira do abismo, onde a esperança é parente do desespero. Hesitar é cair. Que ninguém agora recuse os conselhos de Gandalf, cujos longos trabalhos contra Sauron finalmente serão testados. Se não fosse por ele, tudo estaria perdido há muito tempo. Não obstante, ainda não quero impor minha vontade a ninguém. Que os outros escolham como preferirem.
Então Elrohir disse:
— Viemos do norte com esse propósito, e de Elrond, nosso pai, trouxemos exatamente esse conselho. Não recuaremos.
— Quanto a mim — disse Éomer — tenho pouco conhecimento dessas questões profundas, mas não preciso dele. Disso eu sei, e para mim é o suficiente: da mesma forma que meu amigo Aragorn socorreu a mim e ao meu povo, agora, quando ele me chama, vou ajudá-lo. Eu irei.
— Quanto a mim — disse Imrahil — considero o Senhor Aragorn meu rei, quer ele reivindique o título ou não. Um desejo seu é uma ordem. Também irei. Apesar disso, por um tempo ocupo o lugar do Regente de Gondor é meu dever pensar primeiro em seu povo. Devemos ainda dar alguma atenção à prudência. Pois devemos estar preparados para todas as possibilidades, as boas e as más. Agora, pode ser que triunfemos, e enquanto houver alguma esperança nesse sentido Gondor deve ser protegida. Eu não gostaria que voltássemos vitoriosos para uma cidade em ruínas e com uma terra devastada atrás de nós. E já sabemos pelos rohirrim que há um exército no nosso flanco norte, contra o qual ainda não se lutou.
— Isso é verdade — disse Gandalf. — Não aconselho que deixem a Cidade completamente desguarnecida. Na verdade, a força que conduzirmos para o leste não precisa ser grande o suficiente para um assalto real contra Mordor, contanto que seja grande o suficiente para provocar uma batalha. Deve se mover com rapidez. Portanto, pergunto aos Capitães: que força poderíamos reunir e conduzir no prazo máximo de dois dias? Recomendo que essa força deve ser formada por homens corajosos que partem por sua própria vontade, conhecendo o perigo que correm.
— Todos estão cansados, e muitos têm ferimentos, leves ou graves — disse Éomer. — E sofremos muitas perdas de cavalos, e isso é difícil suportar. Se devemos partir logo, então não posso ter esperanças de liderar nem sequer dois mil homens, e deixar o mesmo número na defesa da Cidade.
— Não devemos contar apenas com aqueles que lutaram neste campo — disse Aragorn. — Novas forças dos feudos do sul estão a caminho, agora que as costas foram libertadas. Enviei quatro mil homens marchando de Pelargir através de Lossarnach há dois dias; Angbor, o destemido, cavalga à frente deles. Se partirmos em dois dias, eles estarão próximos antes de nossa partida. Além disso, pedi a muitos que me seguissem subindo o Rio, em qualquer embarcação que conseguissem arranjar; com este vento, logo estarão perto; na verdade vários barcos já chegaram ao Harlond. Julgo que poderíamos partir com sete mil homens a pé e a cavalo, e ao mesmo tempo deixar a Cidade com uma defesa melhor do que a que tinha quando começou o ataque.
— O Portão está destruído — disse Imrahil — e onde agora poderemos encontrar a habilidade para reconstruí-lo e erguê-lo novamente?
— Em Erebor, no reino de Dáin, está tal habilidade — disse Aragorn — e, se todas as esperanças não fracassarem, então haverá tempo para que eu envie Gimli, filho de Glóin, para buscar a ajuda dos artesãos da Montanha. Mas homens são melhores que portões, e nenhum portão resistirá ao Inimigo se for abandonado pelos homens.
Esse então foi o fim do debate dos senhores: que eles partiriam na segunda manhã após aquele dia com sete mil homens, se pudessem reuni-los; a maior parte dessa força iria a pé, por causa das terras malignas nas quais entrariam. Aragorn deveria encontrar mais dois mil homens entre aqueles que havia reunido junto a si no sul; Imrahil deveria encontrar três mil e quinhentos; Éomer reuniria quinhentos dos rohirrim que estavam desmontados mas eram competentes na guerra, e ele mesmo deveria liderar quinhentos de seus melhores Cavaleiros; haveria uma outra companhia de quinhentos cavaleiros, entre os quais estariam os filhos de Elrond com os dúnedain e os cavaleiros de Doí Amroth: no total, seis mil a pé e mil a cavalo. Mas a força principal dos rohirrim que ainda possuía montarias e era capaz de lutar, cerca de três mil homens sob o comando de Elfhelm, deveria vigiar a Estrada oeste contra o inimigo que estava em Anórien. Imediatamente cavaleiros velozes com a missão de reunir todas as notícias que pudessem foram enviados para o norte, como também para o oeste, partindo de Osgiliath e da estrada de Minas Morgul. E, quando tinham calculado todas as suas forças e ponderado sobre que viagens deveriam fazer e que estradas escolheriam, Imrahil de súbito deu uma risada.
— Certamente — exclamou ele —, esta será a maior piada em toda a história de Gondor, cavalgaremos com sete mil homens, que mal somam o número da vanguarda de seu exército nos tempos de sua força, para atacarmos as montanhas e o impenetrável portão da Terra Negra! Da mesma forma uma criança poderia ameaçar um cavaleiro coberto por uma armadura com um arco feito de barbante num ramo de salgueiro verde! Se o Senhor do Escuro sabe tanto quanto você diz, Mithrandir, será que não vai sorrir ao invés de temer, e com seu dedo mínimo nos esmagar como um mosquito que tenta picá-lo?
— Não, ele vai tentar prender o mosquito e retirar-lhe o ferrão — disse Gandalf. — E há homens entre nós que valem cada um mais que mil cavaleiros vestindo armaduras. Não, ele não sorrirá.
— Nós também não — disse Aragorn. — Se isso for uma piada, então é amarga demais para causar riso. Não, é o último lance numa situação de grande risco, que trará, para um lado ou para o outro, o fim do jogo. — Então sacou Andúril e ergueu-a faiscante ao sol. — Você não será desembainhada outra vez ate que se trave a última batalha — disse ele.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!