11 de abril de 2016

Capítulo IV - De ervas e coelho cozido

Durante as últimas horas que restavam do dia eles descansaram, escondendo-se do sol conforme este se movia, até que finalmente a sombra da borda oeste do valezinho onde estavam se alongou, e a escuridão cobriu toda a concavidade.
Então comeram um pouco, e beberam moderadamente. Golum não comeu nada, mas aceitou de bom grado uns goles de água.
— Logo conseguimos mais — disse ele, lambendo os beiços. — Água boa desce pelos riachos até o Grande Rio, água limpa nas terras para onde estamos indo. Sméagol vai conseguir comida lá também, talvez. Está com muita fome, é sim, Golum!
Bateu com as duas mãos chatas na barriga encolhida, e uma luz verde e opaca brilhou em seus olhos. Já era quase noite quando finalmente partiram, transpondo a borda oeste do valezinho e desaparecendo como fantasmas dentro do terreno irregular às margens da estrada. A lua, que dali a três noites estaria cheia, só subiu acima das montanhas quase à meia-noite, e o inicio da noite foi muito escuro.
Uma única luz vermelha queimava lá em cima, nas Torres dos Dentes, mas esse era o único sinal que se via ou se ouvia da vigilância sempre atenta do Morannon. Por várias milhas o olho vermelho parecia observá-los, enquanto fugiam aos tropeços através de uma região desolada e pedregosa. Não ousaram pegar a estrada, mas ficaram à direita dela, seguindo-lhe a trilha da maneira possível, a uma pequena distância. Finalmente, quando a noite estava terminando e eles já se sentiam cansados, pois tinham feito apenas uma breve pausa, o olho foi diminuindo até se transformar num pequeno ponto de fogo, para depois desaparecer: eles tinham contornado a escura encosta norte das montanhas mais baixas, e agora se dirigiam para o sul.
Com os corações estranhamente aliviados, pararam para descansar outra vez, mas não por muito tempo. Não estavam avançando com a rapidez que Golum queria. Pelos seus cálculos, eram quase trinta léguas do Morannon até a encruzilhada sobre Osgiliath, e ele esperava cobrir a distância em quatro jornadas. Então logo estavam marchando outra vez, até que a aurora começou a se espalhar lentamente na solidão vasta e cinzenta. Nesse ponto, já tinham caminhado quase oito léguas, e os hobbits não teriam conseguido avançar mais, mesmo que tivessem tentado.
A luz crescente revelou-lhes uma região já menos deserta e arruinada. As montanhas ainda assomavam ominosas à esquerda, mas bem perto eles já conseguiam visualizar a estrada que ia para o sul, agora distanciando-se das raízes negras das colinas e inclinando-se para o oeste. Além dela viam-se encostas cobertas de árvores sombrias semelhantes a nuvens escuras, mas em toda a volta jazia uma charneca emaranhada, onde cresciam urzes, giesteiras e cornisos, além de outros arbustos que eles não conheciam. Em alguns pontos havia aglomerados de altos pinheiros. Os corações dos hobbits ficaram outra vez um pouco mais leves, apesar de seu cansaço: o ar era fresco e perfumado, fazendo-os lembrar das regiões montanhosas da distante Quarta Norte. Era boa a sensação de alívio, de poder caminhar numa terra que estava sob o domínio do Senhor do Escuro havia apenas alguns anos, e ainda não fora totalmente arruinada. Mas eles não se esqueciam do perigo que corriam, nem de que o Portão Negro ainda estava perto demais, embora escondido atrás das montanhas sombrias. Olharam em volta procurando um esconderijo onde pudessem proteger-se de olhos malignos enquanto durasse a luz. O dia passou em desconforto. Ficaram deitados na charneca, contando uma a uma as horas arrastadas nas quais parecia haver pouca mudança; ainda estavam sob as sombras das Ephel Dúath, e o sol estava velado. Frodo às vezes dormia, um sono profundo e tranquilo, ou por confiar em Golum ou por estar cansado demais para se preocupar com ele; mas Sam conseguia apenas cochilar, mesmo nos momentos em que era visível que Golum dormia profundamente, silvando e se contorcendo em seus sonhos secretos.
Talvez a fome, mais que a desconfiança, o impedissem de dormir: começara a desejar uma boa comida caseira, “alguma coisa quentinha, saindo do fogo”. Assim que a região desapareceu num cinza disforme sob a noite que chegava, eles partiram outra vez. Em pouco tempo, Golum os conduziu para a estrada em direção ao sul; depois disso, avançaram com mais rapidez, embora o perigo fosse maior. Aguçaram os ouvidos tentando captar o som de cascos ou pés na estrada, adiante ou atrás; mas a noite passou e eles não ouviram som algum, de caminhante ou cavaleiro.
A estrada fora feita numa época longínqua, e por cerca de trinta milhas abaixo do Morannon tinha sido reparada, mas, conforme avançava para o sul, era invadida pela vegetação indomada. Ainda era possível ver o trabalho dos homens de antigamente, no seu traçado reto e no percurso plano: em alguns pontos a estrada cortava caminho através de encostas de colinas, ou saltava sobre um riacho por meio de um arco amplo e elegante de alvenaria resistente; mas depois todos os sinais de construções de pedra desapareceram, a não ser por um ou outro pilar quebrado, espiando de trás dos arbustos da margem, ou antigas pedras de pavimentação ainda espreitando por entre o mato e o musgo. Urzes, árvores e samambaias caíam e se penduravam nos barrancos, ou se espalhavam pela superfície. Finalmente a estrada diminuiu até se transformar numa trilha campestre para o uso de carroças, mas sem fazer curvas: continuava em seu próprio curso e os conduzia pelo caminho mais rápido.
Assim eles entraram pelas fronteiras do norte daquela região que os homens outrora chamavam de Ithilien, um belo lugar de florestas em encostas e riachos velozes. A noite ficou agradável sob as estrelas e a lua redonda, e os hobbits tiveram a impressão de que a fragrância do ar ficava mais intensa conforme eles avançavam: e pelos suspiros e murmúrios de Golum parecia que ele também notara, e não gostava nada daquilo. Aos primeiros sinais do dia, pararam novamente.
Tinham chegado ao fim de um longo corte, profundo e com encostas íngremes na parte central, pelo qual a estrada abria seu caminho através de uma cordilheira rochosa. Agora tinham subido o barranco a oeste e olhavam em volta.
O dia se abria no céu, e eles viram que as montanhas estavam agora bem distantes, recuando para o leste numa longa curva que se perdia na distância. Diante deles, conforme viraram para o oeste, encostas suaves desciam e invadiam a névoa apagada mais abaixo. Por toda a volta havia pequenos bosques de árvores resinosas, abetos, cedros e ciprestes, e outras espécies desconhecidas no Condado, com amplas clareiras entre elas; por toda a volta se espalhava uma opulência de ervas e arbustos de aroma suave. A longa viagem de Valfenda os trouxera muito ao sul de sua própria terra, mas só agora, naquela região mais protegida, os hobbits sentiam a mudança de clima. Ali a primavera já se manifestava: as folhagens brotavam perfurando o musgo e o humo; os lariços exibiam dedos verdes, pequenas flores se abriam na turfa, pássaros cantavam. Ithilien, o jardim de Gondor agora desolado, ainda guardava uma beleza desgrenhada de dríade.
Ao sul e ao oeste o jardim dava para os vales mornos e mais baixos do Anduin, protegido ao leste pelas Ephel Dúath, ficando, contudo, livre da sombra da montanha, protegido ao norte pelas Emyn Muil, aberto aos ares do sul e aos ventos úmidos do Mar distante. Muitas árvores grandes cresciam ali, plantadas havia muito tempo, envelhecendo em meio à falta de cuidados, numa confusão de descendentes desleixadas; havia também bosques e maciços de tamargueiras e terebintos fragrantes, de oliveiras e louros; e havia juníperos e mirtos; e tomilhos que cresciam em arbustos, ou cobrindo as pedras escondidas com seus galhos folhudos e rasteiros que se trançavam formando altas tapeçarias; sálvias de vários tipos exibindo flores azuis, ou vermelhas, ou de um verde-claro; manjeronas e salsas recém-brotadas, e muitas ervas de formas e aromas que estavam além do estudo de jardinagem de Sam. As grutas e muralhas rochosas já estavam salpicadas de saxifragas e sajões. Prímulas e anêmonas acordavam nas moitas de aveleiras; asfódelos e muitos lírios balançavam suas cabeças entreaberta s na relva: relva alta e verde ao lado das poças, onde riachos cadentes se detinham em concavidades frescas, em sua descida para o Anduin.
Os viajantes deram as costas para a estrada e desceram as colinas. Conforme andavam, abrindo caminho através de arbustos e ervas, perfumes suaves subiam enchendo-lhes as narinas. Golum tossia e tinha ânsias de vômito, mas os hobbits respiravam fundo, e de repente Sam riu, não por achar graça, mas por sentir o coração mais leve. Seguiram um riacho que corria veloz diante deles. De repente ele os conduziu até um pequeno lago límpido num valezinho raso: ficava nas ruínas partidas de uma antiga bacia de pedra, cuja borda esculpida estava quase totalmente coberta de musgo e roseiras-bravas; espadas-de-íris cresciam em fileiras à sua volta, e folhas de nenúfares boiavam em sua superfície escura e levemente ondulada; o lago era fundo e de água potável, e extravasava suavemente por sobre uma borda rochosa na extremidade oposta. Ali os três se banharam e beberam bastante água do riacho que alimentava o lago. Depois procuraram um lugar para descansar, e que servisse também de esconderijo: pois aquela terra, embora ainda bela, fazia parte agora do território do Inimigo.
Eles não estavam muito longe da estrada, e mesmo assim, num espaço tão pequeno, puderam ver as cicatrizes de antigas guerras, e os ferimentos mais recentes feitos pelos orcs e outros vis servidores do Senhor do Escuro: um fosso a céu aberto de dejetos e sujeira, árvores derrubadas arbitrariamente e abandonadas à morte, com runas malignas e o sinal cruel do Olho marcado a rudes golpes em sua casca.
Sam, que descera abaixo da desembocadura do riacho, cheirando e tocando as plantas e árvores desconhecidas, esquecido naquele momento de Mordor, de repente lembrou-se do perigo constante que os ameaçava. Tropeçou num círculo ainda queimado pelo fogo, e no meio encontrou uma pilha de ossos e crânios quebrados e carbonizados.
Uma camada de espinheiros e madressilvas-dos-bosques e clematites rastejantes já começara a cobrir com um véu aquele lugar de matança e banquete macabro; mas os vestígios não eram muito antigos. Correu de volta ao encontro dos companheiros, mas não disse nada: era melhor que os ossos descansassem em paz, e não fossem tocados e fuçados por Golum.
— Vamos encontrar um lugar onde possamos deitar — disse ele. — Não lá embaixo, para mim é melhor mais para cima.
Um pouco acima do lago encontraram uma camada espessa e castanha de samambaias do ano anterior. Um pouco mais adiante havia um maciço de loureiros de folhas escuras sobre um barranco íngreme, em cujo topo havia velhos cedros. Ali decidiram descansar e passar o dia, que já prometia ser claro e quente. Um bom dia para passear ao longo dos bosques e clareiras de Ithilien, mas embora fosse provável que os orcs evitassem a luz do sol havia muitos locais onde poderiam se esconder e espreitar; e outros olhos malignos estavam por ali: Sauron tinha muitos servidores.
Golum, de qualquer forma, não caminharia sob o Cara Amarela. Logo ele olharia por sobre as cordilheiras escuras das Ephel Dúath, e Golum iria desfalecer e se esconder da luz e do calor.
Sam estivera pensando seriamente em comida conforme caminhavam. Agora que o desespero do Portão intransponível ficara para trás, ele não se sentia tão inclinado quanto seu mestre a deixar de pensar em sua sobrevivência depois do fim da missão; de qualquer forma, parecia-lhe mais sensato guardar o pão de viagem dos elfos para as ocasiões piores no futuro. Já tinham passado seis dias ou mais desde que ele calculara que só havia um suprimento escasso para três semanas.
“Teremos sorte se alcançarmos o Fogo nesse tempo”, pensou ele. “E pode ser que queiramos voltar. Pode ser!”
Além disso, ao fim de uma longa marcha noturna, e depois de ter tomado um banho e bebido água, ele se sentia ainda mais faminto que o habitual. Uma ceia ou um desjejum ao lado do fogo na velha cozinha na rua do Bolsinho era o que ele realmente queria. Teve uma ideia e virou-se para Golum. Este tinha começado a se esgueirar por conta própria, e rastejava de quatro através das samambaias.
— Ei! Golum! — disse Sam. — Aonde vai? Caçar? Bem, olhe aqui, velho farejador, você não gosta de nossa comida, e eu mesmo não me incomodaria de variar. Seu novo mote é sempre pronto a ajudar. Poderia encontrar alguma coisa boa para um hobbit faminto?
— Sim, talvez, sim — disse Golum. — Sméagol sempre ajuda, se eles pede – se eles pede com educação.
— Certo! — disse Sam. — Nós pede. E se isso não for educado o suficiente, nós implora.
Golum desapareceu. Ficou longe algum tempo e Frodo, depois de alguns bocados de lembas, se afundou na samambaia castanha e adormeceu.
Sam olhava para ele.
A luz precoce do dia estava apenas começando a penetrar as sombras sob as árvores, mas ele via o rosto de seu mestre perfeitamente, e as mãos também, repousando no chão ao longo do corpo. Lembrou-se de repente de Frodo deitado, adormecido na casa de Elrond, depois daquele ferimento mortal. Naquela época, enquanto vigiava, Sam notara que algumas vezes uma luz parecia emanar de seu interior com um brilho fraco; mas agora a luz estava mais visível e forte. O rosto de Frodo estava tranquilo, as marcas do medo e da preocupação haviam sumido; mas parecia velho, velho e bonito, como se o cinzelar dos anos agora se revelasse em muitas linhas finas que antes estiveram escondidas, embora a identidade do rosto não estivesse alterada. Não que Sam colocasse as coisas para si mesmo desse modo. Balançou a cabeça, como se as palavras lhe parecessem inúteis, e murmurou:
— Eu o amo. Ele é assim, e algumas vezes isso se manifesta, de alguma forma. Mas eu o amo, quer isso aconteça ou não.
Golum voltou em silêncio e espiou por sobre o ombro de Sam. Olhando para Frodo, fechou os olhos e se afastou sem qualquer ruído. Sam o alcançou um minuto depois, e o encontrou mastigando alguma coisa e murmurando consigo mesmo. No chão ao lado dele jaziam dois pequenos coelhos, que ele já começava a olhar com avidez.
— Sméagol sempre ajuda — disse ele. — Trouxe coelhos, coelhos bonzinhos. Mas o mestre está dormindo, e talvez Sam queira dormir. Não quer os coelhos agora? Sméagol tenta ajudar, mas não consegue pegar tudo num minuto.
Sam, entretanto, não tinha nenhuma objeção a coelhos, e disse isso. Pelo menos não a coelhos cozidos. Todos os hobbits, é claro, sabem cozinhar, pois começam a aprender a arte antes de aprender a ler (o que muitos nunca fazem); mas Sam era um bom cozinheiro, mesmo para os padrões dos hobbits, e muitas vezes tinha feito a comida do acampamento quando em viagem, sempre que havia uma oportunidade. Ainda esperançoso, continuava carregando parte de seu equipamento: trazia acondicionados em sua mochila uma pequena caixa de pederneiras, duas pequenas panelas rasas, a menor se encaixando na maior; dentro delas uma colher de madeira, um pequeno garfo de duas pontas e alguns espetos; e escondido no fundo, numa caixinha rasa de madeira, um tesouro que minguava: um pouco de sal. Mas ele precisava de uma fogueira, além de outras coisas. Pensou um pouco, enquanto sacava sua faca para limpá-la e afiá-la, e começou a preparar os coelhos. Não ia deixar Frodo sozinho e dormindo nem por alguns minutos.
— Agora, Golum — disse ele. — Tenho um outro serviço para você. Vá encher essas panelas com água, e traga-as de volta.
— Sméagol vai buscar a água, vai sim — disse Golum. — Mas por que o hobbit quer essa água toda? Ele já bebeu, e já se lavou.
— Não se preocupe — disse Sam. — Se não puder adivinhar, logo vai descobrir. E quanto mais cedo trouxer a água, mais cedo saberá. Não estrague minhas panelas, ou vou fazer picadinho de você.
Enquanto Golum estava longe, Sam deu outra olhada em Frodo. Ele ainda dormia tranquilo, mas o que mais assustava Sam agora era a magreza de suas mãos e rosto.
— Está muito magro e abatido — murmurou ele. — Não é bom para um hobbit. Se eu conseguir cozinhar esses coelhos, vou acordá-lo.
Sam fez uma pilha com a samambaia mais seca, e depois subiu o barranco recolhendo um feixe de gravetos e pedaços de madeira; no topo um galho de cedro caído forneceu-lhe um bom suprimento. Cortou um pouco da turfa que estava ao pé do barranco, bem ao lado da moita de samambaia, fez um buraco raso e colocou nele seu combustível.
Como era hábil com pederneiras e isqueiro, ele logo tinha uma pequena fogueira queimando, que quase não produzia fumaça, mas exalava um odor aromático. Estava debruçado sobre a fogueira, protegendo-a e alimentando-a com lenha mais grossa, quando Golum retomou, carregando cuidadosamente as panelas e resmungando consigo mesmo.
Colocou as panelas no chão, e então de repente viu o que Sam estava fazendo.
Soltou um guincho agudo, e demonstrou ao mesmo tempo estar furioso e com medo.
— Ach! Sss – não! Não! Hobbits tolos, sim, tolos. Não devem fazer isso!
— Não devem fazer o quê? — perguntou Sam surpreso.
— Fazer as nojentass línguas vermelhas — chiou Golum. — Fogo, fogo! É perigoso, é sim. Queima, mata. E vai atrair inimigos, vai sim.
— Eu não acho — disse Sam. — Não vejo por que deveria, se não pusermos coisas molhadas nele para fazer uma fumaceira. Mas, se atrair, que atraia. Vou arriscar, de qualquer jeito. Vou cozinhar esses coelhos.
— Cozinhar os coelhos! — guinchou Golum frustrado. — Estragar a bela carne que Sméagol conseguiu para você, o pobre e faminto Sméagol! Para quê? Para quê, hobbit tolo? Eles são jovens, e são tenros, são gostosos. Coma ele s, coma eles! — Golum agarrou o coelho mais próximo, já sem a pele e ao lado do fogo.
— Espere aí! — disse Sam. — Cada um ao seu modo. Você engasga com nosso pão e eu engasgo com coelho cru. Se você me dá um coelho, o coelho é meu, veja bem, e eu posso cozinhá-lo, se quiser. E eu quero. Não precisa ficar me olhando. Vá pegar um outro e coma-o como quiser – em algum lugar escondido e fora de minha vista. Assim você não vê o fogo e eu não vejo você e nós dois ficamos mais felizes. Vou cuidar para que a fogueira não faça fumaça, se isso o consola.
Golum se retirou resmungando, e se afundou na samambaia. Sam se ocupou com suas panelas.
— O que um hobbit necessita para acompanhar um coelho — disse ele para si mesmo — são algumas ervas e raízes, especialmente batatas – para não falar de pão. Ervas podemos conseguir, ao que parece. Golum! — chamou ele em voz baixa. — A terceira vez é a que conta. Quero umas ervas. — A cabeça de Golum apareceu em meio à samambaia, mas sua expressão não era nem prestativa nem amigável. — Umas folhas de louro, um pouco de tomilho e sálvia vão bem – antes que a água ferva — disse Sam.
— Não — disse Golum. — Sméagol não está contente. E Sméagol não gosta de folhas cheirosas. Não come capim ou raízes, não, precioso, não até que esteja morrendo de fome, ou muito doente, pobre Sméagol.
— Sméagol vai se queimar de verdade quando esta água ferver, se não fizer o que estou pedindo — rosnou Sam. — Sam vai pôr a cabeça dele aqui, é sim, precioso. E eu o faria procurar nabos e cenouras e batatas também, se fosse a época do ano. Aposto que há todo tipo de coisas boas espalhadas por esta terra. Daria qualquer coisa por meia dúzia de batatas.
— Sméagol não vai, não vai não, precioso, não desta vez — chiou Golum. — Está com medo e está muito cansado, e esse hobbit não é bonzinho, nem um pouco bonzinho. Sméagol não vai cavar procurando raízes e cenouras e... batatas. Que são batatas, precioso, hein, que são batatas?
— Be a bá, te a tá – Batatas — disse Sam. — A delícia do Feitor, e um sustento excelente para uma barriga vazia. Mas você não vai achar nenhuma, então não precisa procurar. Mas seja o bom Sméagol e me traga as ervas, e vou pensar coisa melhor de você. Além do mais, se você virar a página, e a mantiver virada, vou cozinhar umas batatas para você um dia desses. Vou sim: peixe frito com batatas fritas, servidos por S. Gamgi. Você não conseguiria recusar uma coisa dessas.
— Sim, sim, nós conseguia. Estragando peixe bonzinho, queimando ele. Dê para mim um peixe agora, e fique com as malditass batatass fritass!
— É, você não tem conserto — disse Sam. — Vá dormir!
No fim ele teve de encontrar sozinho o que queria; mas não precisou ir muito longe, nem perder de vista o lugar em que seu mestre estava, ainda dormindo.
Por um tempo Sam ficou sentado meditando, cuidando do fogo até que a água fervesse. A luz do dia se intensificou, e o ar ficou quente; o orvalho desapareceu da turfa e das folhas. Logo os coelhos, aos pedaços, estavam cozinhando nas respectivas panelas com o maço de ervas. Sam quase dormiu enquanto o tempo passava. Deixou-os cozinhar por quase uma hora, testando-os de vez em quando com seu garfo, e experimentando o caldo.
Quando achou que estava tudo pronto, retirou as panelas do fogo e dirigiu-se até Frodo. Este entreabriu os olhos quando Sam se debruçou sobre ele e o despertou de seu sonho: outro suave, irrecuperável sonho de paz.
— Olá, Sam! — disse ele. — Não está descansando? Alguma coisa errada? Que horas são?
— Algumas horas depois do nascer do dia — disse Sam — e perto de oito e meia nos relógios do Condado, talvez. Mas não há nada errado. Embora isso não seja exatamente o que eu chamo de certo: sem caldo de carne, sem cebola, sem batatas. Tenho um pouco de cozido para o senhor, e um pouco de caldo, Sr. Frodo. Vão lhe fazer bem. Vai ter de beber em sua caneca, ou comer direto da panela, quando tiver esfriado um pouco. Não trouxe nenhuma tigela, nem qualquer coisa adequada.
Frodo bocejou e se espreguiçou.
— Você deveria ter descansado, Sam — disse ele. — E acender uma fogueira nestas partes foi perigoso. Mas eu realmente estou com fome. Hummm! Estou sentindo o cheiro daqui? O que você cozinhou?
— Um presente de Sméagol — disse Sam — um par de coelhos tenros; embora eu imagine que Sméagol esteja arrependido agora. Mas não há nada para acompanhá-los a não ser algumas ervas.
Sam e seu mestre sentaram-se bem no meio da moita de samambaia e comeram o cozido das panelas, dividindo o velho garfo e a colher. Permitiram-se meio pedaço do pão de viagem élfico para cada um. Parecia um banquete.
— Ei! Golum — chamou Sam assobiando baixinho. — Venha! Ainda é tempo de mudar de ideia. Sobrou um pouco, se você quiser experimentar coelho cozido.
Não houve resposta.
— Bem, acho que ele foi procurar alguma coisa para si mesmo. Nós damos conta disso — disse Sam.
— E então você deve dormir um pouco — disse Frodo.
— Não cochile na hora em que eu estiver dormindo, Sr. Frodo. Não me sinto muito seguro em relação a ele. Há um bocado do Fedegoso – o Golum mau, se o senhor me entende – nele ainda, e está se fortalecendo de novo. O que eu acho é que ele tentaria me esganar primeiro desta vez. Ele não me olha nos olhos, e não está satisfeito com Sam, não mesmo, precioso, nem um pouco satisfeito.
Terminaram de comer e Sam foi até o riacho enxaguar seu equipamento. Conforme se levantou para retornar, voltou-se e olhou a encosta. Nesse momento, viu o sol se erguer acima do vapor, ou névoa, ou sombra escura ou o que quer que fosse aquilo que sempre havia ao leste, e enviar seus raios dourados sobre as árvores e clareiras ao redor. Então percebeu uma espiral de fumaça azul acinzentada, perfeitamente visível contra a luz do sol, que subia de uma moita mais acima. Chocado, Sam percebeu que era a fumaça de sua pequena fogueira, que ele esquecera de apagar.
— Isso não vai dar certo! Nunca pensei que o fogo apareceria dessa maneira! — murmurou ele, e correu de volta.
De repente parou para escutar. Teria escutado um assobio ou não? Se fosse um assobio, não vinha de onde Frodo estava. Agora soava de novo de um outro lugar! Sam começou a subir a colina o mais rápido que pôde.
Descobriu que um pequeno tição, ainda aceso em sua extremidade externa, tinha queimado uma porção da samambaia na borda da fogueira, e que a samambaia acesa tinha queimado a turfa. Rapidamente pisou no que sobrara da fogueira, espalhou as cinzas, e cobriu o buraco com um pouco da turfa. Depois se esgueirou em direção a Frodo.
— O senhor ouviu um assobio, e o que parecia ser uma resposta? — perguntou ele. — Há alguns minutos. Espero que tenha sido apenas um pássaro, mas não é o que pareceu: tive a impressão de que era mais como alguém imitando o chamado de um pássaro. E receio que minha fogueirinha tenha feito muita fumaça. Agora, se eu fui arranjar problemas, nunca me perdoarei. Talvez nem tenha uma chance!
— Pssiu! — sussurrou Frodo. — Acho que ouvi vozes.
Os dois hobbits arrumaram as pequenas mochilas, aprontaram-nas para uma fuga, e então se afundaram mais na samambaia. Ficaram ali agachados, escutando. Não restava mais dúvida sobre as vozes. Falavam baixo e furtivamente, mas estavam próximas, e chegando mais perto. Então, de repente, uma falou claro, e ali perto.
— Aqui! É daqui que a fumaça veio! — disse a voz. — Está por perto. Na samambaia, sem dúvida. Vamos pegar essa coisa como um coelho numa armadilha. Então saberemos que tipo de criatura é essa.
— É, e também o que sabe! — disse uma segunda voz.
De uma só vez, quatro homens avançaram a passos largos através da samambaia, partindo de pontos diferentes. Já que era impossível fugir ou se esconder, Frodo e Sam pularam de pé, virando as costas um para o outro e puxando suas pequenas espadas. Se ficaram atônitos com o que viram, seus caçadores ficaram ainda mais. Quatro homens altos estavam ali. Dois seguravam lanças com pontas largas e brilhantes. Dois tinham grandes arcos, quase de sua própria altura, e grandes aljavas cheias de longas flechas adornadas com penas verdes. Todos levavam espadas, e estavam vestidos de verde e marrom de várias tonalidades, aparentemente para caminhar com mais facilidade sem serem notados nas clareiras de Ithilien. Luvas verdes cobriam-lhes as mãos, e os rostos estavam encapuzados e mascarados de verde, com exceção dos olhos, que eram muito penetrantes e brilhantes. Frodo pensou imediatamente em Boromir, pois esses homens eram semelhantes a ele em estatura e aparência, e no modo de falar.
— Não encontramos o que procurávamos — disse um deles. — Mas o que foi que encontramos?
— Não são orcs — disse um outro, soltando o cabo de sua espada, que estivera segurando desde que vira o brilho de Ferroada na mão de Frodo.
— Elfos? — disse um terceiro, indeciso.
— Não! Não são elfos — disse o quarto, o mais alto e aparentemente o chefe de todos. — Os elfos não andam em Ithilien nestes tempos. E os elfos são extremamente belos de se olhar, ou pelo menos é o que se diz.
— Quer dizer que nós não somos, se o entendo bem — disse Sam. — Muito agradecido. E, quando terminarem a discussão, talvez digam quem vocês são, e por que não podem deixar dois viajantes cansados em paz.
O alto homem verde riu com austeridade.
— Sou Faramir, Capitão de Gondor — disse ele. — Mas não há viajantes nesta terra: só os servidores da Torre Escura, ou da Branca.
— Mas não somos nem uma coisa nem outra — disse Frodo. — E somos viajantes, não importa o que o Capitão Faramir possa dizer.
— Então apressem-se em declarar seus nomes e sua missão — disse Faramir. — Temos trabalho a fazer, e não é lugar nem hora para enigmas ou conversas. Digam! Onde está o terceiro de seu grupo?
— O terceiro?
— Sim, o camarada esquivo que vimos com o nariz na poça lá embaixo. Tinha uma aparência desagradável. Alguma raça de orc espião, suponho eu, ou alguma criatura deles. Mas nos escapou usando algum truque de raposa.
— Não sei onde ele está — disse Frodo. — É apenas um companheiro casual que encontramos na estrada, e não sou responsável por ele. Se o encontrarem, poupem-no. Tragam-no ou enviem-no até nós. É apenas um vagabundo miserável, mas está sob meus cuidados temporariamente. Quanto a nós, somos hobbits do Condado, uma terra distante, ao norte e ao oeste, além de muitos rios. Frodo, filho de Drogo, é meu nome, e este é Samwise, filho de Hamfast, um hobbit valoroso aos meus serviços. Viemos por longos caminhos – de Valfenda, ou Imíadris, como dizem alguns. — Neste ponto, Faramir se assustou e ficou atento. — Tínhamos sete companheiros: um perdemos em Moria, os outros deixamos no Parth Galen, sobre Rauros; dois da minha raça; havia também um anão, e um elfo, e dois homens. Um deles era Aragorn, e o outro Boromir, que dizia ter vindo de Minas Tirith, uma cidade do sul.
— Boromir! — exclamaram todos os quatro homens.
— Boromir, filho do Senhor Denethor? — disse Faramir, e uma expressão estranha e austera cobriu-lhe o rosto. — Vieram com ele? Isso realmente é novidade, se for verdade. Saibam, pequenos forasteiros, que Boromir era um Alto Vigilante da Torre Branca, e nosso Capitão-geral: sentimos muito a falta dele. Então quem são vocês, e o que tinham a ver com ele? Sejam rápidos, o sol está subindo.
— Vocês conhecem as palavras-enigmas que Boromir levou a Valfenda? — replicou Frodo. — Procure a Espada que foi Quebrada. Em Imíadris ela está.
— As palavras são realmente conhecidas — disse Faramir atônito. — É sinal de sua sinceridade que vocês também as conheçam.
— Aragorn, que eu mencionei, é o portador da Espada que foi Quebrada — disse Frodo. — E nós somos os Pequenos de que a rima fala.
— Isso estou vendo — disse Faramir pensativo. — Ou percebo que deve ser assim. E o que é a Ruína de Isildur?
— Isso ainda não foi revelado — respondeu Frodo. — Sem dúvida será esclarecido no momento oportuno.
— Precisamos saber mais sobre isso — disse Faramir — e descobrir o que os traz tão longe no leste, sob a sombra daquele — ele apontou e não disse nome algum. — Mas não agora. Temos muito o que fazer. Vocês estão correndo perigo, e não teriam ido muito longe hoje, por campo ou estrada. Haverá duros golpes aqui perto antes que o dia avance muito. Depois morte, ou então uma fuga rápida para o Anduin. Vou deixar dois para vigiá-los, para o bem de vocês e meu também. Homens sábios não confiam em encontros casuais pela estrada nesta terra. Se eu retornar, conversarei mais com vocês.
— Até logo — disse Frodo, fazendo uma grande reverência. — Pensem o que quiserem, eu sou amigo de todos os inimigos do Um Inimigo. Iríamos com vocês se nós, Pequenos, pudéssemos ter esperança de ajudá-los, homens que parecem ser tão fortes e valorosos, e se minha missão o permitisse. Que a luz brilhe em suas espadas!
— Os Pequenos são um povo cortês, independentemente do que mais possam ser — disse Faramir. — Até logo!
Os hobbits sentaram-se de novo, mas não disseram nada um ao outro sobre seus pensamentos e dúvidas. Por perto, bem embaixo da sombra salpicada dos escuros loureiros, dois homens permaneceram de guarda. De vez em quando tiravam as máscaras para se refrescar, conforme o calor do dia aumentava, e Frodo viu que eram homens belos, de pele clara, cabelos escuros, com olhos cinzentos e rostos tristes e altivos.
Conversaram entre si em voz baixa, no início usando a Língua Geral, mas à maneira dos dias mais antigos, e depois mudando para uma outra língua própria deles. Para a sua surpresa, Frodo percebeu, conforme ouvia, que estavam falando a língua élfica, ou uma outra bastante semelhante, e olhou para eles admirado, pois soube então que deveriam ser dúnedain do sul, homens da linhagem dos Senhores do Ponente.
Depois de um tempo, Frodo lhes dirigiu a palavra, mas eles foram cautelosos e demoraram para responder. Disseram que seus nomes eram Mablung e Damrod, soldados de Gondor, e que eram Guardiães de Ithilien; descendiam de povos que viveram em Ithilien numa outra época, antes que aquela região fosse assolada. Dentre esses homens, o Senhor Denethor escolhia seus batedores, que atravessavam o Anduin em segredo (como e onde, eles não estavam dispostos a dizer) para perseguir os orcs e outros inimigos que perambulavam entre os Ephel Dúath e o Rio.
— São cerca de dez léguas daqui até a praia oriental do Anduin — disse Mablung — raramente chegamos tão longe. Mas temos uma nova missão nesta jornada: viemos preparar uma emboscada para os homens de Harad. Malditos sejam!
— E, malditos sejam os sulistas! — disse Damrod. — Comenta-se que havia transações antigamente entre Gondor e os reinos de Harad do extremo sul, embora nunca tenha existido amizade. Naqueles dias, nossas fronteiras ficavam lá no sul, além da foz do Anduin, e Umbar, o mais próximo dos reinos deles, reconhecia nosso poder. Mas muito tempo se passou. Já faz muitas vidas de homem que um sulista passou, indo ou vindo, entre nós. Ultimamente soubemos que o Inimigo esteve entre eles, que passaram para o lado d’Ele, ou retornaram a Ele – estavam sempre à sua disposição – como também fizeram tantos outros no leste. Não duvido que os dias de Gondor estejam chegando ao fim, e que as muralhas de Minas Tirith estejam condenadas, tão grandes são sua malícia e força.
— Mesmo assim, não vamos ficar de braços cruzados e deixar que Ele faça tudo como desejar — disse Mablung. — Esses malditos sulistas vêm agora marchando pelas estradas antigas para aumentar os exércitos da Torre Escura. Sim, pelas mesmas estradas que o trabalho de Gondor construiu. E cada vez avançam com menos cautela, pensando que o poder de seu novo senhor é grande o suficiente, de modo que a mera sombra de suas colinas irá protegê-los. Viemos para lhes ensinar uma outra lição. Foi-nos reportado há alguns dias que uma grande força deles agora marcha para o norte. Pelos nossos cálculos, um dos regimentos deve passar por volta do meio-dia – na estrada lá em cima, no ponto onde ela atravessa uma fenda. A estrada pode atravessar, mas eles não! Não enquanto Faramir for Capitão. Agora ele lidera em todas as ocasiões perigosas. Mas sua vida tem algum encantamento, ou o destino o poupa para algum outro fim.
A conversa foi morrendo num silêncio de escuta. Todos pareciam quietos e vigilantes. Sam, agachado na borda da moita de samambaia, espiava para fora. Com seus olhos penetrantes de hobbit, viu que muitos outros homens estavam por perto. Podia vê-los subindo secretamente as colinas, isolados ou em longas filas, sempre se mantendo na sombra de bosques ou maciços de árvores, ou se arrastando, quase invisíveis em suas vestes verdes e marrons, através de relva e mato. Todos estavam encapuzados e mascarados, com luvas nas mãos, e armados como Faramir e seus companheiros. Em breve todos tinham passado e desaparecido. O sol subiu até se aproximar do sul. As sombras diminuíram.
“Fico pensando onde estará o infame do Golum”, pensou Sam, conforme se escondia numa sombra mais profunda. “É bem provável que tenha sido espetado, tomado por orc, ou torrado pelo Cara Amarela. Mas acho que ele vai se cuidar.”
Deitou-se ao lado de Frodo e começou a cochilar.
Acordou, com a impressão de ter ouvido trombetas. Sentou-se. O sol já estava alto. Os guardas permaneciam em estado de alerta e tensos sob as sombras das árvores. De repente as trombetas soaram mais fortes e audíveis lá em cima, sobre o topo da encosta. Sam teve a impressão de ouvir gritos e berros alucinados também, mas o som era fraco, como se viesse de alguma caverna distante.
Então, subitamente, rompeu bem próximo o som de guerra, bem acima do esconderijo deles. Podia ouvir claramente o rilhar de aço sobre aço, o clangor de espadas em toucas de malha de ferro, a batida surda das espadas nos escudos; homens berravam e gritavam, e uma voz clara e alta clamava Gondor! Gondor!
— Isso soa como uma centena de ferreiros trabalhando todos ao mesmo tempo — disse Sam a Frodo. — Agora estão tão próximos quanto eu queria.
Mas o ruído se aproximou mais.
— Eles estão vindo! — gritou Damrod.
— Vejam! Alguns sulistas escaparam da armadilha e estão fugindo da estrada. Lá vão eles! Nossos homens atrás, e o Capitão liderando.
Sam, aflito para ver mais, foi juntar-se aos guardas. Subiu um pouco num dos loureiros maiores. Por um instante viu, de relance e a alguma distância, homens morenos de vermelho descendo a encosta, e guerreiros vestidos de verde aos saltos atrás deles, derrubando-os enquanto fugiam. Flechas enchiam o ar. Então, de repente, pela borda do barranco onde estavam escondidos, um homem caiu, batendo contra as árvores esguias, quase em cima deles. Foi parar na samambaia a pouca distância deles, o rosto para baixo, com flechas adornadas com penas verdes enfiadas em seu pescoço, sob um colarinho de ouro. Suas vestes vermelhas estavam rasgadas, seu corselete de placas de bronze justapostas estava partido e despedaçado, suas tranças negras adornadas com ouro ensanguentadas. A mão morena ainda agarrava o punho de uma espada quebrada.
Era a primeira vez que Sam via uma batalha de homens contra homens, e não estava gostando muito do espetáculo. Ficou feliz por não conseguir ver o rosto morto. Perguntava-se qual seria o nome do homem e de onde teria vindo, e se realmente tinha o coração mau, ou que mentiras ou ameaças o teriam conduzido na longa marcha desde seu lar, e se realmente não teria preferido ficar lá em paz – tudo num lampejo de pensamento que logo foi afastado de sua mente. Pois, no mesmo momento em que Mablung ia em direção ao corpo caído, ouviu-se outro barulho. Grande gritaria. Em meio a ela Sam ouviu o ruído de rugidos ou trombetas. E depois um grande baque de batidas e golpes surdos, como enormes aríetes estrondeando no chão.
— Cuidado! Cuidado! — gritou Damrod aos seus companheiros. — Que os Valar consigam desviá-lo! Múmak! Múmak!
Para seu assombro, terror e enorme prazer, Sam viu um vulto enorme romper dentre as árvores e vir descendo a encosta. Grande como uma casa, muito maior que uma casa, pareceu-lhe, uma colina móvel revestida de cinza. O medo e a surpresa talvez tenham aumentado seu tamanho aos olhos do hobbit, mas o Múmak de Harad era realmente um animal enorme, e como aquele não há mais hoje em dia na Terra Média; seu parente que ainda vive nos últimos tempos é apenas uma lembrança de seu tamanho e majestade. Veio avançando, direto para os vigias, e então desviou no momento exato, passando a apenas alguns metros, fazendo tremer o chão sob seus pés: as grandes pernas como árvores, enormes orelhas semelhantes a velas abertas, a longa tromba erguida como uma enorme serpente pronta para atacar, os pequenos olhos vermelhos coléricos. Suas presas levantadas semelhantes a chifres estavam fixadas com bandas de ouro e pingavam sangue. Os arreios ricamente enfeitados de vermelho e dourado pendiam em farrapos soltos. Os escombros do que parecia ter sido uma verdadeira torre de guerra jaziam sobre seu lombo ofegante, destroçados em sua passagem furiosa através do bosque; e em cima de seu pescoço ainda se pendurava desesperadamente um pequeno vulto — o corpo de um guerreiro poderoso, um gigante entre os Morenos.
O grande animal avançava retumbando, cambaleando numa ira cega através de poças e moitas. Flechas inofensivas batiam e ricocheteavam na pele grossa de seus flancos. Homens dos dois lados corriam fugindo dele, mas vários ele alcançou e esmagou contra o chão. Logo sumiu de vista, ainda trombeteando e estremecendo o solo em algum ponto distante. O que aconteceu com ele Sam nunca soube: se escapou para perambular no ermo por um tempo, até que perecesse longe de sua casa ou ficasse preso em algum poço fundo; ou ainda se continuou até mergulhar no Grande Rio e ser engolido pelas águas.
Sam respirou fundo.
— Era um Olifante! — disse ele. — Então existem Olifantes, e eu vi um. Que vida! Mas ninguém lá em casa vai acreditar em mim. Bem, se tudo acabou, vou dormir um pouco.
— Durma enquanto puder — disse Mablung. — Mas o Capitão retornará se não estiver ferido, e quando chegar deveremos partir depressa. Seremos perseguidos assim que as notícias de nosso feito chegarem ao Inimigo, e não vai demorar muito.
— Partam em silêncio quando for a hora! — disse Sam. — Não há necessidade de perturbarem meu sono. Caminhei a noite toda.
Mablung riu.
— Não acho que o Capitão vá deixá-los aqui, Mestre Samwise — disse ele. — Mas isso vocês verão!

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