23 de abril de 2016

Capítulo IV - O cerco de Gondor

Pippin foi acordado por Gandalf. Havia velas acesas no quarto, pois apenas uma fraca luz crepuscular entrava pelas janelas; o ar estava pesado como se uma tempestade se aproximasse.
— Que horas são? — perguntou Pippin bocejando.
— Já passa da segunda hora — disse Gandalf. — Hora de levantar e se fazer apresentável. O Senhor da Cidade o convoca para informá-lo sobre seus novos deveres.
— E ele vai providenciar o desjejum?
— Não, eu providenciei isso: tudo o que você vai comer até o meio-dia. A comida agora está sendo racionada.
Pippin olhou desolado para o pequeno pedaço de pão e a porção muito inadequada (achou ele) de manteiga que lhe foi servida, ao lado de uma xícara de leite aguado.
— Por que você me trouxe para cá? — disse ele.
— Você sabe muito bem — disse Gandalf. — Para mantê-lo longe de confusão; e, se você não aprecia estar aqui, é melhor se lembrar de que foi você quem atraiu a confusão.
Pippin não disse mais nada.
Logo estava descendo mais uma vez com Gandalf pelo frio corredor que levava à porta do Salão da Torre. Denethor estava sentado lá numa escuridão cinzenta, como uma aranha velha e paciente, na opinião de Pippin; não parecia ter mudado de posição desde o dia anterior. Apontou uma cadeira para Gandalf, mas deixou Pippin um tempo parado de pé, sem lhe dar atenção. De repente o velho voltou-se para ele:
— Bem, Mestre Peregrin, espero que tenha usado o dia de ontem em seu proveito, e a seu gosto. Mas receio que a mesa seja mais pobre nesta Cidade do que você poderia desejar.
Pippin teve uma sensação incômoda de que a maioria do que tinha falado ou feito chegara, de alguma forma, ao conhecimento do Senhor da Cidade, que também estava adivinhando grande parte de seus pensamentos. Não respondeu.
— O que você poderia fazer a meu serviço?
— Pensei que minhas tarefas seriam designadas pelo senhor.
— E serão, quando eu souber para que serviço você serve — disse Denethor. — Mas isso talvez eu saiba mais depressa se o mantiver ao meu lado. O escudeiro de minha câmara pediu permissão para ir à guarnição externa, de modo que você deve substitui-lo por algum tempo. Vai me servir, levar recados e conversar comigo, se a guerra e o planejamento me deixarem algum tempo de sobra. Sabe cantar?
— Sei — disse Pippin. — Quero dizer, bem o suficiente para o meu próprio povo. Mas não temos canções adequadas para grandes salões e tempos ruins. Raramente cantamos sobre qualquer coisa mais terrível que o vento ou a chuva. E a maioria de minhas canções é sobre coisas que nos fazem rir, ou sobre comida e bebida, é claro.
— E por que essas canções seriam inadequadas para meus salões, ou para horas como estas? Quem viveu muito tempo sob a Sombra está proibido de ouvir os ecos de uma terra não perturbada por ela? Nesse caso poderemos sentir que nossa vigilância não foi em vão, embora não tenha sido reconhecida.
Pippin sentiu o coração pesado. Não apreciava a ideia de cantar qualquer canção do Condado para o Senhor de Minas Tirith, com certeza não as cômicas que ele sabia melhor; essas eram muito, bem, rústicas para uma ocasião daquelas. No entanto foi dispensado, pelo momento, da penosa provação. Não lhe foi ordenado que cantasse. Denethor voltou-se para Gandalf, perguntando coisas sobre os rohirrim e suas estratégias, e sobre a posição de Éomer, o sobrinho do rei.
Pippin ficou surpreso ao ver a quantidade de coisas que o Senhor parecia saber sobre um povo que vivia distante, embora, pensou ele, muitos anos devessem ter passado desde que Denethor cavalgara fora de seus domínios.
De repente Denethor acenou para Pippin e o dispensou de novo por um tempo.
— Vá até os arsenais da Cidadela — disse ele — e pegue o seu uniforme e as armas da Torre. Vai encontrar tudo preparado. Dei ordens nesse sentido ontem. Volte quando estiver devidamente vestido!
Foi como ele dissera, e Pippin logo se viu trajado com uma roupa estranha, toda preta e prateada. Tinha uma pequena cota de malha, com anéis forjados de aço, talvez, embora fossem pretos como o azeviche; também um elmo alto com pequenas asas de corvo dos dois lados, adornado com uma estrela de prata no centro do diadema. Sobre a cota de malha trazia um pequeno casaco preto, com o símbolo da Árvore bordado em prata no peito. Suas roupas antigas foram dobradas e guardadas, mas lhe permitiram ficar com a capa cinzenta de Lórien, embora não pudesse usá-la quando estivesse trabalhando.
Mal sabia que agora estava parecendo realmente o Ernili Pheriannath, o Príncipe dos Pequenos, que as pessoas diziam que ele era; mas não se sentia à vontade, e a melancolia começou a derrotar o seu humor.


Ficou escuro e sombrio o dia todo. Desde a aurora sem sol até a noite, a sombra pesada se aprofundou, e todos os corações da Cidade estavam oprimidos. Lá em cima uma grande nuvem passava lentamente para o oeste, vinda da Terra Negra, devorando a luz, carregada por um vento de guerra; mas mais abaixo o ar estava parado e sem vento, como se o Vale do Andum esperasse pelo ataque de uma tempestade destruidora.
Lá pela décima primeira hora, finalmente dispensado do serviço por um tempo, Pippin saiu e foi procurar comida e bebida para alegrar seu coração pesado e transformar sua tarefa de servir em algo mais suportável. No refeitório encontrou outra vez Beregond, que acabara de chegar de uma missão pelo Pelennor, saindo das Torres de Guarda sobre o Passadiço. Juntos foram caminhando até as muralhas, pois Pippin se sentia enclausurado do lado de dentro, e sufocado até mesmo na alta cidadela.
Agora estavam sentados lado a lado outra vez no parapeito que dava para o leste, onde tinham comido e conversado no dia anterior.
Estava na hora do pôr-do-sol, mas a grande mortalha agora se estendera para dentro do oeste, e só quando ela finalmente afundou no Mar o Sol libertou-se para emitir um brilho breve de despedida antes da noite, no mesmo momento em que Frodo o via na Encruzilhada, incidindo sobre a cabeça do rei caído. Mas aos campos do Pelennor, sob a sombra do Mindolluin, não chegou nenhum raio: estava tudo escuro e desolado.
Pippin tinha a impressão de que já fazia anos que se sentara lá, em algum tempo semi-esquecido quando ele ainda era um hobbit, um andarilho alegre que pouco se importava com os perigos pelos quais passara. Agora era um pequeno soldado numa cidade que se preparava para um grande ataque, vestido à moda altiva mas sombria da Torre de Guarda.
Em algum outro tempo e lugar, Pippin poderia ter ficado satisfeito com suas novas vestes, mas agora sabia que não estava tomando parte em alguma brincadeira; era agora, num jogo sério como a morte, o servidor de um senhor severo, correndo o maior dos perigos. A cota de malha era incômoda, e o elmo pesava-lhe sobre a cabeça. Jogara a capa em cima do banco. Desviou seu olhar cansado dos campos escuros lá embaixo e bocejou; depois veio um suspiro.
— Cansado do trabalho de hoje? — disse Beregond.
— Estou — disse Pippin —, muito: exausto por não fazer nada e esperar. Fiquei batendo os calcanhares contra a porta do quarto de meu mestre por muitas horas arrastadas, enquanto ele debatia com Gandalf e o Príncipe e outras pessoas importantes. E não estou habituado, Mestre Beregond, a ficar com fome servindo, enquanto os outros comem. Isso é uma terrível provação para um hobbit. Sem dúvida você está pensando que eu deveria sentir a honra mais intensamente. Mas de que adianta essa honra? E mesmo a comida e a bebida, de que adiantam elas sob esta sombra que avança? O que significa isso? O próprio ar parece estar espesso e escuro! É frequente aqui essa escuridão, quando sopra o vento do leste?
— Não — respondeu Beregond —, isso não é natural. É algum artifício da malícia dele; algum tumulto de fumaça que ele envia da Montanha do Fogo para turvar nossos corações e nossas mentes. E realmente o efeito é esse. Gostaria que o Senhor Faramir retornasse. Ele não desanimaria. Mas, agora, quem pode saber se ele algum dia vai voltar do outro lado do Rio vindo da Escuridão?
— É — disse Pippin — Gandalf também está ansioso. Ficou desapontado, julgo eu, por não ter encontrado Faramir aqui. E onde se meteu ele? Deixou o conselho do Senhor antes da refeição do meio-dia, e tive a impressão de que estava de mau humor. Talvez tenha tido a premonição de alguma má noticia.
De repente, enquanto conversavam, emudeceram, como se transformados em pedras alertas. Pippin se agachou tapando os ouvidos com as mãos, mas Beregond, que estivera olhando para fora no parapeito enquanto falava de Faramir, permaneceu ali, imóvel, com o olhar assustado. Pippin conhecia o grito arrepiante que ouvira: era o mesmo que ouvira havia muito tempo no Pântano do Condado, mas agora crescera em força e ódio, atravessando o coração com um desespero venenoso.
Finalmente Beregond falou com dificuldade.
— Eles chegaram! — disse ele. — Tome coragem e olhe! Há seres cruéis lá embaixo.
Com relutância Pippin subiu no banco e olhou por sobre a muralha. O Pelennor jazia escuro abaixo dele, desaparecendo na linha quase invisível do Grande Rio. Mas agora, voando em rápidos círculos através dele, como sombras de uma noite precoce, ele viu no ar, abaixo de onde estava, cinco figuras semelhantes a pássaros, horríveis como aves carniceiras, e apesar disso maiores que águias, cruéis como a morte. Em alguns momentos voavam mais baixo, arriscando-se a chegar quase ao alcance das flechas que vinham das muralhas, outras vezes voavam para longe em círculos.
— Cavaleiros Negros! — murmurou Pippin. — Cavaleiros Negros do ar! Mas veja, Beregond! — exclamou ele. — Com certeza estão procurando algo. Veja como eles fazem círculos e mergulham em voos rasantes, sempre descendo na direção daquele ponto ali. E você está vendo alguma coisa se mexendo no chão? Coisinhas escuras. Sim, homens montados em cavalos: quatro ou cinco. Ah! Não consigo suportar isso! Gandalf! Gandalf, salve-nos!
Um outro grito penetrante cresceu e diminuiu, e Pippin se jogou da muralha de novo, ofegando como um animal acossado. Fraco e aparentemente remoto, através daquele grito estarrecedor, ele ouviu subindo lá de baixo o som de uma trombeta terminando numa nota longa e aguda.
— Faramir! O Senhor Faramir! É o chamado dele! — gritou Beregond. — Homem corajoso! Mas como poderá alcançar o Portão, se esses nojentos falcões do inferno tiverem outras armas além do medo? Mas olhe! Eles continuam resistindo. Vão chegar até o Portão. Não! Os cavalos estão ficando loucos. Veja! Os homens foram jogados no chão, e estão correndo a pé. Não, um ainda está montado, mas está voltando em direção aos outros. Com certeza é o Capitão: ele consegue controlar tanto animais quanto homens. Ah! Lá está uma das criaturas nojentas arremetendo contra ele! Socorro! Socorro! Ninguém vai ajudá-lo? Faramir!
Dizendo isso Beregond deu um salto e correu para dentro da escuridão.
Envergonhado do próprio medo, enquanto Beregond da Guarda pensava primeiro no capitão que amava, Pippin se levantou e espiou lá fora. Naquele momento captou um clarão branco e prateado vindo do norte, como uma pequena estrela descendo nos campos sombrios.
Movia-se com a velocidade de uma flecha, e crescia à medida que se aproximava, convergindo rapidamente com a fuga dos quatro homens em direção ao Portão. Pippin teve a impressão de que uma luz pálida se espalhava ao redor da estrela, e as sombras pesadas abriam caminho diante dela; então, assim que se aproximou mais, o hobbit pensou ter ouvido, como um eco nas muralhas, uma voz imponente chamando.
— Gandalf! — gritou ele. — Gandalf! Ele sempre aparece quando as coisas estão pretas. Avante! Avante, Cavaleiro Branco! Gandalf, Gandalf! — berrou ele alucinado, como o espectador de um grande páreo, motivando um corredor que não precisa mais de torcida.
Mas agora as escuras sombras de rapina estavam cientes do recém-chegado. Uma descreveu um giro na direção dele; mas Pippin teve a impressão de que ele ergueu a mão, e dela um raio de luz branca cortou os ares acima. O nazgúl soltou um grito longo e choroso e desviou-se, e depois disso os outros quatro hesitaram, então, erguendo-se em rápidas espirais, rumaram para o leste, desaparecendo na baixa nuvem acima deles; lá embaixo, no Pelennor, a escuridão pareceu menos densa por um tempo.
Pippin assistia a tudo, e viu que o homem a cavalo e o Cavaleiro Branco se encontraram e pararam, aguardando os outros que vinham a pé.
Agora homens corriam da Cidade em direção a eles, e logo todos passaram e desapareceram sob as muralhas externas e o hobbit sabia que estavam entrando pelo Portão.
Supondo que imediatamente viriam para a Torre para ver o Regente, correu para a entrada da cidadela. Ali juntou-se a muitos outros que das altas muralhas tinham assistido á corrida e ao resgate.
Não demorou muito para que se ouvisse um clamor nas ruas que vinham dos círculos exteriores e subiam; muitas pessoas aplaudiam e bradavam os nomes de Faramir e Mithrandir. De repente Pippin viu tochas, e à frente de uma multidão dois cavaleiros avançando devagar: um em vestes brancas que já não brilhavam; estava agora empalidecido no crepúsculo como se seu fogo se tivesse exaurido ou ocultado; o outro era sombrio, e estava com a cabeça curvada. Os dois desmontaram e, enquanto cavalariços levavam Scadufax e o outro cavalo, caminharam na direção da sentinela do portão: Gandalf num passo firme, a capa cinzenta jogada para trás e o fogo ainda ardendo em seus olhos; o outro, todo vestido de verde, avançava devagar, num passo vacilante, como alguém que está exausto ou ferido.
Pippin abriu caminho para a frente assim que eles passaram sob a lamparina abaixo do arco do portão e, quando viu o rosto pálido de Faramir, perdeu o fôlego.
Era um rosto atingido pelo medo e pela angústia, mas que agora dominara o sentimento e estava tranquilo. Altivo e solene, ele parou por um momento enquanto falava com o guarda, e Pippin, olhando para ele, viu como Faramir era parecido com seu irmão Boromir — de quem Pippin gostara desde o início, admirando os modos nobres e ao mesmo tempo gentis do grande homem. Mesmo assim, de repente, sentiu por Faramir uma coisa que nunca sentira antes. Ele era alguém com um ar de alta nobreza, como o que Aragorn certas vezes revelara, talvez não tão alta, mas também não tão insondável e remota: um ar dos Reis de Homens nascidos numa época posterior, mas tocados pela sabedoria e pela tristeza da Raça Antiga. Agora percebia por que Beregond pronunciava seu nome com tanta devoção. Era um capitão que os homens seguiriam, que ele próprio seguiria, até mesmo sob a sombra das asas negras.
— Faramir! — gritou ele junto com os outros. — Faramir!
E Faramir captando a estranha voz do hobbit em meio à aclamação dos homens da Cidade, virou-se e desceu os olhos até ele, estupefato.
— De onde você vem? — disse ele. — Um Pequeno, e com o uniforme da Torre! De onde...
Mas nesse momento Gandalf parou ao seu lado e falou.
— Ele veio comigo da terra dos Pequenos — disse ele. — Veio comigo. Mas não vamos ficar mais tempo aqui. Há muito o que dizer e fazer, e você está cansado. Ele virá conosco. Na verdade, é o que deve fazer, pois, se não estiver esquecendo suas novas tarefas mais facilmente do que eu, ele deve servir seu senhor outra vez agora. Venha, Pippin, siga-nos!
Então finalmente eles chegaram ao aposento particular do Senhor da Cidade. Três cadeiras com espaldares altos estavam dispostas ao redor de um braseiro de carvão; trouxeram vinho; ali Pippin, quase sem ser notado, ficou atrás da cadeira de Denethor e sentiu o cansaço diminuir, tão grande foi a atenção que deu a tudo o que foi dito.
Depois que Faramir havia comido pão branco e bebido um gole de vinho, sentou-se numa cadeira baixa à esquerda de seu pai. Um pouco afastado, do lado oposto, estava Gandalf numa cadeira de madeira esculpida, e a princípio parecia estar dormindo. Pois no início Faramir falou apenas da missão para a qual fora enviado dez dias antes, e trouxe notícias de Ithilien e dos movimentos do Inimigo e seus aliados; contou também sobre a luta na estrada, na qual os homens de Harad e seu grande animal foram derrotados: um capitão relatando ao seu senhor esses assuntos frequentemente tratados, coisas pequenas de uma guerra de fronteiras que agora pareciam inúteis e insignificantes, desprovidas de uma importância maior.
Então, de repente, Faramir olhou para Pippin.
— Mas agora vamos tratar de assuntos estranhos — disse ele. — Pois este não é o primeiro Pequeno que vejo saindo das lendas do norte e entrando nas terras do sul.
Ao ouvir isso, Gandalf aprumou-se agarrando os braços da cadeira, mas não disse nada, e com um olhar conteve a exclamação nos lábios de Pippin. Denethor olhou para os rostos deles e fez um sinal com a cabeça, como se quisesse dizer que lera ali muitas coisas, antes mesmo de serem mencionadas.
Lentamente, enquanto os outros ficaram sentados e imóveis, Faramir contou sua história com os olhos fixos em Gandalf a maior parte do tempo, embora de vez em quando seu olhar se desviasse para Pippin, como que tentando recordar-se melhor dos outros hobbits que vira.
à medida que se desenrolava a história sobre o encontro de Faramir com Frodo e seu servidor, e sobre os eventos em Henneth Annún, Pippin percebeu que as mãos de Gandalf estavam trêmulas, agarrando-se aos braços da cadeira. Agora pareciam brancas e muito velhas, e olhando para elas, de repente, com um arrepio de medo, Pippin viu que Gandalf, o próprio Gandalf, estava preocupado, até mesmo amedrontado. O ar da sala estava parado e pesado. Finalmente, quando Faramir relatou sua separação dos viajantes, e a resolução deles de ir para Cirith Ungol, sua voz ficou mais baixa, e ele balançou a cabeça e suspirou. Então Gandalf saltou de pé.
— Cirith Ungol? Vale Morgul? — disse ele. — O dia, Faramir, o dia: Quando você se separou deles? Quando acha que eles atingiriam aquele vale amaldiçoado?
— Separei-me deles há dois dias, pela manhã — disse Faramir. — São quinze léguas de lá até o vale do Morgulduin, se eles foram direto para o sul; e então haveria mais cinco léguas a oeste da Torre Amaldiçoada. Andando o mais rápido possível, eles não poderiam chegar lá antes de hoje, e talvez não tenham chegado ainda. Na verdade percebo o que você teme. Mas a escuridão não se deve à aventura deles. Começou na noite de ontem, e toda Ithilien ficou coberta de sombra a noite passada.
— Para mim está claro que o Inimigo planeja há muito tempo este ataque contra nós, e a hora já estava determinada antes mesmo que os viajantes deixassem a minha companhia.
Gandalf andava de um lado para o outro.
— Dois dias atrás, pela manhã, quase três dias de viagem! A que distância daqui fica o lugar onde vocês se separaram?
— Cerca de vinte e cinco léguas num voo de pássaro — respondeu Faramir. — Mas eu não consegui chegar mais rápido. Ontem pernoitei em Andros, a longa ilha do Rio ao norte, onde mantemos um ponto de defesa; temos cavalos do lado de cá do rio. À medida que a escuridão foi se aproximando, percebi que precisava me apressar, de modo que cavalguei para cá com mais três homens que também tinham montarias. O resto de minha companhia enviei para fortalecer a guarnição nos vaus de Osgiliath. Espero que não tenha feito nada de errado — disse ele olhando para o pai.
— Nada de errado? — gritou Denethor, e seus olhos de repente faiscaram. — Por que está perguntando? Os homens estavam sob o seu comando. Ou será que você quer saber o que penso sobre todos os seus atos? Na minha presença, sua postura é humilde; apesar disso, faz tempo que você não se desvia de seu próprio caminho a conselho meu. Veja, você falou com habilidade, como sempre; mas eu, então, não vi seu olho fixo em Mithrandir, procurando saber se você falou bem ou demais? Faz tempo que seu coração lhe pertence. Meu filho, seu pai está velho, mas não está decrépito. Consigo ver e ouvir, como sempre foi meu hábito; e pouco do que você deixou de dizer ou disse com meias palavras é segredo para mim. Agora conheço a resposta para vários enigmas. Lamento, lamento por Boromir!
— Se o que fiz lhe desagrada, meu pai — disse Faramir numa voz suave —, gostaria de ter sabido a sua opinião antes que o fardo de uma decisão tão difícil fosse jogado em minhas costas.
— E isso faria com que você alterasse a sua decisão? — disse Denethor. — Você teria agido da mesma forma, julgo eu. Conheço-o bem. Seu desejo é parecer sempre nobre e generoso como um rei de antigamente, bondoso, gentil. Essas qualidades servem para alguém de sangue nobre, se essa pessoa detiver o poder em tempos de paz. Mas nas horas de desespero a recompensa pela gentileza pode ser a morte.
— Então, que assim seja! — disse Faramir.
— Que assim seja! — gritou Denethor. — Mas não se trata apenas da sua morte, Senhor Faramir: também da morte de seu pai, e de todo o seu povo, que você deve proteger agora que Boromir partiu.
— Gostaria então — disse Faramir — que nossos lugares tivessem sido trocados?
— Sim, realmente gostaria — disse Denethor. — Pois Boromir era fiel a mim, e não era pupilo de nenhum mago. Teria pensado na necessidade de seu pai, e não teria jogado fora o que lhe fosse oferecido pela sorte. Ele me teria trazido um presente valioso.
Por um momento, Faramir perdeu o controle.
— Eu lhe pediria, meu pai, que se lembrasse do motivo pelo qual eu, e não ele, estava em Ithilien. Pelo menos em uma ocasião o seu desejo prevaleceu, não muito tempo atrás. Foi o Senhor da Cidade que lhe designou a missão.
— Não remexa o amargor da taça que preparei para mim mesmo — disse Denethor. — Já não o provei por muitas noites em minha boca, pressentindo que um sabor ainda pior estava no fundo? Como realmente percebo agora. Gostaria que não tivesse sido assim! Gostaria que aquela coisa tivesse chegado até mim!
— Console-se! — disse Gandalf. — Não havia nenhuma possibilidade de Boromir trazê-la até você. Ele está morto, e morreu de forma nobre; que possa agora descansar em paz! Mas você se engana. Ele teria estendido a mão para essa coisa, e ao tomá-la teria sucumbido. Guardá-la-ia para si mesmo, e retornando não seria reconhecido por seu pai.
O rosto de Denethor se fechou, ficando duro e frio.
— Na sua opinião Boromir era menos maleável em suas mãos, não é verdade? — disse ele em voz baixa. — Mas eu, que era seu pai, digo que ele me teria trazido a coisa. Você talvez seja sábio, Mithrandir, e apesar disso, com todas as sutilezas, você não detém toda a sabedoria. Pode haver planos que não sejam nem as teias dos magos nem a pressa dos tolos. Nesse assunto, tenho mais conhecimento e sabedoria do que você supõe.
— Qual é então a sua sabedoria? — perguntou Gandalf.
— A suficiente para perceber que há duas loucuras que se devem evitar. Usar essa coisa é perigoso. Nesta hora, enviá-la nas mãos de um Pequeno desmiolado para dentro da terra do próprio Inimigo, como você fez, e também este meu filho, isso é sandice.
— E o Senhor Denethor, que teria ele feito?
— Nenhuma das duas coisas. Mas, com toda certeza, por argumento algum teria ele colocado essa coisa num perigo que elimina as esperanças de qualquer um, a não ser que se trate de um tolo, arriscando nossa completa ruína, no caso de o Inimigo recuperar o que perdeu. Não, ela deveria ter sido guardada, escondida, muito bem escondida. Não usada, eu lhe digo, exceto numa extrema necessidade, mas colocada fora do alcance dele, a não ser que ocorresse uma vitória tão decisiva que o que acontecesse depois não nos incomodasse, pois estaríamos mortos.
— Você está pensando, meu senhor, como é seu costume, apenas em Gondor — disse Gandalf. — Apesar disso há outros homens e outras vidas, e outro tempo ainda por vir. E, quanto a mim, condoo-me até dos escravos dele.
— E onde os outros homens poderão buscar socorro, se Gondor cair? — respondeu Denethor. — Se eu tivesse essa coisa agora, nas profundas galerias desta cidadela, não estaríamos tremendo de medo sob esta escuridão, temendo o pior, e nossos planos não estariam sendo ameaçados. Se não confia que eu resista ao teste, você ainda não me conhece.
— Não obstante, não confio em você — disse Gandalf. — Se confiasse, poderia tê-la enviado para cá, a fim de que você a guardasse, poupando-me a mim e a muitos outros de uma grande carga de angústia. E agora, ouvindo-o falar, confiou menos ainda em você, não mais do que confiava em Boromir. Não, contenha sua ira! Não confio nem em mim mesmo nesse assunto, e recusei a coisa, mesmo quando me foi oferecida como um presente. Você é forte e ainda pode se controlar em alguns pontos, Denethor, mas, se tivesse recebido essa coisa, ela o teria derrotado. Se fosse enterrada embaixo das raízes do Mindolluin, ainda assim ela iria continuar queimando sua mente, enquanto cresce a escuridão, e sobrevém coisas ainda piores, que logo nos surpreenderão.
Por um momento, os olhos de Denethor voltaram a brilhar quando se fixaram em Gandalf, e Pippin sentiu mais uma vez a tensão entre as disposições de ambos; mas agora quase parecia que os olhares dos dois eram como lâminas de olho a olho, faiscando à medida que se digladiavam. Pippin tremeu, temendo algum golpe terrível.
Mas de repente Denethor relaxou e ficou frio de novo. Encolheu os ombros.
— Se eu tivesse! Se você tivesse! — disse ele. — Essas palavras e esses “ses” são inúteis. A coisa foi para dentro da Sombra, e agora apenas o tempo mostrará que destino está sendo reservado para ela e para nós. Não demorará muito. No tempo que ainda nos resta, que todos os que lutam contra o Inimigo à sua maneira fiquem unidos, e que mantenham a esperança enquanto puderem, e depois da esperança ainda a coragem de morrer em liberdade. — Voltou-se para Faramir. — O que você acha da guarnição em Osgiliath?
— Não é forte — disse Faramir. — Enviei a companhia de Ithilien para fortalecê-la, como já disse.
— Não será suficiente, julgo eu — disse Denethor. — É lá que será desferido o primeiro golpe. Eles precisarão de algum capitão forte ali.
— Ali e em muitos outros lugares — disse Faramir, suspirando. — Lamento por meu irmão, a quem eu também amava! — Levantou-se. — Permita que eu me vá, pai?
E então curvou-se e debruçou-se sobre a cadeira de Denethor.
— Vejo que está cansado — disse este. — Cavalgou um longo caminho com grande rapidez, e sob sombras do mal no ar, pelo que soube.
— Não vamos falar disso! — disse Faramir.
— Então não falemos — disse Denethor. — Vá e descanse como puder. O dever de amanhã será mais duro.
Todos deixaram então o Senhor da Cidade e foram descansar enquanto ainda podiam. Do lado de fora havia uma escuridão sem estrelas quando Gandalf, com Pippin ao seu lado levando uma pequena tocha, dirigiu-se para o seu alojamento.
Não disseram nada até estarem a portas fechadas. Então, finalmente, Pippin tomou a mão de Gandalf.
— Diga-me — disse ele —, há alguma esperança? Quero dizer, para Frodo; ou pelo menos sobretudo para Frodo?
Gandalf colocou a mão sobre a cabeça de Pippin.
— Nunca houve muita esperança — disse ele. — Só houve a esperança de um tolo, como me disseram. E quando ouvi sobre Cirith Ungol... — Parou de falar e dirigiu-se para a janela, como se seus olhos pudessem penetrar a noite no leste. — Cirith Ungol! — murmurou ele. — Por que por ali, eu me pergunto? — Voltou-se. — Agora há pouco, Pippin, meu coração quase parou, quando ouvi esse nome. E apesar disso, na verdade, acredito que a notícia de Faramir traz alguma esperança. Pois parece claro que nosso Inimigo finalmente começou sua guerra, fazendo o primeiro movimento enquanto Frodo ainda estava livre. Então agora, por muitos dias, ele ficará com o olho voltado para um lado ou para o outro, sem fixar seus próprios domínios. E, contudo, Pippin, já sinto, a distância, seu medo e sua pressa. Ele começou mais cedo do que pretendia. Aconteceu alguma coisa que o incitou.
Gandalf parou por um momento, pensando.
— Talvez — murmurou ele. — Talvez até mesmo a sua tolice tenha ajudado, meu rapaz. Deixe-me ver: agora deve fazer uns cinco dias que ele descobriu que derrotamos Saruman e pegamos a Pedra. E o que se pode presumir disso? Não poderíamos usá-la para muitas coisas, ou sem que ele soubesse. Ah! Eu fico pensando. Aragorn? A hora dele se aproxima. E no fundo ele é forte e resoluto, Pippin: corajoso, determinado, capaz de fazer seus próprios planos e se expor a grandes riscos se for necessário. É possível. Ele pode ter usado a Pedra mostrando-se para o Inimigo, exatamente com o propósito de desafiá-lo. Fico pensando. Bem, não saberemos a resposta até que os Cavaleiros de Rohan cheguem, se eles não chegarem tarde demais. Os dias à nossa frente serão malignos. Vamos dormir, enquanto podemos!
— Mas... — disse Pippin.
— Mas o quê? — disse Gandalf. — Só permitirei um único mas esta noite.
— Gollum — disse Pippin. — Como é que eles poderiam estar andando com ele, até mesmo seguindo-o? E pude perceber que Faramir não gostou mais do que você do lugar para o qual ele os estava levando. Qual é o problema?
— Não posso responder isso agora — disse Gandalf. — Mesmo assim, meu coração de alguma forma sabia que Frodo e Gollum iriam se encontrar antes do fim. Para o bem ou para o mal. Mas sobre Cirith Ungol não falarei esta noite. Traição, é a traição que receio; traição daquela criatura miserável. Mas precisava ser assim. Vamos nos lembrar de que um traidor pode trair-se a si mesmo e fazer o bem que não pretende. Pode ser assim, algumas vezes. Boa noite!


O dia seguinte chegou com uma manhã que se assemelhava a um crepúsculo escuro, e os corações dos homens, por um período mais leves com a chegada de Faramir, ficaram pesados de novo. As Sombras aladas não foram vistas de novo naquele dia, mas de vez em quando, bem acima da cidade, um grito fraco chegava, muitos que ouviam ficavam paralisados com um terror passageiro, enquanto os menos corajosos estremeciam e choravam.
E agora Faramir partira outra vez.
— Eles não lhe dão descanso — murmuravam alguns. — O Senhor é muito duro com o filho, e agora ele deve fazer o serviço de dois, por ele e pelo outro que não retornará — E a todo momento os homens olhavam para o norte, perguntando-se: — Onde estão os Cavaleiros de Rohan?
Era verdade que Faramir não partira por opção própria. Mas o Senhor da Cidade era o mestre do Conselho, e não estava disposto naquele dia a se curvar às opiniões dos outros. Cedo naquela manhã o Conselho fora convocado. Lá todos os capitães julgaram que, por causa da ameaça no sul, o exército que tinham era fraco demais para desferir por sua própria iniciativa qualquer golpe de guerra, a não ser talvez que os Cavaleiros de Rohan chegassem. Enquanto isso, deveriam guarnecer as muralhas com soldados e esperar.
— Contudo — disse Denethor —, não devemos abandonar facilmente as defesas externas, a Rammas construída com tanto trabalho. E o Inimigo deverá pagar caro por atravessar o Rio. Isso ele não pode fazer, com força suficiente para tomar de assalto a Cidade, nem pelo norte de Cair Andros, por causa dos pântanos, nem pelo sul na direção de Lebennin, por causa da amplitude do Rio, que exige muitos barcos. É em Osgiliath que vai concentrar seu peso, como antes, quando Boromir não permitiu que ele passasse.
— Foi apenas uma tentativa — disse Faramir. — Hoje podemos fazer com que o Inimigo nos pague dez vezes pelo nosso prejuízo na passagem e mesmo assim lamentar a troca. Pois ele pode se permitir perder um exército com mais tranquilidade do que nós podemos perder uma companhia. E a retirada daqueles que colocamos espalhados nos campos será perigosa, se ele conseguir atravessar com toda a força.
— E Cair Andros? — disse o Príncipe. — Ela também deve ter proteção, se Osgiliath for defendida. Não vamos nos esquecer do perigo à nossa esquerda. Pode ser que os rohirrim venham, e pode ser que não. Mas Faramir nos falou de um grande exército que saiu do Portão Negro e que se aproxima cada vez mais. Mais de um exército pode sair por ali, e atacar muito mais que uma passagem.
— Na guerra é preciso arriscar muita coisa — disse Denethor. — Cair Andros está guarnecida, e não podemos enviar mais homens para lá por enquanto. Mas não entregarei o Rio e o Pelennor sem lutar – não se houver aqui um capitão ainda com coragem de fazer a vontade de seu senhor.
Todos ficaram em silêncio, mas finalmente Faramir disse:
— Não me oponho à sua vontade, pai. Uma vez que Boromir lhe foi roubado, farei o que puder no lugar dele – se o senhor assim ordenar.
— Assim ordeno — disse Denethor.
— Então adeus — disse Faramir. — Mas, se eu retornar, faça melhor juízo de mim.
— Isso depende de como você retornar — disse Denethor.
Foi Gandalf quem por último falou com Faramir antes que este partisse para o leste.
— Não jogue fora sua vida temerariamente ou movido pela mágoa — disse ele. — Você será necessário aqui, para outras coisas além da guerra. Seu pai o ama, Faramir, e vai se lembrar disso antes do fim. Adeus!
Então agora o Senhor Faramir partira novamente, levando consigo um grupo de homens voluntários ou disponíveis. Nas muralhas alguns observavam através da escuridão, com os olhos voltados para a cidade arruinada, e ficavam imaginando o que estaria acontecendo lá, pois não se enxergava nada. E outros, como sempre, olhavam para o norte e contavam as léguas que Théoden de Rohan deveria percorrer.
— Será que virá? Será que vai se lembrar de nossa velha aliança? — perguntavam-se eles.
— Sim, ele virá — dizia Gandalf — mesmo que chegue tarde demais. Mas pensem! Na melhor das hipóteses, a Flecha Vermelha não pode ter chegado até ele há mais de dois dias, e são longas as milhas desde Edoras.
Já era noite quando a notícia chegou. Um homem veio dos vaus cavalgando depressa, dizendo que um exército tinha saído de Minas Morgul e já estava se aproximando de Osgiliath; a ele tinham-se juntado regimentos vindos do sul, os haradrim, homens cruéis e altos.
— E ficamos sabendo — disse o mensageiro — que o Capitão Negro os lidera novamente, e o seu terror o antecede através do Rio.
Com essas palavras de mau agouro terminava o terceiro dia desde que Pippin chegara a Minas Tirith. Poucos foram descansar, pois pequena era a esperança de que até mesmo Faramir pudesse resistir nos vaus por muito tempo.
O dia seguinte, embora a escuridão já tivesse atingido seu auge e não pudesse ficar mais densa, pesou mais no coração dos homens, tomados de grande terror. Más noticias logo tornaram a chegar. A passagem do Anduin fora conquistada pelo Inimigo. Faramir estava se retirando para a muralha do Pelennor, reagrupando seus homens nos Fortes do Passadiço, mas sua tropa era dez vezes menor que a do Inimigo.
— Se ele conseguir voltar através do Pelennor, os inimigos estarão nos seus calcanhares — disse o mensageiro. — Eles pagaram caro por terem atravessado, mas menos caro do que imaginávamos. O plano foi bem feito. Agora vemos que, em segredo, eles há muito tempo vêm construindo balsas e barcaças em Osgiliath Oriental. Atravessaram como um enxame de besouros. Mas é o Capitão Negro quem nos derrota. Poucos suportam e resistem até mesmo ao rumor de sua chegada. Seu próprio povo estremece diante dele, e se mataria se ele ordenasse.
— Então precisam mais de mim lá do que aqui — disse Gandalf, partindo imediatamente, e seu brilho logo desapareceu de vista.
E por toda aquela noite Pippin, solitário e insone, ficou na muralha, olhando para o leste.
Os sinos do dia mal tinham soado de novo, um arremedo na escuridão iniluminada, quando na distância ele viu chamas se arremessando nos ares, ao longe nos espaços escuros onde ficavam as muralhas do Pelennor. Os vigias gritaram, e todos os homens da cidade prepararam suas armas. Agora, com frequência, via-se um clarão vermelho, e em seguida através do ar pesado ouviam-se estrondos surdos.
— Tomaram a muralha! — gritavam os homens. — Estão abrindo fendas. Eles estão chegando.
— Onde está Faramir? — gritou Beregond desesperado. — Não me digam que ele tombou!
Foi Gandalf quem trouxe as primeiras notícias. Com um punhado de cavaleiros ele chegou no meio da manhã, escoltando uma fileira de carroças. Estavam cheias de homens feridos, e de tudo o que pudera ser salvo dos escombros os Fortes do Passadiço. Dirigiu-se imediatamente a Denethor. O Senhor da Cidade estava sentado num alto aposento acima do Salão da Torre Branca com Pippin ao seu lado; através das janelas sombrias, ao norte, ao sul e ao leste, ele fixava os olhos escuros, como se tentasse penetrar as sombras da destruição que o circundavam.
Olhava com mais insistência para o norte, e de vez em quando parava para escutar, como se por alguma arte antiga seus ouvidos pudessem ouvir o trovão de cascos sobre as planícies distantes.
— Faramir chegou? — perguntou ele.
— Não — disse Gandalf — Mas ainda estava vivo quando o deixei. Contudo está resolvido a ficar na retaguarda, para evitar que a retirada através do Pelennor se transforme numa fuga desordenada. Talvez consiga manter seus homens reunidos pelo tempo necessário, mas eu duvido. Está encurralado por um inimigo poderoso demais. Pois chegou quem eu temia.
— Não... o Senhor do Escuro? — exclamou Pippin, esquecendo sua posição devido ao pavor.
Denethor riu de um modo amargo.
— Não, ainda não, Mestre Peregrin! Ele não virá, a não ser para triunfar sobre mim quando tudo estiver perdido. Ele usa outros como suas armas. Assim fazem os grandes senhores, se forem sábios, Mestre Pequeno. Ou por que motivo estaria eu aqui, sentado em minha torre e pensando, assistindo, esperando, pondo em risco até mesmo meus filhos? Pois ainda consigo brandir uma arma.
Levantou-se e abriu sua longa capa negra. Surpreendentemente, vestia uma cota de malha por baixo, e no cinto trazia uma longa espada, com grande punho, numa bainha negra e prateada.
— Assim sempre andei, e assim agora por muitos anos tenho dormido — disse ele — para evitar que meu corpo fique fraco e amedrontado.
— Mesmo assim, o mais cruel de todos os capitães do senhor de Barad-dûr já é dono de suas muralhas externas — disse Gandalf — Rei de Angmar de outrora, Feiticeiro, Espectro do Anel, Senhor dos Nazgúl, uma lança de terror na mão de Sauron, sombra de desespero.
— Então, Mithrandir, você teve um inimigo à sua altura — disse Denethor. — Quanto a mim, sei há muito tempo quem é o principal capitão dos exércitos da Torre Escura. Foi só para dizer isso que você retornou? Ou será que se retirou por estar em desvantagem?
Pippin estremeceu, temendo que Gandalf fosse tomado de uma ira repentina, mas seu medo foi infundado.
— Pode ter sido isso — respondeu Gandalf numa voz suave. — Mas nosso teste de forças ainda não começou. E, se palavras pronunciadas antigamente forem verdadeiras, ele não deverá cair pela mão do homem, e o destino que o aguarda é desconhecido dos Sábios. Seja como for, o Capitão do Desespero não está avançando, ainda. Ele governa bem de acordo com as regras que você acabou de mencionar, na retaguarda, empurrando antes para a frente seus escravos alucinados.
“Não, eu vim mais para proteger os homens feridos que ainda podem ser curados; pois a Rammas está grandemente destruída, e logo o exército de Morgul entrará por vários pontos. E vim principalmente para dizer isto: logo haverá uma batalha nos campos. É preciso preparar uma surtida. Que seja de homens montados. Neles repousa nossa pequena esperança, pois em uma coisa apenas o inimigo ainda está mal equipado: tem poucos cavaleiros.
— E nós também temos poucos. Agora seria o momento exato de os Cavaleiros de Rohan chegarem — disse Denethor.
— É provável que vejamos outros chegando primeiro — disse Gandalf — fugitivos de Cair Andros já nos alcançaram. A ilha caiu. Um outro exército saiu pelo Portão Negro, atravessando pelo nordeste.
— Alguns o acusaram, Mithrandir, de se deliciar em trazer más noticias — disse Denethor —, mas para mim isso já não é mais novidade: eu sabia disso antes do cair da noite de ontem. E, quanto à surtida, já pensei nesse assunto. Vamos descer.


O tempo passou. Por fim as sentinelas nas muralhas conseguiram ver a retirada das companhias avançadas. Pequenos grupos de homens cansados e frequentemente feridos chegaram primeiro com pouca ordem; alguns corria alucinados, como se estivessem sendo perseguidos. Na distância ao leste fogueiras longínquas bruxuleavam, e agora parecia que em alguns pontos elas rastejavam através da planície. Casas e celeiros estavam em chamas. Então, de vários pontos, pequenos rios de fogo rubro vieram correndo, ziguezagueando através da escuridão, convergindo na direção da linha da larga estrada que conduzia do portão à Cidade de Osgiliath.
— O inimigo — murmuravam os homens. — A barreira caiu. Lá vêm eles aos borbotões através das brechas! E parece que estão carregando tochas. Onde está o nosso pessoal?
Começava a noite, e a luz estava tão fraca que mesmo os homens de visão penetrante da Cidadela mal conseguiam discernir as formas nos campos, a não ser apenas os incêndios que cada vez mais se multiplicavam, e as linhas de fogo que cresciam em tamanho e velocidade. Finalmente, a menos de uma milha da Cidade, um grupo de homens mais bem ordenado apareceu, marchando sem correr, ainda se mantendo unido. As sentinelas prenderam a respiração.
— Faramir deve estar lá — diziam elas. — Ele consegue dominar homens e animais. Conseguirá chegar até aqui.
Agora a retirada principal estava a menos de quatrocentos metros de distância. Surgindo do fundo da escuridão galopava uma pequena companhia de cavaleiros, tudo o que restava da retaguarda. Mais uma vez se viraram acuados, enfrentando as linhas de fogo que avançavam. Então, de repente, houve um tumulto de gritos ferozes. Cavaleiros inimigos foram chegando e varrendo tudo. As linhas de fogo transformaram-se em rios flamejantes: fileira após fileira de orcs carregando tochas, e sulistas bárbaros com bandeiras vermelhas, gritando em línguas rudes, avançando numa onda, alcançando os soldados em retirada. E, com um grito cortante, da escuridão do céu negro caíram as sombras aladas, os nazgúl mergulhando para a matança.
A retirada se transformou numa debandada. Os homens já se dispersavam, fugindo alucinados, feito malucos, para todos os lados, jogando fora suas armas, gritando de medo, tombando ao chão.
Nesse momento uma trombeta soou na Cidadela, e Denethor finalmente liberou a surtida. Reunidos à sombra do Portão, e sob as muralhas que se erguiam do lado de fora, eles estiveram aguardando um sinal dele: todos os homens com montarias que haviam permanecido na Cidade. Agora saltavam à frente, em forma, num galope rápido, atacando com grande alarido. E das muralhas um grito veio em resposta, pois à frente de todos os demais apareciam os cavaleiros do cisne de Doí Amroth, encabeçados por seu Príncipe com insígnia azul.
— Amroth por Gondor! — gritavam eles. — Amroth por Faramir!
Como trovões eles caíram sobre o inimigo nos dois flancos da retirada; um cavaleiro disparou à frente, veloz como o vento sobre a relva; Scadufax o levava, brilhante, mais uma vez revelado, com uma luz emanando de sua mão erguida.
Os nazgúl soltaram um guincho e fugiram, pois seu Capitão ainda não estava pronto para desafiar o fogo branco de seu oponente. Os exércitos de Morgul, concentrados em sua presa, pegos desprevenidos numa carreira desabalada, dispersaram-se e se espalharam como faíscas ao vento. As companhias avançadas, com grande disposição, viraram-se e atacaram seus perseguidores. Caçadores se transformaram em caça. A retirada virou um assalto. Orcs e homens caídos cobriram o campo, e um cheiro forte subiu das tochas lançadas ao chão, crepitando e se extinguindo numa fumaça espiralada. A cavalaria avançava.
Mas Denethor não permitiu que fossem longe. Embora o inimigo estivesse sob controle e por enquanto rechaçado, grandes exércitos chegavam do leste. Mais uma vez soou a trombeta, ordenando a retirada. A cavalaria de Gondor parou.
Atrás de sua proteção, as companhias avançadas reorganizaram suas fileiras. Agora retornavam, marchando compassadamente. Atingiram o Portão da Cidade e entraram, num passo imponente; e também com imponência o povo da Cidade olhava para eles e gritava-lhes elogios, mas mesmo assim tinham os corações perturbados. Pois as companhias estavam lamentavelmente reduzidas. Faramir perdera um terço de seus homens. E onde estava ele?
Chegou por último. Seus homens entraram. Os cavaleiros montados retornaram, na retaguarda a bandeira de Doí Amroth e o Príncipe. E em seus braços, em seu cavalo, carregava o corpo de seu parente, Faramir, filho de Denethor, encontrado no campo de batalha.
— Faramir! Faramir! — gritaram os homens, chorando nas ruas. Mas ele não respondia, e foi levado pela estrada sinuosa até a Cidadela e à presença do pai.
No momento em que os nazgúl desviaram do ataque do Cavaleiro Branco, uma seta mortal veio voando e Faramir, que estivera impedindo o avanço de um campeão montado de Harad, tombou no chão. Apenas o ataque de Doí Amroth pudera salvá-lo das espadas rubras do sul, que o teriam golpeado ali no chão.
O Príncipe Imrahil levou Faramir para a Torre Branca, e disse:
— Seu filho retornou, senhor, depois de grandes feitos — e então fez um relato de tudo o que vira.
Denethor se levantou e olhou no rosto do filho, sem dizer nada. Depois ordenou que arrumassem uma cama no aposento para Faramir e saíssem. Mas ele mesmo subiu até a sala secreta no topo da torre; muitos que olhavam lá para cima naquela hora viram uma luz pálida que tremeluziu e faiscou nas janelas estreitas por algum tempo, e depois piscou e se extinguiu. E, quando Denethor novamente desceu, foi até Faramir e sentou-se ao seu lado sem dizer palavra; mas o rosto do Senhor estava cinzento, mais cadavérico que o do filho.


Então agora, finalmente, a Cidade estava cercada, fechada num circulo de adversários. A Rammas fora derrubada, e todo o Pelennor estava abandonado ao Inimigo.
A última palavra que veio de fora das muralhas foi trazida por homens fugindo pela estrada norte antes que o Portão se fechasse. Eram remanescentes da guarda que fora mantida no ponto onde o caminho de Anórien e Rohan entrava nos povoados. Ingold os conduzia, o mesmo que havia admitido Gandalf e Pippin menos de cinco dias antes, quando o sol ainda surgia e a manhã trazia esperanças.
— Não há noticia dos rohirrim — disse ele. — Rohan não virá agora. Ou, se vier, isso não nos servirá de nada. O novo exército do qual tivemos notícias chegou primeiro, vindo do outro lado do rio passando por Andros, ouvi dizer. São fortes: batalhões de orcs do Olho, e incontáveis companhias de homens de um outro tipo que nunca vimos antes. Não são altos, mas corpulentos e sisudos, Barbados como os anões, brandindo grandes machados. Achamos que eles vêm de alguma região selvagem do amplo leste. Tomaram a estrada do norte, e muitos avançaram até Anórien. Os rohirrim estão impossibilitados de chegar.
O Portão foi fechado. Durante toda a noite, vigias nas muralhas ouviram os rumores dos inimigos que perambulavam do lado de fora, queimando árvores e campos, apunhalando qualquer homem que encontrassem, vivo ou morto. Não se podia adivinhar quantos tinham atravessado o rio no escuro, mas quando a manhã, ou sua sombra embaçada, avançou furtivamente sobre a planície, percebeu-se que o medo noturno não superestimara o número. A planície estava escurecida pelas suas companhias marchando, e até onde a vista alcançava surgiam, como florescências nojentas de fungos, por toda a volta da cidade sitiada, grandes acampamentos de tendas negras ou de um vermelho sombrio.
Diligentes feito formigas, orcs apressados cavavam, cavavam longas trincheiras fundas num enorme círculo, fora do alcance de flechas que partissem das muralhas; e assim que cada trincheira ia sendo terminada, enchiam-na de fogo, embora não se pudesse ver como o alimentavam ou acendiam, se por arte ou feitiçaria. Durante todo o dia o trabalho continuou, enquanto os homens de Minas Tirith assistiam, sem poder impedi-lo.
E, à medida que cada metro de trincheira se completava, eles divisavam grandes carroças se aproximando; logo, mais companhias do inimigo, cada uma protegida por uma trincheira, instalavam rapidamente grandes máquinas para o lançamento de projéteis. Não havia nas muralhas da Cidade nenhum mecanismo grande o suficiente para alcançar tão longe ou impedir o trabalho.
No início os homens riram e não temeram aqueles instrumentos. Pois a muralha principal da cidade era extremamente alta e de uma espessura impressionante, e fora construída antes que o poder e o oficio de Númenor declinassem no exílio; sua face externa era semelhante à da Torre de Orthanc, rígida, escura e lisa, imune a fogo ou aço, indestrutível, exceto por alguma convulsão que lacerasse o próprio solo no qual ela se erguia.
— Não — diziam eles —, nem que o próprio Inominado atacasse; nem mesmo ele conseguirá entrar aqui enquanto ainda estivermos vivos.
Mas alguns respondiam:
— Enquanto ainda estivermos vivos? Por quanto tempo? Ele tem uma arma que já pôs por terra muitas fortalezas desde o início do mundo. A fome. As estradas estão bloqueadas. Rohan não chegará.
Mas as máquinas não desperdiçaram tiros contra a parede indômita. Não era qualquer salteador ou chefe orc que iria ordenar o assalto sobre o maior inimigo do Senhor de Mordor. Dirigiam-no uma força e uma mente de malícia. Assim que as grandes catapultas foram montadas, em meio a muitos gritos e ao rangido de cordas e manivelas, elas começaram a arremessar projéteis a uma altura impressionante, de modo que passavam bem acima do parapeito e caíam com um baque surdo dentro do primeiro círculo da Cidade; muitos deles, por alguma arte secreta, explodiam em chamas enquanto caiam.
Logo já havia grande perigo de incêndio atrás da muralha, e todos os que estavam disponíveis se ocupavam em dominar as chamas que se deflagravam em vários pontos.
Então, em meio aos golpes mais poderosos, veio uma outra saraivada, menos destruidora e no entanto mais horrível. Por todas as ruas e alamedas atrás do Portão caíam pequenos projéteis redondos que não explodiam. Mas, quando os homens corriam para saber o que poderia ser aquilo, soltavam gritos ou choravam. O Inimigo estava arremessando para dentro da Cidade todas as cabeças daqueles que tinham caído na luta em Osgiliath, ou na Rammas, ou nos campos. Eram horripilantes de se olhar, pois, embora algumas estivessem esmagadas e disformes, e algumas tivessem sido cruelmente estraçalhadas, muitas ainda conservavam seus traços, indicando que aqueles homens tinham morrido em sofrimento; todas estavam marcadas com o símbolo maligno do Olho sem Pálpebra.
Mesmo desfiguradas e aviltadas como estavam, frequentemente era possível que daquela forma um homem revisse o rosto de alguém que conhecera, que já andara armado e orgulhoso, ou cultivara os campos ou, vindo dos verdes vales das colinas, cavalgara para lá num dia de folga.
Em vão os homens mostravam os punhos para os impiedosos inimigos que se aglomeravam diante do Portão. Não se importavam com pragas, e nem entendiam as línguas dos homens do oeste, pois gritavam com vozes roucas como animais e aves de rapina. Mas logo restavam poucos em Minas Tirith com coragem suficiente para se erguer e desafiar os exércitos de Mordor. Pois o Senhor da Torre Escura tinha ainda uma outra arma, mais rápida que a fome, o medo e o desespero.
Os nazgúl vieram de novo, e, agora que o Senhor do Escuro crescia e exibia sua força, da mesma forma as vozes deles, que expressavam apenas a sua vontade e malícia, se encheram de maldade e horror. Faziam círculos acima da Cidade, como abutres que aguardam sua parcela de carne humana destinada a morrer. Voavam fora do alcance da vista ou de algum tiro, e mesmo assim estavam sempre presentes, e suas vozes mortais rasgavam o ar. Ao invés de diminuírem, a cada grito iam ficando mais insuportáveis. Por fim até mesmo os mais corajosos se jogavam no chão quando a ameaça oculta passava sobre suas cabeças, ou então ficavam de pé, deixando cair as armas das mãos paralisadas, enquanto suas mentes eram invadidas por um negror total, e eles não pensavam mais na guerra, mas só em se esconder e rastejar, e morrer.
Durante todo aquele dia negro, Faramir ficou em sua cama, no aposento da Torre Branca, delirando numa febre desesperada, morrendo, disse alguém, e logo “morrendo” diziam todos os homens nas muralhas e nas ruas. E ao seu lado sentava-se seu pai, não dizendo nada, mas observando sem dar qualquer atenção à defesa.
Pippin nunca conhecera horas tão escuras, nem mesmo quando estivera nas garras dos Uruk-hai. Seu dever era permanecer ao lado do Senhor, e foi isso o que fez, aparentemente esquecido, em pé junto à porta do quarto escuro, dominando os próprios medos da melhor maneira possível. E enquanto observava teve a impressão de que Denethor envelhecia diante de seus olhos, como se algo tivesse arrebentado em sua altiva obstinação, derrotando sua vontade inflexível. Talvez a tristeza tivesse feito aquilo, e o remorso. Naquele rosto outrora empedernido, Pippin enxergava lágrimas, mais insuportáveis que a ira.
— Não chore, meu senhor — gaguejou ele. — Talvez ele melhore. O senhor solicitou a presença de Gandalf?
— Não me console com magos! — disse Denethor. — A esperança do tolo fracassou. O Inimigo descobriu isso, e agora seu poder aumenta; ele enxerga nossos próprios pensamentos, e tudo o que fizermos será desastroso. Enviei meu filho, sem meus agradecimentos, sem minha bênção, em direção a um perigo desnecessário, e aqui jaz ele, com veneno nas veias. Não, não, o que quer que aconteça agora na guerra, também minha linhagem está se extinguindo, até mesmo a Casa dos Regentes fracassou. Pessoas mesquinhas deverão governar os últimos remanescentes dos Reis dos Homens, escondendo-se nas colinas até que sejam todos caçados.
Homens vieram à porta bradando pelo Senhor da Cidade.
— Não, não descerei — disse ele. — Preciso ficar ao lado de meu filho. Pode ser que ele ainda fale antes do fim. Mas o fim está perto. Sigam quem quiserem, até mesmo o Tolo Cinzento, embora a esperança dele tenha fracassado. Ficarei aqui.
Foi assim que Gandalf tomou para si o comando da última defesa da Cidade de Gondor. Aonde quer que fosse, fazia com que os corações dos homens ficassem de novo mais leves, e as sombras aladas desaparecessem da lembrança. Passava incansável da Cidadela para o Portão, do norte para o sul em torno da muralha; com ele ia o Príncipe de Doí Amroth em sua cota metálica brilhante. Pois ele e seus cavaleiros ainda se comportavam como senhores nos quais a raça de Númenor se mantinha integra. Os homens que os viam sussurravam, dizendo:
— É possível que velhas histórias falem a verdade; há sangue élfico nas veias dessa gente, pois o povo de Nimrodel certa vez morou naquela terra, há muito tempo. — E então alguém cantava em meio à escuridão alguns versos da Balada de Nimrodel, ou outras canções do Vale do Anduin, vindas de tempos imemoriais.
E apesar disso, quando os dois se iam, as sombras se fechavam sobre os homens de novo, e seus corações ficavam frios, e a bravura de Gondor se acabava em cinzas. E assim, lentamente, eles passavam de um dia sombrio de temores para a escuridão de uma noite desesperada. Fogueiras agora devastavam sem qualquer resistência o primeiro circulo da Cidade, e a guarnição sobre a muralha externa já estava em vários pontos impedida de bater em retirada. Os leais que lá permaneciam em seus postos eram poucos; a maioria tinha fugido para além do segundo portão.
Muito atrás da batalha, uma ponte fora construída rapidamente sobre o Rio, e durante todo o dia mais homens e equipamentos de guerra tinham feito a travessia aos borbotões. Por fim agora, no meio da noite, o ataque fora liberado. A vanguarda atravessou as trincheiras de fogo por várias trilhas sinuosas que haviam sido deixadas entre elas. Avançavam, sem se preocuparem com suas perdas à medida que se aproximavam, ainda reunidos em grupos, ao alcance dos arqueiros nas muralhas.
Mas agora, na realidade, restavam ali muito poucos para que o prejuízo fosse grande, embora a luz das fogueiras expusesse muitos alvos para os arqueiros de cuja habilidade Gondor outrora se gabara. Então, percebendo que a coragem da Cidade já estava derrotada, o Capitão oculto exibiu sua força. Lentamente as grandes torres de sítio construídas em Osgiliath foram rolando para a frente através da escuridão.
Mensageiros foram outra vez até o aposento da Torre Branca, e Pippin os deixou entrar, pois eles insistiram. Denethor desviou lentamente a cabeça do rosto de Faramir, e olhou para eles em silêncio.
— O primeiro círculo da Cidade está em chamas, senhor — disseram eles. — Quais são as suas ordens? Ainda é o Senhor e o Regente. Nem todos estão dispostos a seguir Mithrandir. Os homens estão fugindo das muralhas, deixando-as desguarnecidas.
— Por quê? Por que fogem os tolos? — disse Denethor. — É melhor ser queimado mais cedo que mais tarde, pois esse será nosso fim. Voltem para a sua fogueira! E eu? Irei agora para a minha pira. Para a minha pira. Nada de túmulo para Denethor e Faramír. Nada disso! Nada de longos sonos de morte embalsamada. Vamos arder como arderam os reis bárbaros antes que qualquer navio tivesse vindo do oeste para cá. O Ocidente fracassou. Voltem e queimem!
Os mensageiros, sem reverência ou resposta, viraram-se e saíram correndo.
Nesse momento Denethor se levantou, soltando a mão febril de Faramir que estivera segurando.
— Ele está queimando, já está queimando — disse ele com tristeza. — A casa de seu espírito está desmoronando. — Então, andando suavemente na direção de Pippin, desceu os olhos até ele.
— Adeus! — disse ele. — Adeus, Peregrin, filho de Paladin! Seu serviço foi curto, e agora está chegando ao fim. Eu o dispenso do pouco que resta. Vá agora, e morra da maneira que lhe pareça melhor. E com quem desejar, até mesmo aquele amigo cuja loucura o trouxe para esta morte. Mande chamar meus serviçais, e depois vá. Adeus!
— Não direi adeus, meu senhor — disse Pippin, ajoelhando-se. E então, de repente, mais uma vez à maneira dos hobbits, levantou-se e olhou nos olhos do velho. — Vou deixá-lo, senhor — disse ele — pois realmente desejo muito ver Gandalf. Mas ele não é um tolo, e eu não vou pensar em morrer até que ele perca as esperanças na vida. Mas de minha palavra e de seu serviço não quero ser dispensado enquanto o senhor viver. E, se finalmente eles chegarem à Cidadela, espero estar aqui para ficar ao seu lado, e talvez fazer por merecer as armas que me foram dadas.
— Faça como quiser, Mestre Pequeno — disse Denethor. — Mas minha vida acabou. Mande chamar meus serviçais! — Voltou-se para Faramir.
Pippin o deixou e chamou os serviçais: vieram seis homens da casa, fortes e belos; apesar disso, tremeram ao chamado. Mas numa voz suave Denethor lhes ordenou que colocassem cobertas quentes na cama de Faramir e a levassem. Assim fizeram eles, e, erguendo a cama, levaram-na do aposento. Andavam devagar, para incomodar o homem febril o mínimo possível, e Denethor, agora curvado sobre um cajado, os seguia; por último vinha Pippin.
Saíram da Torre Branca, como se fosse um funeral, para dentro da escuridão, onde a nuvem que pairava sobre a Cidade era iluminada por baixo por laivos de um vermelho apagado. Suavemente atravessaram o grande pátio, e a um comando de Denethor pararam ao lado da Árvore Seca.
Tudo era silêncio, salvo o rumor da guerra na Cidade lá embaixo, e eles ouviam a água pingando melancólica dos galhos mortos para dentro do lago escuro. Então avançaram através do portão da Cidadela, onde a sentinela os observou com surpresa e desânimo à medida que eles foram passando. Virando-se para o oeste, finalmente chegaram a uma porta na parede dos fundos do sexto circulo. Chamava-se Fen Hollen, pois sempre se mantinha fechada, exceto em ocasiões de funerais, e apenas o Senhor da Cidade poderia usar aquele caminho, ou aqueles que usavam o símbolo das tumbas e cuidavam das casas dos mortos. Além dela se estendia uma rua sinuosa que descia em muitas curvas para a região estreita sob a sombra do precipício do Mindolluin, onde ficavam os túmulos dos Reis mortos e os dos seus Regentes.
Um porteiro estava sentado numa guarita ao lado da rua, e com medo nos olhos ele se aproximou, trazendo uma lanterna na mão. Ao ouvir a ordem do Senhor, destrancou a porta, e sem ruído ela recuou; eles atravessaram, tomando a lamparina da mão do porteiro. Estava escuro no caminho que subia entre muralhas antigas e balaústres de muitos pilares que assomavam ao brilho oscilante da lamparina. Os passos lentos ecoavam, à medida que eles iam descendo, descendo, até que finalmente chegaram à rua Silenciosa, Rath Dinen, entre abóbadas pálidas e salões vazios e imagens de homens mortos muito tempo atrás; entraram na Casa dos Regentes, e colocaram no chão o seu fardo.
Ali Pippin, observando inquieto tudo à sua volta, viu que estava num amplo cômodo abobadado, que parecia todo coberto pelas grandes cortinas de sombra que a pequena lamparina projetava nas paredes amortalhadas. E quase invisíveis havia ali muitas fileiras de mesas, esculpidas no mármore, e sobre cada mesa jazia uma forma dormente, com as mãos unidas, e a cabeça repousando sobre a pedra. Mas uma mesa mais próxima era ampla e estava vazia. Sobre ela, a um sinal de Denethor, eles colocaram Faramir e seu pai lado a lado, e os cobriram com uma mesma coberta, e então ficaram com as cabeças baixas como alguém que chora do lado de um leito de morte. Depois Denethor falou numa voz baixa.
— Aqui esperaremos — disse ele. — Mas não quero que mandem chamar os embalsamadores. Tragam-nos lenha de queima rápida, e coloquem-na em toda a nossa volta, e embaixo; derramem óleo sobre ela. E, quando eu mandar, lancem uma tocha. Façam isso e não falem mais comigo. Adeus!
— Com a sua permissão, senhor — disse Pippin, virando-se e fugindo amedrontado daquela casa de morte. “Pobre Faramir”, pensou ele. “Preciso encontrar Gandalf. Pobre Faramir! É muito provável que precise mais de remédios suponho eu; e ele não terá tempo a perder com moribundos ou loucos!”
Ao pé da porta, dirigiu-se a um dos serviçais que ficara de guarda.
— Seu senhor está fora de si — disse ele. — Tenham calma! Não tragam fogo para este lugar enquanto Faramir viver! Não façam nada até que Gandalf chegue!
— Quem é o senhor de Minas Tirith? — respondeu o homem. — O Senhor Denethor ou o Caminheiro Cinzento?
— O Caminheiro Cinzento e ninguém mais, ao que parece — disse Pippin, e foi correndo de volta pelo caminho sinuoso, com a maior velocidade que conseguiu imprimir aos pés, passando pelo porteiro atônito, saindo pela porta, e adiante, até chegar perto do portão da Cidadela.
A sentinela o saudou à sua passagem, e ele reconheceu a voz de Beregond.
— Aonde vai assim correndo, Mestre Peregrin? — gritou ele.
— Procurar Mithrandir — respondeu Pippin.
— As mensagens do Senhor são urgentes, e eu não poderia retardá-las — disse Beregond — mas diga-me depressa, se puder: o que está acontecendo? Para onde foi o meu Senhor? Acabei de assumir meu posto, mas ouvi falar que ele passou na direção da Porta Fechada, e homens levavam à frente Faramir.
— É — disse Pippin — para a rua Silenciosa.
Beregond baixou a cabeça para esconder as lágrimas.
— Disseram que ele estava morrendo — disse ele suspirando — e agora está morto.
— Não — disse Pippin —, ainda não. E até mesmo agora sua morte ainda pode ser impedida, eu acho. Mas o Senhor da Cidade, Beregond, caiu antes que sua cidade fosse tomada. Está obcecado pela morte, e transformou-se numa pessoa perigosa. — Rapidamente contou sobre as estranhas palavras e atos de Denethor. — Preciso encontrar Gandalf com urgência.
— Então deve descer até a batalha.
— Eu sei. O Senhor me deu permissão. Mas, Beregond, se você puder, faça alguma coisa para impedir que algo terrível aconteça.
— O Senhor não permite que aqueles que vestem o negro e a prata deixem seus postos por qualquer motivo, a não ser por sua própria ordem.
— Bem, você deve escolher entre ordens e a vida de Faramir — disse Pippin. — E, quanto a ordens, acho que você está lidando com um louco, e não com um senhor. Preciso correr. Voltarei se puder.
Saiu numa corrida desabalada, e foi descendo na direção da cidade externa.
Homens fugindo do incêndio passavam por ele, e alguns, vendo seu uniforme, voltavam-se e gritavam, mas Pippin não lhes dava atenção. Finalmente passou pelo Segundo Portão, além do qual enormes labaredas subiam entre as muralhas.
Apesar disso, tudo parecia estranhamente silencioso. Não se ouvia nenhum barulho, gritos de batalha ou troar de armas. Então, de repente, houve um berro pavoroso, uma grande batida e um estrondo profundo e retumbante. Forçando-se a avançar, contra uma rajada de medo e horror que quase o derrubou de joelhos, Pippin virou uma esquina que se abria no pátio amplo da cidade. Ficou paralisado. Encontrara Gandalf, mas recuou, escondendo-se numa sombra.


Desde a meia-noite prosseguia o ataque. Tambores retumbavam. Ao norte e ao sul, as companhias inimigas, uma atrás da outra, avançavam contra as muralhas.
Chegavam animais enormes, parecendo edifícios moveis a luz rubra e oscilante, os múmakil de Harad, arrastando pelas alamedas enormes torres e máquinas, em meio ao incêndio. Seu Capitão já não se preocupava muito com o que faziam ou quantos poderiam ser mortos: seu único objetivo era testar a força da defesa e manter os homens de Gondor ocupados em vários lugares. Era contra o Portão que ele jogaria seu maior peso. O Portão podia ser muito forte, feito de aço e ferro, guardado por torres e baluartes de pedra invencível, e apesar disso era a chave, o ponto mais fraco em toda aquela muralha alta e impenetrável. Os tambores retumbaram mais alto. As labaredas subiram com mais força. Grandes máquinas se arrastavam através do campo, e no meio havia um enorme aríete, grande como uma árvore da floresta, de trinta metros de comprimento, oscilando preso a fortes correntes. Estivera sendo forjado por muito tempo nas escuras ferrarias de Mordor, e sua cabeça hedionda, moldada em aço negro, tinha o formato de um lobo voraz; possuía feitiços de destruição. Chamavam-no Grond, em memória do Martelo do Mundo Subterrâneo de outrora. Grandes animais o puxavam, orcs se amontoavam em volta dele, e atrás vinham os trolls das montanhas para manejá-lo. Mas em volta do Portão a resistência ainda era forte, e ali os cavaleiros de Doí Amroth e os mais resistentes da guarnição se mantinham sitiados. Choviam flechas e lanças; torres de sitio tombavam ou de repente se incendiavam como tochas. Por toda a volta, diante das muralhas dos dois lados do Portão, o chão estava coberto de escombros e de corpos dos mortos; mesmo assim, como se guiados por uma loucura, mais e mais deles chegavam.
Grond se aproximava. O fogo não atacava o seu suporte; embora de vez em quando algum dos grandes animais que o puxavam enlouquecesse e espalhasse atropelo e destruição em meio aos incontáveis orcs que o escoltavam, seus corpos eram jogados de lado e outros tomavam-lhes o lugar.
Grond se aproximava. Os tambores retumbavam alucinadamente. Por sobre os montes de mortos um vulto hediondo surgiu: um cavaleiro, alto, encapuzado, coberto por um manto negro. Lentamente, pisando e esmagando os caídos, cavalgou à frente, sem se importar com a possibilidade de ser atingido por uma lança. Parou e ergueu uma enorme espada pálida. Assim que fez isso, um grande terror atingiu a todos, defensores e inimigos; as mãos dos homens ficaram imóveis ao longo dos corpos, e nenhum arco zuniu. Por um momento, todos ficaram paralisados.
Os tambores retumbaram e repicaram. Num impulso enorme, Grond foi arrastado à frente. Atingiu o Portão. Balançou no ar. Um enorme estrondo retumbou através da Cidade, como um trovão rolando nas nuvens. Mas as portas de ferro e os pilares de aço resistiram ao golpe.
Então o Capitão Negro se ergueu nos estribos e gritou numa voz apavorante, pronunciando em alguma língua esquecida palavras de poder e terror capazes de estraçalhar coração e pedra.
Três vezes gritou. Três vezes o grande aríete retumbou. E de repente, no último golpe, o Portão de Gondor partiu-se. Como se sob o efeito de algum feitiço explosivo, ele caiu aos pedaços: houve um clarão de luz cortante, e as portas se espatifaram no chão.
Para dentro cavalgou o Senhor dos Nazgúl. Uma grande figura negra contra as labaredas ao fundo, ele assomou, transformado numa enorme ameaça de desespero.
Para dentro cavalgou o Senhor dos Nazgúl, pelo arco que nenhum inimigo jamais atravessara, e todos fugiam diante dele.
Todos exceto um. Esperando ali, imóvel e calado no pátio diante do portão, estava Gandalf montado em Scadufax: Scadufax que era o único entre os cavalos livres da terra capaz de suportar o terror, imóvel, imperturbável como uma imagem esculpida em Rath Dinen.
— Não pode entrar aqui — disse Gandalf, e a enorme sombra parou. — Volte para o abismo que lhe foi preparado! Volte! Caia no nada que aguarda você e seu Mestre. Vá!
O Cavaleiro Negro jogou para trás o capuz e todos ficaram atônitos: ele tinha uma coroa real, e mesmo assim ela não repousava sobre nenhuma cabeça visível. As labaredas rubras reluziam entre a coroa e os ombros largos e escuros protegidos pela capa. De uma boca invisível veio uma risada mortal.
— Velho tolo! — disse ele. — Velho tolo! Esta é a minha hora. Não reconhece a morte ao deparar com ela? Morra agora e pragueje em vão! — E com essas palavras ergueu a espada, de cuja lâmina escorriam chamas.
Gandalf não se mexeu. E naquele exato momento, em algum pátio distante da Cidade, um galo cantou. Cantou num tom estridente e cristalino sem se importar com feitiçaria ou guerra, apenas saudando a manhã que no céu, acima das sombras da morte, chegava com a aurora.
E como em resposta veio de longe uma outra nota. Trombetas, trombetas, trombetas. Ecoaram fracas nas encostas escuras do Mindolluin. Grandes trombetas do norte, num clangor alucinado.
Rohan finalmente chegara.

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