2 de abril de 2016

Capítulo IX - O Grande Rio

Frodo foi acordado por Sam. Descobriu que estava deitado, bem agasalhado, sob altas árvores de casca cinzenta num canto silencioso da floresta, na margem Oeste do Grande Rio Anduin. Tinha dormido toda a noite e a manhã cinzenta estava escura por entre os galhos nus. Gimli se ocupava em fazer uma fogueira ali perto.
Partiram de novo antes que o dia se abrisse. Não que a maioria dos membros da Comitiva estivesse ansiosa por correr em direção ao Sul: estavam satisfeitos porque a decisão, que deveria ser tomada o mais tardar quando chegassem a Rauros e à Ilha Rocha do Espigão, pôde ser postergada por alguns dias, e deixavam que o Rio os conduzisse em seu próprio passo, pois não queriam correr em direção aos perigos que os esperavam, qualquer que fosse o caminho que decidissem tomar no final. Aragom permitiu que acompanhassem a correnteza como desejavam, poupando as forças para o cansaço que viria. Mas insistiu que pelo menos partissem cedo a cada dia, e que viajassem até o anoitecer, pois sentia em seu coração que o tempo urgia e temia que o Senhor do Escuro não tivesse ficado parado enquanto a Comitiva havia permanecido em Lórien.
Apesar disso, não se viu qualquer sinal de inimigos naquele dia, nem no dia seguinte. As horas enfadonhas e cinzentas se arrastavam s em qualquer surpresa. Quando o terceiro dia de jornada terminava, a região começou lentamente a mudar: as árvores rarearam e desapareceram por completo. Na margem Leste à esquerda deles, viram encostas compridas e informes erguendo-se em direção ao céu; tinham uma aparência escura e seca, como se o fogo as tivesse varrido, não deixando qualquer folha verde: um deserto hostil sem nem uma árvore quebrada ou rocha escarpada que aliviasse o vazio. Naquele dia tinham atingido as Terras Castanhas que ficavam, vastas e desoladas, entre o Sul da Floresta das Trevas e as colinas de Emym Muil. Nem mesmo Aragorn sabia dizer que pestilência ou guerra, ou que feito maléfico do Inimigo tinha desolado toda a região daquela maneira.
Do lado Oeste, à direita deles, a região também não tinha árvores, mas era plana, e em vários pontos coberta com amplos trechos de capim verde.
Desse lado do Rio, viram passar florestas de grandes juncos, tão altos que os impediam de enxergar a Oeste, enquanto os pequenos barcos passavam roçando suas bordas trêmulas. As plumas escuras e ressecadas pendiam e se lançavam no vento frio e leve, sussurrando suave e tristemente. Aqui e ali Frodo conseguia ver de relance, através de aberturas por entre os juncos, extensos prados e, mais além, colinas ao pôr do sol, e mais longe ainda, no horizonte, uma linha escura, na qual desfilavam as cordilheiras do extremo Sul das Montanhas Sombrias.
Não se via sinal de seres vivos em movimento, a não ser pássaros. Destes havia muitos: pequenas aves assobiando e piando nos juncos, mas que dificilmente eram vistas. Uma vez ou outra os viajantes, ouviam o agito alvoroçado de asas de cisnes, e olhando para cima viram um grande bando deles cruzando o céu.
— Cisnes! — disse Sam. — E dos grandes!
— Sim — disse Aragorn — e são cisnes negros.
— Como toda esta região parece vazia, ampla e melancólica! — disse Frodo. — Sempre imaginei que, conforme se viajasse para o Sul, tudo ficasse mais quente e alegre, até que o inverno fosse deixado para trás eternamente.
— Mas ainda não viajamos tanto para o Sul — disse Aragorn. — Ainda é inverno, e estamos longe do mar. Aqui o mundo é frio até que chegue de repente a primavera, e ainda podemos encontrar neve outra vez. Lá adiante, descendo até a Baía de Belfalas, para a qual o Andum corre, o clima é quente e alegre, talvez; ou seria, se não fosse pelo Inimigo. Mas aqui não estamos mais de sessenta léguas, eu acho, ao Sul da Quarta Sul lá do seu Condado, a centenas de longas milhas deste ponto. Agora estão olhando para o Sudoeste, através das planícies do Norte da Terra dos Cavaleiros, Rohan, onde moram os Senhores dos Cavalos. Em breve chegaremos à foz do Limclaro, que vem de Fangorn para se encontrar com o Grande Rio. Aquela é a fronteira Norte de Rohan, e antigamente toda a região que ficava entre o Lieclaro e as Montanhas Brancas pertencia aos Rohirrim. A região é rica e agradável, e sua relva não tem rival; mas nestes dias maléficos as pessoas não moram perto do Rio, nem cavalgam com frequência até suas margens. O Andum é largo, mas mesmo assim os orcs conseguem atirar suas flechas muito além da margem oposta; ultimamente, pelo que se diz, eles têm ousado atravessar o rio e atacar os rebanhos e a criação de cavalos de Rohan.
Sam olhava inquieto de uma margem para outra. Antes, as árvores lhe pareceram hostis, como se escondessem olhos secretos e perigos à espreita; agora ele desejava que as árvores ainda estivessem lá. Sentia que a Comitiva estava desprotegida demais, flutuando em pequenos barcos abertos, em meio a uma região descoberta, num rio que era a fronteira da guerra.
Nos dois dias seguintes, enquanto avançavam, sempre para o Sul, essa sensação de insegurança cresceu em toda a Comitiva. Durante um dia inteiro, eles pegaram seus remos e avançaram depressa. As margens passavam deslizando. Logo o Rio se alargou e ficou mais raso; praias compridas e pedregosas se deitavam ao Leste, e havia bancos de areia e cascalho na água, de modo que era preciso conduzir os barcos com cuidado. As Terras Castanhas surgiam em descampados desertos, sobre os quais soprava um ar frio do Leste. Do outro lado, os prados tinham-se transformado em ladeiras de grama ressequida em meio a uma região de brejos e moitas de capim. Frodo teve um calafrio ao pensar nos gramados e fontes, no sol claro e nas suaves chuvas de Lórien. Pouco se falava e ninguém ria nos barcos. Cada membro da Comitiva estava ocupado com seus próprios pensamentos.
O coração de Legolas corria sob as estrelas de uma noite de verão em alguma clareira do Norte, em meio a florestas de faias; Gimli, em sua mente, manuseava ouro, e se perguntava se ele serviria para forjar um estojo para o presente da Senhora. Merry e Pippin, no barco do meio, estavam agitados, pois Boromir resmungava consigo mesmo, algumas vezes mordendo as unhas como se alguma inquietação ou dúvida o consumisse, outras vezes agarrando um remo e aproximando seu barco do de Aragorn. Então Pippin, que estava sentado à proa e olhando para trás, captou um brilho estranho nos olhos do homem, no momento em que ele olhava fixamente para Frodo. Sam já tinha decidido havia muito tempo que, embora os barcos talvez não fossem tão perigosos como o tinham feito acreditar, eram muito mais desconfortáveis do que havia jamais imaginado. Sentia-se preso e deprimido, não tendo mais nada a fazer a não ser olhar para aquelas terras invernais se arrastando, e para a água cinzenta de seus dois lados. Mesmo quando usavam os remos, nenhum era confiado a Sam.
Enquanto descia o crepúsculo no quarto dia, ele olhava para trás, por cima das cabeças abaixadas de Frodo e Aragorn e dos barcos que vinham atrás: estava sonolento e queria acampar e sentir a terra sob os pés. De repente, alguma coisa chamou sua atenção: primeiro olhou para ela com indiferença, depois aprumou-se no barco e esfregou os olhos; mas quando olhou outra vez não conseguiu ver mais nada.
Naquela noite, acamparam numa ilhota próxima à margem Oeste. Sam estava deitado, enrolado em cobertores, ao lado de Frodo.
— Tive um sonho engraçado uma ou duas horas antes de pararmos, Sr. Frodo — disse ele. Ou talvez não fosse um sonho. Mas foi engraçado, de qualquer maneira.
— Bem, o que era? — disse Frodo, sabendo que Sam não sossegaria até que contasse sua história, fosse ela qual fosse. — Não vi ou pensei em nada que me fizesse sorrir desde que partimos de Lórien.
— Não era engraçado dessa maneira, Sr. Frodo. Foi estranho. Tudo errado, se não foi sonho. E é melhor que o senhor escute: vi um tronco de árvore com olhos.
— Tudo certo com o tronco — disse Frodo. — Há muitos no Rio. Mas deixe os olhos para lá!
— Isso não posso fazer — disse Sam. — Foram os olhos que me fizeram levantar, por assim dizer. Vi o que julguei ser um tronco boiando à meia-luz, atrás do barco de Gimli, mas não dei muita atenção aquilo. Então me pareceu que o tronco estava lentamente nos alcançando. E isso foi uma coisa peculiar, como se pode dizer, se pensarmos que todos nós estávamos boiando na correnteza juntos. Bem nessa hora, eu vi os olhos: iguais a dois pontos claros, brilhantes, numa corcova perto da ponta do tronco. Além do mais, não era um tronco, pois tinha pés como remos, quase como os de um cisne, só que pareciam maiores, e ficavam entrando e saindo da água. Foi então que levantei e esfreguei os olhos, com a intenção de dar um grito, se ele ainda continuasse lá depois que eu tivesse espantado o sono de minha cabeça. Pois o que-quer-que-fosse estava vindo rápido agora, e se aproximando do barco de Gimli. Mas não sei se aquelas duas lamparinas viram que eu me mexia, ou se voltei ao normal. Quando olhei de novo, a coisa não estava mais lá. Mas eu acho que vi de relance, com o rabo do olho, como se diz, alguma coisa escura entrando na sombra da margem. Mas não vi mais olho nenhum. Disse para mim mesmo: “sonhando de novo, Sam Gamgi”; e não disse mais nada depois disso. Mas não paro de pensar desde que aconteceu, e agora não tenho tanta certeza. Que acha disso, Sr. Frodo?
— Eu acharia que não foi nada além de um tronco no escuro e sono em seus olhos, Sam — disse Frodo — se esta fosse a primeira vez que aqueles olhos foram vistos. Mas não é. Eu os vi longe daqui, lá no Norte, antes de chegarmos a Lórien. E vi uma criatura esquisita com olhos subindo no flet aquela noite. Haldir também viu. E você se lembra do relato dos elfos que foram atrás do bando de orcs?
— Ah — disse Sam. — Lembro sim, e lembro-me também de outras coisas. Não gosto do que estou pensando, mas colocando uma coisa junto com a outra, e com as histórias do Sr. Bilbo e tudo mais, acho que poderia arriscar um nome para a criatura. Um nome horrível. Gollum, talvez?
— Sim, é isso que venho temendo há algum tempo — disse Frodo. — Desde a noite no flet. Suponho que já estava à espreita em Moria, onde descobriu nossa trilha; mas eu tinha esperanças de que nossa estada em Lórien tivesse feito com que ele perdesse nosso rastro outra vez. A miserável criatura deve ter ficado escondida nas florestas que margeiam o Veio de Prata, vigiando até que partíssemos.
— É isso mesmo — disse Sam. — E é melhor ficarmos um pouco mais atentos, ou vamos sentir uns dedos nojentos em volta de nossos pescoços uma noite dessas, se é que vamos ter tempo de acordar e sentir alguma coisa. E era isso que eu ia começar a fazer. Não é preciso incomodar Passolargo e os outros esta noite. Vou ficar de guarda. Posso dormir amanhã, já que não passo de uma bagagem no barco, como se poderia dizer.
— Eu diria — disse Frodo. — E diria “bagagem que enxerga”. Você vai ficar de guarda, mas só se prometer que me acorda no meio da noite, se nada acontecer antes.


Nas últimas horas da noite, Frodo acordou de um sono profundo e sombrio e percebeu que Sam o sacudia.
— É uma pena acordá-lo — sussurrou Sam —, mas o senhor me disse para fazer isso. Não há nada a contar, ou não muito. Tive a impressão de ter ouvido uns barulhos de alguma coisa batendo na água e farejando, há uns instantes; mas a gente escuta um monte desses sons estranhos nas margens de um rio à noite.
Ele se deitou e Frodo levantou-se embrulhado nos cobertores, lutando para espantar o sono. Minutos ou horas se passaram lentamente, e nada aconteceu. Frodo estava quase cedendo à tentação de se deitar outra vez quando uma figura escura, quase invisível, flutuou para perto de um dos barcos ancorados. Podia-se distinguir vagamente uma mão comprida e esbranquiçada, no momento em que se erguia e agarrava a amurada; dois olhos pálidos como lamparinas emanaram um brilho frio no momento em que espiaram dentro do barco, e então se ergueram e olharam para Frodo na ilhota. Não estavam a mais de um ou dois metros de distância, e Frodo escutou o chiado suave de ar sendo inspirado. Levantou-se puxando Ferroada da bainha, e enfrentou os olhos. Imediatamente, a luz que vinha deles desapareceu.
Ouviu um outro chiado e o som de algo caindo na água, e a coisa escura com formato de tronco se distanciou correnteza abaixo, entrando na escuridão da noite. Aragorn se mexeu dormindo, virou-se e se sentou.
— O que foi? — sussurrou ele, levantando-se e vindo até Frodo. — Senti algo enquanto dormia. Por que pegou sua espada?
— Gollum — respondeu Frodo. — Ou, pelo menos, imagino que seja ele.
— Ah! — disse Aragorn. — Então você sabe de nosso pequeno salteador? Ele nos seguiu em todo o percurso através de Moria e descendo o Nimrodel. Desde que pegamos os barcos, ele tem estado em cima de um tronco, remando com suas mãos e pés. Tentei pegá-lo uma ou duas vezes durante a noite, mas ele é mais astuto que uma raposa, e escorregadio como um peixe. Tinha esperanças de que a viagem pelo rio o fizesse desistir, mas ele é um nadador muito esperto. Tentaremos ir mais rápido amanhã. Agora deite-se e eu faço a guarda durante o restante da noite. Gostaria de poder pôr as mãos no maldito. Poderíamos fazer com que fosse útil. Mas se eu não conseguir, devemos tentar fazer com que se perca. É muito perigoso. Além da possibilidade de assassinar alguém durante a noite por sua própria conta, ele pode colocar qualquer inimigo que estiver por perto no nosso rastro.
A noite se passou, e Gollum não se manifestou outra vez. Depois disso a Comitiva manteve uma estrita vigilância, mas não viram mais Gollum enquanto durou a viagem.
Se ele ainda os seguia, era muito esperto e ágil. Conforme recomendação de Aragorn, eles remavam agora por longos períodos, e as margens passavam rapidamente. Mas viam pouca coisa da região, pois viajavam principalmente à noite e no crepúsculo, descansando durante o dia, escondendo-se o melhor que podiam naquela região. Assim o tempo passou sem qualquer acontecimento até o sétimo dia.
O céu ainda estava cinzento e carregado, e um vento soprava do Leste, mas quando a noite foi chegando, as nuvens ao Oeste se desfizeram e poças de luz pálida, amarelas e verde-claras, se abriram sob as nuvens cinzentas. Ali se podia ver a casca branca da lua nova reluzindo nos lagos remotos. Sam olhou para ela e franziu a testa.
No dia seguinte, o terreno dos dois lados começou a mudar rapidamente. As margens começaram a se erguer ficando pedregosas. Logo eles estavam atravessando uma região de colinas rochosas, e dos dois lados viam-se encostas íngremes enterradas em matagais de espinhos e abrunheiros, emaranhados com sarças e trepadeiras. Atrás deles se erguiam penhascos baixos que se desagregavam e protuberâncias de rocha cinzenta, cobertos de hera escura; além destes se erguiam, por sua vez, cordilheiras altas coroadas de pinheiros retorcidos pela ação do vento. Estavam se aproximando das colinas cinzentas de Eniyn Muil, a fronteira Sul das Terras Ermas.
Havia muitos pássaros em volta dos penhascos e das pontas rochosas, e durante todo o dia bandos de pássaros formaram círculos no ar, negros contra o céu claro. Enquanto descansavam no acampamento naquele dia, Aragorn observava os voos cheio de dúvidas, imaginando se Gollum não estivera fazendo alguma maldade, e se a notícia da viagem deles não estava agora se propagando no ermo. Mais tarde, quando o sol se punha e a Comitiva se movimentava, fazendo os preparativos para uma nova partida, ele distinguiu um ponto preto contra a luz que se apagava: um grande pássaro voando alto e distante. Às vezes desenhando círculos no céu, outras voando lentamente para o Sul.
— O que é aquilo, Legolas? — perguntou ele, apontando para o céu ao Norte. — Seria, como imagino, uma águia?
— Sim — disse Legolas. — É uma águia, uma águia caçadora. Pergunto-me o que isso significa. Ela está longe das montanhas.
— Não vamos partir até que escureça completamente — disse Aragorn.


Chegou a oitava noite daquela jornada. Era silenciosa e parada: o vento soturno do Leste tinha parado. A diáfana lua crescente tinha caído cedo no poente, mas o céu no alto estava claro, e embora longe ao Sul houvesse grandes cadeias de nuvens que ainda brilhavam pálidas, no Oeste as estrelas cintilavam claras.
— Venham! — disse Aragom. — Vamos arriscar mais uma jornada noturna. Estamos chegando a um trecho do Rio que não conheço bem, pois nunca viajei pela água nestas partes antes, não entre este ponto e as corredeiras de Sarn Gebir.  Mas, se meus cálculos estiverem certos, as corredeiras ainda estão muitas milhas adiante. Mesmo assim, encontraremos lugares perigosos antes até de chegarmos lá: rochas e ilhotas de pedra na correnteza. Devemos manter uma vigilância rigorosa e evitar remar rapidamente.
Ficou ao encargo de Sam, no barco da frente, a função de vigia. Ele se deitou com a cabeça para frente, espiando na escuridão. A noite ficou escura, mas as estrelas acima estavam estranhamente claras, e a superfície do Rio reluzia. Era quase meia-noite, e eles já estavam navegando havia algum tempo, quase sem usar os remos, quando de repente Sam soltou um berro. Apenas a alguns metros adiante, formas escuras assomaram na correnteza e ele escutou a água veloz num turbilhão. Havia uma corredeira que levava para a esquerda, em direção à margem Leste, onde o canal estava desobstruído. Enquanto eram arrastados para o lado, os viajantes puderam ver, agora muito próxima, a espuma clara do Rio batendo contra os rochedos pontudos que saíam das águas como uma fileira de dentes. Os barcos estavam todos amontoados.
— Ei, Aragorn! — gritou Boromir, quando seu barco bateu no da frente. — Isto é loucura! Não podemos desafiar as Corredeiras à noite! Mas nenhum barco pode sobreviver nas Sarn Gebir, seja de noite seja de dia.
— Para trás! Para trás! — gritou Aragorn. — Vire! Vire se conseguir. — Mergulhou o remo na água, tentando deter o barco e fazê-lo voltar. — Meus cálculos estavam errados — disse ele a Frodo. — Não sabia que tínhamos chegado tão longe: o Andum corre mais rápido do que eu pensava. As Sarn Gebir já devem estar bem próximas.
Com grande esforço, detiveram os barcos e os viraram; mas no início só conseguiram avançar muito lentamente contra a correnteza, e todo o tempo eram trazidos para mais e mais perto da margem Leste, que agora assomava escura e agourenta na noite.
— Todos juntos, remem! — gritou Boromir. — Remem! Ou seremos levados para os bancos de areia. — Enquanto ouvia isso, Frodo sentiu o barco onde estava raspar numa pedra.
Nesse momento, ouviu-se o zunido de cordas de arcos: muitas flechas assobiaram sobre suas cabeças, e algumas caíram no meio deles. Uma atingiu Frodo entre os ombros e ele cambaleou para frente com um grito, deixando cair seu remo: mas a flecha caiu para trás, repelida pelo seu colete oculto de malha metálica. Uma outra passou através do capuz de Aragorn, e uma terceira ficou espetada na borda do segundo barco, perto da mão de Merry. Sam julgava poder divisar figuras negras correndo de um lado para o outro sobre os longos montes de pedra que jaziam sobre a praia Leste. Pareciam estar muito perto.
— Yrch! — gritou Legolas, falando em sua própria língua, num lapso.
— Orcs! — gritou Gimli.
— Coisa do Gollum, com certeza — disse Sam a Frodo. — E também escolheram um bom lugar. O Rio parece decidido a nos levar direto para os braços deles!
Todos se inclinaram para frente, colocando mais força nos remos: até Sam deu uma ajuda. A cada momento esperavam sentir a mordida das flechas com penas pretas. Muitas zuniam acima de suas cabeças ou caíam na água ali perto; mas ninguém mais foi atingido. Estava escuro, mas não escuro demais para os olhos noturnos dos orcs, e sob o brilho das estrelas a Comitiva provavelmente ofereceria um alvo fácil aos astutos inimigos, se a cor cinzenta das capas de Lórien e da madeira dos barcos não derrotasse a malícia dos arqueiros de Mordor.
Continuaram lutando, remada após remada. Na escuridão, era difícil ter certeza de que estavam realmente se movendo; mas devagar a força da água em rodamoinho foi amainando, e a sombra da margem se apagou dentro da escuridão.
Finalmente, pelo que podiam julgar, estavam no meio do Rio outra vez, e haviam recuado os barcos afastando-se bastante das rochas salientes. Então, viraram os barcos para o Oeste e os conduziram com toda sua força para a margem. Sob a sombra de arbustos curvados sobre a água, pararam para tomar fôlego.
Legolas soltou seu remo e pegou o arco que havia trazido de Lórien. Então pulou para a praia e subiu alguns passos na margem. Puxando a corda e encaixando nela uma flecha, ele se voltou, espiando por sobre o Rio na escuridão. Do outro lado ouviam-se gritos agudos, mas não se podia ver nada.
Frodo levantou os olhos para o elfo que se erguia imponente acima dele, observando a noite e procurando um alvo em que pudesse mirar. A cabeça escura estava coroada pelas estrelas brancas que reluziam contra os lagos escuros do céu. Mas agora, levantando-se e navegando do Sul, as nuvens avançavam enviando batedores escuros para os campos estrelados. Um terror repentino dominou toda a Comitiva.
— Elebereth Gilthoml! — suspirou Legolas ao erguer os olhos.
No momento em que falava, uma forma escura, como uma nuvem mas que não era uma nuvem, pois movia-se muito mais rápido, surgiu do negrume do Sul, correndo em direção à Comitiva, vedando toda a luz conforme se aproximava. Logo se definiu como uma grande criatura alada, mais negra que os abismos da noite. Vozes selvagens se ergueram para saudá-la, do outro lado do Rio. Frodo sentiu um calafrio repentino percorrendo seu corpo e apertando seu coração; teve uma sensação gelada e mortal na região do ombro, como a lembrança de um velho ferimento. Agachou-se como se estivesse tentando se esconder.
De repente, o grande arco de Lórien cantou. A flecha, impulsionada pela corda, zuniu no ar. Frodo olhou para cima. Quase em cima dele, a forma alada guinou. Ouviu-se um grasnado alto e rouco, no momento em que a criatura caiu, desaparecendo dentro da escuridão da praia Leste.
O céu estava limpo outra vez. Na escuridão, podia-se distinguir um tumulto de muitas vozes distantes, praguejando e lamentando, e então silêncio. Depois disso nenhuma lança ou grito veio do Leste naquela noite.
Passado algum tempo, Aragorn conduziu os barcos de novo correnteza acima.
Foram tateando o caminho ao longo da margem por uma certa distância, até que encontraram uma baía pequena e rasa. Algumas árvores baixas cresciam ali , perto da água, e atrás delas subia uma margem rochosa e íngreme. Ali a Comitiva decidiu parar e esperar a chegada da aurora: seria inútil tentar prosseguir à noite.
Não fizeram acampamento, nem acenderam o fogo, mas ficaram deitados e encolhidos nos barcos, que estavam ancorados uns perto dos outros.
— Louvados sejam o arco de Galadriel e a mão e o olho de Legolas — disse Gimli, enquanto mastigava um pedaço de lembas. — Aquele foi um belo tiro no escuro, meu amigo!
— Mas quem poderia dizer o que o tiro atingiu? — disse Legolas.
— Eu não — disse Gimli. — Mas fico feliz em pensar que a sombra não se aproximou mais. Não gostei dela nem um pouco. Pareceu-me semelhante demais à sombra em Moria – a sombra do balrog — finalizou ele, num sussurro.
— Não era um balrog — disse Frodo, ainda tremendo pelo frio que o assaltara. — Era algo mais gelado. Acho que era... — Parou neste ponto, e ficou em silêncio.
— Acha o quê? — perguntou Boromir ansioso, inclinando-se em seu barco, como se tentasse olhar o rosto de Frodo.
— Eu acho... Não, não vou dizer. O que quer que fosse, sua queda enfraqueceu nossos inimigos.
— É o que parece — disse Aragorn. — Apesar disso, não sabemos onde estão, quantos são, e qual será seu próximo passo. Nenhum de nós deve dormir esta noite! A escuridão está nos escondendo agora. Mas quem pode dizer o que o dia revelará? Mantenham suas armas ao alcance das mãos!
Sam ficou sentado, tamborilando com os dedos no punho de sua espada, como se estivesse contando alguma coisa, e olhando para o céu.
— É muito estranho — murmurou ele. — A lua é a mesma no Condado e nas Terras Ermas, ou deveria ser. Mas ou ela está fora de seu curso, ou estou completamente errado em meus cálculos. O senhor se lembra, Sr. Frodo, que a lua estava no quarto minguante quando estávamos no flet em cima da árvore: uma semana depois da lua cheia, eu calculo. E ontem fez uma semana que estamos viajando, quando apareceu uma lua nova, fina como a apara de uma unha, como se não tivéssemos ficado tempo algum na terra dos elfos.
— Bem, eu me lembro com certeza de três noites, e tenho a impressão de lembrar de várias outras, mas juraria que não completamos um mês de estada lá. Qualquer um pensaria que lá o tempo não contou!
— E talvez tenha sido isso mesmo — disse Frodo. — Naquela terra, talvez estivéssemos num tempo que já se passou há muito em outros lugares. Acho que foi só quando o Veio de Prata nos levou de volta para o Anduin que voltamos ao tempo que corre através das terras mortais, em direção ao Grande Mar. E eu não me lembro de nenhuma lua, velha ou nova, em Caras Galadhon: só estrelas à noite, e sol de dia.
Legolas se mexeu em seu barco.
— Não, o tempo não para nunca — disse ele — mas a mudança e o crescimento não se manifestam em todos os seres da mesma forma. Para os elfos, o mundo se move, e move-se ao mesmo tempo muito depressa e muito devagar. Depressa, porque eles próprios mudam muito pouco, e todo o resto se esvai: é uma tristeza para eles. Devagar, porque eles não contam os anos que passam, não em relação a si mesmos. As estações que se sucedem não passam de ondas repetidas na longa correnteza. Apesar disso, tudo sob o sol deve passar e chegar ao seu fim.
— Mas as coisas passam devagar em Lórien — disse Frodo. — O poder da Senhora age sobre aquela terra. As horas são ricas, embora pareçam curtas, em Caras Galadhon, onde Galadriel detém o Anel Élfico.
— Isso não deveria ser dito fora de Lórien, nem mesmo para mim! — disse Aragorn. — Não fale mais desse assunto! Mas é assim, Sam: naquela terra você perdeu as contas. Ali o tempo passou rapidamente por nós, como passa para os elfos. A lua velha passou e uma lua nova cresceu e minguou no mundo de fora, enquanto permanecemos lá. E anteontem uma lua nova apareceu outra vez. O inverno já quase passou. O tempo corre para uma primavera de pouca esperança.
A noite passou em silêncio. Nenhuma voz ou chamado foram ouvidos outra vez do outro lado do Rio. Os viajantes, encolhidos nos barcos, sentiam a mudança de clima.
O ar ficou quente e parado sob as grandes nuvens úmidas que flutuavam no céu, vindas do Sul e dos mares distantes. O fluxo da água sobre as pedras na correnteza pareceu ficar mais ruidoso e próximo. Os galhos das árvores começaram a pingar.
Ao romper do dia, o mundo em volta deles tinha ficado suave e triste.
Lentamente, a aurora deu lugar a uma luz clara, difusa e sem sombras. Uma névoa cobria o rio, e não se podia enxergar a outra margem.
— Não suporto nevoeiros — disse Sam — mas este parece nos trazer sorte. Agora talvez possamos sair daqui sem que aqueles orcs desgraçados nos vejam.
— Talvez sim — disse Aragorn. — Mas será difícil encontrar a trilha, a não ser que o nevoeiro suba um pouco, mais tarde. E precisamos achar a trilha, se vamos passar as Sarn Gebir e chegar aos Emyn Muil.
— Não vejo por que precisamos passar pelas Corredeiras ou seguir o Rio por mais tempo — disse Boromir. — Se os Emyn Muil estão à nossa frente, podemos abandonar esses barquinhos, e avançar para o Oeste e para o Sul, até chegarmos ao Entágua, que podemos atravessar chegando assim à minha terra.
— Podemos, se estivermos indo para Minas Tirith — disse Aragorn. — Mas isso ainda não foi decidido. E um caminho desses pode ser mais perigoso do que parece. O vale do Entágua é plano e pantanoso, e o nevoeiro é um perigo mortal para os que estão a pé e carregando coisas. Eu não abandonaria nossos barcos até que fosse necessário. Pelo menos, o Rio é uma trilha que não se perde.
— Mas o Inimigo se apoderou da margem Leste — objetou Boromir. — E mesmo que você passe os Portões dos Argonath e chegue ileso à Rocha do Espigão, que vai fazer depois? Saltar sobre as cachoeiras e pousar nos pântanos? Não! — respondeu Aragorn. — Em vez disso, diga que iremos levar nossos barcos pelo caminho antigo até os pés de Rauros, e ali continuar pela água. Você não conhece, Boromir, ou decidiu esquecer a Escada Norte e o alto trono sobre o Amon Hen, que foram feitos nos dias dos grandes Reis? Eu, pelo menos, pretendo subir àquele lugar alto outra vez, antes de decidir meu roteiro futuro. Ali, talvez possamos ver algum sinal que nos guie.
Boromir relutou muito em aceitar essa escolha; mas quando ficou claro que Frodo seguiria Aragorn, aonde quer que este fosse, acabou cedendo.
— Não é costume dos homens de Minas Tirith abandonar seus amigos necessitados — disse ele. — E vocês vão precisar de minha força, se chegarem à Rocha do Espigão. Irei até a alta ilha, mas não além daquele ponto. Ali rumarei para meu lar; sozinho, se minha ajuda não angariar a recompensa de algum companheirismo.
O dia avançava e o nevoeiro tinha subido um pouco. Decidiu-se que Aragorn e Legolas deveriam avançar imediatamente ao longo da margem, enquanto os outros permaneceriam perto dos barcos. Aragorn esperava encontrar algum caminho pelo qual pudessem ir, carregando os barcos e a bagagem, até atingir as águas mais calmas além das Corredeiras.
— Os barcos dos elfos não afundam, talvez — disse ele. — Mas isso não quer dizer que poderíamos atravessar as Sarn Gebir a salvo. Ninguém jamais fez isso. Nenhuma estrada foi feita pelos homens de Gondor nesta região, pois mesmo nos dias gloriosos seu reinado só subia o Anduin até os Emyn Muil. Mas há uma passagem em algum lugar da margem Oeste, e espero poder encontrá-la. Não pode estar destruída, pois barcos leves costumavam viajar saindo das Terras Ermas, descendo até Osgiliath, e ainda faziam isto há alguns anos, quando os orcs de Mordor começaram a se multiplicar.
— Raramente vi em minha vida um barco vindo do Norte, e os orcs espreitam na praia Leste — disse Boromir. — Se você for em frente, o perigo ficará maior a cada milha, mesmo que consiga encontrar um caminho.
— O perigo nos espera em todas as estradas que conduzem ao Sul — respondeu Aragorn. — Esperem-nos por um dia. Se não voltarmos nesse prazo, saberão que de fato o mal nos atingiu. Então devem escolher outro líder e segui-lo da melhor maneira possível.
Foi com o coração pesado que Frodo viu Aragorn e Legolas subindo a margem íngreme e desaparecendo dentro da névoa, mas seus temores se mostraram infundados. Apenas duas ou três horas tinham-se passado, e mal chegava o meio-dia, quando as figuras sombrias dos exploradores apareceram outra vez.
— Está tudo bem — disse Aragorn, descendo a margem. — Há uma trilha que leva a um bom porto que ainda é utilizável. A distância não é grande: a cabeceira das Corredeiras está a meia milha abaixo de nós, e elas têm apenas uma milha de comprimento. Não muito além delas a água se torna límpida e calma de novo, embora continue correndo veloz. Nossa tarefa mais difícil será levar os barcos e a bagagem através da antiga passagem. Nós a encontramos, mas ela fica a uma boa distância desta margem, e prossegue protegida por uma parede rochosa, cerca de duzentos metros ou mais da margem. E nós não encontramos o ancoradouro Norte. Se é que ainda existe, devemos ter passado por ele ontem à noite. Podemos ter muito trabalho para remar correnteza acima e mesmo assim não encontrá-lo por causa do nevoeiro. Receio que devamos abandonar o Rio agora, e nos dirigir para essa passagem da melhor forma que conseguirmos.
— Isso não seria fácil, mesmo que todos fôssemos homens — disse Boromir.
— Mesmo assim, vamos tentar, sendo todos homens ou não — disse Aragorn.
— Vamos, sim — disse Gimli. — As pernas de um homem ficam para trás numa estrada difícil, enquanto um anão continua, mesmo que o peso que carrega seja duas vezes maior que o do seu próprio corpo, mestre Boromir!
A tarefa acabou se revelando realmente difícil, mas no fim foi desempenhada. Os mantimentos e bagagens foram retirados dos barcos e trazidos ao topo da margem, onde havia um espaço plano. Depois os barcos foram arrastados para fora da água e carregados. Eram muito menos pesados do que qualquer um esperara. Nem mesmo Legolas poderia dizer de que árvore cultivada na terra dos elfos eles eram feitos; mas a madeira era resistente e, apesar disso, estranhamente leve.
Merry e Pippin conseguiram, sozinhos, carregar seu barco ao longo da planície. Não obstante, era preciso a força de dois homens para levantar e arrastar os barcos pelo terreno que agora a Comitiva deveria atravessar. O caminho subia, distanciando-se do Rio: uma região deserta, de pedras calcáreas cinzentas, com muitos buracos escondidos pelo mato e pelos arbustos; havia moitas de espinheiros, e pequenos vales abruptos; aqui e ali encontravam-se poças lamacentas alimentadas pelas águas que desciam dos planaltos na região mais interna.
Boromir e Aragorn carregaram os barcos um de cada vez, enquanto os outros iam aos tropeços atrás deles, levando a bagagem. Finalmente tudo foi transportado e colocado na passagem. Então, sem muita dificuldade, a não ser por urzais espalhados e muitas rochas caídas, foram indo para frente, todos juntos.
O nevoeiro ainda pairava em véus sobre a parede rochosa que se desfazia, e à esquerda a névoa escondia o Rio: eles ouviam suas águas correndo e espumando sobre os escolhos pontudos e os dentes de pedra das Sarn Gebir, mas não conseguiam vê-lo. Tiveram de fazer duas viagens, antes que tudo fosse trazido a salvo para o ancoradouro Sul.
Nesse ponto a passagem, voltando de novo em direção à beira do Rio, descia suavemente até a borda rasa de um pequeno lago. Parecia ter sido cavado na margem do Rio, não manualmente, mas pela própria água que descia em rodamoinho das Sarn Gebir e batia contra um ancoradouro baixo e rochoso que avançava para dentro da correnteza. Mais adiante, a praia se transformava abruptamente num penhasco cinzento, e não havia mais passagem para os que fossem a pé.
A tarde curta já passara e um crepúsculo apagado e nublado se formava.
Sentaram-se perto da água, escutando o rugido rápido e confuso das Corredeiras escondidas na névoa; estavam cansados e sonolentos, e tinham os corações melancólicos como o dia que morria.
— Bem, aqui estamos, e aqui passaremos mais uma noite — disse Boromir. — Precisamos dormir, e mesmo que Aragorn pretendesse atravessar os Portões dos Argonath à noite, estamos todos cansados demais – exceto, sem dúvida, nosso vigoroso anão.
Gimli não respondeu. Estava caindo no sono ali mesmo, sentado.
— Vamos descansar o máximo possível agora — disse Aragorn. — Amanhã devemos viajar durante o dia outra vez. A não ser que o tempo mude de novo e nos engane, teremos uma boa chance de escapar sem sermos vistos por quaisquer olhos na praia Leste. Mas esta noite dois devem montar guarda juntos, fazendo revezamento: três horas de descanso e uma de plantão.
Naquela noite, não aconteceu nada pior que um chuvisqueiro rápido, uma hora antes do nascer do dia. Logo que estava completamente claro, eles partiram.
O nevoeiro já ficava menos denso. A Comitiva mantinha-se o mais perto possível da margem Oeste, e assim podiam ver as formas apagadas dos penhascos baixos subindo cada vez mais, paredes sombrias que tinham os pés afundados no rio veloz. No meio da manhã, as nuvens desceram, e começou uma chuva forte. Cobriram os barcos com peles, para evitar que se alagassem, e continuaram; através daquela cortina cinzenta que caía, quase nada podiam ver à frente ou em volta.
Entretanto, a chuva não durou muito. Lentamente, o céu foi ficando mais leve e, de repente, as nuvens se desmancharam, e suas franjas soltas rumaram para longe, subindo o Rio para o Norte. O nevoeiro desapareceu. Diante dos viajantes abria-se uma garganta larga, com grandes encostas rochosas às quais se agarravam, em saliências e fendas estreitas, algumas árvores retorcidas. O canal ficou mais estreito e o Rio mais rápido. Agora iam depressa acompanhando a margem, com pouca esperança de parar ou desviar, não importava o que encontrassem à frente. Sobre eles via-se uma alameda de céu azul-claro; ao redor deles, o Rio escuro e ensombreado; adiante, negras, vedando o sol, as colinas de Emyn Muil, nas quais não se via qualquer abertura.
Frodo, olhando para a frente, viu na distância duas grandes rochas se aproximando: pareciam dois grandes pináculos ou pilares de pedra. Altos, íngremes e agourentos, erguiam-se dos dois lados da correnteza. Uma pequena abertura apareceu entre eles, e o Rio levou os barcos naquela direção.
— Olhem os Argonath, os Pilares dos Reis! — gritou Aragorn. — Vamos passar por eles em breve. Mantenham os barcos em fila e o mais separados que puderem. Fiquem no meio da correnteza.
Quando Frodo foi levado na direção deles, os grandes pilares assomaram como torres vindo ao seu encontro. Pareciam-lhe dois gigantes, figuras grandes e cinzentas, silenciosas mas ameaçadoras. Então percebeu que de fato eram desenhados e moldados: o trabalho e o poder de antigamente tinham trabalhado neles, que ainda conservavam, através do sol e da chuva de anos esquecidos, as formas poderosas da escultura original. Sobre grandes pedestais alicerçados nas águas profundas, erguiam-se dois grandes reis de pedra: ainda, com olhos turvos e cenhos gretados, voltavam-se para o Norte. A mão esquerda de cada um deles estava levantada, com a palma para fora, num gesto de advertência, e cada mão direita empunhava um machado; sobre cada uma das cabeças viam-se um elmo e uma coroa, já se desintegrando.
Guardiões silenciosos de um reino há muito desaparecido, tinham ainda grande força e majestade. Dominado pelo medo e pela admiração, Frodo se encolheu, fechando os olhos e não ousando olhar para cima, enquanto o barco se aproximava. Até Boromir abaixou a cabeça quando os barcos passaram, frágeis e fugazes como pequenas folhas, sob a sombra duradoura dos guardiões de Númenor. Assim atravessaram a fenda negra dos Portões.
Os aterrorizantes penhascos se erguiam de ambos os lados a alturas incalculáveis. Lá adiante estava o céu pálido. As águas negras rugiam e reverberavam, e um vento gritava sobre eles. Frodo, agachado sobre os joelhos, escutou Sam, resmungando e gemendo à sua frente:
— Que lugar! Que lugar horrível! Se me deixarem sair deste barco, nunca mais vou molhar meus pés numa poça outra vez, muito menos num rio!
— Não tenha medo! — disse uma voz estranha atrás dele. Frodo se voltou e viu Passolargo, que ao mesmo tempo não era Passolargo, pois o guardião marcado pelo tempo não estava mais lá. Na popa estava Aragorn, filho de Arathorn, imponente e ereto, guiando o barco com movimentos habilidosos; seu capuz jogado para trás, e os cabelos negros esvoaçando no vento, uma luz em seus olhos: um rei retornando do exílio à sua própria terra. —- Não tema! — disse ele. — Por muito tempo quis contemplar as figuras de Isildur e Anárion, meus antepassados. Sob suas sombras Elessar, a Pedra Élfica, filho de Arathorn da Casa de Valandil, Filho de Isildur, herdeiro de Elendil, nada tem a temer! — Então a luz em seus olhos se apagou, e ele falou para si mesmo: — Como queria que Gandalf estivesse aqui! Como meu coração anseia por Minas Anor e pelas muralhas de minha própria cidade! Mas para onde devo ir agora?
A fenda era comprida e escura, e repleta do ruído do vento e da água veloz, e dos ecos nas rochas. Inclinava-se um pouco na direção do Oeste de modo que, num primeiro momento, tudo adiante estava escuro; mas logo Frodo viu um espaço de luz à sua frente, sempre crescendo. Rapidamente se aproximou e de repente os barcos foram lançados através dele, saindo para um espaço amplo e claro.
O sol, já há bastante tempo distante do meio-dia, brilhava num céu de ventania. As águas confinadas se espalhavam dentro de um lago longo e oval, o claro Nen Hithoel, cercado por colinas cinzentas e íngremes, cujas encostas estavam cobertas de árvores, mas cujas cabeças eram nuas, brilhando frias à luz do sol. Na extremidade Sul estavam três picos. O do meio se erguia um pouco à frente dos outros e se afastava deles, uma ilha nas águas ao redor da qual o Rio estendia braços pálidos e reluzentes. Distante mas profundo, vinha com o vento um som ruidoso como um trovão ouvido na distância.
— Olhem o Tol Brandir! — disse Aragorn, apontando para o pico alto ao sul. — À esquerda está o Amon Lhaw, e à direita o Amon Hen, as Colinas da Audição e da Visão. Na época dos grandes reis, havia tronos altos sobre elas, e mantinha-se uma guarda ali. Mas comenta-se que nenhum pé de homem ou nenhuma pata de animal jamais tocou o Tol Brandir. Antes que a sombra da noite caia, chegaremos até eles. Ouço a voz interminável de Rauros chamando.
A Comitiva agora descansou um pouco, flutuando para o Sul na correnteza que atravessava o meio do lago. Comeram um pouco e depois pegaram de novo os remos e se apressaram em seu caminho. As encostas das colinas a Oeste caíram na escuridão, e o sol ficou redondo e vermelho. Aqui e ali, uma estrela nebulosa aparecia. Os três picos assomavam diante deles, escurecendo no crepúsculo. Rauros rugia com uma voz possante. A noite já se deitava sobre as águas velozes quando os viajantes chegaram finalmente à sombra das colinas.
O décimo dia de viagem chegava ao fim. As Terras Ermas estavam atrás deles. Agora não podiam mais avançar sem escolher entre o caminho do Leste e o do Oeste. O último estágio da Demanda estava diante deles.

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