24 de abril de 2016

Capítulo IV - O Campo de Cormallen

Por todos os flancos das colinas atacavam os exércitos de Mordor. Os Capitães do Oeste soçobravam num mar crescente. O sol brilhava rubro, e sob as asas dos nazgúl as sombras de morte caiam escuras cobrindo a terra. Aragorn, sob a sua bandeira, estava silencioso e austero, como alguém perdido em pensamentos de coisas distantes ou há muito passadas; mas seus olhos reluziam como estrelas que ficam mais brilhantes à medida que a noite se aprofunda. No topo da colina estava Gandalf, branco e impassível, e nenhuma sombra o cobria. O ataque de Mordor explodiu como uma onda contra as colinas sitiadas, vozes rugindo como vagas em meio à destruição e ao entrechoque das armas.
Como se a seus olhos fosse concedida uma visão súbita, Gandalf se mexeu; voltou-se, olhando para o norte, onde os céus estavam pálidos e limpos. Então levantou as mãos e bradou numa voz que retumbou acima de todo o alarido: As Águias estão chegando! E muitas vozes responderam, gritando: As Águias estão chegando! As Águias estão chegando!
Os exércitos de Mordor olharam para cima, sem saber o que aquele sinal podia significar. Lá vinha Gwaihir, o Senhor dos Ventos, e Landroval, seu irmão, as maiores de todas as Águias do Norte, e os mais poderosos descendentes do velho Thorondor, que construíra seus ninhos nos picos inacessíveis das Montanhas Circundantes quando a Terra Média era jovem. Atrás deles vinham em longas e velozes fileiras todos os seus vassalos das montanhas do norte, cada vez mais rápidos num vento crescente. Caíram direto sobre os nazgúl, descendo dos altos ares num súbito mergulho, e o ruflar de suas amplas asas passou como uma rajada de vento. Mas os nazgúl se viraram e fugiram, sumindo dentro das sombras de Mordor, respondendo a um chamado súbito e terrível vindo da Torre Escura; e naquele momento todos os exércitos de Mordor estremeceram, a dúvida oprimiu-lhes os corações, seu riso falhou, suas mãos tremeram e suas pernas bambearam. O Poder que os fazia avançar e os enchia de ódio e fúria estava vacilando, sua vontade afastava-se deles; agora, olhando nos olhos do inimigo, eles viam uma luz fatal, e sentiam medo. Todos os Capitães do Oeste clamaram em altos brados, pois seus corações se encheram de uma nova esperança em meio à escuridão. Das colinas sitiadas avançaram contra os inimigos vacilantes os soldados de Gondor, os Cavaleiros de Rohan, os dúnedain do norte, companhias em fileiras cerradas penetrando a turba com estocadas de lanças enfurecidas. Mas Gandalf ergueu os braços e chamou mais uma vez numa voz límpida:
— Parem, homens do oeste! Parem e esperem! Esta é a hora da condenação.
E, no momento em que falava, a terra tremeu sob seus pés. Então, subindo depressa, bem acima das Torres do Portão Negro, muito mais alta que montanhas, uma vasta escuridão irrompeu nos céus, coruscando fogo. E a terra gemeu e estremeceu. As Torres dos Dentes balançaram, cambalearam e caíram; a poderosa fortificação desmoronou, o Portão Negro se desfez em ruínas; e de longe, às vezes fraco, às vezes crescendo, outras ainda subindo até as nuvens, vinha um retumbar como o de tambores, um rugido, um ruído longo e turbulento de destruição.
— O reino de Sauron está terminado! — disse Gandalf. — O Portador do Anel cumpriu sua Demanda.
E, quando os Capitães olharam para o sul na direção da Terra de Mordor, tiveram a impressão de que, negro contra a cortina de nuvens, erguia-se um enorme vulto de sombra, impenetrável, coroado de relâmpagos, enchendo todo o céu. Enorme, levantava-se sobre o mundo, e estendia na direção deles uma grande mão ameaçadora, terrível mas impotente: pois no momento em que se debruçava sobre eles um forte vento o arrebatou, e o vulto foi completamente varrido para longe, e passou; e então um silêncio caiu.
Os Capitães curvaram as cabeças; e, quando as ergueram de novo, eis que os inimigos estavam fugindo e o poder de Mordor se dispersava como poeira no vento. Como formigas que vagam sem destino e sem propósito, para depois morrerem exauridas, quando a morte golpeia o ser inchado e incubante que habita o formigueiro e a todas mantém sob controle, da mesma maneira as criaturas de Sauron, orcs ou trolls ou animais escravizados por encantamento, corriam de um lado para o outro sem rumo; alguns se matavam ou se jogavam em abismos, ou ainda fugiam gemendo para se esconderem em buracos e lugares escuros e sem luz, distantes de qualquer esperança.
Mas os homens de Rhún e Harad, orientais e sulistas, viram a destruição de sua guerra e a grande majestade e glória dos Capitães do Oeste. E aqueles que havia mais tempo estavam mais envolvidos na servidão maligna, odiando o oeste, e contudo eram homens altivos e corajosos, por sua vez se ajuntaram numa resistência desesperada. Mas a maioria deles fugiu como pôde para o leste; alguns ainda jogaram suas armas ao chão e imploraram clemência.
Gandalf então, deixando todos esses assuntos de batalha e comando para Aragorn e para os outros senhores, subiu até o topo da colina e chamou; desceu até ele a grande águia, Gwaihir, o Senhor dos Ventos.
— Você me carregou duas vezes, Gwaihir, meu amigo — disse Gandalf. — Mais uma terceira e estaremos quites, se você estiver disposto. Você verá que não serei um fardo muito maior do que quando você me levou de Zirakzigil, onde minha vida antiga se consumiu no fogo.
— Eu o carregaria — disse Gwaihir — para onde quisesse, mesmo que você fosse feito de pedra.
— Então venha, e permita que seu irmão nos acompanhe, e mais alguém de seu povo que seja velocíssimo! Pois necessitamos de uma velocidade maior do que a de qualquer vento, superior à das asas dos nazgúl.
— O Vento Norte está soprando, mas vamos ultrapassá-lo — disse Gwaihír.
E, erguendo Gandalf, alçou num voo rápido rumo ao sul, e com ele foram Landroval e Meneldor, jovem e veloz. Passaram sobre Udún e Gorgoroth e viram toda a terra em ruína e tumulto embaixo deles, e adiante a Montanha da Perdição incandescente, derramando seu fogo.


— Estou feliz em tê-lo aqui comigo — disse Frodo. — Aqui, no fim de todas as coisas, Sam.
— Sim, estou com o senhor, Mestre — disse Sam, pousando delicadamente a mão ferida de Frodo sobre o peito. — E o senhor está comigo. E a viagem está terminada. Mas depois de ter vindo até aqui não quero desistir dela ainda. Não é do meu feitio, de certa forma, se o senhor me entende.
— Talvez não, Sam — disse Frodo — mas é do feitio de todas as coisas que existem no mundo. As esperanças fracassam. Um fim chega. Agora só temos de esperar um pouco. Estamos perdidos na ruína e na destruição, e não há como escapar.
— Bem, Mestre, poderíamos pelo menos nos afastar deste lugar perigoso, desta Fenda da Perdição, se esse é o nome. Não poderíamos? Vamos, Sr. Frodo, pelo menos vamos descer a trilha!
— Muito bem, Sam. Se você quer ir, eu vou — disse Frodo; e os dois se levantaram e foram descendo lentamente a estrada sinuosa; no momento em que atingiam os pés da Montanha em convulsão, uma grande nuvem de fumaça e vapor foi expelida pelas Sammath Naur e a face do cone se abriu numa grande fenda, e um enorme vômito de fogo rolou numa cascata lenta e tonitruante descendo a encosta leste.
Frodo e Sam não conseguiam avançar. As últimas forças de suas mentes e corpos se extinguiam rapidamente. Tinham chegado a um montículo baixo de cinzas que se formara ao pé da Montanha; de lá não havia mais como escapar. Agora o montículo se transformara numa ilha, que não duraria muito em meio ao tormento do Orodruin.
Por toda a volta a terra se abria, e de fossos e poços profundos a fumaça e o vapor subiam. Atrás deles a Montanha tinha convulsões. Grandes brechas se abriam em seus flancos. Lentos rios de fogo desciam as encostas na direção deles. Logo seriam engolidos. Caía uma chuva de cinza quente. Agora estavam parados, e Sam, ainda segurando a mão do mestre, a acariciava. Suspirou.
— Fizemos parte de uma grande história, Sr. Frodo, não foi mesmo? — disse ele. — Gostaria de poder ouvir alguém contando! O senhor acha que eles vão dizer: Agora vem a história de Frodo dos Nove Dedos e o Anel da Perdição? E então todo mundo fará silêncio, como fizemos quando em Valfenda nos contaram a história de Beren-Maneta e a Grande Joia. Gostaria de poder escutar! E fico imaginando como a história contínua, depois da nossa parte.
Mas no momento em que dizia isso, para afastar o medo até o último instante, seus olhos vagaram para o norte, perscrutando o olho do vento, para onde o céu distante estava claro, enquanto o vento frio, transformando-se numa rajada, varria para longe a escuridão e a ruína das nuvens.
E foi assim que Gwaihír os viu com seus olhos penetrantes, enquanto descia em meio ao forte vento, e desafiando o grande perigo dos céus fazia rondas no ar: dois pequenos vultos escuros, abandonados, de mãos dadas, sobre uma pequena colina, enquanto o mundo tremia embaixo delas, e arfava, e rios de fogo se aproximavam.
E, no mesmo momento em que os encontrou e desceu num mergulho, viu-os cair, exaustos, ou sufocados pela fumaça e pelo calor, ou finalmente derrubados pelo desespero, escondendo os olhos da morte. Estavam deitados lado a lado, e Gwaihir veio voando baixo, seguido por Landroval e Meneldor, o veloz; e num sonho, sem saber o que lhes estava acontecendo, os caminhantes foram erguidos e carregados para longe da escuridão e do fogo.


Quando Sam acordou, viu que estava deitado em alguma cama macia, mas sobre ele balançavam suavemente grandes ramos de faia, e através das folhas jovens o sol reluzia, verde e dourado. Todo o ar estava repleto de uma fragrância suave e adocicada.
Lembrou-se daquele cheiro: a fragrância de Ithilien.
— Graças! — cismou ele. — Por quanto tempo estive dormindo?
Pois o cheiro o carregara de volta ao dia em que ele acendera sua pequena fogueira sob o barranco ensolarado, e por um momento tudo o que se passara depois se apagou da memória consciente. Espreguiçou-se e respirou fundo.
— Puxa, que sonho eu tive! — murmurou ele. — Estou feliz por ter acordado!
Sentou-se e então viu que Frodo estava deitado ao lado, dormindo tranquilo, com uma mão atrás da cabeça, e a outra descansando sobre a coberta.
Era a mão direita e faltava-lhe o terceiro dedo. Uma lembrança completa inundou-lhe a mente, e Sam gritou:
— Não foi um sonho! Então, onde estamos?
E uma voz suave falou atrás dele:
— Na terra de Ithilien, sob a proteção do Rei; e ele aguarda vocês. — Dizendo isso, Gandalf se postou diante deles, vestido de branco, sua barba agora reluzindo como neve pura no piscar da luz do sol por entre as folhas. — Bem, Mestre Samwise, como se sente? — perguntou ele.
Mas Sam caiu deitado de novo e ficou olhando de boca aberta; por um momento, dividido entre o espanto e uma grande alegria, não conseguiu responder. Por fim disse ofegante:
— Gandalf! Pensei que estava morto! Mas depois pensei que eu mesmo estava morto. Será que todas as coisas tristes vão acabar se desfazendo? O que aconteceu com o mundo?
— Uma grande Sombra partiu — disse Gandalf, e depois riu, e o som de sua risada era como música, ou como água correndo numa terra ressequida; ouvindo aquilo, Sam percebeu que perdera a conta dos dias em que não ouvira um riso, o puro som do contentamento. Chegava-lhe aos ouvidos como o eco de todas as alegrias que já conhecera. Mas ele mesmo explodiu em lágrimas. Depois, como a chuva suave passa com um vento de primavera, e o sol volta a brilhar mais forte, suas lágrimas cessaram, e o riso foi aflorando, e rindo ele saltou da cama. — Como me sinto? — gritou ele. — Bem, não sei dizer. Eu me sinto, eu me sinto — acenou com as mãos nos ares —, sinto-me como a primavera depois do inverno, com sol nas folhas, e como trombetas e harpas e todas as músicas que jamais ouvi! — Parou e olhou para seu mestre. — Mas como está o Sr. Frodo? Não é uma pena o que aconteceu com a mão dele? Mas espero que quanto ao resto esteja tudo bem. Ele passou por dias cruéis.
— Sim, quanto ao resto tudo está bem comigo — disse Frodo, sentando-se e por sua vez rindo também. — Adormeci de novo esperando você, Sam, seu dorminhoco. Já estava acordado bem cedo hoje, e agora deve ser perto do meio-dia.
— Meio-dia? — disse Sam, tentando calcular. — Meio-dia de que dia?
— O décimo quarto do Ano Novo — disse Gandalf — ou, se você preferir, o oitavo dia de abril no Registro do Condado*. Mas em Gondor o Ano Novo sempre começará no dia vinte e cinco de março, quando Sauron caiu, e quando vocês foram salvos do fogo e trazidos ao Rei. Ele cuidou de vocês, agora os aguarda. Vão comer e beber com ele. Quando estiverem prontos, vou conduzi-los à sua presença.
— O Rei? — disse Sam. — Que Rei, e quem é ele?
— O Rei de Gondor, e Senhor das Terras do Oeste — disse Gandalf — e ele voltou a tomar posse de todo o seu antigo reino. Logo partirá para a coroação, mas está aguardando vocês.
— O que vamos vestir? — perguntou Sam, pois tudo o que conseguia ver eram as roupas velhas e rasgadas com as quais tinham viajado, que estavam dobradas no chão ao lado das camas.
— As roupas que usaram quando estavam indo para Mordor — disse Gandalf. — Até mesmo os farrapos de orc que você usou na terra negra, Frodo, serão preservados. Nenhuma seda ou linho, nem qualquer armadura ou escudo poderiam ser mais honrosos. Mas depois vou arranjar outras roupas, talvez.
Então estendeu as mãos para os dois, e eles viram que uma delas brilhava com uma luz.
— O que você tem aí? — gritou Frodo. — Será...
— Sim, eu trouxe seus dois tesouros. Estavam com Sam quando vocês foram resgatados. Os presentes da Senhora Galadriel: seu cristal, Frodo, e sua caixa, Sam. Vão ficar felizes em guardá-los a salvo outra vez.
Depois de se lavarem, vestirem a roupa e comerem uma refeição leve, os hobbits seguiram Gandalf. Saíram do bosque de faias onde haviam repousado, e passaram para um extenso gramado verde, que reluzia ao sol, margeado por imponentes árvores de folhas escuras, cobertas de flores escarlate. No fundo ouvia-se o som de água caindo, e um rio corria à frente deles entre margens floridas, até chegar a um bosque aos pés do gramado onde prosseguia sob um arco de árvores, através das quais se podia ver a água tremeluzindo na distância.
Chegando à entrada do bosque, ficaram surpresos ao verem cavaleiros em armaduras brilhantes e altivos guardas vestidos de prata e negro, que os saudaram com honras e lhes fizeram reverências. E então um deles tocou uma longa trombeta, e eles continuaram avançando pelo corredor de árvores ao lado do rio cantante. Assim chegaram a um lugar amplo e verde, além do qual havia um rio largo coberto de uma névoa prateada, da qual emergia uma longa ilha arborizada, com muitos navios atracados em sua costa. Mas no campo onde agora entravam havia um grande exército em formação, e suas fileiras e companhias brilhavam ao sol. E, quando os hobbits se aproximaram, espadas foram desembainhadas, lanças se agitaram, cornetas e trombetas cantaram, e os homens gritavam em muitas vozes e em muitas línguas:

“Vida longa aos Pequenos! Louvai-os com grande louvor!
Cuio i Pheriain anann!Aglar’ni Pheríannath!
Louvai-os com grande louvor, Frodo e Samwise!
Daur a Berhael, Conin en Annún! Eglerio!
Louvai-os!
Eglerio!
leita te. laita te!Andave laituvalmetl
Louvai-os!
Cormacolindor, a laita tórien na!
Louvai-os! Os Portadores do Anel, louvai-os com grande louvor!”

E assim, com o sangue quente a corar-lhes as faces e os olhos brilhando de surpresa, Frodo e Sam avançaram e viram que em meio ao exército clamante estavam três altos assentos feitos de turfa verde. Atrás do assento à direita pairava, branco sobre verde, um grande cavalo correndo solto; à esquerda havia uma bandeira, prata sobre azul, um navio com proa em cisne vagando sobre o mar; mas atrás do trono mais alto, que ficava bem ao centro, um grande estandarte se abria na brisa, e nele uma árvore branca floria sobre um campo de sable, sob uma coroa reluzente e sete estrelas brilhantes. Sentado no trono estava um homem vestido de malha metálica, com uma grande espada sobre os joelhos; mas em sua cabeça não havia elmo.
Quando os hobbits se aproximaram, ele se levantou. E então o reconheceram, mesmo mudado como estava, tão altivo e com uma expressão alegre no rosto, majestoso, senhor de homens, de cabelos escuros e olhos cinzentos.
Frodo correu ao encontro dele, e Sam foi logo atrás.
— Ora, ora, mas isso coroa tudo! — disse ele. — Passolargo, ou então ainda estou sonhando!
— Sim, Sam, Passolargo — disse Aragorn. — Estamos muito longe de Bri, onde você não gostou da minha aparência, não é mesmo? Todos nós estamos muito longe, mas a sua estrada foi a mais escura.
E então, para a surpresa e completo assombro de Sam, ele curvou os joelhos diante deles; depois tomando-os pela mão, Frodo à direita e Sam à esquerda, conduziu-os até o trono e, fazendo-os sentar, virou-se para os homens e capitães que assistiam a tudo e, numa voz que ecoou por todo o exército, gritou:
— Louvai-os com grande louvor!
E depois que o grito alegre cresceu e foi diminuindo de novo, completando de uma vez por todas a satisfação de Sam e enchendo-o de pura alegria, um menestrel de Gondor deu um passo à frente, ajoelhou-se e pediu permissão para cantar. E eis que disse ele:
— Vejam, senhores, cavaleiros e homens de honra imaculada, reis e príncipes e belo povo de Gondor, Cavaleiros de Rohan e vós, filhos de Elrond, e dúnedain do norte, elfo e anão e valentes do Condado, e todas as pessoas livres do oeste, ouçam agora a minha balada. Pois vou cantar para todos sobre Frodo dos Nove Dedos e o Anel da Perdição.
E, quando Sam ouviu aquilo, riu alto por puro deleite; levantando-se, gritou:
— Ó grande glória e esplendor! E todos os meus desejos se realizaram! — E então chorou.
E todo o exército riu e chorou, e no meio desta alegria e destas lágrimas a voz límpida do menestrel se ergueu como prata e ouro, e todos os homens silenciaram.
E ele cantou, alternando a língua do elfos e a do oeste, até que seus corações, feridos por doces palavras, transbordaram, numa alegria que se assemelhava a espadas, e eles passaram em pensamentos para regiões onde dor e prazer fluem juntos, e as lágrimas são o próprio vinho da felicidade.
Por fim, quando o sol do meio-dia foi caindo e as sombras das árvores se alongaram, o menestrel terminou.
— Louvai-os com grande louvor! — disse ele ajoelhando-se.
E então Aragorn se levantou, e depois dele todo o exército, e eles passaram para pavilhões já preparados, onde iriam comer, beber e se alegrar enquanto durasse o dia.
Frodo e Sam foram conduzidos em separado para uma tenda, onde despiram suas vestes velhas, que apesar disso foram dobradas e guardadas com honra; roupas limpas de linho foram-lhes trazidas. Então veio Gandalf tendo nos braços, para a surpresa de Frodo, a espada, a capa élfica e o casaco de mithril que lhe foram tomados em Mordor. Para Sam ele trouxe um casaco de malha dourada, e a capa élfica completamente curada dos ferimentos e manchas que sofrera; depois colocou diante deles duas espadas.
— Não desejo espada alguma — disse Frodo.
— Pelo menos esta noite você deve usar uma — disse Gandalf.
Então Frodo pegou a pequena espada que pertencera a Sam, e fora colocada ao seu lado em Cirith Ungol.
— Ferroada eu dei a você, Sam — disse ele.
— Não, mestre! O Sr. Bilbo a deu ao senhor, e ela combina com o casaco prateado dele; ele não gostaria que ninguém mais a usasse agora.
Frodo concordou, e Gandalf, como se fosse o escudeiro dos hobbits, ajoelhou-se e cingiu-lhes os cintos com as espadas; depois, levantando-se, colocou diademas de prata em suas cabeças. E, quando estavam paramentados, foram para o grande banquete; sentaram-se à mesa do Rei com Gandalf, o Rei Éomer de Rohan, o Príncipe Imrahil e todos os principais capitães, além de Gimli e Legolas. Mas quando, depois do Silêncio de Cerimônia, o vinho foi trazido, entraram dois escudeiros para servir os reis; pelo menos assim pareciam: um estava vestindo a prata e o negro dos guardas de Minas Tirith, e o outro trajava branco e verde.
Mas Sam ficou curioso, pensando o que dois meninos tão jovens estariam fazendo em meio a um exército de homens poderosos. Então, de repente, quando os dois se aproximaram e ele os pôde ver melhor, exclamou:
— Ora, ora, olhe, Sr. Frodo! Olhe aqui! Veja, se não é o Sr. Pippin. Quero dizer, o Sr. Peregrin Túk, e o Sr. Merry! Como cresceram! Vejam só! Aposto que há mais histórias a contar além da nossa.
— É isso mesmo — disse Pippin virando-se para ele. — E vamos começar a contá-las assim que este banquete terminar. No meio tempo vocês podem tentar com Gandalf. Ele já não é mais tão reservado como antes, embora nos últimos tempos esteja mais rindo do que falando. Por enquanto Merry e eu estamos ocupados. Somos cavaleiros da Cidade e de Rohan, como espero que você tenha observado.
Finalmente terminou o alegre dia, e, quando o sol se foi e a lua redonda subiu devagar acima das névoas do Anduin, tremeluzindo através das folhas farfalhantes, Frodo e Sam se sentaram sob árvores sussurrantes em meio à fragrância da bela Ithilien; foram noite adentro conversando com Merry, Pippin e Gandalf, e depois de um tempo Legolas e Gimli juntaram-se a eles. Então Frodo e Sam souberam grande parte do que acontecera à Comitiva depois do rompimento da sociedade, naquele dia maligno no Parth Galen, perto da Cachoeira de Rauros; mesmo assim, havia sempre mais a perguntar, e mais a contar. Orcs, árvores falantes, léguas de relva, cavaleiros galopantes, cavernas cintilantes, torres brancas e palácios dourados, e batalhas, altos navios navegando, todas essas coisas passaram diante da mente de Sam até que ele ficou confuso. Mas, em meio a todas essas surpresas, ele sempre retornava ao assombro que sentira ao ver o tamanho de Merry e Pippin. Fez então com que cada um deles ficasse de pé e medisse sua altura com ele e com Frodo, cada um de costas para o outro. Coçou a cabeça.
— Não posso entender isso nessa idade! — disse ele. — Mas é isto mesmo: os senhores estão quase oito centímetros mais altos do que deveriam estar, ou eu sou um anão.
— Isso certamente você não é — disse Gimli. — Mas o que foi que eu disse? Os mortais não podem ficar bebendo bebida de ent e esperar apenas o mesmo efeito de uma caneca de cerveja.
— Bebida de ent? — disse Sam. — Lá vêm vocês com os ents de novo mas não consigo entender o que eles são. Acho que vai levar semanas até que tenhamos esclarecido todas essas coisas!
— Sem dúvida, semanas — disse Pippin. — E depois Frodo terá de ser trancado numa torre de Minas Tirith para escrever toda a história. Caso contrário vai esquecer metade dela, e o pobre e velho Bilbo ficará terrivelmente desapontado.
Por fim Gandalf se levantou.
— As mãos do rei são mãos que curam, queridos amigos — disse ele. — Mas vocês chegaram à beira da própria morte, antes que ele os resgatasse, usando todo o seu poder, e enviando-os para o doce esquecimento do sono. E, embora vocês tenham realmente dormido longa e tranquilamente, ainda assim é hora de dormirem outra vez.
— E não apenas para Frodo e Sam — disse Gimli —, mas você também, Pippin. Eu te amo, mesmo que seja apenas por causa de todos os sofrimentos que me custou, dos quais nunca me esquecerei. Muito menos esquecerei o momento em que o encontrei na colina da última batalha. Se não fosse por mim, Gimli, o anão, você se teria perdido naquela hora. Mas pelo menos agora eu conheço a aparência do pé de um hobbit, mesmo que seja a única coisa visível sob um monte de cadáveres. E, quando retirei a grande carcaça de cima de você, tinha certeza de que estava morto. Teria apostado minha barba. E só faz um dia que você se levantou pela primeira vez, completamente recuperado. Para a cama, já. E eu vou também.
— E eu — disse Legolas — vou andar na floresta desta bela terra, o que para mim é descanso suficiente. Em dias vindouros, se meu senhor élfico permitir, alguns de meu povo vão se mudar para cá; quando vierem será uma alegria completa, por um tempo. Por um tempo: um mês, uma vida, cem anos dos homens. Mas o Anduin está perto, e o Anduin leva até o Mar. Para o Mar!

Para o Mar, para o Mar! As gaivotas vão gritando,
O vento está fluindo, branca espuma levantando.
A oeste, oestembora, redondo o sol vai indo.
Barco cinza, barco cinza, o chamado estás ouvindo
Das vozes de meu povo, dos que não vejo mais?
Vou deixar vou deixar os bosques maternais;
nossos anos já vão indo, nossos dias terminando.
Amplas águas vou cruzar, sozinho navegando.
Na Praia Derradeira longas ondas vão quebrando,
Naquela Ilha Perdida doces vozes vão clamando,
Em Eresséa, em Casadelfos que mortal não viu presente,
Onde as folhas jamais caem: lá meu povo eternamente.

E, quando ficou sabendo que no cerco de Gondor houvera um grande número desses animais, mas que eles haviam sido abatidos, considerou o fato uma triste perda.
— Bem, não se pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, eu acho — disse ele. — Mas eu perdi muita coisa, ao que parece.
Enquanto isso o exército se preparava para o retorno a Minas Tirith. Os que estavam exaustos descansaram, os feridos foram curados. Pois alguns tinham trabalhado e lutado muito com os últimos orientais e sulistas, até que todos foram subjugados. E, por último, retornaram aqueles que tinham penetrado em Mordor e destruído as fortalezas ao norte daquela região.
Mas por fim, quando o mês de maio se aproximava, os Capitães do Oeste partiram de novo; foram de navio com todos os seus homens, e navegaram de Cair Andros pelo Anduin até Osgiliath, e lá permaneceram por mais um dia; no dia seguinte chegaram aos campos verdes do Pelennor e viram outra vez as torres brancas sob a alta Mindolluin, a Cidade dos Homens de Gondor, última lembrança do Ponente, que atravessara a escuridão e o fogo para atingir um novo dia. E lá, no meio dos campos, eles montaram seus pavilhões e aguardaram a chegada da manhã, pois era Véspera de Maio, e o Rei entraria pelos seus portões com o nascer do sol. E assim, cantando, Legolas saiu, descendo a colina.
Então os outros também saíram, e Frodo e Sam foram dormir. Pela manhã acordaram outra vez em meio à paz e à esperança; passaram muitos dias em Ithilien. Pois o Campo de Cormallen, onde o exército estava agora acampado, ficava perto de Henneth Annún, e o rio que corria de sua cachoeira podia ser ouvido na noite, quando passava descendo através de seu portão de pedra, e atravessava os prados floridos, dirigindo-se para a correnteza do Anduin perto da Ilha de Cair Andros. Os hobbits andavam de um lugar para o outro, visitando outra vez os lugares pelos quais já tinham passado, e Sam sempre alimentava a esperança de ver, em alguma sombra ou clareira secreta da floresta, talvez num momento fugaz, o grande Olifante.

* Havia trinta dias em março (ou Louvoso) no calendário do Condado.

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