2 de abril de 2016

Capítulo IX - No Pônei Saltitante


Bri era a aldeia mais importante daquela região, que era pequena e pouco habitada, semelhante a uma ilha cercada por terras desertas. Além da própria aldeia de Bri, havia Estrado do outro lado da colina; Valão, num vale profundo um pouco mais a leste, e Archet, na beirada da Floresta Chet. Ao redor da colina de Bri e das aldeias, havia um pequeno campo de plantações e de matas exploradas, cuja largura era de apenas algumas milhas.
Os homens de Bri tinham cabelos castanhos, eram troncudos e baixos, alegres e independentes: não pertenciam a ninguém além de si próprios, mas eram mais amigáveis e chegados aos hobbits, anões, elfos e outros habitantes do mundo em volta deles do que eram (ou são) em geral as pessoas grandes. Segundo suas próprias histórias, foram os habitantes originais e eram descendentes dos próprios homens que ocuparam o Oeste do mundo-médio. Poucos tinham sobrevivido aos tumultos dos Dias Antigos; mas quando os Reis retornaram de novo através do Grande Mar, ainda encontraram os homens de Bri no mesmo lugar, onde permaneciam até aquela época, em que a memória dos velhos Reis tinha desaparecido por completo.
Naqueles dias, não havia outros homens que tivessem fixado residência em ponto tão extremo do Oeste. Mas nas regiões selvagens além de Bri havia viajantes misteriosos.
O povo de Bri os chamava de guardiões, e nada se sabia de sua origem. Eram mais altos, e tinham a pele mais escura que os homens de Bri; acreditava-se que possuíam estranhos poderes de audição e visão, e que entendiam a linguagem das aves e dos animais. Vagavam à vontade para o lado do sul e para o leste, chegando até as Montanhas Sombrias; agora, no entanto, estavam reduzidos em número e raramente eram vistos. Quando apareciam, traziam notícias do mundo distante, e contavam histórias estranhas e já esquecidas que eram ouvidas com muito interesse; apesar disso, o povo de Bri não fazia amizade com eles.
Havia também muitas famílias de hobbits em Bri, e eles diziam ser o assentamento hobbit mais antigo do mundo, fundado antes que o rio Brandevin fosse atravessado e o Condado colonizado. A maioria deles vivia em Estrado, embora houvesse alguns em Bri, especialmente nas encostas mais altas da colina, acima das casas dos homens. As pessoas grandes e as pessoas pequenas (como se chamavam uns aos outros) conviviam em termos amigáveis, cuidando de seus próprios afazeres e interesses, mas cada grupo se considerando acertadamente como parte necessária do povo de Bri. Em nenhum outro lugar do mundo seria possível encontrar um arranjo peculiar (mas excelente) como esse.
As pessoas de Bri, grandes e pequenas, não viajavam muito e os acontecimentos nas quatro aldeias ocupavam a maior parte de seu tempo.
Uma vez ou outra, os hobbíts de Bri iam até a Terra dos Buques, ou à Quarta Leste; mas embora sua pequena terra não distanciasse muito mais que um dia de viagem a cavalo, partindo da Ponte do Brandevin e rumando para o leste, os hobbits do Condado raramente visitavam o lugar, nos últimos tempos. Eventualmente, um morador da Terra dos Buques ou um Túk aventureiro vinha até o Pônei Saltitante, para passar uma ou duas noites, mas até isso estava ficando cada vez menos comum. Os hobbits do Condado se referiam aos de Bri, e a quaisquer outros que moravam além das fronteiras, como os de Fora, e pouco se interessavam por eles, por considerá-los enfadonhos e rudes.
Provavelmente, era muito maior o número dos de Fora espalhados pelo oeste do Mundo naqueles tempos do que o povo do Condado pudesse imaginar. Alguns, sem dúvida, não passavam de vagabundos, prontos para cavar um buraco em qualquer barranco e ficar apenas o tempo que lhes aprouvesse. Mas, de qualquer modo, em Bri os hobbits eram decentes e prósperos, não sendo mais rústicos que a maioria de seus parentes distantes de Dentro. Ainda não havia sido esquecida a época dos grandes intercâmbios entre Bri e o Condado.
Sabia-se que havia sangue de Bri correndo nas veias dos Brandebuques.
A aldeia de Bri tinha algumas centenas de casas de pedra que pertenciam às pessoas grandes, a maioria acima da Estrada, aninhando-se nas encostas das colinas, com janelas voltadas para o oeste. Naquele lado, descrevendo mais que um semicírculo, partindo da colina e voltando a ela, havia um fosso profundo, com uma cerca-viva espessa no lado interno. A Estrada cruzava esse fosso através de um passadiço, mas no ponto onde atingia a cerca-viva era barrada por um grande portal. Havia outro portal no canto sul, onde a Estrada saía da aldeia. Os portões eram fechados ao cair da noite; mas logo na entrada havia pequenos alojamentos para os porteiros.
Descendo a estrada, no ponto onde ela virava para a direita, contornando o pé da colina, havia uma grande estalagem. Fora construída havia muito tempo, quando o comércio nas estradas era bem mais intenso. Bri ficava num velho entroncamento de caminhos; uma outra estrada antiga cruzava a Estrada Leste, logo que saía do fosso na extremidade oeste da aldeia, e nos primeiros tempos homens e outras pessoas de vários tipos tinham viajado muito por ela. Ainda existia, na Quarta Leste, o dito popular: Estranho como as notícias que vêm de Bri, que descendia daqueles dias quando as novidades do norte, sul e leste podiam ser ouvidas na estalagem, e quando os hobbits do Condado costumavam comparecer com mais frequência para ouvi-las. Mas as Terras do Norte tinham sido havia muito abandonadas e a Estrada Norte raramente era usada: estava coberta de mato e o povo de Bri a chamava de Caminho Verde.
Entretanto, a estalagem de Bri ainda estava lá, e o dono era uma pessoa importante. Sua casa era um ponto de encontro para os desocupados, conversadores e curiosos, grandes e pequenos, habitantes das quatro aldeias. Também era um refúgio para Guardiões e outras pessoas errantes, e para os viajantes (principalmente anões) que ainda viajavam pela Estrada Leste, indo e vindo das Montanhas.
Estava escuro, e estrelas brancas brilhavam, quando Frodo e seus companheiros finalmente alcançaram o entroncamento com o Caminho Verde, perto da aldeia. Chegaram ao portão oeste e encontraram-no fechado, mas na porta de alojamento, logo adiante, estava sentado um homem, que pulou de pé e pegou uma lanterna, olhando-os através do portão, surpreso.
— O que querem, e de onde vêm? — perguntou ele de forma grosseira.
— Queremos ir até a estalagem — respondeu Frodo. — Estamos indo para o leste, e não podemos continuar a viagem esta noite.
— Hobbits! Quatro hobbits! E ainda por cima, do Condado, pelo jeito como falam — disse o porteiro, baixinho como se falasse consigo mesmo. Lançou-lhes um olhar sombrio e depois abriu o portão devagar, deixando-os entrar. — Não é sempre que vemos pessoas do Condado viajando com pôneis pela Estrada à noite — continuou ele, quando os hobbits pararam um momento diante de sua porta. — Perdoem a minha curiosidade em saber que tipo de negócio os leva para o leste, além de Bri! Quais são seus nomes, se me permitem a pergunta?
— Nossos nomes e negócios só dizem respeito a nós mesmos, e este não parece um bom lugar para discuti-los — disse Frodo, não gostando da aparência do homem e do tom de sua voz.
— Seus negócios só lhes dizem respeito, sem dúvida — disse o homem. — Mas o meu trabalho é fazer perguntas depois do anoitecer, e isso me diz respeito.
— Somos hobbits da Terra dos Buques, e queríamos viajar e nos hospedar na estalagem aqui — acrescentou Merry. — Sou o Sr. Brandebuque. Isso é suficiente? O povo de Bri costumava receber melhor os viajantes, ou pelo menos foi isso que ouvi falar.
— Está bem! Está bem! — disse o homem. — Não foi minha intenção ofendê-los. Mas talvez mais pessoas, além do velho porteiro Harry, venham a lhes fazer perguntas. Há pessoas estranhas por aqui. Se forem ao Pônei, verão que não são os únicos hóspedes.
Desejou-lhes boa noite, e os hobbits não disseram mais nada, mas Frodo podia ver pela luz da lanterna que o homem ainda estava olhando para eles, cheio de curiosidade.
Perguntava-se o que teria deixado o porteiro tão desconfiado, e se alguém estivera indagando sobre um grupo de hobbits. Poderia ter sido Gandalf. Era provável que ele tivesse chegado, durante o tempo em que ficaram na Floresta e nas Colinas. Mas algo na aparência e na voz do porteiro o deixava inquieto.
O homem ficou observando os hobbits por um momento, e então entrou na casa. Logo que virou as costas, uma figura escura rapidamente pulou por sobre o portão, desaparecendo nas sombras da rua da aldeia.
Os hobbits subiram uma ladeira suave, passando por algumas casas isoladas, e pararam na frente da estalagem. As casas tinham uma aparência grande e estranha para eles. Sam contemplou a estalagem com seus três andares e muitas janelas, e sentiu seu coração apertado. De vez em quando, durante a viagem, imaginara encontrar gigantes mais altos que árvores, e outras criaturas ainda mais aterrorizantes, mas naquele momento estava achando que a primeira vista dos homens e de suas casas altas já era o suficiente, para não dizer demais, para o final escuro de um dia cansativo. Começava a pensar em cavalos negros, todos já selados, nas sombras do pátio da estalagem, e em Cavaleiros Negros espiando das escuras janelas de cima.
— É claro que não vamos passar a noite aqui, não é, senhor? — exclamou ele. — Se existem hobbits por essas bandas, por que não procuramos algum que esteja disposto a nos hospedar? Poderíamos nos sentir mais à vontade.
— Qual é o problema com a estalagem? — perguntou Frodo. — Tom Bombadil a recomendou. Espero que seja bastante aconchegante lá dentro.
Mesmo vista de fora, a estalagem parecia uma casa agradável aos olhos de quem a conhecia. A parte da frente dava para a Estrada, e dois pavilhões estendiam-se para os fundos, construídos em terrenos parcialmente cortados das encostas mais baixas da colina, de modo que, na parte posterior, as janelas do segundo andar ficavam ao nível do solo. Havia um grande arco pelo qual se chegava ao pátio entre os dois pavilhões e à esquerda sob o arco havia um grande saguão de entrada, precedido de alguns degraus largos. A porta estava aberta, deixando escapar a luz do interior. Sobre o arco havia uma lamparina e embaixo dela estava pendurada uma grande tabuleta que trazia o desenho de um pônei branco e roliço, empinado sobre as patas traseiras. Sobre a porta estava pintado, em letras brancas: O Pônei Saltitante de Cevado Carrapicho.
Muitas das janelas mais baixas mostravam luz por trás de grossas cortinas.
Enquanto hesitavam lá fora no escuro, alguém começou a cantar algo alegre do lado de dentro, e várias vozes animadas acompanharam, cantando alto o refrão. Ficaram escutando esses sons animados por alguns momentos e então desceram dos pôneis. A canção acabou numa explosão de aplausos e risadas.
Os hobbits conduziram os pôneis sob o arco, e após deixá-los no pátio subiram os degraus. Frodo foi na frente e quase trombou com um homem gordo e baixo, careca e de rosto vermelho. Usava um avental branco, e saía alvoroçado por uma porta para entrar por outra, carregando uma bandeja repleta de canecas cheias.
— Será que... — começou Frodo.
— Um instantinho, por favor! — gritou o homem por sobre os ombros, desaparecendo naquela babei de vozes, em meio a uma nuvem de fumaça. Mais um momento e já aparecia de novo, limpando as mãos no avental. — Boa noite, pequeno senhor! — disse ele, com uma reverência que fez com que sua cabeça quase tocasse o chão. — Em que posso ajudá-lo?
— Queremos cama para quatro pessoas, e lugares no estábulo para cinco pôneis, se isso puder ser arranjado. É o Sr. Carrapicho?
— Está certo! Cevado é meu nome. Cevado Carrapicho às suas ordens! São do Condado, hein? — disse ele, e então de repente bateu a mão na testa, como se tentasse lembrar alguma coisa. — Hobbits — gritou ele. — De que isso me faz lembrar? Posso perguntar seus nomes, senhor?
— Sr. Túk e Sr. Brandebuque — disse Frodo. — E este é Sam Gamgi. Meu nome é Monteiro.
— Veja só — disse o Sr. Carrapicho, estalando os dedos. — Fugiu-me da cabeça de novo! Mas vai voltar, quando eu tiver tempo para pensar. Nem consigo acompanhar minhas pernas, mas vou ver o que posso fazer para ajudá-los. Atualmente é bem raro termos aqui um grupo vindo do Condado, e eu ficaria triste se não pudesse recebê-los. Mas a quantidade de pessoas aqui hoje ultrapassou o habitual. Desgraça pouca é bobagem, como se costuma dizer em Bri. Ei, Nob — gritou ele. — Onde está, seu trapalhão de pés peludos? Nob?
— Estou indo, senhor! Estou indo!
Um hobbit de aparência alegre surgiu por uma porta, e, vendo os viajantes, parou de repente, olhando-os com grande interesse.
— Onde está Bob? — perguntou o proprietário. — Você não sabe? Bem, encontre-o! Rapidinho! Não tenho seis pernas, nem seis olhos! Diga a Bob que há cinco pôneis para acomodar no estábulo. Ele tem de achar espaço de algum jeito.
Nob saiu pisando duro, com um sorriso e piscando um olho.
— Bem, agora, o que eu ia dizendo? — disse o Sr. Carrapicho, batendo na testa. — Uma coisa faz esquecer a outra, por assim dizer. Estou tão ocupado hoje que minha cabeça está girando. Há um grupo que veio do Sul e chegou pelo Caminho Verde a noite passada – e isso já foi esquisito o suficiente, para começar. Depois apareceu hoje uma comitiva de anões indo para o Oeste. E agora vocês. Se não fossem hobbits, duvido que poderíamos acomodá-los. Mas temos um ou dois quartos no pavilhão norte que foram feitos especialmente para hobbits, quando este lugar foi construído. No andar térreo, como geralmente preferem, com janelas redondas e tudo o que gostam. Espero que fiquem bem acomodados. Estão querendo cear, sem dúvida. Logo que for possível. Agora, por aqui! — Conduziu-os por alguns metros de um corredor e abriu uma porta. — Aqui está uma boa salinha! — disse ele. — Espero que gostem. Agora desculpem-me por estar tão ocupado. Não há tempo para conversas. Devo ir andando. É um trabalho duro para duas pernas, mas nem assim eu emagreço. Passarei por aqui mais tarde. Se quiserem qualquer coisa, toquem a campainha, e Nob virá até aqui. Se não vier, toquem de novo e gritem!
Saiu finalmente, e deixou-os com a sensação de estarem sem fôlego.
Parecia capaz de falar sem parar, e não importava o quão ocupado estivesse. Viram-se numa sala pequena e confortável. Havia um belo fogo queimando na lareira, em frente do qual ficavam algumas poltronas baixas e confortáveis. Havia uma mesa redonda, já coberta com uma toalha branca, e sobre ela uma grande campainha, mas Nob, o empregado hobbit, veio esbaforido antes que eles pensassem em tocá-la. Trouxe velas e uma bandeja cheia de pratos.
— Querem alguma coisa para beber, senhores? — perguntou ele. — Gostariam que lhes mostrasse os quartos, enquanto a ceia está sendo preparada?
Já tinham tomado banho e estavam em meio a muitas canecas de cerveja quando o Sr. Carrapicho e Nob vieram de novo. Num piscar de olhos, a mesa estava posta. Havia sopa quente, carnes frias, uma torta de amoras, pães frescos, nacos de manteiga, e meio queijo curado: comida boa e simples, boa como a do Condado, e suficientemente semelhante à de casa para afastar os últimos receios de Sam (já bastante diminuídos pela excelência da cerveja).
O proprietário ficou por ali uns momentos e depois se propôs a ir embora.
— Não sei se gostariam de se juntar ao grupo, depois de cearem — disse ele parando na porta. — Talvez prefiram ir para suas camas. Mas mesmo assim o grupo ficaria muito satisfeito em recebê-los, se quisessem isso. Não recebemos visitantes de Fora – quer dizer, viajantes do Condado, é melhor que eu diga, me desculpem – com frequência, e gostaríamos de ouvir alguma novidade, ou alguma história ou canção de que se lembrem. Mas, como quiserem! Toquem a campainha se faltar alguma coisa.
Sentiam-se tão reconfortados e encorajados ao final da ceia (que durou cerca de três quartos de hora ininterruptos, e sem conversa jogada fora) que Frodo, Pippin e Sam decidiram juntar-se ao grupo. Merry disse que lá estaria muito abafado.
— Vou ficar aqui quieto, perto do fogo por um tempo, e talvez depois eu saia para respirar ar puro. Cuidado com o que vão dizer, e não esqueçam que nosso plano é fugir em segredo, e ainda estamos na estrada alta não muito longe do Condado.
— Está certo! — disse Pippin. — Cuide-se! Não se perca e não se esqueça de que lá fora é menos seguro que aqui dentro!
O grupo estava na grande sala de estar da estalagem. Havia um grande número de pessoas, e de todos os tipos, como descobriu Frodo depois que seus olhos se acostumaram à luz. A iluminação vinha principalmente de um fogo alimentado por achas de lenha, pois as três lamparinas penduradas às vigas emitiam uma luz fraca, meio velada pela fumaça. Cevado Carrapícho estava em pé perto do fogo, conversando com alguns anões e com um ou dois homens de aparência estranha. Nos bancos sentavam-se vários tipos de pessoas: homens de Bri, um grupo de hobbits nativos (sentados, conversando), mais alguns anões e outras figuras vagas, difíceis de distinguir nas sombras e cantos.
Assim que os hobbits do Condado chegaram, ouviu-se um coro de boas-vindas, que vinha dos habitantes de Bri. Os estranhos, especialmente aqueles que tinham vindo pelo Caminho Verde, olharam-nos curiosos. O proprietário apresentou os recém-chegados às pessoas de Bri tão rapidamente que, embora tenham escutado muitos nomes, mal podiam ter certeza sobre quem tinha que nome. Os homens de Bri pareciam ter nomes bastante botânicos (e para o povo do Condado, bastante esquisitos) como Junco, Barba-de-Bode, Urzal, Macieira, Cardo e Samambaia (para não falar em Carrapicho ). Alguns dos hobbits tinham nomes similares. Os Artemisas, por exemplo, pareciam ser numerosos. Mas a maioria deles tinha nomes naturais, como Ladeira, Texugo, Buraqueiro, Areias e Tuneloso, muitos dos quais eram usados no Condado. Havia vários Monteiros de Estrado, e como estes não podiam conceber a ideia de ter o mesmo nome de alguém de quem não fossem parentes, acolheram Frodo como um primo que estivera longe muito tempo.
Os hobbits de Bri eram, na verdade, simpáticos e curiosos, e Frodo logo descobriu que teria de dar alguma explicação sobre o motivo que o trazia ali. Justificou que estava interessado em história e geografia (ao que várias cabeças balançaram em sinal de aprovação, embora nenhuma dessas duas palavras fosse muito usada no dialeto de Bri). Frodo disse que estava pensando em escrever um livro (ao que se fez um silêncio atônito), e que ele e seus amigos queriam coletar informações sobre os hobbíts que moravam fora do Condado, especialmente nas terras do Leste.
Depois que falou isso, um coro de vozes irrompeu. Se Frodo realmente quisesse escrever um livro, e se tivesse muitas orelhas, teria coletado o suficiente para sete capítulos em poucos minutos. E, como se isso não bastasse, foi feita uma lista, começando com “o velho Carrapicho aqui”, de nomes de pessoas a quem poderia recorrer se precisasse de informações mais detalhadas. Mas, depois de um tempo, como Frodo não fizesse menção de escrever um livro ali mesmo, os hobbits voltaram às suas perguntas sobre as coisas do Condado. Frodo não se mostrou muito comunicativo, e logo se viu sentado num canto, sozinho, ouvindo e olhando ao redor.
Os homens e anões falavam a maior parte do tempo sobre acontecimentos distantes, trazendo novidades de um tipo que já estava ficando bem comum. Havia problemas no Sul, e parecia que os homens que tinham vindo pelo Caminho Verde estavam de mudança, procurando terras onde pudessem encontrar um pouco de paz.
O povo de Bri se mostrava solidário, mas não parecia muito preparado para receber um grande número de forasteiros em sua pequena região. Um dos viajantes, camarada vesgo e de aparência desagradável, estava prevendo que mais e mais pessoas viriam para o Norte num futuro próximo.
— Se não providenciarem lugares para eles, eles mesmos farão isso, pois têm direito de viver, como as outras pessoas — disse ele em voz alta.
Os habitantes locais não pareciam contentes diante da perspectiva.
Os hobbits não prestavam muita atenção a tudo isso, e parecia que aquele assunto não lhes dizia respeito, pelo menos por enquanto. Em termos práticos, as pessoas grandes não poderiam mendigar acomodações em tocas de hobbits. Por isso estavam mais interessados em Sam e Pippin, que agora se sentiam perfeitamente à vontade, e conversavam alegremente sobre os acontecimentos do Condado. Pippin estava provocando uma onda de risos ao fazer um relatório sobre a queda do telhado da Toca Municipal em Grã Cava: Will Pealvo, o prefeito e o hobbit mais gordo da Quarta Oeste, ficou coberto de cal, e saiu de lá como um bolinho coberto de farinha. Mas muitas das perguntas feitas deixaram Frodo um pouco inquieto. Um dos habitantes de Bri, que parecia ter estado no Condado muitas vezes, queria saber onde os Monteiros moravam e de quem eram parentes.
De repente Frodo percebeu que um homem de aparência estranha e marcada pelos anos, sentado num canto escuro, também estava escutando a conversa dos hobbits com muita atenção. Tinha uma caneca alta à sua frente, e fumava um cachimbo de haste longa, talhado de forma curiosa. As pernas estavam esticadas, mostrando botas altas de couro macio que lhe serviam bem, mas já bastante surradas e agora cobertas de lama. Uma capa cheia de marcas de viagem, feita de um tecido verde-escuro, o cobria quase por completo, e apesar do calor da sala, ele usava um capuz que lhe ocultava o rosto em sombras; mas podia-se ver o brilho em seus olhos enquanto observava os hobbits.
— Quem é aquele? — perguntou Frodo, quando teve uma chance de cochichar para o Sr. Carrapicho. — Acho que não fomos apresentados.
— Aquele? — disse o proprietário, cochichando uma resposta, erguendo a sobrancelha sem voltar a cabeça. — Não sei ao certo. É um dos errantes, os guardiões, como os chamamos. Raramente fala: no máximo conta uma história diferente, quando lhe dá na cabeça. Desaparece por um mês, um ano, e então aparece de novo. Chegou e partiu com bastante frequência na última primavera: mas não tem vindo muito aqui nos últimos tempos. Nunca ouvi o seu verdadeiro nome, mas é conhecido como Passolargo. Suas pernas longas andam numa velocidade muito grande; mas ele não conta a ninguém o motivo de tanta pressa. Mas não dá para explicar o leste e o oeste, como dizemos aqui em Bri, referindo-nos às excentricidades dos guardiões e do pessoal do Condado, sem querer ofender o senhor. É interessante que tenha perguntado sobre ele.
Mas nesse momento o senhor Carrapícho foi chamado por alguém pedindo mais cerveja, e aquela última observação ficou sem explicação.
Frodo percebeu que Passolargo olhava agora para ele, como se tivesse ouvido ou adivinhado tudo o que se conversou. Naquele mesmo momento, com um aceno de mão e um sinal de cabeça, convidou Frodo a sentar-se com ele. Quando Frodo se aproximou, Passolargo jogou o capuz para trás, deixando à vista uma cabeça despenteada, coberta de cabelos escuros com mechas grisalhas, e num rosto austero e pálido um par de olhos cinzentos e penetrantes.
— Chamam-me Passolargo — disse ele numa voz baixa. — Estou muito satisfeito em conhecê-lo, senhor Monteiro, se o velho Carrapicho me disse o nome certo.
— Disse sim — respondeu Frodo secamente.
Estava longe de se sentir à vontade, sob o efeito daqueles olhos penetrantes.
— Bem, senhor Monteiro — disse Passolargo. — Se fosse o senhor, não deixaria seus jovens amigos falarem demais. Bebida, lareira e encontros casuais são bastante agradáveis, mas, bem, aqui não é o Condado. Existem pessoas estranhas por aqui. Apesar de que provavelmente o senhor esteja achando que não tenho o direito de dizer isso — acrescentou ele com um sorriso oblíquo, vendo o olhar de Frodo. — E viajantes ainda mais estranhos já passaram aqui por Bri ultimamente — continuou ele, atento ao rosto de Frodo.
Frodo retribuiu o olhar mas não disse nada; Passolargo não fez mais nenhum sinal. Parecia ter fixado a atenção em Pippin. Alarmado, Frodo percebeu que o ridículo jovem Túk, encorajado pelo sucesso obtido com a história do prefeito de Grã Cava, fazia agora um relato cômico da festa de despedida de Bilbo. Já estava começando a imitar o Discurso, quase atingindo o ponto do surpreendente Desaparecimento.
Frodo estava zangado. A história era bastante inofensiva para a maioria dos hobbits do lugar: apenas uma história divertida sobre aquelas pessoas engraçadas que moravam do outro lado do Rio; mas certas pessoas (o velho Carrapicho, por exemplo) sabiam uma coisa ou outra, e provavelmente tinham ouvido rumores sobre o desaparecimento de Bilbo, muito tempo atrás. Isso traria o nome Bolseiro às suas mentes, especialmente se em Bri alguém tivesse perguntado sobre ele.
Frodo se impacientava, tentando decidir o que fazer. Pippin evidentemente estava apreciando muito a atenção da plateia, e tinha se esquecido do perigo que corriam.
Frodo de repente receou que, naquela disposição, Pippin pudesse mencionar o Anel, o que provavelmente seria desastroso.
— É melhor fazer algo logo! — cochichou Passolargo em sua orelha.
Frodo pulou, ficando em pé numa mesa, e começou a falar. A atenção da plateia de Pippin foi desviada.
Alguns dos hobbits olharam para Frodo e riram, batendo palmas, pensando que o Sr. Monteiro tinha tomado toda a cerveja a que tinha direito.
Frodo de repente se sentiu muito tolo, e se viu (como era seu hábito quando fazia um discurso) tateando as coisas que tinha no bolso. Sentiu o Anel na corrente, e quase sem perceber foi tomado pelo desejo de colocá-lo e desaparecer daquela situação imbecil. Tinha a impressão de que, de alguma maneira, a sugestão o alcançava vinda de fora, de alguém ou alguma coisa na sala. Resistiu firmemente à tentação, e fechou o Anel na mão, como se para mantê-lo sob controle e evitar que escapasse ou o enganasse. De qualquer modo, o Anel não lhe trouxe inspiração.
Pronunciou “algumas palavras adequadas”, como teriam dito no Condado:
— Estamos todos muito agradecidos pela gentileza de sua recepção, e me aventuro a ter esperanças de que minha breve visita ajude a renovar os velhos laços de amizade entre o Condado e Bri — depois disso, hesitou e tossiu.
Todos na sala agora olhavam para ele.
— Uma canção — gritou um dos hobbits. — Uma canção! Uma canção! — gritaram todos os outros. — Vamos lá, agora, senhor, cante alguma coisa que nunca ouvimos antes.
Por um instante, Frodo parou embasbacado. Então, desesperado, começou uma canção ridícula muito apreciada por Bilbo (e da qual na verdade se orgulhava muito, pois ele mesmo tinha feito a letra). Era sobre uma estalagem, e talvez por isso tenha vindo à mente de Frodo exatamente naquele momento. Aqui está a canção completa.
Hoje em dia, geralmente apenas algumas palavras dela são lembradas.

Existe um lugar, alegre e antigo, ao pé da colina rara;
Lá tem cerveja tão escura
Que o Homem da Lua veio à procura uma noite e encheu a cara.
O dono tem um gato alcoólatra que sabe tocar violino;
Sobe e desce o arco suave,
Em cima agudo, embaixo grave, no meio serrote fino.
O dono tem um vira-lata que adora ouvir piadas;
Quando o povo está animado,
Empina a orelha concentrado
e ria bandeiras despregadas.
Tem também vaca chifruda orgulhosa como rainha;
Ela gosta de música à beça,
Rebola o rabo e arremessa dançando solta sozinha.
Ai! os lindos pratos de prata
e os talheres em quantidade!
Há aos domingos um par convidado,
E tudo é polido e cuidado ao sábado pela tarde.
O Homem da Lua vai bebendo, o gato toca com bossa;
Prato e garfo dançam na hora,
Rebola a vaca lá, fora,
e o vira-lata o rabo coça.
O Homem da Lua pede mais uma, sob a mesa depois cai;
Dorme e sonha com mais cerveja,
Vai-se a noite benfazeja e a aurora chegando vai.
Diz o dono ao gato alto.
— Os cavalos brancos da Lua Rinchando mordem o freio;
Mas seu dono dorme feio
e o sol já se insinua.
O gato então de novo ataca
num som de acordarfinado:
Vai serrando enquanto pode o dono o Homem sacode:
— São mais de três — diz o coitado.
Homem levam para a colina
e o enrolam na própria Lua,
Os cavalos atrás galopando,
Qual veado a vaca saltando,
e um prato pula pra rua.
Mais depressa toca o violino;
o vira-lata põe-se a ladrar,
Cavalo e vaca de bananeira;
Querer dormir é brincadeira:
todos voltam a dançar.
Pingue! Pongue! As cordas se partem!
A vaca pula pra Lua,
O vira-lata põe-se a rir,
Um prato ameaça fugir com colher que não é sua.
A Lua redonda foi embora,
e o sol que agora vai surgir
Não acredita no que vê,
Porque, apesar do amanhecer,
agora todos vão dormir.

Houve um aplauso longo e alto. Frodo tinha uma boa voz, e a canção tinha provocado a imaginação deles.
— Onde está o velho Cevado? — gritavam eles. — Ele tem de ouvir esta. Bob tinha de ensinar o gato dele a tocar violino, e então teríamos um baile. — Pediram mais cerveja e começaram a gritar: — Cante de novo, senhor! Vamos! Mais uma vez!
Fizeram Frodo tomar mais uma caneca e começar a canção de novo, enquanto muitos o acompanhavam, pois a melodia era bem conhecida, e eles eram rápidos para pegar a letra. Agora era a vez de Frodo se sentir bem consigo mesmo. Fazia cabriolagens em cima da mesa, e no momento em que ia cantar a vaca pula pra Lua, deu um salto no ar. Vigoroso demais, pois ele caiu, bateu numa bandeja cheia de canecas, escorregou e rolou da mesa para cair no chão com um estrondo de pancada, talheres tinindo e depois o golpe de algo batendo no chão. A plateia toda abriu a boca preparando uma risada, mas ficou boquiaberta num silêncio atônito: o cantor desaparecera. Simplesmente desvanecera, como se tivesse escapado através do assoalho sem deixar buraco!
Os hobbits do lugar ficaram olhando assustados; depois puseram-se de pé e chamaram Carrapicho. Todo o grupo se afastou de Sam e Pippin, que se viram deixados de lado num canto, passando a ser observados com olhos sombrios e desconfiados, a certa distância. Agora ficava claro que muitas pessoas os consideravam como acompanhantes de um mágico itinerante, cujos poderes e propósitos não eram conhecidos.
Mas havia um habitante de Bri de pele escura, que ficou olhando para eles como quem sabia das coisas, e com um ar zombeteiro que os deixava pouco à vontade. Depois escapou pela porta, sendo seguido pelo sulista vesgo: os dois tinham estado cochichando juntos por um bom tempo durante a noite. Harry, o porteiro, também saiu logo após eles.
Frodo se sentiu um perfeito idiota. Não sabendo mais o que fazer, foi se arrastando por baixo das mesas até o canto escuro onde estava Passolargo que, sentado sem mover um dedo, não demonstrava o que pensava. Frodo se encostou na parede e tirou o Anel. Como tinha vindo parar em seu dedo, ele não sabia. Só podia supor que estivera mexendo no bolso enquanto cantava, e que de alguma forma o Anel escorregara em seu dedo, no momento em que tinha feito um movimento brusco para amortecer a queda.
Por um instante, chegou a se perguntar se o próprio Anel não lhe tinha pregado uma peça; talvez tivesse tentado se revelar em resposta a algum desejo ou ordem que foi sentida na sala. Frodo não tinha gostado da cara dos homens que tinham saído.
— Bem... — disse Passolargo, quando Frodo reapareceu. — Por que fez aquilo? Foi pior do que qualquer coisa que seus amigos pudessem dizer. Você atolou o pé na... Ou será que deveria dizer, atolou o dedo?
— Não sei o que quer dizer — disse Frodo, perturbado e alarmado.
— Ah, você sabe sim! — respondeu Passolargo. — Mas é melhor esperarmos até o tumulto acabar. Depois, por favor, Sr. Bolseiro, eu gostaria de trocar umas palavras com o senhor em particular.
— Sobre o quê? — perguntou Frodo, ignorando o uso repentino de seu nome.
— Um assunto de certa importância – para nós dois — respondeu Passolargo, olhando nos olhos de Frodo. — Você pode ouvir alguma coisa de seu interesse.
— Muito bem — disse Frodo, tentando parecer despreocupado. — Conversaremos mais tarde.
Enquanto isso, a discussão continuava ao lado da lareira. O Sr. Carrapicho tinha chegado pisando firme, e agora tentava escutar vários relatos dispares sobre o evento, tudo ao mesmo tempo.
— Eu o vi, Sr. Carrapicho — disse um hobbit — ou pelo menos não o vi, se entende o que quero dizer. Ele simplesmente desapareceu no ar, por assim dizer.
— Não me diga, Sr. Artemisa — exclamou o proprietário, parecendo intrigado.
— Digo sim! — respondeu Artemisa. — E ainda por cima sei do que estou falando.
— Existe alguma coisa errada — disse Carrapicho, balançando a cabeça. — Aquele Monteiro era grande demais para se desfazer assim em puro ar, ou em ar impuro, como é mais provável aqui nesta sala.
— Bem, onde ele está agora? — gritaram várias vozes.
— Como é que posso saber? Ele pode ir para onde quiser, contanto que pague a conta amanhã cedo. Temos aí o Sr. Túk. Ele não desapareceu.
— Bem, eu vi o que vi, e vi o que não vi — disse Artemisa obstinadamente.
— E eu insisto que deve haver algo errado — repetiu Carrapicho, apanhando a bandeja e recolhendo os cacos.
— É claro que há algo errado! — disse Frodo. — Eu não desapareci. Aqui estou! Estava só trocando umas palavrinhas com o Sr. Passolargo aqui no canto.
Avançou até a luz da lareira, mas a maioria do grupo se afastou, ainda mais perturbada que antes. Não estavam nem um pouco satisfeitos com a explicação de que Frodo tinha se arrastado rapidamente sob as mesas depois de sua queda. A maioria dos hobbits e homens de Bri saiu dali ofendida, sem ânimo para mais divertimento naquela noite. Um ou dois deles olharam feio para Frodo e foram embora resmungando entre si. Os anões e os dois ou três homens estranhos que ainda permaneciam se levantaram e disseram boa noite ao proprietário, mas não a Frodo e seus amigos. Logo todo mundo tinha saído, com a exceção de Passolargo, que continuava sentado, despercebido, perto da parede.
O Sr. Carrapicho não parecia muito desconcertado. Achava, provavelmente, que seu estabelecimento ficaria cheio de novo nas próximas noites, até que o mistério atual tivesse sido completamente debatido.
— Agora, o que andou fazendo, Sr. Monteiro? — perguntou ele. — Amedrontando meus clientes e quebrando minhas canecas com suas acrobacias?
— Sinto muito por ter causado problemas — disse Frodo. — Não tive a intenção, pode ter certeza. Foi um terrível acidente.
— Está bem, Sr. Monteiro! Mas se o senhor for fazer mais alguma acrobacia, ou feitiçaria, ou o que quer que seja, é melhor que avise as pessoas com antecedência – e me avise. O pessoal daqui é meio desconfiado de qualquer coisa que não seja normal – esquisita, se o senhor me entende, e nós não nos acostumamos de uma hora para outra.
— Não farei mais nada assim de novo, Sr. Carrapicho, eu lhe prometo. E agora acho que vou dormir. Amanhã devemos acordar cedo. Será que pode providenciar para que nossos pôneis estejam prontos por volta das oito horas?
— Muito bem, mas antes que parta, Sr. Monteiro, eu gostaria de trocar uma palavra com o senhor em particular. Uma coisa acabou de voltar à minha memória, e eu preciso lhe contar. Espero que não leve a mal. Preciso cuidar de umas coisas, e depois vou até o seu quarto, se o senhor permitir.
— Certamente! — disse Frodo, mas seu coração ficou gelado.
Perguntava-se quantas conversas em particular teria ante s de dormir, e o que elas revelariam. Estariam todas aquelas pessoas unidas contra ele? Frodo começou até a desconfiar que o rosto gordo de Carrapicho escondia desígnios obscuros.

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