17 de abril de 2016

Capítulo IX: Da fuga dos Noldor

Passado algum tempo, uma grande multidão reuniu-se junto ao Círculo da Lei; e os Valar estavam na penumbra, pois era noite. Mas as estrelas de Varda agora cintilavam lá no alto, e o ar estava límpido; pois os ventos de Manwë haviam dispersado os vapores da morte e feito recuar as sombras do mar. E então Yavanna se levantou e ficou em pé em Ezellohar, a Colina Verde, que agora estava nua e negra. E ela pôs as mãos nas Árvores, mas elas estavam mortas e escuras; e cada galho que Yavanna tocava, quebrava e caía sem vida a seus pés. Muitas vozes então se ergueram em lamento E pareceu àqueles que choravam que haviam esgotado a última gota do cálice de infortúnio que Melkor havia preparado para eles. Mas estavam enganados.
Yavanna falou aos Valar, dizendo: — A Luz das Árvores se extinguiu e sobrevive agora somente nas Silmarils de Fëanor. Como ele foi previdente! Mesmo para os mais poderosos súditos de Ilúvatar, existem obras que podem realizar uma e apenas uma vez. Dei existência à Luz das Árvores, e dentro de Eä nunca mais poderei repetir esse feito. Porém, se eu tivesse um pouco que fosse dessa luz, poderia devolver a vida às Árvores, antes que suas raízes apodrecessem.
Assim, nossa dor seria curada, e a maldade de Melkor, frustrada.
— Ouviste, Fëanor, filho de Finwë, as palavras de Yavanna? — disse então Manwë. — Desejas conceder o que ela quis pedir? Houve um longo silêncio, mas Fëanor não deu resposta.
— Fala, ó noldo, sim ou não! — exclamou Tulkas, então. — Mas quem negaria algo a Yavanna? E a luz das Silmarils por acaso não provém do trabalho dela desde o início?
— Não sejas apressado, Tulkas! — retrucou Aulë, o Criador. — Pedimos algo maior do que imaginas. Que ele possa refletir um pouco.
Pronunciou-se, porém, Fëanor com um lamento amargurado.
— Para os inferiores como para os superiores, existe um feito que ele não poderá realizar mais do que uma vez; e a esse feito seu coração se apegará. Talvez eu libere minhas pedras preciosas, mas nunca mais farei outras semelhantes; e, se precisar destruí-las, destruirei meu coração e morrerei; serei o primeiro a morrer de todos os eldar em Aman.
— Não o primeiro — disse Mandos, mas ninguém entendeu suas palavras. E mais uma vez fez-se silêncio enquanto Fëanor meditava no escuro. Parecia-lhe estar encurralado numa roda de inimigos, e voltaram à sua mente as palavras de Melkor, dizendo que as Silmarils não estariam em segurança se os Valar quisessem possuí-ias. “E não é um Vala como eles,” dizia seu pensamento, “e não compreende seus corações? Sim, um ladrão revelará ladrões!” — Isso eu não farei de livre e espontânea vontade — gritou então bem alto. — Porém, se os Valar me forçarem, saberei então com certeza que Melkor é da sua estirpe.
— Já te pronunciaste — disse então Mandos. E Nienna se levantou e subiu ao topo de Ezellohar.
Ela afastou do rosto seu capuz cinzento e, com suas lágrimas, lavou toda a profanação de Ungoliant; e cantou um lamento pela tristeza do mundo e pela Destruição de Arda.
Contudo, enquanto Nienna entoava seu canto triste, chegaram mensageiros de Formenos; e eles eram noldor e traziam notícias funestas. Pois contaram como uma Escuridão cega chegara ao norte, e no meio dela viera algum poder para o qual não havia nome; e a Escuridão emanava desse poder. Melkor, porém, também estava lá e fora à casa de Fëanor. Ali ele assassinara Finwë, Rei dos noldor, diante das portas, e derramara o primeiro sangue no Reino Abençoado; pois somente Finwë não havia fugido ao horror das Trevas. E contaram que Melkor arrombara a fortaleza de Formenos, tirando todas as pedras preciosas dos noldor que lá estavam guardadas; e as Silmarils haviam desaparecido.
Levantou-se então Fëanor e, erguendo a mão diante de Manwë, amaldiçoou Melkor, chamando-o de Morgoth, o Sinistro Inimigo do Mundo, e somente por esse nome passou ele a ser conhecido entre os eldar para sempre. Fëanor também mal-disse a convocação de Manwë e a hora em que ele viera a Taniquetil, acreditando, em meio ao furor de sua ira e de sua dor, que, se tivesse estado em Formenos, sua força poderia ter sido mais proveitosa do que ser simplesmente assassinado, como era o propósito de Melkor. Saiu então Fëanor correndo do Círculo da Lei e fugiu pela noite adentro. Pois seu pai lhe era mais caro do que a Luz de Valinor ou do que as incomparáveis obras de suas mãos. E quem, entre os filhos, de elfos ou de homens, deu mais valor aos pais?
Muitos ali choraram pela aflição de Fëanor, mas sua perda não era exclusivamente sua. E Yavanna chorava junto à colina, temendo que a Escuridão devorasse os últimos raios da Luz de Valinor para sempre. Pois, embora os Valar ainda não compreendessem plenamente o que havia acontecido, percebiam que Melkor havia recorrido a algum auxilio de fora dos limites de Arda. As Silmarils haviam desaparecido, e parecia não fazer diferença se Fëanor tivesse dito sim ou não a Yavanna. Contudo, tivesse ele dito sim de início, antes que chegassem as notícias de Formenos, talvez seus atos posteriores tivessem sido diferentes do que foram. Agora, porém, o cruel destino dos noldor se aproximava.
Enquanto isso, Morgoth, em sua fuga à perseguição dos Valar, chegava aos ermos de Araman.
Essa terra ficava ao norte entre as Montanhas das Pelóri e o Grande Mar, como Avathar ficava ao sul. Araman era, entretanto, uma terra mais larga; e entre as praias e as montanhas havia planícies áridas, cada vez mais frias com a aproximação do Gelo. Morgoth e Ungoliant passaram às pressas por essa região, atravessando assim as grandes brumas de Oiomúrë até Helcaraxë, onde o estreito entre Araman e a Terra Média era cheio de gelo em constante atrito; e ele fez a travessia, voltando por fim para o norte elas Terras de Fora Juntos, eles prosseguiram; pois Morgoth não conseguiu escapar a Ungoliant, e a nuvem dela ainda o envolvia enquanto todos os olhos dela o vigiavam; e chegaram àquelas terras que ficavam ao norte do Estuário de Drengtst. Agora Morgoth se aproximava das ruínas de Angband, onde no passado ficara sua grande fortaleza ocidental. E Ungoliant percebeu sua esperança e soube que ali ele procuraria fugir. Fez, então, com que ele parasse e exigiu que cumprisse sua promessa.
— Monstro cruel — disse ela — Fiz o que pediste. Mas ainda estou com fome.
— O que mais queres devorar? — respondeu Morgoth. — Desejas o mundo inteiro para encher a barriga? Não jurei te dar isso Eu sou o Senhor do mundo.
— Não desejo tudo isso. Mas tu tens um imenso tesouro de Formenos. É o que quero. Sim, e com as duas mãos tu o entregarás.
Foi assim que, forçado, Morgoth lhe entregou as pedras preciosas que trazia consigo, uma a uma e com relutância. E, quando ela as devorou, a beleza delas desapareceu do mundo. Cada vez maior e mais sinistra tornava-se Ungoliant, mas sua voracidade não estava saciada — Com apenas uma das mãos tu dás — disse ela — somente com a esquerda. Abre tua mão direita.
Na mão direita, Morgoth segurava firme as Silmarils e, embora estivessem guardadas num porta-joias de cristal, já começavam a queimá-la, e era com grande dor que ele mantinha a mão cerrada, mas se recusava a abrí-la.
— Não! Já recebeste teu quinhão. Pois com meu poder, que te transmiti, tua parte foi feita. Não preciso mais de ti. Estas pedras tu não terás, nem as verás Eu as tomo para mim para sempre.
Ungoliant, entretanto, se havia tornado enorme, enquanto ele ficara menor, pelo poder que dele havia saído. E ela se rebelou contra ele, cercando-o com sua nuvem, e o enredou numa teia de tiras grudentas para sufocá-lo. Morgoth deu então um grito terrível, que ecoou pelas montanhas. Por esse motivo, aquela região foi chamada de Lammoth, pois os ecos de sua voz permaneceram ali para sempre, de tal modo que quem desse um grito naquele lugar os despertava, e todos os recantos isolados entre os montes e o mar ficavam cheios de um clamor de vozes em agonia. Naquela hora, o grito de Morgoth foi o maior e mais horrendo jamais ouvido no norte do mundo. Abalou as montanhas, a terra tremeu e rochas se fenderam. Nas profundezas de lugares esquecidos, aquele grito foi ouvido. Muito abaixo dos salões destruídos de Angband, em subterrâneos aos quais os Valar, na pressa de seu ataque, não haviam descido, balrogs ainda estavam escondidos, sempre à espera do retomo de seu Senhor. E agora, velozes, eles se ergueram e, passando por Hithlum, chegaram a Lammoth como uma tempestade de chamas. Com seus açoites de fogo, eles rasgaram as teias de Ungoliant; e ela se acovardou e procurou fugir, soltando vapores negros para se encobrir. E, tendo escapado do norte, ela pousou em Beleriand e foi morar nos sopés das Ered Gorgoroth, naquele vale sinistro que mais tarde foi chamado de Nan Dungortheb, o Vale da Morte Horrenda, em decorrência dos horrores que ela espalhou por lá. Pois outras criaturas nefastas em forma de aranha ali habitavam desde os tempos das escavações de Angband, e ela copulava com essas criaturas e as devorava. E, mesmo depois que a própria Ungoliant partiu, não se sabe para onde, nas plagas esquecidas do sul, sua prole permaneceu ali, tecendo suas teias hediondas. Do destino de Ungoliant, não há história que fale. Contudo, há quem tenha dito que teve seu fim há muito tempo, quando, em sua fome extrema, ela própria acabou devorando a si própria.
E assim não se realizou o temor de Yavanna de que as Silmarils fossem engolidas e caíssem no vazio; mas elas continuaram nas mãos de Morgoth. E ele, estando livre, reuniu novamente todos os servos que conseguiu encontrar e chegou às ruínas de Angband. Ali, voltou a escavar seus enormes salões subterrâneos e calabouços; e, acima de seus portões, ergueu os picos tríplices das Thangorodrim, e uma densa nuvem de fumaça escura os envolveu eternamente.
Ali multiplicaram-se suas hostes de feras e demônios; e a raça dos orcs, criada tanto tempo antes, cresceu e proliferou nas entranhas da terra. Caía agora sobre Beleriand uma sombra escura, como será relatado a seguir.
Em Angband, porém, Morgoth forjou para si uma coroa de ferro e se intitulou Rei do Mundo.
Como símbolo de majestade, engastou as Silmarils em sua coroa. Suas mãos ficaram carbonizadas ao tocar naquelas pedras abençoadas, e negras elas continuaram para sempre. Ele também nunca mais se livrou da dor da queimadura e da raiva causada pela dor. Essa coroa, ele jamais tirou da cabeça, embora seu peso acabasse se transformando num cansaço mortal. Uma única vez chegou ele a sair, mas em segredo, de seus domínios no norte. Na realidade, raramente deixava as profundezas de sua fortaleza, comandando seus exércitos a partir de seu trono no norte. E, enquanto durou seu império, uma única vez, também, voltou a brandir uma arma.
Pois agora, mais do que nos tempos de Utumno, antes que seu orgulho sofresse humilhação, o ódio o devorava; e ele consagrava seu espírito a dominar seus servos e a inspirar-lhes o desejo do mal. Mesmo assim, sua majestade como um Vala persistiu por muito tempo, embora transformada em terror, e, diante de seu semblante, todos, a não ser os mais poderosos, sucumbiam num negro abismo de pavor.
Ora, quando se soube que Morgoth havia escapado de Valinor e que a perseguição a ele fora infrutífera, os Valar permaneceram por muito tempo sentados no Círculo da Lei; e os Maiar e vany ar ficaram a seu lado e choraram. Já os noldor, em sua maior parte, voltaram a Tirion e prantearam o escurecimento de sua bela cidade. Através da escura ravina da Calaciry a, chegavam as brumas dos mares sombrios, que encobriam suas torres, e a lamparina da Mindon ardia pálida na penumbra.
Entao Fëanor apareceu de repente na cidade e convocou todos a irem ao palácio do Rei, no cume de Túna. Mas a sentença de exílio que lhe havia sido imposta ainda não fora revogada; e ele estava se rebelando contra os Valar. Uma enorme multidão reuniu-se rapidamente, portanto, para ouvir o que ele queria dizer; e a colina, assim como as escadas e ladeiras que subiam por suas encostas, foi iluminada pela luz dos muitos archotes que cada um trazia na mão. Fëanor era um mestre das palavras, e sua fala exercia enorme influência sobre os corações quando ele se decidia a usá-la. Naquela noite, ele fez um discurso perante os noldor do qual eles se lembrariam para sempre. Ferozes e cruéis foram suas palavras, e cheias de raiva e orgulho; e, ao ouvi-Ias, os noldor foram levados à loucura. Sua ira e seu ódio eram dirigidos principalmente a Morgoth; e, entretanto, quase tudo o que dizia vinha das mentiras do próprio Morgoth. Fëanor estava, porém, transtornado de dor com o assassinato do pai e aflito com o roubo das Silmarils. Ele agora reivindicava o trono de rei de todos os noldor, já que Finwë havia morrido, e ele desdenhava os decretos dos Valar.
— Ó povo dos noldor, por que deveríamos continuar a servir aos invejosos Valar, que não conseguem proteger nem a nós nem a seu próprio reino, do Inimigo? E, embora ele agora seja seu adversário, não é verdade que Morgoth e eles são da mesma linhagem. A vingança exige que eu parta; mas, mesmo que não fosse assim, eu não moraria mais na mesma terra que a família do assassino de meu pai e ladrão de meu tesouro. Não sou, porém, o único valente neste povo destemido. E vocês todos não perderam seu Rei? E o que mais vocês não perderam, encurralados aqui numa terra estreita, entre as montanhas e o mar.
— Aqui, outrora, houve luz, que os Valar não concediam à Terra Média, mas agora as trevas deixam todos em condições iguais. Vamos nos lamentar aqui, passivos, para todo o sempre, um povo-fantasma, que corre atrás de névoas, derramando lágrimas vãs sobre os mares ingratos? Ou vamos voltar para a terra natal? Em Cuiviénen, as águas fluíam tranquilas à luz das estrelas límpidas, e havia terras extensas onde um povo livre podia caminhar. Lá elas ainda estão aguardando por nós, que em nossa loucura as abandonamos. Vamos embora! Que os covardes fiquem com esta cidade!
Longo foi seu discurso, e ele sempre insistia para que os noldor o acompanhassem e, com sua própria força, conquistassem a liberdade e territórios imensos nas terras do leste, antes que fosse tarde demais. Pois ele repetia as mentiras de Melkor, de que os Valar os haviam iludido e queriam mantê-los cativos para que os homens dominassem a Terra Média. Muitos dos eldar ouviram falar ali pela primeira vez dos Sucessores.
— Belo será o final — exclamou Fëanor —, embora a estrada seja longa e difícil! Digam adeus à servidão! Mas digam também adeus ao conforto! Digam adeus aos fracos! Digam adeus a seus tesouros! Faremos tesouros ainda maiores. Não carreguem peso na viagem; mas tragam suas espadas! Pois iremos muito mais longe do que Oromë, e resistiremos mais do que Tulkas.
Nunca desistiremos da perseguição. No encalço de Morgoth até os confins da Terra! Guerra terá ele, e um ódio eterno. Porém, quando tivermos vencido e reconquistado as Silmarils, nós, e somente nós, seremos os donos da Luz impoluta, senhores da felicidade e da beleza de Arda.
Nenhuma outra raça nos derrubará!
Nesse momento, Fëanor fez um juramento terrível. Seus sete filhos colocaram-se imediatamente a seu lado e fizeram juntos o mesmo voto, e vermelhas como sangue brilharam suas espadas desembainhadas à luz dos archotes. Fizeram um voto que ninguém deveria quebrar, e que ninguém deveria fazer, nem mesmo em nome de Ilúvatar, conclamando as Trevas Eternas a caírem sobre eles se não o cumprissem. E como testemunhas nomearam Manwë, Varda e a montanha abençoada de Taniquetil, jurando perseguir até o fim do Mundo com vingança e ódio qualquer Vala, demônio, elfo ou homem ainda não nascido, ou qualquer criatura, grande ou pequena, boa ou má, que o tempo fizesse surgir até o final dos tempos, quem quer que segurasse, tomasse ou guardasse uma Silmaril, impedindo que eles dela se apoderassem.
Assim falaram Maedhros, Maglor e Celegorm, Curufin e Caranthir, Amrod e Amras, príncipes dos noldor; e muitos fraquejaram ao ouvir aquelas palavras tremendas. Pois um juramento desses, para o bem ou para o mal, não pode ser quebrado; e perseguirá quem o cumprir e quem o descumprir até o fim do mundo. Fingolfin e Turgon, seu filho, falaram então contra Fëanor, e palavras terríveis surgiram, de tal modo que mais uma vez, a ira quase chegou ao fio das espadas. Finarfin, porém, falou com ponderação, como era seu costume, e procurou acalmar os noldor, convencendo-os a parar e refletir antes de agir de modo irreparável; e Orodreth foi o único entre seus filhos a se manifestar da mesma forma. Finrod estava com Turgon, seu amigo; mas Galadriel, a única mulher dos noldor a se apresentar naquele dia, alta e valente entre os príncipes em conflito, estava ansiosa por partir. Não fez nenhum juramento, mas as palavras de Fëanor acerca da Terra Média haviam reverberado em seu coração, pois ela ansiava por ver os vastos territórios desprotegidos e estabelecer ali um reino a seu gosto. Disposição semelhante à de Galadriel tinha Fingon, filho de Fingolfin, que também ficara comovido com as palavras de Fëanor, embora não gostasse muito dele. E ao lado de Fingon, como sempre faziam, estavam Angrod e Aegnor, filhos de Finarfin. Esses, porém, permaneceram calados e não falaram contra seus pais.
Afinal, após um longo debate, a vontade de Fëanor prevaleceu; e a maior parte dos noldor ali reunidos ele inflamou com o desejo de coisas novas e países desconhecidos. Por isso, quando Finarfin mais uma vez defendeu a cautela e mais tempo para pensar, ergueu-se da multidão um forte brado: — Não! Vamos embora! — E imediatamente Fëanor e seus filhos começaram os preparativos para a marcha.
Pouco poderiam prever aqueles que ousavam enveredar por um caminho tão sombrio. Mesmo assim, tudo foi feito às pressas; pois Fëanor os instigava, temendo que, quando os corações arrefecessem, suas palavras perdessem o brilho e outras opiniões pudessem prevalecer. E, apesar de toda a sua arrogância, ele não se esquecia do poder dos Valar. De Valmar, porém, não chegava mensagem alguma, e Manwë estava em silêncio. Ainda não queria proibir nem impedir a iniciativa de Fëanor. Pois os Valar estavam magoados com a acusação de que teriam intenções malévolas para com os eldar, ou de que algum deles estaria ali cativo contra a própria vontade. Agora, eles só observavam e aguardavam, pois ainda não acreditavam que Fëanor pudesse fazer valer sua vontade sobre todos os noldor.
E, de fato, quando Fëanor começou a comandar os noldor para a partida, imediatamente iniciou-se a discordância. Pois, embora ele tivesse convencido todos os reunidos em assembleia a partir, de modo algum tinham todos eles a intenção de aceitá-la como Rei. Um amor maior era dedicado a Fingolfin e seus filhos; e tanto a família deste quanto a maior parte dos habitantes de Tirion se recusavam a renunciar a ele, se ele quisesse vir junto. E assim, no final, como duas hostes separadas, os noldor partiram para sua amarga jornada. Fëanor e seus seguidores tornaram a dianteira, mas a multidão mais numerosa vinha atrás, sob o comando de Fingolfin; e este marchava contrariando seu discernimento, porque Fingon, seu filho, insistia com ele para que o fizesse, e por não querer se isolar de seu próprio povo, que estava decidido a partir, nem querer abandoná-la às decisões apressadas de Fëanor. Tampouco se esquecera de suas palavras diante do trono de Manwë. Com Fingolfin ia também, e por motivos semelhantes, Finarfin, mas ele muito relutara em partir. E, de todos os noldor em Valinor, que agora formavam uma grande população, apenas uma pequena fração se recusou a pôr o pé na estrada: alguns pelo amor que sentiam pelos Valar (principalmente por Aulë), alguns pelo amor por Tirion e pelas muitas coisas que haviam feito. Nenhum por medo dos perigos que os aguardavam.
Mas no momento exaro em que soava a trombeta, e Fëanor saía pelos portões de Tirion, chegou afinal um mensageiro de Manwë, dizendo:
— Somente contra a insensatez de Fëanor declaro minha decisão. Não sigam adiantei Pois a hora é funesta, e seu caminho leva a tristezas das quais vocês ainda não têm ideia. Nenhum auxílio lhes prestarão os Valar nessa demanda; mas também não lhes criarão obstáculos. Pois isso saibam vocês: como chegaram aqui livremente, livremente partirão. Mas tu, Fëanor, filho de Finwë, por teu próprio juramento estás exilado. As mentiras de Melkor irás desaprendê-las amargamente. Vala ele é, dizes. Pois juraste em vão, porque nenhum Vala podes derrotar nem agora nem nunca dentro dos limites de Eä, nem se Eru, em nome de quem juraste, te houvesse criado três vezes mais poderoso do que és.
Fëanor riu, porém, e não se dirigiu ao arauto, mas aos noldor.
— Pois bem! Será que esse povo valente vai enviar o herdeiro de seu Rei sozinho para o exílio apenas com seus filhos, e voltar para o cativeiro? Mas se alguém quiser vir comigo, eu lhes pergunto se está previsto o sofrimento. No entanto, em Aman, nós já o conhecemos. Em Aman chegamos ao sofrimento através da felicidade. Agora vamos tentar o oposto: através do sofrimento, chegar à alegria, ou à liberdade pelo menos. — Voltando-se então para o arauto, gritou: — Diga o seguinte a Manwë Súlimo, Rei Supremo de Arda. Se Fëanor não pode derrotar Morgoth, ele pelo menos não deixa o ataque para depois, nem fica sentado, ocioso, a chorar. E talvez Eru tenha posto em mim um fogo maior do que conheces. No mínimo vou infligir tal sofrimento ao Inimigo dos Valar, de tal modo que mesmo os poderosos no Círculo da Lei ficarão espantados em saber. Sim, no final, eles me seguirão. Adeus! Nessa hora, a voz de Fëanor tomou-se tão forte e potente, que até mesmo o arauto dos Valar lhe fez uma reverência, como alguém que houvesse recebido uma resposta completa, e foi embora; e os noldor se sujeitaram. Continuaram, portanto, sua marcha. E a Casa de Fëanor ia apressada, à frente, ao longo das costas de Elendë. Nem uma vez eles voltaram os olhos para Tirion na verde colina de Túna. Com menos pressa e entusiasmo vinha a hoste de Fingolfin atrás deles.
Desses, Fingon ia à frente. Já na retaguarda iam Finarfin e Finrod, além de muitos dos mais nobres e sábios entre os noldor. E muitas vezes, eles olhavam para trás para ver sua bela cidade, até a lamparina da Mindon Eldaliéva desaparecer na noite. Mais do que qualquer outro dos Exilados, eles levavam lembranças da felicidade à qual haviam renunciado, e mesmo algumas coisas que lá haviam feito eles traziam consigo: um alívio e um fardo na estrada.
Ora, Fëanor conduziu os noldor para o norte, porque seu primeiro objetivo era seguir Morgoth.
Além disso, Túna, aos pés da Taniquetil, ficava próxima do cinturão de Arda, e ali o Grande Mar tinha extensão incomensurável, ao passo que para o norte os mares divisores ficavam mais estreitos, à medida que se aproximavam os ermos de Araman e as costas da Terra Média. Mas, quando a mente de Fëanor se acalmou e refletiu, ele percebeu tarde demais que aquela enorme multidão jamais conseguiria transpor as longas léguas até o norte, nem cruzar os mares no final, a não ser com a ajuda de barcos. Seria, porém, necessário muito tempo e trabalho para construir uma frota tão grande, mesmo que houvesse entre os noldor alguém capacitado para essa tarefa. Resolveu, então, convencer os teleri, sempre amigos dos noldor, a se juntarem a eles. E, em sua rebeldia, acreditava desse modo poder diminuir ainda mais a felicidade de Valinor e aumentar seu poder para enfrentar Morgoth. Apressou-se então a chegar a Alqualondë, e falou com os teleri, como havia falado antes em Tirion.
Os teleri, entretanto, não se comoveram com nada do que ele dissesse. Estavam realmente tristes com a partida de parentes e amigos de longa data, mas, em vez de auxiliá-los, preferiam dissuadi-los. E nenhuma embarcação emprestariam ou ajudariam a construir contra a vontade dos Valar. Quanto a si próprios, não desejavam outro lar a nao ser as praias de Eldamar; e nenhum outro senhor além de Olwë, príncipe de Alqualondë. E ele nunca dera ouvidos a Morgoth, nem o acolhera em sua terra; e ainda tinha confiança de que Ulmo e os outros poderosos entre os Valar compensariam os danos de Morgoth, e que a noite ainda passaria a ser uma nova aurora.
Então a ira tomou conta de Fëanor, pois ele ainda temia um atraso. E foram veementes suas palavras a Olwë.
— Vocês renegam a amizade justamente na hora de nossa necessidade — disse. — Mas ficaram bem felizes de receber nossa ajuda quando chegaram por último a estas praias, preguiçosos covardes, e praticamente de mãos vazias. Ainda estariam morando em cabanas na praia se os noldor não tivessem esculpido seu porto e trabalhado em suas muralhas.
— Não renegamos nenhuma amizade — respondeu, porém, Olwë. — Mas a um amigo pode caber o papel de censurar a loucura do companheiro. E, quando os noldor nos acolheram e auxiliaram, eram diferentes suas palavras: na terra de Aman viveríamos para sempre, como irmãos cujas casas ficam lado a lado. Quanto a nossas alvas embarcações, essas vocês não nos deram. Não aprendemos esse ofício com os noldor, mas com os Senhores do Mar; e as madeiras claras trabalhamos com nossas próprias mãos; e as velas brancas foram tecidas por nossas esposas e filhas. Por isso, não nos dispomos a dá-las nem vendê-las por nenhuma aliança ou amizade.
Pois eu 1he digo, Fëanor, filho de Finwë, elas são para nós como são as pedras preciosas dos noldor: as obras que mais prezamos, iguais às quais não voltaremos a fazer outras.
Com isso, Fëanor o deixou e foi sentar remoendo maus pensamentos do lado de fora das muralhas de Alqualondë até sua hoste se reunir. Quando considerou que sua força era suficiente, foi até o Porto dos Cisnes e começou a manobrar os barcos que ali estavam ancorados, levandoos à força. Os teleri, entretanto, ofereceram resistência e lançaram muitos dos noldor ao mar. Então, espadas foram desembainhadas, e travou-se uma terrível batalha nos barcos, em volta dos molhes e dos quebra-mares do Porto, iluminados por lamparinas, e mesmo sobre o grande arco de entrada. Três vezes o povo de Fëanor foi rechaçado, e muitos morreram de ambos os lados. Contudo, a vanguarda dos noldor foi socorrida por Fingon com os primeiros da hoste de Fingolfin, que, ao se aproximarem, encontraram uma batalha em curso e sua própria gente caindo. Eles correram para ajudar antes de saber ao certo a causa da contenda. Alguns chegaram a acreditar que os teleri haviam tentado uma cilada contra a marcha dos noldor a pedido dos Valar.
Assim, finalmente, os teleri foram derrotados; e grande parte de seus marinheiros que moravam em Alqualondë foi brutalmente assassinada Pois os noldor estavam se tomando cruéis e desesperados; e os teleri tinham menos força e estavam armados, em sua maioria, apenas com arcos finos. Os noldor então puxaram os barcos brancos e manejaram seus remos da melhor forma possível, levando-os para o norte ao longo da costa. E Olwë recorreu a Ossë, mas este não veio, pois os Valar não permitiram que a fuga dos noldor fosse interrompida pela força.
Uinen, porém, chorou pelos marinheiros dos teleri; e o mar cresceu em fúria contra os assassinos, de modo que muitas embarcações naufragaram, e aqueles que nelas estavam morreram afogados. Sobre o Fratricídio de Alqualondë, mais é dito no lamento conhecido como Noldolantë, a Queda dos Noldor, que Maglor compôs antes de se perder.
Mesmo assim, a maior parte dos noldor escapou. E, quando a tempestade passou, eles mantiveram seu curso, alguns por mar, outros por terra. Mas o caminho era longo, e mais difícil à medida que avançavam. Depois de muito marcharem na noite sem limites, chegaram afinal ao extremo norte do Reino Protegido, junto às fronteiras dos ermos vazios de Araman, que eram frios e montanhosos. Ali, viram de repente uma figura escura parada no alto de um rochedo que dava para a praia. Alguns dizem que era o próprio Mandos, e nenhum mensageiro menos importante de Manwë. E ouviram uma voz alta, solene e terrível, que 1hes ordenou que parassem e escutassem. Todos então pararam e ficaram imóveis; e de uma ponta à outra das hostes dos noldor ouviu-se a voz que proferiu a maldição e profecia que é chamada de Profecia do Norte, e a Condenação dos Noldor. Muito ela pressagiou em palavras sombrias, que os noldor somente foram entender quando as desgraças de fato se abateram sobre eles; mas todos ouviram a maldiçâo lançada sobre aqueles que não quisessem ficar nem procurar a lei e o perdão dos Valar.
— Vocês verterão lágrimas sem conta; e os Valar cercarão Valinor para impedi-los de entrar.
Ficarão de tal modo isolados, que nem mesmo o eco de suas lamentações atravessará as montanhas. Sobre a Casa de Fëanor, a ira dos Valar se abate, desde o oeste até o extremo leste, e sobre todos aqueles que se dispuserem a acompanhá-los. O Juramento que fizeram os motivará, e ao mesmo tempo os trairá, arrancando de suas mãos os próprios tesouros que juraram procurar. Um final funesto terão todas as coisas que eles iniciarem com êxito; e isso se dará pela traição de irmão por irmão, e pelo medo da traição. Para sempre serão eles Os Espoliados.
— Vocês derramaram o sangue de seus irmãos injustamente e macularam a terra de Aman. Pelo sangue, irão entregar sangue; e fora de Aman permanecerão na sombra da Morte. Pois, embora Eru tenha determinado que vocês não morressem em Eä, e que nenhuma enfermidade os atacasse, mesmo assim vocês podem ser assassinados, e serão: por armas, tormentos e pela tristeza; e seus espíritos sem pouso virão, então, para Mandos.
Ali ficarão por muito tempo a ansiar por seus corpos, e encontrarão pouquíssima compaixão, mesmo que aqueles que vocês assassinaram venham a implorar por vocês. E aqueles que resistirem na Terra Média e não vierem para Mandos ficarão cansados do mundo como de um peso enorme e definharão, tornando-se como que espectros de remorso diante da raça mais jovem que virá. Falaram os Valar.
E então muitos se intimidaram, mas Fëanor endureceu seu coração.
— Fizemos nosso juramento, e não foi com leviandade. A esse juramento seremos fiéis. Somos ameaçados com muitos males, e a traição não é o menor deles. Mas uma coisa não é dita: que sofreremos de medo, de covardia ou do temor à covardia. Portanto, digo que devemos seguir, e acrescento um prognóstico: nossos feitos futuros serão tema de canções até os últimos dias de Arda.
Nessa hora, porém, Finarfin abandonou a marcha e voltou, por estar cheio de dor e de amargura contra a Casa de Fëanor, em virtude de seu parentesco com Olwë de Alqualondë. E muitos dos seus foram com ele, refazendo seus passos, pesarosos, até contemplar mais uma vez o facho longínquo de Mindon sobre Túna, ainda fulgindo na noite, e afinal chegar a Valinor. Ali receberam o perdão dos Valar, e Finarfin foi indicado para governar os noldor que restavam no Reino Abençoado. Seus filhos, entretanto, não estavam com ele, pois não quiseram abandonar os filhos de Fingolfin. E toda a gente de Fingolfin ainda prosseguiu, sentindo a obrigação do parentesco e a vontade de Fëanor, e tendo de encarar a condenação dos Valar, já que nem todos eram inocentes no Fratricídio de Alqualondë. Além disso, Fingon e Turgon eram audazes e belicosos, e relutavam em abandonar qualquer tarefa à qual se houvessem dedicado antes do triste final, se ele tivesse de ser triste. Portanto, a hoste principal continuou viagem, e rapidamente o mal que havia sido previsto começou a atuar.
Os noldor acabaram chegando ao norte de Arda e viram as primeiras pontas do gelo que flutuava no mar. Souberam, então, que estavam se aproximando de Helcaraxë; Pois, entre a terra de Aman, que ao norte fazia uma curva para o leste, e o litoral oeste de Endor (que é a Terramédia), que se projetava para o ocidente, havia um pequeno estreito, através do qual confluíam as águas do Mar Circundante e as ondas de Belegaer. Havia vastos nevoeiros e brumas de um frio mortal, e as correntes marítimas vinham carregadas de blocos de gelo que colidiam uns com os outros e do atrito do gelo das profundezas. Assim era Helcaraxë, e ali ninguém até então ousara pisar, a não ser os Valar, e Ungoliant.
Portanto, Fëanor parou, e os noldor debateram que caminho deveriam seguir a partir dali.
Começaram, porém, a sofrer com o frio e o nevoeiro insistente, que o brilho de nenhuma estrela poderia penetrar. E muitos se arrependeram da viagem e começaram a reclamar, especialmente os que acompanhavam Fingolfin, amaldiçoando Fëanor e dizendo que ele era a causa de todas as desgraças dos eldar. Fëanor, porém, sabendo de tudo o que era dito, aconselhou-se com seus filhos. E eles viam apenas dois meios de escapar de Araman e entrar em Endor: pelos estreitos, ou em barcos. Contudo, consideravam Helcaraxë intransponível, enquanto a quantidade de barcos era insuficiente. Muitos haviam sido perdidos na longa viagem, e os restantes eram poucos para transportar de uma vez toda aquela multidão. No entanto, ninguém estava disposto a permanecer na costa ocidental enquanto outros eram transportados primeiro. Já havia despertado entre os noldor o medo da traição. Por isso, ocorreu a Fëanor e seus filhos a ideia de tomar todos os barcos e partir de repente. Pois eles haviam mantido o comando da frota desde a Batalha do Porto, e ela era tripulada apenas por aqueles que lá haviam lutado e tinham vínculos com Fëanor. E, como se fosse a pedido seu, começou a soprar um vento vindo do noroeste, e Fëanor escapou em segredo com todos os que ele considerava fiéis, embarcou e pôs-se ao mar e deixou Fingolfin em Araman. E, como o mar ali fosse estreito, navegando para o leste e um pouco para o sul ele fez a travessia sem perdas, sendo o primeiro de todos os noldor a voltar a pisar nas praias da Terra Média; e o desembarque de Fëanor foi na foz do estuário chamado Drengist, que levava ao interior de Dorlómin.
Quando estavam em terra firme, porém, Maedhros, seu primogênito, e no passado amigo de Fingon, antes que as mentiras de Morgoth os separassem, dirigiu-se a Fëanor.
— Agora quais barcos e remadores liberarás para a volta? E quem eles trarão em primeiro lugar? Fingon, o Valente?
Riu então Fëanor como um ensandecido e gritou: — Nenhum barco, nenhum remador! O que deixei para trás não dou como perda. Revelou-se bagagem desnecessária no caminho. Que aqueles que amaldiçoaram meu nome continuem a me amaldiçoar e voltem os gemidos para as jaulas dos Valar! Queimem os barcos! — E então Maedhros ficou de lado, sozinho, mas Fëanor fez com que ateassem fogo aos alvos barcos dos teleri. Portanto, naquele local chamado de Losgar, na saída do Estuário de Drengist, acabaram-se as mais belas embarcações que jamais navegaram, num enorme incêndio, brilhante e terrível. E Fingolfin e seu povo viram a luz ao longe, vermelha sob as nuvens; e souberam que haviam sido traídos. Esses foram os primeiros frutos do Fratricídio e da Condenação dos Noldor.
Então, Fingolfin, ao ver que Fëanor o havia deixado para perecer em Araman ou retomar humilhado a Valinor, encheu-se de rancor. Desejava agora mais do que nunca chegar de algum modo a Terra Média para reencontrar Fëanor. Assim, ele e sua gente muito caminharam em condições deploráveis, mas seu valor e sua capacidade de resistência cresciam com as dificuldades, pois eram um povo poderoso, os filhos mais velhos e imortais de Eru Ilúvatar, porém recém-chegados do Reino Abençoado e ainda não desgastados com o cansaço da Terra. O ânimo de seus corações tinha energia; e, liderados por Fingolfin e seus filhos, e por Finrod e Galadriel, eles ousaram penetrar nas regiões mais hostis do norte. E, não encontrando nenhum outro caminho, enfrentaram afinal o horror da Helcaraxë e os cruéis blocos de gelo. Poucos dos feitos dos noldor daí em diante suplantaram essa travessia desesperada em termos de dificuldade ou desgraças. Ali, perderam Elenwë, a mulher de Turgon; e muitos outros também pereceram. E foi com uma hoste reduzida que Fingolfin afinal pôs os pés nas Terras de Fora.
Pouco amor por Fëanor ou por seus filhos tinham aqueles que marcharam sob seu comando e que soaram suas trombetas na Terra Média ao primeiro nascer da Lua.

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